Há qualquer coisa de ciclicamente trágico na forma como o Irão volta sempre ao mesmo ponto: protestos nas ruas, repressão brutal, retórica inflamada, o Ocidente a observar com a sua habitual mistura de preocupação e oportunismo. E desta vez não é diferente.
Os números variam conforme quem conta - mais de 600 mortos segundo uns, centenas segundo outros, mais de mil presos é certo -, mas o essencial permanece: um povo exausto pela inflação acima dos 40%, pelo rial que perdeu metade do valor em poucos meses, pela promessa sempre adiada de uma vida melhor.
Os protestos começaram, como tantas vezes, por razões económicas básicas: o preço do óleo, do frango, do pão. Mas transformaram-se rapidamente naquilo que sempre esteve latente: um grito contra o próprio regime.
Khamenei, fiel ao guião que conhecemos de cor, chama-lhes "vândalos" e "sabotadores ao serviço de interesses estrangeiros". O regime corta a Internet, como se apagar a ligação ao mundo fosse apagar a realidade. E Trump, sempre pronto para o papel de xerife global quando há petroleo para desviar, promete "atacá-los com muita força" se começarem a matar pessoas. Como se não tivessem já começado. Como se as ameaças resolvessem alguma coisa que sanções e guerras retóricas não resolveram em décadas.
Pergunto-me, sinceramente, o que esperamos que aconteça. Que o regime caia? Que uma revolução traga democracia instantânea? Que a pressão externa funcione desta vez, ao contrário de todas as outras? Ou será que nos contentamos em assistir, indignados mas confortáveis, a mais um capítulo desta tragédia previsível?
O povo iraniano merecia melhor do que este ciclo interminável. Merecia um regime que o respeitasse, uma oposição internacional que não o usasse apenas como peça no tabuleiro geopolítico. E merecia sobretudo que o mundo não esquecesse - como esquece sempre - quando as câmaras se desligarem e a atenção mediática passar para a próxima crise.
Mas a história ensina-nos que merecer raramente é suficiente.
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