2010-02-23

Erros de cálculo


aqui

Mas quem é que se lembrou de construir uma cidade numa zona sísmica? Quando acontecer outro - que vai acontecer! - vamos ter de arranjar um culpado para os erros do planeamento urbanístico. Será que o Pombal serve? Afinal, reconstruiu Lisboa no mesmo sítio.

Sem palavras


© Gregório Cunha, daqui

É 23 de Fevereiro outra vez


aqui

2010-02-22

E la nave va


aqui

Olho à volta e penso em como o populismo gratuito se vai tornando cada vez mais rasca e se entopem todos os sinais de fait divers em lugar de se discutir o que realmente importa. Acabo a pensar que talvez um dia destes nos apareça um qualquer grande ditador orweliano (um verdadeiro, em lugar de um fabricado à guisa de papão). E a eloquência, essa veemência mesmerizadora, também pode ser mera cortina de fumo, uma cantiga de sedução. Temo mesmo que estejamos prontos para ser enrolados num qualquer cenário de admirável mundo novo, já que as épocas de crise (económica, sociológica, ética…) são pródigas em experiências políticas. Pior, que o aceitemos já, protestando talvez, mas nada fazendo para o evitar. A preguiça e o individualismo são grilhetas atrofiantes. E um dia o rebanho desata a correr e leva tudo à frente, enquanto renuncia ao imprescindível em nome de um qualquer valor deificado capaz de anular todos os valores reais. E não penso sequer que as mudanças sejam bruscas e que, de um momento para o outro, o mundo esteja completamente diferente. As mudanças serão passo a passo, lentas e progressivas: a cada dia se tolera mais uma perda, vai-se um bocadinho de dignidade, desbarata-se outra réstia de cidadania. Lentamente, para que ninguém se revolte enquanto se enrola num qualquer novelo de maravilhas e desejados por vir. É sempre assim o futuro, mesmo quando há revoluções. Ou retrocessos civilizacionais.

Perto demais


Foto AP daqui

2010-02-21

Diz-me com quem andas…


Fotografia © Miguel A. Lopes - Lusa

«Segundo disse fonte da organização à agência Lusa, estiveram presentes na manifestação "mais de cinco mil pessoas".»



Só me pergunto se aquela gente toda está confortável com o facto de, a partir de agora, ser confundida com os fascistas e neo-nazis que assentaram praça na mesma manifestação. Se realmente não se importam com isso. É que não acredito que todos sejam fanáticos, tirando o facto de terem visões fanáticas sobre quem tem ou não direito a casar-se.

Faz de conta...


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...que andas por aqui hoje e vens buscar o meu presente.

Parabéns, Miquinhas :)

2010-02-19

Durante o telejornal


aqui


Comentário da minha avó (90 maravilhosos e lúcidos anos!) acerca de um certo político queixinhas cá da praça: "Homem pequenino, ou sacana ou bailarino".

Até me engasguei!

Dos gatos


GeekCats (clicar para ver melhor)

Chegou-me uma visita ali em baixo a uma caixa de comentários. Curiosa que sempre fui (devo ter costela de gato e um dia destes…), segui o link e fui dar ao GeekCats. Adorei! Aconselho a visitinha. A imagem acima está lá na primeira página e espero que vos sirva de bom aperitivo :)

2010-02-18

Basicamente


aqui


Que, nisso, sou do mais básica que há: basta ser loiro de olho azul e fazer duas covinhas na cara quando se ri. Uns abdominais bem definidos também nunca fizeram mal nenhum para descansar a vista.Serve?

2010-02-17

Ah!

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«Fernando Nobre, o presidente da Amnistia Internacional, é candidato à Presidência da República.»


Os que passam por aqui sabem que votei Manuel Alegre. Não volto a votar. E a confirmar-se esta notícia, penso que não terei dúvidas acerca de quem leva o meu voto.

E agora isto?

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«Assessores, chefes de gabinete, membros do Governo usaram o seu tempo, pago pelo erário público, instalações do Estado, meios informáticos públicos e informação privilegiada para fins de combate político.»

