2026-06-12

A tragédia da toalha

Existe um medo antigo, profundamente feminino, que nenhuma terapia consegue erradicar: chegar a um sítio e encontrar outra mulher vestida exatamente igual.

É o horror doméstico por excelência. Um atentado à individualidade. Uma afronta cósmica.

A mulher da fotografia foi mais longe.

Não encontrou outra mulher vestida igual. Encontrou a mesa.

E agora está ali, perfeitamente integrada na decoração, num grau de fusão com o ambiente que a maioria de nós jamais alcançará. Não é uma convidada. É parte do serviço. Uma extensão da toalha. O xadrez vermelho transformado em gente.

Preside ao almoço com uma dignidade que, convenhamos, dificilmente fazia parte do plano.

Há quem passe uma vida inteira à procura de um lugar onde se sinta em casa.

Ela conseguiu.
Acidentalmente.
Num churrasco.

2026-06-11

O amanhã


O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.

​A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.

​O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.

​O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.

​O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.

​Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.

​Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.

​Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.

​O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.

2026-06-10

O sol pôs-se, mas há luar

Li, há muitos anos, uma entrevista a Eduardo Lourenço em que um jornalista francês lhe perguntava o que era a saudade: um sentimento real ou apenas um mito português. A resposta foi tão luminosa quanto poética: dizia ele que a saudade é como quando o sol se põe, mas sabemos que haverá luar. Não foram exatamente estas as palavras, mas a ideia ficou-me para sempre. A tradução é livre.

​Sempre gostei da forma como Eduardo Lourenço procurou compreender a nossa portugalidade — esse modo de sermos que parece sobreviver às épocas, às circunstâncias e até às sucessivas imagens que fazemos de nós próprios. É difícil negar que crescemos à sombra de uma mitologia antiga. Desde Camões e Os Lusíadas até aos sonhos do Quinto Império e a Mensagem, fomos construindo uma narrativa coletiva que nos ensinou a olhar para o passado como um lugar de grandeza e perda. Pelo meio, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a uma metafísica nacional. Acabámos por chamar saudade a muitas coisas e por viver, não raras vezes, nostálgicos de uma idade de ouro que talvez nunca tenha existido da forma como a imaginamos.

​Talvez a saudade faça parte da alma portuguesa, mas não apenas como uma característica espontânea ou inevitável. Há nela uma dimensão cultural, uma ideia trabalhada ao longo dos séculos que acabámos por transformar num dos nossos maiores símbolos. Como todos os símbolos, ilumina-nos e limita-nos.

​Porque não existe um só Portugal; existem muitos Portugais. Uns reconhecem-se no fado, outros nas cantigas populares; uns vivem voltados para o mar, outros para os montes e os rios do interior. No meu Norte, por exemplo, nunca encontrei a tristeza resignada que tantas vezes associamos à imagem tradicional do país. Há uma alegria teimosa, uma recusa em fazer da melancolia uma identidade. E talvez seja precisamente essa diversidade que melhor nos define.

​Nunca fomos apenas um país de ensaístas ou de teóricos; fomos, acima de tudo, um país de poetas. A nossa memória coletiva foi sendo escrita por quem soube transformar ideias em imagens, pensamento em metáfora, história em canto. Há nisso uma riqueza que continua a distinguir-nos, mas que hoje enfrenta novos perigos.

​É por isso que me preocupa a forma como tantas vezes tratamos a língua portuguesa neste novo século. Empobrecemo-la quando a reduzimos ao imediatismo das redes, quando dispensamos o rigor em nome da pressa, quando esquecemos a beleza das palavras moldadas pelo tempo. Uma língua não vive apenas dos dicionários ou das regras gramaticais: vive da atenção que lhe dedicamos, da imaginação que nela depositamos e do cuidado com que a transmitimos às novas gerações.

​Haverá sempre lugar para cantar Portugal enquanto Portugal souber dizer as palavras que o cantam. A língua é, talvez, o mais duradouro dos nossos patrimónios. E seria uma ironia amarga que, um dia, tivéssemos saudades do português que deixámos perder por falta de cuidado.

​Se o sol se põe, que ao menos não nos falte o luar.

2026-06-09

Beirute

 



Lembro-me de, há muitos anos, os Trovante cantarem que "em Beirute, nem o sol nasce", numa letra que começava com "quem recordará como foi?"... E a canção ainda me baila por dentro. Nem lembro já a letra inteira, nem sei onde pára o velhinho vinil que a guardava, mas ficou-me esta ideia de que nem o sol pode nascer em Beirute, ou que, mal rompa a alvorada, já ninguém recorda como é — e tudo volta a ser o que cedo foi esquecido.

A Beirute já não é a mesma. Mas a condição de "Beirute" reaparece incessantemente. E eu nem me lembrava já da cidade, não fosse Beirute continuar, depois destes anos todos, a não ver nascer o sol.

Quem recordará como é, já que tão depressa se esqueceu como foi?


2026-06-08

Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)


Há uma lógica nisto tudo.  
A geração que compra a t-shirt não a inventou do nada. Cresceu a ver os adultos à sua volta sobreviver entre o desespero e o humor. Aprendeu que a vida era um teatro do absurdo e que o melhor era rir para não chorar. Só que esses adultos não tinham público. Tinham, quando muito, um blogue e meia dúzia de leitores que assinalavam com a cabeça.

Os filhos herdaram o espetáculo. Não herdaram a ironia.  

Ou melhor: herdaram-lhe a forma, mas não a função.

A dissociação que os pais carregavam em privado, como mecanismo de sobrevivência que não pedia licença, tornou-se conteúdo. A capacidade de rir do próprio colapso, que custou anos a afinar, virou aesthetic. E o desespero — esse velho conhecido de quem cresceu a assistir às promessas falhadas do futuro — transformou-se em lifestyle com merch em algodão orgânico.

Não é cinismo. É a resposta lógica de quem cresceu a ver os adultos fingir que tudo estava bem enquanto o mundo desmoronava, e decidiu que não ia fazer o mesmo. Em vez de inventar uma linguagem própria para o dizer, encontrou um algoritmo. E o algoritmo não premeia o meio-tom. Premeia o engagement.

A ironia deixou de ser ferramenta para suportar o absurdo. Passou a ser forma de o comunicar. E, como acontece com tudo o que circula bem, acabou também mercadoria.

O problema é que o sistema aprendeu a monetizar até a recusa. A apatia virou trend. A exaustão virou identidade. O desencanto virou reel. E a t-shirt que diz mentally hilarious é, no fundo, o certificado de autenticidade de uma experiência que já existia antes de ter nome, estética ou hashtag.

A ironia suprema é esta: os pais riam do absurdo para continuar a funcionar. Os filhos exibem-no para explicar por que não querem funcionar da mesma maneira.

Talvez tenham razão.

Mas o capitalismo, esse, continua a cobrar à saída.

O sofá é confortável. O Wi-Fi, por enquanto, funciona. E o arquivo — esse — não tem algoritmo.

2026-06-07

Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)

Há agora uma t-shirt. Provavelmente há também um Pinterest board, um canal de YouTube e uma marca de roupa em algodão orgânico que vende a ideia de que andar mentalmente algures entre o absurdo e o colapso é, afinal, um estilo de vida. Chama-se Mentally Hilarious e é, segundo os seus arautos digitais, uma forma positiva de encarar os pensamentos intrusivos, a dissociação ligeira e o facto de se estar fisicamente presente mas mentalmente a fazer compras noutro planeta.

