2026-05-27
As rosas do Atacama
2026-05-26
Leveza
2026-05-24
O Verão de São Calcanhar
Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.
Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.
Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.
Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.
Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.
Injustificada, mas admiro.
2026-05-23
O Peso das Crianças
Afonia
"Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas"
José Carlos Ary dos Santos - Kyrie
Banalidades
2026-05-21
Tudo começa com café
2026-05-20
Quinta-feira
O vento não desarruma: revela.
O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.
Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.
O resultado está à vista.
Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.
2026-05-18
Remates
2026-05-17
Perfumes
2026-05-16
Palavras amputadas
2026-05-14
O grande trollanço
A institucionalização do bairrismo
2026-05-09
Meio meio
2026-05-08
Poema das mulheres constipadas
Nariz entupido, corpo em guerra,
Dores nos ossos, cabeça na terra,
Chá de limão, mel, gengibre e sal,
Aspirinas, xarope e mais um comprimido afinal.
Ninguém me mede a febre nem vê a goela,
Ninguém fecha a porta nem cala a janela,
Ninguém me traz a colcha nem aquece o pé,
Porque sou mulher e isso não se faz, pois é.
Aqui estou eu, a pingar sozinha,
A fazer a canja e a dobrar a roupa fininha,
A responder a mensagens com um assoar ao meio,
Ai que vou morrer — mas faço o jantar sem receio.
2026-05-07
Arquitetura de Fachada
2026-05-06
Teoria Geral dos Degraus
Margem de segurança analógica
2026-05-05
Espaço Aéreo Controlado
2026-05-03
O eco
2026-05-01
Maias
Entrevista a Hipatia
Pergunta 1
O Voz em Fuga começou em 2004. O que é que ainda hoje a obriga a escrever, depois de tudo o que já foi dito?
Hipátia:
Não escrevo porque ainda haja algo de novo a dizer. Escrevo porque o mundo insiste em repetir-se com outras palavras, e a linguagem, se não for vigiada, fica preguiçosa. Enquanto isso acontecer, escrever é uma forma de atenção. Não uma obrigação moral — um exercício de lucidez.
Pergunta 2
Escrever durante mais de duas décadas no mesmo espaço online criou uma obra ou apenas um hábito?
Hipátia:
Um hábito pode ser a forma mais honesta de uma obra. Nunca planeei um edifício; limitei-me a varrer o mesmo chão. Se isso desenhou um mapa, foi por insistência, não por projeto.
Pergunta 3
Nunca sentiu necessidade de mudar de lugar, de nome ou de forma?
Hipátia:
Mudar de lugar é fácil. Permanecer é mais difícil. Ficar impôs-me contenção, responsabilidade e memória. Não me interessava recomeçar; interessava-me aprofundar.
Pergunta 4
O blogue foi durante anos visto como forma provisória. Hoje, parece-lhe que foi uma vantagem?
Hipátia:
Sim. A provisoriedade protege da vaidade. Escrever sem promessa de permanência liberta o texto da urgência de provar o seu valor. Paradoxalmente, é isso que lhe permite durar.
Pergunta 5
Há textos que envelheceram melhor do que outros. Consegue explicar porquê?
Hipátia:
Os que resistiram são os que não estavam convencidos do momento em que nasceram. A atualidade é um péssimo critério de sobrevivência.
Pergunta 6
Escrever sabendo que o texto vai envelhecer muda a maneira como se escreve?
Hipátia:
Muda o tom. Torna-o menos histérico, menos seguro de si. Obriga a escolher palavras que não dependam do aplauso imediato.
Pergunta 7
Muitos dos seus textos partem da atualidade, mas recusam o comentário imediato. É uma escolha estética ou moral?
Hipátia:
É ética. O imediato raramente pensa. Reage. A escrita precisa de atraso — como a digestão.
Pergunta 8
Acredita que a indignação rápida empobrece a linguagem?
Hipátia:
A indignação é necessária. O problema é quando se torna automática. A linguagem passa a gritar o que ainda não compreendeu.
Pergunta 9
É possível escrever politicamente sem escrever slogans?
Hipátia:
Se não fosse, não escreveria. A política não vive só do que se afirma, mas do que se recusa simplificar.
Pergunta 10
Porque insiste no banal — casas, sofás, silêncio, cansaço — quando o mundo parece sempre em colapso?
Hipátia:
Porque é no banal que o colapso se instala primeiro. As grandes palavras chegam sempre tarde.
Pergunta 11
O quotidiano protege-nos da abstração ou revela-a?