Eduardo Dâmaso



A verdade é que sempre achei que era dos poucos blogues que apenas se actualizava ou à hora de almoço ou no fim de mais um dia de trabalho. Havia alguns que se actualizavam com as galinhas antes dos seus autores partirem para a labuta, mas a grande maioria sempre foi mantida por quem, não estando desempregado, usava o tempo que seria de trabalho para dar uma saltada aos blogues, deixar um post, fazer uns comentários, cirandar como apetecesse, até que voltasse a vontade para trabalhar mais um bocadinho. Isto era tão evidente que também foi notório quando alguns deixaram de ter acesso incondicional às páginas, quase sempre por força da instalação de filtros pelas entidades patronais no que toca a acesso à net. Ficaram limitados e, por isso mesmo, deixaram de ter o mesmo ritmo de postagem, de leituras e de comentários. Não vi, nesse momento, ninguém admitir o despesismo ou sequer alguém levantar a mãozinha para admitir que andava a usar tempo do patrão para "cigarette breaks" na bloga. E também é por isso que olho para aquela coisa no CM e estranho só os visados se manifestarem. Então e todos os outros? É tudo mais uma vez virgem? Nunca foram à net brincar aos blogues enquanto o patrão pagava? E não vale a pena dar o desconto de aquilo não ser bem sobre o usar o tempo de trabalho. Pois, mas a questão do tempo de trabalho está lá. Como estiveram quase todos os blogues que conheço a usar esse tempo. E a ficarem agora caladinhos, que não é com eles. É com o Sócrates, obviamente. E os assessores no Simplex, que no Jamais e no outro do PP não havia disso, claro. E em todos os blogues, quisessem ou não saber de política. E eu, que não devo um tusto ao patrão à conta disto e por isso nem precisava dizer nada, acho um nojo. Um nojo pegado virem agora com o desperdício de recursos e que todos pagamos e não sei quê. Pois então eu, contribuinte, sempre paguei o tempo da maioria dos blogues que gosto e gostei de ler. E nunca me importei nem um bocadinho. Mas também não faço de conta que não sabia ou que era coisa que só acontecia em blogues políticos. Apre, que não pode valer tudo!

2010-02-15

Luta de galos


Roylynn Evans


Uns eram pela liberdade, agora estes são pela democracia. E eu olho e torno a olhar, que há pela certa um poleiro dourado em jogo, sendo que o galispo ainda não perdeu as penas e continua a cantar de galo na capoeira do povoléu do costume, já cansado de tanta luta. E, sim, o povinho do magalhães, dos rendimentos de inserção, das novas oportunidades e dos abonos ainda é a maioria e as novelas da TVI ainda devem ganhar a qualquer noticiário, jornal ou programinha de opinião política. Está difícil convencer o povinho, mesmo a gritar bem alto e repetidamente, não é? E nem há sol ameno para desculpa e já basta o mau tempo para estragar este alegre carnaval.

Filipe Pinto

2010-02-13

Anónima não. Com nick sempre

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

José Carlos Ary dos Santos – Epígrafe



Suponho que na minha escrita há dias em que sou morena e tímida; e noutros sou loira; noutros ainda sou alta, confiante; noutros serei mais masculina e noutros incrivelmente gaja. Talvez porque eu sou, dependendo dos dias, um pouco de cada coisa. Talvez porque a nossa personalidade seja formada por demasiados cambiantes. A minha, pelo menos, é. No fim, sobra que as minhas palavras são apenas um dos reflexos possíveis de mim. Não sou eu, ainda que o que escreva tenha um eu por trás. Não sou as minhas palavras. Ou, pelo menos, não sou apenas as minhas palavras. Sou um mundo de complexos e de ideias, de fragilidades e de forças; sou piada e sou lágrima; sou capaz de me rir de mim mesma, mas também sou capaz de ver em cada frase um ataque. E vai continuar a haver dias em que não saberei ser simpática; como haverá outros em que serei doce como mel. Dias em que escreverei textos onde todos conseguem rever-se e outros em que ninguém saberá do que falo. Tenho motes na escrita. Nem sei bem onde os vou buscar. Fazem sentido ou não, conforme os meus humores. Não serão nunca a minha totalidade, que essa, ainda assim, preservo como posso.

E também é por isso que não tenho um perfil público completo no blogue, nem um nome para além do nome Hipatia. Porque, por mais que digam, a Hipatia é já um nome, o meu nome por aqui, aquele que escolhi usar já há um belo conjunto de anos. Manter o nome que escolhi usar no blogue (mesmo que isso, tantas vezes, já não sirva para nada) é o que ainda posso fazer para me preservar. Para que não tenha novamente de voltar a procurar um espaço onde me sinta livre para escrever, em que não há quem me cobre o tanto que já dei de mim e o que ainda poderia ter vontade de dar. Tudo o mais são opções. E, se respeito as dos outros, que não me cobrem as minhas. A todos cabe a sua razão e a cada um cabe defender os seus motivos. Se eu andasse por aqui atrás de prebendas, talvez já tivesse feito a vontade a alguns e espelhado on-line o nome do BI. Como esse nunca foi o meu motivo, aceitem que quem assina com nick também tem direito a opinião. E argumentem em relação a essa mesma opinião em lugar de desatarem a disparar contra o mensageiro. Essa sempre foi a opção dos fracos, porque mais fácil. E nunca serviu para debater ideias.

Ah! E será escusado mandarem e-mails a perguntar quem sou. Sou a Hipatia, obviamente. E estou aqui, de caixa de comentários aberta e pública. Já não é mais do que em tanto espaço?

Quem?



Quem quer viver para sempre?
E quem quer esperar o "para sempre"?
O "para sempre" é nosso hoje!

2010-02-08

Apre!

.

«O Sporting de Braga tenta hoje encurtar a distância para o líder, Benfica (...) Os "arsenalistas", com dois jogos a menos, encontram-se no segundo lugar, a quatro pontos dos "encarnados"»


in, TSF



O sublinhado é meu. A miopia é que nem por isso.


