2026-08-07

Catrineta

E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.

É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim. 

Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.

Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.

Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.

Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.

É um buraco negro. Suga.

De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.

É um monstro. 

Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.

(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)

2026-08-04

A outra margem

O mar entre Marrocos e Espanha já não é um estreito. É o intervalo entre uma esperança e um obituário.

2026-07-30

Kyrie eleison

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia

2026-07-29

Menu de degustação de melgas e mosquitos

Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.

Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.

De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.

Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.

Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.

2026-07-27

Antes que tudo se esqueça


Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.


Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.


Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.


E conta-me.


Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.

2026-07-26

Elogio do sapato feio


Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa. São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não entusiasma ninguém, mas que se recusa obstinadamente a desaparecer.

Durante anos, os Crocs ocuparam um lugar muito específico no imaginário coletivo: o lugar das coisas que os outros usam. Médicos em turnos impossíveis. Jardineiros. Pessoas que claramente tinham desistido de seduzir alguém. Nós observávamos à distância, confortavelmente instalados na nossa superioridade estética.

Depois a vida acontece.

As costas começam a emitir opiniões. Os pés tornam-se mais exigentes. Descobrimos que passar três horas em pé é uma atividade física e que a elegância raramente ajuda a descarregar compras do supermercado.

É nesse momento que os Crocs aparecem. Não fazem publicidade agressiva. Não prometem transformar a nossa vida. Limitam-se a existir, pacientes, à espera que a realidade faça o trabalho por eles.

Primeiro achamo-los horríveis.
Depois experimentamo-los.
Depois começamos a justificar a experiência com argumentos técnicos. Por fim, damos por nós a usá-los para ir ao correio, ao jardim ou à padaria, convencidos de que ninguém está a reparar. Entretanto, passamos a reparar noutra coisa.

A maioria das decisões da vida adulta acaba por seguir o mesmo percurso. Começamos com princípios. Terminamos com soluções. 

Os Crocs não são um sapato. São um tratado filosófico sobre o envelhecimento. Lembram-nos que chega uma altura em que deixamos de perguntar se uma coisa é bonita e começamos a perguntar se funciona. E há uma liberdade inesperada nisso.

Porque talvez a maturidade consista precisamente em abandonar algumas batalhas impossíveis. Entre elas, a de parecer permanentemente elegante enquanto se tenta apenas atravessar uma terça-feira.

Os Crocs são feios. Mas também nós já não somos exatamente quem éramos. Talvez seja por isso que nos entendemos tão bem.

2026-07-25

Modo Avião

Há anos que a ciência tenta compreender a audição selectiva. Eu não preciso. Pratico-a diariamente, com a disciplina de uma atleta olímpica e sem qualquer ajuda de cerúmen. Aliás, os meus ouvidos estão impecáveis. O filtro não está no canal auditivo. Está no córtex. Onde deve estar.

Funciona assim: «tens razão» entra com a clareza cristalina de uma notificação do MB Way a dizer que recebi dinheiro. Já «precisamos de conversar» sofre uma quebra de sinal abrupta algures entre o tímpano e a minha vontade de viver. Não ouço. Não por mal. Por curadoria editorial.

Porque vamos ser honestos: a audição selectiva não é defeito. É o meu cancelamento de ruído natural, muito antes de a Apple achar que inventou alguma coisa.

Graças a ele, consigo viver décadas — ou pelo menos desde 2014 — sem ouvir frases como «quando é que assentas?», «não achas que estás muito exigente?» e, a minha favorita de sempre, «se calhar o problema és tu que pensas demais».

Ouço o que interessa. O resto fica em modo avião.

O problema começa quando me dá a loucura da funcionalidade. Quando decido ser uma adulta que enfrenta tudo de frente. Limpo a caixa de entrada, respondo a mensagens pendentes desde 2018, digo que sim a jantares com segundas intenções óbvias.

De repente, o mundo entra sem filtro. Sem gatilho. Sem legenda a dizer «isto vai dar asneira».

E descubro que nada desapareceu. Aquela conversa que deixei em visto, aquele «depois logo vemos», aquele convite para «um café sem compromisso» — tudo esteve ali, pacientemente arquivado à espera que eu ligasse o som.

E percebo, tarde demais, a regra de ouro que devia estar no SNS24:

Há limpezas que não são de higiene. São de risco à paz interior.

Por isso, por uma questão de coerência e saúde mental, mantenho o meu sofisticado sistema de cancelamento selectivo ligado.

O meu otorrino diz que estou ótima. Eu digo-lhe que sim, enquanto vou pensando o que fazer para o jantar.

2026-07-23

Boletim das Pequenas Catástrofes

Registo das ocorrências menores que, acumuladas, alteram a estabilidade do dia.


08:12 — Verifica-se a primeira falha operacional. Os óculos de sol são localizados no compartimento dos ovos do frigorífico, onde permaneceram cerca de duas semanas sem que ninguém considerasse estranha a sua ausência.


