2026-04-16
A Cura que Vem a Seguir
2026-04-15
Poemarmas (versão condensada, 2026)
2026-04-14
A Geometria do Espanto
O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.
Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.
O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.
Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.
Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.
O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.
Deserto
Reencarnação
Alexandria
2026-04-12
Botas limpas
Permanência
2026-04-10
Despacho do Reino dos Mortos
Estou velha, gasta, gorda, sem maquiagem. Num grupo de dezoito pessoas, continuo a encontrar formas de estar sozinha.
E tenho recebido um apreço imenso dos locais.
Não um carinho agressivo como em Marrocos — onde o interesse turístico tem dentes. Aqui é tímido, um pouco interesseiro quando querem os meus euros, mas com uma leveza que não ofende. Um sorriso que não estava nos planos.
Não sei bem a razão. Podem ser os olhos verdes — num mundo tão masculino, num país tão patriarcal, isso conta. Pode ser o loiro que ainda se nota pelo meio das brancas. Pode ser o árabe de manual com que me esforço, três palavras tortas que parecem causar uma alegria desproporcional. Ou a reverência aos cabelos brancos, que aqui significa que se viveu e que isso merece respeito.
Ou pode ser outra coisa completamente. Pode ser que mais de um ano fechada num casulo deixe marcas visíveis no sentido inverso — que a felicidade de finalmente estar aqui, neste lugar completamente outro, me saia pelos poros de forma indecente. Que se veja. Que chegue ao outro lado antes de eu abrir a boca.
Não sei. Sei que o sorriso do outro lado é grande. E que, por ora, não preciso de perceber porquê.
