2026-05-03

O eco


Dantes, jurava que seria diferente. Outro passo. Outra voz. Nenhum rasto.

Não fui. Não sou.

O tempo não corrige. Insiste.
Agora, no meio de um desabafo ou de uma ordem atirada à pressa, ouço-me. E não sou só eu. É ela. Na inclinação da frase. No olhar que cai direto no erro. No “estás a ver?” que nem precisa ser dito.

Abro a boca. E a minha mãe aparece.

No início, estranhei. Soou a falha. A cópia.

Hoje, não.

A menina que pisa o dia cresceu. E percebe: isto não é desvio. É estrutura.

Quando tudo baralha — a pressa, o ruído, a segunda-feira — não estou sozinha. Nunca estive.

Há uma linha firme. Um lastro.

Não é feitio.

É herança.

2026-05-01

Maias


No dia 25 de Abril de 1974, morreu em Portugal o Medo de Falar. Tinha 48 anos. A família agradeceu a quem o acompanhou à última morada no dia 1.º de Maio. Tratou a Funerária M.F.A.

O enterro correu bem. Houve flores, punhos erguidos, muita gente na rua. O problema, como sempre, é o que acontece depois dos enterros: a família fica, os credores aparecem e há sempre alguém que jura ter visto o defunto a mexer-se.

Cinquenta e dois anos depois, o 1.º de Maio é feriado — o que significa, dependendo do ano e do calendário, uma oportunidade de fazer uma ponte, engarrafar a A1 em sentido contrário e postar fotografias de brunch. Os discursos existem, como existem sempre: palavras que soam a reivindicação mas chegam já domesticadas, sem unhas, sem dentes, com o volume calibrado para não incomodar ninguém de importância. A luta continua, diz-se. Continua onde, exactamente, não se especifica.

Entretanto, lá fora, o mundo trabalha. Nos armazéns, nas plataformas, nos contratos de prestação de serviços que são vínculos laborais com outro nome e menos direitos. A precariedade não usa farda — usa aplicação, usa algoritmo, usa a linguagem da liberdade para descrever a servidão. És o teu próprio patrão. O defunto, ao que parece, tem primos.

Mas hoje é também o dia das maias.

A tradição manda pôr ramos de flores silvestres à porta — giesta, espinheiro, erva-benta — para afastar as pragas do Verão que se aproxima. O carrapato, em particular: pequeno, paciente, invisível até estar já enterrado na pele, a sugar com uma dedicação que envergonharia muitos profissionais. A sabedoria popular identificou-o há séculos como inimigo a manter do lado de fora.

A sabedoria popular sabia o que fazia.

Ponham maias à porta. A todas as portas.

1° de Maio


 

Entrevista a Hipatia


Pergunta 1

O Voz em Fuga começou em 2004. O que é que ainda hoje a obriga a escrever, depois de tudo o que já foi dito?

Hipátia:

Não escrevo porque ainda haja algo de novo a dizer. Escrevo porque o mundo insiste em repetir-se com outras palavras, e a linguagem, se não for vigiada, fica preguiçosa. Enquanto isso acontecer, escrever é uma forma de atenção. Não uma obrigação moral — um exercício de lucidez.

Pergunta 2

Escrever durante mais de duas décadas no mesmo espaço online criou uma obra ou apenas um hábito?

Hipátia:

Um hábito pode ser a forma mais honesta de uma obra. Nunca planeei um edifício; limitei-me a varrer o mesmo chão. Se isso desenhou um mapa, foi por insistência, não por projeto.

Pergunta 3

Nunca sentiu necessidade de mudar de lugar, de nome ou de forma?

Hipátia:

Mudar de lugar é fácil. Permanecer é mais difícil. Ficar impôs-me contenção, responsabilidade e memória. Não me interessava recomeçar; interessava-me aprofundar.

Pergunta 4

O blogue foi durante anos visto como forma provisória. Hoje, parece-lhe que foi uma vantagem?

Hipátia:

Sim. A provisoriedade protege da vaidade. Escrever sem promessa de permanência liberta o texto da urgência de provar o seu valor. Paradoxalmente, é isso que lhe permite durar.

Pergunta 5

Há textos que envelheceram melhor do que outros. Consegue explicar porquê?

