2026-04-23

​O Paraíso dos Desdentados


Se Richter tivesse razão, Portugal seria um país de eternos habitantes. Mas há paraísos que se esvaziam por dentro — lugares onde a memória não desaparece, apenas se torna seletiva, dócil, inofensiva.

​Estamos nas vesperas do 25 de Abril e a máquina da efeméride já aquece os motores. Celebraremos, como sempre, o que já não nos ameaça. A memória, quando perde os dentes, transforma-se em cerimónia. Em desfile. Em coisa arrumada na gaveta dos feriados nacionais.

​Os fantasmas continuam lá, mas já não mordem. E por isso podemos acenar-lhes com tranquilidade, como quem reconhece uma fotografia antiga sem sentir o pulso acelerar. O "velho das botas" pertence agora ao arquivo, não ao medo. E é precisamente essa ausência de perigo que permite a coragem tardia dos nossos dias: a facilidade de homenagear o que já não pode responder, nem contradizer, nem punir.

​Entretanto, no vácuo deixado pela utopia, ficaram outros. Não os que mandaram durante décadas com mão de ferro, mas os que sobrevivem em ciclos de quinze minutos. Gente de superfície, de ruído curto, de obra nenhuma. São os gestores do "agora", impecáveis na técnica e vazios na entrega.

​Já não há futuro suficiente para chamarmos utopia. Há apenas a administração do presente — limpa, técnica, irrepreensível.

​Talvez seja esse o verdadeiro esquecimento: não o ato de perder o passado, mas o de perder, finalmente, a necessidade dele.

2026-04-22

Teorema das sofanadelas


A minha sala tem uma planta trapezoidal tão estranha que até os móveis parecem sofrer de labirintite. Mas o meu feitio também é “de ladecos” e, assim, a minha busca pelo sofá ideal demorou quatro anos de pura indecisão — que acabou num sofá preto, quando jurava que queria um azul.

Mas o que importa não é a cor, nem o ângulo de 45 graus com que ele ficou encostado à parede. O que importa é que foi desenhado para a arte da sesta.

Deitei-me e senti-o: perfeitamente calibrado para as sofanadelas. Daquelas com direito a sesta profunda e àquele fio de baba estratégico no canto da boca.

Foi então que percebi: não há salas perfeitas, nem ângulos retos que salvem uma vida atribulada. Há, isso sim, sofás que nos encontram quando já desistimos de os procurar.

E foi ali, entre o encosto e a almofada, que o meu α finalmente fez sentido. Conforto elevado, ângulo irrelevante… e quem nunca acordou babado, que atire a primeira almofada.

2026-04-20

O Purgatório tem Wi-Fi (mas a password expirou)



​Estou há uma semana retida no Triângulo das Bermudas da modernidade: o suporte técnico. É um lugar fascinante, onde a lógica vai para morrer e onde frases como “tentou reiniciar?” são proferidas com a gravidade de quem está a sugerir uma cirurgia de peito aberto.

​A minha autonomia — aquela que me permitiu sobreviver aos anos 80 sem um GPS ou um adulto funcional por perto — está a ser lentamente asfixiada por um chatbot chamado "Artur", que tem a empatia de uma pedra e o vocabulário de um folheto de instruções traduzido por inteligência artificial de baixo custo. O Artur quer saber se estou satisfeita. O Artur quer que eu avalie a minha experiência. O Artur ainda não percebeu que, na minha escala de valores atual, a única "experiência" que me satisfaria envolvia um martelo de 5kg e o servidor central desta empresa.

​Dizem que a tecnologia veio para nos libertar. De facto, estou libertíssima: de trabalhar, de produzir e de manter o meu índice glicémico abaixo do nível de alerta. Passo os dias a olhar para círculos que giram, ícones de carregamento que são o equivalente digital a um manguito, e a preencher captchas para provar que sou humana. É irónico. Sinto-me cada vez menos humana e cada vez mais como uma peça defeituosa numa simulação escrita por um estagiário sádico.

​O que mais me irrita não é a avaria. É a condescendência do sistema. É a música de espera em sintetizador que tenta convencer-me de que "a minha chamada é muito importante", enquanto o contador de tempo me informa que sou a número quarenta e dois na fila para o nada. É a submissão exigida por um código que não aceita a minha password porque, aparentemente, a minha vida não tem carateres especiais suficientes.

