2026-04-14

A Geometria do Espanto


O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.

​Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.

​O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.

​Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.

Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.

O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.

Deserto


Ah, o universo tem um sentido de humor muito peculiar. E, confesso, um certo sadismo para com quem só queria tomar um duche sem parecer um combate de wrestling com uma porta.

A história começa no meu quarto original, um espaço acolhedor cuja porta decidiu que a relação connosco era tóxica e recusou-se a fechar. Nem com a técnica do ombro, nem com o calço, nem com uma reza a São Firmino, padroeiro das dobradiças. Resultado: dormir com a sensação de que, a qualquer momento, um hóspede bêbado — ou o espírito de António Variações — entraria para um medley desafinado.

Num gesto de piedade, as entidades hoteleiras transferiram-me. Para uma suite triplex. Três pisos. Escadas interiores. Claraboias. Só não tinha um minibar do tamanho de um Volkswagen, mas também ninguém aqui bebe álcool.

Ri-me, nervosamente. Daquele riso de quem tem a certeza de que lhe vão pedir um rim no checkout. Mas não: era verdade. Eu, plebeia de porta avariada, agora reinava num espaço com cama de dossel e uma casa de banho do tamanho de um microapartamento.

Na manhã seguinte, lá fui eu, toalha fofa em punho e a confiança de quem já se sentia proprietária daquilo tudo, girar o manípulo do duche.

O som que se seguiu não foi o de água quente a correr. Foi um soluço metálico. Água. Polar. Diretamente do Ártico.

E a quente? A quente estava de férias. Ou, mais provavelmente, tinha sido desviado para o quarto 7, onde algum hóspede mais afortunado do que eu se banhava numa cascata termal.

Portanto, ali estava eu: numa suite triplex, com duas casas de banho, nenhuma com água quente. A tomar um banho aos saltinhos, a reconsiderar as minhas escolhas de vida, e a concluir que o luxo é, afinal, uma forma muito cara de passar frio.

E a porta do meu antigo quarto? Aposto que até já fecha. Sozinha. Só para se rir de mim.

Reencarnação


Não desejo mal a ninguém. É uma posição moral que mantenho com algum esforço, especialmente em anos eleitorais.

Mas há uma justiça poética na ideia da reencarnação como sistema de calibração — não o modelo aspiracional das tradições orientais, onde se regressa a uma forma superior consoante os méritos acumulados, mas uma versão mais rigorosa, administrada por uma entidade sem paciência para subtilezas: regressas ao que fizeste, na forma mais literal possível.

Quem passou a vida a tratar o mundo como lixo volta como contentor. Quem viveu às custas dos outros volta como parasita — o tipo que não escolhe o hospedeiro, é escolhido. E quem passou décadas a produzir legislação, discursos e decisões que só servem para limpar a sujidade que eles próprios criaram?

Papel higiénico. Evidentemente.
Não é crueldade. É proporcionalidade. O universo, se tiver bom gosto, funciona assim.

Eu, pessoalmente, continuo a não desejar mal a ninguém. Limito-me a confiar no processo.

Alexandria

Conduzir em Alexandria não é simplesmente deslocar-se de A para B — é participar numa coreografia caótica onde as regras são meras sugestões filosóficas e as faixas de rodagem existem apenas como decoração urbana.

Aqui, ninguém “anda na sua faixa”. Aliás, o conceito de faixa parece ser interpretado como “uma zona vaga onde o carro pode flutuar”. Há quem circule com duas rodas de cada lado do risco contínuo, numa tentativa louvável de agradar a todos os deuses do asfalto ao mesmo tempo. É quase diplomacia rodoviária.

Os limites de velocidade? Um mito urbano. Provavelmente inventados por alguém muito otimista. Cada condutor escolhe a sua própria velocidade com base em critérios altamente científicos, como: “estou com pressa”, “não estou com pressa”, ou “apetece-me”.

Mas o verdadeiro coração do sistema não está nos sinais nem nas regras — está na buzina. A buzina não é um acessório: é uma linguagem. Um leve “pip” pode significar “olá”, “vou passar”, “cuidado”, “estou vivo” ou simplesmente “estou aborrecido”. Um toque mais longo já entra no campo da poesia épica, carregado de emoção e, possivelmente, alguma crítica social.

E depois há a autoestrada, esse palco de bravura onde carros, carrinhas e ocasionalmente conceitos abstratos de ordem coexistem em perfeita desorganização. Veículos deslizam sobre as linhas como se fossem sugestões artísticas, criando padrões dignos de uma exposição moderna.

No fundo, conduzir em Alexandria é libertador. É preciso esquecer tudo o que aprendemos. Aqui não há certo ou errado — há apenas movimento, instinto e uma sinfonia constante de buzinas. E, surpreendentemente, funciona.

Mais ou menos.

2026-04-12

Botas limpas

O fascismo não chega com botas sujas nem gritos histéricos — chega devagar, com palavras macias e promessas simples. Ocupa o espaço onde o pensamento desiste.

É quando a crueldade ganha o nome de justiça. Quando o "nós" vira trincheira contra o "eles".

