2026-11-06

Lucros privados, facturas públicas

Na banca chama-se «otimização de balanço»: os ganhos ficam no ativo, as perdas passam para o passivo de outrem. Com a IA descobriu-se que o passivo de outrem é o rio.

O novo contrato social cabe em três cláusulas:
• Eles ficam com a mais-valia.
• Nós ficamos com a fatura da luz.
• A água é uma «externalidade», termo técnico para «paga quem não foi consultado».

Na Irlanda, os centros de dados consumiram 21% da eletricidade medida do país em 2023 — mais do que todas as habitações urbanas juntas — e 23% em 2025, contra 28% do consumo residencial total. Depois de anos de restrições às novas ligações na região de Dublin, o país reviu as regras de acesso à rede em dezembro de 2025: novas ligações passaram a exigir geração própria ou baterias capazes de cobrir a procura total. Chamaram-lhe prudência. Eu chamo-lhe um dos primeiros casos conhecidos de um país a dizer «agora não» a um cliente que paga bem.

Para 2030, a Agência Internacional de Energia projeta que o consumo global destas instalações ultrapasse os 945 TWh anuais — mais do dobro do atual, aproximadamente o consumo total do Japão. Quem paga a diferença? Resposta rápida: o contribuinte, o consumidor e o aquífero, por esta ordem de visibilidade e por ordem inversa de poder negocial.

Entretanto, garantem-nos que a IA vai resolver as alterações climáticas. Começando, pelos vistos, por criar um volume de problemas suficiente para justificar a encomenda.

E depois há Sines.

Sines é onde Portugal decidiu fazer de Irlanda sem ter aprendido a lição da Irlanda. O maior campus de centros de dados da Europa, 1,2 GW de capacidade de TI prevista, seis edifícios à beira do Atlântico, preparados para alimentar a inteligência que nos vai, dizem eles, salvar a todos.

Eles já vêm com a lição estudada. Já não falam em água doce, falam em água do mar. Já não falam em consumo, falam em circuito fechado. Já não falam em eletricidade, falam em correspondência anual com produção renovável. É o dicionário completo do «verde por design».

No primeiro ano completo de operação, o SIN01 captou 692.942 metros cúbicos de água do mar e devolveu exatamente o mesmo volume. Consumo líquido zero, garante a empresa. Declara não ter utilizado água potável para arrefecimento. Mas o relatório regista ainda a utilização de 41.763 metros cúbicos de água industrial. A contabilidade é impecável. O impacto ambiental, esse, não desaparece por decreto contabilístico.

Zero consumo líquido. É uma expressão bonita. Quase tão bonita como dizer que só utilizámos o mar porque o mar estava ali.

A questão não se resolve com uma coluna de zeros num relatório de sustentabilidade. Resolve-se perguntando o que retiramos de um território e o que lhe deixamos em troca.

Porque a pergunta nunca foi se a água é doce ou salgada. A pergunta é quem fica com a capacidade energética de um país para alimentar máquinas que servem outros países. Quem fica com a rede pressionada. Quem fica com o território hipotecado a um modelo em que Sines produz, os operadores e fundos internacionais lucram, e nós disponibilizamos o vento que é nosso, o mar que é nosso e a paciência que já não é nossa.

Chamam-lhe «hub europeu». Eu chamo-lhe colónia com fibra ótica. Antes exportávamos cortiça, sardinha e gente. Agora exportamos capacidade de processamento e importamos retórica.

E o mais perverso é que até nos roubaram a indignação. Como é que se protesta contra uma coisa que é «100% renovável»? Como é que se diz que não, quando o sim vem embrulhado em PUE de 1,1, WUE de zero e um relatório de sustentabilidade com fotografias bonitas do Atlântico?

Diz-se assim: não é por ser renovável que deixa de ser extração. Não é por ser eficiente que deixa de ser obsceno. Não é por devolverem a água ao mar que deixam de ocupar a costa, pressionar a rede e comprometer recursos que também são nossos.

