aquiBateram-me na traseira. Coisa habitual, em dias de muita chuva, quando o piso parece visgo e a visibilidade é quase nula. E eu, como sempre, de música aos berros, prestava atenção ao que se passava à direita, à frente e à esquerda, esquecendo que, de um momento para o outro, o meu pobre bichinho podia ser enrabado. E, à entrada de uma rotunda, lá fomos os dois abalroados.
Toda eu tremi, com o tamanho do susto, com o tamanho do som. Pensei-me perto de morrer, enquanto todo o interior do carro se virava e revirava e o pobre bichinho, apesar do travão a fundo, se aventurava uns quantos metros para dentro da rotunda.
Sai do carro a pensar que estava pronto para a sucata. Voltei para dentro do carro porque não me aguentava nas pernas. Ganhei forças e voltei a sair. O homem já lá estava, às voltas dos dois carros: Que o seu não tem nada, só aqui uma amolgadela no pára-choques. O meu é que bateu contra o seu gancho do reboque. Fique calma menina, veja como não é nada.
E fiquei eu a olhar para o homem, pronta para o matar por quase me ter morto do coração e com tamanho alívio que lhe podia saltar ao pescoço e cobri-lo de beijos, por estarmos os dois vivos e pelo pobre do bichinho praticamente incólume.
Tratei de ganhar coragem para perguntar se queria meter aos cabrões dos gajos dos seguros, enquanto recordava como, da última vez que me haviam batido, depois da Seguradora da culpada se disponibilizar a pagar tudo, a minha ex-Seguradora não queria receber, porque não tinha gostado do desenho do acidente.
E o homem, no entretanto, a dizer que não, que preferia pagar logo e que o desculpasse, que tinha ido ao Centro de Emprego tirar a senha e estava a pensar na lua enquanto procurava um lugar para estacionar.
Fiquei com pena. Raios! Um desempregado! E não insisti no seguro, que os merdosos só existem para o chular o pessoal e o coitado não merecia um seguro agravado. Lá fiquei com a matrícula e o telefone e o nome e o BI. Lá dei o telefone e mais a matrícula e mais o nome e mais o BI. E prometi ao homem que iria ao meu mecânico saber da solução mais económica para um pára-choques que parecia nada ter.
Horas depois, sou obrigada a telefonar ao homem para dizer que o pára-choques afinal está partido em 3 sítios, incluindo os suportes. E que, se metesse de origem, eram mais de 150 euros e mão de obra. Perguntei-lhe se queria pagar em duas ou três vezes. Estava mesmo com pena do desgraçado!
Mas o meu mecânico é um santo e arranjou um pára-choques igualzinho e impecável, não sei onde nem como, conseguindo descer o preço da reparação para 70 euros, mão de obra incluída.
Telefonei outra vez ao homem e quase lhe podia sentir o sorriso do outro lado do telefone. Mas ainda perguntei se queria pagar só no fim do mês, quando recebesse o subsídio. Disse-me que não e, no dia seguinte, foi levar-me o dinheiro.
Aconselhei-o a ir ao meu mecânico, para pôr em ordem a óptica ao dependuro. Expliquei-lhe onde era e deixei-o ir à vida dele, ainda com pena e a pensar na minha sorte por ter o meu certinho no final do mês. Pensei que era o fim da história.
Mas, afinal, não foi o fim da história. Hoje, apareceu-me o homem outra vez, com uma caixa de bombons na mão: Menina, venho agradecer-lhe. Agradecer-lhe por ter tido o cuidado de pensar que eu não tinha dinheiro para esbanjar e toda a sua simpatia. E por me ter mandado ao seu mecânico. Estava lá outro cliente que me ofereceu emprego. Começo na Segunda-feira. Ainda bem que bati no seu carro!
E até me vieram as lágrimas aos olhos.