2008-01-16

Caligrafia



Os meus dedos tacteiam o teu corpo como penas, desenhando no cálido da tua pele os caracteres com que te dedilho a suor e desejo. Escrevo-me em ti. Obcecada. Cabeceio nos teus braços. Como-te com os olhos, com os lábios, com a língua, com os meus dedos que ainda te escrevem, se tatuam na tua pele, depenam-te de mansinho os pêlos que se irisam por entre as minhas impressões digitais, agora letras. Letras vermelhas. Ou então cor de fogo, não fosse esta febre, esta quase loucura, que me sorve, sorvendo-te até não sobrar nada. Ou até começar um novo exercício de caligrafia…



(este post andava perdido por outros espaços; agora está onde faz sentido)

A Cachupa



Conto em Crioulo de Cabo Verde, contado por Miguel Horta.


(tenho saudades de ver os teus textos - e os teus desenhos - aqui na Voz, Gaivina)

2008-01-15

Abundância


Rubens

A nossa sociedade da abundância deixou de saber comer. Isso parece-me evidente. E temos em oposição padrões de beleza escanzelados, quando a norma é o excesso de peso, da mesma maneira que há uns séculos atrás, quando a norma eram os esfaimados, os pintores retratavam madonnas roliças. A gordura não é formosura. E é demasiado perigosa para não ser levada a sério. Mas, no extremo oposto, ver modelos a morrerem esfaimadas porque a moda lhes diz que assim é que são bonitas também não me parece saudável. É todo um mundo de excessos: vai de um lado ao outro da escala e parecem-me ser as duas faces de uma mesma moeda de desordens alimentares e desequilíbrios profundos que só fazem sentido numa sociedade que tem demais.



aqui

Elos


Amapola - Sergio Padura




Há certos laços que me recuso a perder. Mesmo quando os nós se esfiapam por entre o tempo que passa e as novas que não chegam. Como o laço que quero ainda preso ao menino da voz bonita, de que tenho tantas – mas mesmo tantas! – saudades.

Parabéns, PN!

2008-01-12

Loirices




Está um loiro na televisão que faz umas covinhas lindas na bochecha quando se ri. Decididamente, o filme é uma treta. Mas aquele sorriso não me deixa mudar de canal.



(estou tão farta de estar fechada em casa!)

2008-01-11

6 anos

(Clicar para assinar.)




They haven't departed.
They haven't gone home.
The trials haven't started.
No evidence shown.
They don't get no visits.

They don't get no calls,
and nobody tells them nothing at all.

The headphones and the blindfolds,
the days and the weeks.
The overalls of orange,
the manacled feet.
A Kafka-esque nightmare.
A legal black hole.
A corner of Cuba
named Guantanamo.

The warmongers tell us
they gave up their rights
when they attacked us
and our way of life.
Oh but our way of life
depends on the law.
On liberty and freedom
and justice for all.

Well they talk about justice in the US of A.
It's the land of the free and the home of the brave.
Yeah, but outside of America anything goes.
From Bagram to Abu Ghraib
to Guantanamo.

In 70's Ulster the government thought
if they locked up the suspects
the terror would stop.
But all that internment actually did
was provide the Provos
with more angry kids.

Oh but sometimes I wonder if our leaders really care?
They rely on these demons to keep people scared.
And unwilling to question the fate of those poor souls
who lie rotting in the cages of Guantanamo

Try them or let then go.
You gotta try them or let them go.

The Divine Comedy - Guantanamo


As roupas mudaram de tom, as fotografias agora são a cores… Mas um campo de concentração não deixa de o ser só porque a cosmética é diferente.



(o banner para a petição da A.I. encontrei aqui)

Cingel II

.
(…) and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.

Abraham Lincoln, The Gettysburg Address


É nosso direito protestar contra esta democracia franzina e raquítica, mas apenas enquanto exercermos os nossos deveres de cidadãos. E para o fazermos não precisamos apelar à velha lógica dos bufos de antigamente, agora com direito a sítio para queixinhas electrónicas ou chamadas para a polícia à conta de cigarros.

É exigir que todas as leis sejam sempre cumpridas, que nenhum crime prescreva, que todos recebem assistência quando em necessidade, que todos são iguais, não importando sexo, cor ou credo. É exigir que as contas públicas sejam tornadas públicas, que os dossiers não se escondem nas gavetas, que ex-ministros não fotocopiem segredos de gabinete. É esperar que as promessas eleitorais sejam cumpridas ou esperar que seja muito bem explicada a conjuntura que alterou a rota. É saber que o último dinheiro que a UE vai enviar para esta choldra não é usado ao desbarato em empreendimentos de fachada, estranhamente próximos do sítio do costume e deixando para o interior as estradas feitas à pressa e mal amanhadas, onde todos os dias morre gente. É pedir e ter explicações sobre a prostituição instituída entre política e capital e ver os caciques que se acham acima da lei a não poderem valer-se da lei para não prestarem contas dos seus mandos e desmandos. É não continuarmos a ler sobre grandes negociatas e conseguirmos seguir a árvore genealógica do poleiro. É ver a máquina fiscal a funcionar sem medo quando se aproxima dos grandes capangas. É saber que teias e redes de tráfego de influências são desmanteladas e que os políticos são penalizados por negociarem "jobs" para os seus "boys" já sem vergonha na cara. É saber quem paga a quem e que fazedores de opinião estão na lista de ordenados de quem.

E é, depois de ver isto tudo, exigir que alguém responda, nem que para isso seja necessário impor uma mudança que nos faculte o acesso directo a quem senta o cu na A.R. a dizer que nos representa, para haver um nome e uma cara, em vez de apenas uma grande manada indistinta.

Não podemos continuar a ser um povinho miserabilista que só sabe chorar-se. Em sociedade, todos os direitos implicam iguais deveres. Até o dever de não esquecer que, mesmo quando os politiqueiros de profissão acham que podem mandar e desmandar, ainda há o direito do povo de dizer basta. E um dia destes, se o povo parar de apenas queixar-se, talvez baste de vez.

Resident Evil


aqui

É no deserto! Já disse que é no deserto e acabou a conversa!

