2026-10-05

Viva a República!

Nada como atualizar a novela nacional em pleno feriado cívico, com os devidos contornos de surrealismo que a pátria merece.

Ah, a diplomacia do futebol moderno.

Em pleno 5 de Outubro, enquanto a República comemora a queda da monarquia e os historiadores se esforçam por manter vivos assuntos que ninguém discute à mesa de jantar, o país é chamado a acompanhar mais um episódio da geopolítica da Bola: Piers Morgan versus Jorge Jesus, com Pedro Proença no papel de bombeiro mediador.

É verdadeiramente maravilhoso.

O treinador da Seleção, num momento de pura afirmação de autoridade, dispara um categórico:
«Pedir desculpa de quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém!»

Eis que surge no horizonte, vindo de Inglaterra como uma espécie de D. Sebastião do jornalismo sensacionalista, Piers Morgan, procurador oficial do ego de Cristiano Ronaldo, pronto a garantir que o «Ten Hag português» devia retratar-se.

Uma crise diplomática, portanto. Só falta o Conselho de Segurança da ONU.

E, no entanto, pergunto-me: não era há anos tudo um circo?

Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso.

Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido.

Durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, esta tempestade num copo de água ter-nos-ia parecido perfeitamente normal. Um copo pequenino e, talvez por isso, tão pronto a transbordar.

Enquanto o Brasil discute a sua nova viragem ideológica e Portugal assinala o fim da monarquia, descobrimos que a verdadeira soberania nacional reside em saber se o CR7 volta ou não na próxima convocatória.

Aparentemente, a República pode esperar. O Ronaldo não.

A República que nos perdoe, mas um pedido de desculpas não dado por Jorge Jesus a pedido de Piers Morgan parece ter, neste país, mais peso institucional do que qualquer discurso sobre a implantação da República.

Já tivemos reis, presidentes, primeiros-ministros e, aparentemente, agora temos comentadores ingleses com poderes constitucionais.

Talvez seja esta a nossa evolução política: mudámos o regime, conservámos a corte.

Viva a República!

República


A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.

Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.

Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.

No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.

2026-10-01

Pedagogia da Suspensão

Houve um tempo em que uma lomba era um acontecimento. Tinha localização, tinha motivo e, nos casos mais solenes, tinha uma escola ao lado. Hoje é uma espécie invasora. Não tem predadores naturais, reproduz-se na Primavera, no Verão e nas reuniões de junta, e já ocupa todas as ruas onde passe mais de um carro por dia. Se o segundo carro for o do vizinho, que sai de casa de marcha-atrás, melhor ainda: justifica-se logo uma dupla.

Registo, para que conste, que não sou contra. Conheço o condutor português. Já o vi a trinta à hora no parque do centro comercial, com a gravidade de quem transporta um rim para transplante, e depois a cento e dez numa rua onde há roupa estendida. Deixado ao seu critério, qualquer artéria com mais de cinquenta metros de recta torna-se o circuito do Estoril, com semáforos opcionais e peões como risco calculado. A lomba é o único argumento que ele entende, porque lhe fala directamente ao bolso.

Mas uma coisa é a lomba, outra é a lomba que desfaz carros. Há as que pedem ao condutor que reconsidere, quase com carinho. E há as que o interrogam. Essas arrancam o tubo de escape, desalinham a direcção e ainda levam duas obturações de brinde, a vinte à hora. Ninguém sabe o que as ditou: o rigor técnico ou um desentendimento antigo com o dono do stand.

Daí a pergunta que faço com a ingenuidade de quem ainda acredita em regulamentos: existe norma para a altura? E para o comprimento, o perfil, esse «diâmetro» que numa lomba é conceito poético? Existe, em certo sentido. O regulamento de sinalização define a lomba redutora de velocidade e estabelece a respectiva sinalização, incluindo o xadrez a pintar no asfalto. E há uma nota técnica sobre a instalação, com critérios geométricos, estudos prévios e lugares onde não convém pô-las. Uma nota técnica. Não uma lei, não uma portaria: uma nota. Tem critérios, tem números, tem estudos prévios. Só não tem força de lei. Num país onde pendurar um toldo exige licença, parecer e três fotocópias autenticadas, a obra mais agressiva da via pública fica entregue a critérios técnicos que não têm força vinculativa.

No meu ofício chamaríamos a isto um produto sem prospecto: toda a gente subscreve, ninguém leu as condições e quem paga é o cliente, em prestações, na oficina.

O trânsito, que não é parvo, foge para a rua sem lombas. A rua sem lombas enche-se, os moradores queixam-se, a junta ouve, e nasce mais uma lomba. É o ciclo de vida do coelho, com a diferença de que o coelho, ao menos, não custa seiscentos euros em amortecedores.

Entretanto a minha suspensão e eu seguimos o método de sempre: devagar, sem pressa, a pedir desculpa ao chão.

2026-09-29

Prazo de validade

Vinte e quatro horas. É quanto dura, por contrato tácito, uma vida inteira num ecrã. Passado o prazo, o conteúdo caduca como o iogurte, e ninguém se lembra de o ter comido.

