Another promise, another scene,
Another package not to keep us trapped in greed,
With all the green belts wrapped around our minds,
And endless red tape to keep the truth confined
2010-07-05
Rebelião
2010-07-01
2010-06-30
Ai Zé!
Na verdade, talvez tenha agora alterado um pouco a indumentária. Provavelmente já não sai à rua de chapéu nem de garrafão de tinto. A barba e o bigode também devem estar mais aparaditos e já comprou umas calças novas aos chineses. Mas, quanto ao resto, tudo igual. Até ainda deve andar acompanhado pela Maria Paciência, porque há casais que não se divorciam.
No fundo, ele é, ainda, cada um de nós. E eu só gostava que houvesse força nos bracinhos deste povo para fazer os manguitos necessários.
2010-06-29
Adeus, pilequinha
2010-06-28
2010-06-19
Até já.
2010-06-18
RIP
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago - Na ilha por vezes habitada
E talvez tenha por fim mordido "a alma até aos ossos dela".
2010-06-16
Faduncho
Há dias, uma notícia num qualquer jornal (já nem os distingo sequer!) falava de uma qualquer estatística (a interpretação do dia? será mesmo verdade?) que demonstrava que, para combater a crise, os portugueses poupavam na comida, não compravam os medicamentos, mas mantinham os telemóveis e os canais por cabo. E provavelmente também as carteiras e os sapatos da moda e as férias pagas a prestações, se ainda encontrarem uma qualquer financeira que lhes empreste dinheiro. E depois são os 10% de desempregados e os que, nunca tendo trabalhado, vivem das prestações sociais e não contam para as estatísticas. Também costumam ter telemóvel e, provavelmente, a sport-tv. Mas há nisto tudo um tom de miséria e fatalismo e de gente enredada em muito pouco e uma incapacidade absolutamente gritante para virar as costas ao fado das notícias, à canção do desgraçado em pano de fundo, à incapacidade real de redigirem uma simples carta para acompanhar os CV que as novas oportunidades lhes impigem formatados e todos os homens que mordem um cão cada vez mais mirrado em prime-time. E nem a bola, desta vez!
2010-06-15
Palhaços
Pelos deuses! O ridículo alheio é algo realmente confrangedor (quase nunca notamos o nosso, o que dá jeito) quando a figura triste é evidente e o desconhecimento do absoluto burlesco é notório. Para além da pose, como é óbvio. E, no entanto, sem sequer merecer o distanciamento necessário e o cuidado nas fontes que a (de)formação profissional imporiam, vai a trote, não percebe, destrambelha e arremata. Absurdamente grotesco. Sem qualquer noção das medidas e dos tempos, desconhecendo que o tempo, mesmo ao deixar arquivos, não desdenha do conhecimento real e factual do realmente ocorrido. E que a memória, mesmo com arquivos, não é (ainda) a memória reconstruída – como é quase sempre a memória – mas sim a capacidade de relembrar ao pormenor de nicks e leituras e famílias e afiliações e amores e ódios e zangas e estórias a verdade de há um punhado de anos. E a liberdade interpretativa – ou a dedução obtusa e hiperbólica – não perdoa tamanha cabeçada de tacanhice. Sobra o ridículo. E é um ridículo sem desculpas, que a sua causa não são cartas de amor: é tão só a menoridade da personalidade pequena a nu, invejosa e vingativa. E mais uns soundbytes como tantos e tantos já antes vistos e revistos.
Talvez já esteja há demasiado tempo deste lado e nem seria de supor que me espantasse ainda ou que estranhasse em demasia. Mas é aquela coisa com os palhaços: são tanto melhores quanto menos parecem vestir a farda. E uma coisa é certa: divertiu-me o suficiente para ter vontade de escrever.
2010-06-07
Tamanho
Um metro e sessenta e cinco. Mais um salto de três centímetros. Do mais normalzinho possível, pensava eu. E a calça nunca foi de número exorbitante, que as minhas exorbitâncias estão um bocado mais acima. Banalzinha até dizer chega, na mediania até no número do sapato e nos M e L sempre esgotados. Sendo assim, porque cargas de água é que, ultimamente, não encontro um par de calças que não tenha que mandar refazer a bainha?
2010-06-02
Um "Exodus" (*) para a Palestina?
© Mako Moya
Não questiono que Israel tem as suas razões. A política do Hamas – ultrafundamentalista e belicista – é abjecta, os seus líderes nunca deveriam ter tido espaço para chegar ao poder, as suas intenções são funestas. E a intervenção humanitária é, demasiadas vezes, ingénua nas suas boas intenções, mas ingerente e, pior, presa fácil de interesses não tão evidentes como isso.
