2026-03-28

Para a minha irmã

O Algoritmo foi ao Banco dos Réus


Na quarta-feira, 25 de março, um júri de Los Angeles fez uma descoberta extraordinária: as redes sociais foram desenhadas para prender pessoas.

A novidade não está no facto — está no carimbo judicial. Durante anos, isto foi tratado como paranoia de pais, ansiedade de psicólogos e exagero de jornalistas. Agora tem número de processo e indemnização associada: três milhões de dólares. Dois réus — a Meta e a Google — e uma ideia simples que finalmente deixou de ser discutível em tribunal.

O caso foi apresentado por Kaley G.M., hoje com 20 anos, utilizadora desde os seis — idade em que ainda se aprende a ler, mas já se aprende a deslizar o dedo. Pelo caminho: depressão, ansiedade, dismorfia corporal, pensamentos suicidas. O júri distribuiu culpas com a precisão de um algoritmo: 70% para a Meta, 30% para o Google.
Mas o mais interessante não é a história — é o ângulo.

O tribunal não quis saber do conteúdo. Não discutiu vídeos, nem fotos, nem influenciadores, nem dancinhas. Foi mais direto: olhou para a máquina.

Scroll infinito. Algoritmos que aprendem fragilidades com a mesma eficiência com que aprendem preferências. Notificações desenhadas para interromper, puxar, reter. 

Não são efeitos colaterais. São funcionalidades. E, segundo documentos internos, não são surpresas. São decisões.

Executivos sabiam. Testaram. Mediram. Continuaram. Mark Zuckerberg chegou a depor — o que, por si só, já diz muito sobre o grau de desconforto: normalmente, quem constrói impérios digitais não aparece em tribunal a explicar como funcionam.

A Meta diz que discorda “respeitosamente”. O que, traduzido, significa: vamos recorrer com calma.
A Google prefere uma abordagem mais criativa — insiste que o YouTube é uma plataforma de streaming, não uma rede social. Uma distinção tecnicamente defensável, talvez, mas que soa um pouco como discutir se o casino é um edifício ou uma experiência.

É a primeira condenação deste tipo nos Estados Unidos. Não será a última. Há centenas de processos alinhados, à espera de transformar suspeitas em sentenças. Em Oakland, em Los Angeles, noutros tribunais — a fila forma-se.

Entretanto, nada mudou onde realmente interessa.

O scroll infinito continua a rolar. As notificações continuam a chegar. O algoritmo continua a aprender.

A diferença é que agora sabemos o preço.

E, como em tudo o resto, alguém já fez as contas e decidiu que compensa.

2026-03-26

Noelia


Não sabia o nome dela enquanto estava viva. 

Se estás a ler isto, é porque ela morreu. Nenhum de nós estaria aqui de outra forma. Este texto também não.

Do caso de Noelia Castillo Ramos sabe-se o essencial: em 2022, ainda jovem e em situação de vulnerabilidade, foi vítima de uma agressão sexual múltipla. Esse momento não terminou naquela noite — prolongou-se no tempo, no corpo e na mente. O trauma foi tão devastador que a levou a tentar suicídio, atirando-se de um prédio. Sobreviveu, mas ficou paraplégica, com dores físicas e psicológicas permanentes.

Durante anos, viveu nesse limbo entre existir e sofrer. Até que, em 2026, conseguiu aquilo que muitos consideram o seu último ato de autonomia: a eutanásia.

E foi nesse momento que o mundo finalmente olhou para ela.

Mas olhou tarde — e olhou mal.

Porque enquanto tudo se sabe sobre a sua dor, quase nada se sabe sobre quem a causou.

Quem eram os agressores?
O que lhes aconteceu?
Foram julgados? Condenados? Continuam livres?

Não há respostas claras. Não há nomes. Não há rostos. Não há sequer uma narrativa pública consistente sobre o desfecho judicial do caso.

E este vazio não é acidental.

Casos que envolvem menores, contextos institucionais ou situações de especial vulnerabilidade são frequentemente protegidos por sigilo judicial. A identidade dos envolvidos é resguardada. Os processos decorrem longe do olhar público. A intenção é legítima: proteger a vítima, garantir um julgamento justo, evitar danos adicionais.

Mas há um efeito colateral difícil de ignorar.

