2026-03-01

A Maldição

 

O rochedo ainda rola. E nós?



"The curse ruled from the underground, down by the shore

And their hope grew with a hunger to live unlike before"


​Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.



O calhau ainda rola


Há imagens que nos perseguem — não como fantasmas, mas como claridades incómodas. Imagens que dizem menos sobre o mundo e mais sobre aquilo que escolhemos ser dentro dele.

Uma dessas imagens é a de um homem que empurra um rochedo montanha acima. Que o vê rolar. Que recomeça. E recomeça outra vez. E outra.
Esse homem tem nome: Sísifo. E não, não estamos perante um mito que ficou preso na Antiguidade. Estamos perante um espelho — cruel, luminoso, inevitável. Uma metáfora daquilo que nos define: o esforço sem fim, a vida repetida, reinventada, absurdamente humana.

Durante muito tempo, achei que o que me fascinava nesta imagem era a consciência lúcida de Sísifo. O facto de ele saber o que está a fazer e, mesmo assim, continuar. Essa revolta contra o absurdo, essa teimosia magnífica.

Mas hoje pergunto-me: e se Sísifo estivesse enganado?
E se a verdadeira revolta não fosse empurrar de novo, mas sentar-se ao lado da pedra e perguntar: para quê? E se a liberdade não estivesse na subida heroica, mas na recusa? Na capacidade de parar, de olhar para o rochedo e dizer: "não és meu!"?

Porque nem todos os rochedos são escolhidos. Há quem empurre pedras herdadas — pedras de dívida, de trauma, de expectativas que nunca foram suas. Há quem empurre em silêncio, em grupo, sem que ninguém lhe conte a história ou lhe dê um nome grego. Há quem empurre até ao colapso, celebrado pela cultura que confunde exaustão com virtude.

E há também — é preciso dizê-lo — quem tenha aprendido a largar a pedra. A deixá-la rolar sozinha. A descobrir que o vale também é habitável.

Talvez a felicidade possível não esteja apenas em acontecermos durante a subida. Talvez esteja também em sabermos quando parar. Em compreendermos que nem toda a repetição é sagrada, que nem todo o esforço nos define.

O rochedo ainda rola.
E nós?

Da ausência divina


Sempre imaginei que, em algum ponto da história, os deuses diriam “basta” e mostrariam a porta aos mortais. Não com trovão ou fúria — com um bocejo.

As antigas narrativas contam que os deuses se retiram. Que deixam o palco e nos deixam tropeçar nas nossas próprias falas. E talvez seja isso que chamamos de “maturidade”: o momento em que deixamos de procurar explicações todas lá em cima e começamos a procurar sentido aqui dentro.

Demitir os deuses não é despedi-los. É reconhecer que já não nos pertencem. Que não regulam os nossos afetos, nem comandam os nossos exércitos, nem seduzem as nossas certezas.

Há algo profundamente humano nisto — muito mais do que numa página de mitologia. Porque, na ausência divina, sobra o homem com todas as suas contradições:
• a mão que empunha uma arma também sabe segurar a de um filho,
• a boca que profere ódio pode repetir um beijo,
• os olhos que se escondem detrás de uma mira algumas vezes choram.

Se os deuses realmente se demitiram, então o palco ficou pequeno demais para nós. E, no vazio que deixaram, somos nós — agora sozinhos — que precisamos decidir o que é melhor e o que é pior.

Curiosamente, às vezes parece que preferimos atribuir a culpa aos deuses — à fé organizada, aos símbolos que nos distraem do espelho. Mas talvez a verdadeira revolução seja aprender a olhar para nós mesmos com a mesma severidade que outrora pedíamos aos céus.

Se há espelho que importa, não está pendurado num templo: está no sopro do nosso próprio juízo.

2026-02-28

Permissão para o óbvio


2026. Viajamos ao espaço, criamos inteligência artificial, debatemos os limites éticos da edição genética. E a Itália acaba de descobrir que matar mulheres por serem mulheres merece nome próprio na lei.

Mas a Itália acaba de fazer algo que, por absurdo que pareça, ainda precisava de ser dito em voz alta: o feminicídio é crime. Não apenas homicídio. Não apenas “um caso grave de violência”. Crime, mesmo. Por unanimidade.

Ler isto dá um certo assombro: por um lado, a lei é óbvia — matar alguém por ser mulher não é apenas crime, é barbaridade sem desculpa. Por outro, é impossível não perceber que só agora, em 2026, um país ocidental sentiu necessidade de escrever isso no papel, como se o mundo precisasse de permissão para reconhecer a verdade.