2008-01-10

Que amiguinha!






Uma amiga ofereceu-me isto via Hi5. Como passei a passagem de ano com ela e ela me ouviu tentar cantar no Karaoke, não me espanto nada :)))

2008-01-09

Parafraseando




Olha-me e entra pelos meus olhos. Diz-me que não te atemoriza a densidade do negrume nem te espantam súbitas explosões de luz. Que as nuvens e a brisa te são próximos. Que ancoraste a alma, e prossegues mesmo quando sopram dos vendavais.

Olha-me e revê a tua imagem. E diz-me que fincas os pés no chão, entre malhas de relva molhada, e resistes ao desalento e à incerteza. Que a terra te passa a força dos abetos e estás certo de que se pode ir mais, muito mais além.

Olha-me e mergulha além das lágrimas. Diz-me que te aguentas em mares revoltosos e não soçobras na lisura de lagos. E diz-me que não temes fantasmas nem assombros, que não recuas nos pântanos nem te escondes sob o quotidiano.

Olha-me de soslaio e vira o rosto devagar. Como quem se assegura do que vê. E diz-me que as labaredas te envolvem sem dano, que o calor te assalta e arrebata. Que procuras insólitas não desalentam nem desincendeiam.

Olha-me de frente e fecha os olhos. Diz-me que me continuas a ver. Ou melhor, não digas nada e abraça-me devagar como quem desliza para si, fundindo todos os elementos.

Viajante - Olha-me

A Viajante tem sempre uma forma de poisar o olhar nas minhas palavras que me deixa perplexa. E orgulhosa. Hoje olhou para o "vem..." e viu assim. Não está um espanto?

A malinha roxa

aqui




Quer dizer que se fosse vermelha já podia ser?

Cingel


aqui

À conta de não haver referendo ao Tratado de Lisboa já li dos maiores absurdos que alguém pode proferir. Chega-se ao ponto de, para fabricar um ponto de vista, se provar que se tem memória de galinha quando se queria mostrar memória de elefante. E a resposta à perguntinha de se teria havido maioria para o PS se o programa de Governo não prometesse o referendo ao novo tratado, é sim: ninguém queria saber do novo tratado naquela altura, nem sequer se seria referendado. O pessoal queria era livrar-se de Santana Lopes e de Paulo Portas o mais rapidamente possível. E, por mais que custe a tanta gente que Jorge Sampaio tenha acabado com aquele governozinho de anedota que nem sequer tinha ido a votos, o certo é que a maioria para o PS veio menos da competência e das promessas apregoadas do que do fartos e enojados que todos andávamos com os desvarios da coligação PSD-CDS. Custa? Ah pois custa! E ainda deve custar mais o medo com que se fica por um José Sócrates mentiroso poder permanecer no poleiro. Mais uma vez, não tanto pela competência, muito mais pelo desnorte e inépcia das alternativas.

Querido dia de anos



Parece que há uma versão nova comemorativa dos vinte e cinco anos. E eu que até faço vinte e cinco anos (mais os outros todos que agora não vêm para o caso) estou aqui de bracinhos abertos à espera. Não me falhes, dia de anos! É em Março, lembras-te?

2008-01-08

Vem...


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Wash my face in fields of green
Take me to the stars for free
Point me to the high wire call
Wake me true and wake me all


Olha-me bem nos olhos e diz-me que me vês ainda. Diz-me que mergulhas no verde como se o verde dos campos na Primavera aquecesse este frio cinzento do Inverno que se arrasta. E leva-me para o quente castanho dos teus olhos. Deixa-me que te veja ainda, pintado das cores do Verão que se arrasta nos ocres perfumados. Vem aquecer-me e deixa que o meu calor te percorra. Amarra o teu peito ao meu e leva-me para as estrelas. Leva o frio. Leva-o! Estou dormente, enrodilhada. Alisa-me o corpo e fá-lo esquecer que é Inverno. Acorda-me! Leva-me às estrelas e acorda-me toda, por toda, para além das bordas frias do meu corpo de Inverno frio e dormente. Lava-me as lágrimas que escorrem de prados verdes. Deixa que o estio lhes ensine o calor dos castanhos com que me vês. E voemos juntos, para onde nem as cores importam: veludo negro que nos envolva, num casulo de calor. Se me indicares o caminho, sigo-te até ao Paraíso. Ou levo-te comigo. Vamos?

2008-01-06

Gueto

As coisas podem nunca parecer o que elas são
E é por isso que tu vais engolindo toda a droga que te dão
E se um dia fazes ondas de mais, tiram-te a ração...
A bem da nossa civilização

Jorge Palma – A Bem Da Nossa Civilização



JPT não se indigna contra a nova Lei do Tabaco; nem sequer questiona a validade de vários pontos da lei. Não é sequer essa a questão que incomoda JPT. Nem a mim. Parece-me legítimo que o meu fumo não incomode a liberdade dos outros de não fumarem. Sempre me pareceu legítimo, aliás, que espaços fechados estivessem equipados com mecanismos que evitassem a concentração de fumo. Quantos de nós, por exemplo, já não acordaram na manhã seguinte a uma noite de copos enojados com o cheiro que se desprende dos cabelos e da roupa, prontinha para ir lavar?

Mas, se a liberdade dos não fumadores foi cerceada durante demasiado tempo, temos agora o oposto e são os fumadores que perderam quase toda a liberdade. Os absurdos desta lei mais papista do que o Papa são evidentes, desde as prisões onde se pode continuar a meter veneno para a veia, mas não um bocado de fumo para os pulmões. Aliás, nem sei bem o que me parece esse absurdo: eu recusei sempre o uso das drogas ditas duras, mas nunca vi mal algum em se fazer um muito agradável charro. E os charros sempre os fiz e vi fazer misturados com tabaco. E em forma de cigarro. Será que se podem fumar charros nas salas de chuto?