Bem-vindos. Eu já cá estava.
Não com t-shirt. Com blogue.
Desde meados de 2004 — quando os millennials ainda andavam a tentar perceber se deviam ter filhos ou comprar casa, e acabaram por não fazer nem uma coisa nem outra a tempo — que a Hipatia mapeia este território com a precisão de quem não precisa de legenda para explicar o conceito. Até já escrevi sobre um certo gajedo de trinta e muitos, quarenta e poucos, reunido ao almoço das quintas com ar altivo e condescendente e um aspecto de banho de loja e perfumaria, mesmo que a loja seja a feira e o perfume de amostra. Escrevia sobre o desespero com sorriso em contramão. Sobre a solidão estampada na cara de quem apregoa uma suposta e falsa confiança. Sobre os mecanismos que precisam de ser devidamente oleados, com ou sem intervenção mecânica.

Se isso não é mentally hilarious, não sei o que é.

A diferença — e há uma diferença que importa — é que a trend precisa de explicar o que é. Precisa de empacotar, de dar nome, de pôr numa camisola para que as pessoas reconheçam a experiência que já tinham mas não sabiam nomear. O que é, em si, perfeitamente humano e até simpático. Não tenho nada contra o algodão orgânico.

Mas há qualquer coisa ligeiramente cómica — e portanto muito adequada ao tema — em ver chegar uma estética inteira construída à volta do humor como escudo, da observação como sobrevivência, do absurdo como linguagem materna, quando isso aqui já era mobília velha. Não mobília vintage, que essa já tem mercado. Mobília velha mesmo. A que fica porque é boa e porque ninguém se lembrou de a vender.

A Mentally Hilarious é a versão democratizada e consumível de algo que algumas pessoas sempre fizeram por necessidade, sem manual e sem merch. Não por serem mais inteligentes ou mais sofisticadas. Apenas porque não havia outra forma de continuar a aparecer ao almoço das quintas com ar de que tudo estava bem, quando claramente não estava, e achar piada ao espectáculo todo na mesma.

Isso não se aprende num Pinterest board.

Aprende-se ao fim de anos a olhar para o mundo com aquela expressão específica — nem cínica nem ingénua, qualquer coisa no meio — e a decidir que o que se vê é demasiado absurdo para não ser anotado.

A t-shirt posso emprestar. O arquivo não.

2026-06-06

A melancolia como serviço mínimo


Há quem trate a melancolia como doença. Eu trato-a como mobília.  

Está sempre ali, encostada ao canto, sem cobrar renda, mas a dar ao espaço aquele ar de quem já viveu.  

Não é tristeza — a tristeza tem pressa, quer atenção, manda mensagens às 3 da manhã.  

A melancolia é mais discreta. Senta-se contigo ao fim do dia, partilha o silêncio e não pede nada em troca. Às vezes desconfio que é ela quem paga as contas da luz.  

Mas se a confundes com depressão e vais ao médico porque gostas de chuva, o problema não é a melancolia. É a literalidade. E essa, ao que consta, continua sem cura.

Insuportável


Disseram-me que era chata. Considerei a hipótese. Decidi escalar.

"Insuportável" tem uma sonoridade que me agrada. É o tipo de palavra que as pessoas usam quando já não conseguem controlar aquilo que nomeiam.

Não vou pedir licença para existir. Nunca percebi bem para que serve essa licença — quem a emite, quem a renova, o que acontece quando expira.

O meu cabelo vai à frente. Eu vou a seguir. O resto é paisagem.

2026-06-05

Da data


Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Todos partilham a imagem do globo de cristal poisado na relva. Todos escrevem que o planeta precisa de nós. Ninguém desliga o ar condicionado.

Existe uma distância curiosa entre o que se proclama e o que se pratica — e essa distância tem o tamanho exacto de uma consciência tranquila. Celebramos o planeta como se ele fosse um aniversariante: uma vela, um post, e o assunto encerrado por mais um ano.

A Terra não precisa das nossas homenagens. Precisa do nosso silêncio. E da nossa ausência, se possível.

2026-06-04

Herdeiros de quem?


Os meus antepassados saíram para o desconhecido numa caixa de fósforos. Levavam uma esfera armilar, um astrolábio, a convicção de que a terra não acabava ali e a desfaçatez suficiente para testar a hipótese. Foram. Voltaram. À boleia da Volta do Mar, o que não é pouca coisa num tempo em que o horizonte era uma teoria por confirmar.

Eu, herdeira legítima desse património genético e cultural, há dias em que preciso de GPS para chegar ao supermercado que fica a quatrocentos metros de casa.

Não é uma confissão. É um dado.

A questão que se levanta — e que me recuso a deixar cair — não é técnica nem nostálgica. É mais inquietante do que isso: com o acesso sem precedentes ao conhecimento, ao mapa, à informação disponível a qualquer hora em qualquer bolso, estamos a ficar mais estúpidos ou apenas mais preguiçosos? E existe, ainda, alguma diferença entre as duas coisas?

O desenrascanço — essa virtude nacional elevada a traço de carácter, quase a argumento identitário — terá sobrevivido à era em que já não é preciso desenrascar nada porque a aplicação desenrasca por nós? Ou era o desenrascanço precisamente isso: a inteligência que nasce da escassez, o engenho que só existe quando não há alternativa?

Pergunto porque a resposta me desconforta.

Há qualquer coisa de perverso na abundância do acesso. Nunca soubemos tanto. Nunca tivemos tanto à mão. E no entanto a sensação persistente — pelo menos para quem olha — é a de que algo foi trocado por outra coisa sem aviso prévio e sem cláusula de rescisão. Trocámos a capacidade de nos orientarmos pela disponibilidade de sermos orientados. Trocámos a memória pelo arquivo. Trocámos o raciocínio pela pesquisa. São trocas racionais. São trocas eficientes. São, muito possivelmente, trocas irreversíveis.

Os meus antepassados não tinham GPS. Tinham que saber onde estavam.

Eu sei onde estou. O telemóvel diz-me.

Mas suspeito que confiar não é o mesmo que saber. 

E a minha Volta do Mar só funciona enquanto dura a bateria.

2026-06-03

Buffet Livre


Educação pública, bibliotecas, motores de busca, conhecimento à discrição. Nunca tanta gente teve tanto acesso a tanto. O problema deste buffet é que podes escolher a alta cozinha ou enfiar os dedos na maionese.

Nem todos soubemos o que fazer com o prato cheio.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador em ver pessoas da minha idade — que partilharam as mesmas salas de aula e os mesmos privilégios — a engolirem a primeira patranha que apanham no feed, sem mastigar, sem questionar. Como se a escola lhes tivesse passado ao lado sem deixar o vício da dúvida. Como se o acesso ao conhecimento não trouxesse o dever de o usar.

Vivemos na era em que o próprio telefone avisa. Literalmente. Possível fraude, diz o ecrã, em letras que não precisam de ser decifradas. E ainda assim há quem atenda, ouça até ao fim e entregue os dados bancários a uma voz gravada com sotaque de call center.

O ecrã avisa.
A dúvida devia avisar também.
Mas essa não vem instalada de fábrica.

