2026-02-13

O Panteão dos Predadores


Se alguma vez precisaram de uma prova de que a humanidade é um erro biológico com fetiche por fatos de três peças, o Caso Epstein é o vosso Evangelho. Esqueçam a justiça; aquilo a que assistimos foi apenas a gestão de inventário de um talho de luxo onde a mercadoria tinha idade escolar e os clientes tinham o destino do mundo nas mãos.

Jeffrey Epstein não era um financeiro; era o porteiro do esgoto da elite. O seu "modelo de negócio" era simples: recrutar o trauma de miúdas descartáveis para comprar o silêncio de homens que o resto de nós trata por "Excelência". Entre a mansão em Manhattan e a ilha privada — aquele pequeno Éden de depravação onde o sol nunca se punha sobre a infâmia — montou-se um carrossel de carne humana lubrificado por fundos de investimento e imunidade diplomática.

​O que realmente nos faz querer lavar a alma com ácido não é apenas o crime, mas a impunidade coreografada. Em 2008, o sistema deu-lhe uma palmadinha na mão; em 2019, o sistema deu-lhe uma corda (ou alguém a segurou por ele, tanto faz). As câmaras falharam, os guardas dormiram o sono dos justos e o segredo de quem realmente subiu a escadaria do "Lolita Express" ficou selado num pacto de sangue e caviar.

​Agora, em 2026, as listas continuam a cair como migalhas de um banquete podre. Olhamos para os nomes — filantropos, príncipes, génios de Silicon Valley — e percebemos que o mundo não é governado por ideias, mas por chantagem mútua. No fim, Epstein morreu, Maxwell apodrece na cela com direito a canito, mas o mecanismo continua intacto. A única diferença é que agora sabemos que o abismo não só nos fita de volta, como tem conta na Suíça e uma fundação com o seu nome.

​Nada muda. O sol nasce para todos, mas brilha mais forte para quem sabe onde enterrar os corpos.

2026-02-12

Guarda-chuva


É este o nosso fado: ser luz desligada em dia de chuva. No fundo, estas lâmpadas são as únicas que entenderam o espírito da coisa. Para quê brilhar num mundo que prefere o cinzento? Mais vale ficar ali, a apanhar frio, a ver se o vidro estala de vez e nos liberta desta obrigação de sermos "ideias brilhantes".

​Amanhã talvez alguém as deite ao lixo. Ou talvez fiquem ali para sempre, a servir de espelho para quem passa e se esqueceu de levar o guarda-chuva para a alma.

A1

2026-02-11

Assinaturas familiares


Olho para a letra da minha irmã e reconheço-me naquele "g" que nunca fecha completamente, naquela inclinação para a direita que parece um vício hereditário. É perturbante. Como se tivéssemos aprendido a escrever no mesmo útero, numa aula pré-natal de caligrafia existencial.

E não é só a letra. É aquele jeito de cruzar os braços quando estamos a pensar, como se estivéssemos literalmente a abraçar o raciocínio antes de o deixar escapar pela boca. É o franzir de sobrolho idêntico perante uma contrariedade, aquela forma específica de suspirar que diz "estou farta mas não vou dizer nada" sem precisar de legendas.

Ao telefone, somos a mesma pessoa. A minha mãe já desistiu de tentar adivinhar qual de nós atendeu. As cordas vocais partilham a arquitectura genética, o timbre é uma herança não negociável. Podia estar a ler a lista telefónica ou a discutir física quântica — o som seria o mesmo.

Mas aqui está o paradoxo delicioso: essas semelhanças automáticas, esses tiques involuntários, esses ecos corporais que nos transformam em variações do mesmo tema... contrastam violentamente com o facto de sermos pessoas radicalmente diferentes. Uma é metódica, a outra caótica. Uma planeia, a outra improvisa. Uma guarda, a outra atira fora.

É como se a genética tivesse decidido fazer uma piada: "Vou dar-vos o mesmo timbre de voz e a mesma caligrafia, mas interiormente vão ser tão diferentes que nem vos vão reconhecer." E assim ficamos — irmãs-gémeas na superfície, estranhas nas profundezas.

Carregamos a mesma "embalagem", os mesmos maneirismos de fábrica, mas o software é incompatível. Somos edições diferentes do mesmo livro, escritas em línguas que só parecem iguais quando não se presta atenção.

