2026-03-16

Ormuz

Sukh Sandhu 

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A análise de Sandhu é fundamentalmente uma crítica ao transacionalismo na diplomacia. Sugere que a política de "América Primeiro" corroeu as alianças de tal forma que, num momento de crise real (como o bloqueio de uma via comercial estratégica), os aliados tradicionais podem não estar dispostos a intervir, vendo os EUA como um parceiro pouco fiável que apenas procura ajuda quando os seus próprios interesses económicos estão em jogo.

​É um comentário sobre as consequências a longo prazo de uma política externa que prioriza o confronto e o isolamento em detrimento da cooperação multilateral estável.

Mas a ironia deve escapar ao atual governo sociopata de Washington. 

O vestido


Doze anos depois, a história repete-se como uma farsa — ou será como uma costura mal rematada? Em 2014, o escândalo foi o tule estratégico de Dino Alves; umas transparências que puseram a "monarquia" de Belém a benzer-se perante o "atrevimento" da mulher do líder da oposição. O país, esse eterno voyeur de província, quase precisou de sais.

​Agora, em 2026, com o marido finalmente sentado no cadeirão da República, a polémica é o inverso: o azul é demasiado pastel, a marca é demasiado estrangeira, a sobriedade é demasiado... sóbria. Passámos do "mostra muito" ao "esconde a economia nacional".

​A ironia é deliciosa: quer se vista de femme fatale vanguardista ou de Primeira-Dama exemplar à la Valentino, Margarida Maldonado Freitas continua a ser o barómetro da nossa hipocrisia. Em Portugal, o cargo de Presidente é de Seguro, mas o escrutínio — esse tecido apertado e desconfortável — continua, como sempre, a sobrar para ela.


 

Da fé do dia


O tempo dos mitos e dos medos há muito que foi escorraçado pela razão e pela ciência, ainda que, tantas vezes, a crendice ameace instalar-se até entre os que se julgam mais esclarecidos. Mas os rebanhos já não encaram a fé e a crença por medo do além, do diabo, do que poderá existir para lá da morte, dos sussurros que se escondem nas noites escuras sem luzes municipais.

A fé é agora uma opção. As regras e os dogmas escolhem-se a dedo, em função dos interesses de quem escolhe. Os fiéis tornaram-se “não praticantes” — expressão que nunca consegui entender bem — e já não há dízimos obrigatórios para sustentar toda a parafernália. A crise da crença alastra: conventos vazios, paróquias sem pastor, igrejas sem fiéis. Divórcios, casamentos civis, padres que fogem para casar, escândalos de pedofilia, corrupção, seitas concorrentes, agnosticismo crescente e um ateísmo sem sobressaltos.

Talvez por isso os frutos da hipocrisia institucional e da mercantilização da esperança me façam lembrar mais o corropio histérico dos media atrás de uma qualquer starlet, famosa por ser péssima nos filmes que faz, do que o surgimento de verdadeiros líderes espirituais. A santidade foi substituída pelo share de audiência e a oração pelo pitch de vendas. 

E um mundo a continuar à míngua de guias e líderes que mantenham a moral no discurso e a ética na postura.

2026-03-14

Pelos cabelos


Há dias em que uma pessoa não está apenas cansada — está literalmente pelos cabelos. E não falo daquele desalinho charmoso de quem acordou tarde. Falo de um estado capilar existencial: fios em pé, ideias pregadas com pregos invisíveis e a sensação de que a vida inteira está pendurada num varal mental.

Hoje estou assim. Cada tarefa é mais um prego na cabeça, cada notificação mais um puxão no couro cabeludo da paciência. Sorrio, claro. Porque a ironia é o melhor spray fixador para segurar o penteado da sanidade.

Se alguém perguntar como estou, direi apenas: normalíssima. Só um bocadinho… pelos cabelos na sala de espera da Loja do Cidadão.

2026-03-13

Crónica de uma Coluna em Greve

​Seiscentos quilómetros. Não é uma viagem, é um inventário de danos. Chego ao destino com as cruzes — como dizemos cá em cima, com o peso de quem carrega o mundo no lombo — transformadas num quebra-cabeças de nervos e vértebras mal encaixadas. Aos cinquenta e tal (quilometros ou anos, já nem sei, a dor confunde as métricas), o único "output" que consigo garantir é um gemido. Pedirem-me "trabalho" neste estado não é otimismo, é sadismo puro.

