2026-10-05
Viva a República!
República
A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.
Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.
Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.
No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.
2026-10-01
Pedagogia da Suspensão
2026-09-29
Prazo de validade
2026-09-22
A esperança veio tarde
Quando chegou, já eu tinha aprendido a viver sem ela. Trouxe uma pasta, dois formulários e a promessa, sempre a mesma, de que tudo se resolveria dentro do prazo previsto. Sentei-me no meu lugar na fila.
A sala tinha cadeiras de plástico presas ao chão, um número luminoso que não avançava e um cartaz a explicar direitos que ninguém ali parecia ter, afixado com o mesmo cuidado com que se ignora. Um homem repetia ao telefone que “ligava só para confirmar”, pela terceira vez em vinte minutos — a instituição mais eficiente da sala. Uma criança contava os azulejos do teto. Eu contava os formulários, como se recontá-los os tornasse mais eficazes.
Ao meu lado, uma gata dormia com a serenidade de quem não precisa de justificar a própria existência. Ninguém sabia de quem era, nem parecia importar a ninguém que estivesse ali, entre pastas e senhas, como mais um número sem luz. Pensei que talvez fosse essa a diferença entre nós: ela descansava porque estava cansada; eu descansava apenas quando já não conseguia continuar.
O número no ecrã avançou duas vezes e recuou uma. Ninguém se espantou.
No fim, nada se resolveu. Disseram-me para voltar dentro de trinta dias, com os mesmos formulários, talvez com um terceiro — a burocracia, generosa, sempre disposta a dar-nos mais uma oportunidade de falhar. Mas a gata abriu um olho, avaliou o desastre e voltou a dormir.
Foi a forma mais honesta de esperança que encontrei nesse dia.
