2026-07-25

Modo Avião

Há anos que a ciência tenta compreender a audição selectiva. Eu não preciso. Pratico-a diariamente, com a disciplina de uma atleta olímpica e sem qualquer ajuda de cerúmen. Aliás, os meus ouvidos estão impecáveis. O filtro não está no canal auditivo. Está no córtex. Onde deve estar.

Funciona assim: «tens razão» entra com a clareza cristalina de uma notificação do MB Way a dizer que recebi dinheiro. Já «precisamos de conversar» sofre uma quebra de sinal abrupta algures entre o tímpano e a minha vontade de viver. Não ouço. Não por mal. Por curadoria editorial.

Porque vamos ser honestos: a audição selectiva não é defeito. É o meu cancelamento de ruído natural, muito antes de a Apple achar que inventou alguma coisa.

Graças a ele, consigo viver décadas — ou pelo menos desde 2014 — sem ouvir frases como «quando é que assentas?», «não achas que estás muito exigente?» e, a minha favorita de sempre, «se calhar o problema és tu que pensas demais».

Ouço o que interessa. O resto fica em modo avião.

O problema começa quando me dá a loucura da funcionalidade. Quando decido ser uma adulta que enfrenta tudo de frente. Limpo a caixa de entrada, respondo a mensagens pendentes desde 2018, digo que sim a jantares com segundas intenções óbvias.

De repente, o mundo entra sem filtro. Sem gatilho. Sem legenda a dizer «isto vai dar asneira».

E descubro que nada desapareceu. Aquela conversa que deixei em visto, aquele «depois logo vemos», aquele convite para «um café sem compromisso» — tudo esteve ali, pacientemente arquivado à espera que eu ligasse o som.

E percebo, tarde demais, a regra de ouro que devia estar no SNS24:

Há limpezas que não são de higiene. São de risco à paz interior.

Por isso, por uma questão de coerência e saúde mental, mantenho o meu sofisticado sistema de cancelamento selectivo ligado.

O meu otorrino diz que estou ótima. Eu digo-lhe que sim, enquanto vou pensando o que fazer para o jantar.

2026-07-23

Boletim das Pequenas Catástrofes

Registo das ocorrências menores que, acumuladas, alteram a estabilidade do dia.


08:12 — Verifica-se a primeira falha operacional. Os óculos de sol são localizados no compartimento dos ovos do frigorífico, onde permaneceram cerca de duas semanas sem que ninguém considerasse estranha a sua ausência.


09:03 — Expectativa mínima não confirmada. O utilizador desloca-se à rua com o objetivo exclusivo de comprar café. Regressa com as compras suficientes para atravessar um cerco medieval, mas sem café.


10:47 — Constata-se a impossibilidade persistente de determinar o paradeiro das chaves do automóvel. Admite-se a hipótese de coexistirem em dimensão paralela ou de terem adquirido autonomia administrativa.


11:22 — Falha de reconhecimento nominal. O nome da pessoa desaparece por completo. Mantém-se, contudo, intacta a memória do gato: a alcunha, o horário exacto da primeira refeição, e a lista mental de visitas non gratas, actualizada por ordem de gravidade da ofensa.


13:05 — Promessa discreta não executada. O utilizador garante a si próprio que beberá mais água. Às treze horas e cinco minutos, o organismo continua composto maioritariamente por café e teimosia.


14:19 — Pequena alteração de percurso. Entra-se numa divisão da casa com um objetivo definido. À chegada, o objetivo extinguiu-se sem deixar vestígios. Permanece apenas a sensação de que ali havia uma missão importante.


15:56 — Distração de curta duração com consequências materiais ligeiras. O telemóvel é procurado durante vários minutos enquanto permanece na mão que conduz a investigação.


17:02 — Quebra de hábito estabilizador. Pela terceira vez no mesmo dia confirma-se que abrir o frigorífico não cria, por geração espontânea, uma ideia para o jantar.


18:11 — Verifica-se que ainda não se tomaram os comprimidos da manhã. Consideram-se, à falta de melhor solução, comprimidos da tarde.


22:01 — Disfunção geral do organismo com ronco no sofá e televisão ligada em canal soporifero. 


Conclusão provisória: Embora cada ocorrência seja, isoladamente, irrelevante, a sua acumulação produz um fenómeno de instabilidade difusa. O dia não chega propriamente a desmoronar-se. Inclina-se. E nós passamos o resto das horas a fingir que não estamos constantemente a compensar o desequilíbrio.

O brigadeiro da desconfiança


Durante anos, uma parte significativa da sociedade portuguesa olhou para a imigração brasileira com uma simpatia quase espontânea. A língua comum, as novelas, a música, o humor, a ideia do "povo irmão" tornavam-na familiar antes mesmo de ser conhecida. Bastaram alguns crimes mediáticos para essa narrativa começar a estalar. Não porque os brasileiros tenham mudado enquanto comunidade, mas porque mudou aquilo que muda sempre primeiro: a perceção.