Vive nos silêncios convenientes, nas piadas que passam sem resposta, nos absurdos que, repetidos, deixam de espantar.

Infiltra-se nos espaços de decisão, nos sistemas que filtram o mundo, na rotina cansada que já não questiona.

Até que acordamos tarde demais.

Permanência

Oito horas de carro. Cinco sítios em passo de corrida. Isto não é turismo, é uma evacuação arqueológica.

Karnak sozinho precisava de um dia. O Vale dos Reis também. Fizemos tudo em modo maratona — templos, avenidas, colossos. Luxor. A meio, os pés já estavam em estado de guerra declarada.

E depois, Deir el-Bahari. Hatshepsut é um texto inteiro por escrever.

A história tem tudo — a faraó que reinou como homem, os retratos martelados depois da morte, o nome apagado das paredes e Tutmósis a perceber, tarde demais, que apagar alguém da pedra não apaga nada de facto. Ela está em todos os museus do mundo. Ele é uma nota de rodapé.

E eu estive lá. No templo dela. Com os obeliscos que sobreviveram a tudo.

A morte egípcia não é fim, é uma negociação muito longa com a permanência. Hatshepsut perdeu a negociação quando morreu e ganhou-a nos milénios seguintes. Um karma escrito em pedra.

2026-04-10

Despacho do Reino dos Mortos


Estou velha, gasta, gorda, sem maquiagem. Num grupo de dezoito pessoas, continuo a encontrar formas de estar sozinha.

E tenho recebido um apreço imenso dos locais.

Não um carinho agressivo como em Marrocos — onde o interesse turístico tem dentes. Aqui é tímido, um pouco interesseiro quando querem os meus euros, mas com uma leveza que não ofende. Um sorriso que não estava nos planos.

Não sei bem a razão. Podem ser os olhos verdes — num mundo tão masculino, num país tão patriarcal, isso conta. Pode ser o loiro que ainda se nota pelo meio das brancas. Pode ser o árabe de manual com que me esforço, três palavras tortas que parecem causar uma alegria desproporcional. Ou a reverência aos cabelos brancos, que aqui significa que se viveu e que isso merece respeito.

Ou pode ser outra coisa completamente. Pode ser que mais de um ano fechada num casulo deixe marcas visíveis no sentido inverso — que a felicidade de finalmente estar aqui, neste lugar completamente outro, me saia pelos poros de forma indecente. Que se veja. Que chegue ao outro lado antes de eu abrir a boca.

Não sei. Sei que o sorriso do outro lado é grande. E que, por ora, não preciso de perceber porquê.

Curiosidades da sinalética egipcia




O sinal estava à porta da casa de banho de um restaurante no Cairo.

Não era um simples aviso. Era uma tese visual. Uma declaração civilizacional. Milénios a esculpir instruções em pedra não passam em vão: no Egito, a imagem não sugere — decreta. Há ali uma confiança antiga na capacidade do desenho para pôr ordem no mundo, como se um bom pictograma pudesse, em última instância, resolver a humanidade.

E, de certo modo, tenta.

A placa em questão proibia fumar na sanita. Não de forma vaga ou simbólica, mas com um zelo quase pedagógico. Havia um homem. Havia uma sanita. Havia um cigarro. Tudo meticulosamente organizado para que nenhuma dúvida sobrevivesse. E, a atravessar o conjunto, o círculo vermelho com a barra diagonal — esse golpe gráfico que, em qualquer latitude, significa: nem sequer consideres.

Não discuto a regra. A civilização assenta em proibições específicas. O que me interessa é o momento fundador. O instante inaugural em que alguém, num passado não documentado mas seguramente memorável, decidiu que aquele era o sítio certo para acender um cigarro. É assim que a história avança: um gesto isolado, profundamente questionável, que obriga o resto da espécie a produzir sinalética.

E depois há o texto.

Por baixo da imagem, como quem não confia inteiramente na eloquência milenar do desenho, surge uma explicação.

Em coreano.

Não em árabe. Não em inglês. Em coreano. Um detalhe que transforma a placa num objeto quase metafísico. Porque implica uma cadeia de eventos altamente improvável: não só alguém fumou na sanita, como esse alguém — ou alguém suficientemente semelhante — era coreano, e reincidente, e imune a pictogramas, obrigando as autoridades locais a escalar o problema para o plano linguístico.

Gosto de imaginar o processo. Reuniões. Relatórios. Um comité a folhear incidentes. “Temos um padrão”, dirá alguém, com gravidade. “E esse padrão escreve-se em hangul.”

A conclusão é inevitável: aquela placa não é para todos. É dirigida. Cirúrgica. Uma mensagem pessoal, quase íntima, entre o Egito e a Coreia.

Os restantes povos, depreende-se, ficam entregues ao livre-arbítrio. Ou, pelo menos, à combustão experimental.

2026-04-09

Nem o sol nasce


O que ganha Israel?

No curto prazo, poder de fogo convertido em resultados visíveis.