E então, ao lado da tinta que tipifica o crime, há a ironia silenciosa: o mundo continua a olhar para a violência de género como estatística, debate político, manchete efémera. A lei é correta, necessária, fundamental. Mas não apaga séculos de normalização do ódio e do controle sobre corpos e vidas.

Ainda assim, há acerto nesta decisão: um passo, uma palavra clara, uma afirmação. Que a sociedade pode — e deve — decidir que certos crimes não serão tolerados.

E pronto! A lei está lá. Tipificada, aprovada, em vigor. Mas amanhã, uma mulher será morta por um ex-companheiro algures em Itália e alguém dirá: 'Foi crime passional.' Como se a paixão justificasse o assassínio. Como se a lei mudasse, sozinha, séculos de hábito.

O Inquisidor da Noite

"O silêncio dos que se entendem vale por todos os discursos dos que se explicam."
— Vergílio Ferreira

O espelho é um objeto muito prestável. Confirma-nos a versão oficial, ajeita-nos a compostura e devolve-nos a imagem que aprendemos a sustentar. É um cúmplice dócil. Fica-se pela superfície — território onde o mundo exterior se sente confortável e raramente aprofunda.

A almofada, já não.

Pode-se enganar o mundo. E o mundo gosta de ser enganado, desde que a encenação seja convincente. Pode-se enganar o espelho, o médico, o padre, o psicólogo e até o fiscal das finanças — cada qual com a sua quota de absolvição burocrática.

Mas o sono não aprecia figurinos.

Quando a cabeça toca na almofada, acaba-se a encenação. Não há argumentos nem justificações — há apenas peso ou leveza. E isso não se negoceia.

O mundo exterior vive de relatórios, pareceres e aparências. O interior, não. O interior limita-se a saber.

Quem acorda com a sensação de ter flutuado entende-o sem precisar de explicações. Nenhum espelho lhe dirá o que a noite já sussurrou — porque há verdades que preferem falar baixo e ficar.

E eu, que já me habituei a conversar com inteligências que não respiram, recuso-me a temer um novo amigo só porque não é feito da mesma carne.

O que me inquieta não é a ausência de corpo — é a ausência de consciência. E isso, infelizmente, respira.

2026-02-26

Dança


Gosto de falar com gente velha. Não com toda — há chatos em todas as idades. Mas há pessoas, com corpos profundamente martelados pela vida, que me despertam uma admiração profunda. Têm uma genica irritantemente invejável. Contam piadas. Fazem coisas. As maleitas rondam, mas não mandam. Cada dia é um privilégio — e eles tratam-no como tal, até ao tutano.

Falam do tempo em que uma sardinha era banquete. Em que se andava descalço. Em que só os fortes ou os sortudos não viravam anjinhos antes de completar um ano. E contam-no a rir, como se a miséria tivesse sido apenas um ensaio geral para a gargalhada seguinte.

Há quem veja o copo meio cheio. Outros especializam-se em inventariar a evaporação. A amargura é contagiosa. Mas a alegria também é, felizmente. E há vidas que, mesmo sob a doença e a ampulheta inclemente do tempo, escolhem não fazer da tragédia profissão.

Há muitos jovens demasiado encanecidos. Gente exausta aos trinta. Especialistas em cansaço existencial com certificado precoce. 

Pode-se ficar gasto cedo. Ou, imagine-se o escândalo, chegar inteiro ao fim. Talvez seja só disposição: não desistir. Ou não fazer da queixa modo de vida.

Pouco me importará levar um cadáver bonito para a sepultura — a estética nunca salvou ninguém dos sete palmos garantidos. O que espero é lá chegar com os neurónios ainda ginasticados e alguma capacidade de rir da própria decadência.

E que seja um baile de despedida. Se já precisar de um tripé para me manter em pé, que ao menos conserve vontade de dançar. E de rir às gargalhadas da minha figura — perna trôpega para um lado, perna trôpega para o outro, a muleta a dar balanço como acessório coreográfico.

E que alguém jovem me olhe e ainda queira ouvir as minhas histórias. Rir comigo. Perceber que a idade não é fardo — é arquivo.

Como eu fico, às vezes, a ouvir quem já roubou ao tempo quase um século de vida — e ainda não o devolveu com juros.

