2006-04-28

A vida é conversável











Markus Raetz (folha de eucalipto sobre papel)


Sempre tive para mim que a vida é algo conversável.
Vou transpondo os acontecimentos da vida, perguntando-lhes do entendimento. Tenho uma máxima secreta que me aconselha a não esquecer nada, que não tenha entendido bem antes.
Assim, vou fazendo uma série de recorrências ao Passado e às pessoas que o habitaram, na esperança de poder desenhar melhor uma cartografia interior:
- Sucedem-se os encontros com antigos amores, amigos desavindos e livros recusados.
Tudo isso ajuda a reencontrar o som dos passos que fazem a nossa caminhada.
Sei que tu, leitor, dirás o mesmo que eu numa tautologia que habita os dias que vamos vivendo...

Intimamente


aqui


E, sim, tens razão: falo de intimidade. Ou talvez seja que, mais tarde ou mais cedo, tudo o que me dá tesão acabe transformado em palavras. Depois há o blogue onde é tão fácil colocá-las, nesta ilusão de que ninguém vê, ou que ninguém percebe. E as palavras vão dizendo o que sinto e o que quero, ou tão só o que gostaria. Acabo a misturar desejo com desejos, vontade com vontades, sonho e realidade. Acabo fragmentada pela excitação encerrada na palavra e quase fica tudo dito, não fizesse a realidade também parte da equação. E, aí, vão-me faltando as palavras, como se olhos nos olhos não tivessem nem arrumo, nem valor. E digo-as aqui, talvez porque saiba que não vens ler, que só cá chegas quando te enganas no caminho. Mas é libertador saber-te, saborear-te, longe das palavras que invento. Afinal, a voz continua a fugir-me. Largo-a para longe, lanço-a ao espaço. Olhos nos olhos, espero antes que me leias, enquanto permaneço muda. Ou falo demais, para nada dizer. Mas é que, contigo ao leme, limito-me a pedir bis. Várias vezes. Depois… bem, depois logo se vê para onde me fogem as palavras.

2006-04-27

Ciúme?

.....vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos
.... vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir....
.... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças
e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras....
.... iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias...

Al Berto - Amor dos Fogos


E imagino todos quantos te olham neste momento e eu sem te ver. E imagino todos quantos te saúdam e eu sem te tocar. E imagino os sorrisos que te dedicam - e que mereces, bem sei -, mas que eu não estou aí para contrariar. E imagino até os largos passeios beijado pela brisa, ou os raios de sol sobre a tua pele. Ou o cair do rol da noite, que também vai visitar-te amiúde. Ou a dona do café, que me faz sempre cara feia quando estou contigo e que, por mais que digas, sei bem por que não gosta de mim. Ou a menina da loja de música, ou o calmeirão que te vende o jornal. Estão todos ai, à tua volta, junto com todos aqueles que nem quero imaginar. E eu sem te ver. E sem que me vejas, que isto de estar longe da vista ainda me causa maior espécie.

Não, não é ciúme. Não pode ser ciúme. É quase ciúme. É mais um quase. Um não chega a ser, que se parece em demasia. Mas não é ciúme. Não pode ser ciúme.

E raios! Porque queres saber que roupa visto, ou se pintei ou não os olhos, ou se me ri mais do que três vezes para o senhor do café? Não me digas que te falto, que tens esses todos perto de ti. Eu estou apenas para aqui sozinha, a pensar se é ciúme ou não é esta falta que me fazes, as ganas que tenho de te esconder no meu mundo para que sejas só meu. Não, não me perguntes se vesti a saia que tu gostas. Ou se pus a camisola que tanto gostas de tirar. Tu estás ai de certeza com as calças que te ficam melhor e esse sorriso matreiro e esse ar de encantar. E eu para aqui sem ti.

E, não, não é ciúme. Não me digas que é ciúme. É só vontade de te agarrar.

Oh Frogas...


(recebida por mail)


... quando é mesmo que fazes anos,
sapinho?

Linda idade!


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Parabéns, Rosmaninho!

2006-04-26

Irra!


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Deve ser muito subversivo propalar a defesa da felicidade e do conhecimento. Aliás, todas as épocas mostraram-nos isso mesmo: conhecimento é poder, um poder roubado a quem gosta e quer manter o próprio poder. E a fórmula mais básica para impedir essa fuga do poder dos punhos de uns quantos, está no medo, está na culpa. Ora, nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã impôs em todos nós, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba acho que só lá esteve sempre para enganar...

