Num daqueles dias em que o país está tão quieto que até os escândalos políticos fazem sesta, André Ventura decidiu abrir um portal dimensional — como quem abre uma lata de atum — para procurar a essência pura da direita portuguesa. Não aquela direita banal, de gravata e promessas recicladas. Não. Ele queria a Direita Absoluta, destilada, filtrada e servida num cálice com gelo e indignação.
Primeira Paragem: O Deserto do Bom-Senso
Ventura atravessou um planalto onde se viam caravanas de opinadores perdidos, murmurando frases como “talvez devêssemos discutir políticas públicas” antes de evaporarem no ar, como hologramas recusados.
— Demasiado moderado, resmungou, chutando um tufo de responsabilidade social para longe.
Segunda Paragem: O Bosque dos Comentadores Enfurecidos
Ali, as árvores insultavam quem passava. Os pinheiros gritavam “estrangeirização cultural!”, os sobreiros berravam “crise moral!”, e até um arbusto anão murmurava “isto com patriotas era diferente”.
Ventura sentiu-se entre pares, mas algo ainda faltava: uma câmara, talvez.
Terceira Paragem: O Castelo da Extrema-Direita Mística
Erguia-se à beira de um lago de memes, com muralhas feitas de caixas de comentários. A guarda real era composta por indivíduos que falavam exclusivamente em maiúsculas.
— ENTRAS?, perguntaram.
— Depende, respondeu Ventura. Há visibilidade mediática?
— SÓ TEMOS UMA LANTERNA FRACA E UM PODCAST QUE NINGUÉM OUVE.
Frustrado, Ventura decidiu assumir a liderança espiritual do local, mas os habitantes recusaram: alegaram que ele era “demasiado complexo” por usar verbo transitivo duas vezes no mesmo dia.
A Revelação Final
No auge da sua exasperação, Ventura encontrou um espelho dourado. Nele, viu a Direita Absoluta: uma entidade nebulosa, feita de soundbites, indignação instantânea e um desejo inexplicável de transformar tudo em trending topic.
— Sou eu… mas em modo exagero?
E o espelho respondeu, com voz de apresentador de telejornal cansado:
— Não. Tu és a versão beta. A versão instável. A versão que ainda pede atualização.
Desiludido, mas pragmaticamente teatral, Ventura regressou ao Parlamento.
Entrou, dirigiu-se ao púlpito e disse a frase que faria estremecer o universo político:
— Tive um dia introspectivo.
E nesse momento, toda a oposição, do Bloco ao Chega, soube que algo verdadeiramente surreal estava a acontecer e isso também é Portugal.
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