(e vai em 0-2, que é por causa das coisas; até com menos um)

Ídolos



(gosto do Filipe; gosto do puto e do vozeirão do puto)



(e nem sequer segui o programa, ou votei, mas isso agora não interessa nada)

(e até gosto quando ele corrige delicadamente quem teima em chamar-lhe "Felipe")

Repost

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Presto atenção ao silêncio e a tua voz diz-me que te falto. Galgo a distância. A tua voz leva-me. Não sei se é só saudade, se esta febre teimosa que não me deixa. Ouço-te. Como se estivesses bem ao meu lado. Quase sinto os teus dedos frios sobre a testa. Quase respiro o teu ar. Sôfrega de ti, como já não ficava há muito tempo. É da febre. É delírio. És tu. Ou apenas a tua voz a percorrer-me os sonhos. Que saudades tenho, às vezes! Assim, de mansinho, quando estou mais frágil e, dos confins da memória, chega-me a tua voz. Baixinho. Bem baixinho. Como se as saudades só se fizessem de sussurros. Como se hoje estivesses aqui de plantão, meu anjo. Como se não tivesses partido nunca. É delírio, por certo. E estas saudades de ouvir a tua voz a dizer-me como te falto... como me faltas.

Sussurros



(Este repost tem um destinatário. Talvez esse destinatário nem sequer se aperceba, mas não importa. Como tantos e tantos dos posts que escrevi aqui no Voz em Fuga, este teve o seu motivo e a sua razão e, agora, faz para mim sentido voltar à primeira página. Mesmo que eu hoje nem tenha febre e, às tantas, nem anjo de plantão)

2010-02-07

Conta poupança-futuro

.
«Os bebés portugueses vão poder começar a emprestar dinheiro ao Estado para financiar a dívida pública assim que nascerem.»

in, Jornal de Negócios



O que foram sempre os certificados de aforro onde os portugueses tradicionalmente investem a sua poupança? Será que ainda vale a pena perguntar?

2010-02-05

Enfim




Depois de Rod Stewart assassinar para sempre o Downtown Train na memória da maioria, pensei que nunca fosse gostar de qualquer versão diferente da original. Mas gosto desta dos Minnesota Sex Junkies.

hmm...



Will I see you tonight on a downtown train
Where every night, every night it's just the same, oh baby
Will I see you tonight on a downtown train
All of my dreams they fall like rain, oh baby on a downtown train

Ontem







E é o que há!




Obrigada pelas imagens, C.

2010-02-04

Haja paciência!

.
«"Parece-nos razoável que, sendo nós um imenso condomínio de 10 milhões, cada um de nós saiba a permilagem de cada um dos outros para sabermos se há um efectivo contributo que corresponda àquilo que é o bocado que temos neste imenso latifúndio" defendeu Strecht Ribeiro, que entregará hoje a proposta à direcção da bancada parlamentar do PS.»

in DN


Não tenho dúvidas que vivemos num regime que fez a sua transição para a democracia sem dinamitar verdadeiramente as raízes do Estado velho. E há uma mentalidade que permanece, entre o respeitinho atávico e a denúncia escroque, igual à do tempo que selou a barras de ouro a miséria de quase todos, os que ficavam a comer batatas e uma espinha de sardinha, os que iam a salto tratar da vida para as obras em França; e mais os GNR de carrascão e vistas curtas, ou as grande fortunas que se apressaram a regressar de devaneios nos trópicos quando a maré acalmou; ou a carne para canhão das guerras do ultramar e as mulheres enlutadas e sem direitos e os filhos de pai incógnito com asterisco no BI; ou os padrecos, os bufos e os vampiros, mais os deserdados em geral, levando a vidinha caladinhos, que não dava para abrir a boca sem saber quem pudesse estar a ouvir no velho regime baseado na lei do bufo, na lei do medo.

O Portugalinho – tão diferente em asfalto, em marinas, em hotéis, Allgarves e campos de golfe – mudou aparentemente muito sem, no entanto, mudar verdadeiramente. Continua a ser um país de cidadania amordaçada e de invejas pequeninas e na mão de meia dúzia que põe e dispõe conforme der mais jeito. Quando as coisas não correm de feição, a culpa é sempre do outro, o que lhe passou cheques carecas, o que lhe prometeu umas férias cinco estrelas pagas a prestações, os duzentos euros dos putos onde não podem mexer, que maçada!, o dos favorzinhos trocados por robalos, ou malas cheias de notas pequenas, ou lista de votantes que já moram a sete palmos abaixo, ou os sobrinhos da Suíça, ou os acordos selados a putas café com leite, ou as nomeações para assessores, ou as renomeações dos assessores, ou as reformas cardona e celestemente volumosas, ou os jeitinhos à lei para dar jeitinho aos filhos da lei do costume.

Seja como olhe e para onde olhe, os vampiros ainda aí estão. E os bufos sempre foram as suas armas, as melhores armas, porque toupeiras silenciosas, mesquinhas, fazendo da convivência e da proximidade a porta para os segredos a revelar. E a fomentar a inveja, que ninguém está livre de, um dia destes, alguém resolver acusá-lo de tudo e mais um biscate e, neste País de treta, cada vez é mais necessário provar-se a inocência do que a culpa, especialmente depois de insinuações entre aspas num qualquer pasquim.

