2026-08-31

Clarabóia por telhado

Sou viciada em café e cigarros. É isto. Não é charmoso, não é estética de Instagram. É vício velho, de gente ansiosa. Acordo e o corpo pede logo as duas coisas.

“Podia ser pior”, dizem. Pois podia. Podia estar agarrada a pó, a apostas, a comprar merda que não preciso, a foder com desconhecidos só para não ficar sozinha, a viver nos comentários dos outros. Podia ser viciada em ser boa pessoa na internet. Isso é capaz de ser pior.

Não sou. Fiquei-me por isto. Café que me lixa o estômago e tabaco que me lixa o resto. Veneno com horário fixo.

Tenho uma clarabóia no telhado. Não vejo o mundo dali. Vejo um quadrado de céu sujo, a antena ferrugenta do prédio e, de vez em quando, uma gaivota que também não sabe bem onde está. Quando chove, embacia. Quando está sol, queima. Não me ilude.

Por isso não me meto muito na vida dos outros. Tenho telhados de vidro. Posso ver a rua, posso comentar para dentro. Agora, atirar pedras? Não.

Cada um que carregue a merda do seu calhau. O meu já me pesa que chegue. O dos outros só me interessa quando me cai em cima do pé.

2026-08-30

Quem com ICE prende, com ICE é preso


Há dias em que a realidade escreve o texto por nós e ainda nos deixa a tarefa fácil: basta não atrapalhar. O destino, esse contabilista cínico, não precisa de metáforas — só de tempo.

Milo Yiannopoulos, especialista em transformar ódio em carreira, foi apanhado pelo ICE no aeroporto de Nova Orleães e devolvido ao Reino Unido como quem devolve mercadoria defeituosa. O homem que passou anos a exigir deportações em massa, a defender que “milhões e milhões e milhões” deviam ser expulsos sem cerimónia, descobriu que a máquina que ele próprio ajudou a lubrificar não distingue entre inimigos e arquitectos.

É a velha história do carrasco que se esquece de que a lâmina não tem memória. Milo avisou-se a si próprio, repetidamente, em directo, com a convicção de quem constrói a própria armadilha e ainda se orgulha da engenharia. Depois surpreendeu-se por ser o primeiro a cair nela. Não é ironia. É incompetência estratégica.

A frase bíblica — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — é demasiado suave para o caso. Aqui não há moral, nem castigo divino, nem lição. Há só um sistema administrativo que funcionou exactamente como foi desenhado: um algoritmo burocrático que não lê currículos, não reconhece celebridades de nicho, não distingue entre o pregador e o alvo. O nome apareceu no ecrã, o protocolo avançou, e pronto: mais um número processado.

A crueldade que ele aplaudiu quando caía sobre os outros perdeu o charme quando lhe bateu à porta. É sempre assim: a violência política é um espectáculo até ao momento em que o bilhete tem o nosso nome.

Não sinto pena. Não sinto triunfo. Sinto apenas a precisão fria de uma máquina que, pela primeira vez, se lembrou de incluir o nome dele na lista. Não é karma. Não é justiça poética. É contabilidade: o débito chegou, e o sistema, implacável, cobrou.

2026-08-28

A Imortalidade do Inútil

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

2026-08-25

Vinte e dois anos de fuga

Ontem, a Voz em Fuga fez anos.

Nasceu a 24 de agosto de 2004, numa altura em que os blogues ainda eram uma coisa com alguma dignidade: não havia reels, não havia algoritmos a decidir se merecíamos existir, não era preciso dançar para a câmara nem começar um texto com “ninguém vos prepara para isto”.

Havia palavras.

E eu tinha coisas para dizer.

Muitas delas ficaram pelo caminho. Outras envelheceram mal. Algumas, felizmente, desapareceram sem deixar morada. Mas há textos que continuam por aqui, como aquelas fotografias antigas em que reconhecemos a cara mas já não reconhecemos inteiramente a pessoa.

A Voz em Fuga foi mudando comigo. Já foi diário, desabafo, esconderijo, observatório, campo de batalha e, sobretudo, lugar para onde fugir quando o mundo se tornava demasiado barulhento.

Entretanto, passaram-se 22 anos.

Vinte e dois.

