2026-06-06
Insuportável
Disseram-me que era chata. Considerei a hipótese. Decidi escalar.
"Insuportável" tem uma sonoridade que me agrada. É o tipo de palavra que as pessoas usam quando já não conseguem controlar aquilo que nomeiam.
Não vou pedir licença para existir. Nunca percebi bem para que serve essa licença — quem a emite, quem a renova, o que acontece quando expira.
O meu cabelo vai à frente. Eu vou a seguir. O resto é paisagem.
2026-06-05
Da data
Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Todos partilham a imagem do globo de cristal poisado na relva. Todos escrevem que o planeta precisa de nós. Ninguém desliga o ar condicionado.
Existe uma distância curiosa entre o que se proclama e o que se pratica — e essa distância tem o tamanho exacto de uma consciência tranquila. Celebramos o planeta como se ele fosse um aniversariante: uma vela, um post, e o assunto encerrado por mais um ano.
A Terra não precisa das nossas homenagens. Precisa do nosso silêncio. E da nossa ausência, se possível.
2026-06-04
Herdeiros de quem?
Os meus antepassados saíram para o desconhecido numa caixa de fósforos. Levavam uma esfera armilar, um astrolábio, a convicção de que a terra não acabava ali e a desfaçatez suficiente para testar a hipótese. Foram. Voltaram. À boleia da Volta do Mar, o que não é pouca coisa num tempo em que o horizonte era uma teoria por confirmar.
Eu, herdeira legítima desse património genético e cultural, há dias em que preciso de GPS para chegar ao supermercado que fica a quatrocentos metros de casa.
Não é uma confissão. É um dado.
A questão que se levanta — e que me recuso a deixar cair — não é técnica nem nostálgica. É mais inquietante do que isso: com o acesso sem precedentes ao conhecimento, ao mapa, à informação disponível a qualquer hora em qualquer bolso, estamos a ficar mais estúpidos ou apenas mais preguiçosos? E existe, ainda, alguma diferença entre as duas coisas?
O desenrascanço — essa virtude nacional elevada a traço de carácter, quase a argumento identitário — terá sobrevivido à era em que já não é preciso desenrascar nada porque a aplicação desenrasca por nós? Ou era o desenrascanço precisamente isso: a inteligência que nasce da escassez, o engenho que só existe quando não há alternativa?
Pergunto porque a resposta me desconforta.
Há qualquer coisa de perverso na abundância do acesso. Nunca soubemos tanto. Nunca tivemos tanto à mão. E no entanto a sensação persistente — pelo menos para quem olha — é a de que algo foi trocado por outra coisa sem aviso prévio e sem cláusula de rescisão. Trocámos a capacidade de nos orientarmos pela disponibilidade de sermos orientados. Trocámos a memória pelo arquivo. Trocámos o raciocínio pela pesquisa. São trocas racionais. São trocas eficientes. São, muito possivelmente, trocas irreversíveis.
Os meus antepassados não tinham GPS. Tinham que saber onde estavam.
Eu sei onde estou. O telemóvel diz-me.
Mas suspeito que confiar não é o mesmo que saber.
E a minha Volta do Mar só funciona enquanto dura a bateria.
2026-06-03
Buffet Livre
Educação pública, bibliotecas, motores de busca, conhecimento à discrição. Nunca tanta gente teve tanto acesso a tanto. O problema deste buffet é que podes escolher a alta cozinha ou enfiar os dedos na maionese.
Nem todos soubemos o que fazer com o prato cheio.
Há qualquer coisa de profundamente perturbador em ver pessoas da minha idade — que partilharam as mesmas salas de aula e os mesmos privilégios — a engolirem a primeira patranha que apanham no feed, sem mastigar, sem questionar. Como se a escola lhes tivesse passado ao lado sem deixar o vício da dúvida. Como se o acesso ao conhecimento não trouxesse o dever de o usar.
Vivemos na era em que o próprio telefone avisa. Literalmente. Possível fraude, diz o ecrã, em letras que não precisam de ser decifradas. E ainda assim há quem atenda, ouça até ao fim e entregue os dados bancários a uma voz gravada com sotaque de call center.
O ecrã avisa.
A dúvida devia avisar também.
Mas essa não vem instalada de fábrica.
2026-06-02
Boato
Chegou junho, o mês dos santos populares, das sardinhas e… da minha manta de pelo sintético. Pelos vistos, o São Pedro confundiu o verão com uma vaga polar e decidiu brindar-nos com um inverno fora de época.
