2026-04-06

Cairo


Estou no Egito. Já pus a Esfinge a fumar, andei atrás de vacas, tenho os pés moídos e saudades do meu rendalho. É o que há de novo.

Viajo com amigas vegetarianas — o que, no Egito, equivale a uma declaração de guerra silenciosa contra a ementa. Hoje ao jantar, dei por mim a negociar e com uma paciência diplomática que desconhecia. Senti que, a qualquer momento, alguém ia chamar as Nações Unidas.

O prato padrão das miúdas tem sido batata frita com batata cozida, arroz, três ou quatro grãos de milho e, quando a cozinha se sente particularmente generosa, um cogumelo. Um. Por prato. Com a solenidade de quem está a gerir um recurso escasso à escala global.

Hoje consegui omeletes. Vitória. Não dá para medalha, mas aceito a menção honrosa.

Elas analisam ingredientes. Eu como. Não por princípio — por sobrevivência emocional. E também por gratidão. Alguém tem de honrar o buffet. E começo, claro, pela proteína.

À noite, quando o grupo está saciado e os pés se recusam a continuar, penso no rendalho que ficou em casa. Há qualquer coisa de meditativo no croché que o Egito não consegue substituir — e o Egito tem templos com quatro mil anos. O rendalho ganha. Sempre. É a minha Esfinge particular: quieta, paciente, à espera.

Egipto



Andei atrás de uma vaca o dia inteiro.

Mas são os meus cascos que doem.

Já tinha saudades de ser turista.



2026-04-05

Koshary


O Egipto tem pirâmides, tem o Nilo, tem milénios de civilização acumulada. E tem koshary — massa, lentilhas, grão e molho de tomate, além do picante e da cebola frita, numa única tigela, servido com a confiança tranquila de quem sabe que está a mudar uma vida.

E a minha foi mudada a partir das três da tarde, num sentido que as pirâmides não anteciparam.

Há descobertas que exigem retirada imediata do terreno.

A arqueologia tem limites.

2026-04-03

O Milagre da Multiplicação


Se a Última Ceia fosse em solo luso, o drama bíblico teria sido abafado pelo som dos talheres e pelo inevitável: "Ó Judas, passa aí o prato dos rissóis!".

Nesta Sexta-Feira Santa, a imagem não mente. Entre azulejos e conversas cruzadas, o sacrifício passa a ser puramente digestivo. O mundo medita sobre o jejum — nós resolvemos a transcendência com um leitão assado e três tipos de sobremesa. Porquê dividir apenas pão e vinho quando a mesa pode desafiar as leis da física e da cardiologia?

É a nossa forma de devoção: se é para haver despedida, que seja com o estômago feliz e a alma cheia.

Pecado: deixar a travessa vazia.

2026-04-02

No primeiro de abril, claro


Convenhamos: o manguito é poesia geométrica.

Nascido entre o barro e a sátira das Caldas, aquele ângulo reto, o punho cerrado com a paciência já gasta, é o nosso grito de "basta!" — com pedigree artístico e tudo.

A notícia apareceu ontem, em dia dado a fantasias e outras pequenas aldrabices, mas ninguém estranhou demasiado. Faz sentido: este é o único património que todos dominamos, desde o gabinete à obra, sem precisar de candidatura nem parecer técnico.

Num mundo de burocracias cinzentas, o manguito continua a ser a única cor que ainda não foi regulamentada.

É imaterial, sim senhor, mas sente-se bem no fundo da alma.

Toma lá, mundo.

2026-04-01

Espírito livre com consciência postural avançada


Hoje acordei com a firme convicção de que nasci para ser selvagem. Uma espécie de espírito livre, indomável, desses que dizem “sim” à vida e “não” aos limites. Levantei-me da cama com essa energia toda… e imediatamente fiz um movimento em falso que me ofereceu um elegante torcicolo, acompanhado por um coro de dores de costas dignas de um idoso em dia de chuva.

Ser selvagem, afinal, tem nuances.

Passei o resto da manhã a tentar olhar para a frente sem parecer uma estátua renascentista mal posicionada. Cada tentativa de virar o pescoço era uma aventura épica, daquelas que mereciam trilha sonora dramática. Spoiler: perdi sempre. O meu corpo decidiu que hoje só podia existir num ângulo de 37 graus para a esquerda, e qualquer desvio disso seria punido com um estalo existencial.

As dores de costas, por sua vez, vieram como convidadas que ninguém chamou mas que se instalam no sofá e pedem chá. Estão ali, constantes, firmes, lembrando-me que ontem tive a audácia de… viver. Ou talvez de me sentar de forma ligeiramente errada. Quem sabe. O corpo humano é um poeta do exagero.

E assim se redefine o conceito de “vida selvagem”. Já não é sobre dançar até de madrugada ou dizer coisas impulsivas — é mais sobre conseguir calçar meias sem negociar com a coluna vertebral. É sobre sobreviver ao ato radical de virar na cama. É sobre olhar para o relógio às 21:30 e pensar: “foi um dia intenso, já fiz tudo o que havia para fazer na minha carreira de pessoa.”

No fundo, continuo a ser selvagem. Só que agora o meu habitat natural inclui uma almofada cervical, um analgésico e um profundo respeito por movimentos lentos.

A rebeldia mantém-se. Mas com apoio lombar.

