2016-12-16

Aleppo

"Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

2016-11-19

ELA

A minha amiga mais antiga, mais velha do que eu um mísero dia, está a morrer. Esclerose Lateral Amiotrófica.

Em apenas dois anos desde que se declarou a doença até agora, o corpo foi-se desligando. Não fala há meses. Agora todos os dias são uma luta só para respirar. E o pior? Lúcida. Sem perder um único neurónio a não ser os responsáveis pela parte muscular. Presa ao corpo irreversivelmente, sabendo que definha e vai morrer, se não hoje, amanhã ou para a semana, deixando para trás dois filhos pequeninos.

Puta de doença!

2016-10-24

Democracia

A democracia é como a liberdade: vai haver sempre quem saiba delas abusar. E será também como uma certa ideia de justiça, aquela que nos permite defender que é preferível um culpado solto do que um inocente na prisão.

Os conceitos em si nada têm de errado; o que uns quantos fazem com esses conceitos, deturpando-os, adaptando-os aos seus interesses, corrompendo o seu sentido, é que sim.

Não culpo a democracia, como não culpo a política, como não desbarato por completo os conceitos operativos com que aprendi a pensar o real e a inserir-me nesse mesmo real como ser político. Mas culpo quem usa e abusa da política, até tantos de nós que se mantém sempre confortavelmente arredados da política e da polis e dos mais básicos exercícios de cidadania. Os mesmos que apenas se lembram do Estado quando chega a hora de estender a mão, num exercício de demagogia em tudo semelhante à daqueles a quem entregamos a responsabilidade de nos governar esperando que não se governassem apenas a eles mesmos.

Talvez afinal os culpados sejamos todos nós, habituados a uma certa ideia de democracia e demitidos de direitos e deveres. É porque tantos de nós se mantém assim de fora que o exercício político virou coutada de uma classe. E, como todas as classes, zelosa dos seus privilégios, temerosa de perder o pé, a viver à conta de quem apenas reclama e que nem sequer levanta o cu para ir votar.

Fomos nós que fabricamos o monstro; não foi a democracia.

2016-09-23

Inépcia

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2016-09-20

Salvem os ricos?

Ainda estou indignada com a tal treta dos direitos dos ricos. A pensar na geração dos € 1000 que nunca saiu dos € 1000 e agora até se acha cheia de sorte. E a pensar como para todos os outros sobra apenas o resto. Quando o resto já não chegar, será que ainda teremos forças para fazer o tal manguito?

2016-08-25

Itália

Enquanto o norte da Europa nos virava as costas (mais uma vez) durante os terríveis incêndios que dizimaram Portugal, a Itália mandou um Canadair. Pode não parecer muito, mas foi mais do que quase todos. O meu coração hoje está com "i nostri fratelli" :-(

2016-08-24

A Voz faz anos



Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue... 

Foi em 2004 e ainda cá estou. 

Por pura teimosia.

2016-08-22

Uma lua tipo farol

Ainda fui à janela tentar perceber qual era o idiota do meu vizinho que estava de luz acesa. A idiota era eu :/

2016-08-16

Toda a vida



Irrita-me esta mania moderna de qualificar o óbvio. Mesmo quando não é óbvio. Porque devia ser óbvio.

2016-08-09

Dos extremismos

Um dos principais saltos qualitativos da espécie humana foi a capacidade de se desprender do tempo presente, recordando o passado e imaginando o futuro. E, ao fazê-lo, inventar essa capacidade mágica de acreditar: acreditar na “coisa” apenas imaginada, para depois dar-lhe forma; acreditar que há uma ordem implícita nos acontecimentos aparentemente fortuitos e que, por isso, podes acreditar que o sol volta a nascer amanhã, que uma determinada estrela volta a um determinado ponto do céu, que voltou a ser hora de semear. 

Esta capacidade de acreditar no que não está lá, não existe ainda, é um acto de fé. É que fé, tal como a estou a utilizar no que escrevo, remete apenas para o "fide" do latim, i.e., confiança. A confiança de que algo é possível, pode acontecer. Não tem nada a ver com religião organizada e padronizada. Tem a ver com o que somos. E, do que somos, conhecemos ainda tão pouco, que me iriso sempre quando alguém começa a falar apenas em factos. Porque até os factos precisam da imaginação e, sendo que usamos uma ínfima parte da capacidade do nosso gigantesco cérebro, quem nos garante que os factos até hoje conhecidos chegam? E por que ser tão afoito em mandar o desconhecido para a franja do paranormal? Mesmo que eu não acredite que uma prece possa levar a uma cura, porque não aceitar que a vontade de cura de alguém e a sua necessidade de acreditar que vai ficar curada, não dão origem a um qualquer processo que resulta numa cura real? Para quem como eu não sabe acreditar assim, será sempre necessário descobrir o facto que deu origem ao resultado. Quem acredita chama-lhe apenas milagre. E esses acontecem de facto a toda a hora. 

Somos, todos nós, tão diferentes e tão improváveis, sabemos tão pouco… Mas escolhemos acreditar. Seja em que for. E, por esse simples acto  conseguimos desprender-nos da condição de ser sem passado nem futuro, incapaz de se imaginar como parte de uma grande estrutura, para lá da manada de búfalos a caçar, ou da árvore com os frutos mais maduros. Por tudo isto, não confundo de forma alguma o direito a acreditar na obrigação de acreditar num Deus que outros desenharam por medida. E por tudo isto ando tão horrorizada com as vozes e actos de extremismo religioso.