Páginas

2006-04-19

Madrugada


Ariana Richards - Reverie


E é quando chegas a desoras, por entre os espaços que a noite tece ao abrir-se à madrugada, que nasce um calafrio na minha espinha. Começa breve, no cós das costas, que para estas coisas as costas são um espaço com costura.

Sobe lentamente, como que dedilhado, imprecisa-se por entre os gumes da minha pele arrepiada. É quase como um sopro, ou um suspiro. Tem sabor e cheiro, tem tacto. É um ir e vir subtil, um ensaio quase geral a que falta a música.

Chega a saudade por entre as primeiras luzes da manhã, levanta os lençóis e aloja-se junto. Abraça-me e ficamos lá as duas.

Mas estou fria, sozinha, enrodilhada na vontade de te ver chegar a desoras, para me abraçares o corpo pelas costas, fazeres com as mãos ninho no meu peito e me despertares o corpo e os sentidos.

Comprimo-me assim contra o vazio feito lembrança. E ainda te sinto o cheiro a limão e baunilha, com laivos de maresia. Sabor agridoce, como lágrimas sorridas. Ou o toque da distância, quando a saudade me vem acordar, neste imperfeito chegar de coisa alguma.

Um fado de te sentir sem te ter verdadeiramente, sempre a desoras, como as luzes da madrugada ou os primeiros raios de sol, que não me aquecem, enquanto brilham sobre a minha pele nua.

21 comentários:

  1. Depois de um post tão bem costurado, a minha actual falta de inspiração só me permite dizer-te, plagiando os trovante, que mais vale ter saudades do futuro.

    ResponderEliminar
  2. Todos os anos, enquanto o início de Maio se aproxima e vejo o calendário a marcar mais um ano sobre a maior das ausências, entro num estado de espírito que não gosto de impor a ninguém, mesmo quando, sem nem bem querer, ele passa por entre as palavras que não digo. A saudade é tramada!

    ResponderEliminar
  3. A saudade também pode ser vida. Aliás deve. Não deixes que ela mate mais nada em ti.
    Um grande beijo.

    ResponderEliminar
  4. Muito tramada (a saudade)...
    Beijinho

    ResponderEliminar
  5. Porque será que não nos resolvemos antes a "inventar" a alegria?

    Tramadíssima!

    ResponderEliminar
  6. Como tu própria escreveste, "a saudade é tramada", mais ainda se a pessoa que a fez nascer, mesmo em presença física, não deixa de ser ausência...

    ResponderEliminar
  7. Há uns posts atrás, dizia que há dias em que me deprimo a mim mesma. Infelizmente, é quase sempre contagioso. Talvez por isso ande mais silenciosa.

    ResponderEliminar
  8. Inventar a alegria não é tarefa solitária.

    Esta tem que ser passada a alguém e devolvida, como uma bola de sabão soprada entre duas bocas.

    ;-)

    ResponderEliminar
  9. Eu estou com o Old. Alegria é tarefa repartida. Tu cá, ele lá, os dois cá, toma lá dá cá.
    Inventa-te e dá-te.
    :-)

    ResponderEliminar
  10. Quero ver os teus olhos a rir, ruivinha. Um beijo grande.

    ResponderEliminar
  11. Mas se reclamas sempre dos meus "moods", Gaivina...

    :p

    ResponderEliminar
  12. Tens razão, Old Man. Mas há, ainda assim, a predisposição para a alegria e essa tem de ser inventada e reinventada constantemente por nós :)

    ResponderEliminar
  13. Nem sempre é assim tão fácil, Jaquelina Pandemónio :)

    ResponderEliminar
  14. Eles vão sorrindo, Zu. O sentimento é "só" agridoce ;-)

    ResponderEliminar
  15. Obrigada eu por teres gostado, Velvet :)

    ResponderEliminar
  16. é fácil é!!
    basta querer, fazer, inventar, e se for preciso esquecer para recomeçar.
    sei do que falo rapariga ;-)
    ...esta do falo...não estava prevista,ou será que estava?
    ...adiante
    :-)**

    ResponderEliminar
  17. Eu sei do que falas - e do que falo também - durante quase todo o ano, J.P. Mas há efemérides que... bem, adiante!

    Beijo

    ResponderEliminar