Há relações que não duram tanto. Há governos que não duram tanto. Há penteados de que nos arrependemos por muito menos tempo.

E, contra todas as probabilidades, a Voz continua aqui.

Talvez porque nunca tenha sido propriamente um blogue.

Talvez seja uma espécie de casa.

Uma casa desarrumada, com livros por todo o lado, gatos a atravessar o corredor, algumas teias de aranha e uma quantidade pouco recomendável de pensamentos inúteis.

Mas é minha.

E ainda há uma voz lá dentro.

Obrigada a quem, ao longo destes vinte e dois anos, entrou pela porta, leu, comentou, discordou, riu, ficou em silêncio ou simplesmente passou por aqui.

A Voz em Fuga continua.

E eu também.

Ainda bem.

2026-08-23

Peões a cair

Sina, destino, os deuses a jogar xadrez connosco — isto é conversa para quem tem tempo e gosta de um sotaque dramático. A mim, a vida trata-me a granel, sem tabuleiro, sem rei, só peões a cair. Uns caem cedo, outros tarde, e ninguém me perguntou a ordem.

Se calhar é isso que me incomoda mais do que a Morte em si: a falta de critério. Não há mérito, não há castigo, há só a estatística a fazer o seu trabalho, indiferente a quem estava a meio de uma frase.

Eu queria acreditar que havia uma mão. Mesmo que fosse cruel, ao menos teria cinco dedos. Teria intenção. Dava para discutir, para insultar, para pedir. Mas não há mão. Há um corredor de supermercado às nove da noite, com a luz fria a zumbir, e uma chamada que não se atende a tempo. Há um exame que deu bem e outro que deu mal. E era o mesmo corpo.

O meu pai morreu há menos de um mês.Não foi trágico. Não foi bonito. Não foi nada. Foi um homem que um dia acordou, tomou o pequeno-almoço e, à noite, já não estava. Só o silêncio.

E agora tenho de “fazer o luto”. Palavra ridícula. Soa a trabalho de casa: hoje tens de chorar, amanhã tens de te lembrar, na próxima semana tens de aceitar. Como se a morte fosse um plano de aulas e eu uma aluna aplicada.

Mas eu não quero aceitar. Não quero aprender nada com isto. Não há lição. Não há moral. Não há porra nenhuma que se aproveite desta merda.

Dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo apaga. E eu não quero esquecer. Não quero que o cheiro dele se dissipe, não quero que a voz dele se torne uma gravação gasta, não quero que a falta dele passe a ser o meu normal.

Mas também não vou regar a dor como se fosse uma planta. A morte não é um jardim. Não cresce nada aqui.

Não é injusto. O injusto ainda tem paixão. Isto é pior. É burocrático. A morte carimba ponto e não olha para a cara.

A gente cresce a ouvir que tudo tem um porquê — mentira piedosa de avó. O que há é isto: estavas a meio do pão, a meio do livro, a meio de te desculpares. E cai o peão ao lado. Sem estrondo. Só cai. E tu ficas ali, de pé, com a faca do pão na mão.

E no entanto continuamos. Não por coragem. Por teimosia de peão.

Fazemos café. Dobramos roupa. Dizemos “até amanhã” como quem assina um contrato sem ler. Não porque acreditamos no jogo. Mas porque, enquanto não nos toca a nós cair, há esta frase por acabar.

E eu quero acabá-la.

2026-08-21

Ler o Vimana como manual da IKEA

Há uns milhares de anos, alguém na Índia escreveu sobre um carro voador dourado, capaz de atravessar continentes — a Pushpaka Vimana do Ramayana. Poesia épica, simbolismo religioso, uma bela metáfora sobre poder divino e destino. Devia ter ficado por aí. Mas não.

Em 1923, um místico indiano alegou ter recebido por via psíquica um texto ainda mais antigo, o Vaimanika Shastra. Já não era poesia. Era supostamente um manual técnico, com capítulos sobre hélices, ligas metálicas e motores a mercúrio. Porque, aparentemente, uma tese só ganha estatuto científico se envolver metais pesados e vocabulário esotérico.

