2026-09-06

A carcaça

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

A economia da cunha

O semáforo da esquina esteve avariado catorze meses.

Não era uma avaria sofisticada. Não exigia inteligência artificial nem um engenheiro da NASA. Era um semáforo: duas ou três lâmpadas com uma função modesta — dizer às pessoas quando podiam avançar sem morrer.

Durante catorze meses, esteve amarelo para todos. Para os carros, para os peões, para quem vinha em sentido contrário.

Houve um acidente. Depois outro. As pessoas do prédio fizeram o que ainda se recomenda a quem acredita nas instituições: assinaram um papel, entregaram-no na Câmara, esperaram.

O semáforo continuou amarelo.

Até que o neto do vereador começou a andar de bicicleta naquela rua.

Resolveu-se em três dias. Apareceu alguém com uma chave de fendas e uma preocupação genuína pela segurança rodoviária que estivera catorze meses em licença sabática.

Ninguém disse "cunha". Disse-se "finalmente deram-lhe seguimento". Já nem é preciso esconder a cunha. Basta mudar-lhe o nome. Hoje chama-se contacto.

A minha avó praticava uma forma mais artesanal e mais honesta de corrupção afectiva. Levava uma caixa de pastéis a quem lhe tratasse dos papéis. Chamava-lhe "uma delicadeza". E havia qualquer coisa de reconfortante naquela transparência: toda a gente sabia ao que ia.

Hoje somos mais sofisticados. Já não levamos uma caixa de pastéis. Levamos um apelido, um primo, um grupo de WhatsApp que não tem nome porque não precisa. E, sobretudo, levamos a convicção de que aquilo que conseguimos não foi por cunha — foi por mérito.

Portugal é um país profundamente comprometido com a coincidência.

Há pessoas que passam meses a tentar marcar uma consulta, obter uma licença, resolver um processo. E há outras que dizem: "Deixa estar, eu conheço lá uma pessoa." Essa frase é o horário de funcionamento não oficial de todos os serviços públicos.

Mas quase nunca vemos quem fica do lado de fora. A pessoa que esperou. Que cumpriu os prazos todos, que entregou os documentos todos, que não conhecia ninguém. Essa pessoa é a moeda da economia da cunha: paga com tempo. E quando se cansa, paga deixando de tentar.

Não aparece em lado nenhum. Nem nas estatísticas, nem na conversa de café, nem sequer na sua própria indignação, porque já se convenceu de que foi apenas azar.

O semáforo está verde há dois anos. Ninguém pergunta porquê.

Não corrigimos o sistema. Corrigimos a memória.

2026-09-02

O direito ao silêncio

Há coisas que não deviam ser consumidas em massa. A morte, certamente, merecia maior pudor.

Não digo que devêssemos fechar os olhos ao horror. Há mortes que precisam de ser notícia. Há crimes que precisam de ser denunciados. Mas há uma diferença entre informar e consumir. E tenho a sensação de que já não sabemos onde acaba uma coisa e começa a outra.

Acontece uma tragédia e, em poucas horas, sabemos o nome do morto, o nome do assassino, a cara do assassino, a cara da vítima, a sua infância, os seus vizinhos, o que publicou há sete anos numa rede social e, se houver tempo, até a marca dos sapatos que usava no dia.

Depois vêm os comentadores. Depois vêm os especialistas. Depois vêm as reconstituições. Depois vêm os vídeos em loop. Depois vêm as imagens que ninguém precisava de ver pela décima vez, mas que alguém decidiu que precisávamos de ver porque a audiência também precisa de ser alimentada.

E, no meio disto tudo, há uma família a escolher que fotografia levar para o velório, enquanto nós escolhemos que vídeo partilhar.

É aqui que me pergunto: onde termina o que é notícia e onde começa o que já é espetáculo?

Porque há uma perversidade particular em certos actos de terrorismo: não basta matar. É preciso ser visto. É preciso ocupar espaço, provocar medo, entrar na cabeça de milhões de pessoas.

E nós, com a nossa infinita disponibilidade para olhar, acabamos por entregar exactamente aquilo que era pretendido: uma audiência, um nome, uma narrativa. Os minutos de antena que talvez fossem parte do prémio.

Informar que houve um atentado é impedir que o medo fique abstracto. Mostrar o rosto do assassino em loop é transformá-lo em mito. Há acontecimentos que precisam de ser conhecidos sem precisarem de ser exibidos até à exaustão.

Há mortos que merecem ser lembrados sem que a sua morte seja transformada em conteúdo.

E há monstros que não precisam de tanto tempo de antena. Precisam, precisamente, do nosso silêncio.

Porque talvez a pergunta não seja o que temos o direito de saber.

Talvez devêssemos começar a perguntar o que estamos a ajudar a acontecer ao repetir isto pela centésima vez.

A informação é um direito.
A atenção tornou-se o prémio.

E nós andamos a distribuí-lo de graça.

2026-09-01

Não se interrompe quem está a fazer

Há uma regra básica da humanidade que continua inexplicavelmente por escrever nos manuais: se uma mulher está a fazer uma coisa que um homem disse que não podia ser feita, não a interrompas.

Não perguntes como está a fazer.
Não expliques como tu farias.
Não digas «isso não vai resultar».

E, sobretudo, não apareças cinco minutos depois com a frase:
— Estás a precisar de ajuda?

Não.
Neste momento, ela não precisa de ajuda. Precisa que te afastes lentamente, sem movimentos bruscos, como quem se aproxima de um animal selvagem.

Porque ela já passou pela fase da dúvida.
Já passou pela fase da irritação.
Está agora naquela zona luminosa em que uma pessoa deixa de querer provar que consegue e passa simplesmente a querer ver a cara de quem disse que não conseguia.

E há uma satisfação muito particular em terminar uma coisa que nos disseram ser impossível.
Não é vingança.
É serviço público.