2026-01-12

O Irão em chamas (outra vez)


Há qualquer coisa de ciclicamente trágico na forma como o Irão volta sempre ao mesmo ponto: protestos nas ruas, repressão brutal, retórica inflamada, o Ocidente a observar com a sua habitual mistura de preocupação e oportunismo. E desta vez não é diferente.

Os números variam conforme quem conta - mais de 600 mortos segundo uns, centenas segundo outros, mais de mil presos é certo -, mas o essencial permanece: um povo exausto pela inflação acima dos 40%, pelo rial que perdeu metade do valor em poucos meses, pela promessa sempre adiada de uma vida melhor. 

Os protestos começaram, como tantas vezes, por razões económicas básicas: o preço do óleo, do frango, do pão. Mas transformaram-se rapidamente naquilo que sempre esteve latente: um grito contra o próprio regime.

Khamenei, fiel ao guião que conhecemos de cor, chama-lhes "vândalos" e "sabotadores ao serviço de interesses estrangeiros". O regime corta a Internet, como se apagar a ligação ao mundo fosse apagar a realidade. E Trump, sempre pronto para o papel de xerife global quando há petroleo para desviar, promete "atacá-los com muita força" se começarem a matar pessoas. Como se não tivessem já começado. Como se as ameaças resolvessem alguma coisa que sanções e guerras retóricas não resolveram em décadas.

Pergunto-me, sinceramente, o que esperamos que aconteça. Que o regime caia? Que uma revolução traga democracia instantânea? Que a pressão externa funcione desta vez, ao contrário de todas as outras? Ou será que nos contentamos em assistir, indignados mas confortáveis, a mais um capítulo desta tragédia previsível?

O povo iraniano merecia melhor do que este ciclo interminável. Merecia um regime que o respeitasse, uma oposição internacional que não o usasse apenas como peça no tabuleiro geopolítico. E merecia sobretudo que o mundo não esquecesse - como esquece sempre - quando as câmaras se desligarem e a atenção mediática passar para a próxima crise.

Mas a história ensina-nos que merecer raramente é suficiente.

2026-01-11

Adolescência


E há dias em que olho para ele e pergunto-me quando é que aquilo aconteceu, quando é que o miúdo deixou de usar calças normais e passou a andar com aquelas calças cargo cheias de bolsos vazios – porque porra nenhuma lá cabe a não ser ar e ilusões de utilidade – e quando é que decidiu que aquele kispo três tamanhos acima, esse que mais parece um saco do lixo com fecho e capuz, era o auge da moda e do bom gosto. E tudo o que digo é cringe, mas ele ali a querer andar embrulhado naquele plástico a que chama casaco, isso é que é estilo, isso é que é estar na onda. Pergunto "Como foi a escola?" e ele murmura qualquer coisa monossilábica tipo "bem" ou "fixe", mas ouse pedir-lhe para largar o telemóvel, só por cinco minutos, e prepare-se para um discurso inflamado sobre direitos humanos e a injustiça que é ter nascido nesta família. E as mudanças de humor, meu deus, as mudanças de humor. Num minuto ri-se desalmadamente de um meme que eu não percebo, no seguinte está dramaticamente afundado no sofá a suspirar como se carregasse o peso do mundo inteiro nos ombros estreitos, ou mais provável ainda escondido no escritório atrás do computador a partir a mesa porque perdeu um jogo. Bem-vindos à adolescência. Onde a lógica foi de férias e ainda não marcou data de regresso.

2026-01-10

Engarrafamento


Se as sondagens de campanha servem de GPS para este desastre anunciado, a resposta honesta é: ninguém faz ideia do que vai acontecer, mas a comédia está garantida. E nós na plateia, como sempre.

A menos de dez dias das eleições, o que temos não é uma corrida democrática — é um engavetamento na VCI em hora de ponta, com cinco egos amachucados a discutir quem tem a ambulância mais bonita.

Damos conta que é desta que "o sistema" pode perder e da fragmentação como fatalidade nacional. São cinco candidatos empilhados entre os 16% e os 21%, como sardinhas azedas numa lata mal fechada. Uma margem tão ridícula que a passagem à segunda volta pode decidir-se por um erro de arredondamento estatístico ou pela qualidade dos salgadinhos servidos no último comício.

Ventura lidera com uns 20%, esse triunfo moral de quem consegue gritar mais alto numa sala de surdos. É o vilão que todos querem defrontar porque perde contra qualquer um na segunda volta. O antagonista útil, a ameaça de plástico que justifica o voto de gente que detesta escolher mas adora sentir-se heroica por fazer o mínimo.