Chamam-lhe efémero e vendem-no como leveza. Eu chamo-lhe amortização acelerada: o momento nasce já depreciado, lançado a custos de imagem, e o retorno mede-se em corações. Ninguém pergunta pelo capital. 

Faço o inventário, que é o que sei fazer: o pôr-do-sol que ninguém viu, porque estavam todos a filmá-lo; o jantar que arrefeceu à espera da fotografia; o concerto visto a três centímetros do telemóvel alheio; a dor, com filtro. 

O culto tem liturgia e tem clero. A liturgia é a hora óptima de publicação. O clero são os que já perceberam que a autenticidade é um género, com regras de estilo, e que a espontaneidade se ensaia. Há quem chore em directo com uma iluminação impecável. Não duvido da lágrima. Duvido do ângulo.

Deixou de ter opiniões e passou a ter posicionamento. Deixou de estar triste e passou a partilhar. Deixou de viver e passou a cobrir o evento, sendo o evento ele mesmo. Horas extraordinárias que ninguém lhe paga. 

O mais curioso é que o efémero, hoje, é precisamente o que fica registado. O que se apaga em vinte e quatro horas está guardado num servidor algures, com data, hora e localização. Os antigos temiam a posteridade; nós contratámos um arquivo sem os incómodos da memória. 

Ontem, à mesa, ninguém falou. Estavam todos ocupados a documentar o jantar. 

Nas fotografias, parecíamos felizes.

2026-09-22

A esperança veio tarde


Quando chegou, já eu tinha aprendido a viver sem ela. Trouxe uma pasta, dois formulários e a promessa, sempre a mesma, de que tudo se resolveria dentro do prazo previsto. Sentei-me no meu lugar na fila.

A sala tinha cadeiras de plástico presas ao chão, um número luminoso que não avançava e um cartaz a explicar direitos que ninguém ali parecia ter, afixado com o mesmo cuidado com que se ignora. Um homem repetia ao telefone que “ligava só para confirmar”, pela terceira vez em vinte minutos — a instituição mais eficiente da sala. Uma criança contava os azulejos do teto. Eu contava os formulários, como se recontá-los os tornasse mais eficazes.

Ao meu lado, uma gata dormia com a serenidade de quem não precisa de justificar a própria existência. Ninguém sabia de quem era, nem parecia importar a ninguém que estivesse ali, entre pastas e senhas, como mais um número sem luz. Pensei que talvez fosse essa a diferença entre nós: ela descansava porque estava cansada; eu descansava apenas quando já não conseguia continuar.

O número no ecrã avançou duas vezes e recuou uma. Ninguém se espantou.

No fim, nada se resolveu. Disseram-me para voltar dentro de trinta dias, com os mesmos formulários, talvez com um terceiro — a burocracia, generosa, sempre disposta a dar-nos mais uma oportunidade de falhar. Mas a gata abriu um olho, avaliou o desastre e voltou a dormir.

Foi a forma mais honesta de esperança que encontrei nesse dia.

2026-09-06

A carcaça

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

A economia da cunha

O semáforo da esquina esteve avariado catorze meses.

Não era uma avaria sofisticada. Não exigia inteligência artificial nem um engenheiro da NASA. Era um semáforo: duas ou três lâmpadas com uma função modesta — dizer às pessoas quando podiam avançar sem morrer.

Durante catorze meses, esteve amarelo para todos. Para os carros, para os peões, para quem vinha em sentido contrário.

Houve um acidente. Depois outro. As pessoas do prédio fizeram o que ainda se recomenda a quem acredita nas instituições: assinaram um papel, entregaram-no na Câmara, esperaram.

O semáforo continuou amarelo.

Até que o neto do vereador começou a andar de bicicleta naquela rua.

Resolveu-se em três dias. Apareceu alguém com uma chave de fendas e uma preocupação genuína pela segurança rodoviária que estivera catorze meses em licença sabática.

Ninguém disse "cunha". Disse-se "finalmente deram-lhe seguimento". Já nem é preciso esconder a cunha. Basta mudar-lhe o nome. Hoje chama-se contacto.

A minha avó praticava uma forma mais artesanal e mais honesta de corrupção afectiva. Levava uma caixa de pastéis a quem lhe tratasse dos papéis. Chamava-lhe "uma delicadeza". E havia qualquer coisa de reconfortante naquela transparência: toda a gente sabia ao que ia.

Hoje somos mais sofisticados. Já não levamos uma caixa de pastéis. Levamos um apelido, um primo, um grupo de WhatsApp que não tem nome porque não precisa. E, sobretudo, levamos a convicção de que aquilo que conseguimos não foi por cunha — foi por mérito.

Portugal é um país profundamente comprometido com a coincidência.

Há pessoas que passam meses a tentar marcar uma consulta, obter uma licença, resolver um processo. E há outras que dizem: "Deixa estar, eu conheço lá uma pessoa." Essa frase é o horário de funcionamento não oficial de todos os serviços públicos.

