Na banca chama-se «otimização de balanço»: os ganhos ficam no ativo, as perdas passam para o passivo de outrem. Com a IA descobriu-se que o passivo de outrem é o rio.
O novo contrato social cabe em três cláusulas:
• Eles ficam com a mais-valia.
• Nós ficamos com a fatura da luz.
• A água é uma «externalidade», termo técnico para «paga quem não foi consultado».
Na Irlanda, os centros de dados consumiram 21% da eletricidade medida do país em 2023 — mais do que todas as habitações urbanas juntas — e 23% em 2025, contra 28% do consumo residencial total. Depois de anos de restrições às novas ligações na região de Dublin, o país reviu as regras de acesso à rede em dezembro de 2025: novas ligações passaram a exigir geração própria ou baterias capazes de cobrir a procura total. Chamaram-lhe prudência. Eu chamo-lhe um dos primeiros casos conhecidos de um país a dizer «agora não» a um cliente que paga bem.
Para 2030, a Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global destas instalações ultrapasse os 945 TWh anuais — mais do dobro do atual, aproximadamente o consumo total do Japão. Quem paga a diferença? Resposta rápida: o contribuinte, o consumidor e o aquífero, por esta ordem de visibilidade e por ordem inversa de poder negocial.
Entretanto, garantem-nos que a IA vai resolver as alterações climáticas. Começando, pelos vistos, por criar um volume de problemas suficiente para justificar a encomenda.
E depois há Sines.
Sines é onde Portugal decidiu fazer de Irlanda sem ter aprendido a lição da Irlanda. O maior campus de centros de dados da Europa, 1,2 GW de capacidade de TI prevista, seis edifícios à beira do Atlântico, preparados para alimentar a inteligência que nos vai, dizem eles, salvar a todos.
Eles já vêm com a lição estudada. Já não falam em água doce, falam em água do mar. Já não falam em consumo, falam em circuito fechado. Já não falam em eletricidade, falam em correspondência anual com produção renovável. É o dicionário completo do «verde por design».
No primeiro ano completo de operação, o SIN01 captou 692.942 metros cúbicos de água do mar e devolveu exatamente o mesmo volume. Consumo líquido zero, garante a empresa. Declara não ter utilizado água potável para arrefecimento. Mas o relatório regista ainda a utilização de 41.763 metros cúbicos de água industrial. A contabilidade é impecável. O impacto ambiental, esse, não desaparece por decreto contabilístico.
Zero consumo líquido. É uma expressão bonita. Quase tão bonita como dizer que só utilizámos o mar porque o mar estava ali.
A questão não se resolve com uma coluna de zeros num relatório de sustentabilidade. Resolve-se perguntando o que retiramos de um território e o que lhe deixamos em troca.
Porque a pergunta nunca foi se a água é doce ou salgada. A pergunta é quem fica com a capacidade energética de um país para alimentar máquinas que servem outros países. Quem fica com a rede pressionada. Quem fica com o território hipotecado a um modelo em que Sines produz, os operadores e fundos internacionais lucram, e nós disponibilizamos o vento que é nosso, o mar que é nosso e a paciência que já não é nossa.
Chamam-lhe «hub europeu». Eu chamo-lhe colónia com fibra ótica. Antes exportávamos cortiça, sardinha e gente. Agora exportamos capacidade de processamento e importamos retórica.
E o mais perverso é que até nos roubaram a indignação. Como é que se protesta contra uma coisa que é «100% renovável»? Como é que se diz que não, quando o sim vem embrulhado em PUE de 1,1, WUE de zero e um relatório de sustentabilidade com fotografias bonitas do Atlântico?
Diz-se assim: não é por ser renovável que deixa de ser extração. Não é por ser eficiente que deixa de ser obsceno. Não é por devolverem a água ao mar que deixam de ocupar a costa, pressionar a rede e comprometer recursos que também são nossos.
A nuvem não existe. Existem edifícios. Existem cabos. Existem máquinas que consomem eletricidade e precisam de arrefecimento para alimentar uma inteligência que aprende a escrever poemas sobre a natureza enquanto depende dos recursos que a sustentam.
Pedem-nos para confiar numa inteligência que consome como um adolescente e raciocina como um contabilista. Que otimiza tudo, exceto a pergunta que interessa: otimiza para quem?
Se a resposta for «para quem já tem», então não estamos perante uma revolução tecnológica. Estamos perante a mais antiga história do mundo, contada agora a 1,2 gigawatts, à beira-mar, em Sines.
Sines não é o futuro. Sines é o passado com ar condicionado.