Nunca questionei que, quando me metia num avião, os cigarros deviam estar no fundo da mala e que era suposto aguentar-me sem eles até ao fim da viagem. Nos comboios, mesmo quando o Alfa ainda nos dava uma carruagem para fumadores, sempre optei por um lugar numa das outras. E aguentei as viagens. Como não fumo nos táxis, nos autocarros, nos metros, nos carros de não fumadores, nos hospitais, nas clínicas, nos tribunais… Não é fácil, mas aguenta-se. Sempre se aguentou.

Os restaurantes e os cafés sempre foram sítios onde fumei. Aliás, como muitos, tive sempre o vício de juntar ao vício do cigarro, o vício dos cafés e o das conversas. E ficar sem esses espaços vai custar-me mas, mais uma vez, aguenta-se. E até se entende: não havendo mecanismos para exaustão do fumo, era eu que cerceava a liberdade dos outros e até a saúde dos outros.

As discotecas e os bares, por outro lado, já me parecem sítios mais estranhos: tirando aqueles que criaram espaços para fumadores, nos outros todos poderemos continuar a ver putos cada vez mais novos a chegarem ao coma alcoólico ou a meterem pastilhas atrás de pastilhas, desde que não caiam no pecado de acender um cigarrinho. Lei estranha…

Mas o que me revolta mesmo é o facto de todos os fumadores, que vão continuar a suportar o Estado com os impostos absurdos que caem sobre os cigarros – e não vejo ninguém a tentar proibir de vez a venda do tabaco, que acabava a galinha dos ovos de ouro fiscal – sejam remetidos para guetos. Ou então pura e simplesmente esquecidos. Como nos aeroportos. Sim, que entre o check-in e a viagem propriamente dita, mais o desembarque e a espera pelas malas ou os atrasos sistemáticos nos voos e nas ligações, ninguém se lembrou da porcaria de uma sala para fumadores. E, convenhamos, se a lei é para cercear a liberdade de todos os que são viciados em tabaco, então que o diga claramente. Se é para proteger apenas os outros, que não faça de conta que os que fumam não existem e não merecem ter espaço(s).

Já agora, se queremos copiar os exemplos alheios, que se olhe para eles com atenção. Veja-se a Irlanda: a lei do tabaco não reduziu o seu consumo. O consumo apenas diminui quando as terapias passaram a ser comparticipadas. Uma breve análise ao custo de medicamentos, pastilhas, tratamentos vários, dirá a qualquer um de nós que fica mais barato continuar a fumar. E em tempo de apertar o cinto, até aos pregos se fazem contas. Aliás, quantos têm presente que este é um hábito que causa mais dependência do que uma droga dura, mais ainda do que a heroína? Provavelmente não os mesmos que legislam sobre salas de chuto, mas proíbem os cigarros.

Vamos lá assinar a
petição que não é bem uma petição que o JPT lançou. Se eu, fumadora, tentarei não cercear a liberdade de todos os que não estão viciados nesta treta, então respeitem a minha liberdade também, dando-me mais do que o céu, a chuva e o frio para poder ainda acender um cigarro. Gueto sim – já estou preparada para ele – mas com um mínimo de condições!



(E que se acabe com as legislações paternalistas, porra! Ou daqui a uns tempos, à conta das DST, já nem o refrão do Abrunhosa nos sobra e já não há sequer o "e agora o que vamos nós fazer?/ talvez foder, talvez foder".)

Desculpem, mas não resisto!


aqui

2-0! Tão lindinhos, os meus gatinhos!

2008-01-02

Oily Life




and this is no dream
just my oily life
where the people are alibis
and the street is unfindable for an
entire lifetime

Anne Sexton - 45 Mercy Street



Costumo gostar das mudanças de ano. Na prática, significam quase nada, mas todas as barreiras - até mesmo as barreiras no calendário -, conseguiram sempre despertar o meu lado mais desassossegado, aquele que encontra sempre força e vontade para ser do contra e ir ainda um bocadinho mais além. Mas este ano estou espartilhada entre todas as perspectivas que se abrem e a certeza de que tudo vai apenas continuar. Tirando a parte que ainda vai ficar pior, claro. E até a optimista que vive em mim treme!

Apeando os santinhos

aqui


Adianta de alguma coisa, num Estado supostamente laico que, sistematicamente, esquece que há mais confissões religiosas e que muitos nem sequer têm alguma? E depois ainda há as "virgens ofendidas" a saltarem logo em defesa do nome das escolinhas, coitadinhas. Como se houvesse mal em, por uma vez, alguma coisa neste País de treta ser mesmo laica, ou pretenda ser. Convenhamos que é mesmo demais para alguém como eu, que nem sequer acredito na virgem. Até por uma questão de lógica: se Deus é assim tão magnânimo e resolveu pôr uma mulher a parir-lhe um filho, pela certa terá havido orgasmos múltiplos de proporções cósmicas. No mínimo! O Paraíso sempre se fez de mais do que anjinhos barrocos em contemplação e sem serventia...

2007-12-29

Sejam felizes!




Deitar fora coisas velhas nunca fez mal a ninguém. É a reciclagem, carago!

Parabéns, miga


aqui



Little children snuggle under soft black stars
And if you look into their eyes soft black stars
Deliver them from the book and the letter and the word
And let them read the silence bathed in soft black stars
Let them trace the raindrops under soft black stars
Let them follow whispers and scare away the night
Let them kiss the featherbreath of soft black stars
And let them ride their horses licked by the wind and the snow
And tip-toe into twilight where we all one day will go
Caressed with tendrils and with no fear at all
Their faces shining river gold washed with soft black stars
And angels' wings shall soothe their cares
And all the birds shall sing at dawn
Blessed and wet with joy You and I will meet one day
Under a nightsky lit by soft black stars




Mesmo no meio das correrias dos restos da mala que ainda não acabei de fazer, tinha de parar e vir por aqui. É que de alguma maneira, por estranho que te possa parecer, és sempre a minha estrela-guia por estas bandas. E mereces sempre que venha.

Depois, tinha de aproveitar a ocasião para postar na Voz esta musiquinha...

2007-12-21

I'm booked!