Foi aí que o literalismo moderno — essa incapacidade crónica de ler entrelinhas — fez o seu truque favorito: pegou no mito e leu-o como se fosse um manual da IKEA mal traduzido. O carro voador passou a aeronave, o símbolo virou esquema eléctrico, e ficámos todos à procura do parafuso Allen que faltava nos Vedas.

Depois vieram os outros. Os mesmos que traduziram o Enuma Elish como relatório de aterragem. Os Anunnaki sumérios que aterraram para ensinar geometria porque, claro, a humanidade nunca teria chegado lá sozinha.

É a fórmula perfeita: a arqueologia fantástica como álibi elegante para despojar a humanidade da sua própria inteligência. Sobretudo a humanidade errada.

Stonehenge também tem a sua quota de discos voadores na cultura popular, é certo. Mas ali raramente se questiona a continuidade. Ninguém duvida que os britânicos de hoje descendem de gente capaz de arrastar pedras. Chegue-se a Gizé, a Tenochtitlán ou a Cuzco, e de repente há um corte. A engenharia de precisão torna-se uma ocorrência paranormal. Os egípcios sabiam construir, sim — mas alguém lhes deve ter ditado as equações.

Talvez um extraterrestre. Talvez um caucasiano. Idealmente, ambos.

O mecanismo é particularmente curioso. Quando lemos os mitos indianos ou o Enuma Elish, percebemos que estamos perante cosmologias: histórias que os seres humanos inventaram para explicar o mundo, os deuses, o destino e o lugar que ocupavam no meio de tudo aquilo.

O problema não é só o que esse roubo faz ao passado. É o que treina o cérebro para fazer no presente.

Porque, quando se aprende a ler uma narrativa simbólica como se fosse um relatório factual, não é difícil acabar a fazer o mesmo com as narrativas do nosso tempo. Já não temos cosmologia. Temos a Terra plana, répteis no parlamento e governos secretos comandados por sabe-se lá quem. O pensamento simbólico dá lugar à conspiração e a vontade de compreender o mundo transforma-se numa revelação privada: eu sei o que vocês ainda não perceberam.

No fundo, trocámos os deuses por extraterrestres e chamámos-lhe abertura de espírito.

Antes, a divindade descia para inspirar a alma; agora, o alienígena desce para ensinar a fazer argamassa. Tão obcecados ficámos com a tecnologia que até os nossos mitos sofreram um downgrade funcional.

E há uma diferença fundamental, quase trágica.

Os antigos diziam: os deuses inspiraram-nos a fazer isto.

Nós dizemos: os humanos eram demasiado ignorantes para ter feito isto.

Inventámos extraterrestres para não termos de admitir a grandeza intelectual daqueles que nos precederam.

Talvez seja essa a parte mais estranha da história. Os antigos precisavam de deuses para explicar os seus feitos. Nós precisamos de aliens para lhes tirar o mérito.

2026-08-14

O purgatório do saber inútil

Sei muito pouco de quase tudo, mas trago na memória um amontoado de saberes sem utilidade. Seria a concorrente perfeita de um qualquer concurso televisivo — esse purgatório do saber inútil onde se premeia quem sabe tudo e não percebe nada. Debito informação acumulada sem a questionar, pescando-a de um arquivo mental que faria melhor em abrir espaço ao que realmente importa.

Gostava, por exemplo, de reter nomes — coisa que raramente acontece. Irrito-me ao reconstruir cadeias de factos circunstanciais que despejo no interlocutor, na esperança de que, do outro lado, surja o nome que me escapa. Sei pormenores irrelevantes, mas falho no essencial.

Tenho facilidade em fixar minúcias: palavras em desuso que só regressam quando escrevo, detalhes sem préstimo. Esqueço caras. O disco, ao que parece, tem prioridades. Esqueço pessoas por inteiro, se não deixaram marca — e nem sempre é a pessoa que decide o que conta como marca. Perco-me nessas genealogias improvisadas — “o irmão do primo da Maria, casado com a Engrácia, aquela da sala ao lado no 9.º ano, da vespa azul às risquinhas”. Fico no primo. Nunca chego à Engrácia, muito menos à vespa.