2026-06-02

Boato


Chegou junho, o mês dos santos populares, das sardinhas e… da minha manta de pelo sintético. Pelos vistos, o São Pedro confundiu o verão com uma vaga polar e decidiu brindar-nos com um inverno fora de época.

O meu joelho, esse meteorologista infalível, já andava há dias a avisar. Hoje, porém, tenho aviso amarelo em todos os ossos. Cada vértebra prevê aguaceiros e cada articulação jura que vai nevar na eira.

A este ritmo, passo o São João agarrada à botija de água quente e a chamar "verão" a um boato.

Crédito mal parado

Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.

___

Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.

Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.  

O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.

Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.

A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.

O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.

2026-06-01

A sombra do pastor



Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.

Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.

O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.

O pastor sorri.

2026-05-31

Silêncio operacional


Nunca fui de cliques nem de claques. A minha agenda tem espaço para respirar — deliberadamente, sem culpa, e com algum esforço para não ceder às pressões do tens de sair mais, tens de socializar, não podes ficar em casa outra vez.

Posso, sim.

Estar sozinha e estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário. Uma é escolha; a outra é circunstância. Confundem-se muito, lá fora — especialmente por quem não consegue estar cinco minutos sem companhia e acha que isso é virtude.

O problema não é a festa. É o botão.

Há dias em que o ligo com prazer, entro na corrente, faço parte do ruído. Tem apenas a ver com quando, quanto e onde estou disposta a fazê-lo. Nem sempre me apetece estar no meio das ondas; muitas vezes basta-me sentir a corrente.

Mas há cada vez mais dias em que o simples pensamento de ter de ser simpática, presente e ligada me cansa antes de sair de casa. Nesses dias, o melhor de mim fica no sofá.

Não sei se isto é introversão, sabedoria ou apenas uma capacidade cada vez menor para fingir entusiasmo quando ele não existe. O que sei é que o off deixou de ser fuga e passou a ser higiene.

E que há poluição sonora que não precisa de decibéis.

2026-05-30

Maio, mês de Maria


Último fim de semana de maio. Em Portugal, isso significa algo que vai além do calendário.

​Maio é o mês de Maria. Nas igrejas, nos nichos das esquinas, nas salas de jantar onde a televisão coexiste pacificamente com um terço pendurado na parede — a Virgem preside. É uma devoção que não precisa de explicação para quem cresceu aqui. É anterior à pergunta.

​Portugal tem com a Virgem uma relação que os manuais de história religiosa dificilmente esgotam. Não é apenas fé; é identidade, é política, é memória do corpo.

​A aliança começou cedo. D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique, teria feito um voto a Santa Maria. O país nascia sob proteção — ou assim quis a lenda, que é sempre mais verdadeira do que os factos quando se trata de fundar nações. Desde então, a Virgem e Portugal partilham um destino que resistiu a séculos de guerras, pestes e terramotos.

​Em 1917, esse destino ganhou morada: a Cova da Iria. Fátima transformou um país rural, pobre e politicamente convulso num centro de peregrinação mundial, dando à devoção mariana uma dimensão geopolítica que o Estado Novo soube ler com frieza. O apelo à consagração da Rússia e a ideia de Portugal como povo eleito encaixaram demasiado bem no imaginário do regime para ser coincidência. A Virgem não pediu para ser instrumentalizada. Nenhuma divindade pede.

Mas há algo anterior à teologia oficial. Algo que os santuários guardam nas pedras e nas fontes.

O culto mariano absorveu, ao longo dos séculos, elementos muito mais antigos: a Grande Mãe, os lugares de poder telúrico, as árvores sagradas. Muitos dos santuários mais venerados estão onde já se rezava antes de haver cristãos. Peneda, Lapa, Cabo — a geografia do país é uma constelação de pontos onde o sagrado teima em pousar, independentemente do nome que lhe demos.

​É aí que a devoção se torna mais honesta. É um catolicismo do corpo e da memória, não da crença articulada. Crê-se com os pés descalços no asfalto quente, não com a cabeça.

​E não se pode falar deste culto sem falar das mulheres que o sustentam. São as avós, as mães e as filhas que guardam esta devoção — e a mantêm viva. A Virgem é o polo de uma religiosidade afetiva que o catolicismo oficial, tão sistematicamente masculino, nunca controlou por completo. Há algo de autónomo, quase subversivo, nessa fidelidade. As mulheres rezam à Virgem de formas que o Vaticano não aprovou e, provavelmente, não compreende.

​Portugal secularizou-se rapidamente. A missa esvaziou-se, o clero envelheceu. E, no entanto, Fátima continua a mobilizar multidões. As velas continuam a arder. É como se a Virgem sobrevivesse à própria Igreja que a enquadra — como se a devoção tivesse raízes mais fundas do que qualquer instituição consegue alcançar.

​Não é a primeira vez na história do culto. Provavelmente, não será a última.

2026-05-29

A Distância de Segurança


Há qualquer coisa de comovente nos adeptos que chegam aos estádios embrulhados nas bandeiras dos seus países. A convicção com que carregam aquele pano às costas, como se a fé — suficientemente ruidosa — pudesse dobrar o resultado. Admiramos isso. Achamos bonito. Que paixão, dizemos, com aquele sorriso levemente condescendente de quem aprecia uma crença que não partilha.

Porque nós não fazemos isso. Não assim.

Portugal entra neste Mundial com o currículo mais sólido que alguma vez levou para uma competição destas. As análises chegam de todo o lado, os especialistas alinham argumentos, as probabilidades não nos desaforam. Nunca fomos tão temidos. Nunca fomos tão observados com o respeito cauteloso reservado aos favoritos. O mundo olha e vê um candidato. Nós olhamos e vemos — o quê, exatamente?

Vemos a hipótese. Admitimo-la, claro. Mas quase de mansinho, como quem menciona uma herança improvável de um tio distante. Pode ser, dizemos. Quem sabe. E já há quem vá pedindo desculpa por termos bons jogadores, como se a excelência fosse uma indelicadeza que precisasse de ser suavizada.

Não é modéstia. A modéstia tem uma certa elegância tranquila. Isto é outra coisa: uma desconfiança antiga do que é nosso, o reflexo de quem aprendeu que esperança própria é soberba, e soberba é anúncio de queda. Deixamos a convicção para os outros porque assim, se correr mal, não fomos nós que acreditámos.

Reconheço o mecanismo. Não sou imune.

Há algo de muito português — ou talvez apenas muito nosso — nesta forma de gostar das coisas à distância de segurança: admirar o otimismo dos outros com a generosidade que recusamos ao nosso, achar a esperança alheia corajosa e a própria excessiva. A galinha do vizinho é sempre mais gorda. Mas a nossa versão do provérbio é mais perversa: a galinha do nosso próprio quintal há de parecer sempre a mais mirrada, mesmo quando toda a gente de fora insiste no contrário.

Talvez ganhem. Talvez não. Isso, por agora, é irrelevante.

O que me ocupa é esta estranha incapacidade de habitar a esperança sem nos desculparmos por ela. Como se acreditar fosse um risco que os outros podem correr — e nós não.

2026-05-28

Gizo-me


Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em  Morse:

....  
..    
._ _ . 
._    
_     
..    
._    

.._.  
.     
._..  
..    
_ _..

