Não, não queria ser de pedra ou madeira. Porque sentir é o que me distingue dos móveis, certo? É o meu diploma de humanidade, a prova de que existo.
Claro que as rotinas quotidianas nos embrutecem, nos afastam dessa capacidade de "sentir por inteiro" — mas aproximarmo-nos demais é arriscar queimar as asas. Somos todos borboletas idiotas fascinadas pela luz.
Sou passional por teimosia, não por coragem. Porque viver apaixonadamente é arriscado e o coração prefere a mediocridade segura ao perigo glorioso. A experiência ensina-nos o conformismo — esse prémio de consolação da vida adulta.
O que me resta? Escrever. Porque escrever é o meu truque de magia: finjo sentir tudo sem arriscar nada. É seguro, asséptico, controlável. A paixão de laboratório.
Escrevo para não explodir, para não murchar, para continuar a fingir que sou divertida. Porque exorcizar demónios no papel é mais conveniente que enfrentá-los na vida real.
Todos temos um lado negro. Eu tenho este blog.