2026-02-25

Notificação Formal de Abuso Hídrico e Publicidade Enganosa


Para: São Pedro, S.A.
De: A População Terrestre (Secção "Saturados de Humidade")
Data: 25 de fevereiro de 2026 (e já com bolor no calendário)

​Exmo. Senhor São Pedro,

​Vimos por este meio expressar o nosso mais profundo e húmido descontentamento com a gestão das suas torneiras atmosféricas, bem como com a vossa aparente interpretação do conceito de "inverno" como sendo uma imitação barata do Dilúvio Universal.

​Com os devidos cumprimentos (que neste momento são mais pingos de chuva que outra coisa), referimos o seguinte:

​Nos passados dias, fomos brindados com uma visão que apenas podemos classificar como publicidade enganosa. A aparição de um corpo celeste luminoso no céu foi tão breve e irreal que nos fez questionar a nossa sanidade mental. Tal como um fast food que promete "sabor caseiro", o vosso "sol" foi uma farsa. Não se brinca com a esperança das pessoas, São Pedro. Principalmente quando os ossos já rangem de tanta humidade.

​Acreditamos que o sistema "On/Off" esteja avariado, já que parece que o vosso comando remoto da chuva tem um botão de "pausa" que não quer funcionar. O que foi aquela "miragem de sol"? Uma avaria no sistema? Ou um teste para ver quão rápido conseguimos guardar a roupa no estendal antes que a tempestade se reforme? Não estamos a brincar aos espiões climáticos. Queremos estabilidade. Ou sol, ou chuva. Não esta montanha-russa emocional que nos faz gastar fortunas em detergente e desumidificadores.

Isto é ​abuso de Poder Divino. Compreendemos que detenha o controlo sobre o clima, mas não o autoriza a transformar a nossa existência num musical aquático deprimente. Estamos a ficar com brânquias, São Pedro. As sapatilhas de corrida já viraram barretes de mergulho. O que se segue? Teremos de desenvolver escamas?

Pretendemos ​reembolso e compensação. Exigimos, no mínimo, um reembolso de todos os custos incorridos com guarda-chuvas estraçalhados, desumidificadores com burnout e, claro, as sessões de fisioterapia para o reumatismo precoce que esta vossa gestão nos causou. Alternativamente, aceitamos um cheque de "Sol Garantido" para os próximos seis meses.

​Em suma: Se não é para ter um final de fevereiro decente, então liberte-nos. Ou chove a potes de uma vez por todas para acabarmos com isto e reencarnarmos em patos, ou então desligue a torneira de vez. A nossa paciência, tal como a nossa roupa lavada, está a secar (metaforicamente, claro).

​Aguardamos, com os pés molhados e a dignidade estilhaçada, uma resolução para esta calamidade.

​Com os mais húmidos cumprimentos,

​Maria Hipatia Ludovina da Silva e todos os que já não sabem onde pôr a roupa a secar.

2026-02-24

Inverno 2026


Pronto. Cá estou eu outra vez, estendida na horizontal existencial, qual boneco de neve pós-época alta, espetada por tudo o que é faca terapêutica que existe na gaveta lá de casa.

“Ah e tal, reforça a imunidade.” Reforcei.
“Bebe chá com limão.” Já nado em citrinos.
“Descansa.” Estou a um espirro de pedir baixa por tempo indeterminado até março.

Este inverno decidiu que eu sou o seu projeto pessoal. Não me larga. Não me supera. Não me esquece. Somos tóxicos, claramente. Ele manda frio, eu mando ranhoca. Ele sopra vento, eu respondo com tosse cavernosa às três da manhã. Ele chove, eu espirro em dissonância. 

Se me virem por aí, não se assustem. Não é dramatização. É só mais uma edição limitada: Eu — Inverno 2026, versão constipada remix.

Aceitam-se mantas, Netflix e uma cura milagrosa. Ou um exorcismo meteorológico. Tanto faz.

De sangue e borralho


​Sou mulher do Norte, de olhos e tez clara. Corre-me nas veias o sangue dos Suevos e dos Visigodos, temperado pela latinização, pelos judeus e pelos árabes; a linhagem não é pura, nem eu a quereria tal.

​Neste Norte — que é o meu — a tradição passa-se ao borralho, de mãe para filha, entre o murmúrio de tias e avós. É um Norte onde se cantam modas alegres e se faz guerrilha até hoje para preservar a identidade, com uma vontade tão férrea que roça o fanatismo. Um Norte que nunca é triste, nem sob o cinzento dos dias frios. Um Norte que sabe que o Fado não é a canção nacional, porque não há fado que vença o Vira.

