2026-02-03

Escrever


Não, não queria ser de pedra ou madeira. Porque sentir é o que me distingue dos móveis, certo? É o meu diploma de humanidade, a prova de que existo.

Claro que as rotinas quotidianas nos embrutecem, nos afastam dessa capacidade de "sentir por inteiro" — mas aproximarmo-nos demais é arriscar queimar as asas. Somos todos borboletas idiotas fascinadas pela luz.

Sou passional por teimosia, não por coragem. Porque viver apaixonadamente é arriscado e o coração prefere a mediocridade segura ao perigo glorioso. A experiência ensina-nos o conformismo — esse prémio de consolação da vida adulta.

O que me resta? Escrever. Porque escrever é o meu truque de magia: finjo sentir tudo sem arriscar nada. É seguro, asséptico, controlável. A paixão de laboratório.

Escrevo para não explodir, para não murchar, para continuar a fingir que sou divertida. Porque exorcizar demónios no papel é mais conveniente que enfrentá-los na vida real.

Todos temos um lado negro. Eu tenho este blog.

2026-02-02

Tempestade Kristin


Portugal acordou sob o açoite de Kristin e a tempestade não veio para brincadeiras. Ventos furiosos arrancaram telhados, árvores tombaram como dominós e o mar revelou a sua face mais brutal contra a costa. As imagens que percorrem as redes sociais e as muitas, quase excessivas, reportagens nas TVs, são um retrato cru da nossa vulnerabilidade: carros esmagados, ruas transformadas em rios, famílias desalojadas. Mortos. E esta tempestade expôs, mais uma vez, que vivemos numa ilusão de controlo. Construímos, pavimentamos, ignoramos alertas climáticos - e depois espantamo-nos quando a natureza cobra a fatura. Não se trata apenas de "mau tempo". É o prenúncio de um futuro onde eventos extremos serão a norma, não a exceção. Resta perguntar: quantas Kristins serão necessárias até aprendermos a lição?

2026-01-31

Champions League


E quando pensávamos que o novo formato da Champions era a coisa mais bizarra de 2026, o destino (ou o ocultismo) decidiu dar-nos um pontapé na lógica. Lisboa está oficialmente dividida entre a euforia verde e o exorcismo coletivo.

O ​Sporting transformou-se no Sétimo Passageiro de luxo e
​Alvalade está, finalmente, a viver o sonho europeu sem precisar de tradutor. A equipa fechou a fase inicial num honroso 7.º lugar, garantindo o bilhete dourado direto para os oitavos. Foi uma caminhada de quem sabe o que faz, com uma eficácia que faz parecer que o João Pereira descobriu o código secreto da UEFA. Estão lá em cima, a olhar para o Manchester City pelo retrovisor, com aquela sobranceria de quem já não precisa de passar pelas "plebes" do play-off. 
​Mas o que dizer do Benfica? O que aconteceu naquela última jornada não foi futebol, foi magia negra. O Benfica estava virtualmente morto, enterrado e com a lápide já encomendada no 36.º lugar. Mas o José Mourinho não veio para Lisboa para rezar terços; veio para invocar entidades que nem Torquemada imaginou. ​Aos 98 minutos, contra o Real Madrid (sim, o Real de Arbeloa, que agora deve estar a pedir a reforma antecipada), o impensável aconteceu. Anatoliy Trubin, o homem que costuma usar as mãos para evitar desgraças, subiu à área e usou a cabeça para operar um milagre. Um golo de guarda-redes no último suspiro para garantir o 24.º lugar e a última vaga no play-off. Dizem que, no momento do cabeceamento, se ouviu uma gargalhada do Mourinho que ecoou até aos arredores de Madrid. O Benfica passou em último, sim, mas com um estilo que faria o Hitchcock roer as unhas de inveja.
Agora o ​Sporting já está de pantufas à espera dos oitavos, a ver os outros matarem-se. Quanto ao ​Benfica, passou com a nota mínima, mas com um efeito especial digno de Hollywood. Mourinho provou que, mesmo quando o autocarro está avariado, ele consegue pôr o guarda-redes a marcar golos.