2026-05-27

As rosas do Atacama


Conta Sepúlveda em As Rosas de Atacama que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen-Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". Foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as vidas breves que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que nem por isso são menos importantes.

​Chamou a esse livro Historias Marginales, nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a imagem de um deserto coberto de flores. Afinal, o livro vive das margens e do esquecimento. Vive de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e que, no entanto, são demasiado parecidas com todos nós: anónimas, a mais das vezes capazes de fugir e de se esconder, mas levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja numa única vida, a diferença.

​Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém a contou. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações.

​De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte também uma das nossas e mais uma rosa pintará de cor o deserto do esquecimento.

2026-05-26

Leveza


Há um momento exacto em que o Verão chega de verdade. Não é quando o termómetro passa os trinta graus, não é quando o mar atinge temperatura de banheira. É quando se abre o armário e se percebe que aquele casaco de lã que ficou pendurado ali desde Novembro está, pela primeira vez em meses, completamente desnecessário.

É um momento de alegria quase filosófica.

A roupa de Verão é uma das poucas áreas da existência humana em que menos é genuinamente mais. Um vestido largo — aqueles que são, em rigor, uma peça de tecido com um buraco para a cabeça e a convicção de que o resto se resolve — é a resposta correcta para quase todas as perguntas difíceis do dia. O que visto? Um vestido largo. Para onde vou? Não importa, o vestido vem. Estou triste? O vestido ondula ao vento e é difícil manter a tristeza enquanto se ondula.

Existe também uma dignidade particular em andar com os pés de fora.

Não estou a falar de sandálias elaboradas com tiras que sobem pelo tornozelo em espiral e demoram vinte minutos a apertar — essas são apenas sapatos com mais ambições e menos utilidade. Falo da sandália básica, a que se calça num segundo, a que permite que os pés respirem, sintam o chão, recordem ao corpo que existe uma terra firme ali em baixo e que não é preciso ter pressa. Os pés libertos andam diferente. Mais devagar, talvez. Com mais atenção.

O Inverno obriga-nos a carregar camadas. Camisolas sobre t-shirts, casacos sobre camisolas, cachecóis sobre casacos — tornamo-nos bonecas russas de nós próprios, embrulhadas em tecidos que vão acumulando os dias. O Verão faz o contrário: vai retirando. E há qualquer coisa de ligeiramente libertadora nisso, a ideia de que se pode sair à rua com a mínima quantidade de roupa socialmente aceitável e sentir que não falta nada.

Que, afinal, a leveza não é uma ausência.

É uma escolha.

2026-05-24

O Verão de São Calcanhar


Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.

Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.

Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.

Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.

Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.

Injustificada, mas admiro.

2026-05-23

O Peso das Crianças


Há amores que precisam de fazer arrumação antes de começar.

Este começou em França e foi deixando pelo caminho o que não cabia na bagagem. Primeiro o rapaz de dezasseis anos — idade suficiente para sobreviver, insuficiente para perceber que estava a ser descartado. Depois a viagem até Portugal, que não foi uma fuga nem uma aventura romântica, por mais que eles a tenham narrado assim a si próprios. Foi uma logística. Uma resolução de problema.

O problema chamava-se três anos. O problema chamava-se cinco anos. O problema tinha olhos.

Alcácer do Sal tem pinheiros e silêncio. Têm isso em comum com muitos lugares onde se enterram coisas. Deixaram as crianças vendadas — pormenor que merece ser lido devagar, porque a venda não serve a criança, serve quem abandona. Não quero que me vejam partir. Não quero carregar essa imagem. O conforto, até ao fim, era deles.

O pai biológico existia. Esta informação é importante. Não havia ausência de alternativa, havia recusa de alternativa. Entregar as crianças ao pai teria deixado rasto, implicado explicação, exigido um mínimo de confronto com o que estavam a fazer. A mata não pede nada. A mata não tem número de telefone.

Quando foram interceptados, tinham um plano: fingir deficiência mental. Combinaram-no friamente, entre si, com a segurança de quem não considera a hipótese de falhar — e com o desprezo de quem não considera a hipótese de em Portugal haver alguém que entende francês. O mundo, na sua cosmologia, era pequeno e estava do lado deles.

Não estava.

Há uma palavra para o que fizeram às crianças. Há outra para o que fizeram ao rapaz de dezasseis anos. Há uma terceira para o plano combinado em voz baixa, para a venda nos olhos, para a mata escolhida, para o pai ignorado.

Nenhuma dessas palavras é amor. Nenhuma é sequer o seu contrário.

É outra coisa. É a convicção, tranquila e organizada, de que os filhos são peso — e de que o peso se larga quando se quer começar a correr.

Afonia

"Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas"


José Carlos Ary dos Santos - Kyrie

Há uma afonia que não é falta de voz física. É o sufoco da alma: um universo inteiro para gritar, mas que esbarra no silêncio do mundo ou na hipocrisia das palavras que não dizem nada.

É o nó na garganta de quem se recusa a viver em tons de cinza, ou a aceitar o amor de plástico de quem nunca ardeu. A sede do visceral. A prece por quem carrega as palavras mais lindas do mundo dentro de si — e as sufoca, por medo ou por desterro.

Para que as palavras deixem de ser preto e branco, é preciso aceitar que proferi-las tem um custo. Não o custo da métrica ou da forma — o custo de quem ouve e reconhece que algo mudou.

A voz sem filtro não é descuido.
É uma declaração.

Recusar o revestimento da linguagem polida.

Recusar o amor que não arde, a paz que não custou nada.

Isso é um ato político — mesmo que só uma pessoa o ouça.

Que a tua voz morda.
Que queime.
Que incendeie o silêncio.

Um vulcão no peito não serve para sussurrar.

Banalidades




Olho o blogue na sua extensão e permanência.

Espremendo, sobram demasiados acessórios para encher a página: letras esparramadas à pressa e logo esquecidas, músicas que naquele momento faziam sentido e hoje talvez não, imagens que já nem sei porquê.
E alguns textos que ainda sinto, destes tantos anos de voz em fuga — os mais pessoais, os mais íntimos, os mais estranhamente a nu.

Isto é só um blogue. Desde o início assumi que seria sobre banalidades, as minhas banalidades no seu sentido etimológico mais profundo: o do ban, a circunscrição feudal.

Estou confortável com o meu ban — este pequeno feudo feito de tudo o que realmente faz parte do meu mundo e do que nesse mundo é importante para mim. Até mesmo quando ando demasiado perdida de mim e das fronteiras e linhas com que me coso, enquanto a vida vai continuando a descosturar.

2026-05-21

Tudo começa com café


Há quem diga que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Eu digo que é a mais traidora. Começas o dia com a ilusão de que um café e uma torrada são capazes de te transformar num ser funcional, quando, na verdade, são apenas o preâmbulo de uma série de más decisões. O açúcar do pão com manteiga é o primeiro passo para a rendição à mediocridade; o café, esse, é a desculpa líquida para não matares ninguém antes das nove da manhã.

E depois há os health freaks, esses mártires do iogurte grego e das sementes de chia, que olham para o meu pão com manteiga como se fosse um crime contra a humanidade e mastigam alpista logo às oito da manhã, como se o trânsito e as reuniões de Teams fossem doer menos porque comeram antioxidantes. Ou como se a virtude se medisse em gramas de fibra. Eu prefiro o meu pecado matinal, assumido, sem hipocrisias. Afinal, se a vida já é uma merda, pelo menos que o pequeno-almoço seja bom.

