O sinal estava à porta da casa de banho de um restaurante no Cairo.
Não era um simples aviso. Era uma tese visual. Uma declaração civilizacional. Milénios a esculpir instruções em pedra não passam em vão: no Egito, a imagem não sugere — decreta. Há ali uma confiança antiga na capacidade do desenho para pôr ordem no mundo, como se um bom pictograma pudesse, em última instância, resolver a humanidade.
E, de certo modo, tenta.
A placa em questão proibia fumar na sanita. Não de forma vaga ou simbólica, mas com um zelo quase pedagógico. Havia um homem. Havia uma sanita. Havia um cigarro. Tudo meticulosamente organizado para que nenhuma dúvida sobrevivesse. E, a atravessar o conjunto, o círculo vermelho com a barra diagonal — esse golpe gráfico que, em qualquer latitude, significa: nem sequer consideres.
Não discuto a regra. A civilização assenta em proibições específicas. O que me interessa é o momento fundador. O instante inaugural em que alguém, num passado não documentado mas seguramente memorável, decidiu que aquele era o sítio certo para acender um cigarro. É assim que a história avança: um gesto isolado, profundamente questionável, que obriga o resto da espécie a produzir sinalética.
E depois há o texto.
Por baixo da imagem, como quem não confia inteiramente na eloquência milenar do desenho, surge uma explicação.
Em coreano.
Não em árabe. Não em inglês. Em coreano. Um detalhe que transforma a placa num objeto quase metafísico. Porque implica uma cadeia de eventos altamente improvável: não só alguém fumou na sanita, como esse alguém — ou alguém suficientemente semelhante — era coreano, e reincidente, e imune a pictogramas, obrigando as autoridades locais a escalar o problema para o plano linguístico.
Gosto de imaginar o processo. Reuniões. Relatórios. Um comité a folhear incidentes. “Temos um padrão”, dirá alguém, com gravidade. “E esse padrão escreve-se em hangul.”
A conclusão é inevitável: aquela placa não é para todos. É dirigida. Cirúrgica. Uma mensagem pessoal, quase íntima, entre o Egito e a Coreia.
Os restantes povos, depreende-se, ficam entregues ao livre-arbítrio. Ou, pelo menos, à combustão experimental.

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