E talvez seja isso que mais me fascina: perceber que a família nos dá um alfabeto comum — o jeito de mexer as mãos, de inclinar a cabeça, de escrever o "r" — mas a história que cada um conta com essas letras é irremediavelmente sua.

2026-02-09

Alerta amarelo

Acordo e olho pela janela. Chuva. Outra vez. Como se o céu tivesse decidido que somos uma esponja gigante e Portugal inteiro precisasse de um banho de imersão prolongado.

Já nem sei o que é ter os pés secos. As minhas meias vivem num estado permanente de humidade melancólica, como se estivessem a fazer greve silenciosa contra esta meteorologia de fim do mundo. Os dedos começam a parecer passas recém-saídas de um pacote de cereais biológicos — enrugados, tristes, sem futuro.

E a pele? A pele está a adoptar uma textura de papel de cenário molhado. Tenho a certeza que, se continuar assim mais uma semana, acordo transformada numa daquelas maçãs que ficam esquecidas no fundo do cesto e ninguém tem coragem de deitar fora, mas também ninguém quer comer.

Começo a desenvolver empatia pelas ameixas secas. Sinto-me solidária com as uvas-passas. Olho para o espelho e vejo alguém que parece ter acabado de sair de um episódio prolongado de "Aventura à Flor da Pele em Clima Atlântico".

A meteorologia diz que amanhã também chove.

Claro que sim. Porque havíamos de ter sol, não é? Isso seria pedir demasiado ao universo.

Vou ali encarquilhar mais um bocadinho.

2026-02-07

Véspera de sufrágio

Pergunto-me o que pode dizer hoje alguém que viveu o Estado Novo, a Guerra do Ultramar e o nome nas listas da PIDE sobre estas vésperas do dia em que André Ventura e a extrema direita se arremetem à Presidência da República.

E sei que essa é uma pergunta que toca na memória viva e nas feridas ainda abertas de Portugal. Alguém que carregou o peso da perseguição política e o trauma da guerra carrega um "termómetro" histórico muito sensível. Seria de esperar que o sentimento não fosse apenas de oposição política, mas de uma estranheza visceral e um alerta ético. 

Mas então de onde vêm tantos votos, tanto fanatismo?

1. O Peso da Memória vs. O Esquecimento

​Para quem teve o nome nas listas da PIDE, a liberdade não é um conceito abstrato; foi algo conquistado com medo e silêncio. Essa pessoa diria que "a democracia não é um estado permanente, é uma construção diária". Ver a extrema-direita à porta do poder pareceria, para ela, um sinal de que o país se esqueceu do que é viver sem poder falar à mesa, sem poder ler certos livros e sem saber se o vizinho é um informador.

​2. A Guerra e o Nacionalismo

​Tendo vivido o Ultramar, essa pessoa conhece o custo real do nacionalismo exacerbado e do isolacionismo ("Orgulhosamente Sós"). Ela lembraria que o discurso de "nós contra eles" e a exaltação de um passado glorioso muitas vezes terminam em jovens enviados para guerras evitáveis e famílias destruídas. Diria: "Eu vi onde esse caminho termina, e não é na grandeza, é no luto."

​3. A Fragilidade das Instituições

​Quem viveu o Estado Novo sabe que o autoritarismo nem sempre entra pela porta com um golpe de Estado; às vezes, ele entra pelo voto, prometendo "limpar" o sistema. Essa pessoa alertaria que atacar as instituições por dentro é o primeiro passo para o abismo. O sentimento seria de uma urgência pedagógica: tentar explicar aos mais novos que a "ordem" prometida tem um preço alto demais: a tua liberdade individual.

​4. A Desilusão com o Presente

​Sendo alguém de esquerda, haveria também uma autocrítica amarga. Ela questionaria como a democracia falhou em resolver problemas básicos (habitação, saúde, corrupção) ao ponto de empurrar o povo para soluções extremistas. Diria, talvez com tristeza: "Lutámos para dar voz a todos, e agora essa voz está a ser usada para pedir o silêncio de muitos."