Chamo-lhe memória selectiva, mas nem sequer é selectiva o suficiente: selecciona mal e sem me consultar. Preferia uma memória funcional, menos saturada de irrelevâncias. Dava jeito lembrar caras. Dava jeito lembrar nomes. Dava jeito, sobretudo, saber apagar o ruído e guardar o que faz falta — sobretudo na interlocução, onde tantas vezes falho.

No fundo, precisava de menos arquivo e mais critério. A minha memória pede um upgrade. Como tantas outras coisas, terá de esperar.

O homenageado

«Festejou-se o aniversário de um homem muito modesto. E apenas no final do banquete é que se percebeu que alguém não tinha sido convidado: o festejado.»
Anton Tchekhov

Modéstia, dizem, é virtude rara. Tão rara que, naquele banquete, se esgotou antes mesmo de o homenageado chegar à porta — porque ninguém se lembrou de o convidar. Brindou-se ao seu bom-gosto, à sua discrição, à sua elegante ausência de vaidade. Ergueram-se taças à saúde de um homem que, coitado, estava em casa, provavelmente também ele demasiado modesto para perguntar por que razão não fora chamado à própria festa.

No fim, todos concordaram: fora a celebração mais sincera que já tinham visto. Sem o risco de o festejado, com a sua presença inconveniente, estragar o discurso sobre como ele era humilde.

Há quem confunda modéstia com desaparecimento. E há festas que só correm bem precisamente porque o motivo delas teve o bom senso de não comparecer.

2026-08-12

Lagostim de agosto

Começam a chegar em Julho, pálidos como hóstias, vestidos de linho caro e expectativa. Trazem factor cinquenta na mala e uma fé cega no sol português, como se este fosse mais generoso do que o deles só por estar a sul. E o sol, esse cínico, não os desilude: ao fim de vinte minutos de esplanada já estão da cor de um marisco cozido, a pele em festa, o "ai" a tornar-se dialecto.

Eu, por outro lado, fico ali sentada, intacta, a ver o espectáculo com o distanciamento de quem já sabe como a peça acaba. A minha pele não se rende a drama nenhum. Aloira, talvez, com a paciência de quem envelhece um queijo — devagar, sem euforia — e nunca, nunca chega ao vermelho. É como se o sol olhasse para mim e decidisse que não vale a pena a encenação toda.

Há qualquer coisa de profundamente injusto nisto, confesso. Eles pagam a viagem, o hotel, o guia turístico que lhes mente sobre a autenticidade das sardinhas, e ainda pagam com a pele, em queimadura pura. Eu não pago nada. Fico ali, bronze insuportavelmente razoável, enquanto ao meu lado um dinamarquês se transforma lentamente num pimento assado, perguntando à mulher, entre gemidos, se "isto é normal".

É, meu caro. É Portugal. Aqui o sol não faz distinções de classe, mas faz — e com gosto — distinções de pigmento.

2026-08-10

(Des)culpas

Nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã nos ensinou a carregar, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba, acho que só lá esteve sempre para enganar...

E se enganava, o que sobra?

Sobra este reflexo quase automático: pedir desculpa por estar bem. Baixar os olhos quando a alegria é grande demais. Dizer “é só uma fase boa”, como quem diz “não se preocupem, já passa”.

Fomos ensinados a fazer a gestão da infelicidade. A dar-lhe nome, novena, terapia, conversa. À felicidade, não. A felicidade tem que ser merecida, moderada, dividida em porções pequenas para não dar inveja a ninguém — nem a Deus, nem aos outros, nem a nós próprios.

O medo e a culpa lidam mal com a felicidade porque a felicidade não pede licença. Acontece. Chega sem curriculum. Sem ter feito por merecer. E isso, numa cultura de mérito e castigo, é quase obsceno.

Talvez des-culpar seja isso. Não é ficar sem culpa. É aprender a ficar com a felicidade mesmo com a culpa ao lado, a resmungar no canto.

Não mandar a culpa embora. Só deixar de lhe dar a presidência da mesa.

Não dizer “desculpem a felicidade”. Dizer “olhem, estou feliz. Apesar de tudo. Com tudo. E fico mais um bocado.”

Pegada

Se uma vida for passada num total isolamento, se não houver quem lhe tenha visto os pormenores, os bons e os maus, se nada sobrar na memória dos outros, então essa vida foi esgotada, apagada e nada sobra depois.

