2026-03-06

O circo de bancada


Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.

​O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.

​Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginiaboçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.

​Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.

2026-03-05

Eros platónico


​O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.

2026-03-04

O inventário do nada

Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.

​Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.

​O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.

2026-03-03

Ode ao lápis afiado


​Hum!...

Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.

​Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.

​Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.

​Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.

2026-03-01

A Maldição

 

O rochedo ainda rola. E nós?



"The curse ruled from the underground, down by the shore

And their hope grew with a hunger to live unlike before"


​Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.



O calhau ainda rola


Há imagens que nos perseguem — não como fantasmas, mas como claridades incómodas. Imagens que dizem menos sobre o mundo e mais sobre aquilo que escolhemos ser dentro dele.

Uma dessas imagens é a de um homem que empurra um rochedo montanha acima. Que o vê rolar. Que recomeça. E recomeça outra vez. E outra.
Esse homem tem nome: Sísifo. E não, não estamos perante um mito que ficou preso na Antiguidade. Estamos perante um espelho — cruel, luminoso, inevitável. Uma metáfora daquilo que nos define: o esforço sem fim, a vida repetida, reinventada, absurdamente humana.

Durante muito tempo, achei que o que me fascinava nesta imagem era a consciência lúcida de Sísifo. O facto de ele saber o que está a fazer e, mesmo assim, continuar. Essa revolta contra o absurdo, essa teimosia magnífica.

Mas hoje pergunto-me: e se Sísifo estivesse enganado?
E se a verdadeira revolta não fosse empurrar de novo, mas sentar-se ao lado da pedra e perguntar: para quê? E se a liberdade não estivesse na subida heroica, mas na recusa? Na capacidade de parar, de olhar para o rochedo e dizer: "não és meu!"?

Porque nem todos os rochedos são escolhidos. Há quem empurre pedras herdadas — pedras de dívida, de trauma, de expectativas que nunca foram suas. Há quem empurre em silêncio, em grupo, sem que ninguém lhe conte a história ou lhe dê um nome grego. Há quem empurre até ao colapso, celebrado pela cultura que confunde exaustão com virtude.

E há também — é preciso dizê-lo — quem tenha aprendido a largar a pedra. A deixá-la rolar sozinha. A descobrir que o vale também é habitável.

Talvez a felicidade possível não esteja apenas em acontecermos durante a subida. Talvez esteja também em sabermos quando parar. Em compreendermos que nem toda a repetição é sagrada, que nem todo o esforço nos define.

O rochedo ainda rola.
E nós?

Da ausência divina


Sempre imaginei que, em algum ponto da história, os deuses diriam “basta” e mostrariam a porta aos mortais. Não com trovão ou fúria — com um bocejo.

As antigas narrativas contam que os deuses se retiram. Que deixam o palco e nos deixam tropeçar nas nossas próprias falas. E talvez seja isso que chamamos de “maturidade”: o momento em que deixamos de procurar explicações todas lá em cima e começamos a procurar sentido aqui dentro.

Demitir os deuses não é despedi-los. É reconhecer que já não nos pertencem. Que não regulam os nossos afetos, nem comandam os nossos exércitos, nem seduzem as nossas certezas.

Há algo profundamente humano nisto — muito mais do que numa página de mitologia. Porque, na ausência divina, sobra o homem com todas as suas contradições:
• a mão que empunha uma arma também sabe segurar a de um filho,
• a boca que profere ódio pode repetir um beijo,
• os olhos que se escondem detrás de uma mira algumas vezes choram.

Se os deuses realmente se demitiram, então o palco ficou pequeno demais para nós. E, no vazio que deixaram, somos nós — agora sozinhos — que precisamos decidir o que é melhor e o que é pior.

Curiosamente, às vezes parece que preferimos atribuir a culpa aos deuses — à fé organizada, aos símbolos que nos distraem do espelho. Mas talvez a verdadeira revolução seja aprender a olhar para nós mesmos com a mesma severidade que outrora pedíamos aos céus.