A nuvem não existe. Existem edifícios. Existem cabos. Existem máquinas que consomem eletricidade e precisam de arrefecimento para alimentar uma inteligência que aprende a escrever poemas sobre a natureza enquanto depende dos recursos que a sustentam.

Pedem-nos para confiar numa inteligência que consome como um adolescente e raciocina como um contabilista. Que otimiza tudo, exceto a pergunta que interessa: otimiza para quem?

Se a resposta for «para quem já tem», então não estamos perante uma revolução tecnológica. Estamos perante a mais antiga história do mundo, contada agora a 1,2 gigawatts, à beira-mar, em Sines.

Sines não é o futuro. Sines é o passado com ar condicionado.

2026-11-02

E o resto é decoração

Há coisas que me tiram genuinamente do sério. Não é figura de estilo.

Por exemplo, gente que comenta o verniz em vez de comentar a racha na parede. Que olha para uma tenda no Rossio e acha que o problema é a tenda. Que olha para um miúdo de 24 anos a dizer que não consegue pagar um quarto e conclui que o problema é o miúdo estar despenteado, ou fumado, ou mal-agradecido.

Tenho pouca paciência para isso. Assumo.

Mas vamos ao arquivo de etiquetas, porque Portugal tem uma colecção.

Em 1994, um senhor jornalista, Vicente Jorge Silva, num editorial do Público, baptizou os estudantes que protestavam contra as políticas educativas da ministra Manuela Ferreira Leite como «geração rasca». Estavam nas ruas contra as provas globais no secundário e as propinas no ensino superior. A resposta foi uma palmada semântica: são rascos.

Em 2011, fizemos o trocadilho. Passámos de rasca para à rasca. A manifestação de 12 de Março apropriou-se do insulto. Eram os recibos verdes, os 600 euros, os licenciados a atender call-centers. Eram à rasca.

Não aprendemos grande coisa. Apenas actualizámos o vocabulário e envelhecemos o suficiente para começar a ralhar com os mais novos.

Agora, 2026. A Praça D. João I, no Porto, ocupada desde 10 de Outubro, e o Rossio, uns dias depois. Tendinhas, assembleias, cartazes a dizer «não somos sem-abrigo, somos geração sem casa». Na madrugada de dia 20, a PSP desmontou tudo. Voltaram. Na madrugada de dia 25, desmontou outra vez, ao mesmo tempo em Lisboa e no Porto, com 31 detidos e a discussão nacional sobre se as tendas tinham licença camarária e se os miúdos tinham tomado banho.

E eis que chegamos à actualização do catálogo: geração de ganzados, mal-agradecidos e, aparentemente, pouco asseados. A indignação, pelos vistos, também tem código de vestuário.

Não se discute a casa, discute-se a tenda.

Há uma arte muito portuguesa de transformar um problema estrutural numa questão de bons modos.

Disseram-me, com ar muito sério, que estes jovens não querem trabalhar. E eu penso: onde? Em que cidade? Com que renda? Porque a promessa para esta geração deixou de funcionar: estuda, trabalha e desconta, mas não sabe se consegue sair de casa dos pais. E a resposta que lhes damos é um conselho de etiqueta.

Confesso: também me irritam algumas coisas nas acampadas. O microfone demasiado tempo na mesma pessoa. A poesia falada às duas da manhã. Mas irritar-me não me dá o direito de lhes negar a razão.

Talvez a questão não seja saber se esta geração é rasca, ganzada ou mal-agradecida. Talvez seja perguntar que país estamos a construir quando uma geração tem de sair à rua para reclamar o direito a ter um tecto e a resposta que recebe é uma apreciação sobre os seus modos.

Uma casa não é um prémio de bom comportamento. E o direito à indignação não exige certificado de respeitabilidade.

O resto é decoração.

2026-10-31

Manual breve para noites fora do calendário

Há noites que não pertencem ao calendário. O Halloween é uma delas.