Não adianta responder a um português assustado chamando-lhe simplesmente xenófobo. O medo é muito mais antigo do que a razão. Não faz estatísticas, não consulta o INE, não calcula probabilidades. Vê um caso extremo e convence-se de que encontrou um padrão.

É assim que um crime deixa de ter apenas uma vítima e passa a fazer milhares de vítimas invisíveis. Depois de uma notícia destas, a mãe da ex-namorada que oferece um brigadeiro ou uma coxinha já não é apenas uma mulher simpática. O cérebro começa a perguntar-se o que poderá esconder-se por trás daquele sorriso.

Como nesta história. Três pessoas chegam a Portugal com uma mala. Dias depois, são suspeitas de tentar regressar ao Brasil com o equivalente a oito malas de artigos de luxo, depois de um roubo e homicídio meticulosamente preparados e executados. É uma imagem tão cinematográfica que se cola à memória. E é precisamente aí que mora o problema.

O preconceito nunca foi um exercício de lógica. É um mecanismo tosco de sobrevivência herdado de um tempo em que um único desconhecido podia significar a morte da tribo. Primeiro sentimos medo; só depois inventamos argumentos para lhe chamar razão. O cérebro não pergunta quantos milhões de brasileiros vivem honestamente em Portugal. Pergunta apenas: "E se este for como aquele?"

É profundamente injusto. Cada brasileiro que trabalha, paga impostos, cria filhos e leva uma vida banal acaba a responder pelos crimes de pessoas que nunca viu. Paga o justo pelo pecador, como tantas vezes aconteceu aos portugueses emigrados, vistos lá fora como preguiçosos, analfabetos, ladrões ou oportunistas, consoante a época e o país.

Mas também é intelectualmente desonesto fingir que notícias como esta não deixam marcas. Deixam. A confiança é um edifício que sobe por elevador e desce pela janela. Bastam meia dúzia de crimes brutais, repetidos até à exaustão nos noticiários, para décadas de convivência pacífica começarem a parecer a exceção, quando sempre foram a regra.

A justiça foi inventada precisamente porque o instinto é um péssimo juiz. O instinto condena por semelhança; a justiça condena por prova. A barbárie pergunta de onde veio o criminoso. A civilização começa no instante em que recusamos transformar um passaporte numa sentença.

2026-07-22

RIP Luis Represas

 


Arquitetura expansiva

Há pessoas que sonham alto. Depois há quem construa alto. Três andares mais alto, para sermos rigorosos.

Sempre admirei o espírito empreendedor português. Não conheço outro país onde um projeto aprovado consiga, por geração espontânea, ganhar pisos como quem ganha folhas na primavera. É quase botânica. Planta-se uma licença e colhem-se apartamentos.

Segundo o Ministério Público, no empreendimento Hilton Cascais Residências apareceram mais três andares do que o Plano Diretor Municipal permitia. Três. Não foi um mezanino maroto nem uma claraboia otimista. Foram três pisos inteiros. É o equivalente urbanístico a ir à inspeção automóvel com um Fiat Panda e regressar com um autocarro de dois andares.

E ainda houve a pequena questão de ocupar milhares de metros quadrados de domínio público marítimo e mexer em terrenos da Reserva Ecológica Nacional. Pequenos detalhes. Pormenores administrativos. A natureza, convenhamos, também ocupa espaço sem pedir licença.

Há quem roube toalhas dos hotéis. Nós preferimos levar um pedaço da costa.

O mais fascinante nestes casos é a escala da distração. Um cidadão troca uma janela por uma varanda e logo aparece um fiscal com uma fita métrica e um bloco de multas. Mas um edifício acrescenta três pisos e a pergunta parece ser sempre a mesma: "Como é que ninguém reparou?"

É uma pergunta curiosa. Três andares não costumam esconder-se atrás de um arbusto.

Talvez Portugal seja o único país onde os prédios crescem como as crianças: "Meu Deus, ainda no mês passado só tinha sete pisos..."

Depois, quando a Justiça acorda, instala-se a habitual liturgia nacional: processos, recursos, pareceres, contra-pareceres, décadas de papel, e um coro de indignados que descobrem subitamente a existência da lei, precisamente no momento em que ela bate à porta.

No fundo, o verdadeiro milagre não foi construir três pisos a mais. Foi conseguir fazê-lo convencendo tanta gente de que aquilo continuava a ter exatamente a altura prevista.

Porque em Portugal há sempre duas medidas para a realidade: a que o metro marca... e a que a influência autoriza.

2026-07-21

O buço como bandeira


A moda é cíclica, já sabemos. Desta vez resolveu ressuscitar o bigode e elevá-lo a bandeira estética. Só que uma coisa é um bigode; outra é um buço com excesso de autoestima.

Eu, quando penso num bigode digno desse nome, penso no do Artur Jorge. Entrava na sala da conferência de imprensa uns segundos antes dele, anunciava a autoridade do dono e só depois aparecia o resto da cara. Aquilo era um bigode. O resto é penugem com departamento de marketing.

