2026-08-14

O purgatório do saber inútil

Sei muito pouco de quase tudo, mas trago na memória um amontoado de saberes sem utilidade. Seria a concorrente perfeita de um qualquer concurso televisivo — esse purgatório do saber inútil onde se premeia quem sabe tudo e não percebe nada. Debito informação acumulada sem a questionar, pescando-a de um arquivo mental que faria melhor em abrir espaço ao que realmente importa.

Gostava, por exemplo, de reter nomes — coisa que raramente acontece. Irrito-me ao reconstruir cadeias de factos circunstanciais que despejo no interlocutor, na esperança de que, do outro lado, surja o nome que me escapa. Sei pormenores irrelevantes, mas falho no essencial.

Tenho facilidade em fixar minúcias: palavras em desuso que só regressam quando escrevo, detalhes sem préstimo. Esqueço caras. O disco, ao que parece, tem prioridades. Esqueço pessoas por inteiro, se não deixaram marca — e nem sempre é a pessoa que decide o que conta como marca. Perco-me nessas genealogias improvisadas — “o irmão do primo da Maria, casado com a Engrácia, aquela da sala ao lado no 9.º ano, da vespa azul às risquinhas”. Fico no primo. Nunca chego à Engrácia, muito menos à vespa.

Chamo-lhe memória selectiva, mas nem sequer é selectiva o suficiente: selecciona mal e sem me consultar. Preferia uma memória funcional, menos saturada de irrelevâncias. Dava jeito lembrar caras. Dava jeito lembrar nomes. Dava jeito, sobretudo, saber apagar o ruído e guardar o que faz falta — sobretudo na interlocução, onde tantas vezes falho.

No fundo, precisava de menos arquivo e mais critério. A minha memória pede um upgrade. Como tantas outras coisas, terá de esperar.

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