Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.
E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?
Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.
Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.
Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.
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