2021-05-19

Apre!

Há dias em que chego à net e só vejo vigilantes e pequenos Charles Lynch em muito pouco amena cavaqueira. Ah admirável mundo novo das (a)moralidades onde todos querem ser juiz e carrasco!

2021-04-24

Véspera

Na véspera do dia em que festejamos a Liberdade, por e para todos os presos políticos e de consciência que continuam a existir por esse Mundo fora:

"Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia."

Sophia de Mello Breyner - Caxias 68

2021-04-10

Sapos para engolir

E, pronto, cá estou eu hoje de manguito preparado, vítima certa da caça cega aos cobres que sobram da classe média acossada e discursos populistas fascizóides que se vão alavancar numa Justiça incompetente. E de nada vai servir o manguito, mesmo bem preparado e com um acrescento para o adaptar aos tempos: um dedo médio bem erguido num punho que já não se fecha à moda antiga, que esse símbolo já me esgotaram.

2021-04-09

Caso Sócrates

Com esta justiça, nunca temos culpados, só temos boatos: 

- O envolvimento do Cavaco com o BPN é boato 
- Casa Pia é boato 
- Freeport é boato 
- Saco Azul é boato 
- BES é boato 
- Apito dourado é boato 
- Submarinos é boato 
- Caso "Paquetes da Expo" é boato
- Caso Tecnoforma é boato 
- Bragaparques é boato 
- Vistos Gold é boato 
-... 

 Portugal é o País proscrito do Boato e das prescrições.

2021-04-04

Quem

Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.

Manuel Alegre

2021-02-02

Tempos de pandemia

Como passar o humor em simples palavras quando não se sabe das palavras o bastante para que, ao brincar com elas, saiam ideias com uma comicidade natural? Talvez seja por a minha ideia de alegria só fazer realmente sentido quando partilhada (e um écran nunca se ri connosco e esta janelinha coscuvilheira nem para lá caminha) e o pudor me levar a esconder na solidão as tristezas. Ou, simplesmente, sou demasiado impaciente para alegrias diferidas.

2020-11-12

US Election: A CNN pundit's emotional reaction to Joe Biden's presidenti...

É muito fácil tentar a empatia. E tento! Mas, branca que sou num país maioritariamente caucasiano que faz de conta que não é racista, nunca vou saber o que é isto, esta emoção em direto de quem sofre na pele discriminação e tem de a explicar aos filhos.

2020-10-14

(...)

Os gajos são uma espécie estranha! Quanto mais velhos e podres, mais potente o carro que compram. E é vê-los nos Lexus, Jaguares e Porshes... a trinta à hora. Como se, num óbvio reflexo de potências pretendidas, não sobrasse mais do que um mal empregado equipamento.

2020-08-14

Kamala Harris


«And I could cry power

Power has been cried by those stronger than me

Straight into the face that tells you to rattle your chains

If you love bein' free»

2020-05-20

(des)Ventura


Houve sempre no "comentarismo profissional" português um reflexo perfeito do que se passa para lá do espaço de opinião: há as cliques, os ódios, os interesses, as modas, as votações inconsequentes, as micro e macro causas, os fogachos de qualquer outra coisa rapidamente esquecida e muita, demasiada gente, que encontrou ali um púlpito onde tentaram fazer-se maiores ou melhores do que os outros. Que importa quando o Rei vai nu se diz os disparates que se quer ouvir ou se defende as cores do clube de futebol favorito? Até o Esteves estava certo em alguns dias!  

É verdade que uns provam-se interessantes. Mas já eram interessantes antes: Marcelo Rebelo de Sousa foi sempre um senhor, mesmo quando só dizia "nim". A maioria, no entanto, tende a transformar-se em "sound bites" ou pixéis supérfluos, quando, ao terem mais olhos do que barriga, acabam a dar com os burrinhos na água. Podem até cair de pé, mas só porque agarrados como junkies à visibilidade da celeuma criada e ao facilitismo da promessa básica, vácua e populista. 

Ouve e vê quem quer, como é óbvio. Acredita o predisposto. No fim, cada um tem o comentarista que merece e mais não se pode esperar.

2020-04-20

Palavras

“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”

― Maya Angelou

2020-04-16

RIP Luís Sepúlveda

«"Yo estuve aquí y nadie contará mi historia." Ignoro cuanto tiempo permanecí frente a esa piedra, pero a medida que la tarde caía vi otras manos repasando la inscripción para evitar que la cubriera el polvo del olvido...» 

Luís Sepúlveda


Contou Luís Sepúlveda em "As Rosas de Atacama" que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". E contou ainda que foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as histórias breves de vidas que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que não são por isso menos importantes. Chamou a esse livro "Historias Marginales", nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a ideia de um deserto coberto de flores. É que é de margens e de esquecimento, de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e, no entanto, são em tudo demasiado parecidas com todos nós, anónimas a mais das vezes, capazes de fugir e se esconder, levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja apenas numa vida, a diferença. Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém contou a sua história. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações. De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte outra dessas histórias para que mais uma rosa pinte de cor o deserto do esquecimento.