E depois ainda vem um cromo falar de condomínios e propor que a inveja alastre entre vizinhos, que se comprou um carro novo é porque andou a roubar ou a dar o cu sem declarar às finanças, que publicar os devedores não bastou. Não, isto não é um condomínio, que já nem há quem lhe faça seguro. É um bairro de lata de alucinados, com propostas mirabolantes e ideias estapafúrdias, onde até querem promover a bufaria, o voyeurismo e a inveja a letra de lei. Depois, os que puderem dizem que é difamação ou que é censura. Todos os outros apanham com um big brother pelo cu acima, a ver se ficam caladinhos, enquanto comem uma espinha de sardinha.

Haja pachorra! E, foda-se!, porque é que não deixam que o gajo se demita? Não há por ai tanta prova provadinha de incompetência derramada por jornais, televisões, blogues e afins? Então qual é o mal? Se tantos se apressavam a demiti-lo se pudessem, porque têm agora tanto medo de se mandarem para os cornos do touro e tentarem (e eu já só pedia isso) fazer melhor?

2010-02-03

Meio-meio


aqui

Há sempre quem veja um copo meio cheio onde outros o vêem apenas meio vazio. Acredito que a tristeza e a incapacidade para o contentamento sejam das maiores falhas de carácter: infernizam a vida de quem não sabe ser feliz; infernizam a vida de quem partilha o tempo com gente sempre amargurada; impedem que se aprecie o momento e se acredite que há esperança, até contra a doença, até contra a ampulheta inclemente do tempo que passa.

2010-02-01

Aqui d'El Rei!

Roubam-me a voz
quando me calo
ou o silêncio
mesmo se falo

Aqui d'El Rei.



Zeca Afonso - Epígrafe para a arte de Furtar


Este País pode ser quase tudo, mas não é um País censurado. Antes fosse, por uma qualquer auto-censura que não permitisse que tantos abrissem a boca para abusar de uma realidade que calou, torturou, matou, quem se atrevesse a pensar diferente. É que há nesta forma apressada e desusada de apor em qualquer situação o rótulo simplista da censura um insulto a quem viveu realmente a censura. Eu, que descendo de um homem que conheceu por dentro as selas da PIDE/DGS por ter confiado no padre confessor que bufou os segredos ao primeiro pulha que lhe passou uma nota para a mão, sinto-me ultrajada pela forma como insultam assim a memória do meu bisavô. Nunca se escreveu tanto, disse tanto, se insinuou tanto, se macaqueou tanto a verdade para ganhar uns cobres e fazer uns jeitos e tirar uns dividendos; nunca se pode tão livremente publicar qualquer bojarda; nunca os vampiros se viram tão fartos nas suas opiniões e nos seus lucros. E quanto mais livremente se atiram com atoardas para qualquer lado, com insinuações a granel, com factóides que nunca exigem prova, mais insultada me sinto, ao sentir como insultam o meu bisavô. A distância que vai de hoje ao que foi mede-se em bem mais do que no asfalto das auto-estradas, no número de nados mortos, na quantidade de analfabetos, ou nos carros e proprietários e dívidas a eito. Mede-se também por esta forma sem freios de dizer e poder dizer, inclusive dizer que não se pode, que há pressões, que há censura. Mas se calhar a culpa é minha, que não há maneira de esquecer que, antes, em qualquer esquina, podia estar um bufo de regime, a ouvir conversas nas igrejas, nos confessionários, nos bancos de jardim, nos cafés e restaurantes. E que, nesse tempo, o refrão do "Natal dos Simples", do Zeca Afonso – mas tinha de ser baixinho, muito baixinho, em surdina –, se cantava "vão parar à PIDE e vão parar à PIDE e vão, vão, vão, vão". Hoje, grita-se que há lobo. Basta só gritar que há lobo. E o lobo é só mais um papão a jeito.

2010-01-31

31 de Janeiro


aqui



Ao cimo da antiga Rua de Santo António, depois chamada do 31 de Janeiro, fica a Igreja que dá nome à freguesia onde nasci.



(oh manhã distante e breve, de que já quase nada sobra da ousadia!)

2010-01-28

Põe-te em guarda


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Grande parte da investigação criminal faz-se para a comunicação social, com o intuito óbvio de criar artificialmente o alarme social necessário à aplicação de medidas de coacção mais severas e de condenações mais duras.

As violações cirúrgicas do segredo de justiça traduzem-se quase sempre em vantagens processuais para a acusação e em prejuízos para a defesa.

Em muitos casos os arguidos já chegam condenados à audiência de julgamento, sendo eles que têm de provar a sua inocência e não a acusação que tem de provar a sua culpabilidade.

A culpa necessária à condenação já fora previamente demonstrada na comunicação social, e de tal maneira, que ao julgador não resta outra alternativa que não condenar os arguidos, senão acaba ele mesmo condenado a preceito por certos órgãos de informação, através da já consagrada fórmula tabelar - «polícia prende, juiz solta».