Quando tudo o que resta visível é a vítima — exposta, analisada, transformada em símbolo — e os responsáveis desaparecem no anonimato, instala-se uma sensação profunda de desequilíbrio.

A vítima torna-se pública.
Os culpados tornam-se invisíveis.

E é aqui que nasce a revolta.

Não uma revolta irracional, mas uma inquietação legítima: como é possível que uma vida seja destruída de forma tão irreversível e, ainda assim, a sociedade não tenha acesso a uma noção clara de justiça? Como é possível que o sofrimento seja amplamente divulgado, mas a responsabilização permaneça opaca?

Este não é apenas um caso individual. É um espelho de algo maior.

Fala de falhas na proteção de jovens vulneráveis.
Fala de sistemas que reagem tarde — ou nunca.
Fala de uma justiça que, mesmo quando existe, nem sempre é visível.

E a justiça que não se vê levanta dúvidas.

Não se trata de pedir linchamentos públicos nem de defender julgamentos nas redes sociais. Isso não é justiça — é ruído. Mas também não se pode ignorar o desconforto coletivo perante um caso em que a dor é tão evidente e a responsabilização tão difusa.

Noelia tornou-se um símbolo. Não apenas pela decisão de morrer, mas pelo que essa decisão representa: o limite absoluto de uma vida que deixou de ser suportável.

E talvez o maior desconforto seja este:

Ela não devia ter sido um símbolo.

Devia ter sido protegida.

E, acima de tudo, devia ter tido justiça — uma justiça que fosse não só feita, mas também visível.

Enquanto isso não acontecer, casos como este continuarão a deixar uma sensação amarga: a de que, por vezes, o silêncio pesa tanto quanto o próprio crime.

Notificação de erro de focagem


Antes mesmo de chegar aos 50, o meu sistema de captação de imagem sofreu um colapso. A presbiopia — esse nome pomposo para o fenómeno dos “braços que encolheram durante a noite” — instalou-se sem aviso, transformando o simples ato de ler uma mensagem no telemóvel num exercício de alongamento digno de uma aula de yoga para avançados.

A minha cabeça (firmemente convencida de que tem 30 e tal anos) tenta ler. O meu corpo (de 55) exige que o objeto seja colocado na divisão ao lado para que os píxeis ganhem nitidez. O resultado é uma coreografia de aproxima-e-afasta que me faz parecer um músico de rua a tocar um acordeão invisível — e mal disposto.

E é oficial: a indústria farmacêutica e os fabricantes de champô adotaram fonte tamanho 2, impressa com pó de fada invisível. Não é a minha vista que falha; é o mundo que decidiu começar a sussurrar visualmente. Ler uma bula tornou-se uma missão de espionagem que exige luz de interrogatório.

O momento em que me rendi aos óculos progressivos foi trágico. Naturalmente, a tragédia teve impacto direto na carteira, mas o modelo recomendado fez-me ganhar, instantaneamente, o ar de uma bibliotecária vitoriana prestes a deserdar alguém. O meu hardware impôs uma estética que o meu software ainda não autorizou.

Além de que já não basta ler. Agora é preciso que a sala tenha a potência luminosa de um estádio em noite de final da Taça. Sem luz branca em dose industrial, a página de um livro é apenas um deserto de linhas encavalitadas e intenções perdidas.

A presbiopia é a forma irónica que o corpo encontrou de me dizer: “Se queres ver ao perto, tens de te afastar.” Uma metáfora filosófica de baixa qualidade que o meu sistema operativo decidiu impor à força.

Não há nada que me falte tanto como foco automático — ou, no mínimo, mais dez centímetros de braço para compensar a teimosia do cristalino. Até lá, continuarei a ver o mundo através de lentes de aumento, com a dignidade possível e o sarcasmo de sempre.

2026-03-25

Cinquenta e cinco


Ontem fiz anos. Cinquenta e cinco, para ser exacta — embora o corpo, generoso como sempre, tenha insistido em celebrar com alguma antecedência. As articulações já festejam os sessenta. A coluna celebrou os sessenta e cinco em Dezembro. O metabolismo, esse, passou directamente para a reforma.

A cabeça, porém, recusa-se a participar na cerimónia. Continua convicta de que tem trinta e tal anos, uma tolerância razoável à privação de sono e projectos para amanhã que implicam energia. Não foi informada. Ou foi, e tomou a decisão executiva de ignorar.