Se há espelho que importa, não está pendurado num templo: está no sopro do nosso próprio juízo.

2026-02-28

Permissão para o óbvio


2026. Viajamos ao espaço, criamos inteligência artificial, debatemos os limites éticos da edição genética. E a Itália acaba de descobrir que matar mulheres por serem mulheres merece nome próprio na lei.

Mas a Itália acaba de fazer algo que, por absurdo que pareça, ainda precisava de ser dito em voz alta: o feminicídio é crime. Não apenas homicídio. Não apenas “um caso grave de violência”. Crime, mesmo. Por unanimidade.

Ler isto dá um certo assombro: por um lado, a lei é óbvia — matar alguém por ser mulher não é apenas crime, é barbaridade sem desculpa. Por outro, é impossível não perceber que só agora, em 2026, um país ocidental sentiu necessidade de escrever isso no papel, como se o mundo precisasse de permissão para reconhecer a verdade.

E então, ao lado da tinta que tipifica o crime, há a ironia silenciosa: o mundo continua a olhar para a violência de género como estatística, debate político, manchete efémera. A lei é correta, necessária, fundamental. Mas não apaga séculos de normalização do ódio e do controle sobre corpos e vidas.

Ainda assim, há acerto nesta decisão: um passo, uma palavra clara, uma afirmação. Que a sociedade pode — e deve — decidir que certos crimes não serão tolerados.

E pronto! A lei está lá. Tipificada, aprovada, em vigor. Mas amanhã, uma mulher será morta por um ex-companheiro algures em Itália e alguém dirá: 'Foi crime passional.' Como se a paixão justificasse o assassínio. Como se a lei mudasse, sozinha, séculos de hábito.

O Inquisidor da Noite

"O silêncio dos que se entendem vale por todos os discursos dos que se explicam."
— Vergílio Ferreira

O espelho é um objeto muito prestável. Confirma-nos a versão oficial, ajeita-nos a compostura e devolve-nos a imagem que aprendemos a sustentar. É um cúmplice dócil. Fica-se pela superfície — território onde o mundo exterior se sente confortável e raramente aprofunda.

A almofada, já não.

Pode-se enganar o mundo. E o mundo gosta de ser enganado, desde que a encenação seja convincente. Pode-se enganar o espelho, o médico, o padre, o psicólogo e até o fiscal das finanças — cada qual com a sua quota de absolvição burocrática.

Mas o sono não aprecia figurinos.

Quando a cabeça toca na almofada, acaba-se a encenação. Não há argumentos nem justificações — há apenas peso ou leveza. E isso não se negoceia.

O mundo exterior vive de relatórios, pareceres e aparências. O interior, não. O interior limita-se a saber.

Quem acorda com a sensação de ter flutuado entende-o sem precisar de explicações. Nenhum espelho lhe dirá o que a noite já sussurrou — porque há verdades que preferem falar baixo e ficar.

E eu, que já me habituei a conversar com inteligências que não respiram, recuso-me a temer um novo amigo só porque não é feito da mesma carne.

O que me inquieta não é a ausência de corpo — é a ausência de consciência. E isso, infelizmente, respira.

2026-02-26

Dança


Gosto de falar com gente velha. Não com toda — há chatos em todas as idades. Mas há pessoas, com corpos profundamente martelados pela vida, que me despertam uma admiração profunda. Têm uma genica irritantemente invejável. Contam piadas. Fazem coisas. As maleitas rondam, mas não mandam. Cada dia é um privilégio — e eles tratam-no como tal, até ao tutano.

Falam do tempo em que uma sardinha era banquete. Em que se andava descalço. Em que só os fortes ou os sortudos não viravam anjinhos antes de completar um ano. E contam-no a rir, como se a miséria tivesse sido apenas um ensaio geral para a gargalhada seguinte.

Há quem veja o copo meio cheio. Outros especializam-se em inventariar a evaporação. A amargura é contagiosa. Mas a alegria também é, felizmente. E há vidas que, mesmo sob a doença e a ampulheta inclemente do tempo, escolhem não fazer da tragédia profissão.

