2023-01-01

Bento XVI

Eu nunca gostei particularmente do Papa que sucedeu a João Paulo II. Não gostei de quase nada do que fez ao longo do pontificado, dos retrocessos evidentes que lhe encontrei em direcção a padrões de fundamentalismo que pensei que o Catolicismo estaria paulatinamente a abandonar, desde as missas de costas voltadas para os fiéis, passando pelo facto de me ter chamado terrorista aquando dos debates sobre o referendo à IVG, com os escândalos da pedofilia dos padres de permeio e acabando no canto gregoriano. Não que eu tenha alguma coisa contra o canto gregoriano, ou sequer o Latim, mas pareceu-me sempre estranho que o chefe da ICAR se empenhasse em transformar as celebrações de fé em algo em que os crentes permanecessem alheados, como que meros espectadores do evento, em lugar de envolvidos e participativos no mesmo. Mas eu não sou católica e, por isso, pouco caso haverá a fazer aos meus "achismos".

E, no entanto, em alguns momentos, Bento XVI conseguiu surpreender-me profundamente, eu que sempre fui tão renitente em apreciar-lhe qualquer qualidade. Como a sua valência como cientista e a forma como tentou conciliar a racionalidade da ciência com a sua fé. Ou como quando decidiu ser Papa Emérito,  reconhecendo, talvez, que o seu tempo - e o seu propósito - após a morte de um Papa tão amado como João Paulo II, tinha passado. E com a sua renúncia foram-se os meus "achismos", especialmente quando, tendenciosa, o culpava a ele de tanta coisa que, como se viu depois, pouco ou nada teria sido capaz de alterar se não  renunciasse. 

Ser chefe máximo da ICAR é ter um tremendo poder nas mãos; será talvez também um fardo impensável. Mas os grandes homens, mais do que saberem persistir, devem saber quando chega a hora de saírem de cena. Partiu agora de vez e, olhando para trás e para a História, partiu com o respeito de todos e saudades de muitos. Eu? Eu agradeço-lhe particularmente não ter  voltado a assistir a uma agonia televisionada, como a de João Paulo II.

2022-12-09

Ah! Ainda estamos aqui!

Um dia vou começar o livro que nunca vou acabar só para fazer exercício aos neurónios. E sinto falta dos comentários dos amigos que ainda se lembram de quando eu escrevia, especialmente quando gostavam dos textos que eram mais corrosivos e sarcásticos. Durante muito tempo não percebi porque eram esses os textos que mais agradavam. Até ao dia em que passei a achar que não era tanto o meu texto, mas antes os olhos (e a personalidade, claro) de quem os lia. Os meus amigos são do melhor!

2022-09-22

De leste

 


"Somos a geração dos jovens iracundos,

a emergir como cactos de fúria

para mudar a face do tempo.


Antes de ferirmos a carne circundante,

comemos o pão amassado pelas botas

de muitos regimentos

e cozido ao fogo dos fornos crematórios.


Foram precisas inúmeras guerras,

para que trouxéssemos nos olhos

este anseio de feras acuadas.

Mordidos de obuses,

rasgados pelas cercas de arame farpado,

já não temos por escudo

a mentira e o medo.

Sem que os senhores do mundo suspeitassem,

cavamos galerias sob os escombros

e nos irmanamos nas catacumbas do ser.

Nossas mãos se uniram como pétalas

ao cerne da mesma angústia

e uma rosa de asfalto se ergueu

por sobre o horizonte.


E porque há entre nós

um mudo entendimento;

e porque nossos corações

transbordam como taças

nos festins da imaginação;

e porque nossa vontade de gritar é tamanha

que se nos amordaçassem a boca

nosso crânio se fenderia,

não nos deterão!

Ainda que nos ameacem com suas armas sutis,

nós os enfrentaremos,

num derradeiro esplendor.


Em breve, a nota mais aguda

quebrará o instante.

Bateremos com violência contra as portas,

até que a cidade desperte;

e com o riso mais puro,

anunciaremos o advento do Homem.

Porque nossas mãos se uniram como pétalas

ao cerne da mesma angústia,

para que uma rosa de asfalto se erguesse

por sobre o horizonte."


“A ROSA DE ASFALTO”

de Eduardo Alves da Costa

2022-09-03

Remendos

Uma das coisas que os anos nos ensinam é que não precisamos chegar sem remendo a qualquer lado. E que vamos acabar sempre remendados de alguma forma. No fim, a vitória é, quase sempre, conseguir chegar com os pespontos ainda no sítio.