Seguro — esse nome que é um oximoro ambulante — apela ao "voto útil" da esquerda como quem acena a última boia no Titanic.  Quer convencer-nos de que só ele impede o caos — essa palavra mágica que dispensa argumentos. Mas que ninguém pergunte o que fez quando teve poder para além de aquecer cadeiras e acumular derrotas elegantes.

Gouveia e Melo, o Almirante-vacina, começou como o messias inevitável mas vai murchando como alface esquecida no frigorífico. Ainda assim, se chegar à segunda volta, esmaga tudo com aquela eficiência militar que tanto reconforta o português em pânico. Porque não há nada que este país adore mais que fardas quando precisa de alguém que mande nele.

Cotrim de Figueiredo vai subindo nas sondagens à boleia de quem ainda acredita que liberalismo é resposta para alguma coisa que não seja o lucro dos amigos. Mas tem bom aspecto, não parece ter um Santana sem pescoço por amigo e seria presenciavel na fotografia.

Marques Mendes, o comentador que queria ser Rei e descobriu que falar para a câmara ao domingo é bem mais confortável que andar de coturnos pelo país gelado a fingir que gosta de povo. Está em quinto lugar, provando que carisma televisivo não paga despesas de campanha nem tira portugueses do sofá em janeiro.

A conclusão sem vaselina é que
teremos provavelmente uma segunda volta entre Ventura e um "Candidato Sério" do costume — seja o que hesita cronicamente, o que se põe em bico de pés, o fotogénico ou o que tem medalhas no peito. O duelo épico entre a taberna e o quartel, entre quem berra populismos e quem recita tecnocracias. Entre o insulto e a indiferença.

A única certeza absoluta? Ninguém sabe, as gráficas que imprimem boletins vão lucrar obscenamente e nós, os figurantes deste teatro democrático, continuaremos a escolher entre medos embrulhados em promessas. Nunca entre futuros. Porque futuros exigiriam imaginação e isso não é bem a nossa especialidade nacional.

2026-01-09

Flor do Mal


Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja, na verdade, a única forma de visão que suporta a escuridão total. Em Flower of Evil, não somos convidados a assistir a um crime; somos convidados a observar o desmoronamento de uma máscara que, de tão bem esculpida, se tornou a única verdade de um homem.

​Baek Hee-sung — ou o fantasma de Do Hyun-su — é um mestre da metalurgia, mas a sua maior obra foi a própria vida. Ele moldou o metal para criar beleza e moldou o rosto para simular o afeto. É perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente triste vê-lo praticar sorrisos em frente ao espelho, como quem aprende uma língua estrangeira para sobreviver num país onde nunca será cidadão: o país dos sentimentos.

​E depois temos Ji-won. Ela não é apenas a detetive que persegue a verdade; ela é a mulher que vê o monstro e decide, com uma coragem que roça a loucura, procurar a criança ferida que habita lá dentro. No silêncio daquela casa perfeita, o suspense não nasce do sangue derramado, mas do som do vidro a estilhaçar-se — o vidro da ilusão.

​Nesta série, a Coreia oferece-nos o oposto do ruído vazio a que o cinema ocidental nos habituou. Aqui, o mal não é uma caricatura; é uma herança pesada, um estigma que se cola à pele. Mas a beleza desta "Flor do Mal" reside precisamente na sua raiz: a descoberta de que mesmo alguém convencido da sua própria incapacidade de amar pode, no fim, ser salvo pelo reflexo do olhar de quem nunca desistiu de o ver por inteiro.

​Afinal, a verdade não nos liberta apenas. Às vezes, ela destrói-nos primeiro, para que possamos, finalmente, ser reais.

2026-01-08

Tribulações


Olhem-me só para este focinho de “Quem? Eu? Importunar? Nunca!”. Só orelhas e um bocadinho de gata à volta. E um miado forte o suficiente para sinalizar ambulâncias. Tenho para aqui uma diva a cantar ópera 24/7. Hoje, com o tamanho da dor de cabeça, é tipo um bingo cósmico de “quantas coisas podem acontecer ao mesmo tempo”. Eu sei que a gata não sabe que está a ser inconveniente ou que me dói a cabeça. E que, na cabeça dela, está só a fazer o seu trabalho muito importante de anunciar a sua disponibilidade ao universo. Aos berros. Constantemente. Enquanto eu tenho os pés gelados, o cérebro nebuloso e meio nariz entupido. E está tudo cinzento e apático. Menos a gata. Rais’parta a gata!