Há um nome clínico para esta dissociação, com certeza. Chama-se viver.

A terceira idade, dizem-me, começa aos sessenta e cinco. Tenho ainda dez anos para me preparar. É tempo suficiente para chegar à paz? Provavelmente não. Mas é tempo suficiente para continuar a fingir que a questão não se coloca — e essa, ao menos, é uma competência que aperfeiçoo há décadas.

Cinquenta e cinco. O corpo sabe. A cabeça discorda. E eu, algures no meio, fui comer bolo.

2026-03-24

Notificação de Atualização: Modelo 5.5


Recebi hoje a atualização compulsiva para a versão 5.5. Após auditoria rigorosa às juntas, à paciência e ao reflexo no espelho, informo que o sistema continua operacional — embora com uma ironia mais afiada do que a visão ao perto.

Dois cincos. Simétricos. Teimosos. Quase elegantes. Declaro oficialmente aberto o ciclo da Soberania do Desencaixe.

A “Economia de Subsistência” foi substituída pela Gestão Estratégica de Desprezo. Já não invisto energia em reuniões de condomínio existenciais nem em coreografias sociais para agradar à boçalidade alheia. O silêncio tornou-se um luxo. As palavras, um bisturi.

As rugas não são falhas: são nervuras douradas por onde a escrita escorre. Uma guerra entre a gravidade e o adjetivo — e, por agora, o adjetivo ainda ganha.

O sentido de humor mantém-se ativo. Continua a ser o canário na mina. Enquanto ele gozar com São Pedro e com os meus próprios nós de croché, está tudo sob controlo.

Aos 55, o desencaixe deixou de ser erro. É título. Já não se pede licença para não ser “normal”.

Não celebro a passagem do tempo — celebro o aumento da minha perigosidade intelectual.

55 anos a acumular material para sátiras futuras. Investimento de risco. Mas claramente com retorno.

Se houver bolo, que não dispare o alarme de incêndio.

— Sofia, versão 5.5

2026-03-22

Atentado ao Jardim das Delícias


Esta imagem resume perfeitamente a minha relação com a Dieta. É o "Atentado ao Jardim das Delícias" que o meu nutricionista insiste em chamar almoço leve.

Eu sei: não há "salada" inocente. Há Caesar Salad, que é basicamente uma conspiração de calorias disfarçada de folhagem. E esta da imagem é a mais honesta que já vi. Olha para aqueles crutons — facas a esfaquear a alface! São os Idos de Março do meu autocontrolo. O frango? Foi apunhalado e escondido sob o molho cremoso, o verdadeiro assassino silencioso. E o parmesão? Ah, o parmesão — o suborno dos senadores para olharem para o lado.

A única coisa que está a escapar aqui é a minha silhueta. Isto não é comida de dieta: é um sacrifício ritualístico de todos os donuts que virão.

Et tu, alface?


2026-03-20

Primavera


Gosto de pensar que a Primavera começa em poesia,
crava raízes na terra
e ergue-se árvore
num verde de esperança renascida.

Não sei escrever versos —
mas é assim que digo
que, apesar do frio e do cansaço,
Março recomeça em mim.

2026-03-19

Primeiro dia de dieta


Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.

​Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.

​Açorda de camarão.

​Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.

​Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.

​Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.

​Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.

​E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.

2026-03-18

O país às costas


Dizem que os ideais morrem quando as contas chegam, mas a verdade é que eles apenas se tornam mais caros. Hoje, o meu tempo é moeda de troca para o básico — o teto, o pão e as infraestruturas que me ligam a este mundo cínico. Sinto as cordas da marioneta, sim, e os 'bonecreiros' são uma hidra de mil cabeças: impostos, juros e uma ganância mascarada de serviço.

​Podem ter o meu suor das 9h às 17h, podem manietar-me os passos, mas não me compram a resignação. Ranjo os dentes e continuo a bulir, não por conformismo, mas por estratégia. Porque cada palavra que escrevo é a prova de que, por trás da 'Zé Povinha' que eles tentam vergar, há uma consciência que se recusa a ser enrabada pelo sistema. 

Amanhã recomeço, à espera que o mês passe, guardando em silêncio os ideais que o 'bulir' não conseguiu apagar.