Começa leve: o cheiro das folhas molhadas, uma abóbora de sorriso torto num degrau, luzes a piscar como quem nos pisca o olho. O encantamento de fingir ser outro por umas horas, de esconder o rosto e, ao mesmo tempo, revelar aquilo que sempre quisemos ser. Passos apressados nas escadas e aquele fio de ternura entre quem dá, quem recebe e quem observa da janela, com uma caneca quente nas mãos.

Depois, quando as velas se apagam, chega a segunda voz.
O silêncio fica cheio. As máscaras, pousadas na mesa, parecem observar-nos de volta. E percebemos que os fantasmas nem sempre estão lá fora. Alguns vivem dentro de nós: nas memórias que evitamos, nos nomes que já não dizemos, nos gestos que ficaram por fazer. É a voz que nos acompanha até ao espelho e pergunta baixinho: «E tu, de que te disfarças quando o mundo adormece?»

E no meio, fico eu.

Há uma voz que se ri, outra que se lembra e outras que ainda não sei nomear. Umas acendem luzes, outras preferem o escuro. Por vezes, contradizem-se. Nenhuma parece particularmente interessada em convencer as restantes. E eu não tenho energia para arbitrar a discussão.

Lá fora, a noite continua. Há quem peça doces, quem se disfarce, quem ria dos sustos. Cá dentro, outras coisas acontecem. Uma lembrança aparece sem avisar. Um silêncio demora-se mais do que devia. E o mundo, indiferente à nossa vida interior, continua a cumprir os seus horários.

Talvez seja essa a estranheza destas noites: caber tanta coisa no mesmo espaço sem que nenhuma tenha de ceder o lugar às outras.

As velas acabam por se apagar. As máscaras regressam às gavetas. Amanhã, a noite será outra, embora nem tudo o que nela aconteceu tenha a delicadeza de desaparecer com a luz.

Por enquanto, fico aqui. Com as vozes todas. As que riem, as que se calam, as que ainda não chegaram.

2026-10-29

Pro rata temporis

Mais de um ano depois, a Fidelidade veio explicar à família de Ana Paula Lopes, uma das dezasseis vítimas do Elevador da Glória, que afinal o acidente era previsível. Previsível. Ninguém o disse antes, que se saiba, nem a quem subia, nem a quem descia, nem a quem cobrava o bilhete. Mas agora, com a conta em cima da mesa, a clarividência actuarial é irrepreensível.

Fico também a saber que o ascensor não podia ser considerado «um meio de transporte altamente fiável». Cento e quarenta anos de serviço, desde 1885, não chegaram para o provar; foi preciso um desastre para ser promovido a risco conhecido.

Daqui saem duas perguntas de balcão, daquelas que um bancário aprende ao segundo dia. Se o risco era previsível, estava previsto? E, se estava previsto, estava cobrado? Em economiquês corrente, chama-se a isto prémio: recebe-se antes, discute-se depois.

Resta o tempo. O sofrimento, alega-se, durou menos de um minuto, e a percepção de que se ia morrer terá durado outro tanto. Temos, portanto, a dor a prazo, liquidada pro rata temporis, com desconto de quantidade para fracções inferiores ao minuto facturável.

Extrapolando, porque a lógica o exige:

Se era previsível, não foi acidente: foi calendário.

Se era pouco fiável, a culpa é de quem entrou.

Se foi rápido, sai barato.

Convém, ainda assim, ser justa. A seguradora tem razão num ponto: foi mesmo rápido. Tão rápido que ninguém teve tempo de ler as letras pequenas.

2026-10-28

Chuva

Tenho neste tempo de transição entre um Inverno que se aproxima e um Verão que não vai embora uma tendência recorrente para a melancolia e, enquanto os dias se tornam mais breves, a minha alegria estival esvai-se à velocidade dos pingos gelados das primeiras chuvas.

A minha cidade fica triste também, cada vez mais cinzenta nos seus cinzentos, as neblinas transformam-se em nevoeiro, o cheiro das castanhas envolve-nos e os guarda-chuvas tropeçam-se.