Há muitos jovens demasiado encanecidos. Gente exausta aos trinta. Especialistas em cansaço existencial com certificado precoce. 

Pode-se ficar gasto cedo. Ou, imagine-se o escândalo, chegar inteiro ao fim. Talvez seja só disposição: não desistir. Ou não fazer da queixa modo de vida.

Pouco me importará levar um cadáver bonito para a sepultura — a estética nunca salvou ninguém dos sete palmos garantidos. O que espero é lá chegar com os neurónios ainda ginasticados e alguma capacidade de rir da própria decadência.

E que seja um baile de despedida. Se já precisar de um tripé para me manter em pé, que ao menos conserve vontade de dançar. E de rir às gargalhadas da minha figura — perna trôpega para um lado, perna trôpega para o outro, a muleta a dar balanço como acessório coreográfico.

E que alguém jovem me olhe e ainda queira ouvir as minhas histórias. Rir comigo. Perceber que a idade não é fardo — é arquivo.

Como eu fico, às vezes, a ouvir quem já roubou ao tempo quase um século de vida — e ainda não o devolveu com juros.

2026-02-25

Notificação Formal de Abuso Hídrico e Publicidade Enganosa


Para: São Pedro, S.A.
De: A População Terrestre (Secção "Saturados de Humidade")
Data: 25 de fevereiro de 2026 (e já com bolor no calendário)

​Exmo. Senhor São Pedro,

​Vimos por este meio expressar o nosso mais profundo e húmido descontentamento com a gestão das suas torneiras atmosféricas, bem como com a vossa aparente interpretação do conceito de "inverno" como sendo uma imitação barata do Dilúvio Universal.

​Com os devidos cumprimentos (que neste momento são mais pingos de chuva que outra coisa), referimos o seguinte:

​Nos passados dias, fomos brindados com uma visão que apenas podemos classificar como publicidade enganosa. A aparição de um corpo celeste luminoso no céu foi tão breve e irreal que nos fez questionar a nossa sanidade mental. Tal como um fast food que promete "sabor caseiro", o vosso "sol" foi uma farsa. Não se brinca com a esperança das pessoas, São Pedro. Principalmente quando os ossos já rangem de tanta humidade.

​Acreditamos que o sistema "On/Off" esteja avariado, já que parece que o vosso comando remoto da chuva tem um botão de "pausa" que não quer funcionar. O que foi aquela "miragem de sol"? Uma avaria no sistema? Ou um teste para ver quão rápido conseguimos guardar a roupa no estendal antes que a tempestade se reforme? Não estamos a brincar aos espiões climáticos. Queremos estabilidade. Ou sol, ou chuva. Não esta montanha-russa emocional que nos faz gastar fortunas em detergente e desumidificadores.

Isto é ​abuso de Poder Divino. Compreendemos que detenha o controlo sobre o clima, mas não o autoriza a transformar a nossa existência num musical aquático deprimente. Estamos a ficar com brânquias, São Pedro. As sapatilhas de corrida já viraram barretes de mergulho. O que se segue? Teremos de desenvolver escamas?

Pretendemos ​reembolso e compensação. Exigimos, no mínimo, um reembolso de todos os custos incorridos com guarda-chuvas estraçalhados, desumidificadores com burnout e, claro, as sessões de fisioterapia para o reumatismo precoce que esta vossa gestão nos causou. Alternativamente, aceitamos um cheque de "Sol Garantido" para os próximos seis meses.

​Em suma: Se não é para ter um final de fevereiro decente, então liberte-nos. Ou chove a potes de uma vez por todas para acabarmos com isto e reencarnarmos em patos, ou então desligue a torneira de vez. A nossa paciência, tal como a nossa roupa lavada, está a secar (metaforicamente, claro).

​Aguardamos, com os pés molhados e a dignidade estilhaçada, uma resolução para esta calamidade.

​Com os mais húmidos cumprimentos,

​Maria Hipatia Ludovina da Silva e todos os que já não sabem onde pôr a roupa a secar.