​Sinto-me uma relíquia arqueológica que sobreviveu a um sismo. A minha flexibilidade atual é comparável à de uma viga de betão e o meu raciocínio tem a velocidade de um caracol com reumatismo. Olho para o ecrã do computador com a mesma náusea com que um náufrago olha para um copo de água salgada. A esta altura, a única produtividade que consigo oferecer é um ai a cada mudança de posição na cadeira. É o triunfo final da biologia sobre a agenda: o meu único compromisso imediato é com a horizontalidade e uma dose generosa de anti-inflamatórios e a esperança vaga de que amanhã a coluna se lembre de que ainda pertence ao mesmo corpo.

2026-03-12

Café


Moderação? Já ouvi falar, parece ser um conceito fascinante para quem tem paciência de santo. Para os restantes mortais, o café não é um 'abraço', é o soro de reanimação que impede o colapso da civilização antes das dez da manhã. Chamar ao café 'combustível' é manifestamente pouco; ele é o suborno que pago ao meu cérebro para que não se despeça do meu corpo em pleno horário de expediente. Teorias são para os fracos; eu cá prefiro a prática em doses industriais e servida numa chávena com o tamanho de um balde.

A insustentável leveza do vácuo


​Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.

​A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.

​É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"

​Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.

​O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.

​E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.

​É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.

2026-03-11

O que fica depois do medo?


Quando o medo chega, bate à porta sem anunciar o nome e instala-se na sala, como um hóspede que não sabemos expulsar.

Enquanto está cá dentro, tudo encolhe. Os passos ficam curtos, as palavras mais pesadas.

Mas o medo não fica para sempre.
Cansa-se.

E quando parte, não leva tudo consigo. Fica um certo sossego estranho, como a casa depois de uma tempestade. O ar ainda cheira a trovoada, mas já se pode abrir a janela.

2026-03-10

O Alfabeto do Sangue

​Lê-se Sócrates, o Escolástico, como quem folheia o inventário de um naufrágio. Hipátia, filha de Theon, não era apenas uma mulher; era a última biblioteca viva de um mundo que ainda ousava interrogar os astros sem pedir licença aos deuses. No seu magistério, Platão e Plotino deixavam de ser bustos de mármore para se tornarem respiração, geometria e destino. Alexandria, nesse estertor de glória, ainda era o lugar onde a inteligência se permitia a heresia de ser livre.

​Depois, veio o silêncio. Ou melhor, o ruído da turba.

​Há uma ironia atroz na forma como o fundamentalismo acerta contas com a beleza. Não basta o argumento; é preciso o caco de cerâmica, a ostra afiada, o desmembramento da carne que ousou pensar fora do cânone do medo. Hipátia não foi apenas assassinada; foi rasurada. O cristianismo triunfante de Cirilo não suportava a verticalidade de uma alma que se guiava pelas elipses de Apolónio e não pelos dogmas de um sínodo.

​É o eterno triunfo do músculo sobre a métrica.

​Caminhamos hoje sobre as cinzas de Alexandria, citando fragmentos de um saber que nos foi roubado pelo zelo dos ignorantes. A morte de Hipátia foi o prefácio de uma longa noite, o momento em que a filosofia foi arrastada pelas ruas e deixada a sangrar no altar da "verdade única". 

Observo o mundo de hoje e vejo os mesmos Cirilos, com outras batinas e novos vocabulários, prontos a afiar as conchas para qualquer um que prefira o telescópio ao catecismo.

​A história, afinal, é este pálido exercício de luto: recordamos o que Hipátia ensinou, enquanto tentamos ignorar o eco dos gritos de quem, ao matar a mestre, acreditou estar a salvar a alma do mundo. No fim, sobrou-nos o Escolástico e a certeza de que a barbárie tem sempre uma excelente justificação teológica.

Alfarrabista


"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."

A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.

"Como dizia o Heidegger..."

É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.

As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.

"A fenomenologia do espírito..."

A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.

É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.

2026-03-09

Segunda-feira


“A casa ainda dorme e eu fico na cozinha com o café, à espera que o dia comece.”
- António Lobo Antunes

A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".

​Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.

​Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.

​E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".

​Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.

​Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.

2026-03-08

Primavera


Envolta em trapos de frio, busco o jardim onde a Primavera se escondeu.

Tenho ânsia de verdes e de luz — não esta quase morte de um mundo enterrado até à raiz.