Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa. São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não entusiasma ninguém, mas que se recusa obstinadamente a desaparecer.
Durante anos, os Crocs ocuparam um lugar muito específico no imaginário coletivo: o lugar das coisas que os outros usam. Médicos em turnos impossíveis. Jardineiros. Pessoas que claramente tinham desistido de seduzir alguém. Nós observávamos à distância, confortavelmente instalados na nossa superioridade estética.
Depois a vida acontece.
As costas começam a emitir opiniões. Os pés tornam-se mais exigentes. Descobrimos que passar três horas em pé é uma atividade física e que a elegância raramente ajuda a descarregar compras do supermercado.
É nesse momento que os Crocs aparecem. Não fazem publicidade agressiva. Não prometem transformar a nossa vida. Limitam-se a existir, pacientes, à espera que a realidade faça o trabalho por eles.
Primeiro achamo-los horríveis.
Depois experimentamo-los.
Depois começamos a justificar a experiência com argumentos técnicos. Por fim, damos por nós a usá-los para ir ao correio, ao jardim ou à padaria, convencidos de que ninguém está a reparar. Entretanto, passamos a reparar noutra coisa.
A maioria das decisões da vida adulta acaba por seguir o mesmo percurso. Começamos com princípios. Terminamos com soluções.
Os Crocs não são um sapato. São um tratado filosófico sobre o envelhecimento. Lembram-nos que chega uma altura em que deixamos de perguntar se uma coisa é bonita e começamos a perguntar se funciona. E há uma liberdade inesperada nisso.
Porque talvez a maturidade consista precisamente em abandonar algumas batalhas impossíveis. Entre elas, a de parecer permanentemente elegante enquanto se tenta apenas atravessar uma terça-feira.
Os Crocs são feios. Mas também nós já não somos exatamente quem éramos. Talvez seja por isso que nos entendemos tão bem.
Sem comentários:
Enviar um comentário