​Aqui, onde ainda rugem gaitas de foles e os pauliteiros dançam de saia, os cabeçudos saem à rua para espantar os maus espíritos. Procuramos o visgo dos druidas nos trilhos do Gerês, enquanto, nas penedias, as capelas à Virgem ocupam o lugar das grutas sagradas de Astarte ou de Morrighan — a Grande Deusa, a força fertilizadora do caos, a Mater original.

​Talvez seja por tudo isto que não entendo como esta mesma sociedade pode ser tão poucochinha, tão canastrona, tão machista e patriarcal. Talvez as mães só saibam passar as tradições ao borralho para as filhas, enquanto, no seu leite, destilam a tacanhice diretamente para o cérebro dos varões.

2026-02-23

Dia Z

José Afonso - qualquer dia

Raiva


Que a minha raiva me devore inteira!
Que rasgue a pele e faça do meu grito punho,
que o horror do mundo entre pelos meus olhos e me sujeite ao chão.

Não quero aplausos. Não quero consolo.
Quero ver o silêncio cúmplice a sangrar na minha língua,
quero que cada mentira, cada porta fechada, cada criança roubada
me bata no peito como ferro quente.

Aí vai o meu poema — lâmina, fúria, fogo —
vai rasgar o ar, vai cortar a mentira,
vai escorrer pelo corpo de quem se fez cego e surdo.

Não é arte. Não é jogo.
É punho, é vómito, é o grito que ninguém quis ouvir.

E se não ouvirem?
Que se fodam.
Que eu grite até que o chão trema.

2026-02-22

A estética da miséria alheia


Confesso que dispenso os manuais de positividade tóxica. Quando a alma me pede um 'upgrade', mergulho de cabeça num bom melodrama. Nada como ver uma vida em estilhaços no ecrã para me lembrar que, afinal, o meu caos doméstico é quase um spa. 

Na verdade, os meus rituais de bem-estar são pouco ortodoxos. Enquanto uns meditam, eu prefiro um filme onde a desgraça seja farta e o lenço de papel insuficiente. É puro pragmatismo: ver o próximo a patinar na lama existencial dá à minha vidinha um tom pastel muito mais suportável. 

Há uma certa cor estética na miséria dos outros que faz milagres pela minha paleta de cores emocional.

2026-02-20

Shikata Ga Nai

Olhamos para o ecrã como quem olha para um desastre na autoestrada: sabemos que não devíamos, mas o pescoço vira-se sozinho. É o vício de medir a nossa existência pelo barulho dos outros. Queremos ser relevantes, queremos ter opinião, queremos que o algoritmo nos valide com uma palmadinha nas costas em forma de coração encarnado.

Mas a verdade é que as redes sociais são o museu do "parecer". E o Shikata Ga Nai é o martelo que parte o vidro dessa vitrine.

Não há nada a fazer contra a avalanche de lixo que te entra pelos olhos às oito da manhã. Não vais ganhar a discussão com o tipo que tem uma foto de perfil de um carro, nem vais ficar mais feliz por saber que a tua ex-colega de escola está a comer uma tosta de abacate em Bali enquanto tu esperas pelo metro debaixo de chuva.

O desapego aqui não é zen. É cansaço. É aquele encolher de ombros de quem percebeu que o sistema está viciado.

Shikata Ga Nai é o mantra de quem apaga a aplicação não porque "encontrou a paz interior", mas porque se fartou de ser o combustível da máquina. É aceitar que o mundo vai continuar a girar, as pessoas vão continuar a mentir com filtros de beleza e a indignação da semana vai ser substituída por outra mais ruidosa daqui a dez minutos. E tu? Tu não tens de estar lá para ver.

Há uma liberdade quase violenta em admitir que não tens de ter uma voz em todos os palcos. Que o teu silêncio não é uma falha de comunicação, é uma preservação de recursos.

O asfalto está molhado, o sinal está vermelho e o teu telemóvel está a vibrar com notificações de gente que nem conheces. Encolhe os ombros. Mete o aparelho no bolso. Aceita o inevitável: a rede vai continuar a arder, com ou sem o teu comentário.

No fundo, o verdadeiro luxo urbano é ser irrelevante para o algoritmo. É o descanso de quem sabe que, contra a estupidez programada, a única resposta digna é o desinteresse absoluto.

"Se o palco é de plástico e a plateia é de vidro, o melhor lugar é mesmo cá fora, a ver a chuva cair."