Hipátia:

Os que resistiram são os que não estavam convencidos do momento em que nasceram. A atualidade é um péssimo critério de sobrevivência.

Pergunta 6

Escrever sabendo que o texto vai envelhecer muda a maneira como se escreve?

Hipátia:

Muda o tom. Torna-o menos histérico, menos seguro de si. Obriga a escolher palavras que não dependam do aplauso imediato.

Pergunta 7

Muitos dos seus textos partem da atualidade, mas recusam o comentário imediato. É uma escolha estética ou moral?

Hipátia:

É ética. O imediato raramente pensa. Reage. A escrita precisa de atraso — como a digestão.

Pergunta 8

Acredita que a indignação rápida empobrece a linguagem?

Hipátia:

A indignação é necessária. O problema é quando se torna automática. A linguagem passa a gritar o que ainda não compreendeu.

Pergunta 9

É possível escrever politicamente sem escrever slogans?

Hipátia:

Se não fosse, não escreveria. A política não vive só do que se afirma, mas do que se recusa simplificar.

Pergunta 10

Porque insiste no banal — casas, sofás, silêncio, cansaço — quando o mundo parece sempre em colapso?

Hipátia:

Porque é no banal que o colapso se instala primeiro. As grandes palavras chegam sempre tarde.

Pergunta 11

O quotidiano protege-nos da abstração ou revela-a?

Hipátia:

Revela-a. O corpo sente antes do conceito. Uma sala desconfortável é, muitas vezes, mais honesta do que um discurso bem arrumado.

Pergunta 12

O “eu” nos seus textos é discreto. O que perde — e o que ganha — com essa contenção?

Hipátia:

Perde-se biografia. Ganha-se espaço. Nunca me interessou ser personagem daquilo que escrevo.

Pergunta 13

Hoje espera-se que quem escreve se exponha, se explique, se narre. Essa expectativa é incompatível com o seu trabalho?

Hipátia:

É incompatível com a minha paciência. Há coisas que só se dizem retirando-se.

Pergunta 14

Se Voz em Fuga fosse livro, o que ficaria de fora sem hesitação?

Hipátia:

Tudo o que precise de contexto para se justificar. Um livro não pode pedir desculpa pelo tempo em que foi escrito.

Pergunta 15

Um livro encerraria o projeto ou apenas o deslocaria?

Hipátia:

Deslocaria. Nada se encerra enquanto houver mundo para olhar — mesmo com cansaço.

Pergunta 16

Escrever ainda muda alguma coisa — nem que seja o olhar?

Hipátia:

Muda o meu. E isso já não é pouco.

Pergunta 17

O que continua a merecer atenção num tempo saturado de opinião?

Hipátia:

As zonas onde ninguém quer ficar muito tempo: dúvida, silêncio, ambiguidade.

Pergunta 18

O que a faria parar de escrever?

Hipátia:

Talvez o dia em que a linguagem deixasse de resistir ao que é fácil.

Ou o dia em que eu deixasse de tentar.

2026-04-30

Como não assustar o espelho antes do café


Enquanto o Verão ensaia uma entrada triunfal só para desistir dois dias depois, dou por mim a reconsiderar seriamente as virtudes dos auto-bronzeadores sempre que me cruzo com o meu reflexo logo pela manhã. Eu, sem maquilhagem e a cores, pareço uma aparição recém-promovida do além. Chega a ser um susto em primeira mão — e ninguém merece esse tipo de experiência antes do café, muito menos com a bexiga a implorar por atenção.

Convenhamos: medo e bexigas cheias são uma combinação de alto risco. E, com um olho ainda em modo de poupança de energia e o outro ainda a dormir, dar de caras com aquela figura desalinhada não é propriamente o melhor “bom dia”. Às vezes pergunto-me porque é que o espelho não vem com filtro a preto e branco de origem — sempre poupava na nitidez dos estragos.

O problema é que a última vez que tentei resolver isto com um auto-bronzeador acabei com um tom suspeitosamente amarelo. E se já é duvidoso parecer um fantasma, pior ainda é parecer um fantasma com diagnóstico clínico.

