Li, há muitos anos, uma entrevista a Eduardo Lourenço em que um jornalista francês lhe perguntava o que era a saudade: um sentimento real ou apenas um mito português. A resposta foi tão luminosa quanto poética: dizia ele que a saudade é como quando o sol se põe, mas sabemos que haverá luar. Não foram exatamente estas as palavras, mas a ideia ficou-me para sempre. A tradução é livre.
Sempre gostei da forma como Eduardo Lourenço procurou compreender a nossa portugalidade — esse modo de sermos que parece sobreviver às épocas, às circunstâncias e até às sucessivas imagens que fazemos de nós próprios. É difícil negar que crescemos à sombra de uma mitologia antiga. Desde Camões e Os Lusíadas até aos sonhos do Quinto Império e a Mensagem, fomos construindo uma narrativa coletiva que nos ensinou a olhar para o passado como um lugar de grandeza e perda. Pelo meio, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a uma metafísica nacional. Acabámos por chamar saudade a muitas coisas e por viver, não raras vezes, nostálgicos de uma idade de ouro que talvez nunca tenha existido da forma como a imaginamos.
Talvez a saudade faça parte da alma portuguesa, mas não apenas como uma característica espontânea ou inevitável. Há nela uma dimensão cultural, uma ideia trabalhada ao longo dos séculos que acabámos por transformar num dos nossos maiores símbolos. Como todos os símbolos, ilumina-nos e limita-nos.
Porque não existe um só Portugal; existem muitos Portugais. Uns reconhecem-se no fado, outros nas cantigas populares; uns vivem voltados para o mar, outros para os montes e os rios do interior. No meu Norte, por exemplo, nunca encontrei a tristeza resignada que tantas vezes associamos à imagem tradicional do país. Há uma alegria teimosa, uma recusa em fazer da melancolia uma identidade. E talvez seja precisamente essa diversidade que melhor nos define.
Nunca fomos apenas um país de ensaístas ou de teóricos; fomos, acima de tudo, um país de poetas. A nossa memória coletiva foi sendo escrita por quem soube transformar ideias em imagens, pensamento em metáfora, história em canto. Há nisso uma riqueza que continua a distinguir-nos, mas que hoje enfrenta novos perigos.
É por isso que me preocupa a forma como tantas vezes tratamos a língua portuguesa neste novo século. Empobrecemo-la quando a reduzimos ao imediatismo das redes, quando dispensamos o rigor em nome da pressa, quando esquecemos a beleza das palavras moldadas pelo tempo. Uma língua não vive apenas dos dicionários ou das regras gramaticais: vive da atenção que lhe dedicamos, da imaginação que nela depositamos e do cuidado com que a transmitimos às novas gerações.
Haverá sempre lugar para cantar Portugal enquanto Portugal souber dizer as palavras que o cantam. A língua é, talvez, o mais duradouro dos nossos patrimónios. E seria uma ironia amarga que, um dia, tivéssemos saudades do português que deixámos perder por falta de cuidado.
Se o sol se põe, que ao menos não nos falte o luar.
