2026-08-21
Ler o Vimana como manual da IKEA
Há uns milhares de anos, alguém na Índia escreveu sobre um carro voador dourado, capaz de atravessar continentes — a Pushpaka Vimana do Ramayana. Poesia épica, simbolismo religioso, uma bela metáfora sobre poder divino e destino. Devia ter ficado por aí. Mas não.
Em 1923, um místico indiano alegou ter recebido por via psíquica um texto ainda mais antigo, o Vaimanika Shastra. Já não era poesia. Era supostamente um manual técnico, com capítulos sobre hélices, ligas metálicas e motores a mercúrio. Porque, aparentemente, uma tese só ganha estatuto científico se envolver metais pesados e vocabulário esotérico.
Foi aí que o literalismo moderno — essa incapacidade crónica de ler entrelinhas — fez o seu truque favorito: pegou no mito e leu-o como se fosse um manual da IKEA mal traduzido. O carro voador passou a aeronave, o símbolo virou esquema eléctrico, e ficámos todos à procura do parafuso Allen que faltava nos Vedas.
Depois vieram os outros. Os mesmos que traduziram o Enuma Elish como relatório de aterragem. Os Anunnaki sumérios que aterraram para ensinar geometria porque, claro, a humanidade nunca teria chegado lá sozinha.
É a fórmula perfeita: a arqueologia fantástica como álibi elegante para despojar a humanidade da sua própria inteligência. Sobretudo a humanidade errada.
Stonehenge também tem a sua quota de discos voadores na cultura popular, é certo. Mas ali raramente se questiona a continuidade. Ninguém duvida que os britânicos de hoje descendem de gente capaz de arrastar pedras. Chegue-se a Gizé, a Tenochtitlán ou a Cuzco, e de repente há um corte. A engenharia de precisão torna-se uma ocorrência paranormal. Os egípcios sabiam construir, sim — mas alguém lhes deve ter ditado as equações.
Talvez um extraterrestre. Talvez um caucasiano. Idealmente, ambos.
O mecanismo é particularmente curioso. Quando lemos os mitos indianos ou o Enuma Elish, percebemos que estamos perante cosmologias: histórias que os seres humanos inventaram para explicar o mundo, os deuses, o destino e o lugar que ocupavam no meio de tudo aquilo.
O problema não é só o que esse roubo faz ao passado. É o que treina o cérebro para fazer no presente.
Porque, quando se aprende a ler uma narrativa simbólica como se fosse um relatório factual, não é difícil acabar a fazer o mesmo com as narrativas do nosso tempo. Já não temos cosmologia. Temos a Terra plana, répteis no parlamento e governos secretos comandados por sabe-se lá quem. O pensamento simbólico dá lugar à conspiração e a vontade de compreender o mundo transforma-se numa revelação privada: eu sei o que vocês ainda não perceberam.
No fundo, trocámos os deuses por extraterrestres e chamámos-lhe abertura de espírito.
Antes, a divindade descia para inspirar a alma; agora, o alienígena desce para ensinar a fazer argamassa. Tão obcecados ficámos com a tecnologia que até os nossos mitos sofreram um downgrade funcional.
E há uma diferença fundamental, quase trágica.
Os antigos diziam: os deuses inspiraram-nos a fazer isto.
Nós dizemos: os humanos eram demasiado ignorantes para ter feito isto.
Inventámos extraterrestres para não termos de admitir a grandeza intelectual daqueles que nos precederam.
Talvez seja essa a parte mais estranha da história. Os antigos precisavam de deuses para explicar os seus feitos. Nós precisamos de aliens para lhes tirar o mérito.
2026-08-14
O purgatório do saber inútil
Sei muito pouco de quase tudo, mas trago na memória um amontoado de saberes sem utilidade. Seria a concorrente perfeita de um qualquer concurso televisivo — esse purgatório do saber inútil onde se premeia quem sabe tudo e não percebe nada. Debito informação acumulada sem a questionar, pescando-a de um arquivo mental que faria melhor em abrir espaço ao que realmente importa.
Gostava, por exemplo, de reter nomes — coisa que raramente acontece. Irrito-me ao reconstruir cadeias de factos circunstanciais que despejo no interlocutor, na esperança de que, do outro lado, surja o nome que me escapa. Sei pormenores irrelevantes, mas falho no essencial.
Tenho facilidade em fixar minúcias: palavras em desuso que só regressam quando escrevo, detalhes sem préstimo. Esqueço caras. O disco, ao que parece, tem prioridades. Esqueço pessoas por inteiro, se não deixaram marca — e nem sempre é a pessoa que decide o que conta como marca. Perco-me nessas genealogias improvisadas — “o irmão do primo da Maria, casado com a Engrácia, aquela da sala ao lado no 9.º ano, da vespa azul às risquinhas”. Fico no primo. Nunca chego à Engrácia, muito menos à vespa.
Chamo-lhe memória selectiva, mas nem sequer é selectiva o suficiente: selecciona mal e sem me consultar. Preferia uma memória funcional, menos saturada de irrelevâncias. Dava jeito lembrar caras. Dava jeito lembrar nomes. Dava jeito, sobretudo, saber apagar o ruído e guardar o que faz falta — sobretudo na interlocução, onde tantas vezes falho.
No fundo, precisava de menos arquivo e mais critério. A minha memória pede um upgrade. Como tantas outras coisas, terá de esperar.
O homenageado
«Festejou-se o aniversário de um homem muito modesto. E apenas no final do banquete é que se percebeu que alguém não tinha sido convidado: o festejado.»