2026-01-06

Novelos e Neuroses



O croché é uma das poucas atividades onde começamos com um fio e terminamos com um tapete para o sofá, três camisolas inacabadas no armário e uma crise existencial sobre o sentido da vida.

Dizem que é relaxante. Mentira. Relaxante é até perder a conta das correntinhas pela quarta vez e perceber que aquele quadrado que deveria ter 20 pontos tem misteriosamente 17. Aí começa a investigação forense: "Onde é que eu comi os outros três?"

O mais fascinante é a velocidade de execução. Lembras-te da tua avó a fazer croché enquanto te prestava atenção com um ouvido e tinha o outro no Anthímio de Azevedo... Parece feitiçaria! Enquanto isso, tu precisas de silêncio absoluto, três tutoriais no YouTube e mesmo assim o teu "ponto baixo" fica com cara de "ponto deprimido".

E nem vamos falar dos padrões: "Faça 3 correntes, 2 pontos altos no mesmo ponto, vire a peça, sacrifique uma galinha à lua cheia..." Parece mais um ritual de magia negra do que artesanato.

Mas no final, quando aquele cachecol torto ficar pronto, vou usá-lo com o orgulho de quem escalou o Everest de chinelos.

2026-01-04

Doutrina "donroe"

Ah, meus caros, sirvam-me um copo de tinto, mas que seja do Douro, que o Napa Valley agora paga taxa de importação de luxo e o paladar deles sempre soube a hegemonia com aroma a carvalho novo.

​Sento-me aqui, no outono desta Europa que cheira a biblioteca velha e mofo, a olhar para os jornais deste início de 2026. Eu, que vi o Muro cair em Berlim com o coração a bater como se a História tivesse, finalmente, aprendido a ler e a escrever. Eu, que celebrei o fim da Guerra Fria com a ilusão de quem achava que o mundo seria, dali em diante, um jardim de infância gerido por filósofos. Que pateta fui, não é?

​Agora, vejo o "Don" a desenhar mapas com o mesmo giz de quem marca o território numa briga de taberna. Chamam-lhe "Doutrina Monroe", dizem os académicos com os seus óculos na ponta do nariz. Mas eu, que ainda sinto o frio dos anos 80 nos ossos, vejo ali outra coisa. É o regresso do Lebensraum, mas servido com um hambúrguer de plástico e uma aplicação de rede social.

​É a "Doutrina Donroe",  dizem. Um destino manifesto onde o "espaço vital" já não é o Leste europeu, mas sim tudo o que fica a sul do Rio Grande e a norte da Antártida. O Hemisfério Ocidental transformou-se no "quintal privativo" do Xerife. Se tens lítio, és "espaço vital". Se tens migrantes, és "ameaça biológica". É uma geometria política feita de muros e espelhos: o Don olha para o mapa e não vê países, vê imobiliário.

​E nós? Nós, a Europa...

​Nós somos a velha tia solteirona que ficou a falar sozinha no salão, enquanto os sobrinhos decidem quem herda a mobília. Sobrevivemos à Guerra Fria para morrermos de tédio e irrelevância nesta "Guerra Morna" de 2026. Em Washington, dizem que somos um "museu a céu aberto", uma civilização que se esqueceu de como se faz um soco. E talvez tenham razão. Enquanto eles discutem anexar a Gronelândia como se fosse um anexo para arrumações, nós aqui na UE discutimos o tamanho regulamentar das maçãs e a curvatura dos pepinos.

​É cómico, se não fosse de chorar. A Doutrina Monroe original era para afastar os reis europeus. Esta nova versão é para nos convencer de que nem sequer existimos. O Don olha para o Atlântico e vê um fosso, não uma ponte.

​É trágico ver o mundo voltar a dividir-se em "zonas de caça". É o regresso aos impérios que não conversam, que apenas rosnam e marcam o chão com urina estratégica. Eu, que sonhei com o fim das fronteiras, vejo agora o mapa mundi a ser retalhado por um mestre de obras que não aceita orçamentos de fora.

​Deem-me mais um gole. No fim de contas, o fim da História foi apenas um intervalo comercial. O filme que está a dar agora é a preto e branco, mas as legendas são em cirílico, mandarim e, acima de tudo, num inglês que já não reconhece a palavra "aliado".

​A Europa está calada, dizem? Não, meus caros. A Europa está apenas a tentar perceber se ainda tem voz, ou se o nó na garganta é apenas o medo de que o próximo "espaço vital" a ser negociado seja o nosso silêncio.