2026-08-04
A outra margem
2026-07-30
Kyrie eleison
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia
2026-07-29
Menu de degustação de melgas e mosquitos
Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.
Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.
De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.
Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.
Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.
2026-07-27
Antes que tudo se esqueça
Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.
Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.
E conta-me.
Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.
2026-07-26
Elogio do sapato feio
2026-07-25
Modo Avião
2026-07-23
Boletim das Pequenas Catástrofes
O brigadeiro da desconfiança
Durante anos, uma parte significativa da sociedade portuguesa olhou para a imigração brasileira com uma simpatia quase espontânea. A língua comum, as novelas, a música, o humor, a ideia do "povo irmão" tornavam-na familiar antes mesmo de ser conhecida. Bastaram alguns crimes mediáticos para essa narrativa começar a estalar. Não porque os brasileiros tenham mudado enquanto comunidade, mas porque mudou aquilo que muda sempre primeiro: a perceção.
Não adianta responder a um português assustado chamando-lhe simplesmente xenófobo. O medo é muito mais antigo do que a razão. Não faz estatísticas, não consulta o INE, não calcula probabilidades. Vê um caso extremo e convence-se de que encontrou um padrão.
É assim que um crime deixa de ter apenas uma vítima e passa a fazer milhares de vítimas invisíveis. Depois de uma notícia destas, a mãe da ex-namorada que oferece um brigadeiro ou uma coxinha já não é apenas uma mulher simpática. O cérebro começa a perguntar-se o que poderá esconder-se por trás daquele sorriso.
Como nesta história. Três pessoas chegam a Portugal com uma mala. Dias depois, são suspeitas de tentar regressar ao Brasil com o equivalente a oito malas de artigos de luxo, depois de um roubo e homicídio meticulosamente preparados e executados. É uma imagem tão cinematográfica que se cola à memória. E é precisamente aí que mora o problema.
O preconceito nunca foi um exercício de lógica. É um mecanismo tosco de sobrevivência herdado de um tempo em que um único desconhecido podia significar a morte da tribo. Primeiro sentimos medo; só depois inventamos argumentos para lhe chamar razão. O cérebro não pergunta quantos milhões de brasileiros vivem honestamente em Portugal. Pergunta apenas: "E se este for como aquele?"
É profundamente injusto. Cada brasileiro que trabalha, paga impostos, cria filhos e leva uma vida banal acaba a responder pelos crimes de pessoas que nunca viu. Paga o justo pelo pecador, como tantas vezes aconteceu aos portugueses emigrados, vistos lá fora como preguiçosos, analfabetos, ladrões ou oportunistas, consoante a época e o país.
Mas também é intelectualmente desonesto fingir que notícias como esta não deixam marcas. Deixam. A confiança é um edifício que sobe por elevador e desce pela janela. Bastam meia dúzia de crimes brutais, repetidos até à exaustão nos noticiários, para décadas de convivência pacífica começarem a parecer a exceção, quando sempre foram a regra.
A justiça foi inventada precisamente porque o instinto é um péssimo juiz. O instinto condena por semelhança; a justiça condena por prova. A barbárie pergunta de onde veio o criminoso. A civilização começa no instante em que recusamos transformar um passaporte numa sentença.