2026-04-23
O Paraíso dos Desdentados
2026-04-22
Teorema das sofanadelas
2026-04-20
O Purgatório tem Wi-Fi (mas a password expirou)
2026-04-19
Geração X
2026-04-17
Profetas em segunda mão
Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, subiu a um púlpito improvisado no Pentágono e abriu o que parecia ser uma Bíblia. Começou a ler com a solenidade de quem carrega o peso do mundo — ou pelo menos de um guião.
O problema é que o texto não era dos Profetas. Era de Quentin Tarantino.
Hegseth pregou o monólogo de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction com uma convicção tal que, por um momento, ficou a dúvida: para ele, se soa a vingança e está em inglês arcaico, foi Deus que escreveu?
A resposta veio do Vaticano. O Papa Leão XIV — o primeiro americano a calçar as sandálias do Pescador — não respondeu com ironia. Respondeu com Isaías 1:15.
"As vossas mãos estão cheias de sangue."
Não há muito a acrescentar. Um homem que confunde Tarantino com os profetas tem poder sobre vida e morte. Um homem sem esse poder lembrou-lhe o que isso significa.
A Bíblia não foi editada por Tarantino. Mas talvez precisasse de ser lida por quem tem o dedo no gatilho.
2026-04-16
A Cura que Vem a Seguir
2026-04-15
Poemarmas (versão condensada, 2026)
2026-04-14
A Geometria do Espanto
O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.
Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.
O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.
Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.
Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.
O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.