2026-05-26

Leveza


Há um momento exacto em que o Verão chega de verdade. Não é quando o termómetro passa os trinta graus, não é quando o mar atinge temperatura de banheira. É quando se abre o armário e se percebe que aquele casaco de lã que ficou pendurado ali desde Novembro está, pela primeira vez em meses, completamente desnecessário.

É um momento de alegria quase filosófica.

A roupa de Verão é uma das poucas áreas da existência humana em que menos é genuinamente mais. Um vestido largo — aqueles que são, em rigor, uma peça de tecido com um buraco para a cabeça e a convicção de que o resto se resolve — é a resposta correcta para quase todas as perguntas difíceis do dia. O que visto? Um vestido largo. Para onde vou? Não importa, o vestido vem. Estou triste? O vestido ondula ao vento e é difícil manter a tristeza enquanto se ondula.

Existe uma dignidade particular em andar com os pés de fora.
Não estou a falar de sandálias elaboradas com tiras que sobem pelo tornozelo em espiral e demoram vinte minutos a apertar — essas são apenas sapatos com mais ambições e menos utilidade. Falo da sandália básica, a que se calça num segundo, a que permite que os pés respirem, sintam o chão, recordem ao corpo que existe uma terra firme ali em baixo e que não é preciso ter pressa. Os pés libertos andam diferente. Mais devagar, talvez. Com mais atenção.

O Inverno obriga-nos a carregar camadas. Camisolas sobre t-shirts, casacos sobre camisolas, cachecóis sobre casacos — tornamo-nos bonecas russas de nós próprios, embrulhadas em tecidos que vão acumulando os dias. O Verão faz o contrário: vai retirando. E há qualquer coisa de ligeiramente libertadora nisso, a ideia de que se pode sair à rua com a mínima quantidade de roupa socialmente aceitável e sentir que não falta nada.

Que, afinal, a leveza não é uma ausência.

É uma escolha.

2026-05-24

O Verão de São Calcanhar


Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.

Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.

Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.

Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.

Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.

Injustificada, mas admiro.

2026-05-23

O Peso das Crianças


Há amores que precisam de fazer arrumação antes de começar.

Este começou em França e foi deixando pelo caminho o que não cabia na bagagem. Primeiro o rapaz de dezasseis anos — idade suficiente para sobreviver, insuficiente para perceber que estava a ser descartado. Depois a viagem até Portugal, que não foi uma fuga nem uma aventura romântica, por mais que eles a tenham narrado assim a si próprios. Foi uma logística. Uma resolução de problema.

O problema chamava-se três anos. O problema chamava-se cinco anos. O problema tinha olhos.

Alcácer do Sal tem pinheiros e silêncio. Têm isso em comum com muitos lugares onde se enterram coisas. Deixaram as crianças vendadas — pormenor que merece ser lido devagar, porque a venda não serve a criança, serve quem abandona. Não quero que me vejam partir. Não quero carregar essa imagem. O conforto, até ao fim, era deles.

O pai biológico existia. Esta informação é importante. Não havia ausência de alternativa, havia recusa de alternativa. Entregar as crianças ao pai teria deixado rasto, implicado explicação, exigido um mínimo de confronto com o que estavam a fazer. A mata não pede nada. A mata não tem número de telefone.

Quando foram interceptados, tinham um plano: fingir deficiência mental. Combinaram-no friamente, entre si, com a segurança de quem não considera a hipótese de falhar — e com o desprezo de quem não considera a hipótese de em Portugal haver alguém que entende francês. O mundo, na sua cosmologia, era pequeno e estava do lado deles.

Não estava.

Há uma palavra para o que fizeram às crianças. Há outra para o que fizeram ao rapaz de dezasseis anos. Há uma terceira para o plano combinado em voz baixa, para a venda nos olhos, para a mata escolhida, para o pai ignorado.

Nenhuma dessas palavras é amor. Nenhuma é sequer o seu contrário.

É outra coisa. É a convicção, tranquila e organizada, de que os filhos são peso — e de que o peso se larga quando se quer começar a correr.

Afonia

"Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas"


José Carlos Ary dos Santos - Kyrie

Há uma afonia que não é falta de voz física. É o sufoco da alma: um universo inteiro para gritar, mas que esbarra no silêncio do mundo ou na hipocrisia das palavras que não dizem nada.

É o nó na garganta de quem se recusa a viver em tons de cinza, ou a aceitar o amor de plástico de quem nunca ardeu. A sede do visceral. A prece por quem carrega as palavras mais lindas do mundo dentro de si — e as sufoca, por medo ou por desterro.

Para que as palavras deixem de ser preto e branco, é preciso aceitar que proferi-las tem um custo. Não o custo da métrica ou da forma — o custo de quem ouve e reconhece que algo mudou.

A voz sem filtro não é descuido.
É uma declaração.

Recusar o revestimento da linguagem polida.

Recusar o amor que não arde, a paz que não custou nada.

Isso é um ato político — mesmo que só uma pessoa o ouça.

Que a tua voz morda.
Que queime.
Que incendeie o silêncio.

Um vulcão no peito não serve para sussurrar.

Banalidades




Olho o blogue na sua extensão e permanência.