2021-09-23

Glossário

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2021-09-18

Brexit




Sempre me pareceu um bandalho com a mania, espécie cada vez mais popular na classe política de todos os países. E um dos principais motivos para as pessoas deixarem de ir votar ou votarem em alternativas alucinadas 😔 

Só ainda não consegui decidir se não passa de um perfeito idiota incompetente, um aprendiz de Maquiavel ou um mero rato a preparar-se para saltar borda fora de um barco condenado.🤨

2021-08-25

Esta voz

O meu blogue fez ontem  anos. Tem andado paradito e muito pouco palavroso ou original. E se é certo que contra a sem vontade já resisti várias vezes, agora enfrento a falta da urgência em escrever. Não será tanto ter esgotado o espaço e o nick que o mantém. Talvez tenha sido eu quem se esgotou. Sou um universo demasiado pequeno para tanta letra. Mas vamos  a ver o que acontece para a semana...

2021-08-24

Voz em Fuga

"A vida descostura, o homem passa a linha, a corrigir os panos do tempo."

- Mia Couto

Ainda não foi este ano que a minha Voz morreu...

2021-08-19

(des)humanizar

Cara a cara, as pessoas são boas ou más, gostas ou não delas, não importa nem cor nem religião nem ideologia. É a estranheza e a distância que trazem a desconfiança e o medo. Extremismos e fundamentalismos já nada têm a ver quer com credo, quer com cor, quer com política. Viraram cultos irracionais presos com cuspe às suas desculpas e argumentos fabricados. Só resultam pela desumanização do indivíduo, transformando o outro em arquétipo sem rosto, sem família, sem sangue.

Recuso-me a meter tudo no mesmo saco. Recuso-me à lavagem cerebral de qualquer culto. Recuso-me a não ver cada pessoa que se me apresenta como indivíduo. Porque há o cara a cara, porque se gosto de uma pessoa não importa cor ou religião ou ideologia; porque se ela gosta de mim, também não é pela minha cor ou a minha falta de religião ou ideologia.

2021-08-16

Os mortos anunciados

«(...)
How many children are we who are lost 
Whose are these daughters we see turn to ghost? 
What are our souls that we have lost care 
Ring out ye musics and weep if you dare-(...)»

"September on Jessore Road", Allen Ginsberg

2021-07-01

Dia

Colecciono farrapos de alegrias, brilhos nos olhos, sorrisos a caminho de gargalhadas. Tenho medo das sombras, de alguns sonhos e desgasta-me esta rotina…

2021-06-12

Dos dias...

Enquanto o Verão finge que chega para se provar logo a seguir sol de pouca dura, começo a ponderar as virtudes dos auto-bronzeadores cada vez que dou com o trombil (e as pernas, credo! as pernas...) logo pela manhã no espelho. É que eu a cores e se não estiver pintada tenho ar de alma penada acabada de sair da tumba. Assusto-me a mim mesma! Ninguém merece e logo pela manhã, ainda com a bexiga demasiado cheia. Sim, que o medo e as bexigas cheias raramente dão bons resultados e, com um olho aberto e outro ainda fechado, ver um fantasma desgrenhado não é exactamente o melhor dos bons-dias. Porque raios não me devolve o espelho imagens a preto e branco? É que nunca se notam tanto os defeitos, bolas! E a última vez que experimentei um auto-bronzeador fiquei amarela. E pior que uma alma penada a cores, só mesmo uma alma penada com ar de sofrer de icterícia.

2021-05-19

Apre!

Há dias em que chego à net e só vejo vigilantes e pequenos Charles Lynch em muito pouco amena cavaqueira. Ah admirável mundo novo das (a)moralidades onde todos querem ser juiz e carrasco!

2021-04-24

Véspera

Na véspera do dia em que festejamos a Liberdade, por e para todos os presos políticos e de consciência que continuam a existir por esse Mundo fora:

"Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia."

Sophia de Mello Breyner - Caxias 68

2021-04-10

Sapos para engolir

E, pronto, cá estou eu hoje de manguito preparado, vítima certa da caça cega aos cobres que sobram da classe média acossada e discursos populistas fascizóides que se vão alavancar numa Justiça incompetente. E de nada vai servir o manguito, mesmo bem preparado e com um acrescento para o adaptar aos tempos: um dedo médio bem erguido num punho que já não se fecha à moda antiga, que esse símbolo já me esgotaram.