E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.
É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim.
Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.
Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.
Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.
Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.
É um buraco negro. Suga.
De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.
É um monstro.
Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.
(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)
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