2026-05-14

O grande trollanço


Ia só pôr a imagem. Não chegava.

O que estão a ver não é um mapa. É uma carta enviada a Moscovo sem selo e sem remetente, pela cidade de Praga, com a frieza burocrática de quem percebeu que uma placa de rua pode ferir mais do que um discurso inflamado.

A Embaixada da Rússia ficou cercada. Não por manifestantes, não por sanções, não por declarações de cavalheiros indignados em palanques. Por nomes. Nemtsov, assassinado quase à porta do Kremlin. Navalny, que Moscovo tentou primeiro envenenar, depois apagar. Politkovskaya, que denunciou crimes de guerra e acabou morta à porta de casa. E, como remate sem subtileza, a Rua dos Heróis Ucranianos.

O golpe está no detalhe administrativo, que é onde os golpes mais elegantes costumam estar: uma embaixada é obrigada a usar a morada oficial em toda a correspondência. Cartas diplomáticas, papel timbrado, convites — tudo passa a carregar, involuntariamente, os nomes que o regime tentou apagar.

Moscovo tentou escapar mudando a entrada para uma rua lateral. Praga renomeou também essa rua.

Não houve confrontos. Não houve discursos. Apenas uma cidade a usar mapas e burocracia como instrumentos de memória permanente. A embaixada existe hoje no centro de um cerco que não se desfaz com um protocolo diplomático nem com uma nota de protesto.

Como se Praga dissesse, com aquele humor seco da Europa Central: podem ocupar o edifício. O mapa pertence-nos.

A institucionalização do bairrismo


A institucionalização do bairrismo é a forma académica de dizer que pegámos na nossa necessidade primária de marcar território e lhe demos um selo da Câmara. O pretexto é a globalização: como o mundo está a ficar todo igual, agarramo-nos à identidade local como última boia de salvação.

​O que podia ser resistência genuína torna-se, na prática, uma checklist: a festa do castelo, a Semana Santa, o santo da paróquia, as roulottes de farturas. Multiplica-se o modelo por cada localidade que quer ser "diferente" e o resultado é uma monocultura do particular — toda a gente a ser única exatamente da mesma maneira. Até os nossos perigos foram catalogados. As cestas, que nos ensinavam o medo e a vertigem, foram desaparecendo entre inspeções, seguros e normas de segurança. Os carrinhos de choque agora exigem o decoro de um simulador de condução, sem o choque real de quem não tem idade mínima ou capacete.

Depois, ​o júri vota nos da terra porque votar neles é votar em nós próprios; e isso nunca precisa de justificação. É resistência cultural. É identidade. Toda a gente sabe o que aconteceu no Festival — a conveniência de quem se dispõe a ir onde outros não vão — mas ninguém diz nada. Segue em frente. Em Lisboa fazem o mesmo, mas com fundos europeus e fotografia para o Financial Times. Nós, cá em cima, temos pelo menos a decência de não fingir que é outra coisa.

​Mas aqui está o problema com os espelhos: mostram o que não se quer ver. Eu também sinto a minha veia tripeira saltar da camisa quando alguém diz mal das tripas. Sei que a pronúncia do Norte não é um erro — é a pronúncia certa; o resto é que se enganou. E dói-me o que perdemos pelo caminho, como a fogueira para saltar no São João.

​Afinal, falamos de uma festa pagã de luz e fogo, mas reduziram o nosso incêndio a um espetáculo de pirotecnia tão perfeito e asséptico que já não sabemos se é junho no Porto ou a passagem de ano no Funchal. O fogo agora é apenas para contemplar à distância, enquanto os balões são os vilões anuais. Querem-nos a olhar para o céu, pasmados, enquanto nos pés, onde antes havia cinza e coragem, agora só há o asfalto limpo de uma festa que esqueceu como se arde.

​Sei tudo isto e não mudo nada, porque há coisas que não são convicções. São sotaque. Os ditongos nasalados não se escolhem. Também não se pede desculpa por eles. Enquanto isso, o Manuel da esquina continuará a grelhar entrecosto, promovido a pilar da civilização ocidental.

2026-05-09

Meio meio


Há quem insista em encontrar luz mesmo quando o dia já desistiu. Não sei se é escolha ou feitio — provavelmente os dois, em proporções que variam. Sei que a amargura habitual tem custos: inferniza quem a carrega, inferniza quem partilha o tempo com ela e fecha a porta à esperança mesmo quando a esperança ainda existe — até contra a doença, até contra a ampulheta inclemente do tempo que passa. O momento não espera que a gente esteja pronta para o apreciar.

2026-05-08

Poema das mulheres constipadas

 


Nariz entupido, corpo em guerra,
Dores nos ossos, cabeça na terra,
Chá de limão, mel, gengibre e sal,
Aspirinas, xarope e mais um comprimido afinal.
Ninguém me mede a febre nem vê a goela,
Ninguém fecha a porta nem cala a janela,
Ninguém me traz a colcha nem aquece o pé,
Porque sou mulher e isso não se faz, pois é.
Aqui estou eu, a pingar sozinha,
A fazer a canja e a dobrar a roupa fininha,
A responder a mensagens com um assoar ao meio,
Ai que vou morrer — mas faço o jantar sem receio.