​Sete dias disto. Se fosse em 1986, eu já tinha aberto a carcaça do computador, soprado nos contactos e resolvido a questão com um par de insultos bem direcionados. Hoje, sou obrigada a "abrir um ticket". Um ticket. Como se estivesse na fila para um carrossel que não anda, num parque de diversões em chamas.

​Dizem que a paciência é uma virtude. Eu digo que a paciência é apenas a falta de um plano de fuga. Mas não se preocupem: se amanhã não houver texto, é porque a minha voz finalmente fugiu. Não por vontade própria, mas porque o servidor decidiu que a minha existência requer uma atualização de software que eu não pedi nem quero, mas que tenho de aguardar.

2026-04-19

Geração X


Dizem que a Geração X foi criada sem aplausos. É verdade, e provavelmente foi o melhor que nos aconteceu. Crescemos com a chave ao pescoço, a resolver avarias de televisores a soco e a aprender que o silêncio de uma casa vazia não é tragédia — é condição. A autonomia não foi uma escolha; foi o kit básico de sobrevivência que veio na caixa, sem manual e sem direito a serviço de apoio ao cliente.

​Crescemos com a sombra da Guerra Fria no tecto — a bomba não era metáfora, era probabilidade estatística. Aprendemos cedo que nada estava garantido, nem sequer o amanhã em sentido literal. Quando a ameaça nuclear finalmente se dissipou por falta de orçamento, o mercado apressou-se a preencher o vazio: entrámos na vida activa e encontrámos crises enfileiradas. A entrada na CEE, a bolha dotcom, o subprime, a austeridade de estimação e, para coroar a palhaçada, o Covid e a habitação. Cada vez que respirámos fundo, havia outro "reajustamento estrutural" à espera de nos esvaziar os bolsos. Não nos queixámos. Sabíamos que a reclamação é um luxo de quem acredita que o sistema se importa.

​Não somos a geração do trauma performativo nem da resiliência com filtro de Instagram. Somos a geração que se habituou a não precisar de público para funcionar — e que desconfia, por instinto visceral, de qualquer um que precise de validação externa para validar a sua própria existência.

A Hipátia habita aqui por isso. Não como boneco de merchandising para inspirar RHs em burnout, mas como a competência que não precisa de crachá e a lógica que serve de armadura contra a imbecilidade circundante. O nickname é o meu último gesto de higiene: apagar a pessoa para que o pensamento sobreviva sem a biografia a pedir desculpa ou um rosto à espera de "likes". Sem nome, o texto deixa de ter dono e passa a ter apenas o peso da verdade.

E agora, enquanto o governo de Montenegro faz o seu habitual número de equilibrismo para sobreviver mais uma terça-feira, surgem as "reformas" do código do trabalho. A classe média — essa geração sanduíche que passou décadas a amortecer os choques de toda a gente — vê as regras serem alteradas nos últimos metros da maratona. Querem-nos ainda mais expostos, ainda menos protegidos, como se a nossa resiliência histórica fosse um cheque em branco para o abuso estatal. Não pedíamos descanso. Pedíamos apenas a paz e a calma de quem já pagou a sua quota de caos. Não pedíamos aplausos.

2026-04-17

Profetas em segunda mão


Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, subiu a um púlpito improvisado no Pentágono e abriu o que parecia ser uma Bíblia. Começou a ler com a solenidade de quem carrega o peso do mundo — ou pelo menos de um guião.

O problema é que o texto não era dos Profetas. Era de Quentin Tarantino.

Hegseth pregou o monólogo de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction com uma convicção tal que, por um momento, ficou a dúvida: para ele, se soa a vingança e está em inglês arcaico, foi Deus que escreveu?

A resposta veio do Vaticano. O Papa Leão XIV — o primeiro americano a calçar as sandálias do Pescador — não respondeu com ironia. Respondeu com Isaías 1:15.

"As vossas mãos estão cheias de sangue."

Não há muito a acrescentar. Um homem que confunde Tarantino com os profetas tem poder sobre vida e morte. Um homem sem esse poder lembrou-lhe o que isso significa.

A Bíblia não foi editada por Tarantino. Mas talvez precisasse de ser lida por quem tem o dedo no gatilho.

