2010-09-21

Os gostos discutem-se

aqui

A piada é que um certo tipo de gajedo não percebe que a norma nem sempre é apetecível. E é por isso que desatam a simplificar com base nos próprios gostos, esquecendo que é mesmo verdade que há gostos para tudo. Até gajos que, não gostando de se encostar a ossos e acordar com uma negra pela manhã, preferem em qualquer dia navegar e adormecer entre as carnes fartas das não tão magras-padrão. Como há mulheres que gostam de homens que fogem ao padrão bonitinho, betinho, aperaltadinho, ginasticadozinho. E há, especialmente, quem goste de alguém e tenha vontade de foder alguém bem mais do que pela aparência, tirando se for só isso que conseguem e lhes dá gozo. É que foder um corpo sem chegar aos neurónios nunca chega para quem tem mais do que um Tico e um Teco eunucos. E o sentido de humor, a bonomia, a inteligência e a capacidade de integração no grupo - em lugar das galinhices à cata de evidência e poleiro - podem ser profundamente sexys. No fim, são as que se acham melhores que acabam pior fodidas, mais amargas, mais insatisfeitas. As outras, as não tão perfeitas, acabam com a vida organizada e um ar de contentamento, sem se resumirem em dietas ou numa colecção de homens tipo cromo. As que nunca pedem demais, ficam com a vida real e aproveitam o que de melhor lhe conseguem sacar, com amigos de ambos os sexos em lugar de troféus para mostrar ao vizinho e, espanto!, até com maridos (namorados, homens, amantes, companheiros…) que lhes são fiéis e adormecem todos os dias, anos a fio, agarradinhos a corpos quentes e rechonchudos com as cabecinhas, contentinhas, aninhadas em mamas a sério e em tamanho xl. E elas vão-lhes afagando as barriguinhas ou as carecas.

10 comentários:

Paulo Abreu e Lima disse...

(Um aparte: post tesudo, hein...?)

Já dizia um amigo meu mais velho: quem tem muito também tem pouco, mas quem tem pouco já dificilmente terá muito... :P

Hipatia disse...

Tesudo? Ora!

:D

(não é ter muito ou pouco, Paulo: é a incapacidade para o contentamento e as palas burras em que afunilam a visão do mundo)

Paulo Abreu e Lima disse...

Vou-te confessar em primeira mão (ahahah) uma coisa: há um anos atrás era um escravo do ginásio, da comida saudável, da roupinha laroca. Passado um ano, tenho barriguinha, como quase tudo e só visto o que me faz sentir confortável (ah, e comecei a perder cabelo): olha, nunca me senti tão bem e charmoso (eheheh), dizem. Na verdade, e tendo o mínimo de cuidado com a saúde, nunca me senti tão Eu.

Hipatia disse...

E não estás mais feliz? Não encontraste uma certa medida de contentamento só possível por teres posto de lado um tipo de escravatura? E a forma como passaste a olhar para os outros, os que permanecem escravos, os que só vestem o conforto, não passou a ser diferente também? Há algo que vem de dentro, uma certa inteireza, que não pode estar limitada a visões a preto e branco de feios/bonitos, gordos/magros, populares/impopulares, risonhos/melancólicos e etc, etc. Todos somos (quase) tudo em algum momento.

(E só é quase tudo porque eu nunca fui feia, obviamente :P)

Paulo Abreu e Lima disse...

(Em primeira mão: fui sempre demasiadamente bonito; hoje não sou feio. Mas nada disto teve a ver com escravidão, só com a Natureza, ou a "inteireza", como dizes. Acho que só se pode dizer que se é muito bonito depois de o ter sido, porque se ainda o fosse, soava demasiadamente mal... ;) )

Hipatia disse...

(Mas eu usei a versão diplomática do "não sou feia", até porque voltamos aos gostos, não é? Dou-te um exemplo: a maioria das pessoas acha que eu tenho olhos bonitos; a miga sempre me disse que os meus olhos são feios, porque "não lhes consegue ver o fundo". E ficamos assim, sempre, agradando e desagradando em partes iguais, porque não é preciso, nem suposto, entrarmos num qualquer figurino padrão)

I. disse...

Adorei. Sabes, ele é ele, e eu havia de o gostar fosse qual fosse a embalagem com que se apresentasse. Havia de o reconhecer e saber sempre. Porque a vida é assim mesmo, e não há lista de pré-requisitos que se compare ao abrir o coração ao que é real.

Hipatia disse...

Não há mesmo: leva-se o pacote inteiro, com defeitos de fabrico e garantia limitada e nem se pensa suas vezes. Mas não é isso que impede rótulos estúpidos, ou asneiras piores ainda, sobre o que podem ou não fazer as pessoas em função do tamanho de roupa que vestem, ou as pessoas que com elas se cruzam. Mas esperar que a ideia de que a imagem é supérflua passe até ao centro de certas cabecinhas publicadoras de crónicas seria esperar de mais, não é?

Hórus disse...

Queria tê-la conhecido em Alexandria. Assim não estaria tão atrasado.

Hipatia disse...

Mas em Alexandria eu estaria aos pés de Bast e talvez continuássemos perdidos :D