Há dias em que o corpo já não arrefece, apenas aguenta. Ao longe, matas e florestas ardem com uma violência que parece ter aprendido a linguagem da pressa: devoram-se árvores, refúgios, paisagens inteiras, enquanto o céu se cobre de uma cor doente, suspensa entre o fumo e a cinza.
Não ardem apenas os troncos. Arde tudo o que neles vivia: o abrigo dos animais, a sombra, a água escassa, os caminhos por onde a vida respirava sem fazer ruído. Vê-los fugir, desorientados, feridos ou simplesmente sem lugar para onde escapar, é perceber que a devastação não é uma imagem distante. É uma contagem silenciosa de perdas, feita uma a uma, quase sempre tarde demais.
E depois há as pessoas. As mais frágeis, as mais velhas, as que vivem sós, as que têm doenças respiratórias, as que não podem simplesmente «aguentar mais um bocado». Para elas, o calor não é desconforto: é risco. É desidratação, falta de ar, exaustão; a linha ténue entre resistir e cair. Há uma crueldade particular em transformar o verão num teste de sobrevivência para quem já vive no limite.
Este é o retrato de um tempo em que o calor deixou de ser apenas clima para passar a ser sintoma. Sintoma de desequilíbrio, de negligência, de um mundo cada vez mais inclinado para a combustão. E talvez o mais inquietante seja isto: já não se trata de perguntar quando chega o verão. Trata-se de saber quem será ferido desta vez.