Hipátia:
Revela-a. O corpo sente antes do conceito. Uma sala desconfortável é, muitas vezes, mais honesta do que um discurso bem arrumado.
Pergunta 12
O “eu” nos seus textos é discreto. O que perde — e o que ganha — com essa contenção?
Hipátia:
Perde-se biografia. Ganha-se espaço. Nunca me interessou ser personagem daquilo que escrevo.
Pergunta 13
Hoje espera-se que quem escreve se exponha, se explique, se narre. Essa expectativa é incompatível com o seu trabalho?
Hipátia:
É incompatível com a minha paciência. Há coisas que só se dizem retirando-se.
Pergunta 14
Se Voz em Fuga fosse livro, o que ficaria de fora sem hesitação?
Hipátia:
Tudo o que precise de contexto para se justificar. Um livro não pode pedir desculpa pelo tempo em que foi escrito.
Pergunta 15
Um livro encerraria o projeto ou apenas o deslocaria?
Hipátia:
Deslocaria. Nada se encerra enquanto houver mundo para olhar — mesmo com cansaço.
Pergunta 16
Escrever ainda muda alguma coisa — nem que seja o olhar?
Hipátia:
Muda o meu. E isso já não é pouco.
Pergunta 17
O que continua a merecer atenção num tempo saturado de opinião?
Hipátia:
As zonas onde ninguém quer ficar muito tempo: dúvida, silêncio, ambiguidade.
Pergunta 18
O que a faria parar de escrever?
Hipátia:
Talvez o dia em que a linguagem deixasse de resistir ao que é fácil.
Ou o dia em que eu deixasse de tentar.
2026-04-30
Como não assustar o espelho antes do café
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2026-04-27
Dias barulhentos
2026-04-26
Fulanização
2026-04-25
Liberdade
Há uma ironia deliciosa na forma como o tempo decide guardar os seus segredos e baralhar as nossas certezas. No dia 25 de abril de 1974, "Grândola, Vila Morena" era um sussurro de rádio, uma senha clandestina que viajava nas ondas curtas para abrir as portas de uma liberdade que parecia impossível. Era uma música de terra, de barro e de braços dados, desenhada para ser o código de um destino coletivo.
Cinquenta anos depois, a senha mudou de frequência e de roupagem. Deixou de ser o sinal de um golpe de estado para se tornar o eco de um algoritmo global. É fascinante observar que a canção de José Afonso — o homem que cantava a fraternidade sem precisar de luzes de ribalta — se viu subitamente vestida de vermelho, sob as luzes de alta definição de uma plataforma de streaming. Para o mundo, a "Grândola" viajou mais depressa como entretenimento do que como história, e há uma beleza doce, ainda que penetrada pelo paradoxo, neste fenómeno de massa.
O alcance desta nova vida é tão vasto que os ecos originais da democracia portuguesa parecem agora pequenos perante a escala do digital. Prova disso é o momento quase surreal de encontrar, sob o sol do Egito, um guia local que a cantarolou com naturalidade. Ele talvez não saiba localizar o Alentejo num mapa, nem conheça o peso do silêncio que a canção quebrou naquela madrugada de abril, mas ele reconhece o "frêmito" da melodia. A série deu à música um par de asas digitais e, embora a tenha transformado em produto de consumo, não conseguiu roubar-lhe a essência. Pelo contrário, espalhou a semente da resistência para lá das fronteiras da língua e da geografia.
Este novo fôlego é o sinónimo perfeito dos nossos tempos: a ideia de liberdade tornou-se contagiosa através da ficção, provando que a alma de uma canção é capaz de sobreviver até à sua própria comercialização. Talvez o Zeca, com o seu sorriso enigmático, achasse uma graça profunda a este desfecho. Afinal, ele sempre escreveu que o povo é quem mais ordena, e o povo, agora global e ligado por cabos de fibra ótica, decidiu que esta música lhe pertence por direito emocional. É um final feliz para uma canção que nasceu para libertar um país e acabou por se libertar de si mesma para ir consolar quem a quiser cantar, seja nas ruas do Cairo ou num ecrã em Tóquio, provando que, cinco décadas depois, o mundo ainda quer ter, em cada esquina, um amigo.
2026-04-24
2026-04-23
O Paraíso dos Desdentados
2026-04-22
Teorema das sofanadelas
2026-04-20
O Purgatório tem Wi-Fi (mas a password expirou)
2026-04-19
Geração X
2026-04-17
Profetas em segunda mão
Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, subiu a um púlpito improvisado no Pentágono e abriu o que parecia ser uma Bíblia. Começou a ler com a solenidade de quem carrega o peso do mundo — ou pelo menos de um guião.