Posto isto – que me parece importante – há a questão da própria política de Israel para Gaza e a total falta de respeito por normas que, mais do que do direito internacional, deveriam ser do senso comum: Israel enfiou aquela gente num gueto sem direitos, sem ajuda internacional, sem acesso ao mais básico. E os políticos israelitas parecem ter aprendido demasiado bem a lição dos algozes do seu povo no que toca a guetos e lebensraum.
Há ali uma desproporção de forças assustadora e, acima de tudo, o espaço limitado, fortificado e fechado onde os palestinianos devem estar a sentir-se encurralados, simples alvos sem fuga possível, mesmo com a fronteira a sul agora aberta após mais este ataque alucinado de que sobram apenas vítimas, muitas palavras e solução alguma.
Lá como cá, há os políticos e os seus jogos; e depois há a religião onde todos se escudam muito para além de qualquer tolerância. Mas há também as pessoas anónimas, que não mandam e desmandam, que apenas são vítimas. E pergunto-me quantos de nós, aprisionados pelas razões dos outros e por betão armado, conseguiríamos não pegar em pedras. Ou quantos não seríamos ainda ingénuos o suficiente para nos metermos num barco e sonharmos em salvar o mundo para acabar, afinal, como só mais uma vítima rapidamente esquecida.
Longe de todas as utopias, vejo vítimas. Cada vez mais vítimas. E, assim empilhadas e esquecidas, sendo mártires, resumem-se cada vez mais apenas a um número.
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(*)Sobre o "Exodus 1947", ler aqui.
2010-06-01
Os ismos
«Esta lei não surgiu do nada. Ela constitui apenas o mais recente passo de uma vasta campanha de promoção do erotismo, promiscuidade e depravação a que se tem assistido nos últimos anos. Por detrás de leis como o aborto, divórcio, procriação artificial, educação sexual e outras está o totalitarismo do orgasmo. Parece que o deboche agora se chama "modernidade".»
João César das Neves
2010-05-31
2010-05-29
Avó
Está em ti hoje toda a minha noção de eternidade, avó: uma eternidade que cabe na palma da tua mão enrugada; que está nessa essência que sou sendo parte de ti, parte da mãe que pariste e que me pariu a mim; nas pernas que herdei orgulhosa; no formato do corpo, no tom de voz, na falta de mariquices. Está nesta crença que tenho em mim de que repetirei os teus passos de forma nova, mas ainda assim com os mesmos caminhos. Está na evidência genética do que sou, esta coisa em que me transformo enquanto as minhas rugas, ainda tão diferentes das tuas rugas, se vão construindo em desenhos semelhantes.
Chegasse eu a ter essa mão feita pano enrugado, cinzelada a linhas de história e de crescimento, sei que seria muito parecida com o que és hoje: pequenina, frágil, com medo da morte que é cada vez mais como a vizinha que te pisca o olho todos os dias. Chegasse eu a essa idade, ia querer ter essas mãos sulcadas pelo destino. Chegasse eu à tua idade, queria ter uma palma da mão onde coubesse ainda a família, num retrato desbotado pelo tempo, quando o tempo ainda era medido em mais do que instantes.
É que sei que herdei nos genes isto que me faz tão parecida contigo, mesmo sendo tão diferente. É que sei que a eternidade se mede não num qualquer paraíso que tantos julgam intuir como verdade, mas sim na memória que os outros não querem perder de nós. E uma mão assim sulcada é uma mão eterna: já acariciou e foi acariciada por tanta gente que, ao ser tão amada, será eterna enquanto permanece indelével na memória daqueles que seguraste nas tuas mãos, contra o teu peito, no teu carinho.
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A minha avó fez anos no dia 26, rodeada por mais de meia centena de familiares e vários amigos. É a matriarca que mantém uma família de doidos unida, que merece que gente de Abrantes, da Guarda, de Lisboa e até do Brasil se desloque de propósito para lhe cantar os parabéns por uma vida longa e rica. É uma celebração a que dificilmente terei direito, eu que não tenho filhos nem esperanças de chegar aos 90 anos rodeada de tanta gente. E, no entanto, quando me vejo ao espelho, vejo cada vez mais traços em mim que mimam cada expressão e cada ruga da minha avó. Não seria um mau futuro chegar aos 90 anos lúcida e a saber-me tão querida.