Há coisas que me agridem fisicamente. Não é maneira de dizer. É mesmo o corpo a reagir, a pele a eriçar-se e a vontade de fugir a instalar-se antes de o cérebro ter tempo de se pronunciar.
Mãos com unhas roídas, por exemplo. Só de imaginar que tenho de cumprimentar uma mão assim, arrepio-me toda num nojo total e absoluto. Não falo, evidentemente, daquelas unhas ratadas que mal se percebe terem sido roídas; para essas, as minhas dioptrias são um feliz acaso. Falo daqueles dedos onde já nem há unha, apenas sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.
Depois há os olhos. Não me refiro tanto aos que olham um para cada lado, cada qual entregue à sua própria vida, um aqui e outro no infinito. Esses ainda vá. O meu problema são os que convergem para o nariz, como se estivessem a tentar encontrar-se a meio do caminho. Ora, como não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar impedir que os meus entortem também, num jogo de reflexos que me deixa a conversar e, em simultâneo, a gerir uma emergência oftalmológica imaginária. Talvez por isso os que se desviam para fora me incomodem menos: não consigo mimar o gesto. Ainda assim, já dei por mim a encurtar conversas e a evitar pessoas por causa desta relação muito, mas mesmo muito inconveniente com a geometria ocular alheia. A diplomacia tem limites. Os meus passam, aparentemente, pela convergência.
Também acabo as palavras aos gagos. Não sou boa pessoa.
Com a burrice, a coisa muda de figura. Sobretudo quando vem armada em esperteza. A ignorância não me incomoda por aí além: ninguém nasce ensinado, ninguém sabe tudo e há sempre qualquer coisa que nos escapa, por muito que o ego se esforce por ocupar o espaço todo. Também não falo de falta de cultura ou de educação. O que me tira do sério é a cabeça oca com pretensões a cátedra, a criatura que abre a boca e transforma o silêncio, até então uma coisa perfeitamente banal, num bem precioso e irrecuperável. A primeira reacção é quase sempre a mesma: enfiar-lhe um par de estalos que lhe permita voltar a fechar os queixos, nem que seja por uns minutos, e poupar o mundo à próxima descarga de disparates.
Reconheço que isto faz de mim uma grandessíssima snobe, e duvido que esteja em idade de me reformar moralmente a este respeito. Falo da gente que se dedica a transformar objectos em demonstrações de estatuto, na esperança de que o recheio da casa compense as sinapses em falta. A inteligência não se compra. O que se compra é um relógio, um automóvel ou uma carteira com um preço capaz de fazer o vizinho engolir em seco. O resto é decoração.
Em casa, por outro lado, sou perfeitamente razoável. Ou quase.
As canecas, por exemplo, têm um lugar. Não um lugar aproximado, uma zona geográfica ou uma vaga indicação de que pertencem ao armário da cozinha. Têm um lugar. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Uma vez, duas, até três, sobretudo se estivermos apaixonados pelo infractor. Depois disso, a conversa deixa de ser sobre canecas e passa a ser sobre a possibilidade de a pessoa reunir condições mínimas para continuar a habitar o mesmo espaço que eu. Em casos extremos, a porta da rua pode tornar-se a serventia da casa. Há limites para o amor, e um deles é a reorganização unilateral da loiça.
Os livros também têm a sua ordem, e essa ordem não está aberta a interpretações criativas. Não se arrumam por aproximação, por cor ou por inspiração súbita de quem decidiu fazer uma surpresa. Há sistemas. Há uma lógica. Há uma arquitectura mental que, por razões que não me compete explicar a quem não a compreende, funciona. Desmontá-la equivale a entrar numa biblioteca, trocar as lombadas todas de sítio e depois anunciar que se fez uma melhoria na circulação.
Consigo ser muito mais tolerante com coisas que, em teoria, deveriam dar cabo da minha sanidade. Pratos e talheres fora do sítio, toalhas mal arrumadas, roupa suja abandonada fora do cesto, tampa da sanita levantada. Tudo isso me irrita, claro, mas pertence ao domínio das falhas humanas reconhecíveis. A caneca fora do lugar, não. A caneca fora do lugar é uma provocação pessoal.
E depois há a cama.
Não interessa se o lado esquerdo ou o direito, porque essa distinção é irrelevante. O meu lado é o lado da janela. Ponto final, parágrafo. Não há negociação, consulta pública ou referendo doméstico que altere esta disposição. A cama tem, além disso, de me permitir dormir com os bracinhos por cima da cabeça, em arco, numa pose de bailarina que perdeu o palco e encontrou finalmente um colchão. É assim que durmo. Sempre foi assim, ou pelo menos desde que me lembro de dormir, e não tenciono iniciar agora um programa de reeducação postural para acomodar as preferências de terceiros.
Não me perguntem porquê. Não sei. Também não tentem enganar-me, convencidos de que, uma vez adormecida, qualquer lado serve. O mais provável é que eu acabe do lado certo da cama, nem que para isso tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.
O mundo é grande. Há espaço para todos. Desde que não me mudem as canecas.
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