2014-04-25

As portas que Abril abriu

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Talvez os símbolos não sejam pertença nem da direita nem da esquerda e enfeuda-los a este ou aquele pequeno grupo seja apenas mais uma forma de alienar todos quantos não assentaram arraiais partidários. É que os cravos (ainda) são nossos: pela liberdade e democracia que, naquele dia, renasceu; pela liberdade e pela democracia que, depois, sobreviveu ao verão; e, muito especialmente, porque é simplesmente belo imaginar um golpe de estado, depois revolução, em que do lado da revolta o único vermelho era o dos cravos nas espingardas e, não fosse o Carmo, a revolução tinha-se cumprido sem sangue. Depois o sangue acabou por correr, como corre sempre quando há interesses em conflito e o País precisou dizer não à ditadura que se anunciava para substituir a ditadura que partia. Mas em Abril foram cravos rubros de sangue. Afinal, o imaginário é assim que se constrói e hoje é também pelo futuro mirrado, pelo futuro do meu sobrinho que há-de saber como realmente reza a história porque, felizmente, ao contrário da tia, dos pais e dos avós, nasceu em liberdade, uma liberdade que chegou num cravo vermelho-sangue a enfeitar um fuzile.

Qual é a cor da liberdade?



Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.
Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.
Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.
Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.
Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.
Qual a cor da liberdade? 

Jorge de Sena - Cntiga de Abril

2014-04-20

40 anos depois












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No FB andam a denunciar fotografias do 24/04/1974 como "violência gráfica". Há algo de profundamente repulsivo na ideia de que, tantos anos depois, ainda há quem não tenha interiorizado a liberdade de expressão e continue na velha senda da censura. Ao mesmo tempo e por mais que me custe, sei que também para estes neo qualquer coisa foi feito aquele dia. Podem denunciar tudo o que quiserem: eu reservo-me a liberdade de os denunciar a eles, sem esquecer que a liberdade é de todos e para todos, sem importar cor, credo ou ideologia, mesmo que, quarenta anos depois, me repulsem alguns subprodutos.

Aproveito, no entanto, para trazer para aqui um outro apelo. Para que não apaguem a memória. Para que esta não se perca. Mesmo e especialmente quando, quarenta anos depois, pretendem associar violência às imagens de um golpe de estado que virou uma revolução quando os cravos foram enfeitar os fuzis. É que a violência, naquele dia, estava entrincheirada e medrosa, não nas ruas.


2014-04-17

RIP Gabriel Garcia Marquez



"Não importa o quê, mas ninguém pode tirar-te as danças que já tiveste"

in Memória das Minhas Putas Tristes

2014-04-16

Dia da voz

«Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.»

António Ramos Rosa

Há em mim um esforço cansado para encontrar na magia de outros a minha voz. Tenho a imaginação a tingir-se de rouquidão e a voz a apagar-se. Estou cansada de mim. Estou cansada de quantos, antes de mim, me roubaram o meu lugar no espaço e no tempo. 

Estou em rota de colisão contra quem me rouba os mitos e os sonhos, quem teoriza a minha sem importância no mundo, no meu mundo. 

Dedilho acordes de memórias banais. Não tenho história. Não tenho reino. O meu Universo é um tecto baixo e as estrelas vão fugindo. E, em dias assim, muito mais do em tantos dos anos em que tive diariamente a voz em fuga, estou muda.

2014-04-11

"Com esta da austeridade, meu senhor nem sequer dá para ir desta pra melhor"



 «Cá se vai andando
c'o a cabeça entre as orelhas»

Obrigatório ler em Abril!

«Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.(...) 

Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido. 

E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este Presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.(...) 

Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do Governo do seu partido.(...)» 

Alexandra Lucas Coelho - "O meu país não é deste Presidente, nem deste Governo"

É só seguir o link no nome do artigo de opinião.

2014-04-09

Antes e depois do adeus



Em Santa Comba Dão engessaram-me uma vez um pé. E não ficou particularmente bem engessado. Adiante! Porque é mesmo adiante, que ninguém se lembra que existe aquela terra nos dias normais e duvido que alguém sequer se dê ao trabalho de lá ir ver o largo que há uns anos resolveram baptizar de "Salazar". Ficaram para o engravatadinho lá do sítio os seus 15 minutos de fama à conta da polémica que gerou por ter plantando a lápide (lápide até que está giro; lembra-me que o velho das botas está morto e enterrado) a 25/04 no meio de porco assado e música pimba. É que o engravatadinho só o fez porque o velho Salazar já não existe (e como a terra deve estar-lhe a ser bem pesada, quando até já virou estrela de soft-porn nacional! Isso e a lápide em cima). É só mais um largo a que ninguém vai dar importância, como tantos outros largos com tantos outros nomes a que não se dá importância alguma. O que importa é que o velho regime morreu há 4 décadas. E hoje temos engravatadinhos. E esses engravatadinhos é que são os tais que só querem 15 minutos – e nunca terão quase meio século – porque não passam disso mesmo: o que sobrou de uma política que perdeu há muito a utopia e apenas serve para gerir os interesses da classe. E dos engravatadinhos.

2014-04-08

2014-04-07