Boas Festas a todos os que por aqui passarem e, especialmente, para todos os que tendo por aqui passado continuam a vir :)

Encruzilhada


Blue Ice


Hoje de manhã o frio mirrou-me toda. Ando mirrada, encolhida. Bato o dente, esfrego as mãos, atrevo-me até a um "Parabéns, Old Man" irónico ao fulano da bomba de gasolina, todo contentinho no seu fatinho de flanela vermelha e barbas postiças de qualquer coisa parecida com algodão branco sujo. Sorte a minha, que não preciso fazer tal figura e, no entanto, penso na figura que faço, toda encolhida, mirrada, a bater o dente. E a imagem do tipo da bomba de gasolina vestido do gajo da coca-cola, persegue-me como um balão de BD onde apenas cabem reticências. E juro que deve ser do frio e da falta de um café bem quente, que isto de ter um balão de BD a foder-nos o juízo logo pela manhã não ajuda nada a começar o dia. E também deve ser por isso que me atiro ao trânsito num trejeito gingado, como se fosse uma forma de kung-fu acabadinha de inventar pelo meu eu mais alucinado, aquele que acorda primeiro, especialmente se faz frio. É que está mesmo muito frio e eu estava muito bem na cama e estes tiques natalícios cheios de luzes e anjinhos e embrulhos e anjolas e mais não sei quanto que sai da carteira para comprar o presente que falta, deixam-me a suspirar pelo prémio que até sei que vou ganhar mas que, perante a filhadaputice do tempo e do Sócrates e de toda a corja que o acompanha, mais os Bancos Centrais e as centrais dos bancos e as taxas e o raio que os parta, vai desaparecer para cobrir o buraco na conta mirrada, encolhida, que é tudo o que ainda sobra do mês que começou a 25 e se vai finar amanhã, prometendo um Janeiro comprido, muito, muito comprido.

Só a mim! A quem mais para estas tretas atazanarem os miolos ainda antes do café ser engolido e fazer efeito? E puxo do cigarro, que o carro afinal não é espaço público e, mesmo a tentar deixar de fumar, vejo cada vez mais a cabrice da Tabaqueira e a chulice do Estado, arrebanhado aos impostos que me leva, que continuará a levar, pelo menos mais um ano até que o ano das eleições traga por fim algum alívio, como se voltasse a ser possível dizer "olá, segunda-feira" sem um ponto de interrogação e com um sorriso e sem estar sempre com esta corrente de ar em mim e nos bolsos e mirrada, muito mirrada, cada vez mais encolhida sob uma carga de trabalho, que é a única coisa que ainda me querem dar em excessos cumulativos e até com nova legislação para legitimar o chulanço nacional ao abrigo de uma tal de flexibilidade genuflexória onde ficamos todos com o cuzinho ainda mais a jeito e onde não se vê corno de segurança alguma. E acabo a acrescentar a imagem de um cacique ao pagode nacional que já vai fazendo companhia às reticências que me continuam a infernizar o juízo, enquanto continuo com frio e a precisar de um café com urgência e deito fora o cigarro, enojada com o gosto seco e acre. E olho pela janela e vejo as outras caras e toda a gente demasiado encolhida. E o trânsito complica-se e acabo e chamar palavrões a todos os cromos a quinze à hora a pararem em segundas-filas para se livrarem de criancinhas ranhosas e cheias de frio, prontas para irem treinar mais um bocadinho para nada saberem achando que sabem muito, tirando a parte em que aprendem a dar cabo dos cornos aos professores, mas isso nem o DIAP as convence a admitir que aprenderam.

E continuo com frio enquanto espreito os fedelhos ranhosos e, dentro da minha cabeça, já há um balão de BD tamanho XXL onde agora cabe de tudo, por entre o mau humor que se instala, enquanto desato a fazer filmes de um voyeurismo preocupante acerca da vida dos outros. É que assim talvez me esqueça da minha…



Era assim, Fábula?

(Fica o desafio em aberto para quem o quiser apanhar. Não me apetece encarreirar este post com tanto fel a ninguém, a não ser que me apresentem declaração expressa de imunidade à coisa.)

2007-12-19

Uma forma de Kung-Fu?


Miya Yoshi


Isto de deixar passar mais um aninho na blogocoisa até faz arranjar nome novo e tudo...


(A ver se não me queimo por só me ter (mal) lembrado hoje do aniversário de ontem)

Um prémio :)





Com esta não estava eu a contar! Então não é que a Emiele resolveu dar um prémio à Voz? Mas será mesmo que sou assim tão livre quando escrevo? Às vezes penso que já não.

Quando comecei o blogue, sentia-me profundamente livre: estava a fazer uma coisa que gosto, dizia o que me apetecia, falava do umbigo e para o umbigo, não tinha grandes preocupações.

Depois, o meu tema favorito (i.e., eu) foi-se esgotando e acabei por me abarbatar também a outros assuntos, com algumas pernadas à política, ao futebol, à sociedade e até àquele tema a que nenhum blogger resiste chamado blogosfera.

E, no entanto, sempre me senti tão mais livre quanto mais distante ficasse dos temas mais mediáticos. Talvez porque estes sempre me pareçam muito de mastigar e deitar fora, com prazo de validade pespegado e rapidamente esquecidos. Mas talvez as pessoas se lembrem, por exemplo, dos meus textos sobre a IVG…

Eu gostaria de ter sido capaz de escrever posts indeléveis, que não estivessem necessariamente colados a um tema específico, datado e passado. Gostaria de ter sido capaz de dizer algo que todos recordassem quando se lembrassem um dia que houve um blogue chamado Voz em Fuga e, nele, uma mulher que escrevia por gosto. Talvez nunca tenha nem engenho nem arte para tanto, mas não custa sonhar, não é?

As minhas opiniões serão um reflexo de mim, disso não tenho dúvidas: anseio cada vez mais por liberdade enquanto parece que é coisa que cada vez mais falta me faz. Todos estamos presos de algum modo à vida que nos tem, nos carrega e nos sustenta. E crescer é aprender a viver com amarras e a criar amarras. A liberdade talvez seja o tanto de disponíveis que ainda ficamos para a vida depois de saldadas todas as contas, cumpridos todos os horários, picados todos os pontos. E, nisso, depende dos dias: uns melhores, outros piores e, no fim de cada ano, não resisto a olhar para trás e fazer uma pequena análise do bom e do mau. Apesar de tanto e tanto, não têm sido maus os resultados destes balanços pessoais.