Não há muitos sorrisos por entre os ruídos das gentes que passam. Só pressa em chegar a qualquer destino, afã de fuga para os interiores aquecidos. À porta do café, alguém sacode o guarda-chuva e entra sem olhar para ninguém.

Sinto-me a encolher com os dias, a encolher para o aconchego de uma manta sempre a postos, um casaco de lã tão velho que já não lhe sei os anos, as pantufas que trouxe da Estrela.

Encolho-me no sofá, a TV pronta a suspirar sozinha num último ai com hora pré-programada. Encolho-me no sofá como encolhem os dias e durmo as sestas do frio.

Cheira já a lenha. Os dias encolhem. Eu encolho com os dias e acerto o passo com esta melancolia.

2026-10-26

Democracia à la carte

O Brasil foi a votos. Lula ganhou. Flávio Bolsonaro perdeu por mais de quatro milhões de votos e decidiu que a democracia, afinal, precisa de revisão.

É uma modalidade curiosa de democracia esta: o povo pode escolher livremente, desde que escolha bem. Na primeira volta, o povo queria mudança. Na segunda, enganou-se. E há sempre uma conspiração, um tribunal suspeito e um juiz que, por um extraordinário azar, deu duas horas a mais para votar.

Estes democratas adoram a vontade popular. É uma paixão imensa, quase comovente. Desde que o povo saiba votar como deve ser: neles.

A democracia não é um restaurante à la carte, Flávio. E perder as eleições não é motivo para chamar o gerente.

Vamos ter carnaval até janeiro.

2026-10-23

Humanizar-me

Há um comentário novo na praça, e até é elogioso: «está bem escrito». A frase termina num «mas», porque os elogios da Internet, como os boletins meteorológicos, só se cumprem pela metade. O «mas» desta vez é: «Isto é IA, não é verdade».

Confesso que fiquei dividida entre a vaidade e a ofensa. A vaidade ganhou por pouco. Passei décadas a escrever mal com elegância, à mão, à noite, com um dicionário ao lado e um temperamento pior. Agora chega a tecnologia e, pela primeira vez, alguém me confunde com a concorrência. É como dizer à avó que o croché parece feito à máquina. Ela agradece, evidentemente, e deixa de fazer-nos camisolas.

A sério agora, porque o assunto merece.

Escrevo há muitos anos. Antes de existir IA capaz de escrever em português de Portugal, já por aqui andava a desconfiar dos eufemismos: dos «incidentes», dos «equilíbrios», das «resiliências». A desconfiança em relação à linguagem oficial não me foi instalada por aplicação nenhuma. Foi aprendida entre repartições, comunicados de imprensa e um país inteiro que, demasiadas vezes, fala por encomenda.

Se agora escrevo com uma limpeza que desperta suspeitas, a explicação é menos futurista: revejo muito. Quem passa horas a reler a mesma frase até ela doer um pouco menos não está a gerar texto. Está a fabricar remendos. Alguns ficam tortos, que também não sou nenhuma santa da gramática.

Pelos vistos, a competência literária passou a constituir prova circunstancial de contrafação. Escreve-se mal, é humano. Escreve-se bem, é máquina. Uma teoria confortável, sobretudo para quem nunca teve de reescrever uma frase até lhe encontrar o peso exato.

Desconfiar é legítimo. A tecnologia permite produzir texto em quantidades industriais e faz sentido questionar a sua origem. O que já não faz sentido é confundir o resultado com o processo, a aparência com a origem e a suspeita com o conhecimento. «Parece-me artificial» não é o mesmo que «foi escrito por inteligência artificial». Entre as duas frases devia existir qualquer coisa a que antigamente chamávamos fundamento.

A continuidade também não é uma prova pericial, mas é uma história. Uma voz que atravessa assuntos, contradições, indignações e silêncios; que tanto se ocupa das mentiras públicas como das pequenas misérias privadas. Há um percurso, uma maneira de olhar, obsessões que regressam. Não provam quem escreveu cada frase, mas ajudam a perceber que uma escrita não aparece do nada.