Anton Tchekhov
Modéstia, dizem, é virtude rara. Tão rara que, naquele banquete, se esgotou antes mesmo de o homenageado chegar à porta — porque ninguém se lembrou de o convidar. Brindou-se ao seu bom-gosto, à sua discrição, à sua elegante ausência de vaidade. Ergueram-se taças à saúde de um homem que, coitado, estava em casa, provavelmente também ele demasiado modesto para perguntar por que razão não fora chamado à própria festa.
No fim, todos concordaram: fora a celebração mais sincera que já tinham visto. Sem o risco de o festejado, com a sua presença inconveniente, estragar o discurso sobre como ele era humilde.
Há quem confunda modéstia com desaparecimento. E há festas que só correm bem precisamente porque o motivo delas teve o bom senso de não comparecer.
2026-08-12
Lagostim de agosto
Começam a chegar em Julho, pálidos como hóstias, vestidos de linho caro e expectativa. Trazem factor cinquenta na mala e uma fé cega no sol português, como se este fosse mais generoso do que o deles só por estar a sul. E o sol, esse cínico, não os desilude: ao fim de vinte minutos de esplanada já estão da cor de um marisco cozido, a pele em festa, o "ai" a tornar-se dialecto.
Eu, por outro lado, fico ali sentada, intacta, a ver o espectáculo com o distanciamento de quem já sabe como a peça acaba. A minha pele não se rende a drama nenhum. Aloira, talvez, com a paciência de quem envelhece um queijo — devagar, sem euforia — e nunca, nunca chega ao vermelho. É como se o sol olhasse para mim e decidisse que não vale a pena a encenação toda.
Há qualquer coisa de profundamente injusto nisto, confesso. Eles pagam a viagem, o hotel, o guia turístico que lhes mente sobre a autenticidade das sardinhas, e ainda pagam com a pele, em queimadura pura. Eu não pago nada. Fico ali, bronze insuportavelmente razoável, enquanto ao meu lado um dinamarquês se transforma lentamente num pimento assado, perguntando à mulher, entre gemidos, se "isto é normal".
É, meu caro. É Portugal. Aqui o sol não faz distinções de classe, mas faz — e com gosto — distinções de pigmento.
2026-08-10
(Des)culpas
Nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã nos ensinou a carregar, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba, acho que só lá esteve sempre para enganar...
E se enganava, o que sobra?
Sobra este reflexo quase automático: pedir desculpa por estar bem. Baixar os olhos quando a alegria é grande demais. Dizer “é só uma fase boa”, como quem diz “não se preocupem, já passa”.
Fomos ensinados a fazer a gestão da infelicidade. A dar-lhe nome, novena, terapia, conversa. À felicidade, não. A felicidade tem que ser merecida, moderada, dividida em porções pequenas para não dar inveja a ninguém — nem a Deus, nem aos outros, nem a nós próprios.
O medo e a culpa lidam mal com a felicidade porque a felicidade não pede licença. Acontece. Chega sem curriculum. Sem ter feito por merecer. E isso, numa cultura de mérito e castigo, é quase obsceno.
Talvez des-culpar seja isso. Não é ficar sem culpa. É aprender a ficar com a felicidade mesmo com a culpa ao lado, a resmungar no canto.
Não mandar a culpa embora. Só deixar de lhe dar a presidência da mesa.
Não dizer “desculpem a felicidade”. Dizer “olhem, estou feliz. Apesar de tudo. Com tudo. E fico mais um bocado.”
Pegada
Se uma vida for passada num total isolamento, se não houver quem lhe tenha visto os pormenores, os bons e os maus, se nada sobrar na memória dos outros, então essa vida foi esgotada, apagada e nada sobra depois.
Se, pelo contrário, por actos, por presenças, por carinhos, por memórias, uma vida ganhar espaço na história de outro, nem que seja de forma leve, fugidia, então há uma memória que não se perde, há uma ínfima possibilidade de eternidade, recontada em tom de história pelas palavras de outros que a conheceram, reconheceram, fizeram sua.
A perenidade da memória — dos outros na nossa memória; nossa na memória dos outros — talvez seja uma forma de contrariar o vazio do esquecimento. Não sei se é eternidade, nem se alguma coisa nos espera depois do fim. Sei apenas que, enquanto alguém se lembrar de nós, alguma coisa daquilo que fomos continua a existir na vida de outro.
Não sei o que existe depois; sei o que podemos deixar uns nos outros.
2026-08-09
Medo
Às vezes penso que a ideia de viver no medo é muito mais aterrorizante do que o próprio medo. E às vezes parece-me que vivemos numa sociedade que, cada vez mais, explora o medo como se fosse a única forma de controlo possível sobre as almas, agora que os pecados foram (quase) todos apeados. Como se o medo fosse a nova arma esgrimida por quem nos tenta controlar os dias, quando os velhos nós se desfazem e as regras antigas são repensadas.
E tenho medo da forma fácil como o medo é aceite. Tão fácil que se prescinde de pequenos nacos de liberdade todos os dias, abocanhados pelo medo fabricado que se instala e nos corrói o âmago.
2026-08-07
Catrineta
E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.
É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim.
Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.
Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.
Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.
Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.
É um buraco negro. Suga.
De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.
É um monstro.
Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.
(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)
2026-08-04
A outra margem
O mar entre Marrocos e Espanha já não é um estreito. É o intervalo entre uma esperança e um obituário.
2026-07-30
Kyrie eleison
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia
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