09:03 — Expectativa mínima não confirmada. O utilizador desloca-se à rua com o objetivo exclusivo de comprar café. Regressa com as compras suficientes para atravessar um cerco medieval, mas sem café.


10:47 — Constata-se a impossibilidade persistente de determinar o paradeiro das chaves do automóvel. Admite-se a hipótese de coexistirem em dimensão paralela ou de terem adquirido autonomia administrativa.


11:22 — Falha de reconhecimento nominal. O nome da pessoa desaparece por completo. Mantém-se, contudo, intacta a memória do gato: a alcunha, o horário exacto da primeira refeição, e a lista mental de visitas non gratas, actualizada por ordem de gravidade da ofensa.


13:05 — Promessa discreta não executada. O utilizador garante a si próprio que beberá mais água. Às treze horas e cinco minutos, o organismo continua composto maioritariamente por café e teimosia.


14:19 — Pequena alteração de percurso. Entra-se numa divisão da casa com um objetivo definido. À chegada, o objetivo extinguiu-se sem deixar vestígios. Permanece apenas a sensação de que ali havia uma missão importante.


15:56 — Distração de curta duração com consequências materiais ligeiras. O telemóvel é procurado durante vários minutos enquanto permanece na mão que conduz a investigação.


17:02 — Quebra de hábito estabilizador. Pela terceira vez no mesmo dia confirma-se que abrir o frigorífico não cria, por geração espontânea, uma ideia para o jantar.


18:11 — Verifica-se que ainda não se tomaram os comprimidos da manhã. Consideram-se, à falta de melhor solução, comprimidos da tarde.


22:01 — Disfunção geral do organismo com ronco no sofá e televisão ligada em canal soporifero. 


Conclusão provisória: Embora cada ocorrência seja, isoladamente, irrelevante, a sua acumulação produz um fenómeno de instabilidade difusa. O dia não chega propriamente a desmoronar-se. Inclina-se. E nós passamos o resto das horas a fingir que não estamos constantemente a compensar o desequilíbrio.

O brigadeiro da desconfiança


Durante anos, uma parte significativa da sociedade portuguesa olhou para a imigração brasileira com uma simpatia quase espontânea. A língua comum, as novelas, a música, o humor, a ideia do "povo irmão" tornavam-na familiar antes mesmo de ser conhecida. Bastaram alguns crimes mediáticos para essa narrativa começar a estalar. Não porque os brasileiros tenham mudado enquanto comunidade, mas porque mudou aquilo que muda sempre primeiro: a perceção.

Não adianta responder a um português assustado chamando-lhe simplesmente xenófobo. O medo é muito mais antigo do que a razão. Não faz estatísticas, não consulta o INE, não calcula probabilidades. Vê um caso extremo e convence-se de que encontrou um padrão.

É assim que um crime deixa de ter apenas uma vítima e passa a fazer milhares de vítimas invisíveis. Depois de uma notícia destas, a mãe da ex-namorada que oferece um brigadeiro ou uma coxinha já não é apenas uma mulher simpática. O cérebro começa a perguntar-se o que poderá esconder-se por trás daquele sorriso.

Como nesta história. Três pessoas chegam a Portugal com uma mala. Dias depois, são suspeitas de tentar regressar ao Brasil com o equivalente a oito malas de artigos de luxo, depois de um roubo e homicídio meticulosamente preparados e executados. É uma imagem tão cinematográfica que se cola à memória. E é precisamente aí que mora o problema.

O preconceito nunca foi um exercício de lógica. É um mecanismo tosco de sobrevivência herdado de um tempo em que um único desconhecido podia significar a morte da tribo. Primeiro sentimos medo; só depois inventamos argumentos para lhe chamar razão. O cérebro não pergunta quantos milhões de brasileiros vivem honestamente em Portugal. Pergunta apenas: "E se este for como aquele?"

É profundamente injusto. Cada brasileiro que trabalha, paga impostos, cria filhos e leva uma vida banal acaba a responder pelos crimes de pessoas que nunca viu. Paga o justo pelo pecador, como tantas vezes aconteceu aos portugueses emigrados, vistos lá fora como preguiçosos, analfabetos, ladrões ou oportunistas, consoante a época e o país.

Mas também é intelectualmente desonesto fingir que notícias como esta não deixam marcas. Deixam. A confiança é um edifício que sobe por elevador e desce pela janela. Bastam meia dúzia de crimes brutais, repetidos até à exaustão nos noticiários, para décadas de convivência pacífica começarem a parecer a exceção, quando sempre foram a regra.

A justiça foi inventada precisamente porque o instinto é um péssimo juiz. O instinto condena por semelhança; a justiça condena por prova. A barbárie pergunta de onde veio o criminoso. A civilização começa no instante em que recusamos transformar um passaporte numa sentença.