E a solidão do pequeno-almoço? Nada revela mais a condição humana do que uma pessoa sozinha à mesa, a olhar para o telemóvel como se este fosse capaz de lhe dar um sentido para o dia. Ou pior: um casal em silêncio, mastigando em uníssono. O amor, no fim, também tem ritmo.

2026-05-20

Quinta-feira


O vento não desarruma: revela.

​O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.

​Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.

​O resultado está à vista.

​Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.

2026-05-18

Remates


A miosótis é conhecida como a flor do "não-me-esqueças". É uma metáfora bonita, com um selo de romantismo vitoriano, mas a minha paciência tem um limite estrito e, neste momento, o meu maior desejo é esquecer onde guardei a agulha de rematar.

​Decidi fazer uma carteira. O pretexto é o costume: a busca pela autenticidade do handmade, a resistência contra o plástico chinês, a ilusão de que estou a criar um pilar da moda contemporânea. O resultado, na prática, é um puzzle têxtil tridimensional que exige a precisão de um neurocirurgião e a paciência de um monge budista. Cada flor de miosótis é um módulo. Cada módulo precisa de ser unido ao seguinte. E quando o padrão finalmente se arma, surge o verdadeiro teste à sanidade mental: os remates.

​Há dezenas de fios soltos a implorar por um acabamento invisível. Olho para aquilo e percebo que a carteira, mais do que um acessório elegante, é um monumento à minha procrastinação. Vai ficar assim, meio aberta, meio desfiada. Se alguém perguntar na rua, não é falta de paciência. É design conceptual. É a estética do inacabado. É desconstrucionismo portuense.

​Afinal, a miosótis pede para não ser esquecida, mas ninguém disse que tinha de vir rematada.

2026-05-17

Perfumes

Hoje ofereceram-me rosas amarelas. Esteticamente perfeitas — as curvas no lugar, o verde dos caules calculado, a armação de rede a condizer. Recebi-as encantada.

São rosas certificadas, como os pêssegos perfeitos e sem sabor. Perfeitas na aparência, amputadas de perfume. Sem espinhos também — rosas que só o são pela metade, que entram pela pupila mas que o nariz não reconhece.

Ainda alguém seca flores? As pendura no escuro, viradas para baixo, ou as prime por entre as páginas de um livro? Ainda alguém espera, meses depois, reencontrar as flores ressequidas — e com elas um vago odor de primavera?

Vou pôr estas numa jarra e olhar para elas. Mas não vou ser surpreendida pelo perfume ao entrar em casa. Não vou saber que lá estão. São flores sem memória — e sem a capacidade de criar nenhuma. Imperfeitas na sua beleza inteira, porque decepadas da sua magia perfumada.

2026-05-16

Palavras amputadas


As palavras com que costumávamos nomear o mundo estão gastas. Não por desgaste honesto — pelo uso, pela luta, pelo atrito com a realidade — mas por abandono. Ficaram para trás enquanto o mundo continuava, e entretanto foram saqueadas: duas ou três sobreviveram, mas irreconhecíveis, insufladas até ao tamanho de parangona, esvaziadas de sentido cirúrgico, prontas a ser arremessadas.

Não fazem pontes. Fazem buracos.

Daí esta sensação persistente de caos: não é que as coisas se tenham tornado incompreensíveis. É que ficámos sem léxico para lhes chamar o nome — e com muito barulho no lugar onde esse léxico deveria estar.

Talvez fosse necessário inventar um glossário novo. Mas isso dava trabalho. E há sempre qualquer coisa mais urgente — ou que parece.

2026-05-14

O grande trollanço


Ia só pôr a imagem. Não chegava.

O que estão a ver não é um mapa. É uma carta enviada a Moscovo sem selo e sem remetente, pela cidade de Praga, com a frieza burocrática de quem percebeu que uma placa de rua pode ferir mais do que um discurso inflamado.

A Embaixada da Rússia ficou cercada. Não por manifestantes, não por sanções, não por declarações de cavalheiros indignados em palanques. Por nomes. Nemtsov, assassinado quase à porta do Kremlin. Navalny, que Moscovo tentou primeiro envenenar, depois apagar. Politkovskaya, que denunciou crimes de guerra e acabou morta à porta de casa. E, como remate sem subtileza, a Rua dos Heróis Ucranianos.

O golpe está no detalhe administrativo, que é onde os golpes mais elegantes costumam estar: uma embaixada é obrigada a usar a morada oficial em toda a correspondência. Cartas diplomáticas, papel timbrado, convites — tudo passa a carregar, involuntariamente, os nomes que o regime tentou apagar.

Moscovo tentou escapar mudando a entrada para uma rua lateral. Praga renomeou também essa rua.

Não houve confrontos. Não houve discursos. Apenas uma cidade a usar mapas e burocracia como instrumentos de memória permanente. A embaixada existe hoje no centro de um cerco que não se desfaz com um protocolo diplomático nem com uma nota de protesto.

Como se Praga dissesse, com aquele humor seco da Europa Central: podem ocupar o edifício. O mapa pertence-nos.

A institucionalização do bairrismo


A institucionalização do bairrismo é a forma académica de dizer que pegámos na nossa necessidade primária de marcar território e lhe demos um selo da Câmara. O pretexto é a globalização: como o mundo está a ficar todo igual, agarramo-nos à identidade local como última boia de salvação.

​O que podia ser resistência genuína torna-se, na prática, uma checklist: a festa do castelo, a Semana Santa, o santo da paróquia, as roulottes de farturas. Multiplica-se o modelo por cada localidade que quer ser "diferente" e o resultado é uma monocultura do particular — toda a gente a ser única exatamente da mesma maneira. Até os nossos perigos foram catalogados. As cestas, que nos ensinavam o medo e a vertigem, foram desaparecendo entre inspeções, seguros e normas de segurança. Os carrinhos de choque agora exigem o decoro de um simulador de condução, sem o choque real de quem não tem idade mínima ou capacete.

Depois, ​o júri vota nos da terra porque votar neles é votar em nós próprios; e isso nunca precisa de justificação. É resistência cultural. É identidade. Toda a gente sabe o que aconteceu no Festival — a conveniência de quem se dispõe a ir onde outros não vão — mas ninguém diz nada. Segue em frente. Em Lisboa fazem o mesmo, mas com fundos europeus e fotografia para o Financial Times. Nós, cá em cima, temos pelo menos a decência de não fingir que é outra coisa.

​Mas aqui está o problema com os espelhos: mostram o que não se quer ver. Eu também sinto a minha veia tripeira saltar da camisa quando alguém diz mal das tripas. Sei que a pronúncia do Norte não é um erro — é a pronúncia certa; o resto é que se enganou. E dói-me o que perdemos pelo caminho, como a fogueira para saltar no São João.

​Afinal, falamos de uma festa pagã de luz e fogo, mas reduziram o nosso incêndio a um espetáculo de pirotecnia tão perfeito e asséptico que já não sabemos se é junho no Porto ou a passagem de ano no Funchal. O fogo agora é apenas para contemplar à distância, enquanto os balões são os vilões anuais. Querem-nos a olhar para o céu, pasmados, enquanto nos pés, onde antes havia cinza e coragem, agora só há o asfalto limpo de uma festa que esqueceu como se arde.