Espremendo, sobram demasiados acessórios para encher a página: letras esparramadas à pressa e logo esquecidas, músicas que naquele momento faziam sentido e hoje talvez não, imagens que já nem sei porquê.
E alguns textos que ainda sinto, destes tantos anos de voz em fuga — os mais pessoais, os mais íntimos, os mais estranhamente a nu.

Isto é só um blogue. Desde o início assumi que seria sobre banalidades, as minhas banalidades no seu sentido etimológico mais profundo: o do ban, a circunscrição feudal.

Estou confortável com o meu ban — este pequeno feudo feito de tudo o que realmente faz parte do meu mundo e do que nesse mundo é importante para mim. Até mesmo quando ando demasiado perdida de mim e das fronteiras e linhas com que me coso, enquanto a vida vai continuando a descosturar.

2026-05-21

Tudo começa com café


Há quem diga que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Eu digo que é a mais traidora. Começas o dia com a ilusão de que um café e uma torrada são capazes de te transformar num ser funcional, quando, na verdade, são apenas o preâmbulo de uma série de más decisões. O açúcar do pão com manteiga é o primeiro passo para a rendição à mediocridade; o café, esse, é a desculpa líquida para não matares ninguém antes das nove da manhã.

E depois há os health freaks, esses mártires do iogurte grego e das sementes de chia, que olham para o meu pão com manteiga como se fosse um crime contra a humanidade e mastigam alpista logo às oito da manhã, como se o trânsito e as reuniões de Teams fossem doer menos porque comeram antioxidantes. Ou como se a virtude se medisse em gramas de fibra. Eu prefiro o meu pecado matinal, assumido, sem hipocrisias. Afinal, se a vida já é uma merda, pelo menos que o pequeno-almoço seja bom.

E a solidão do pequeno-almoço? Nada revela mais a condição humana do que uma pessoa sozinha à mesa, a olhar para o telemóvel como se este fosse capaz de lhe dar um sentido para o dia. Ou pior: um casal em silêncio, mastigando em uníssono. O amor, no fim, também tem ritmo.

2026-05-20

Quinta-feira


O vento não desarruma: revela.

​O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.

​Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.

​O resultado está à vista.

​Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.

2026-05-18

Remates


A miosótis é conhecida como a flor do "não-me-esqueças". É uma metáfora bonita, com um selo de romantismo vitoriano, mas a minha paciência tem um limite estrito e, neste momento, o meu maior desejo é esquecer onde guardei a agulha de rematar.

​Decidi fazer uma carteira. O pretexto é o costume: a busca pela autenticidade do handmade, a resistência contra o plástico chinês, a ilusão de que estou a criar um pilar da moda contemporânea. O resultado, na prática, é um puzzle têxtil tridimensional que exige a precisão de um neurocirurgião e a paciência de um monge budista. Cada flor de miosótis é um módulo. Cada módulo precisa de ser unido ao seguinte. E quando o padrão finalmente se arma, surge o verdadeiro teste à sanidade mental: os remates.

​Há dezenas de fios soltos a implorar por um acabamento invisível. Olho para aquilo e percebo que a carteira, mais do que um acessório elegante, é um monumento à minha procrastinação. Vai ficar assim, meio aberta, meio desfiada. Se alguém perguntar na rua, não é falta de paciência. É design conceptual. É a estética do inacabado. É desconstrucionismo portuense.

​Afinal, a miosótis pede para não ser esquecida, mas ninguém disse que tinha de vir rematada.

2026-05-17

Perfumes

Hoje ofereceram-me rosas amarelas. Esteticamente perfeitas — as curvas no lugar, o verde dos caules calculado, a armação de rede a condizer. Recebi-as encantada.

São rosas certificadas, como os pêssegos perfeitos e sem sabor. Perfeitas na aparência, amputadas de perfume. Sem espinhos também — rosas que só o são pela metade, que entram pela pupila mas que o nariz não reconhece.

Ainda alguém seca flores? As pendura no escuro, viradas para baixo, ou as prime por entre as páginas de um livro? Ainda alguém espera, meses depois, reencontrar as flores ressequidas — e com elas um vago odor de primavera?

Vou pôr estas numa jarra e olhar para elas. Mas não vou ser surpreendida pelo perfume ao entrar em casa. Não vou saber que lá estão. São flores sem memória — e sem a capacidade de criar nenhuma. Imperfeitas na sua beleza inteira, porque decepadas da sua magia perfumada.

2026-05-16

Palavras amputadas


As palavras com que costumávamos nomear o mundo estão gastas. Não por desgaste honesto — pelo uso, pela luta, pelo atrito com a realidade — mas por abandono. Ficaram para trás enquanto o mundo continuava, e entretanto foram saqueadas: duas ou três sobreviveram, mas irreconhecíveis, insufladas até ao tamanho de parangona, esvaziadas de sentido cirúrgico, prontas a ser arremessadas.

Não fazem pontes. Fazem buracos.

Daí esta sensação persistente de caos: não é que as coisas se tenham tornado incompreensíveis. É que ficámos sem léxico para lhes chamar o nome — e com muito barulho no lugar onde esse léxico deveria estar.

Talvez fosse necessário inventar um glossário novo. Mas isso dava trabalho. E há sempre qualquer coisa mais urgente — ou que parece.