​Em suma, essa pessoa diria que o voto não é apenas uma escolha de gestão, mas um testamento de valores. Ela olharia para o dia de amanhã não como uma eleição comum, mas como um referendo sobre a própria identidade de Portugal pós-1974.

2026-02-04

Boom!


Dizem que a vida é curta, mas para este senhor, o tempo parou no exato momento em que decidiu que um obus da Primeira Guerra seria o supositório ideal para uma tarde de tédio. No Hospital de Rangueil (Toulouse), o pânico foi geral: entre cirurgiões e o esquadrão de minas e armadilhas, a dúvida era se o paciente precisava de um clister ou de um protocolo de desarmamento nuclear.

​É um novo nível de "explosão de sabores" (ou dores). Se a moda pega, o Exército vai ter de abrir uma ala de proctologia. Afinal, há quem colecione selos e há quem prefira guardar a artilharia pesada onde o sol não brilha. Haja pontaria!

2026-02-03

Escrever


Não, não queria ser de pedra ou madeira. Porque sentir é o que me distingue dos móveis, certo? É o meu diploma de humanidade, a prova de que existo.

Claro que as rotinas quotidianas nos embrutecem, nos afastam dessa capacidade de "sentir por inteiro" — mas aproximarmo-nos demais é arriscar queimar as asas. Somos todos borboletas idiotas fascinadas pela luz.

Sou passional por teimosia, não por coragem. Porque viver apaixonadamente é arriscado e o coração prefere a mediocridade segura ao perigo glorioso. A experiência ensina-nos o conformismo — esse prémio de consolação da vida adulta.

O que me resta? Escrever. Porque escrever é o meu truque de magia: finjo sentir tudo sem arriscar nada. É seguro, asséptico, controlável. A paixão de laboratório.

Escrevo para não explodir, para não murchar, para continuar a fingir que sou divertida. Porque exorcizar demónios no papel é mais conveniente que enfrentá-los na vida real.

Todos temos um lado negro. Eu tenho este blog.

2026-02-02

Tempestade Kristin


Portugal acordou sob o açoite de Kristin e a tempestade não veio para brincadeiras. Ventos furiosos arrancaram telhados, árvores tombaram como dominós e o mar revelou a sua face mais brutal contra a costa. As imagens que percorrem as redes sociais e as muitas, quase excessivas, reportagens nas TVs, são um retrato cru da nossa vulnerabilidade: carros esmagados, ruas transformadas em rios, famílias desalojadas. Mortos. E esta tempestade expôs, mais uma vez, que vivemos numa ilusão de controlo. Construímos, pavimentamos, ignoramos alertas climáticos - e depois espantamo-nos quando a natureza cobra a fatura. Não se trata apenas de "mau tempo". É o prenúncio de um futuro onde eventos extremos serão a norma, não a exceção. Resta perguntar: quantas Kristins serão necessárias até aprendermos a lição?

2026-01-31

Champions League


E quando pensávamos que o novo formato da Champions era a coisa mais bizarra de 2026, o destino (ou o ocultismo) decidiu dar-nos um pontapé na lógica. Lisboa está oficialmente dividida entre a euforia verde e o exorcismo coletivo.

O ​Sporting transformou-se no Sétimo Passageiro de luxo e
​Alvalade está, finalmente, a viver o sonho europeu sem precisar de tradutor. A equipa fechou a fase inicial num honroso 7.º lugar, garantindo o bilhete dourado direto para os oitavos. Foi uma caminhada de quem sabe o que faz, com uma eficácia que faz parecer que o João Pereira descobriu o código secreto da UEFA. Estão lá em cima, a olhar para o Manchester City pelo retrovisor, com aquela sobranceria de quem já não precisa de passar pelas "plebes" do play-off. 
​Mas o que dizer do Benfica? O que aconteceu naquela última jornada não foi futebol, foi magia negra. O Benfica estava virtualmente morto, enterrado e com a lápide já encomendada no 36.º lugar. Mas o José Mourinho não veio para Lisboa para rezar terços; veio para invocar entidades que nem Torquemada imaginou. ​Aos 98 minutos, contra o Real Madrid (sim, o Real de Arbeloa, que agora deve estar a pedir a reforma antecipada), o impensável aconteceu. Anatoliy Trubin, o homem que costuma usar as mãos para evitar desgraças, subiu à área e usou a cabeça para operar um milagre. Um golo de guarda-redes no último suspiro para garantir o 24.º lugar e a última vaga no play-off. Dizem que, no momento do cabeceamento, se ouviu uma gargalhada do Mourinho que ecoou até aos arredores de Madrid. O Benfica passou em último, sim, mas com um estilo que faria o Hitchcock roer as unhas de inveja.
Agora o ​Sporting já está de pantufas à espera dos oitavos, a ver os outros matarem-se. Quanto ao ​Benfica, passou com a nota mínima, mas com um efeito especial digno de Hollywood. Mourinho provou que, mesmo quando o autocarro está avariado, ele consegue pôr o guarda-redes a marcar golos.