Se, pelo contrário, por actos, por presenças, por carinhos, por memórias, uma vida ganhar espaço na história de outro, nem que seja de forma leve, fugidia, então há uma memória que não se perde, há uma ínfima possibilidade de eternidade, recontada em tom de história pelas palavras de outros que a conheceram, reconheceram, fizeram sua.

A perenidade da memória — dos outros na nossa memória; nossa na memória dos outros — talvez seja uma forma de contrariar o vazio do esquecimento. Não sei se é eternidade, nem se alguma coisa nos espera depois do fim. Sei apenas que, enquanto alguém se lembrar de nós, alguma coisa daquilo que fomos continua a existir na vida de outro. 

Não sei o que existe depois; sei o que podemos deixar uns nos outros.

2026-08-09

Medo

Às vezes penso que a ideia de viver no medo é muito mais aterrorizante do que o próprio medo. E às vezes parece-me que vivemos numa sociedade que, cada vez mais, explora o medo como se fosse a única forma de controlo possível sobre as almas, agora que os pecados foram (quase) todos apeados. Como se o medo fosse a nova arma esgrimida por quem nos tenta controlar os dias, quando os velhos nós se desfazem e as regras antigas são repensadas.

E tenho medo da forma fácil como o medo é aceite. Tão fácil que se prescinde de pequenos nacos de liberdade todos os dias, abocanhados pelo medo fabricado que se instala e nos corrói o âmago.

2026-08-07

Catrineta

E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.

É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim. 

Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.

Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.

Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.

Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.

É um buraco negro. Suga.

De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.

É um monstro. 

Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.

(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)

2026-08-04

A outra margem

O mar entre Marrocos e Espanha já não é um estreito. É o intervalo entre uma esperança e um obituário.

2026-07-30

Kyrie eleison

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia

2026-07-29

Menu de degustação de melgas e mosquitos

Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.

Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.

De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.

Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.

Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.

2026-07-27

Antes que tudo se esqueça


Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.


Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.


Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.


E conta-me.


Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.

2026-07-26

Elogio do sapato feio


Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa. São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não entusiasma ninguém, mas que se recusa obstinadamente a desaparecer.

Durante anos, os Crocs ocuparam um lugar muito específico no imaginário coletivo: o lugar das coisas que os outros usam. Médicos em turnos impossíveis. Jardineiros. Pessoas que claramente tinham desistido de seduzir alguém. Nós observávamos à distância, confortavelmente instalados na nossa superioridade estética.

Depois a vida acontece.

As costas começam a emitir opiniões. Os pés tornam-se mais exigentes. Descobrimos que passar três horas em pé é uma atividade física e que a elegância raramente ajuda a descarregar compras do supermercado.

É nesse momento que os Crocs aparecem. Não fazem publicidade agressiva. Não prometem transformar a nossa vida. Limitam-se a existir, pacientes, à espera que a realidade faça o trabalho por eles.

Primeiro achamo-los horríveis.
Depois experimentamo-los.
Depois começamos a justificar a experiência com argumentos técnicos. Por fim, damos por nós a usá-los para ir ao correio, ao jardim ou à padaria, convencidos de que ninguém está a reparar. Entretanto, passamos a reparar noutra coisa.

A maioria das decisões da vida adulta acaba por seguir o mesmo percurso. Começamos com princípios. Terminamos com soluções. 

Os Crocs não são um sapato. São um tratado filosófico sobre o envelhecimento. Lembram-nos que chega uma altura em que deixamos de perguntar se uma coisa é bonita e começamos a perguntar se funciona. E há uma liberdade inesperada nisso.

Porque talvez a maturidade consista precisamente em abandonar algumas batalhas impossíveis. Entre elas, a de parecer permanentemente elegante enquanto se tenta apenas atravessar uma terça-feira.

Os Crocs são feios. Mas também nós já não somos exatamente quem éramos. Talvez seja por isso que nos entendemos tão bem.

2026-07-25

Modo Avião

Há anos que a ciência tenta compreender a audição selectiva. Eu não preciso. Pratico-a diariamente, com a disciplina de uma atleta olímpica e sem qualquer ajuda de cerúmen. Aliás, os meus ouvidos estão impecáveis. O filtro não está no canal auditivo. Está no córtex. Onde deve estar.