​Sei tudo isto e não mudo nada, porque há coisas que não são convicções. São sotaque. Os ditongos nasalados não se escolhem. Também não se pede desculpa por eles. Enquanto isso, o Manuel da esquina continuará a grelhar entrecosto, promovido a pilar da civilização ocidental.

2026-05-09

Meio meio


Há quem insista em encontrar luz mesmo quando o dia já desistiu. Não sei se é escolha ou feitio — provavelmente os dois, em proporções que variam. Sei que a amargura habitual tem custos: inferniza quem a carrega, inferniza quem partilha o tempo com ela e fecha a porta à esperança mesmo quando a esperança ainda existe — até contra a doença, até contra a ampulheta inclemente do tempo que passa. O momento não espera que a gente esteja pronta para o apreciar.

2026-05-08

Poema das mulheres constipadas

 


Nariz entupido, corpo em guerra,
Dores nos ossos, cabeça na terra,
Chá de limão, mel, gengibre e sal,
Aspirinas, xarope e mais um comprimido afinal.
Ninguém me mede a febre nem vê a goela,
Ninguém fecha a porta nem cala a janela,
Ninguém me traz a colcha nem aquece o pé,
Porque sou mulher e isso não se faz, pois é.
Aqui estou eu, a pingar sozinha,
A fazer a canja e a dobrar a roupa fininha,
A responder a mensagens com um assoar ao meio,
Ai que vou morrer — mas faço o jantar sem receio.

2026-05-07

Arquitetura de Fachada


Hoje vale a pena pôr maquilhagem?

​A resposta não está no espelho, mas na agenda.

​Maquilhagem é gastar recursos limitados de paciência e pigmento para apresentar uma versão civilizada ao mundo. Mas a civilização tem custos de manutenção.

​Pôr rímel? Só se houver alguém que mereça o esforço de não esfregar os olhos quando a conversa ficar aborrecida. O rímel exige uma disciplina diplomática que nem todos os interlocutores justificam.

​Batom vermelho? É uma declaração de guerra. Ou de intenções. Se o dia for passado a negociar com o nada, é um desperdício de artilharia.

​Base e corretor? Para esconder as olheiras de quem leu até às três da manhã? Não. A olheira é o meu único sinal honesto de que o mundo exterior está a ser cansativo.

​Se o raio de ação não ultrapassar o comprimento do meu braço, a pele respira. Se o protocolo exigir presença física num andar sem elevador, a cara lavada é a minha política de austeridade.

​Veredito: Hoje? Hoje fico-me pelo hidratante. O mundo não fez por merecer o meu melhor corretor de olheiras.

2026-05-06

Teoria Geral dos Degraus


A resposta correcta é: depende do andar. Um andar sem ninguém não justifica os joelhos. E há alguéns que justificam uma retirada estratégica para a subcave. Mas então a subcave tem de ter algo que valha a pena. Bom vinho, por exemplo...

Elevador. Sem negociação.

Margem de segurança analógica


A formação é sobre Inteligência Artificial. O GPS não encontrou a morada. 

Há uma elegância quase poética nisto: uma empresa que vende o futuro tecnológico a profissionais do presente não consegue fornecer uma localização que um satélite reconheça. O edifício existe — presumivelmente. A rua, talvez. As coordenadas, aparentemente, não.

Cheguei a tempo. Porque saí mais cedo. Porque desconfiei. A tecnologia falhou; a margem de segurança analógica salvou. Encontrei o lugar à moda antiga — olhos abertos, pernas a trabalhar, um transeunte com memória local.

Na sala, vão falar de machine learning.

Lá fora, eu tinha acabado de fazer o quê, exatamente?

2026-05-05

Espaço Aéreo Controlado


Não sou pessoa de contacto. Nunca fui.

O espaço necessário é mensurável: a distância que vai do meu braço estendido até à mão que vem em sentido contrário. Geometria simples. Protocolo universal. Ou devia ser.

Há quem não leia sinalizações. Quem se incline sem convite, derrame conversa e proximidade, ofereça visões não solicitadas de dentição e flora nasal. Quem confunda presença com autorização.

Não confundo.

O meu espaço é feudo. Tem fronteiras, tem leis, tem historial de conflitos. A armadura está disponível e o mau humor é política externa oficial.

A invasão não precisa de ser declarada para ter consequências.

2026-05-03

O eco


Dantes, jurava que seria diferente. Outro passo. Outra voz. Nenhum rasto.

Não fui. Não sou.

O tempo não corrige. Insiste.
Agora, no meio de um desabafo ou de uma ordem atirada à pressa, ouço-me. E não sou só eu. É ela. Na inclinação da frase. No olhar que cai direto no erro. No “estás a ver?” que nem precisa ser dito.

Abro a boca. E a minha mãe aparece.

No início, estranhei. Soou a falha. A cópia.

Hoje, não.

A menina que pisa o dia cresceu. E percebe: isto não é desvio. É estrutura.

Quando tudo baralha — a pressa, o ruído, a segunda-feira — não estou sozinha. Nunca estive.

Há uma linha firme. Um lastro.

Não é feitio.

É herança.

2026-05-01

Maias


No dia 25 de Abril de 1974, morreu em Portugal o Medo de Falar. Tinha 48 anos. A família agradeceu a quem o acompanhou à última morada no dia 1.º de Maio. Tratou a Funerária M.F.A.

O enterro correu bem. Houve flores, punhos erguidos, muita gente na rua. O problema, como sempre, é o que acontece depois dos enterros: a família fica, os credores aparecem e há sempre alguém que jura ter visto o defunto a mexer-se.

Cinquenta e dois anos depois, o 1.º de Maio é feriado — o que significa, dependendo do ano e do calendário, uma oportunidade de fazer uma ponte, engarrafar a A1 em sentido contrário e postar fotografias de brunch. Os discursos existem, como existem sempre: palavras que soam a reivindicação mas chegam já domesticadas, sem unhas, sem dentes, com o volume calibrado para não incomodar ninguém de importância. A luta continua, diz-se. Continua onde, exactamente, não se especifica.

Entretanto, lá fora, o mundo trabalha. Nos armazéns, nas plataformas, nos contratos de prestação de serviços que são vínculos laborais com outro nome e menos direitos. A precariedade não usa farda — usa aplicação, usa algoritmo, usa a linguagem da liberdade para descrever a servidão. És o teu próprio patrão. O defunto, ao que parece, tem primos.

Mas hoje é também o dia das maias.

A tradição manda pôr ramos de flores silvestres à porta — giesta, espinheiro, erva-benta — para afastar as pragas do Verão que se aproxima. O carrapato, em particular: pequeno, paciente, invisível até estar já enterrado na pele, a sugar com uma dedicação que envergonharia muitos profissionais. A sabedoria popular identificou-o há séculos como inimigo a manter do lado de fora.

A sabedoria popular sabia o que fazia.

Ponham maias à porta. A todas as portas.

1° de Maio


 

Entrevista a Hipatia


Pergunta 1

O Voz em Fuga começou em 2004. O que é que ainda hoje a obriga a escrever, depois de tudo o que já foi dito?