2026-01-28

Os Meus Desencaixados


Sempre fui ímã de almas tortas, daquelas que o mundo olha de soslaio. Os que têm olhos demasiado grandes para tanta tristeza, costuras à mostra, esqueletos que dançam ao som de músicas que mais ninguém ouve.

Atraio os que carregam abóboras como troféus, os que vestem a escuridão como segunda pele, os que sorriem com dentes a mais ou a menos. São os meus, reconheço-os de longe: pelo jeito desajeitado de habitar o mundo, pela beleza estranha que assusta os bem-comportados.

Não sei se os escolho ou se eles me escolhem. Sei apenas que entre nós há um pacto silencioso, uma cumplicidade de quem aprendeu que ser "normal" é uma chatice insuportável.

Somos a tribo dos desencaixados, e é aqui, neste não-lugar onde ninguém mais quer estar, que finalmente me sinto em casa.

2026-01-27

Recorrência


E passamos o dia num duelo épico com o rolo de papel higiénico (já não há lenços de papel!), tentando respirar por uma narina que decidiu fazer greve de zelo. É o ciclo sem fim: um espirro dramático, a busca frenética por um lençol (ou a manga da camisola, sejamos honestos) e a promessa de que nunca mais tomaremos a respiração livre como garantida. No fundo, ter gripe é viver num aquário, mas sem a parte relaxante de ser um peixe.

2026-01-26

Apre!


O fim de semana devia levar multa por excesso de velocidade. Passa por nós a 200 à hora, sem cinto, sem piscas, e ainda tem o descaramento de buzinar ao ir embora. Quando damos por ela, já estamos a olhar para o calendário como quem encara um polícia de trânsito: incrédulos, ofendidos e claramente em negação.

Depois vem a segunda-feira de invernia, esse conceito abstrato inventado para testar a resistência da alma. Chove de lado, o céu está num tom de cinzento administrativo e o despertador toca como se tivesse algo pessoal contra nós. O café não ajuda, a roupa está fria e a semana começa com aquele entusiasmo de uma fila nas finanças.

Há injustiças no mundo mais debatidas, é verdade. Mas poucas tão constantes como esta: dois dias que fogem e cinco que se arrastam, especialmente quando a segunda-feira vem molhada, mal-humorada e convencida de que tem razão.

2026-01-20

Branco


Chegou o novo anexo da Casa Branca: eficiente, sustentável e com isolamento térmico de fazer inveja à classe média americana. Afinal, quando o mundo aquece, há sempre quem prefira mudar-se para o gelo — desde que dê para pôr o nome na fachada. O problema não foi o frio, foi a surpresa: venderam-lhe a Gronelândia como jardim e afinal é um congelador. Mas não faz mal. Onde antes havia diplomacia, agora há um iglu. Branco, claro. Como convém.

2026-01-18

Eleições


Em Portugal, a eleição presidencial é o nosso desporto nacional de autoajuda coletiva. Não se elege um gestor ou um legislador; procura-se, com uma carência quase infantil, alguém que nos saiba ouvir as queixas enquanto o país continua a ser gerido algures entre o Terreiro do Paço e Bruxelas.

O Presidente, no fundo, é o nosso moderador de luxo. Alguém que pagamos para ler as entrelinhas dos decretos e para, ocasionalmente, mandar um "puxão de orelhas" ao Governo num discurso de 10 de Junho que ninguém ouvirá até ao fim. É o guardião de um templo onde as colunas já estalaram há décadas, mas que mantemos pintado de fresco para as visitas oficiais.