2026-04-29

Dia Internacional da Dança


Acho que me apetecia dançar. Acho que só me apetecia dançar. Ter par para um passo de dança e uns braços com o ritmo certo.

​Estico o braço, a mão aberta e virada para baixo, suspensa no ar como quem lança uma âncora ao mar. Espero que outra mão a venha buscar, que a envolva e me tire deste eixo de cansaço.

​Queria apenas o abraço que acontece entre um passo e outro. Queria o lugar onde o tempo nos habita e o mundo, finalmente, se cala.

Corpos desaguados de ritmo e deste estar para aqui longe e sozinha e cansada e com tanta vontade de dançar, dançar-nos, dançar-te.

2026-04-27

Dias barulhentos


«Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.»

Álvaro de Campos

Gosto de um certo tipo de silêncio que apenas advém da fartura. Vem depois de abraços, de saudades, de beijos e de partilhas. Vem e fica, por instantes. E é dele que vou alimentando os dias barulhentos em que quase me perco de mim e das coisas e das pessoas que me preenchem.

2026-04-26

Fulanização


De um momento para o outro, pior do que um tutear que não foi pedido ou concedido, temos a fulanização total e absoluta, passando toda a gente a fulano. E os fulanos, por norma, são aqueles que berram pelos direitos que nem sabem que têm porque outros berraram antes e berram ainda mais contra os direitos dos outros, os tais que nem sabem que existem. E estes fulanos que berram há muito que se eximiram da cidadania. Pior, nesta democracia de fulanos, os fulanos são sempre os outros. E, esses, claro que não têm os mesmos direitos que o fulano que berra, especialmente se os direitos de uns e outros estão em confronto. Porque a liberdade dos fulanos nunca acaba onde começa a liberdade de outro fulano. Assume que a sua liberdade de fulano é a única ilimitada.

2026-04-25

Liberdade




Há uma ironia deliciosa na forma como o tempo decide guardar os seus segredos e baralhar as nossas certezas. No dia 25 de abril de 1974, "Grândola, Vila Morena" era um sussurro de rádio, uma senha clandestina que viajava nas ondas curtas para abrir as portas de uma liberdade que parecia impossível. Era uma música de terra, de barro e de braços dados, desenhada para ser o código de um destino coletivo.


​Cinquenta anos depois, a senha mudou de frequência e de roupagem. Deixou de ser o sinal de um golpe de estado para se tornar o eco de um algoritmo global. É fascinante observar que a canção de José Afonso — o homem que cantava a fraternidade sem precisar de luzes de ribalta — se viu subitamente vestida de vermelho, sob as luzes de alta definição de uma plataforma de streaming. Para o mundo, a "Grândola" viajou mais depressa como entretenimento do que como história, e há uma beleza doce, ainda que penetrada pelo paradoxo, neste fenómeno de massa.


​O alcance desta nova vida é tão vasto que os ecos originais da democracia portuguesa parecem agora pequenos perante a escala do digital. Prova disso é o momento quase surreal de encontrar, sob o sol do Egito, um guia local que a cantarolou com naturalidade. Ele talvez não saiba localizar o Alentejo num mapa, nem conheça o peso do silêncio que a canção quebrou naquela madrugada de abril, mas ele reconhece o "frêmito" da melodia. A série deu à música um par de asas digitais e, embora a tenha transformado em produto de consumo, não conseguiu roubar-lhe a essência. Pelo contrário, espalhou a semente da resistência para lá das fronteiras da língua e da geografia.


​Este novo fôlego é o sinónimo perfeito dos nossos tempos: a ideia de liberdade tornou-se contagiosa através da ficção, provando que a alma de uma canção é capaz de sobreviver até à sua própria comercialização. Talvez o Zeca, com o seu sorriso enigmático, achasse uma graça profunda a este desfecho. Afinal, ele sempre escreveu que o povo é quem mais ordena, e o povo, agora global e ligado por cabos de fibra ótica, decidiu que esta música lhe pertence por direito emocional. É um final feliz para uma canção que nasceu para libertar um país e acabou por se libertar de si mesma para ir consolar quem a quiser cantar, seja nas ruas do Cairo ou num ecrã em Tóquio, provando que, cinco décadas depois, o mundo ainda quer ter, em cada esquina, um amigo.