2026-01-28

Os Meus Desencaixados


Sempre fui ímã de almas tortas, daquelas que o mundo olha de soslaio. Os que têm olhos demasiado grandes para tanta tristeza, costuras à mostra, esqueletos que dançam ao som de músicas que mais ninguém ouve.

Atraio os que carregam abóboras como troféus, os que vestem a escuridão como segunda pele, os que sorriem com dentes a mais ou a menos. São os meus, reconheço-os de longe: pelo jeito desajeitado de habitar o mundo, pela beleza estranha que assusta os bem-comportados.

Não sei se os escolho ou se eles me escolhem. Sei apenas que entre nós há um pacto silencioso, uma cumplicidade de quem aprendeu que ser "normal" é uma chatice insuportável.

Somos a tribo dos desencaixados, e é aqui, neste não-lugar onde ninguém mais quer estar, que finalmente me sinto em casa.

2026-01-27

Recorrência


E passamos o dia num duelo épico com o rolo de papel higiénico (já não há lenços de papel!), tentando respirar por uma narina que decidiu fazer greve de zelo. É o ciclo sem fim: um espirro dramático, a busca frenética por um lençol (ou a manga da camisola, sejamos honestos) e a promessa de que nunca mais tomaremos a respiração livre como garantida. No fundo, ter gripe é viver num aquário, mas sem a parte relaxante de ser um peixe.

2026-01-26

Apre!


O fim de semana devia levar multa por excesso de velocidade. Passa por nós a 200 à hora, sem cinto, sem piscas, e ainda tem o descaramento de buzinar ao ir embora. Quando damos por ela, já estamos a olhar para o calendário como quem encara um polícia de trânsito: incrédulos, ofendidos e claramente em negação.

Depois vem a segunda-feira de invernia, esse conceito abstrato inventado para testar a resistência da alma. Chove de lado, o céu está num tom de cinzento administrativo e o despertador toca como se tivesse algo pessoal contra nós. O café não ajuda, a roupa está fria e a semana começa com aquele entusiasmo de uma fila nas finanças.

Há injustiças no mundo mais debatidas, é verdade. Mas poucas tão constantes como esta: dois dias que fogem e cinco que se arrastam, especialmente quando a segunda-feira vem molhada, mal-humorada e convencida de que tem razão.

2026-01-20

Branco


Chegou o novo anexo da Casa Branca: eficiente, sustentável e com isolamento térmico de fazer inveja à classe média americana. Afinal, quando o mundo aquece, há sempre quem prefira mudar-se para o gelo — desde que dê para pôr o nome na fachada. O problema não foi o frio, foi a surpresa: venderam-lhe a Gronelândia como jardim e afinal é um congelador. Mas não faz mal. Onde antes havia diplomacia, agora há um iglu. Branco, claro. Como convém.

2026-01-18

Eleições


Em Portugal, a eleição presidencial é o nosso desporto nacional de autoajuda coletiva. Não se elege um gestor ou um legislador; procura-se, com uma carência quase infantil, alguém que nos saiba ouvir as queixas enquanto o país continua a ser gerido algures entre o Terreiro do Paço e Bruxelas.

O Presidente, no fundo, é o nosso moderador de luxo. Alguém que pagamos para ler as entrelinhas dos decretos e para, ocasionalmente, mandar um "puxão de orelhas" ao Governo num discurso de 10 de Junho que ninguém ouvirá até ao fim. É o guardião de um templo onde as colunas já estalaram há décadas, mas que mantemos pintado de fresco para as visitas oficiais.

​Quando a contagem termina, o país suspira de alívio. Cumprimos a nossa quota de democracia. Amanhã, voltamos à rotina de sempre: o SNS em coma, a habitação a preço de ouro e a esperança de que o novo inquilino de Belém tenha, pelo menos, a decência de usar o seu poder de veto para nos poupar ao ridículo mais óbvio. Afinal, em Portugal, o Presidente não resolve os problemas; ele apenas os narra com a solenidade necessária para que pareçam inevitáveis.

Depois... depois esperamos por fevereiro, para repetir a via sacra.