Mas quase nunca vemos quem fica do lado de fora. A pessoa que esperou. Que cumpriu os prazos todos, que entregou os documentos todos, que não conhecia ninguém. Essa pessoa é a moeda da economia da cunha: paga com tempo. E quando se cansa, paga deixando de tentar.

Não aparece em lado nenhum. Nem nas estatísticas, nem na conversa de café, nem sequer na sua própria indignação, porque já se convenceu de que foi apenas azar.

O semáforo está verde há dois anos. Ninguém pergunta porquê.

Não corrigimos o sistema. Corrigimos a memória.

2026-09-02

O direito ao silêncio

Há coisas que não deviam ser consumidas em massa. A morte, certamente, merecia maior pudor.

Não digo que devêssemos fechar os olhos ao horror. Há mortes que precisam de ser notícia. Há crimes que precisam de ser denunciados. Mas há uma diferença entre informar e consumir. E tenho a sensação de que já não sabemos onde acaba uma coisa e começa a outra.

Acontece uma tragédia e, em poucas horas, sabemos o nome do morto, o nome do assassino, a cara do assassino, a cara da vítima, a sua infância, os seus vizinhos, o que publicou há sete anos numa rede social e, se houver tempo, até a marca dos sapatos que usava no dia.

Depois vêm os comentadores. Depois vêm os especialistas. Depois vêm as reconstituições. Depois vêm os vídeos em loop. Depois vêm as imagens que ninguém precisava de ver pela décima vez, mas que alguém decidiu que precisávamos de ver porque a audiência também precisa de ser alimentada.

E, no meio disto tudo, há uma família a escolher que fotografia levar para o velório, enquanto nós escolhemos que vídeo partilhar.

É aqui que me pergunto: onde termina o que é notícia e onde começa o que já é espetáculo?

Porque há uma perversidade particular em certos actos de terrorismo: não basta matar. É preciso ser visto. É preciso ocupar espaço, provocar medo, entrar na cabeça de milhões de pessoas.

E nós, com a nossa infinita disponibilidade para olhar, acabamos por entregar exactamente aquilo que era pretendido: uma audiência, um nome, uma narrativa. Os minutos de antena que talvez fossem parte do prémio.

Informar que houve um atentado é impedir que o medo fique abstracto. Mostrar o rosto do assassino em loop é transformá-lo em mito. Há acontecimentos que precisam de ser conhecidos sem precisarem de ser exibidos até à exaustão.

Há mortos que merecem ser lembrados sem que a sua morte seja transformada em conteúdo.

E há monstros que não precisam de tanto tempo de antena. Precisam, precisamente, do nosso silêncio.

Porque talvez a pergunta não seja o que temos o direito de saber.

Talvez devêssemos começar a perguntar o que estamos a ajudar a acontecer ao repetir isto pela centésima vez.

A informação é um direito.
A atenção tornou-se o prémio.

E nós andamos a distribuí-lo de graça.

2026-09-01

Não se interrompe quem está a fazer

Há uma regra básica da humanidade que continua inexplicavelmente por escrever nos manuais: se uma mulher está a fazer uma coisa que um homem disse que não podia ser feita, não a interrompas.

Não perguntes como está a fazer.
Não expliques como tu farias.
Não digas «isso não vai resultar».

E, sobretudo, não apareças cinco minutos depois com a frase:
— Estás a precisar de ajuda?

Não.
Neste momento, ela não precisa de ajuda. Precisa que te afastes lentamente, sem movimentos bruscos, como quem se aproxima de um animal selvagem.

Porque ela já passou pela fase da dúvida.
Já passou pela fase da irritação.
Está agora naquela zona luminosa em que uma pessoa deixa de querer provar que consegue e passa simplesmente a querer ver a cara de quem disse que não conseguia.

E há uma satisfação muito particular em terminar uma coisa que nos disseram ser impossível.
Não é vingança.
É serviço público.

2026-08-31

Clarabóia por telhado

Sou viciada em café e cigarros. É isto. Não é charmoso, não é estética de Instagram. É vício velho, de gente ansiosa. Acordo e o corpo pede logo as duas coisas.

“Podia ser pior”, dizem. Pois podia. Podia estar agarrada a pó, a apostas, a comprar merda que não preciso, a foder com desconhecidos só para não ficar sozinha, a viver nos comentários dos outros. Podia ser viciada em ser boa pessoa na internet. Isso é capaz de ser pior.

Não sou. Fiquei-me por isto. Café que me lixa o estômago e tabaco que me lixa o resto. Veneno com horário fixo.

Tenho uma clarabóia no telhado. Não vejo o mundo dali. Vejo um quadrado de céu sujo, a antena ferrugenta do prédio e, de vez em quando, uma gaivota que também não sabe bem onde está. Quando chove, embacia. Quando está sol, queima. Não me ilude.

Por isso não me meto muito na vida dos outros. Tenho telhados de vidro. Posso ver a rua, posso comentar para dentro. Agora, atirar pedras? Não.

Cada um que carregue a merda do seu calhau. O meu já me pesa que chegue. O dos outros só me interessa quando me cai em cima do pé.