O meu joelho, esse meteorologista infalível, já andava há dias a avisar. Hoje, porém, tenho aviso amarelo em todos os ossos. Cada vértebra prevê aguaceiros e cada articulação jura que vai nevar na eira.
A este ritmo, passo o São João agarrada à botija de água quente e a chamar "verão" a um boato.
Crédito mal parado
Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.
___
Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.
Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.
O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.
Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.
A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.
O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.
2026-06-01
A sombra do pastor
Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.
Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.
O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.
O pastor sorri.
2026-05-31
Silêncio operacional
Nunca fui de cliques nem de claques. A minha agenda tem espaço para respirar — deliberadamente, sem culpa, e com algum esforço para não ceder às pressões do tens de sair mais, tens de socializar, não podes ficar em casa outra vez.
Posso, sim.
Estar sozinha e estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário. Uma é escolha; a outra é circunstância. Confundem-se muito, lá fora — especialmente por quem não consegue estar cinco minutos sem companhia e acha que isso é virtude.
O problema não é a festa. É o botão.
Há dias em que o ligo com prazer, entro na corrente, faço parte do ruído. Tem apenas a ver com quando, quanto e onde estou disposta a fazê-lo. Nem sempre me apetece estar no meio das ondas; muitas vezes basta-me sentir a corrente.
Mas há cada vez mais dias em que o simples pensamento de ter de ser simpática, presente e ligada me cansa antes de sair de casa. Nesses dias, o melhor de mim fica no sofá.
Não sei se isto é introversão, sabedoria ou apenas uma capacidade cada vez menor para fingir entusiasmo quando ele não existe. O que sei é que o off deixou de ser fuga e passou a ser higiene.
E que há poluição sonora que não precisa de decibéis.
2026-05-30
Maio, mês de Maria
Último fim de semana de maio. Em Portugal, isso significa algo que vai além do calendário.
Maio é o mês de Maria. Nas igrejas, nos nichos das esquinas, nas salas de jantar onde a televisão coexiste pacificamente com um terço pendurado na parede — a Virgem preside. É uma devoção que não precisa de explicação para quem cresceu aqui. É anterior à pergunta.
Portugal tem com a Virgem uma relação que os manuais de história religiosa dificilmente esgotam. Não é apenas fé; é identidade, é política, é memória do corpo.
A aliança começou cedo. D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique, teria feito um voto a Santa Maria. O país nascia sob proteção — ou assim quis a lenda, que é sempre mais verdadeira do que os factos quando se trata de fundar nações. Desde então, a Virgem e Portugal partilham um destino que resistiu a séculos de guerras, pestes e terramotos.
Em 1917, esse destino ganhou morada: a Cova da Iria. Fátima transformou um país rural, pobre e politicamente convulso num centro de peregrinação mundial, dando à devoção mariana uma dimensão geopolítica que o Estado Novo soube ler com frieza. O apelo à consagração da Rússia e a ideia de Portugal como povo eleito encaixaram demasiado bem no imaginário do regime para ser coincidência. A Virgem não pediu para ser instrumentalizada. Nenhuma divindade pede.
Mas há algo anterior à teologia oficial. Algo que os santuários guardam nas pedras e nas fontes.
O culto mariano absorveu, ao longo dos séculos, elementos muito mais antigos: a Grande Mãe, os lugares de poder telúrico, as árvores sagradas. Muitos dos santuários mais venerados estão onde já se rezava antes de haver cristãos. Peneda, Lapa, Cabo — a geografia do país é uma constelação de pontos onde o sagrado teima em pousar, independentemente do nome que lhe demos.
É aí que a devoção se torna mais honesta. É um catolicismo do corpo e da memória, não da crença articulada. Crê-se com os pés descalços no asfalto quente, não com a cabeça.
E não se pode falar deste culto sem falar das mulheres que o sustentam. São as avós, as mães e as filhas que guardam esta devoção — e a mantêm viva. A Virgem é o polo de uma religiosidade afetiva que o catolicismo oficial, tão sistematicamente masculino, nunca controlou por completo. Há algo de autónomo, quase subversivo, nessa fidelidade. As mulheres rezam à Virgem de formas que o Vaticano não aprovou e, provavelmente, não compreende.
Portugal secularizou-se rapidamente. A missa esvaziou-se, o clero envelheceu. E, no entanto, Fátima continua a mobilizar multidões. As velas continuam a arder. É como se a Virgem sobrevivesse à própria Igreja que a enquadra — como se a devoção tivesse raízes mais fundas do que qualquer instituição consegue alcançar.
Não é a primeira vez na história do culto. Provavelmente, não será a última.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