2026-04-16

A Cura que Vem a Seguir


Decidi ser uma pessoa melhor. Comecei ontem, logo a seguir ao jantar, mas parei hoje às dez da manhã porque o excesso de virtude dá-me enxaquecas e, como todos sabemos, o equilíbrio é a única coisa que separa uma santa de uma pessoa com necessidade urgente de um calmante.

Há uma certa nobreza nesta minha desistência precoce. Enquanto o resto do mundo se esfalfa em shadow work e retiros de silêncio para encontrar uma criança interior que, francamente, já devia ter idade para se sustentar sozinha, eu prefiro a honestidade do meu sofá. A minha terapeuta diz que estou a fugir do processo; eu digo que estou apenas a poupar no copagamento.

A verdade é que a "melhor versão de nós próprios" é uma entidade cansativa que acorda às seis da manhã para beber água com limão e gratidão. Eu, por outro lado, acordo com este cabelo que desafia as leis da gravidade e do bom senso, armada com uma caneca que serve de epitáfio às minhas ambições espirituais.

Dizem que a jornada de mil milhas começa com o primeiro passo. Esqueceram-se de mencionar que, ao segundo passo, podemos perfeitamente descobrir que os sapatos nos fazem bolhas e que a vista daqui, embora ligeiramente deprimente, não exige subscrição mensal.

A diferença entre mim e o resto é apenas de escala. Eu desisto ao segundo passo. Mas há um tipo de pessoa — e toda a gente conhece pelo menos três — que está permanentemente a resolver-se.

Não é um processo discreto. É uma vocação pública, com actualizações regulares e hashtags adequadas. Em Janeiro, fez jejum intermitente e descobriu que o corpo é um templo. Em Março, o templo precisava de ser alinhado, e então veio o ioga, que durou até à lesão no joelho que veio a dever-se, descobriu-se depois, a um desequilíbrio dos chakras que só o reiki conseguia corrigir. O reiki foi substituído pela meditação guiada por uma aplicação sueca, que foi substituída pelo tai chi walking depois de aparecer num reel com 2,3 milhões de visualizações. O tai chi walking consiste, aparentemente, em andar devagar com as mãos abertas. Custa 49 euros por mês.

Há sempre qualquer coisa nova a experimentar, e a novidade é o ponto: o ciclo não serve para chegar a lado nenhum. Serve para estar em movimento. Estar em movimento é a prova de que se está a trabalhar nisso.

Nisso. A palavra é sempre esta, vaga e suficientemente elástica para conter tudo sem nomear nada. Trabalhar nisso. Cuidar de mim. Fazer o meu processo. O processo do quê, exactamente, é uma pergunta que não se faz, porque a resposta implicaria parar, olhar, e identificar a coisa com nome próprio — a relação que não funciona, o trabalho que sufoca, o medo que tem vinte anos e ainda não foi apresentado em sociedade.

Em vez disso, há um peeling novo.

O peeling é de argila vulcânica da Islândia, recomendado por uma influenciadora que também vende suplementos de magnésio e tem um curso online sobre abundância. A pele fica luminosa. A luminosidade é interpretada como progresso. O progresso justifica a compra do próximo produto, que chegará dentro de três a cinco dias úteis com uma carta manuscrita — impressa — sobre a jornada de transformação que está prestes a começar.

A jornada começa sempre na próxima semana.

O que nunca entra na equação é a hipótese de que o problema não precisa de um produto. Precisa de uma conversa difícil, ou de uma decisão que vai custar alguma coisa, ou simplesmente de ser visto sem o filtro de que tudo é uma oportunidade de crescimento pessoal. Às vezes as coisas correm mal e não há lição. Às vezes a vida é estreita e não abre com respiração diafragmática.

Mas isso não tem aplicação. Não tem comunidade no Instagram. Não tem free trial de catorze dias.

E por isso, amanhã talvez tente a dieta da luz. Mas só se a luz for artificial e vier de dentro do frigorífico.

2026-04-15

Poemarmas (versão condensada, 2026)


Que o poema não peça lugar — tome-o.
Que não respeite o silêncio confortável da mentira.
Que falhe onde tudo parece funcionar.
Que estrague a ordem que se chama normalidade.
Que não explique: interrompa.