Letras

Adieu tristesse
Bonjour tristesse
Tu n’es pas tout à fait la misère
Car les lèvres les plus pauvres te dénoncent
Par un sourire (...)


Paul Eluard - À Peine Défigurée



Eu não sei desenhar. Se soubesse, desenharia desejo. E talvez ternura. E estrelas. E sorrisos. E gargalhadas.

Só não desenharia tristeza: fica melhor em palavras.

2006-04-25

Cravos de Abril


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Isto está para breve, rapaz. Está mesmo por um fio. Vais ver como tenho razão.

Que é lá isso, rapariga. Enxuga essas lágrimas, que o teu filho há-de voltar vivo para casa.

Oh miúda, que cantas tu? Já não te disseram que o Zeca é para cantar baixinho?


À memória do meu bisavô, que sempre acreditou e, no entanto, morreu quatro meses antes de chegar a liberdade, que tanto teimou que havia de vir, que tanto quis que viesse.

2006-04-23

Olho gordo


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Aqui está uma coisa que, em temos racionais, não entendo. Também é verdade que nunca me dei ao trabalho de investigar. É assim uma espécie de mito urbano – e eu acho piada aos mitos urbanos –, indo buscar as suas raízes à ruralidade. Talvez porque a ruralidade conseguiu preservar e diluir mais facilmente a herança pagã que todos carregamos.

Mas há, de facto, em quase todos nós esta apetência para acreditar na sorte, ou na falta dela, bem como no favorecimento que os deuses nos podiam atribuir ou retirar em cada momento. E, claro, na forma como a inveja alheia incide sobre nós e nos pode fazer dano.

Quando comprei o meu carro, por insistência da minha mãe, foi colocado na mala um alho com dois alfinetes espetados em forma de cruz. Ainda lá deve andar… Sei que está lá. Ou esteve. Para me proteger da má sorte, do mau-olhado, do olho gordo da inveja. Se resulta? Não sei.

Talvez resulte. Talvez não passem de acasos. Mas a primeira vez que bati de carro – e nem foi grande o acidente – foi por me ter desviado de uma criança de cerca de três anos que me apareceu a correr, vinda não sei de onde, dentro de um parque de estacionamento. Até hoje não faço ideia como vi a criança a tempo, porque estava a olhar para o lado esquerdo, numa curva, quando a criança me apareceu do lado direito, mesmo na direcção da roda do carro. Demasiado pequena para ser bem visível, demasiado ingénua para entender o que é um carro em movimento. Talvez tenha sido sorte. Talvez só uma boa visão periférica. Não sei como vi a criança. Sei que a vi… e tive sorte.

É que ele há coisa que, por incrível que pareça, devem ser mesmo uma questão de sorte. Ou fado. Ou acasos incrivelmente bem alinhados.


(por via das dúvidas, vou deixar na Voz um amuleto… que las hay, las hay!)

2006-04-22

Não concordo!


Posted by Picasa Cap


Não, não basta precisarem de nós para sermos lembrados. Acontece muito, todos sabemos. Mas também é um facto que há pessoas preciosas, sempre lembradas, não importa porquê. São aquelas que parecem estar sempre presentes, que dão sem precisarmos pedir; são as que partilham momentos, as que nada exigem em troca. Estão lá. Basta assim. Mesmo quando mais silenciosas – ou às tantas quanto mais silenciosas – continuam parte da forma como imaginamos o mundo.

Falo apenas por mim, claro, mas sei que muitos se podem juntar a esta minha afirmação: não sei imaginar a net sem o Cap, nem passear pelos blogs sem ir ao (re)prima. E nem preciso dele exactamente para nada neste momento, excepto o enorme prazer de o ter por companhia.

Salvé dia 18 de Abril


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Peter Murphy - Strange kind of love

Perdoa ter esquecido a data certa, Deep. Mas - mesmo atrasada - não podia deixar de dar-te os parabéns, ao som da música que sei que gostas.

2006-04-21

Espanto


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Será melhor levar a armadura, a perna de pau, não esquecer a dentadura e muito menos o olho postiço?

Música


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Dead Can Dance - Song of Sophia

A tentar relaxar... afinal, hoje já é sexta!

(Somos feitos também de memórias. Só precisamos de aprender a lidar com elas. E eu admito que não sou muito hábil...)