E entendo a
Emiele quando fala dos pequenos círculos onde, em proximidade relativa, muitos de nós se movem ainda. Mas quando se fazem amigos, não é facilmente que os deixamos partir. Talvez por isso me custe ver cada vez mais vozes silenciosas.

Assim, é reconhecendo as minhas proximidades e os meus laços - e não os querendo quebrar ainda - que nomeio blogues que me ajudam a continuar por cá em cada dia que ficam também mais um dia, dando-me o prazer de os continuar a ler:

-
I. (para continuar a ter um ponto de paragem obrigatório e alguém que diz bem melhor tudo o que me apeteceria dizer; é que é sempre bom premiar a liberdade dos outros quando é tão parecida com a nossa, certo?)

- Fábula (pela tenacidade e vontade que ainda transmite em cada texto, mesmo quando reclama que não lhe apetece)

- Tozé (pelos desafios e pela conversa numa caixa de comentários; porque nos recusamos a desistir)

- Cap (a ver se deixa de achar que já passou o tempo em que isto tudo eram blogues e nós éramos bloggers e toda a gente tinha muito para dizer. Até quem sempre escreveu uma média de cinco palavras por post)

- Espumante (lá porque a liberdade dele e a minha nunca estejam de acordo, não quer dizer que não possam ser amigas, certo?)

2007-12-18

Só a mim!


aqui

Após três adiamentos de cerca de seis meses cada um, chegou hoje ao fim um processo em que me tinha visto envolvida na qualidade de testemunha. Querem mesmo saber em que Tribunal tive de comparecer hoje às 09:00h? E querem mesmo saber quem é que também andava por lá?

Grunft!

2007-12-14

O cacique


aqui


A sorte é que acredito que quando fizeram o molde do burgesso, aquele partiu-se de seguida; o azar é que continuamos a ter de gramar com o gajo e as tantas atoardas de quem se acha acima de tudo, até da lei.

2007-12-10

Nada de novo...


Imagens de O Fiel Jardineiro

Quando vi O Fiel Jardineiro, foi a imagem daquela criança abandonada, com o cão pela trela, que mais me partiu o coração. Nestes dias de Cimeira de logros, foi desta criança, símbolo de tantas outras, que me lembrei dolorosamente.

Tirando o circo mediático, pouco ou nada se aproveita. O circo segue como de costume. Mas continua sem haver em demasiados sítios o pão para acompanhar, que nisso os Romanos sempre eram mais precavidos e davam de comer por entre o morticínio.

Somos todos cúmplices no silêncio. Tirando os dias de circo, quem realmente questiona quer os benefícios, quer a forma como foram alcançados?

Tudo o resto é palhaçada. Juntam-se os palhaços, dizem umas bacoradas, posam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo segue como dantes. Nada de novo no Quartel de Abrantes!

Parabéns, menino!



Deste lado não escapas à beijoca pelo aniversário. Ou pensavas que anda tudo zen, ou quê?


(foi só alterar a data para que "ninguém" visse que me tinha enganado no dia...)

2007-12-07

À minha avó


Desafio Uma Imagem... Mil Emoções



No espaço dessa mão estão as minhas rotas silenciosas; está esta crença que tenho em mim de que repetirei os teus passos de forma nova, mas ainda assim com os mesmos caminhos. Está a evidência genética do que sou, esta coisa em que me transformo enquanto as minhas rugas, ainda tão diferentes das tuas rugas, se vão construindo em desenhos semelhantes.

E está em ti hoje toda a minha noção de eternidade, avó: uma eternidade que cabe na palma da tua mão enrugada; que está nessa essência que sou sendo parte de ti, parte da mãe que pariste e que me pariu a mim; nas pernas que herdei orgulhosa; no formato do corpo, no tom de voz, na falta de mariquices…

Chegasse eu a ter essa mão feita pano enrugado, cinzelada a linhas de história e de crescimento, sei que seria muito parecida com o que és hoje: pequenina, frágil, com medo da morte que é cada vez mais como a vizinha que te pisca o olho todos os dias. Chegasse eu a essa idade, ia querer ter essas mãos sulcadas pelo destino. Chegasse eu à tua idade, queria ter uma palma da mão onde coubesse ainda a família, num retrato desbotado pelo tempo, quando o tempo ainda era medido em mais do que instantes.

É que sei que herdei nos genes isto que me faz tão parecida contigo, mesmo sendo tão diferente. É que sei que a eternidade se mede não num qualquer paraíso que tantos julgam intuir como verdade, mas sim na memória que os outros não querem perder de nós. E uma mão assim sulcada é uma mão eterna: já acariciou e foi acariciada por tanta gente que, ao ser tão amada, será eterna enquanto permanece indelével na memória daqueles que seguraste nas tuas mãos, contra o teu peito, no teu carinho.





(desta vez, respondo ao desafio sem ser desafiada; e amuada por te teres esquecido de mim. Grunft!)

Marcha Virtual



Representantes de 192 países irão se reunir do dia 3 ao 14 de dezembro para negociar um novo acordo internacional contra mudanças climáticas. Essa é a nossa chance de nos fazer ouvir: estamos usando a Internet para criar uma "marcha virtual global" em Bali - e qualquer pessoa se pode se juntar a nós.

Esse sábado, dia 8 de dezembro será o dia internacional de mobilização contra o aquecimento global com uma onda de marchas e protestos que vai tomar conta do planeta.
Se você não puder chegar a Bali, junte-se à marcha virtual - os membros da Avaaz em Bali irão transportar a bandeira e o número de assinantes representando cada país. Só depende de nós garantir que seremos ouvidos.

Para assinar, é seguir o link que está no título do post.

2007-12-05

Da inveja


Donovan Crosby - Blackberry, Envy, 2006

O belíssimo texto (concorde-se ou não com todas as opiniões expressas, apesar das verdades evidentes), que eu nunca teria engenho para escrever.