Os objectivos declarados — enfraquecer o Hezbollah e permitir o regresso dos cerca de 60.000 deslocados do norte — tiveram efeitos reais: liderança atingida, infraestruturas degradadas, capacidade operacional reduzida.

Mas isso é a parte fácil.

O objectivo implícito é outro: garantir que o Hezbollah deixa de ser uma ameaça relevante. E isso exige uma de duas coisas — ou um estado libanês forte o suficiente para o conter, ou um território tão destruído que deixe de o sustentar.

Israel está, na prática, a produzir o oposto de ambos.

Não está a fortalecer o estado libanês. Está a acelerar o seu colapso. E a história recente é consistente: quanto mais fraco é o Líbano, mais espaço tem o Hezbollah para se apresentar como alternativa — militar, política e simbólica.

Isto não é um efeito colateral. É o resultado previsível da estratégia.
Há, portanto, um desfasamento claro entre o ganho táctico e o efeito estratégico. Israel consegue degradar capacidades no terreno, mas, ao mesmo tempo, recria as condições que permitem ao Hezbollah regenerar-se.

E fá-lo com um custo crescente.

Os ataques com impacto sobre civis não são apenas um problema moral; são um problema político. Erosão de legitimidade internacional não impede operações imediatas — mas limita o espaço de manobra, isola aliados e transforma vitórias militares em passivos diplomáticos.

Ainda assim, Israel continua.

Porque, no imediato, funciona. Reduz a pressão, cria dissuasão, oferece a sensação de controlo.

Mas essa sensação é temporária.

A resposta honesta é esta: Israel ganha tempo.

E troca-o por um problema que regressa mais complexo, mais enraizado e mais difícil de resolver.

2026-04-06

Cairo


Estou no Egito. Já pus a Esfinge a fumar, andei atrás de vacas, tenho os pés moídos e saudades do meu rendalho. É o que há de novo.

Viajo com amigas vegetarianas — o que, no Egito, equivale a uma declaração de guerra silenciosa contra a ementa. Hoje ao jantar, dei por mim a negociar e com uma paciência diplomática que desconhecia. Senti que, a qualquer momento, alguém ia chamar as Nações Unidas.

O prato padrão das miúdas tem sido batata frita com batata cozida, arroz, três ou quatro grãos de milho e, quando a cozinha se sente particularmente generosa, um cogumelo. Um. Por prato. Com a solenidade de quem está a gerir um recurso escasso à escala global.

Hoje consegui omeletes. Vitória. Não dá para medalha, mas aceito a menção honrosa.

Elas analisam ingredientes. Eu como. Não por princípio — por sobrevivência emocional. E também por gratidão. Alguém tem de honrar o buffet. E começo, claro, pela proteína.

À noite, quando o grupo está saciado e os pés se recusam a continuar, penso no rendalho que ficou em casa. Há qualquer coisa de meditativo no croché que o Egito não consegue substituir — e o Egito tem templos com quatro mil anos. O rendalho ganha. Sempre. É a minha Esfinge particular: quieta, paciente, à espera.

Egipto



Andei atrás de uma vaca o dia inteiro.

Mas são os meus cascos que doem.

Já tinha saudades de ser turista.



2026-04-05

Koshary


O Egipto tem pirâmides, tem o Nilo, tem milénios de civilização acumulada. E tem koshary — massa, lentilhas, grão e molho de tomate, além do picante e da cebola frita, numa única tigela, servido com a confiança tranquila de quem sabe que está a mudar uma vida.

E a minha foi mudada a partir das três da tarde, num sentido que as pirâmides não anteciparam.

Há descobertas que exigem retirada imediata do terreno.

A arqueologia tem limites.

2026-04-03

O Milagre da Multiplicação


Se a Última Ceia fosse em solo luso, o drama bíblico teria sido abafado pelo som dos talheres e pelo inevitável: "Ó Judas, passa aí o prato dos rissóis!".

Nesta Sexta-Feira Santa, a imagem não mente. Entre azulejos e conversas cruzadas, o sacrifício passa a ser puramente digestivo. O mundo medita sobre o jejum — nós resolvemos a transcendência com um leitão assado e três tipos de sobremesa. Porquê dividir apenas pão e vinho quando a mesa pode desafiar as leis da física e da cardiologia?

É a nossa forma de devoção: se é para haver despedida, que seja com o estômago feliz e a alma cheia.

Pecado: deixar a travessa vazia.

2026-04-02

No primeiro de abril, claro


Convenhamos: o manguito é poesia geométrica.

Nascido entre o barro e a sátira das Caldas, aquele ângulo reto, o punho cerrado com a paciência já gasta, é o nosso grito de "basta!" — com pedigree artístico e tudo.

A notícia apareceu ontem, em dia dado a fantasias e outras pequenas aldrabices, mas ninguém estranhou demasiado. Faz sentido: este é o único património que todos dominamos, desde o gabinete à obra, sem precisar de candidatura nem parecer técnico.

Num mundo de burocracias cinzentas, o manguito continua a ser a única cor que ainda não foi regulamentada.

É imaterial, sim senhor, mas sente-se bem no fundo da alma.

Toma lá, mundo.