António Marinho e Pinto
Bastonário da Ordem dos Advogados



No meio disto, os sérios e honestos e bons profissionais - que tenho a certeza que ainda há - são arrastados para o lodo. Todos os anos se fala do mesmo e nada acontece. Todos os anos ficamos mais em guarda: os que ainda querem fazer bem; os que, do lado de fora, já nem esperam que dali venha bem algum.

2010-01-27

Il fumo saliva lento...



Son morto con altri cento, son morto ch' ero bambino,
passato per il camino e adesso sono nel vento e adesso sono nel vento....

Ad Auschwitz c'era la neve, il fumo saliva lento
nel freddo giorno d' inverno e adesso sono nel vento, adesso sono nel vento...

Ad Auschwitz tante persone, ma un solo grande silenzio:
è strano non riesco ancora a sorridere qui nel vento, a sorridere qui nel vento...



O sítio em si era maior do que qualquer fotografia me faria supor. Reconheci-lhe imediatamente alguns dos pormenores, de tantas vezes vistos em imagens de filmes, de livros. Ficava estranhamente desabrigado e, naquele dia de Março, das árvores que estavam à vista, escorriam estalactites de gelo como lágrimas. Parecia-me tudo cinzento, como se a fuligem se tivesse entranhado nos caminhos, nos edifícios, no próprio céu, nas lajes, naquele tempo parado. Não quero lá voltar. Nunca mais e não importa quanto tempo passe. Mas eu posso escolher não voltar. Demasiados não tiveram escolha em lá chegar sem nunca conseguirem partir. Ou talvez tenham partido no vento.

Vozes e outras vozes



O haloscan vai finar-se em Fevereiro e, por isso, finei com o halscan no blogue. Tentei salvar todos os comentários para a área de comentários do blogger e, com mais erro ou menos erro, mais duplicação ou menos duplicação, penso que consegui guardar tudo. Também fiz um "comment backup" para o caso de ter falhado alguma coisa, mas aquilo vem tudo desorganizado e não tenho tempo para andar a calcorrear cerca de 4500 comentários um a um.

Por qualquer lapso, ficam desde já as minhas desculpas. É que afinal o melhor deste blogue sempre aconteceu nas caixas de comentários e não queria mesmo perder nada do que por lá se passou nestes anos todos de partilha.

Quanto aos amigos que estavam habituados à caixinha pequenina e ágil, terão que habituar-se à janela chata e complicada, que não vos perdoo se, à conta disso, prescindirem de deixar rasto aqui no tasco. É que, a partir de hoje, só há vozes, que as outras vozes já se puseram na alheta.

2010-01-26

Dizem




dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto - "Dizem que a paixão o conheceu"

2010-01-25

Avatar


aqui


Porque gostei do Avatar? Porque é bonito. Ponto. A história é simples? É! Uma coboiada em que os índios finalmente ganham? Sim! Mas é bonito, não é? É, pois! Se recomendo? Recomendo sim, de óculos malucos e pipocas e tudo, que é assim que deve ser visto, muito verde, muito azul, uns olhos amarelos de gato ternurentos e a simplicidade daquelas histórias impossíveis em que, apesar do banquete de cor, afinal é preto e branco e sem cambiantes de cinzento. Ou porque há aquela coisa da teia da vida ou das preces que são ouvidas, ou os passos que são pintalgados de luz como se fosse uma qualquer yellow brick road a caminho de qualquer cidade esmeralda, feita árvore centenária. Ou porque as bestas não são bem bestas e a bestialidade tem antes um exosqueleto de metal e armas, tão parecido com aquela outra coisa do Matrix numa outra forma de desdenhar das máquinas. Ou a fuga sensorial para um mundo de faz de conta, que convém não esquecer que o real é sempre bem pior do que os filmes bonitos, os que nos entram pelos olhos dentro faustosamente coloridos, deixando o cinzentismo para depois da pipoca, ou dos óculos. É que a distopia não pode caber aqui, nestes óculos que nos levam para os verdes, para os azuis, para a magia de Pandora. Essa distopia está noutras histórias, que não são tão bonitas, nem coloridas, tira os óculos e vê felicidade, põe os óculos e está lá obedece. É que o filme do Carpenter não era bonito, nem a 3D. E nem acabava particularmente bem para o herói, apesar do dedo do meio bem erguido. E o herói nem sequer era bonito, com olhos amarelados de gato e azul estrunfe, com uma cauda tipo scart para o ligar e desligar da vida a cores. Mas também são precisas coisas simples e bonitas, para nos deixarmos ir com a cor e até comer meio saco de pipoca. A vida segue já a seguir.

2010-01-24

Que faríamos então?


(recebida por mail, desconheço a origem)

Pergunto-te o que faríamos, quando os silêncios já movem mundos com a energia que transmitem e um rubor faminto se espalha pelos corpos partilhados. E sinto o teu sorriso dizer-me que sopraríamos sussurros sobre as peles quentes, espantando a madrugada. Então - depois das palavras estarem todas ditas e depois dos olhares coscuvilharem as almas -, construiríamos laços de silêncio.