2026-05-07

Arquitetura de Fachada


Hoje vale a pena pôr maquilhagem?

​A resposta não está no espelho, mas na agenda.

​Maquilhagem é gastar recursos limitados de paciência e pigmento para apresentar uma versão civilizada ao mundo. Mas a civilização tem custos de manutenção.

​Pôr rímel? Só se houver alguém que mereça o esforço de não esfregar os olhos quando a conversa ficar aborrecida. O rímel exige uma disciplina diplomática que nem todos os interlocutores justificam.

​Batom vermelho? É uma declaração de guerra. Ou de intenções. Se o dia for passado a negociar com o nada, é um desperdício de artilharia.

​Base e corretor? Para esconder as olheiras de quem leu até às três da manhã? Não. A olheira é o meu único sinal honesto de que o mundo exterior está a ser cansativo.

​Se o raio de ação não ultrapassar o comprimento do meu braço, a pele respira. Se o protocolo exigir presença física num andar sem elevador, a cara lavada é a minha política de austeridade.

​Veredito: Hoje? Hoje fico-me pelo hidratante. O mundo não fez por merecer o meu melhor corretor de olheiras.

2026-05-06

Teoria Geral dos Degraus


A resposta correcta é: depende do andar. Um andar sem ninguém não justifica os joelhos. E há alguéns que justificam uma retirada estratégica para a subcave. Mas então a subcave tem de ter algo que valha a pena. Bom vinho, por exemplo...

Elevador. Sem negociação.

Margem de segurança analógica


A formação é sobre Inteligência Artificial. O GPS não encontrou a morada. 

Há uma elegância quase poética nisto: uma empresa que vende o futuro tecnológico a profissionais do presente não consegue fornecer uma localização que um satélite reconheça. O edifício existe — presumivelmente. A rua, talvez. As coordenadas, aparentemente, não.

Cheguei a tempo. Porque saí mais cedo. Porque desconfiei. A tecnologia falhou; a margem de segurança analógica salvou. Encontrei o lugar à moda antiga — olhos abertos, pernas a trabalhar, um transeunte com memória local.

Na sala, vão falar de machine learning.

Lá fora, eu tinha acabado de fazer o quê, exatamente?

2026-05-05

Espaço Aéreo Controlado


Não sou pessoa de contacto. Nunca fui.

O espaço necessário é mensurável: a distância que vai do meu braço estendido até à mão que vem em sentido contrário. Geometria simples. Protocolo universal. Ou devia ser.

Há quem não leia sinalizações. Quem se incline sem convite, derrame conversa e proximidade, ofereça visões não solicitadas de dentição e flora nasal. Quem confunda presença com autorização.

Não confundo.

O meu espaço é feudo. Tem fronteiras, tem leis, tem historial de conflitos. A armadura está disponível e o mau humor é política externa oficial.

A invasão não precisa de ser declarada para ter consequências.

2026-05-03

O eco


Dantes, jurava que seria diferente. Outro passo. Outra voz. Nenhum rasto.

Não fui. Não sou.

O tempo não corrige. Insiste.
Agora, no meio de um desabafo ou de uma ordem atirada à pressa, ouço-me. E não sou só eu. É ela. Na inclinação da frase. No olhar que cai direto no erro. No “estás a ver?” que nem precisa ser dito.

Abro a boca. E a minha mãe aparece.

No início, estranhei. Soou a falha. A cópia.

Hoje, não.

A menina que pisa o dia cresceu. E percebe: isto não é desvio. É estrutura.

Quando tudo baralha — a pressa, o ruído, a segunda-feira — não estou sozinha. Nunca estive.

Há uma linha firme. Um lastro.

Não é feitio.

É herança.

2026-05-01

Maias


No dia 25 de Abril de 1974, morreu em Portugal o Medo de Falar. Tinha 48 anos. A família agradeceu a quem o acompanhou à última morada no dia 1.º de Maio. Tratou a Funerária M.F.A.

O enterro correu bem. Houve flores, punhos erguidos, muita gente na rua. O problema, como sempre, é o que acontece depois dos enterros: a família fica, os credores aparecem e há sempre alguém que jura ter visto o defunto a mexer-se.

Cinquenta e dois anos depois, o 1.º de Maio é feriado — o que significa, dependendo do ano e do calendário, uma oportunidade de fazer uma ponte, engarrafar a A1 em sentido contrário e postar fotografias de brunch. Os discursos existem, como existem sempre: palavras que soam a reivindicação mas chegam já domesticadas, sem unhas, sem dentes, com o volume calibrado para não incomodar ninguém de importância. A luta continua, diz-se. Continua onde, exactamente, não se especifica.

Entretanto, lá fora, o mundo trabalha. Nos armazéns, nas plataformas, nos contratos de prestação de serviços que são vínculos laborais com outro nome e menos direitos. A precariedade não usa farda — usa aplicação, usa algoritmo, usa a linguagem da liberdade para descrever a servidão. És o teu próprio patrão. O defunto, ao que parece, tem primos.