Funciona assim: «tens razão» entra com a clareza cristalina de uma notificação do MB Way a dizer que recebi dinheiro. Já «precisamos de conversar» sofre uma quebra de sinal abrupta algures entre o tímpano e a minha vontade de viver. Não ouço. Não por mal. Por curadoria editorial.

Porque vamos ser honestos: a audição selectiva não é defeito. É o meu cancelamento de ruído natural, muito antes de a Apple achar que inventou alguma coisa.

Graças a ele, consigo viver décadas — ou pelo menos desde 2014 — sem ouvir frases como «quando é que assentas?», «não achas que estás muito exigente?» e, a minha favorita de sempre, «se calhar o problema és tu que pensas demais».

Ouço o que interessa. O resto fica em modo avião.

O problema começa quando me dá a loucura da funcionalidade. Quando decido ser uma adulta que enfrenta tudo de frente. Limpo a caixa de entrada, respondo a mensagens pendentes desde 2018, digo que sim a jantares com segundas intenções óbvias.

De repente, o mundo entra sem filtro. Sem gatilho. Sem legenda a dizer «isto vai dar asneira».

E descubro que nada desapareceu. Aquela conversa que deixei em visto, aquele «depois logo vemos», aquele convite para «um café sem compromisso» — tudo esteve ali, pacientemente arquivado à espera que eu ligasse o som.

E percebo, tarde demais, a regra de ouro que devia estar no SNS24:

Há limpezas que não são de higiene. São de risco à paz interior.

Por isso, por uma questão de coerência e saúde mental, mantenho o meu sofisticado sistema de cancelamento selectivo ligado.

O meu otorrino diz que estou ótima. Eu digo-lhe que sim, enquanto vou pensando o que fazer para o jantar.

2026-07-23

Boletim das Pequenas Catástrofes

Registo das ocorrências menores que, acumuladas, alteram a estabilidade do dia.


08:12 — Verifica-se a primeira falha operacional. Os óculos de sol são localizados no compartimento dos ovos do frigorífico, onde permaneceram cerca de duas semanas sem que ninguém considerasse estranha a sua ausência.


09:03 — Expectativa mínima não confirmada. O utilizador desloca-se à rua com o objetivo exclusivo de comprar café. Regressa com as compras suficientes para atravessar um cerco medieval, mas sem café.


10:47 — Constata-se a impossibilidade persistente de determinar o paradeiro das chaves do automóvel. Admite-se a hipótese de coexistirem em dimensão paralela ou de terem adquirido autonomia administrativa.


11:22 — Falha de reconhecimento nominal. O nome da pessoa desaparece por completo. Mantém-se, contudo, intacta a memória do gato: a alcunha, o horário exacto da primeira refeição, e a lista mental de visitas non gratas, actualizada por ordem de gravidade da ofensa.


13:05 — Promessa discreta não executada. O utilizador garante a si próprio que beberá mais água. Às treze horas e cinco minutos, o organismo continua composto maioritariamente por café e teimosia.


14:19 — Pequena alteração de percurso. Entra-se numa divisão da casa com um objetivo definido. À chegada, o objetivo extinguiu-se sem deixar vestígios. Permanece apenas a sensação de que ali havia uma missão importante.


15:56 — Distração de curta duração com consequências materiais ligeiras. O telemóvel é procurado durante vários minutos enquanto permanece na mão que conduz a investigação.


17:02 — Quebra de hábito estabilizador. Pela terceira vez no mesmo dia confirma-se que abrir o frigorífico não cria, por geração espontânea, uma ideia para o jantar.


18:11 — Verifica-se que ainda não se tomaram os comprimidos da manhã. Consideram-se, à falta de melhor solução, comprimidos da tarde.


22:01 — Disfunção geral do organismo com ronco no sofá e televisão ligada em canal soporifero. 


Conclusão provisória: Embora cada ocorrência seja, isoladamente, irrelevante, a sua acumulação produz um fenómeno de instabilidade difusa. O dia não chega propriamente a desmoronar-se. Inclina-se. E nós passamos o resto das horas a fingir que não estamos constantemente a compensar o desequilíbrio.