Foi um ataque cardíaco fulminante. É assim que se diz, não é? Fulminante. Uma palavra que parece um raio a rasgar o céu limpo. Num instante estava, no instante seguinte já não está.
E eu não consigo parar de pensar no meu pai. No final de julho. Um mês inteiro entre a notícia e o fim. Um mês para processar o que nunca se processa de facto. Andámos aquele mês a acreditar e a não acreditar ao mesmo tempo. A fazer planos pequenos como quem assobia no escuro. Sabíamos, sem nunca saber realmente que o fim estava ali, ao virar da porta.
São duas formas opostas de perder alguém. E nenhuma é mais leve.
Quando soube que o meu pai sabia que estava a morrer, doeu-me por ele. Doeu-me esse peso lúcido. Hoje penso na minha amiga, e penso que o peso dela deve ser outro, talvez ainda mais desamparado: o de não ter havido tempo para o adeus. Para a última frase. Para a mão dada. O baque imenso de uma ausência que não pediu licença.
Disseram-me - e hão-de dizer-lhe a ela também - "não sofreu". Que frase absurda. Como se isso apagasse alguma coisa. Como se o sofrimento fosse só do corpo, e só dele, e só naqueles segundos. O que fica não é sobre se sofreu ou não. É sobre quem fica, de repente, sem chão.
Hoje, o luto dela encosta-se ao meu. Não se comparam, não se medem. Apenas se reconhecem, em silêncio.
Que possa, um dia, doer menos.
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