Hipátia:

Não escrevo porque ainda haja algo de novo a dizer. Escrevo porque o mundo insiste em repetir-se com outras palavras, e a linguagem, se não for vigiada, fica preguiçosa. Enquanto isso acontecer, escrever é uma forma de atenção. Não uma obrigação moral — um exercício de lucidez.

Pergunta 2

Escrever durante mais de duas décadas no mesmo espaço online criou uma obra ou apenas um hábito?

Hipátia:

Um hábito pode ser a forma mais honesta de uma obra. Nunca planeei um edifício; limitei-me a varrer o mesmo chão. Se isso desenhou um mapa, foi por insistência, não por projeto.

Pergunta 3

Nunca sentiu necessidade de mudar de lugar, de nome ou de forma?

Hipátia:

Mudar de lugar é fácil. Permanecer é mais difícil. Ficar impôs-me contenção, responsabilidade e memória. Não me interessava recomeçar; interessava-me aprofundar.

Pergunta 4

O blogue foi durante anos visto como forma provisória. Hoje, parece-lhe que foi uma vantagem?

Hipátia:

Sim. A provisoriedade protege da vaidade. Escrever sem promessa de permanência liberta o texto da urgência de provar o seu valor. Paradoxalmente, é isso que lhe permite durar.

Pergunta 5

Há textos que envelheceram melhor do que outros. Consegue explicar porquê?

Hipátia:

Os que resistiram são os que não estavam convencidos do momento em que nasceram. A atualidade é um péssimo critério de sobrevivência.

Pergunta 6

Escrever sabendo que o texto vai envelhecer muda a maneira como se escreve?

Hipátia:

Muda o tom. Torna-o menos histérico, menos seguro de si. Obriga a escolher palavras que não dependam do aplauso imediato.

Pergunta 7

Muitos dos seus textos partem da atualidade, mas recusam o comentário imediato. É uma escolha estética ou moral?

Hipátia:

É ética. O imediato raramente pensa. Reage. A escrita precisa de atraso — como a digestão.

Pergunta 8

Acredita que a indignação rápida empobrece a linguagem?

Hipátia:

A indignação é necessária. O problema é quando se torna automática. A linguagem passa a gritar o que ainda não compreendeu.

Pergunta 9

É possível escrever politicamente sem escrever slogans?

Hipátia:

Se não fosse, não escreveria. A política não vive só do que se afirma, mas do que se recusa simplificar.

Pergunta 10

Porque insiste no banal — casas, sofás, silêncio, cansaço — quando o mundo parece sempre em colapso?

Hipátia:

Porque é no banal que o colapso se instala primeiro. As grandes palavras chegam sempre tarde.

Pergunta 11

O quotidiano protege-nos da abstração ou revela-a?

Hipátia:

Revela-a. O corpo sente antes do conceito. Uma sala desconfortável é, muitas vezes, mais honesta do que um discurso bem arrumado.

Pergunta 12

O “eu” nos seus textos é discreto. O que perde — e o que ganha — com essa contenção?

Hipátia:

Perde-se biografia. Ganha-se espaço. Nunca me interessou ser personagem daquilo que escrevo.

Pergunta 13

Hoje espera-se que quem escreve se exponha, se explique, se narre. Essa expectativa é incompatível com o seu trabalho?

Hipátia:

É incompatível com a minha paciência. Há coisas que só se dizem retirando-se.

Pergunta 14

Se Voz em Fuga fosse livro, o que ficaria de fora sem hesitação?

Hipátia:

Tudo o que precise de contexto para se justificar. Um livro não pode pedir desculpa pelo tempo em que foi escrito.

Pergunta 15

Um livro encerraria o projeto ou apenas o deslocaria?

Hipátia:

Deslocaria. Nada se encerra enquanto houver mundo para olhar — mesmo com cansaço.

Pergunta 16

Escrever ainda muda alguma coisa — nem que seja o olhar?

Hipátia:

Muda o meu. E isso já não é pouco.

Pergunta 17

O que continua a merecer atenção num tempo saturado de opinião?

Hipátia:

As zonas onde ninguém quer ficar muito tempo: dúvida, silêncio, ambiguidade.

Pergunta 18

O que a faria parar de escrever?

Hipátia:

Talvez o dia em que a linguagem deixasse de resistir ao que é fácil.

Ou o dia em que eu deixasse de tentar.

2026-04-30

Como não assustar o espelho antes do café


Enquanto o Verão ensaia uma entrada triunfal só para desistir dois dias depois, dou por mim a reconsiderar seriamente as virtudes dos auto-bronzeadores sempre que me cruzo com o meu reflexo logo pela manhã. Eu, sem maquilhagem e a cores, pareço uma aparição recém-promovida do além. Chega a ser um susto em primeira mão — e ninguém merece esse tipo de experiência antes do café, muito menos com a bexiga a implorar por atenção.

Convenhamos: medo e bexigas cheias são uma combinação de alto risco. E, com um olho ainda em modo de poupança de energia e o outro ainda a dormir, dar de caras com aquela figura desalinhada não é propriamente o melhor “bom dia”. Às vezes pergunto-me porque é que o espelho não vem com filtro a preto e branco de origem — sempre poupava na nitidez dos estragos.

O problema é que a última vez que tentei resolver isto com um auto-bronzeador acabei com um tom suspeitosamente amarelo. E se já é duvidoso parecer um fantasma, pior ainda é parecer um fantasma com diagnóstico clínico.

2026-04-29

Dia Internacional da Dança


Acho que me apetecia dançar. Acho que só me apetecia dançar. Ter par para um passo de dança e uns braços com o ritmo certo.

​Estico o braço, a mão aberta e virada para baixo, suspensa no ar como quem lança uma âncora ao mar. Espero que outra mão a venha buscar, que a envolva e me tire deste eixo de cansaço.

​Queria apenas o abraço que acontece entre um passo e outro. Queria o lugar onde o tempo nos habita e o mundo, finalmente, se cala.

Corpos desaguados de ritmo e deste estar para aqui longe e sozinha e cansada e com tanta vontade de dançar, dançar-nos, dançar-te.

2026-04-27

Dias barulhentos


«Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.»

Álvaro de Campos

Gosto de um certo tipo de silêncio que apenas advém da fartura. Vem depois de abraços, de saudades, de beijos e de partilhas. Vem e fica, por instantes. E é dele que vou alimentando os dias barulhentos em que quase me perco de mim e das coisas e das pessoas que me preenchem.

2026-04-26

Fulanização


De um momento para o outro, pior do que um tutear que não foi pedido ou concedido, temos a fulanização total e absoluta, passando toda a gente a fulano. E os fulanos, por norma, são aqueles que berram pelos direitos que nem sabem que têm porque outros berraram antes e berram ainda mais contra os direitos dos outros, os tais que nem sabem que existem. E estes fulanos que berram há muito que se eximiram da cidadania. Pior, nesta democracia de fulanos, os fulanos são sempre os outros. E, esses, claro que não têm os mesmos direitos que o fulano que berra, especialmente se os direitos de uns e outros estão em confronto. Porque a liberdade dos fulanos nunca acaba onde começa a liberdade de outro fulano. Assume que a sua liberdade de fulano é a única ilimitada.