O trabalho de escrever está nas escolhas: na palavra que se mantém, na que se corta, na metáfora bonita que se deita fora porque não diz o que queremos dizer. Nem tudo o que parece perfeito pertence ao texto.

Aprendemos a desconfiar da escrita demasiado lisa, como se a imperfeição fosse um certificado de humanidade. Entretanto, há textos humanos sem uma única fissura e máquinas capazes de simular as rachas todas.

Passámos anos a dizer às pessoas para escreverem melhor, para cuidarem da língua, para reverem os textos, para abandonarem as frases feitas. Agora que alguém aparece com um texto cuidado, há quem lhe retire o mérito precisamente por estar cuidado. O elogio oferece-se com uma mão e retira-se com a outra. Não sei se devemos chamar a isto progresso tecnológico ou regressão das expectativas.

Já me sugeriram, com a melhor das intenções, que «humanizasse» o texto: que deixasse uma gralha, uma frase coxa, uma vírgula fora do sítio, para a coisa cheirar a gente. Não vou forjar defeitos para obter um atestado de humanidade. Os meus chegam e sobram, e têm a vantagem de serem genuínos.

Quem quiser acreditar que é IA, acredite. Fico lisonjeada com a confusão, embora dispensasse a suspeita embrulhada em elogio. Não vou apresentar as mãos, o dicionário ou o historial das minhas indignações como provas de inocência. Também não vou aceitar que a qualidade de um texto seja suficiente para me sentar no banco dos réus.

Eu por cá fico. À mão, como sempre. As fendas agradecem a visita e não escondem a cola.

2026-10-22

O preço do medo


Somos animais territoriais. Gostamos de delimitar, fincar bandeira, erguer muro e chamar nosso ao que conseguimos manter debaixo da pata por acaso geográfico.

Gostamos de poder. Não tanto de o exercer. De o ter. Saber que podemos esmagar. Para certas criaturas, isso chega para justificar uma existência.

Nada de original. Os outros animais também defendem a toca. A diferença é que nós inventámos a ciência para transformar uma birra territorial num evento geológico. Evoluímos. A direcção é que ficou por esclarecer.

O problema de um animal com imaginação é fabricar coisas maiores do que a sua capacidade de medir consequências. Criamos artefactos capazes de destruir o que nem sequer nos pertence: a vida alheia, o futuro dos que não nasceram, o planeta que nos atura com uma paciência imerecida.

Depois damos-lhes um nome técnico, metemo-los num silo e chamamos-lhe equilíbrio.

Equilíbrio de quê? Do medo?

Quanto vale uma consciência com o fim do mundo na mão? Há uma tabela? Escalões de horror? Um número de mortos a partir do qual passa a ser feio?

Ou já há preço e só não suportamos dizê-lo em voz alta?

As bombas continuam nos silos. Quietas, disciplinadas, quase respeitáveis. Não fazem barulho, não incomodam a vizinhança, não precisam de se justificar ao jantar. Mas existem. E enquanto existirem, dependemos da sanidade, da prudência e da boa disposição de quem tem a chave.

Uma combinação que, convenhamos, nunca abundou na espécie.

Depois da primeira bomba, acabaram-se as desculpas.

A Oppenheimer não se concede absolvição por ignorância. Seria historicamente desonesto e moralmente cómodo. Dirigia Los Alamos; sabia o que fazia, sabia que aquela arma ultrapassava tudo o que a guerra tinha tornado familiar.

O que nenhum cálculo lhe deu foi o depois: a cidade transformada em campo de morte, os corpos, o sofrimento que não acaba na explosão. Hiroxima e Nagasáqui tiraram-lhe esse conforto, e ele não ficou indiferente. Opôs-se à bomba de hidrogénio, uma arma incomparavelmente pior, e pagou por isso.

