.....vêm sôfregos os peixes da madrugada beber o marítimo veneno das grandes travessias trazem nas escamas a primavera sombria do mar largam minúsculos cristais de areia junto à boca e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos .... vem deitar-te comigo no feno dos romances para que a manhã não solte o ciúme e de novo nos obrigue a fugir.... .... vem estender-te onde os dedos são aves sobre o peito esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça ergue-te e regressa para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraças e os pássaros debicam o outono no sumo das amoras.... .... iremos pelos campos à procura do silente lume das cassiopeias...Al Berto - Amor dos Fogos
E imagino todos quantos te olham neste momento e eu sem te ver. E imagino todos quantos te saúdam e eu sem te tocar. E imagino os sorrisos que te dedicam - e que mereces, bem sei -, mas que eu não estou aí para contrariar. E imagino até os largos passeios beijado pela brisa, ou os raios de sol sobre a tua pele. Ou o cair do rol da noite, que também vai visitar-te amiúde. Ou a dona do café, que me faz sempre cara feia quando estou contigo e que, por mais que digas, sei bem por que não gosta de mim. Ou a menina da loja de música, ou o calmeirão que te vende o jornal. Estão todos ai, à tua volta, junto com todos aqueles que nem quero imaginar. E eu sem te ver. E sem que me vejas, que isto de estar longe da vista ainda me causa maior espécie.
Não, não é ciúme. Não pode ser ciúme. É quase ciúme. É mais um quase. Um não chega a ser, que se parece em demasia. Mas não é ciúme. Não pode ser ciúme.
E raios! Porque queres saber que roupa visto, ou se pintei ou não os olhos, ou se me ri mais do que três vezes para o senhor do café? Não me digas que te falto, que tens esses todos perto de ti. Eu estou apenas para aqui sozinha, a pensar se é ciúme ou não é esta falta que me fazes, as ganas que tenho de te esconder no meu mundo para que sejas só meu. Não, não me perguntes se vesti a saia que tu gostas. Ou se pus a camisola que tanto gostas de tirar. Tu estás ai de certeza com as calças que te ficam melhor e esse sorriso matreiro e esse ar de encantar. E eu para aqui sem ti.
E, não, não é ciúme. Não me digas que é ciúme. É só vontade de te agarrar.