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O início de Maio costuma ser sempre um período fdp para mim. Mais por hábito que outra coisa qualquer, canso-me de mim mesma, agonizo em ritmos repetidos e faço balanços. Por costume, não me agrada o resultado e entro num buraco de autocomiseração insuportavelmente mofado e datado.
Estafa-me sempre o tanto que comprometi a vontade a esta coisa de crescer e ter responsabilidades, enquanto alinho todos os objectivos que não atingi, subtraio todas as encruzilhadas e acrescento novos caminhos. Depois de mais uma contabilidade, sinto-me quase sempre demasiado velha, demasiado cansada, demasiado gasta.
Com o seguir do mês, deixo que a Primavera me invada e tomo fôlego para o tanto de cansaço que se avizinha, quando ao serviço dobrado ainda acrescento as férias dos outros e, no rescaldo, sobra sempre muito pouco tempo para o lamber das feridas.
De seguida, já de gatas, tacteio o resto do caminho até três semanas de férias porem em ordem as prioridades. Mas Maio é fdp mesmo! Fica a meio do caminho, é um nim que não gosto, este ver o tempo a esquentar e os dias a crescerem e eu fechada, com horário prolongado para bem além do que seria meu, com pilhas e pilhas de papéis amontoados e a sem vontade do costume para limpar toda a tralha, como nunca fui capaz de limpar a tralha que acarto na memória.
Seria um bom período para entrelaçar letras e ordenar palavras e espalhá-las por aqui e por casas amigas. E, no entanto, este ano as coisas não me correm como previsto, ou sou só eu que, finalmente, inverti a tendência de mais de uma década.
Na verdade, não me apetece ter pena de mim, nem fazer a contabilidade. Ou estar fechada em frente a um computador a inventar vida e Primavera, ou a recontar a vida e a Primavera. Apetecem-me as esplanadas ao fim da tarde, o chilrear dos pássaros ao vivo, as conversas dos outros apanhadas à socapa, a vida em directo.
Apetece-me um corte, um que não suture demasiado depressa, um que infecte até. Poderia inclusive ser dolorido e, de permeio, injectar vida nova em mim. Fazer uma cicatriz pequenina, marcar mais uma linha, estabelecer a fronteira entre o ontem e o hoje.
Estou com vontade de arejar tudo, de expurgar o acessório. Estou com vontade de quebrar rotinas e vícios. E a Voz vai pagando. Porque tem sido ao longo deste tempo todo um Norte, mas é um ponto cardeal estafado de rotinas e vícios. Um deles serão os tantos de cigarros que acendo para queimarem entre os dedos enquanto tento escrever seja o que for. E, se quero diminuir os cigarros, o ritmo de escrita terá de abrandar também. Uma concessão necessária, uma quase obrigação.
Não é ainda um fim. Sou demasiado teimosa. É só mesmo um espaço que preciso. Reduzo, por isso, a(s) dependência(s), mesmo consciente de que sem o vício de escrever não sei existir.













































