2026-07-20

O Meu Ódio de Estimação

Autotune, essa prótese vocal para quem confunde canto com aritmética. A voz, outrora falha humana e por isso bela, entra numa máquina e sai lisa como azulejo de casa de banho: sem hesitação, sem rugosidade, sem alma — porque a alma, ao que parece, também desafinava. Há sempre alguém que adora o "Believe" da Cher, que inventou o vício, ou aquele ruivo de que nem lembro o nome cuja voz corrigida se tornou género.

E depois há qualquer coisa mais, um brilho metálico que me fura os tímpanos, um zumbido polido que insiste mesmo quando mais ninguém parece ouvi-lo. Talvez seja só meu, este incómodo, este desajuste.

Hoje, qualquer garganta pode soar impecavelmente afinada durante três minutos e trinta segundos, e poucos parecem reparar que o milagre foi comprado, não cantado. É a democratização da mentira: já não é preciso dominar a voz, basta um plug-in e a arrogância de acreditar que ninguém nota. Notam. Só já não se importam. Preferem o robô afinado ao humano imperfeito. Sintoma, não causa. Ou talvez apenas o meu ódio de estimação: esse ruído artificial que se cola à música como verniz.

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