(No rescaldo de guerras feias, que importaram para a blogosfera tanto do que ali se aponta aos antros de origem de alguns espécimes, soube muito bem ler.)

2007-12-03

Chamem a polícia



Se há coisa com que não me identifico é com as tretas que querem pespegar ao "feminino", género folclórico e mítico de um imaginário que só existe em algumas cabecinhas, com as suas revistas sem conteúdo, mais os cremes e as carteiras e as cuecas e os sapatos e o cabelo e raio que os parta.

Não gosto de ir ao cabeleireiro, não gosto que me mexam e por isso dispenso massagens, nunca tive fetiches nem com pés nem com sapatos e a maioria da roupa foi desenhada a pensar em anorécticas sem mamas, pelo que ir às compras deprime-me.

E também nunca me dei lá muito bem com flexões, pelo que poses lambe-cu também é coisa em que não tenho prática, mesmo pagando tanta vez esta incapacidade crónica para virar capacho.

Depois, eu cá sempre gostei de legos. E de carrinhos de rolamentos. E de trepar às árvores... O pior é que agora tenho de pensar sempre quanto me custa montar cada peça de lego de que o Banco leva uma parte à fatia mensal e sou incapaz de deitar fora qualquer peça, mesmo as que fazem menos falta; e os carrinhos de rolamentos agora precisam de airbags e já não são travados só à força de sola ou pedante descalço; e trepar às árvores é que já não dá mesmo, porque me pesa demasiado o cu.

Deve ser por isso que refilo tanto. Enquanto refilar, ainda me agarro a um pedacinho do eu que fui para não me perder de mim. Além do mais, sou do Porto, o que me dá assim uma costela perto da chinela e, se preciso for, até as mãos deito à cinta para ficar bem povona.

Por isso, acharem que dou € 35 por um jantar merdoso com administradores que se esquecem sempre de quanto pagam a quem está mais abaixo, faz-me andar a refilar há semanas e, sem sorriso, deixo que a tromba refilona lhes explique como estou cheia de vontade de os mandar a todos para um grande, imenso (de preferência, sem serventia) caralho! E não vou. Ponto!

2007-11-27

shhhh!...



São cada vez mais os amigos silenciosos.

Das máscaras


aqui

Nunca há problemas nem com os espelhos nem com as máscaras, desde que não haja vergonha de ainda mirar nos espelhos as caras a descoberto.

2007-11-26

A petição



Temos pelas nossas ruas tantas coisas a serem lembradas, algumas delas que já ninguém sabe porque são lembradas, outras que só foram importantes para aqueles que as mandaram pespegar num qualquer canto, que me espanta que as que deveriam ser recordadas ao "povo de brandos costumes" que, na prática, nunca fomos, continuem escondidas das paisagens urbanas.

Qualquer Nação que não se olha de forma completa, quer para o bem, quer para o mal, nunca terá um retrato real do que foi, do que é e do que quer ser no futuro.

Obviamente, este é o País onde alguns até se lembram de botar faladura sobre o Museu do Holocausto de Berlim. Espero que não sejam da mesma laia os que tardam em erguer uma pequena marca para recordar todos os caídos nos três fatídicos dias de Abril de 1506.

Depois, pode ser que algum dia ainda se fale de outros massacres que, tão convenientemente, permanecem esquecidos e escondidos. Eu não entendo para que serve uma memória amputada. E digo-o aqui do meu Porto, que só permitiu um auto-de-fé intramuros em toda a sua história, apesar de todas as pressões para que houvessem muitos mais: queria a memória perpetuada no palco iníquo onde teve lugar e iria exigi-lo a quem de direito.

Deixo lá em cima um adeus ladino. Por todos os que partiram ignobilmente naquele longínquo mês de má memória.

O link a seguir está no título do post. Assinar não custa nada. E, sendo certo que também não remenda nada, pode ser que, enquanto "costuramos e descosturamos" para corrigir mais um pouco "os panos do tempo", o consigamos fazer com alguma lisura.

2007-11-22

Pedido de reparação de danos


aqui


Minha cara Maria Árvore silenciosa,

Venho por este meio informar que estou com grave problema neste meu espaço, todo da sua responsabilidade.

Tal como a menina sabe, este sempre foi um blogue profundamente anónimo e anódino, um espaço perdido e de poucas e boas visitas. Uma pessoa habitua-se, sabe quem chega, sabe quem vai, vai atrás, perder-se poucas vezes, regressando a casa amiúde, apenas para estar no conforto aconchegante da sua intimidade partilhada para ai com umas cinquenta alminhas com igual propósito na vida, e basta. Afinal, o tempo não dá para mais. Nem a paciência.

Porém, à conta da menina, o meu sitemeter tem estado em profunda excitação, elevando-se duro e rígido às mais de duzentas visitas diárias. E eu, pessoa simples, banal, sem chegar a perceber que tanto buscavam nesta Voz, mesmo quando remetida ao profundo silêncio (que só durou um mês, mas isso agora também não interessa nada), estranhava, estranhava, estranhava...

Fique a menina sabendo que hoje apurei responsabilidades. E são suas. Todas suas. Estou em estado de choque, confesso-lhe. Anda uma pessoa para aqui a escrever como uma desalmada há mais de três anos e quer saber o que mais de três quartos das visitas vêm procurar? Eu digo-lhe! Vêm procurar poucas vergonhas da sua responsabilidade. A saber, estes dois contributos, com especial destaque para estas duas imagens.





Exijo reparação!

Tenho dito!

Maria Hipatia Ludovina da Silva, uma menina sempre muito bem comportada

2007-11-21

E lá convocaram outra


aqui

Às tantas poderá parecer estranho se eu confessar aqui que estou sindicalizada. Pois é verdade, estou mesmo. Com cartão e quota paga. Até hoje não me serviu para nada, mas parece que têm por lá uns advogados que podem eventualmente (com grande ênfase no eventualmente) servir para alguma coisa. Tirando isso, acho que os sindicatos já não funcionam. Ou que os sindicatos que temos não funcionam. Funcionariam se não estivessem tão alheados da realidade. Mas o pior é que estão. E já nem sei como ainda alguém os ouve, muito menos porque têm ainda tanto tempo de antena, apenas para desbobinarem conversa com muito pouca valia e menos pertinência ainda e organizarem-se de forma a que a greve se reflicta em fim-de-semana prolongado. Isto, claro, para a farândola geriátrica do costume, que já nada teme porque também já nada tem a perder, muito menos a conquistar.