(repost; mas só do texto)

Ano do Tigre


Revista Macau


Como sei que as meninas I e Deep são da mesma colheita que aqui a Hipzinha, deixo-lhes as previsões chegadas lá do outro lado do Mundo.

(E obrigada, Noite!)

2010-01-22

Carta de Marear


(Midnight Choir)

Love me just like tomorrow relentlessly long to exist
Love me with a touch of the sorrow
That burst open to disappear with the mist


Leva-me a ver o mar, quando o mar que há dentro de mim rebenta em ondas. Leva-me para esse mar, quando ondas em mim já se quebram em praias perdidas no meu corpo. Leva-me até o teu chegar ser o meu chegar, fazendo do meu corpo praia, fazendo das minhas escarpas ondulação, fazendo dos nossos corpos maresia.

2010-01-21

WTF!


(clicar para ver melhor)


Ao fim destes anos todos, será que alguém acha que era agora que me dava para o plágio?

2010-01-20

PDI


(esta é minha)

Uma das coisas que os anos me foram ensinando é que não é preciso chegar sem remendo a qualquer lado. Um dia até conseguimos perceber que não precisamos sequer chegar inteiros. Basta, quase sempre, chegar.

A cabra


aqui

Já aqui contei que uma vez me ofereceram um livro chamado "Desperta a Cabra Que Há Em Ti". Pois fiquem a saber que, a partir de hoje, a minha cabra tem até despertador.

2010-01-18

Só isto


aqui

Não me interessa que me digam que o meu dinheiro vai ser desviado para os bolsos dos corruptos, ou que há mais militares do que médicos no terreno se a ajuda continuar a aparecer. Nem me importa sequer que me agridam violentamente com cada história com que se fabricam notícias e cada imagem a escorrer sangue. Ou que o que dei sirva para muito pouco. Ou que eu não seja mais do que uma gota. Mas sempre ouvi dizer que as gotas fazem um mar. E, quando damos, é também por nós que o fazemos. Quando estendemos a mão a quem sofre, é o nosso sofrimento que mitigamos, o desconforto de nos sabermos a salvo, da arbitrariedade que nos anula no sofrimento absurdo de outro humano tão parecido connosco, tão diferente na sorte. Por todo o cinismo que os anos colaram em mim, é também por isso que dou ainda. Para sentir que preservo a minha humanidade, que afinal o calejada que estou não impede que chore por gente que nunca vi, crianças que nunca abracei, velhos de quem não sei o nome. Se não estiver por eles hoje, quem estará um dia por mim?

Para lambareiros saudosistas


aqui

«A Imperial comprou a Regina, que entrou em falência em 1996, e relançou a marca na Páscoa de 2002.

O relançamento da Regina "foi um sucesso que ultrapassou todas as nossas expectativas", salienta a administradora da Imperial. "A Regina marcou muitas gerações. É uma das mais emblemáticas marcas de Portugal. Mesmo ausente do mercado seis anos, a Regina ficou sempre no imaginário dops portugueses".»


in, Expresso, 20/03/2009



Vejam aqui como podem comprar on-line. Quem é amiguinha, quem é?

Às vezes


Sometimes, Found at bee mp3 search engine

O Bartolomeu lembrou-me ali em baixo numa caixa de comentários este tema dos James e um concerto para onde fui quase arrastada e de que acabei a gostar muito. Por isso, vem para a primeira página.

2010-01-17

Parabéns, Miguel!


aqui


Fazemos assim: tu olhas para a gaja e eu olho para ele e não falamos mais do assunto :)

(Tem um dia feliz!)

2010-01-14

Exclusividade


aqui

A amizade tem fortes e longos braços e abraços e tentáculos e é um casulo onde só entram aqueles a quem quero bem. Não importam os defeitos, os feitios, as valias, as opiniões. Os meus amigos são meus.

2010-01-13

Haiti


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Se a imensidão do drama e o aumento exponencial de vítimas torna a hecatombe tão grande que não a conseguimos sequer imaginar, que se imagine então a dor calada nos silêncios defuntos e moribundos. Choremos com eles e por eles, mas que amanhã se faça alguma coisa para ajudar: que o preço de um pão, de um cigarro, de um café, encontre outro destino.

Simples




Às vezes, nem é preciso grande fogo de artifício. Só aquele aconchego de uma intimidade terna e doce que nos surpreende de mansinho.

2010-01-12

Shhh...