De repente, multiplicaram-se pelos rostos masculinos buços tratados com uma solenidade que a natureza raramente lhes concedeu. Não interessam a espessura, a densidade ou a capacidade de sobreviver a uma rajada de vento. O importante é que o algoritmo decretou que o bigode voltou e, como sempre acontece, milhares de homens decidiram que a natureza havia de obedecer às tendências.

Não obedeceu.

Há buços tão ralos que parecem desenhados a lápis por um arquiteto indeciso. Outros lembram o pó que fica na escova depois de aparar a barba. Alguns são apenas uma sombra castanha entre o nariz e o lábio superior, como se a puberdade tivesse feito uma visita rápida e prometido voltar mais tarde.

O curioso é que o novo bigode raramente comunica irreverência ou maturidade. Comunica intenção. Vemos menos um homem e mais um esforço meticuloso para parecer um homem que bebe café de especialidade, fotografa em analógico, ouve discos de vinil e trata o barbeiro por "artista". O buço deixou de ser pelo. Passou a ser branding.

Sempre houve homens que tinham cara para bigode. Era quase uma vocação facial. O bigode completava-os. Agora é o contrário: há rostos inteiros sacrificados para servir uma moda que lhes fica como um casaco dois números abaixo.

A estética, infelizmente, não é democrática. Nem tudo fica bem a toda a gente. Há quem tenha nascido para usar chapéu, há quem consiga vestir uma camisa de linho sem parecer um empregado de esplanada, e há quem possa usar um bigode sem dar a impressão de que perdeu uma aposta.

As modas têm este péssimo hábito de ressuscitar os mortos errados. Hoje foi o bigode. Amanhã pode ser o cabelinho à Paulo Bento. Depois a peúga branca. Qualquer dia deixamos de seguir tendências e passamos a frequentar sessões de espiritismo estético.

2026-07-20

O Meu Ódio de Estimação

Autotune, essa prótese vocal para quem confunde canto com aritmética. A voz, outrora falha humana e por isso bela, entra numa máquina e sai lisa como azulejo de casa de banho: sem hesitação, sem rugosidade, sem alma — porque a alma, ao que parece, também desafinava. Há sempre alguém que adora o "Believe" da Cher, que inventou o vício, ou aquele ruivo de que nem lembro o nome cuja voz corrigida se tornou género.

E depois há qualquer coisa mais, um brilho metálico que me fura os tímpanos, um zumbido polido que insiste mesmo quando mais ninguém parece ouvi-lo. Talvez seja só meu, este incómodo, este desajuste.

Hoje, qualquer garganta pode soar impecavelmente afinada durante três minutos e trinta segundos, e poucos parecem reparar que o milagre foi comprado, não cantado. É a democratização da mentira: já não é preciso dominar a voz, basta um plug-in e a arrogância de acreditar que ninguém nota. Notam. Só já não se importam. Preferem o robô afinado ao humano imperfeito. Sintoma, não causa. Ou talvez apenas o meu ódio de estimação: esse ruído artificial que se cola à música como verniz.

2026-07-19

Ventilação

Todas as manhãs, o mesmo ritual: escancaram-se as janelas, sacodem-se as almofadas e, durante dez minutos, a casa respira como se tivesse alguma coisa a confessar. Entra o ar de fora — o mesmo ar que, minutos antes, saiu de outra casa, carregado do que os vizinhos cozinharam ou discutiram — e sai o de dentro, como se o simples trânsito de moléculas resolvesse o que ficou por dizer à mesa do jantar.

Há qualquer coisa de exorcismo doméstico nisto. A crença de que basta uma corrente de ar para dissipar o cheiro a fritos, ao silêncio ou ao desacordo. Abre-se bem a janela, deixa-se entrar o fresco e espera-se que alguma coisa, lá dentro, fique mais leve. Arejar como acto de higiene moral: já não se limpa a consciência, ventila-se.

Ao fim de dez minutos fecha-se tudo outra vez, porque o frio também não é visita para demorar. A casa arrefece, cheira melhor e continua exactamente com os mesmos problemas. Só que agora estão bem arejados.

2026-07-17

O Peso Exacto


Não sei que sentido têm em nós as glândulas do medo, mas as gatas sabem. Vieram uma a uma, sem consulta prévia entre si, sem reunião de emergência felina — vieram porque o corpo, quando espera um veredicto, exala qualquer coisa que os humanos deixaram de saber ler.

A primeira instalou-se à cabeça, ali onde a cabeça continuava a fazer contas que não davam. A segunda aos pés, como quem guarda a saída, ou talvez a fuga. A terceira ao lado, no espaço exacto onde cabe um corpo que treme sem ainda saber que treme.

Formaram um triângulo. Não vieram pedir comida, nem festas, nem a atenção distraída que costumam mendigar a meio da tarde. Vieram fazer guarda.

As gatas não sabem ler exames nem percebem português, mas impõem-se com o peso exacto de quem entendeu que não era preciso perguntar.