E de cada vez que um sindicalista abre a boca, eu abro também a minha. Só que de espanto pelas parvoeiras que conseguem ainda encadear em discursos ensaiados para caberem exactamente nos mesmos minutinhos do costume das entrevistas e o tanto que se espreme das resmas de palavreado sem nenhum suco. E, quase sempre, mudo de canal ou viro a página, com um enfadado "lá está este gajo outra vez com a cassete do costume".

São muitos os motivos que se juntam para fazer dos nossos tempos um período de retrocesso ou, pelo menos, de abrandamento na conquista de direitos. E a verdade é que seria fácil – demasiado fácil até – culpar apenas os que têm poder e os que põem e dispõem da insegurança que mina a vida dos tuguinhas. Visto deste lado, até quase chega a parecer abuso o facto de a quantidade de direitos que a Função Pública ainda preserva lhe permitir chegar ao ponto de malbaratar uma ferramenta de reivindicação como a Greve Geral. E porque raios chamar greve geral a reivindicações sectoriais, que estão bem a marimbar-se para todos os (des)empregados de todas as fábricas que negociaram escandalosos despedimentos colectivos no último ano?

Mas a verdade é que, na prática, os tuguinhas já não querem saber de mais que o próprio umbigo; na prática, o esforço colectivo, com cedências e riscos, de uma posição de força à moda do sindicalismo de antigamente, já não é possível: os empregos estão diferentes, os patrões estão diferentes, os empregados estão diferentes. E, acima de tudo, o País mudou realmente. Só alguns sindicalistas (e alguns líderes partidários) é que pararam no tempo e nem se apercebem das verdadeiras múmias em que se transformaram.

2007-11-20

Keep on calling me (*)


aqui

Havia uma angústia agarrada ao brilho azul destes olhos que não sei se alguém conseguirá alguma vez imitar. Mas vou ver se conseguiram pelo menos chegar perto. E pela música, claro.



(*)Dead Souls lyrics

Lastro





A precisar minguar memórias...

2007-11-19

Coisas da voz

A man falls in love through his eyes, a woman through her ears.

Woodrow Wyatt


Pedro Rolo Duarte começa por perguntar a Pedro Mexia porquê tanto blogue. Pois eu, cada vez que ouço a voz do Pedro Mexia, não me espanto nada que ele prefira escrever.



(pelo menos há o Sérgio Godinho pelo meio...)

Parabéns!


aqui

Três anos de Divas & Contrabaixos :)

2007-11-17

Do direito de resposta


aqui

Informo que as DUAS caixas de comentários continuam abertas.

Ouve, minha amiga






Ouve, meu amigo
põe a máquina a gravar
queria só explicar aqui
que eu sou como o pano-cru
como pano-cru
eu ainda estou por acabar
e como o linho vem da terra
assim viemos eu e tu
e como tu eu faço e amo
e luto e dou
e como tu eu estou
entre aquilo que já fiz
e aquilo que eu fizer
eu sou de pano-cru



Pensavas que me esquecia de ti? Pensavas que aqui a Voz ficava sem palavras no dia de te dar os parabéns?

Somos pano-cru, ainda à espera de acontecer, mesmo que moldado por tudo o que já foi. E em cada ano que passa, mais tela em branco à espera do que é e do que será, para continuarmos a dar e receber tudo o que a vida nos trouxer.

Parabéns, minha amiga.





(e, sim, o link vai para a casa silenciosa)

2007-11-16

Mesmo muito atrasada...


aqui


Nestas semanas do demo que não sei quando irão acabar, ficaram parabéns por dar. E eu gosto de dar parabéns. É daquelas pequenas coisas que me permitem achar que, por aqui, há mais do que letras.

Por isso, mesmo atrasada, mesmo vergonhosamente em falta para convosco, aproveito agora – já de pijama, a sentir-me velha, deprimida e muito cansada, no fim de uma 6ª-feira interminável de que nenhum de vós tem culpa – para pôr por aqui mais do que só palavras e nomear os meus laços que, apesar de ter parecido, não ficaram esquecidos.

Segue, por isso, um beijinho amigo e muito saudoso para a Madrinha (salve dia 3 de Novembro), os parabéns pelos três anos em que a intermitente Viajante nos brinda com Espelhos e Labirintos (6 de Novembro), os parabéns também por mais um aninho Faz de Conta da impagável Jaquelina Pandemónio (7 de Novembro) e a beijoca encaminhada ao Jorge (via Ante & Post, que assim deve ser recebida) por mais um aniversário (salve 12 de Novembro).


E, acertando no dia pespegado ali no topo, mas só depois de fazer batota, parabéns por um aninho de Fabulosamente Louca.

2007-11-12

Madrigal


"Terciopelo verde" © Rosa Vázquez

¡Oh, voz de nube!¡
Oh, terciopelo!
¿Cómo nombrar tu música de musgo
sin disipar las brumas que te velan?

Viene la voz entre un aroma urgente
de jazmines de luna y se derrama
sobre el camino ciego de la noche.

Baja por escaleras de tristeza,
para perderse entre remotos pinos
y aliviarse de penas en los duros
espejos de la nieve desolada.

Deja en el aire en llamas su caricia
y al recorrer los círculos del viento,
un caracol incierto la recoge
y la devuelve, al fin, yacente y pálida,
muerta sobre un paisaje de silencio.

¡Y no saber cómo nombrarte,
para que vuelvas a llorar, subiendo
los senderos de luna y de jazmines!
¡Oh, voz de nube!
¡Oh, inasible perfil de ausencia y lágrimas:
verte morir
y no saber cómo nombrarte!
¡Oh, terciopelo!