O problema é que o texto não era dos Profetas. Era de Quentin Tarantino.
Hegseth pregou o monólogo de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction com uma convicção tal que, por um momento, ficou a dúvida: para ele, se soa a vingança e está em inglês arcaico, foi Deus que escreveu?
A resposta veio do Vaticano. O Papa Leão XIV — o primeiro americano a calçar as sandálias do Pescador — não respondeu com ironia. Respondeu com Isaías 1:15.
"As vossas mãos estão cheias de sangue."
Não há muito a acrescentar. Um homem que confunde Tarantino com os profetas tem poder sobre vida e morte. Um homem sem esse poder lembrou-lhe o que isso significa.
A Bíblia não foi editada por Tarantino. Mas talvez precisasse de ser lida por quem tem o dedo no gatilho.
2026-04-16
A Cura que Vem a Seguir
2026-04-15
Poemarmas (versão condensada, 2026)
2026-04-14
A Geometria do Espanto
O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.
Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.
O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.
Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.
Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.
O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.
Deserto
Reencarnação
Alexandria
2026-04-12
Botas limpas
Permanência
2026-04-10
Despacho do Reino dos Mortos
Estou velha, gasta, gorda, sem maquiagem. Num grupo de dezoito pessoas, continuo a encontrar formas de estar sozinha.
E tenho recebido um apreço imenso dos locais.
Não um carinho agressivo como em Marrocos — onde o interesse turístico tem dentes. Aqui é tímido, um pouco interesseiro quando querem os meus euros, mas com uma leveza que não ofende. Um sorriso que não estava nos planos.
Não sei bem a razão. Podem ser os olhos verdes — num mundo tão masculino, num país tão patriarcal, isso conta. Pode ser o loiro que ainda se nota pelo meio das brancas. Pode ser o árabe de manual com que me esforço, três palavras tortas que parecem causar uma alegria desproporcional. Ou a reverência aos cabelos brancos, que aqui significa que se viveu e que isso merece respeito.
Ou pode ser outra coisa completamente. Pode ser que mais de um ano fechada num casulo deixe marcas visíveis no sentido inverso — que a felicidade de finalmente estar aqui, neste lugar completamente outro, me saia pelos poros de forma indecente. Que se veja. Que chegue ao outro lado antes de eu abrir a boca.
Não sei. Sei que o sorriso do outro lado é grande. E que, por ora, não preciso de perceber porquê.
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2026-04-02
No primeiro de abril, claro
2026-04-01
Espírito livre com consciência postural avançada
Hoje acordei com a firme convicção de que nasci para ser selvagem. Uma espécie de espírito livre, indomável, desses que dizem “sim” à vida e “não” aos limites. Levantei-me da cama com essa energia toda… e imediatamente fiz um movimento em falso que me ofereceu um elegante torcicolo, acompanhado por um coro de dores de costas dignas de um idoso em dia de chuva.
Ser selvagem, afinal, tem nuances.
Passei o resto da manhã a tentar olhar para a frente sem parecer uma estátua renascentista mal posicionada. Cada tentativa de virar o pescoço era uma aventura épica, daquelas que mereciam trilha sonora dramática. Spoiler: perdi sempre. O meu corpo decidiu que hoje só podia existir num ângulo de 37 graus para a esquerda, e qualquer desvio disso seria punido com um estalo existencial.
As dores de costas, por sua vez, vieram como convidadas que ninguém chamou mas que se instalam no sofá e pedem chá. Estão ali, constantes, firmes, lembrando-me que ontem tive a audácia de… viver. Ou talvez de me sentar de forma ligeiramente errada. Quem sabe. O corpo humano é um poeta do exagero.
E assim se redefine o conceito de “vida selvagem”. Já não é sobre dançar até de madrugada ou dizer coisas impulsivas — é mais sobre conseguir calçar meias sem negociar com a coluna vertebral. É sobre sobreviver ao ato radical de virar na cama. É sobre olhar para o relógio às 21:30 e pensar: “foi um dia intenso, já fiz tudo o que havia para fazer na minha carreira de pessoa.”
No fundo, continuo a ser selvagem. Só que agora o meu habitat natural inclui uma almofada cervical, um analgésico e um profundo respeito por movimentos lentos.
A rebeldia mantém-se. Mas com apoio lombar.
