2026-06-03

Buffet Livre


Educação pública, bibliotecas, motores de busca, conhecimento à discrição. Nunca tanta gente teve tanto acesso a tanto. O problema deste buffet é que podes escolher a alta cozinha ou enfiar os dedos na maionese.

Nem todos soubemos o que fazer com o prato cheio.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador em ver pessoas da minha idade — que partilharam as mesmas salas de aula e os mesmos privilégios — a engolirem a primeira patranha que apanham no feed, sem mastigar, sem questionar. Como se a escola lhes tivesse passado ao lado sem deixar o vício da dúvida. Como se o acesso ao conhecimento não trouxesse o dever de o usar.

Vivemos na era em que o próprio telefone avisa. Literalmente. Possível fraude, diz o ecrã, em letras que não precisam de ser decifradas. E ainda assim há quem atenda, ouça até ao fim e entregue os dados bancários a uma voz gravada com sotaque de call center.

O ecrã avisa.
A dúvida devia avisar também.
Mas essa não vem instalada de fábrica.

2026-06-02

Boato


Chegou junho, o mês dos santos populares, das sardinhas e… da minha manta de pelo sintético. Pelos vistos, o São Pedro confundiu o verão com uma vaga polar e decidiu brindar-nos com um inverno fora de época.

O meu joelho, esse meteorologista infalível, já andava há dias a avisar. Hoje, porém, tenho aviso amarelo em todos os ossos. Cada vértebra prevê aguaceiros e cada articulação jura que vai nevar na eira.

A este ritmo, passo o São João agarrada à botija de água quente e a chamar "verão" a um boato.

Crédito mal parado

Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.

___

Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.

Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.  

O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.

Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.

A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.

O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.

2026-06-01

A sombra do pastor



Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.

Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.

O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.

O pastor sorri.

2026-05-31

Silêncio operacional


Nunca fui de cliques nem de claques. A minha agenda tem espaço para respirar — deliberadamente, sem culpa, e com algum esforço para não ceder às pressões do tens de sair mais, tens de socializar, não podes ficar em casa outra vez.

Posso, sim.

Estar sozinha e estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário. Uma é escolha; a outra é circunstância. Confundem-se muito, lá fora — especialmente por quem não consegue estar cinco minutos sem companhia e acha que isso é virtude.

O problema não é a festa. É o botão.

Há dias em que o ligo com prazer, entro na corrente, faço parte do ruído. Tem apenas a ver com quando, quanto e onde estou disposta a fazê-lo. Nem sempre me apetece estar no meio das ondas; muitas vezes basta-me sentir a corrente.

Mas há cada vez mais dias em que o simples pensamento de ter de ser simpática, presente e ligada me cansa antes de sair de casa. Nesses dias, o melhor de mim fica no sofá.

Não sei se isto é introversão, sabedoria ou apenas uma capacidade cada vez menor para fingir entusiasmo quando ele não existe. O que sei é que o off deixou de ser fuga e passou a ser higiene.

E que há poluição sonora que não precisa de decibéis.

2026-05-30

Maio, mês de Maria


Último fim de semana de maio. Em Portugal, isso significa algo que vai além do calendário.

​Maio é o mês de Maria. Nas igrejas, nos nichos das esquinas, nas salas de jantar onde a televisão coexiste pacificamente com um terço pendurado na parede — a Virgem preside. É uma devoção que não precisa de explicação para quem cresceu aqui. É anterior à pergunta.

​Portugal tem com a Virgem uma relação que os manuais de história religiosa dificilmente esgotam. Não é apenas fé; é identidade, é política, é memória do corpo.

​A aliança começou cedo. D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique, teria feito um voto a Santa Maria. O país nascia sob proteção — ou assim quis a lenda, que é sempre mais verdadeira do que os factos quando se trata de fundar nações. Desde então, a Virgem e Portugal partilham um destino que resistiu a séculos de guerras, pestes e terramotos.

​Em 1917, esse destino ganhou morada: a Cova da Iria. Fátima transformou um país rural, pobre e politicamente convulso num centro de peregrinação mundial, dando à devoção mariana uma dimensão geopolítica que o Estado Novo soube ler com frieza. O apelo à consagração da Rússia e a ideia de Portugal como povo eleito encaixaram demasiado bem no imaginário do regime para ser coincidência. A Virgem não pediu para ser instrumentalizada. Nenhuma divindade pede.

Mas há algo anterior à teologia oficial. Algo que os santuários guardam nas pedras e nas fontes.