Mas hoje é também o dia das maias.

A tradição manda pôr ramos de flores silvestres à porta — giesta, espinheiro, erva-benta — para afastar as pragas do Verão que se aproxima. O carrapato, em particular: pequeno, paciente, invisível até estar já enterrado na pele, a sugar com uma dedicação que envergonharia muitos profissionais. A sabedoria popular identificou-o há séculos como inimigo a manter do lado de fora.

A sabedoria popular sabia o que fazia.

Ponham maias à porta. A todas as portas.

1° de Maio


 

Entrevista a Hipatia


Pergunta 1

O Voz em Fuga começou em 2004. O que é que ainda hoje a obriga a escrever, depois de tudo o que já foi dito?

Hipátia:

Não escrevo porque ainda haja algo de novo a dizer. Escrevo porque o mundo insiste em repetir-se com outras palavras, e a linguagem, se não for vigiada, fica preguiçosa. Enquanto isso acontecer, escrever é uma forma de atenção. Não uma obrigação moral — um exercício de lucidez.

Pergunta 2

Escrever durante mais de duas décadas no mesmo espaço online criou uma obra ou apenas um hábito?

Hipátia:

Um hábito pode ser a forma mais honesta de uma obra. Nunca planeei um edifício; limitei-me a varrer o mesmo chão. Se isso desenhou um mapa, foi por insistência, não por projeto.

Pergunta 3

Nunca sentiu necessidade de mudar de lugar, de nome ou de forma?

Hipátia:

Mudar de lugar é fácil. Permanecer é mais difícil. Ficar impôs-me contenção, responsabilidade e memória. Não me interessava recomeçar; interessava-me aprofundar.

Pergunta 4

O blogue foi durante anos visto como forma provisória. Hoje, parece-lhe que foi uma vantagem?

Hipátia:

Sim. A provisoriedade protege da vaidade. Escrever sem promessa de permanência liberta o texto da urgência de provar o seu valor. Paradoxalmente, é isso que lhe permite durar.

Pergunta 5

Há textos que envelheceram melhor do que outros. Consegue explicar porquê?

Hipátia:

Os que resistiram são os que não estavam convencidos do momento em que nasceram. A atualidade é um péssimo critério de sobrevivência.

Pergunta 6

Escrever sabendo que o texto vai envelhecer muda a maneira como se escreve?

Hipátia:

Muda o tom. Torna-o menos histérico, menos seguro de si. Obriga a escolher palavras que não dependam do aplauso imediato.

Pergunta 7

Muitos dos seus textos partem da atualidade, mas recusam o comentário imediato. É uma escolha estética ou moral?

Hipátia:

É ética. O imediato raramente pensa. Reage. A escrita precisa de atraso — como a digestão.

Pergunta 8

Acredita que a indignação rápida empobrece a linguagem?

Hipátia:

A indignação é necessária. O problema é quando se torna automática. A linguagem passa a gritar o que ainda não compreendeu.

Pergunta 9

É possível escrever politicamente sem escrever slogans?

Hipátia:

Se não fosse, não escreveria. A política não vive só do que se afirma, mas do que se recusa simplificar.

Pergunta 10

Porque insiste no banal — casas, sofás, silêncio, cansaço — quando o mundo parece sempre em colapso?

Hipátia:

Porque é no banal que o colapso se instala primeiro. As grandes palavras chegam sempre tarde.

Pergunta 11

O quotidiano protege-nos da abstração ou revela-a?

Hipátia:

Revela-a. O corpo sente antes do conceito. Uma sala desconfortável é, muitas vezes, mais honesta do que um discurso bem arrumado.

Pergunta 12

O “eu” nos seus textos é discreto. O que perde — e o que ganha — com essa contenção?

Hipátia:

Perde-se biografia. Ganha-se espaço. Nunca me interessou ser personagem daquilo que escrevo.

Pergunta 13

Hoje espera-se que quem escreve se exponha, se explique, se narre. Essa expectativa é incompatível com o seu trabalho?

Hipátia:

É incompatível com a minha paciência. Há coisas que só se dizem retirando-se.

Pergunta 14

Se Voz em Fuga fosse livro, o que ficaria de fora sem hesitação?

Hipátia:

Tudo o que precise de contexto para se justificar. Um livro não pode pedir desculpa pelo tempo em que foi escrito.

Pergunta 15

Um livro encerraria o projeto ou apenas o deslocaria?

Hipátia:

Deslocaria. Nada se encerra enquanto houver mundo para olhar — mesmo com cansaço.

Pergunta 16

Escrever ainda muda alguma coisa — nem que seja o olhar?

Hipátia:

Muda o meu. E isso já não é pouco.

Pergunta 17

O que continua a merecer atenção num tempo saturado de opinião?

Hipátia:

As zonas onde ninguém quer ficar muito tempo: dúvida, silêncio, ambiguidade.

Pergunta 18

O que a faria parar de escrever?

Hipátia:

Talvez o dia em que a linguagem deixasse de resistir ao que é fácil.

Ou o dia em que eu deixasse de tentar.