Isso não apaga o Projecto Manhattan. Mas obriga-nos a distinguir. A pergunta perturbadora não é se Oppenheimer percebeu tudo antes. É porque é que, depois de todos vermos, tantos decidiram ir mais longe.

Hiroxima e Nagasáqui foram o preço dessa aprendizagem. Centenas de milhares de vidas reduzidas a uma abstracção luminosa. Mortes sem rosto para quem as ordenou. Corpos desfeitos num segundo e sofrimento prolongado por décadas, nos sobreviventes, nos filhos, nas doenças, naquilo que a ciência não repara.

Herança involuntária. Sem testamento e sem direito a renúncia.

Podemos discutir o contexto, as alternativas, a rendição japonesa, a lógica de uma guerra que já tinha devorado qualquer inocência. Devemos. A história não melhora com simplificações. Mas compreender a primeira vez não pode servir de álibi para todas as seguintes.

Porque depois de Hiroxima já sabíamos. Sabíamos que não era mais uma arma, mais um degrau na escada da supremacia. Sabíamos que tínhamos entrado num território onde vencer pode ter a forma grotesca de uma derrota colectiva.

E continuámos. Bombas mais potentes, sistemas mais rápidos, arsenais multiplicados. Transformámos a capacidade de exterminar a humanidade em credencial diplomática.

Chamamos-lhe dissuasão porque a palavra é elegante e fica bem nos discursos. O mecanismo é de uma simplicidade aterradora: se me atacas, destruo-te; se me destruíres, destruo-te na mesma; se nos destruirmos os dois, ninguém poderá dizer que cedi primeiro.

É a imagem que o próprio Oppenheimer usou em 1953, num artigo da Foreign Affairs: dois escorpiões num frasco, cada um capaz de matar o outro, mas só à custa da própria vida. Os escorpiões, ao menos, não arrastam terceiros. Estes arrastam. E os terceiros somos nós. Todos. Incluindo os que nunca os elegeram, nunca participaram nas suas guerras e nunca foram consultados sobre a conveniência de morrer por uma disputa que mal compreendem.

O mais inquietante: o jogo nem precisa de um monstro. Basta um erro. Uma informação mal lida. Um sistema que falha. Uma cadeia onde cada um confia que o seguinte sabe o que faz.

Ou basta um desvairado com poder suficiente para confundir a sua vontade com o destino do mundo. A loucura individual, com tecnologia adequada, deixa de ser clínica. Passa a ser política internacional.

E ainda há quem lhe chame inteligência estratégica.

A ética a posteriori é confortável. Sentamo-nos sobre os escombros, identificamos culpados, escrevemos relatórios, erguemos memoriais. Dizem que aprendemos. Entretanto, o orçamento militar aumenta e alguém, algures, trabalha numa arma mais eficiente.

Mais eficiente a fazer o quê?

A ciência responde com precisão admirável. A moral continua sem financiamento.

Os que vieram depois conheciam Hiroxima, Nagasáqui, a radiação, a escala. E escolheram bombas maiores. Não por ignorância nem por inocência: escolheram porque o poder de destruir passou a ser a forma de impedir que os outros destruam primeiro. Porque a espécie prefere arriscar desaparecer a admitir que não precisa de ganhar todas as disputas.

Talvez seja essa a nossa verdadeira natureza territorial: não defender o que é nosso, mas não suportar que o outro tenha algo que não controlamos.

As bombas continuam nos silos. Os dirigentes falam de segurança, os estrategas calculam probabilidades, e nós vivemos como se a sobrevivência fosse consequência natural da existência, quando depende de decisões tomadas por gente que nunca conheceremos e cujos nomes só aprenderemos quando for tarde.

Não sei em que escalão se decide o horror. Suspeito que a tabela exista e que ninguém a queira publicar.

Entretanto, guardamos o fim do mundo em depósitos vigiados e chamamos-lhe paz. Os mais finos chamam-lhe equilíbrio.

Eu continuo à espera de uma palavra menos obscena.