2026-04-25

Liberdade




Há uma ironia deliciosa na forma como o tempo decide guardar os seus segredos e baralhar as nossas certezas. No dia 25 de abril de 1974, "Grândola, Vila Morena" era um sussurro de rádio, uma senha clandestina que viajava nas ondas curtas para abrir as portas de uma liberdade que parecia impossível. Era uma música de terra, de barro e de braços dados, desenhada para ser o código de um destino coletivo.


​Cinquenta anos depois, a senha mudou de frequência e de roupagem. Deixou de ser o sinal de um golpe de estado para se tornar o eco de um algoritmo global. É fascinante observar que a canção de José Afonso — o homem que cantava a fraternidade sem precisar de luzes de ribalta — se viu subitamente vestida de vermelho, sob as luzes de alta definição de uma plataforma de streaming. Para o mundo, a "Grândola" viajou mais depressa como entretenimento do que como história, e há uma beleza doce, ainda que penetrada pelo paradoxo, neste fenómeno de massa.


​O alcance desta nova vida é tão vasto que os ecos originais da democracia portuguesa parecem agora pequenos perante a escala do digital. Prova disso é o momento quase surreal de encontrar, sob o sol do Egito, um guia local que a cantarolou com naturalidade. Ele talvez não saiba localizar o Alentejo num mapa, nem conheça o peso do silêncio que a canção quebrou naquela madrugada de abril, mas ele reconhece o "frêmito" da melodia. A série deu à música um par de asas digitais e, embora a tenha transformado em produto de consumo, não conseguiu roubar-lhe a essência. Pelo contrário, espalhou a semente da resistência para lá das fronteiras da língua e da geografia.


​Este novo fôlego é o sinónimo perfeito dos nossos tempos: a ideia de liberdade tornou-se contagiosa através da ficção, provando que a alma de uma canção é capaz de sobreviver até à sua própria comercialização. Talvez o Zeca, com o seu sorriso enigmático, achasse uma graça profunda a este desfecho. Afinal, ele sempre escreveu que o povo é quem mais ordena, e o povo, agora global e ligado por cabos de fibra ótica, decidiu que esta música lhe pertence por direito emocional. É um final feliz para uma canção que nasceu para libertar um país e acabou por se libertar de si mesma para ir consolar quem a quiser cantar, seja nas ruas do Cairo ou num ecrã em Tóquio, provando que, cinco décadas depois, o mundo ainda quer ter, em cada esquina, um amigo.


2026-04-23

​O Paraíso dos Desdentados


Se Richter tivesse razão, Portugal seria um país de eternos habitantes. Mas há paraísos que se esvaziam por dentro — lugares onde a memória não desaparece, apenas se torna seletiva, dócil, inofensiva.

​Estamos nas vesperas do 25 de Abril e a máquina da efeméride já aquece os motores. Celebraremos, como sempre, o que já não nos ameaça. A memória, quando perde os dentes, transforma-se em cerimónia. Em desfile. Em coisa arrumada na gaveta dos feriados nacionais.

​Os fantasmas continuam lá, mas já não mordem. E por isso podemos acenar-lhes com tranquilidade, como quem reconhece uma fotografia antiga sem sentir o pulso acelerar. O "velho das botas" pertence agora ao arquivo, não ao medo. E é precisamente essa ausência de perigo que permite a coragem tardia dos nossos dias: a facilidade de homenagear o que já não pode responder, nem contradizer, nem punir.

​Entretanto, no vácuo deixado pela utopia, ficaram outros. Não os que mandaram durante décadas com mão de ferro, mas os que sobrevivem em ciclos de quinze minutos. Gente de superfície, de ruído curto, de obra nenhuma. São os gestores do "agora", impecáveis na técnica e vazios na entrega.

​Já não há futuro suficiente para chamarmos utopia. Há apenas a administração do presente — limpa, técnica, irrepreensível.

​Talvez seja esse o verdadeiro esquecimento: não o ato de perder o passado, mas o de perder, finalmente, a necessidade dele.

2026-04-22

Teorema das sofanadelas


A minha sala tem uma planta trapezoidal tão estranha que até os móveis parecem sofrer de labirintite. Mas o meu feitio também é “de ladecos” e, assim, a minha busca pelo sofá ideal demorou quatro anos de pura indecisão — que acabou num sofá preto, quando jurava que queria um azul.

Mas o que importa não é a cor, nem o ângulo de 45 graus com que ele ficou encostado à parede. O que importa é que foi desenhado para a arte da sesta.

Deitei-me e senti-o: perfeitamente calibrado para as sofanadelas. Daquelas com direito a sesta profunda e àquele fio de baba estratégico no canto da boca.

Foi então que percebi: não há salas perfeitas, nem ângulos retos que salvem uma vida atribulada. Há, isso sim, sofás que nos encontram quando já desistimos de os procurar.

E foi ali, entre o encosto e a almofada, que o meu α finalmente fez sentido. Conforto elevado, ângulo irrelevante… e quem nunca acordou babado, que atire a primeira almofada.

2026-04-20

O Purgatório tem Wi-Fi (mas a password expirou)



​Estou há uma semana retida no Triângulo das Bermudas da modernidade: o suporte técnico. É um lugar fascinante, onde a lógica vai para morrer e onde frases como “tentou reiniciar?” são proferidas com a gravidade de quem está a sugerir uma cirurgia de peito aberto.

​A minha autonomia — aquela que me permitiu sobreviver aos anos 80 sem um GPS ou um adulto funcional por perto — está a ser lentamente asfixiada por um chatbot chamado "Artur", que tem a empatia de uma pedra e o vocabulário de um folheto de instruções traduzido por inteligência artificial de baixo custo. O Artur quer saber se estou satisfeita. O Artur quer que eu avalie a minha experiência. O Artur ainda não percebeu que, na minha escala de valores atual, a única "experiência" que me satisfaria envolvia um martelo de 5kg e o servidor central desta empresa.

​Dizem que a tecnologia veio para nos libertar. De facto, estou libertíssima: de trabalhar, de produzir e de manter o meu índice glicémico abaixo do nível de alerta. Passo os dias a olhar para círculos que giram, ícones de carregamento que são o equivalente digital a um manguito, e a preencher captchas para provar que sou humana. É irónico. Sinto-me cada vez menos humana e cada vez mais como uma peça defeituosa numa simulação escrita por um estagiário sádico.

​O que mais me irrita não é a avaria. É a condescendência do sistema. É a música de espera em sintetizador que tenta convencer-me de que "a minha chamada é muito importante", enquanto o contador de tempo me informa que sou a número quarenta e dois na fila para o nada. É a submissão exigida por um código que não aceita a minha password porque, aparentemente, a minha vida não tem carateres especiais suficientes.

​Sete dias disto. Se fosse em 1986, eu já tinha aberto a carcaça do computador, soprado nos contactos e resolvido a questão com um par de insultos bem direcionados. Hoje, sou obrigada a "abrir um ticket". Um ticket. Como se estivesse na fila para um carrossel que não anda, num parque de diversões em chamas.

​Dizem que a paciência é uma virtude. Eu digo que a paciência é apenas a falta de um plano de fuga. Mas não se preocupem: se amanhã não houver texto, é porque a minha voz finalmente fugiu. Não por vontade própria, mas porque o servidor decidiu que a minha existência requer uma atualização de software que eu não pedi nem quero, mas que tenho de aguardar.