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2026-03-26

Notificação de erro de focagem


Antes mesmo de chegar aos 50, o meu sistema de captação de imagem sofreu um colapso. A presbiopia — esse nome pomposo para o fenómeno dos “braços que encolheram durante a noite” — instalou-se sem aviso, transformando o simples ato de ler uma mensagem no telemóvel num exercício de alongamento digno de uma aula de yoga para avançados.

A minha cabeça (firmemente convencida de que tem 30 e tal anos) tenta ler. O meu corpo (de 55) exige que o objeto seja colocado na divisão ao lado para que os píxeis ganhem nitidez. O resultado é uma coreografia de aproxima-e-afasta que me faz parecer um músico de rua a tocar um acordeão invisível — e mal disposto.

E é oficial: a indústria farmacêutica e os fabricantes de champô adotaram fonte tamanho 2, impressa com pó de fada invisível. Não é a minha vista que falha; é o mundo que decidiu começar a sussurrar visualmente. Ler uma bula tornou-se uma missão de espionagem que exige luz de interrogatório.

O momento em que me rendi aos óculos progressivos foi trágico. Naturalmente, a tragédia teve impacto direto na carteira, mas o modelo recomendado fez-me ganhar, instantaneamente, o ar de uma bibliotecária vitoriana prestes a deserdar alguém. O meu hardware impôs uma estética que o meu software ainda não autorizou.

Além de que já não basta ler. Agora é preciso que a sala tenha a potência luminosa de um estádio em noite de final da Taça. Sem luz branca em dose industrial, a página de um livro é apenas um deserto de linhas encavalitadas e intenções perdidas.

A presbiopia é a forma irónica que o corpo encontrou de me dizer: “Se queres ver ao perto, tens de te afastar.” Uma metáfora filosófica de baixa qualidade que o meu sistema operativo decidiu impor à força.

Não há nada que me falte tanto como foco automático — ou, no mínimo, mais dez centímetros de braço para compensar a teimosia do cristalino. Até lá, continuarei a ver o mundo através de lentes de aumento, com a dignidade possível e o sarcasmo de sempre.

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