2017-09-23

Catalunha

Não sei que vos diga, Catalunha. Eu, aqui neste canto que cerrou trincheiras e só durante 60 anos se deixou subjugar.
Mas sei que a violência gera violência e a violência de Estado faz do pacifista um revolucionário.
Cá do meu cantinho, gosto de imaginar uma Espanha unida, mas entendo a necessidade de emancipação.
Não vos conheço todas as razões, nem para dizerem sim, nem para dizerem não.
Reconheço-vos, no entanto, o direito a dizer, a votar, que assim se vive em democracia. Mesmo e especialmente se depois vos disserem que o vosso voto constitucionalmente não vale nada.
Votar vale sempre a pena: é a única arma que faz sentido para um povo que queira esconjurar a ditadura.

2017-09-04

Irresponsáveis!

Em 1992, quando a China e a França ratificaram finalmente oTratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, parecia que, por fim, o terror nuclear ia para os livros da história da minha adolescência. As guerras seguintes, por mais pérfidas e mortíferas (ex-Jugoslávia, Ruanda, Kosovo...) eram "à moda antiga", ou rápidas e clínicas como a primeira guerra do Golfo. O terrorismo endémico da Europa ia-se esvaindo e sobrava o terrorismo pirotécnico para consumo massificado da Al-Qaeda ou do Daesh. Não pensei ter de voltar a ter medo de uma bomba H durante a minha vida. Não pensei que o mundo andasse assim ao para trás, com uma cambada de irresponsáveis a brincar com coisas demasiado sérias. Como se o que andamos a fazer ao clima não fosse suficientemente grave para a saúde do Planeta. :-(

2017-08-24

Moribundo, mas não morto!

Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue...

Foi em 2004 e hoje faz anos :-)

2017-06-28

Apre!

Hoje fui apanhada à socapa por três mormons. Não sei bem como, que costumo fareja-los à distância, mas parece que abriram um templo que eu ainda não tinha reparado que existia. Bom-dia para cá, bom-dia para lá (sim, respondo, que ensinaram-me a ser bem educada) e começa a lenga-lenga da praxe. E o cigarro estava no início, por isso fui pedindo delicadamente que não falassem comigo nem de religião nem de deus, com as criaturas a insistirem até que uma se sai com um "tenho a certeza que deus está à sua espera". Passei-me! (o café ainda não devia ter feito efeito) e olhei a criatura nos olhos e perguntei: "como sabe? Ele mandou-lhe um telegrama?  É que se enganou na porta porque não estou interessada em nenhum planeta e já apalavrei um vulcaozinho no inferno". E pronto! As criaturas desapareceram à velocidade da luz.

2017-03-05

Imbecis e imbecilidades


Se há um idiota no parlamento europeu a defender opiniões imbecis, preocupem-se antes com quem votou no idiota e menos com qualquer tipo de censura descabida. Viver em democracia é viver também com idiotas. E esperar que nunca sejam a maioria.

2017-01-03

Dores que não sei imaginar...




[Nick Cave:]
Let us go now, my one true love
Call the gasman, cut the power out
We can set out, we can set out for the distant skies
Watch the sun, watch it rising in your eyes

[Else Torp:]

Let us go now, my darling companion
Set out for the distant skies
See the sun, see it rising
See it rising, rising in your eyes

[Nick Cave:]

They told us our gods would outlive us
They told us our dreams would outlive us
They told us our gods would outlive us
But they lied

[Else Torp:]

Let us go now, my only companion
Set out for the distant skies
Soon the children will be rising, will be rising
This is not for our eyes


2016-12-16

Aleppo

"Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

2016-11-19

ELA

A minha amiga mais antiga, mais velha do que eu um mísero dia, está a morrer. Esclerose Lateral Amiotrófica.

Em apenas dois anos desde que se declarou a doença até agora, o corpo foi-se desligando. Não fala há meses. Agora todos os dias são uma luta só para respirar. E o pior? Lúcida. Sem perder um único neurónio a não ser os responsáveis pela parte muscular. Presa ao corpo irreversivelmente, sabendo que definha e vai morrer, se não hoje, amanhã ou para a semana, deixando para trás dois filhos pequeninos.

Puta de doença!

2016-10-24

Democracia

A democracia é como a liberdade: vai haver sempre quem saiba delas abusar. E será também como uma certa ideia de justiça, aquela que nos permite defender que é preferível um culpado solto do que um inocente na prisão.

Os conceitos em si nada têm de errado; o que uns quantos fazem com esses conceitos, deturpando-os, adaptando-os aos seus interesses, corrompendo o seu sentido, é que sim.

Não culpo a democracia, como não culpo a política, como não desbarato por completo os conceitos operativos com que aprendi a pensar o real e a inserir-me nesse mesmo real como ser político. Mas culpo quem usa e abusa da política, até tantos de nós que se mantém sempre confortavelmente arredados da política e da polis e dos mais básicos exercícios de cidadania. Os mesmos que apenas se lembram do Estado quando chega a hora de estender a mão, num exercício de demagogia em tudo semelhante à daqueles a quem entregamos a responsabilidade de nos governar esperando que não se governassem apenas a eles mesmos.

Talvez afinal os culpados sejamos todos nós, habituados a uma certa ideia de democracia e demitidos de direitos e deveres. É porque tantos de nós se mantém assim de fora que o exercício político virou coutada de uma classe. E, como todas as classes, zelosa dos seus privilégios, temerosa de perder o pé, a viver à conta de quem apenas reclama e que nem sequer levanta o cu para ir votar.

Fomos nós que fabricamos o monstro; não foi a democracia.

2016-09-23

Inépcia

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2016-09-20

Salvem os ricos?

Ainda estou indignada com a tal treta dos direitos dos ricos. A pensar na geração dos € 1000 que nunca saiu dos € 1000 e agora até se acha cheia de sorte. E a pensar como para todos os outros sobra apenas o resto. Quando o resto já não chegar, será que ainda teremos forças para fazer o tal manguito?