2026-06-13
2026-06-12
A tragédia da toalha
2026-06-11
O amanhã
O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.
A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.
O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.
O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.
O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.
Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.
Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.
Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.
O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.
2026-06-10
O sol pôs-se, mas há luar
2026-06-09
Beirute
2026-06-08
Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)
2026-06-07
Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)
2026-06-06
A melancolia como serviço mínimo
Insuportável
2026-06-05
Da data
2026-06-04
Herdeiros de quem?
2026-06-03
Buffet Livre
2026-06-02
Boato
Crédito mal parado
Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.
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Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.
Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.
O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.
Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.
A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.
O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.
2026-06-01
A sombra do pastor
2026-05-31
Silêncio operacional
2026-05-30
Maio, mês de Maria
2026-05-29
A Distância de Segurança
2026-05-28
Gizo-me
Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em Morse:
2026-05-27
As rosas do Atacama
2026-05-26
Leveza
2026-05-24
O Verão de São Calcanhar
Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.
Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.
Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.
Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.
Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.
Injustificada, mas admiro.
2026-05-23
O Peso das Crianças
Afonia
"Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas"
José Carlos Ary dos Santos - Kyrie
Banalidades
2026-05-21
Tudo começa com café
2026-05-20
Quinta-feira
O vento não desarruma: revela.
O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.
Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.
O resultado está à vista.
Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.
2026-05-18
Remates
2026-05-17
Perfumes
2026-05-16
Palavras amputadas
2026-05-14
O grande trollanço
A institucionalização do bairrismo
2026-05-09
Meio meio
2026-05-08
Poema das mulheres constipadas
Nariz entupido, corpo em guerra,
Dores nos ossos, cabeça na terra,
Chá de limão, mel, gengibre e sal,
Aspirinas, xarope e mais um comprimido afinal.
Ninguém me mede a febre nem vê a goela,
Ninguém fecha a porta nem cala a janela,
Ninguém me traz a colcha nem aquece o pé,
Porque sou mulher e isso não se faz, pois é.
Aqui estou eu, a pingar sozinha,
A fazer a canja e a dobrar a roupa fininha,
A responder a mensagens com um assoar ao meio,
Ai que vou morrer — mas faço o jantar sem receio.
2026-05-07
Arquitetura de Fachada
2026-05-06
Teoria Geral dos Degraus
Margem de segurança analógica
2026-05-05
Espaço Aéreo Controlado
2026-05-03
O eco
2026-05-01
Maias
Entrevista a Hipatia
Pergunta 1
O Voz em Fuga começou em 2004. O que é que ainda hoje a obriga a escrever, depois de tudo o que já foi dito?
Hipátia:
Não escrevo porque ainda haja algo de novo a dizer. Escrevo porque o mundo insiste em repetir-se com outras palavras, e a linguagem, se não for vigiada, fica preguiçosa. Enquanto isso acontecer, escrever é uma forma de atenção. Não uma obrigação moral — um exercício de lucidez.
Pergunta 2
Escrever durante mais de duas décadas no mesmo espaço online criou uma obra ou apenas um hábito?
Hipátia:
Um hábito pode ser a forma mais honesta de uma obra. Nunca planeei um edifício; limitei-me a varrer o mesmo chão. Se isso desenhou um mapa, foi por insistência, não por projeto.
Pergunta 3
Nunca sentiu necessidade de mudar de lugar, de nome ou de forma?
Hipátia:
Mudar de lugar é fácil. Permanecer é mais difícil. Ficar impôs-me contenção, responsabilidade e memória. Não me interessava recomeçar; interessava-me aprofundar.
Pergunta 4
O blogue foi durante anos visto como forma provisória. Hoje, parece-lhe que foi uma vantagem?
Hipátia:
Sim. A provisoriedade protege da vaidade. Escrever sem promessa de permanência liberta o texto da urgência de provar o seu valor. Paradoxalmente, é isso que lhe permite durar.
Pergunta 5
Há textos que envelheceram melhor do que outros. Consegue explicar porquê?
Hipátia:
Os que resistiram são os que não estavam convencidos do momento em que nasceram. A atualidade é um péssimo critério de sobrevivência.
Pergunta 6
Escrever sabendo que o texto vai envelhecer muda a maneira como se escreve?
Hipátia:
Muda o tom. Torna-o menos histérico, menos seguro de si. Obriga a escolher palavras que não dependam do aplauso imediato.
Pergunta 7
Muitos dos seus textos partem da atualidade, mas recusam o comentário imediato. É uma escolha estética ou moral?
Hipátia:
É ética. O imediato raramente pensa. Reage. A escrita precisa de atraso — como a digestão.
Pergunta 8
Acredita que a indignação rápida empobrece a linguagem?
Hipátia:
A indignação é necessária. O problema é quando se torna automática. A linguagem passa a gritar o que ainda não compreendeu.
