2026-08-31
Clarabóia por telhado
2026-08-30
Quem com ICE prende, com ICE é preso
Há dias em que a realidade escreve o texto por nós e ainda nos deixa a tarefa fácil: basta não atrapalhar. O destino, esse contabilista cínico, não precisa de metáforas — só de tempo.
Milo Yiannopoulos, especialista em transformar ódio em carreira, foi apanhado pelo ICE no aeroporto de Nova Orleães e devolvido ao Reino Unido como quem devolve mercadoria defeituosa. O homem que passou anos a exigir deportações em massa, a defender que “milhões e milhões e milhões” deviam ser expulsos sem cerimónia, descobriu que a máquina que ele próprio ajudou a lubrificar não distingue entre inimigos e arquitectos.
É a velha história do carrasco que se esquece de que a lâmina não tem memória. Milo avisou-se a si próprio, repetidamente, em directo, com a convicção de quem constrói a própria armadilha e ainda se orgulha da engenharia. Depois surpreendeu-se por ser o primeiro a cair nela. Não é ironia. É incompetência estratégica.
A frase bíblica — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — é demasiado suave para o caso. Aqui não há moral, nem castigo divino, nem lição. Há só um sistema administrativo que funcionou exactamente como foi desenhado: um algoritmo burocrático que não lê currículos, não reconhece celebridades de nicho, não distingue entre o pregador e o alvo. O nome apareceu no ecrã, o protocolo avançou, e pronto: mais um número processado.
A crueldade que ele aplaudiu quando caía sobre os outros perdeu o charme quando lhe bateu à porta. É sempre assim: a violência política é um espectáculo até ao momento em que o bilhete tem o nosso nome.
Não sinto pena. Não sinto triunfo. Sinto apenas a precisão fria de uma máquina que, pela primeira vez, se lembrou de incluir o nome dele na lista. Não é karma. Não é justiça poética. É contabilidade: o débito chegou, e o sistema, implacável, cobrou.
2026-08-28
A Imortalidade do Inútil
2026-08-25
Vinte e dois anos de fuga
Ontem, a Voz em Fuga fez anos.
Nasceu a 24 de agosto de 2004, numa altura em que os blogues ainda eram uma coisa com alguma dignidade: não havia reels, não havia algoritmos a decidir se merecíamos existir, não era preciso dançar para a câmara nem começar um texto com “ninguém vos prepara para isto”.
Havia palavras.
E eu tinha coisas para dizer.
Muitas delas ficaram pelo caminho. Outras envelheceram mal. Algumas, felizmente, desapareceram sem deixar morada. Mas há textos que continuam por aqui, como aquelas fotografias antigas em que reconhecemos a cara mas já não reconhecemos inteiramente a pessoa.
A Voz em Fuga foi mudando comigo. Já foi diário, desabafo, esconderijo, observatório, campo de batalha e, sobretudo, lugar para onde fugir quando o mundo se tornava demasiado barulhento.
Entretanto, passaram-se 22 anos.
Vinte e dois.
Há relações que não duram tanto. Há governos que não duram tanto. Há penteados de que nos arrependemos por muito menos tempo.
E, contra todas as probabilidades, a Voz continua aqui.
Talvez porque nunca tenha sido propriamente um blogue.
Talvez seja uma espécie de casa.
Uma casa desarrumada, com livros por todo o lado, gatos a atravessar o corredor, algumas teias de aranha e uma quantidade pouco recomendável de pensamentos inúteis.
Mas é minha.
E ainda há uma voz lá dentro.
Obrigada a quem, ao longo destes vinte e dois anos, entrou pela porta, leu, comentou, discordou, riu, ficou em silêncio ou simplesmente passou por aqui.
A Voz em Fuga continua.
E eu também.
Ainda bem.