​Quando a contagem termina, o país suspira de alívio. Cumprimos a nossa quota de democracia. Amanhã, voltamos à rotina de sempre: o SNS em coma, a habitação a preço de ouro e a esperança de que o novo inquilino de Belém tenha, pelo menos, a decência de usar o seu poder de veto para nos poupar ao ridículo mais óbvio. Afinal, em Portugal, o Presidente não resolve os problemas; ele apenas os narra com a solenidade necessária para que pareçam inevitáveis.

Depois... depois esperamos por fevereiro, para repetir a via sacra.

2026-01-17

Refletindo


Ah, o púlpito vazio! Que imagem mais poética para representar o vazio intelectual que nos brindou durante semanas. Hoje é o sagrado "dia de reflexão" - 24 horas em que os portugueses devem meditar profundamente sobre qual dos salvadores da pátria merece o seu voto. Como se alguém fosse mudar de ideias depois de meses a engolir propaganda como quem come tremoços.

Os microfones aguardam, solitários, descansando finalmente de amplificar banalidades, promessas recauchutadas desde Afonso Henriques e acusações trocadas com a subtileza de peixeiras na Ribeira. A bandeira observa, coitada, já vista tanta coisa que nem se espanta.

Mas fiquem tranquilos: hoje refletimos (ou vamos ao shopping, dá no mesmo), amanhã assinalamos a cruzinha no papel como bons democratas e segunda-feira acordamos no mesmo país de sempre. Porque em Portugal não há milagres - há é folclore eleitoral a cada cinco anos.

2026-01-16

Economia de Subsistência


​Hoje, o dia amanheceu em regime de serviços mínimos. Não há greve, mas falta o combustível da intenção. Movimento-me por coreografias gastas: o café que arrefece na chávena, o olhar fixo num ponto qualquer da parede, o cumprimento protocolar a quem passa. Existe uma harmonia cinzenta em fazer apenas o estritamente necessário para não levantar suspeitas de ausência.

​Evito grandes pensamentos, como quem evita degraus altos com os joelhos cansados. A alma está em manutenção, ou talvez apenas a poupar energia para uma estação que nunca chega. Não é tristeza, é um deserto plano onde o vento não sopra. Sobrevivo à rotina com a precisão de um relógio que ninguém consulta, esperando que o tempo passe sem me pedir contas, nem explicações, nem entusiasmo. Amanhã, talvez, eu regresse ao mundo. Hoje, apenas ocupo o meu lugar.

2026-01-15

Io, Epona!


Talvez um "Io, Epona!" fosse capaz de ir melhor com a época do que os aleluias convencionais. Estamos naquele momento do ano em que a deusa mãe, sempre tão esquecida, merecia ser lembrada. Agora que os dias já crescem, depois do Inverno que nos afundou em escuridão e frio, é tempo de invocar aquela que nos traz de volta a fertilidade, a vida, os tempos férteis que irão voltar.

Epona, a deusa celta dos cavalos e da fertilidade, devia ter lugar de honra nestes dias. Afinal, é ela quem cavalga o ciclo das estações, quem nos traz a promessa de que a terra voltará a dar fruto, de que há vida depois do gelo. Mas não. Preferimos os aleluias, essas exclamações que já não dizem nada a ninguém, que se repetem por hábito mais do que por convicção.

Um "Io, Epona!" seria mais honesto. Mais pagão, certamente. Mais conectado com aquilo que realmente se celebra nesta altura do ano: o renascer, a luz que volta, a terra que desperta. Seria celebrar a força da natureza em vez de apenas repetir fórmulas gastas.

Mas pronto, continuaremos com os aleluias. É mais fácil. Menos incómodo. E Epona continuará esquecida, galopando sozinha pelos campos da memória colectiva, enquanto fingimos que não sentimos o pulsar da terra debaixo dos nossos pés.

2026-01-14

Bigodes


A moda é cíclica, já sabemos. E agora temos ressuscitado o bigode, ainda que muitos sejam  só amostra com a mania. É que eu, quando penso num bigode digno do seu nome, com panache e brutalmente patriota, penso no Artur Jorge. Não me serve outro. Não me serve qualquer amostra. E fico a pensar... será que a seguir vamos voltar a ter o "cabelinho à Paulo Bento"?