Pergunta 9
É possível escrever politicamente sem escrever slogans?
Hipátia:
Se não fosse, não escreveria. A política não vive só do que se afirma, mas do que se recusa simplificar.
Pergunta 10
Porque insiste no banal — casas, sofás, silêncio, cansaço — quando o mundo parece sempre em colapso?
Hipátia:
Porque é no banal que o colapso se instala primeiro. As grandes palavras chegam sempre tarde.
Pergunta 11
O quotidiano protege-nos da abstração ou revela-a?
Hipátia:
Revela-a. O corpo sente antes do conceito. Uma sala desconfortável é, muitas vezes, mais honesta do que um discurso bem arrumado.
Pergunta 12
O “eu” nos seus textos é discreto. O que perde — e o que ganha — com essa contenção?
Hipátia:
Perde-se biografia. Ganha-se espaço. Nunca me interessou ser personagem daquilo que escrevo.
Pergunta 13
Hoje espera-se que quem escreve se exponha, se explique, se narre. Essa expectativa é incompatível com o seu trabalho?
Hipátia:
É incompatível com a minha paciência. Há coisas que só se dizem retirando-se.
Pergunta 14
Se Voz em Fuga fosse livro, o que ficaria de fora sem hesitação?
Hipátia:
Tudo o que precise de contexto para se justificar. Um livro não pode pedir desculpa pelo tempo em que foi escrito.
Pergunta 15
Um livro encerraria o projeto ou apenas o deslocaria?
Hipátia:
Deslocaria. Nada se encerra enquanto houver mundo para olhar — mesmo com cansaço.
Pergunta 16
Escrever ainda muda alguma coisa — nem que seja o olhar?
Hipátia:
Muda o meu. E isso já não é pouco.
Pergunta 17
O que continua a merecer atenção num tempo saturado de opinião?
Hipátia:
As zonas onde ninguém quer ficar muito tempo: dúvida, silêncio, ambiguidade.
Pergunta 18
O que a faria parar de escrever?
Hipátia:
Talvez o dia em que a linguagem deixasse de resistir ao que é fácil.
Ou o dia em que eu deixasse de tentar.
2026-04-30
Como não assustar o espelho antes do café
2026-04-29
Dia Internacional da Dança
2026-04-27
Dias barulhentos
2026-04-26
Fulanização
2026-04-25
Liberdade
Há uma ironia deliciosa na forma como o tempo decide guardar os seus segredos e baralhar as nossas certezas. No dia 25 de abril de 1974, "Grândola, Vila Morena" era um sussurro de rádio, uma senha clandestina que viajava nas ondas curtas para abrir as portas de uma liberdade que parecia impossível. Era uma música de terra, de barro e de braços dados, desenhada para ser o código de um destino coletivo.
Cinquenta anos depois, a senha mudou de frequência e de roupagem. Deixou de ser o sinal de um golpe de estado para se tornar o eco de um algoritmo global. É fascinante observar que a canção de José Afonso — o homem que cantava a fraternidade sem precisar de luzes de ribalta — se viu subitamente vestida de vermelho, sob as luzes de alta definição de uma plataforma de streaming. Para o mundo, a "Grândola" viajou mais depressa como entretenimento do que como história, e há uma beleza doce, ainda que penetrada pelo paradoxo, neste fenómeno de massa.
O alcance desta nova vida é tão vasto que os ecos originais da democracia portuguesa parecem agora pequenos perante a escala do digital. Prova disso é o momento quase surreal de encontrar, sob o sol do Egito, um guia local que a cantarolou com naturalidade. Ele talvez não saiba localizar o Alentejo num mapa, nem conheça o peso do silêncio que a canção quebrou naquela madrugada de abril, mas ele reconhece o "frêmito" da melodia. A série deu à música um par de asas digitais e, embora a tenha transformado em produto de consumo, não conseguiu roubar-lhe a essência. Pelo contrário, espalhou a semente da resistência para lá das fronteiras da língua e da geografia.
Este novo fôlego é o sinónimo perfeito dos nossos tempos: a ideia de liberdade tornou-se contagiosa através da ficção, provando que a alma de uma canção é capaz de sobreviver até à sua própria comercialização. Talvez o Zeca, com o seu sorriso enigmático, achasse uma graça profunda a este desfecho. Afinal, ele sempre escreveu que o povo é quem mais ordena, e o povo, agora global e ligado por cabos de fibra ótica, decidiu que esta música lhe pertence por direito emocional. É um final feliz para uma canção que nasceu para libertar um país e acabou por se libertar de si mesma para ir consolar quem a quiser cantar, seja nas ruas do Cairo ou num ecrã em Tóquio, provando que, cinco décadas depois, o mundo ainda quer ter, em cada esquina, um amigo.