Julia Thorne

Não, não vou olhar-te agora! Nem farejar sôfrega o ar que me roubas enquanto examinas o olhar que não te quero dar. Não, não vou! Nem vou deixar que me toques, ou percorras o meu pescoço a passo lento, ou deixar que o nó do teu polegar se passeie levemente pelo contorno do meu peito. Não vou! Nem deixar que me derretas com o bafo morno que sopras por entre os dentes sobre os meus lábios. Ou pensar na tua língua, no que me faz a tua língua. Ou no bem que sabes. Ou no bem que me sabes sentir. Não vou, já te disse! Não vou olhar, nem derreter, nem descoalhar. Vou fechar os olhos e dizer que não. Dizer muitas vezes que não. Tantas vezes que tenhas de convencer-me. Com os teus olhos, com o teu cheiro, com o sopro morno do teu ar, com esses benditos dedos e a língua e forma como me prendes ao teu corpo. Não vou! Não vou sentir sequer contra o quente da minha barriga a tua força, enquanto digo não e me encaixo na tua virilha. Não vou! Não vou depressa nem olhar. Não vou olhar-te agora, já disse! Vou fechar os olhos e deixar que me convenças, que me leves, que me leves mais. Já posso olhar agora, amor?

2010-01-11

Votos


(clicar para ver melhor)



Aqui há tempos, espetei ali ao lado com uma coisa para os leitores que passam pelo Voz em Fuga dizerem se gostam ou não do blogue. Na verdade, a geringonça era suposto estar associada a cada post, para aferir como cada um dos textos era avaliado, mas dava-me cabo da estética da página e acabou por ir ficando só na lateral. Confesso que nunca lhe prestei grande atenção e, de vez em quando, lá dava conta que tinha tido mais um voto. Mas o estranho mesmo é que nunca me tinha apercebido que, se passasse com o rato ao lado das estrelinhas, aparecia um botãozito com a indicação dos posts mais votados. E espantoso mesmo é ver quais são os escolhidos, até porque sempre pensei que de alguma forma reflectissem as buscas que trazem até aqui incautos e, afinal, não têm nada a ver com a "best sex scene" ou com os "smiles eróticos".

Obrigada, gente! Eu também gosto daqueles dois textos.



(e descontem um voto, que era eu a ver se aquilo ainda funcionava)

1, 2, 3, diga lá outra vez

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«Bento XVI enviou uma mensagem por videoconferência, apelando à defesa e promoção da família "baseada no casamento entre um homem e uma mulher".»

in, DN



O homem não fode nem sai de cima (tirando quando lhe saltam em cima umas malucas vestidas de vermelhinho para lhe combinar com os sapatos) e quer que os seus ministros façam o mesmo (excepto quando eles fogem com miúdas de 18 anos ou quando alguns explicam a PP que a pederastia afinal está em qualquer lado) e sai-se com coisas destas e espera que o pessoal não se ria da (das?) figura?

Pés gelados


aqui

Comprei umas palmilhas de cortiça, confiando no belo do produto nacional e, vai-se a ver, nem com palmilhas, nem com dois pares de meias, me safo: todo o santo dia os pés gelados e, senhores!, se os pés não aquecem, não há nada quente no corpito aqui da menina. As palmilhas, afinal, não sei se me convencem. Será que as meias para ski cabem nas botas? Duvido que consiga convencer alguém das vantagens de trabalhar de pantufas e botijinha de água quente. É que com o resto posso bem, mas o raio dos pés gelados…


(Oh Manel, tens alguma sugestão?)

2010-01-10

Filmes da década?


aqui

Que raio de listas são estas? É que mesmo expurgando o pedantismo mais do que evidente de algumas escolhas, ainda sobram muitas mais que não se entendem, especialmente pelas ausências. Na caixa de comentários, já alguém deu pela falta da trilogia de "O Senhor dos Anéis" (goste-se ou não, marcaram a década) e tantos mais que foram postos na borda do prato que, sinceramente, não chego a perceber o que será um filme digno de representar uma década. Resumindo-me aos que tiveram direito a ir aos Oscares (que já deixaram muita coisa boa de fora), onde estão por exemplo: Os Outros, Traffic - Ninguém sai ileso, O Pianista, Gangs de Nova Iorque, Mystic River, Sideways, Crash, Before Sunset, Good Night and Good Luck, Haverá Sangue, As Invasões Bárbaras, Infância Roubada, Monster’s Ball, Y tu mamá también, Hotel Rwanda, Corpse Bride ou O Fiel Jardineiro? E, sim, mesmo concordando com algumas escolhas e por isso não os referindo aqui, até a minha listinha é manhosa e incompleta. Mas eu não sou crítica de cinema.

Tempos pornográficos


aqui

Da mesma forma que, num repetente, todos viraram defensores das virtudes de crianças pré-adolescentes serem confrontadas com a origem do mundo segundo um pintor oitocentista ou se gritou censura porque num corso carnavalesco alguém não quis ver mulheres nuas, também se criticam fotografias de orgasmos em exposição. Não, nunca será por puritanismo. Isso não! Só não consigo perceber muito bem porquê. Será por o modelo não lhes cair no goto? Ou se for lá um polícia fechar a exposição e uma delegada do MP mandar retirar as fotos já vão todos correr a defender a "obra de arte"?

2010-01-08

Tico, acorda o Teco!

