2026-06-21

Humanidade


Há uma forma particularmente obscena de chantagem moral que consiste em transformar uma tragédia histórica num cheque em branco sobre o futuro. O sofrimento deixa de ser uma experiência humana para passar a ser um título de propriedade. A memória converte-se em alvará. A dor herdada transforma-se em licença perpétua. E, a partir daí, tudo é permitido desde que seja praticado pelos portadores autorizados da dor.

É o mecanismo mais antigo do mundo: a vítima ascende a sacerdote da própria vitimização. Já não responde pelos seus actos; administra um crédito moral inesgotável. E qualquer um que se atreva a observar o cadáver acumulado aos seus pés é imediatamente acusado de profanar o templo.

No caso dos sucessivos governos de Israel, a engrenagem atingiu uma perfeição quase burocrática. Qualquer crítica é antissemitismo. Qualquer resistência é terrorismo. Qualquer aldeia arrasada escondia terroristas. Qualquer hospital bombardeado era uma base militar. Qualquer criança morta servia de escudo humano. O raciocínio é tão elegantemente circular que dispensaria os factos, se os factos não insistissem em aparecer debaixo dos escombros.

E há aqui uma ironia histórica de uma crueldade quase insuportável. Arendt escreveu que a verdadeira expulsão da humanidade ocorre quando uma comunidade é destruída ao ponto de já não existir uma estrutura política capaz de reclamar os seus membros. Ora, se há povo que nas últimas décadas foi sendo progressivamente privado dessa comunidade, fragmentado, cercado, deslocado, ocupado, administrado e bombardeado até à exaustão, é precisamente o palestiniano. Como se alguém tivesse decidido transformar uma advertência filosófica numa experiência prática de laboratório.

Não deixa de ser notável que tantos dos que citam Arendt com reverência académica pareçam incapazes de reconhecer a sua sombra quando ela passa diante dos seus olhos.

E o Líbano outra vez.
Há sempre mais humanidade para expulsar da humanidade.

Porque evidentemente não bastava Gaza transformada numa paisagem lunar. Não bastavam os milhares de mortos, os deslocados, os órfãos, os mutilados. Era necessário alargar o perímetro da devastação. Afinal, quando se está convencido de que a própria história absolve antecipadamente todos os actos, a fronteira entre defesa e castigo colectivo torna-se um detalhe administrativo.

O mais extraordinário não é que isto aconteça. O mais extraordinário é a quantidade de gente que continua a fingir que não vê. Ou pior: que vê perfeitamente e chama-lhe virtude.

2026-06-20

Pontes


Há amores que merecem palavras claras, simples, puras. Especialmente os amores grandes, os que doem com uma dignidade particular, feitos de escolhas que ninguém testemunhou e de saudades que não têm nome certo. 

Para esses, não tenho ainda as palavras certas. Talvez porque escrever sobre eles exija um reencontro que ainda não aconteceu — com a memória, com a porta, com o momento exacto em que ficámos.

Nós sabemos o que é ficar. Sabemos o sobressalto de ter a mão na maçaneta e sentir o peso do que está do outro lado — não o peso de quem parte, mas o peso do que fica se não partirmos. É sobre isso que quero falar um dia, e estas promessas que fazemos a nós próprios são as que mais custam a adiar.

Escrevo isto para recordar que a chuva cai sempre no momento errado, e que há escolhas que se fazem em silêncio, sem plateia, sem heroísmo. Só a mão. Só a porta. Só o que decidimos que somos.

2026-06-19

Antes de ver o mar




Há um cheiro que não mudou desde que era miúda. Não sei nomeá-lo com precisão — é sal, é pinheiro a aquecer, é qualquer coisa a maresia que se mistura com pó seco de terra de carestia. Mas reconheço-o a cem metros, com os olhos fechados, antes de ver o mar.

É o cheiro do sotavento. E é, presumo, o mais próximo que tenho de uma memória que não se deixou estragar.

Tantas coisas mudaram. As casas, os preços, as pessoas que já não vêm. Eu própria mudei o suficiente para não reconhecer a miúda que correu por estas dunas. Mas o cheiro está exactamente onde o deixei.

Há uma reserva aqui ao lado e os pássaros não sabem nada de nostalgia. Fazem o que sempre fizeram — gritam, pousam, partem em bandos que desenham e desfazem formas no céu sem se preocuparem com quem está a olhar. Há nessa indiferença um sossego que nenhum conselho me deu.

Talvez seja isto o contentamento que não sei escrever: não a felicidade, que exige acontecimento, mas a permanência. O facto de haver coisas que esperam por mim exactamente como as deixei — um cheiro, um som, uma reserva de pássaros que continuam o seu mundo indiferentes ao meu.

Aqui há silêncio. Não o silêncio que falta — o silêncio onde cabe o chilreio dos pássaros, o som das ondas, os passos sem pressa de quem já não tem onde estar senão aqui.

E, de repente, basta.


2026-06-18

Céu de verão


O céu de verão é um bicho inquieto. Acorda cedo, já azul e espalhado, como se tivesse pressa de existir. Às vezes vem limpo, outras riscado por nuvens errantes, como frases abandonadas a meio. O sol, senhor absoluto, escorre dourado nas esquinas, nas peles, nos silêncios abafados da tarde.

Há dias em que inventa tempestades do nada, só para lembrar que manda. E quando escurece, não cessa — vira palco de estrelas que piscam sem ordem, desavergonhadas.

​O céu de verão não pede licença. Chega, ocupa, e deixa-nos a sós com tudo o que não sabemos nomear.

2026-06-16

O café do lado de fora do mundo



Há uma arte em virar as costas.

Não a das fugas — essa é ruidosa, cheia de bagagem e justificações. Esta é mais silenciosa: a de se sentar de frente para o horizonte e deixar o mundo acontecer sem plateia.

A cadeira é branca. O café, quente. O mar não precisa de explicação.

Fora do enquadramento, pressupõe-se tudo: o telefone, a lista, as respostas por dar. Aqui dentro — neste retângulo de areia e céu — existe apenas o gesto de segurar a chávena com as duas mãos. Como quem segura algo frágil. E sabe que o é.

As flores ao lado são hortênsias. Ninguém as pediu; aparecem como a graça — sem aviso e sem motivo aparente.

Não são férias. É outra coisa.
É o intervalo exato antes de voltar a ser responsável pelo mundo.

Vale o que vale — e vale tudo.

2026-06-12

A tragédia da toalha

Existe um medo antigo, profundamente feminino, que nenhuma terapia consegue erradicar: chegar a um sítio e encontrar outra mulher vestida exatamente igual.

É o horror doméstico por excelência. Um atentado à individualidade. Uma afronta cósmica.

A mulher da fotografia foi mais longe.

Não encontrou outra mulher vestida igual. Encontrou a mesa.

E agora está ali, perfeitamente integrada na decoração, num grau de fusão com o ambiente que a maioria de nós jamais alcançará. Não é uma convidada. É parte do serviço. Uma extensão da toalha. O xadrez vermelho transformado em gente.

Preside ao almoço com uma dignidade que, convenhamos, dificilmente fazia parte do plano.

Há quem passe uma vida inteira à procura de um lugar onde se sinta em casa.

Ela conseguiu.
Acidentalmente.
Num churrasco.

2026-06-11

O amanhã


O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.

​A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.

​O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.

​O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.

​O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.

​Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.

​Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.

​Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.

​O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.