O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.
Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.
O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.
Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.
Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.
O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.
