2018-04-24

Poemarma

"Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal: antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo, o desejo de achar.

E que o poema diga: o longe é aqui
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
Ah que o poema chegue ao pé de ti
e te diga ao ouvido o que é preciso.

Que o poema actue directamente sobre o real
nem que por vezes seja só o poeta em movimento.
Ah que o poema para ser original
transforme em braços e acção o pensamento.

Que ponha sinos a tocar dentro das rosas
e seja mais que rosa flor de cacto.
Que o poema saiba ver dentro das coisas
a mão do homem feita poema em acto.

Que o poema me dispa de tudo o que não presta
e me transforme na sua própria acção.
Nem quero outra glória nem quero outra festa:
morrer como Guevara na Bolívia da canção.

Só tu, povo fardado de ganga azul
poderás dar-me a glória ou recusar-ma.
Aí vai o meu poema
a minha taça do rei de tule
aí vai para ser arma!"

Manuel Alegre

2018-02-04

Espanha

Vi alguns dos vídeos e li algumas coisas que escreveu. Tinha-o resumido dentro da minha cabeça a um idiota extremista que exagerava para conseguir exposição neste tempo de youtubers e afins. Perdi-lhe o interesse com facilidade, como tantas vezes acontece com um qualquer fait-divers que me chama por momentos a atenção e rapidamente esqueço. E no entanto, as coisas nunca desaparecem definitivamente da minha memória. Parece que em 2014 foi condenado a dois anos de prisão por "enaltecimiento del terrorismo". Mas 2014 foi um ano muito diferente do que promete ser 2018 para Espanha. Agora Hasel pode ser condenado a 12 anos de prisão efectiva. E uma condenação destas em 2018 numa Espanha pós confusão na Catalunha, transforma um idiota num preso político e Espanha numa suposta democracia moderna que não respeita a liberdade de expressão, mesmo que seja a liberdade de expressão de idiotas extremistas à procura de exposição mediática.

2017-12-21

"Do They Know It’s Christmas"

Aqueles eram os anos que supostamente tinham enterrado as utopias floridas da década de 70, os anos do individualismo, do consumismo. Mas a fome em África, em forma de teledisco, fez filas nas ruas de gente que ia comprar um pequeno vinil para ajudar. Mesmo que a fome não tenha acabado e que a maioria soubesse que acabar com a fome nunca seria assim tão simples.

Eu olho agora para este Mundo de hoje e vejo-o seco, encrespado. Continua a ser Dezembro. Continua a fazer frio. E continua a não ser Natal para todos e a consoada universal é a miragem com que já ninguém se ilude.

Lembro-me de que chorei a primeira vez que vi o teledisco do "Do They Know It’s Christmas". Lembro-me que foi como que um soco no estômago. Estive a ver um vídeos de como foi criada essa primeira versão de um tema que se repete. Tantos anos depois, não há forma de ficar desactualizado.

Hoje em dia já não é só a fome na Etiópia e as mesmíssimas imagens de fome e dor e morte continuam sem pátria nem fim. De tal forma que quando se fala agora de fome de uma criança a que a guerra tirou tudo alguém logo vem lembrar que temos gente a morrer nas nossas ruas. Como se fossem mutuamente exclusivas.  Como se fome não fosse fome, sem cor, sem nome, sem geografia. Como se não houvesse lugar dentro de nós para lamentar todos.

Por toda a simbologia desta simples canção pop, do tanto que à data conseguiu e o tanto que nunca fomos capazes de conseguir, continua a ser um dos hinos do meu natal. Com tudo de bom e mau que isso possa acarretar, afinal nunca deixei de ser uma fedelha que cresceu nos anos 80.

Boas Festas!

2017-11-02

Catalunha - parte dois

Continuo sem saber muito bem os que vos dizer, Catalunha. Tirando a observação óbvia que Mariano Rajoy é um idiota, que o governo que o sustenta tem demasiados tiques autoritários e que vão acabar na História como incompetentes. Ou que visto daqui havia uma óbvia falta de vontade de diálogo construtivo da parte da  Generalitat, que bateu o pé e foi incapaz de encontrar outro rumo, não tendo também demonstrado grande inteligência ao deixar-se encostar à parede.

Mas há algo de profundamente errado quando, em 2017, numa suposta democracia, se derruba um governo democraticamente eleito e se enfia os seus membros na prisão com acusações de sediçao.

E não entendo: um governos central intervém porque não gosta do resultado dos votos num referendo, mas depois quer eleições? E se não gostar do resultado dessas eleições? Vai manipular o resultado ou meter todos os independentistas catalães na prisão?

Nunca estive convencida de que a independência fosse a melhor solução, quer para a Catalunha, quer para Espanha. Mas também não pensei que se chegasse ao extremo de ver presos políticos numa democracia moderna...

É! Continuo sem saber o que vos dizer.

2017-09-23

Catalunha

Não sei que vos diga, Catalunha. Eu, aqui neste canto que cerrou trincheiras e só durante 60 anos se deixou subjugar.
Mas sei que a violência gera violência e a violência de Estado faz do pacifista um revolucionário.
Cá do meu cantinho, gosto de imaginar uma Espanha unida, mas entendo a necessidade de emancipação.
Não vos conheço todas as razões, nem para dizerem sim, nem para dizerem não.
Reconheço-vos, no entanto, o direito a dizer, a votar, que assim se vive em democracia. Mesmo e especialmente se depois vos disserem que o vosso voto constitucionalmente não vale nada.
Votar vale sempre a pena: é a única arma que faz sentido para um povo que queira esconjurar a ditadura.