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«A deputada do PSD Teresa Morais defendeu hoje que a união civil registada entre homossexuais seria uma solução “equilibrada e tolerante”, e que o instituto casamento deve manter a identidade enquanto união entre homem e mulher.»

in, Público



Vocês desculpem, mas é que eu continuo sem perceber esta trapalhada(*). Que raios é o tal de "instituto" que deve manter a identidade? É que, daqui a pouco, devem estar a propor que regresse o "pai de família" e assim as coisas mantinham a identidade dos bons velhos tempos em que o casamento era para a vida, se confundia com o matrimónio e resultava a mais das vezes em dois infelizes.


O que vale é que já está e agora vai começar o ruído com outra treta qualquer.


(*)voltar ao tema não tem nada a ver com o facto de ser tão teimosa como uma mula quando se trata de defender coisas em que acredito, obviamente.

2010-01-07

Do casamento

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«Que eu saiba, o casamento vive dias difíceis de atractividade ao comum dos mortais - a mim, por exemplo - apenas por culpa de quem desde sempre teve o seu exclusivo. Que tal dar oportunidade a outros? Pode ser que o salvem.»

Bernardo Pires de Lima



Decididamente, eu nunca o saberia dizer melhor (e em tão poucas palavras).

2010-01-06

Da tolerância


aqui


Todos os modelos de organização contêm dimensões de exclusão. E, em certa medida, atrevo-me a dizer que o grau evolutivo de determinada sociedade se mede também pelo seu grau de tolerância ao diferente, ainda que a tolerância implique implicitamente uma relação de desigualdade, havendo um agente activo que tolera e um agente passivo a quem cabe ser tolerado. No limite, se houvesse igualdade real de direitos e deveres entre partes, a tolerância passaria a ser um conceito vão. E, ainda assim, não será bem mais frutífero aceitar (e tolerar) uma qualquer forma de discriminação positiva que concede, mesmo que a contragosto, direitos iguais para quem é (ainda) visto como diferente da norma-padrão? E porque será que um conceito – o casamento, para o caso – se transforma numa forma de exclusão simplificada, quando se aceita que se reúna – desde que sob outro nome – toda uma panóplia de direitos e deveres sob uma qualquer forma de contrato, mas intolerantemente se espera que se brinque com conceitos, arranjando novas denominações para uma realidade que, se a tolerância o permitir e os interesses instalados autorizaram, passará a ser exactamente a mesma coisa? Não chego a perceber como casamento passou, de conceito que casa, a conceito que separa, por mais fundamentação aparentemente racional e tolerante que aceita que se chame união, mas não permite que se chame casamento.

Teoria dos jogos

"um dó li tá quem está livre livre está"

Colo não colo, corro não corro espaço regaço de corro não corro, colo não colo.

2010-01-05

Para o ano, não há!


aqui


Uma miúda é simpática e coisa e tal e manda mensagens de Feliz 2010 para os números dos amigos que guarda religiosamente e transporta de telemóvel em telemóvel ainda mais religiosamente, para descobrir que a) o nosso número foi apagado; b) que telefonar também não é boa ideia, que ao fim de 10 minutos de conversa ainda não identificaram a miúda simpática, que manda mensagens e coisa assim.

O rochedo ainda rola

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«Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.»

Albert Camus, O Mito de Sísifo



Fez ontem cinquenta anos que morreu. Conheci-o lá para os meados dos anos oitenta do século passado. Não pelo Estrangeiro, que é por onde acho que quase todos lhe chegaram. Foi Sísifo quem me cativou. Até hoje, sei que o rochedo ainda rola e que encontramos sempre o nosso fardo. E não há como acreditar em qualquer alternativa a esta ideia magnífica de que é na nossa luta de cada dia, aqui e agora, que nos resumimos até sermos capazes de imaginar que Sísifo é feliz. Dono do seu fardo sem desculpas nem promessas em algo externo ao nosso eu e às nossas circunstâncias (ok, o Ortega também frequentou a minha adolescência e mais vale acabar o post antes que meta qualquer referência às Mãos Sujas ou ao Sangue dos Outros) como motor da felicidade possível. Não há Paraíso sem espinhos. Mas o Paraíso está em nós e na felicidade suprema de o realizarmos sem mediadores, ou o adiarmos para um dia que pode nunca vir.

2010-01-03

hmm...


aqui

Dou uma volta pelos blogues e sobra-me uma pergunta: haverá alguém que tenha tido um bom 2009?

2010-01-02

Luz


aqui

Gosto de olhar o céu ponteado de luz. Sabê-la distante. Sonhar um dia em que as distâncias sejam transponíveis num suave piscar, em que o tempo e o espaço se curvem a nosso favor. Imaginar que há mundos paralelos. Pensar em buracos negros como caminhos, em lugar de sorvedouros sem fim. Pensar a hipótese de outras rotas, descobrimentos sem encobrimentos das verdades, viagens ancoradas em astróides, encontrar a medida certa para um espaço sem fim, ou curvo, ou em expansão, ou em regressão. Imaginar o estrondo silencioso de todos os big bangs iniciais e a velhice brilhante de luzes que, às tantas, já se extinguiram. E gosto de imaginar que, lá longe, há uma hipótese de vida.

2010-01-01

... do resto da tua vida

A principio é simples, anda-se sózinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.



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Bom 2010!