2006-04-20

Sem tempo


Claude Monet


Vivemos na era que nos nega o ócio, por estar tão imbuída da necessidade de fazer negócio. Violentamos os nossos corpos e os nossos sonhos num ataque diário de vozes roufenhas ou buzinas vindas de um qualquer despertador. E passamos o dia a bocejar. Inventamos mil técnicas para nos facilitarem a vida e procuramos qualidade de vida. No fim, temos pela frente mais um dia de negócios e engarrafamentos e acordar ao raiar da aurora. Não há tempo para o ócio. Um bocejo é quanto nos resta.

2006-04-19

Madrugada


Ariana Richards - Reverie


E é quando chegas a desoras, por entre os espaços que a noite tece ao abrir-se à madrugada, que nasce um calafrio na minha espinha. Começa breve, no cós das costas, que para estas coisas as costas são um espaço com costura.

Sobe lentamente, como que dedilhado, imprecisa-se por entre os gumes da minha pele arrepiada. É quase como um sopro, ou um suspiro. Tem sabor e cheiro, tem tacto. É um ir e vir subtil, um ensaio quase geral a que falta a música.

Chega a saudade por entre as primeiras luzes da manhã, levanta os lençóis e aloja-se junto. Abraça-me e ficamos lá as duas.

Mas estou fria, sozinha, enrodilhada na vontade de te ver chegar a desoras, para me abraçares o corpo pelas costas, fazeres com as mãos ninho no meu peito e me despertares o corpo e os sentidos.

Comprimo-me assim contra o vazio feito lembrança. E ainda te sinto o cheiro a limão e baunilha, com laivos de maresia. Sabor agridoce, como lágrimas sorridas. Ou o toque da distância, quando a saudade me vem acordar, neste imperfeito chegar de coisa alguma.

Um fado de te sentir sem te ter verdadeiramente, sempre a desoras, como as luzes da madrugada ou os primeiros raios de sol, que não me aquecem, enquanto brilham sobre a minha pele nua.

Hipatia





«Software without borders. Knowledge without frontiers, that is Hipatia. We strive to have free knowledge, in action for towns and villages of the world.

Hipatia came up as a spontaneous coordination of people from all around the world that share a vision and a goal. And the vision is to have a global knowledge society based on freedom, equity and solidarity. Manifesto of Hipatia outlines this vision in detail.

Hipatia people want to:

- promote freedom of (and free sharing of) knowledge, as is the right of all human beings to access, use, create, modify and distribute knowledge freely and openly;
- realize, favour and/or promote the sustainable diffusion of human knowledge.

To make this goals reality hipatia people promote:

- public policies, human and social behaviours and outlook that favour free accessible, sustainable and sociable technology and knowledge;
- solidarity in the use of knowledge in the framework of an economical and social model built on the principal of equality of all human beings in all the countries of the world.»


Não sei bem se era algo assim que querias, Mad, mas o acesso ao conhecimento e à informação foi sempre uma das melhores formas para fazer de cada ser humano ou um escravo, ou um senhor do seu destino.


Defende o teu direito de pensar, porque pensar errado é melhor do que não pensar.

Hipátia de Alexandria
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Desafio (ver pormenores no Aliciante) lançado a:

2006-04-18

Parabéns, Cota Marada!


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Até me faltam os adjectivos face à exuberância dos predicados. Mulher espantosa! Leva lá um beijo de parabéns…

(Não ouves o telefone, carago?!)

Não há pachorra!


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Normalmente, quanto mais cansada estou, menos durmo. E entro num ciclo vicioso. Fico de rastos. E, sim, estou cansada, farta, sem vontade. Tenho o ego a precisar de obras e muitas vontades de silêncios. Não me apetece escrever, nem comentar. Tenho sono. Doem-me os pés, dói-me a cabeça. Estou com um mau humor que não se aguenta e só me apetece pôr fogo no mundo, ou mandar todos àquela parte, sem pachorra para imbecilidades e gente lerda e cromos repetidos... Raio de dia!

2006-04-17

Pá!


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Já murcharam tua festa, pá

Mas certamente

Esqueceram uma semente

Nalgum canto do jardim


Chico Buarque – Tanto Mar


Para mim, continuarás sempre à distância de um telefonema, que não sei desistir de ninguém. Mesmo que seja preciso dizer-te outra vez que não precisas expor-te em demasia. E mesmo que te zangues ainda mais uma vez comigo por o dizer.

Fio de prumo


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Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Tem maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.

Miguel Torga – Identidade


Deixo as mãos estendidas à espera de dar. Para que não se toldem as emoções, nem endureça o sentimento.

E é tão só a minha forma suprema de egoísmo.

Mas um dia… um dia aceitarei receber. Para que os astros se equilibrem e eu encontre, finalmente, o meu prumo.