O culto mariano absorveu, ao longo dos séculos, elementos muito mais antigos: a Grande Mãe, os lugares de poder telúrico, as árvores sagradas. Muitos dos santuários mais venerados estão onde já se rezava antes de haver cristãos. Peneda, Lapa, Cabo — a geografia do país é uma constelação de pontos onde o sagrado teima em pousar, independentemente do nome que lhe demos.

​É aí que a devoção se torna mais honesta. É um catolicismo do corpo e da memória, não da crença articulada. Crê-se com os pés descalços no asfalto quente, não com a cabeça.

​E não se pode falar deste culto sem falar das mulheres que o sustentam. São as avós, as mães e as filhas que guardam esta devoção — e a mantêm viva. A Virgem é o polo de uma religiosidade afetiva que o catolicismo oficial, tão sistematicamente masculino, nunca controlou por completo. Há algo de autónomo, quase subversivo, nessa fidelidade. As mulheres rezam à Virgem de formas que o Vaticano não aprovou e, provavelmente, não compreende.

​Portugal secularizou-se rapidamente. A missa esvaziou-se, o clero envelheceu. E, no entanto, Fátima continua a mobilizar multidões. As velas continuam a arder. É como se a Virgem sobrevivesse à própria Igreja que a enquadra — como se a devoção tivesse raízes mais fundas do que qualquer instituição consegue alcançar.

​Não é a primeira vez na história do culto. Provavelmente, não será a última.

2026-05-29

A Distância de Segurança


Há qualquer coisa de comovente nos adeptos que chegam aos estádios embrulhados nas bandeiras dos seus países. A convicção com que carregam aquele pano às costas, como se a fé — suficientemente ruidosa — pudesse dobrar o resultado. Admiramos isso. Achamos bonito. Que paixão, dizemos, com aquele sorriso levemente condescendente de quem aprecia uma crença que não partilha.

Porque nós não fazemos isso. Não assim.

Portugal entra neste Mundial com o currículo mais sólido que alguma vez levou para uma competição destas. As análises chegam de todo o lado, os especialistas alinham argumentos, as probabilidades não nos desaforam. Nunca fomos tão temidos. Nunca fomos tão observados com o respeito cauteloso reservado aos favoritos. O mundo olha e vê um candidato. Nós olhamos e vemos — o quê, exatamente?

Vemos a hipótese. Admitimo-la, claro. Mas quase de mansinho, como quem menciona uma herança improvável de um tio distante. Pode ser, dizemos. Quem sabe. E já há quem vá pedindo desculpa por termos bons jogadores, como se a excelência fosse uma indelicadeza que precisasse de ser suavizada.

Não é modéstia. A modéstia tem uma certa elegância tranquila. Isto é outra coisa: uma desconfiança antiga do que é nosso, o reflexo de quem aprendeu que esperança própria é soberba, e soberba é anúncio de queda. Deixamos a convicção para os outros porque assim, se correr mal, não fomos nós que acreditámos.

Reconheço o mecanismo. Não sou imune.

Há algo de muito português — ou talvez apenas muito nosso — nesta forma de gostar das coisas à distância de segurança: admirar o otimismo dos outros com a generosidade que recusamos ao nosso, achar a esperança alheia corajosa e a própria excessiva. A galinha do vizinho é sempre mais gorda. Mas a nossa versão do provérbio é mais perversa: a galinha do nosso próprio quintal há de parecer sempre a mais mirrada, mesmo quando toda a gente de fora insiste no contrário.

Talvez ganhem. Talvez não. Isso, por agora, é irrelevante.

O que me ocupa é esta estranha incapacidade de habitar a esperança sem nos desculparmos por ela. Como se acreditar fosse um risco que os outros podem correr — e nós não.

2026-05-28

Gizo-me


Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em  Morse:

....  
..    
._ _ . 
._    
_     
..    
._    

.._.  
.     
._..  
..    
_ _..

2026-05-27

As rosas do Atacama


Conta Sepúlveda em As Rosas de Atacama que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen-Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". Foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as vidas breves que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que nem por isso são menos importantes.

​Chamou a esse livro Historias Marginales, nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a imagem de um deserto coberto de flores. Afinal, o livro vive das margens e do esquecimento. Vive de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e que, no entanto, são demasiado parecidas com todos nós: anónimas, a mais das vezes capazes de fugir e de se esconder, mas levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja numa única vida, a diferença.

​Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém a contou. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações.

​De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte também uma das nossas e mais uma rosa pintará de cor o deserto do esquecimento.