Hérib Campos Cervera - "madrigal para la voz en fuga"


Um amigo mandou-me hoje este poema, de um poeta que nem sequer conhecia (o que só pode ser culpa minha, obviamente), falando de uma "voz en fuga" tão diferente da minha que nem sei bem se há qualquer ponto de comunhão, mas que, ainda assim, é tão linda que não resisto a colocá-la aqui nesta minha "voz em fuga".

2007-11-11

Tem piada…




O Papa criticou a Igreja Católica Portuguesa, porque parece que esta não anda a fazer um trabalho lá muito canónico no que toca a reunir o rebanho… Como se ele – o Papa –, mais as suas ideias estapafúrdias e pontos de vista de ostra, andasse a fazer muito melhor serviço. É para rir, certo?

Castanha assada e água-pé


aqui

Acho que finalmente mudei de Estação...

2007-11-10

(...)



So
Sleep, sugar, let your dreams flood in
Like waves of sweet fire, you're safe within
Sleep, sweetie, let your floods come rushing in
And carry you over to a new morning


Ao fim de anos, sei que a insónia é cíclica, que se apresenta em períodos estranhos, de maneiras mais estranhas ainda, que se instala sem pedir licença nem aviso. E que o mais breve sono se tinge de tragédias ou estafas e que todo o dia que ainda nem sequer amanheceu será um dia em câmara lenta, com os sons abafados como se a cabeça andasse mergulhada numa tina de água morna. E afinal é só cansaço. E a insónia. E antecipação da noite que ainda nem chegou: desesperar sem saber se o sono me fará companhia, me levará com ele, profundo, sem sons e sem esgares assustadores ou sem o contar de cada batida do ponteiro do relógio a picar o ponto da dor de cabeça garantida.

2007-11-06

Blogue Visitante





Ele diz que estamos condenados a ler-nos mutuamente e que gosta de me ler mesmo quando me dá a “veneta guerreira”. E visitamo-nos e comentamo-nos há mais de três anos e eu gosto de o ler, até quando lhe dá mais uma quase-apoplexia à conta da Fatinha. E vai dai ele nomeou-me para o prémio do blogue visitante. E vai dai parece que eu também vou ter que fazer umas nomeações, mas como agora não tenho tempo, aguardem até logo para ver em quem eu “enfiei a faca” (é do guerreira, não sei se estão a ver…) desta vez :)))


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Continuando...

- Cá vão as 20 vítimas:


2007-11-05

Activismo


Martha Stewart


Apenas lamento que o autor do blogue não assine com um nome identificável. Porque sim, o activismo exige nomes.

Daniel Oliveira


Vai-me desculpar, mas não concordo que o activismo precise de nomes. Pelo menos, não no sentido de que a existência de um nome ou apenas três letras ou um qualquer nick faça diferença para quem lê e concorda ou lê e discorda com uma qualquer opinião expressa num blog (que para emitir opinião noutro qualquer espaço é preciso bem mais do que ter opinião, certo?)

O mal da grande maioria do que seria possível chamar "activismo" em Portugal é o tanto que se submete aos nomes, aos fulanos de tais e aos amigos, mais os apaniguados e os apadrinhados e os amigos dos amigos dos amigos. Clubes restritos, que invocam grandes causas e depois…

Do lado de fora, para quem chega e bate à porta do "clube de mais um Bolinha com nome", o activismo enquanto causa organizada chega a feder apenas a política e a Política há muito que passou a ser palavrão para quem não se quer envolver em jogadas várias, mais os lances duvidosos e os apitos e as reformas chorudas e os jobs e tudo o mais que afasta quem defende causas daqueles que, na maioria dos dias, apenas parecem defender causas para ficarem bem na fotografia.

Até que ponto quem está na Capital percebe realmente como se movimentam as coisas em cidades mais pequenas? As portas abrem-se na velha tradição secular do Sr. Cunha e a possibilidade de concretizar um qualquer projecto fica sujeita a variadíssimos interesses. A causa perde-se; a acção enrola-se em acçõeszinhas e talvez se safe o mais esperto. Mas a militância, a vontade de agir, de ainda conseguir fazer qualquer coisa em prol da comunidade, só encontra obstáculos, a tal ponto que eu nem estranho que o activismo agora se aninhe no divã.

No fundo, acho que quem age não precisa dizer que age; não perde mérito por não ter tempo de antena. O activismo com demasiados nomes, especialmente quando tantos deles acham que valem bem mais do que valem realmente, afasta a maioria das pessoas das causas. Os nomes tornam-se empecilhos, fomentam clivagens, favorecem listas e listinhas. E as causas acabam soterradas em tretas.

A militância à pequena escala, com pequenos projectos, poucos fundos e um punhado de gente anónima mas bem motivada, é bem provável ser o último reduto de qualquer verdadeira militância. Porque a militância nos tons mais tradicionais há muito que não é prioridade para quem tem de enfrentar o dia seguinte com cada vez menos perspectivas e muito mais medo de perder o pouco que ainda tem.

E pergunto-me se ainda há grandes causas que façam realmente sentido numa sociedade cada vez mais de costas viradas para os seus políticos transformados em "classe" e todos os que se perfilam – já nem importa a cor, que aqui do lado de fora parecem demasiado iguais – para fazerem desse "activismo com nome" o trampolim para a remessa seguinte da "classe". E "classe" também acabou palavrão… Às tantas aconteceu o mesmo à "militância".

Não, não acho que o verdadeiro activismo precise de nomes. Acho aliás que precisa realmente é de menos nomes. Porque as causas deveriam motivar todos, até aqueles que preferem lutar por elas sem necessidade de protagonismo, sem prescindirem do seu anonimato, reencontrando as causas que façam as pessoas repensarem a política, consciencializarem que a Política é de todos, feita por todos e nunca, mas mesmo nunca, por uns quantos eleitos que só se lembram do povinho sem nome em vésperas de eleições.

Agora, se neste País se consegue fazer activismo sem nome… bem, isso já é uma história completamente diferente. Mas isso também não é novidade nenhuma.

2007-11-04

Para pedras


aqui


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos - Kyrie


Parece que não havia mais nada que fazer com tanto milhão de euro...