2026-09-06

A economia da cunha

O semáforo da esquina esteve avariado catorze meses.

Não era uma avaria sofisticada. Não exigia inteligência artificial nem um engenheiro da NASA. Era um semáforo: duas ou três lâmpadas com uma função modesta — dizer às pessoas quando podiam avançar sem morrer.

Durante catorze meses, esteve amarelo para todos. Para os carros, para os peões, para quem vinha em sentido contrário.

Houve um acidente. Depois outro. As pessoas do prédio fizeram o que ainda se recomenda a quem acredita nas instituições: assinaram um papel, entregaram-no na Câmara, esperaram.

O semáforo continuou amarelo.

Até que o neto do vereador começou a andar de bicicleta naquela rua.

Resolveu-se em três dias. Apareceu alguém com uma chave de fendas e uma preocupação genuína pela segurança rodoviária que estivera catorze meses em licença sabática.

Ninguém disse "cunha". Disse-se "finalmente deram-lhe seguimento". Já nem é preciso esconder a cunha. Basta mudar-lhe o nome. Hoje chama-se contacto.

A minha avó praticava uma forma mais artesanal e mais honesta de corrupção afectiva. Levava uma caixa de pastéis a quem lhe tratasse dos papéis. Chamava-lhe "uma delicadeza". E havia qualquer coisa de reconfortante naquela transparência: toda a gente sabia ao que ia.

Hoje somos mais sofisticados. Já não levamos uma caixa de pastéis. Levamos um apelido, um primo, um grupo de WhatsApp que não tem nome porque não precisa. E, sobretudo, levamos a convicção de que aquilo que conseguimos não foi por cunha — foi por mérito.

Portugal é um país profundamente comprometido com a coincidência.

Há pessoas que passam meses a tentar marcar uma consulta, obter uma licença, resolver um processo. E há outras que dizem: "Deixa estar, eu conheço lá uma pessoa." Essa frase é o horário de funcionamento não oficial de todos os serviços públicos.

Mas quase nunca vemos quem fica do lado de fora. A pessoa que esperou. Que cumpriu os prazos todos, que entregou os documentos todos, que não conhecia ninguém. Essa pessoa é a moeda da economia da cunha: paga com tempo. E quando se cansa, paga deixando de tentar.

Não aparece em lado nenhum. Nem nas estatísticas, nem na conversa de café, nem sequer na sua própria indignação, porque já se convenceu de que foi apenas azar.

O semáforo está verde há dois anos. Ninguém pergunta porquê.

Não corrigimos o sistema. Corrigimos a memória.

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