2026-03-31

A validação das profecias

“There is a certain reverence in death that is required if you want reverence in life.”
— Tucker Carlson

Ouvi Tucker Carlson a falar do assassinato do Ayatolah — com a família, com o neto. A dizer que iniciar uma guerra matando gente desarmada foi o pior que podiam ter feito. Que não deceparam a cabeça: criaram uma Hidra. Não consegui discordar.

Há frases que nos fazem parar — não porque tragam novidade, mas porque expõem aquilo que preferíamos não ver. Tanto que não (me) importa o autor.

A ideia de que a reverência na morte sustenta a reverência na vida é desconfortável: obriga-nos a olhar para a forma como o Ocidente fala — e age — perante a guerra. Há muito que a linguagem se tornou assética, quase técnica, como se a morte pudesse ser reduzida a um procedimento, a um resultado operacional, a um número que fecha um relatório.

Mas quando a morte perde densidade, tudo o resto começa a perder também. Primeiro, a vida dos outros. Depois, inevitavelmente, a nossa própria posição moral. O que desaparece não é apenas o peso do ato — é o reconhecimento de que há limites que não podem ser tratados como detalhe colateral.

E é aqui que a ilusão se quebra. Porque a forma como tratamos os mortos nunca fica contida no momento em que acontece. Espalha-se. Ecoa. Regressa. Ignorar o luto, os rituais, aquilo que para o outro é sagrado, não é apenas um gesto de indiferença — é uma declaração: a de que nada merece verdadeiramente ser preservado.

E quando nada merece ser preservado, também nada merece ser respeitado.

É por isso que a força, por si só, nunca bastou. Pode impor silêncio, pode garantir obediência, pode até vencer — mas não constrói autoridade. Essa exige outra coisa: uma consciência de limite, uma noção de que há linhas que, uma vez ultrapassadas, não deixam intacto quem as cruzou.

Talvez seja esse o ponto que mais incomoda. Não o que se faz ao outro, mas o que isso transforma em quem o faz. Porque há uma erosão lenta, quase invisível, que não aparece nas estatísticas nem nos discursos — mas que corrói por dentro qualquer pretensão de legitimidade.

E até os guerreiros se transformam em operários da morte.

2026-03-29

A minha linha


Democratizar a tecnologia deu um telemóvel a cada mão. O discernimento não estava incluído.

Há coisas que não deviam ser para consumo massificado. A morte é uma delas. Não precisamos de ir à dark web para encontrar snuff movies; o feed das redes sociais tornou-se um mercado aberto para eles. A diferença é que os criadores não são cineastas criminosos, são qualquer pessoa com um telemóvel. E os consumidores somos nós.

Em Gaza, corpos. No Irão, meninas. Ontem os desgraçados dos porcos nas notícias. Entre uns e outros, um reel de trinta segundos que não pedimos mas não parámos. 

Onde traçamos a linha? Até onde estamos dispostos a ir num mundo que desumaniza com facilidade e transforma tudo em fait divers — pronto a ser consumido e esquecido à distância de um clique?

Fechar o ecrã também é um acto. O único que ainda nos pertence.

2026-03-28

Para a minha irmã

O Algoritmo foi ao Banco dos Réus


Na quarta-feira, 25 de março, um júri de Los Angeles fez uma descoberta extraordinária: as redes sociais foram desenhadas para prender pessoas.

A novidade não está no facto — está no carimbo judicial. Durante anos, isto foi tratado como paranoia de pais, ansiedade de psicólogos e exagero de jornalistas. Agora tem número de processo e indemnização associada: três milhões de dólares. Dois réus — a Meta e a Google — e uma ideia simples que finalmente deixou de ser discutível em tribunal.

O caso foi apresentado por Kaley G.M., hoje com 20 anos, utilizadora desde os seis — idade em que ainda se aprende a ler, mas já se aprende a deslizar o dedo. Pelo caminho: depressão, ansiedade, dismorfia corporal, pensamentos suicidas. O júri distribuiu culpas com a precisão de um algoritmo: 70% para a Meta, 30% para o Google.
Mas o mais interessante não é a história — é o ângulo.

O tribunal não quis saber do conteúdo. Não discutiu vídeos, nem fotos, nem influenciadores, nem dancinhas. Foi mais direto: olhou para a máquina.

Scroll infinito. Algoritmos que aprendem fragilidades com a mesma eficiência com que aprendem preferências. Notificações desenhadas para interromper, puxar, reter. 

Não são efeitos colaterais. São funcionalidades. E, segundo documentos internos, não são surpresas. São decisões.

Executivos sabiam. Testaram. Mediram. Continuaram. Mark Zuckerberg chegou a depor — o que, por si só, já diz muito sobre o grau de desconforto: normalmente, quem constrói impérios digitais não aparece em tribunal a explicar como funcionam.

A Meta diz que discorda “respeitosamente”. O que, traduzido, significa: vamos recorrer com calma.
A Google prefere uma abordagem mais criativa — insiste que o YouTube é uma plataforma de streaming, não uma rede social. Uma distinção tecnicamente defensável, talvez, mas que soa um pouco como discutir se o casino é um edifício ou uma experiência.

É a primeira condenação deste tipo nos Estados Unidos. Não será a última. Há centenas de processos alinhados, à espera de transformar suspeitas em sentenças. Em Oakland, em Los Angeles, noutros tribunais — a fila forma-se.

Entretanto, nada mudou onde realmente interessa.

O scroll infinito continua a rolar. As notificações continuam a chegar. O algoritmo continua a aprender.

A diferença é que agora sabemos o preço.

E, como em tudo o resto, alguém já fez as contas e decidiu que compensa.