2026-07-21

O buço como bandeira


A moda é cíclica, já sabemos. Desta vez resolveu ressuscitar o bigode e elevá-lo a bandeira estética. Só que uma coisa é um bigode; outra é um buço com excesso de autoestima.

Eu, quando penso num bigode digno desse nome, penso no do Artur Jorge. Entrava na sala da conferência de imprensa uns segundos antes dele, anunciava a autoridade do dono e só depois aparecia o resto da cara. Aquilo era um bigode. O resto é penugem com departamento de marketing.

De repente, multiplicaram-se pelos rostos masculinos buços tratados com uma solenidade que a natureza raramente lhes concedeu. Não interessam a espessura, a densidade ou a capacidade de sobreviver a uma rajada de vento. O importante é que o algoritmo decretou que o bigode voltou e, como sempre acontece, milhares de homens decidiram que a natureza havia de obedecer às tendências.

Não obedeceu.

Há buços tão ralos que parecem desenhados a lápis por um arquiteto indeciso. Outros lembram o pó que fica na escova depois de aparar a barba. Alguns são apenas uma sombra castanha entre o nariz e o lábio superior, como se a puberdade tivesse feito uma visita rápida e prometido voltar mais tarde.

O curioso é que o novo bigode raramente comunica irreverência ou maturidade. Comunica intenção. Vemos menos um homem e mais um esforço meticuloso para parecer um homem que bebe café de especialidade, fotografa em analógico, ouve discos de vinil e trata o barbeiro por "artista". O buço deixou de ser pelo. Passou a ser branding.

Sempre houve homens que tinham cara para bigode. Era quase uma vocação facial. O bigode completava-os. Agora é o contrário: há rostos inteiros sacrificados para servir uma moda que lhes fica como um casaco dois números abaixo.

A estética, infelizmente, não é democrática. Nem tudo fica bem a toda a gente. Há quem tenha nascido para usar chapéu, há quem consiga vestir uma camisa de linho sem parecer um empregado de esplanada, e há quem possa usar um bigode sem dar a impressão de que perdeu uma aposta.

As modas têm este péssimo hábito de ressuscitar os mortos errados. Hoje foi o bigode. Amanhã pode ser o cabelinho à Paulo Bento. Depois a peúga branca. Qualquer dia deixamos de seguir tendências e passamos a frequentar sessões de espiritismo estético.

2026-07-20

O Meu Ódio de Estimação

Autotune, essa prótese vocal para quem confunde canto com aritmética. A voz, outrora falha humana e por isso bela, entra numa máquina e sai lisa como azulejo de casa de banho: sem hesitação, sem rugosidade, sem alma — porque a alma, ao que parece, também desafinava. Há sempre alguém que adora o "Believe" da Cher, que inventou o vício, ou aquele ruivo de que nem lembro o nome cuja voz corrigida se tornou género.

E depois há qualquer coisa mais, um brilho metálico que me fura os tímpanos, um zumbido polido que insiste mesmo quando mais ninguém parece ouvi-lo. Talvez seja só meu, este incómodo, este desajuste.

Hoje, qualquer garganta pode soar impecavelmente afinada durante três minutos e trinta segundos, e poucos parecem reparar que o milagre foi comprado, não cantado. É a democratização da mentira: já não é preciso dominar a voz, basta um plug-in e a arrogância de acreditar que ninguém nota. Notam. Só já não se importam. Preferem o robô afinado ao humano imperfeito. Sintoma, não causa. Ou talvez apenas o meu ódio de estimação: esse ruído artificial que se cola à música como verniz.

2026-07-19

Ventilação

Todas as manhãs, o mesmo ritual: escancaram-se as janelas, sacodem-se as almofadas e, durante dez minutos, a casa respira como se tivesse alguma coisa a confessar. Entra o ar de fora — o mesmo ar que, minutos antes, saiu de outra casa, carregado do que os vizinhos cozinharam ou discutiram — e sai o de dentro, como se o simples trânsito de moléculas resolvesse o que ficou por dizer à mesa do jantar.

Há qualquer coisa de exorcismo doméstico nisto. A crença de que basta uma corrente de ar para dissipar o cheiro a fritos, ao silêncio ou ao desacordo. Abre-se bem a janela, deixa-se entrar o fresco e espera-se que alguma coisa, lá dentro, fique mais leve. Arejar como acto de higiene moral: já não se limpa a consciência, ventila-se.

Ao fim de dez minutos fecha-se tudo outra vez, porque o frio também não é visita para demorar. A casa arrefece, cheira melhor e continua exactamente com os mesmos problemas. Só que agora estão bem arejados.

2026-07-17

O Peso Exacto


Não sei que sentido têm em nós as glândulas do medo, mas as gatas sabem. Vieram uma a uma, sem consulta prévia entre si, sem reunião de emergência felina — vieram porque o corpo, quando espera um veredicto, exala qualquer coisa que os humanos deixaram de saber ler.

A primeira instalou-se à cabeça, ali onde a cabeça continuava a fazer contas que não davam. A segunda aos pés, como quem guarda a saída, ou talvez a fuga. A terceira ao lado, no espaço exacto onde cabe um corpo que treme sem ainda saber que treme.

Formaram um triângulo. Não vieram pedir comida, nem festas, nem a atenção distraída que costumam mendigar a meio da tarde. Vieram fazer guarda.

As gatas não sabem ler exames nem percebem português, mas impõem-se com o peso exacto de quem entendeu que não era preciso perguntar.

2026-07-12

O inventário das minhas guerras


Quando ainda mal sabia ler, já conhecia Biafra. Não no mapa — demorei anos a encontrá-lo — mas nas fotografias a preto e branco de crianças com barrigas inchadas e olhos demasiado grandes para a cara. A guerra tinha acabado antes de eu nascer, mas os fantasmas não pedem licença para entrar.

Na escola primária aprendi duas coisas: a tabuada e que havia um sítio chamado Khmer Vermelho onde morriam desconhecidos. O nome era fascinante, a história horrível. Depois o Vietname entrou-me casa adentro pela televisão. Vinha com o Brando, com o Rambo, com o William Dafoe a gritar no meio da selva, com o Birdy a bater asas partidas. A guerra era americana e vinha em technicolor.

A minha adolescência teve banda sonora. Peter Gabriel cantou-me a morte do Biko. Depois disseram-me para não cantar em Sun City. Gritei “Mandela Free” em concertos onde acreditava que a minha voz chegava à prisão. Cheguei a gastar o dinheiro da mesada num 45 rpm porque me disseram que as crianças da Etiópia precisavam de saber que era Natal. Morriam escanzeladas, mas queríamos acreditar que uma canção acordava o mundo.

Era um tempo fácil. O mundo era a preto e branco e o Bond ganhava sempre. Mesmo o Sting, quando perguntava “how can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toy?”, admitia logo a seguir que os soviéticos também amavam os filhos. Havia mau e havia bom. E nós estávamos do lado certo.

Depois o Muro caiu. Mandela saiu da prisão. Parecia que tínhamos ganho. Tiananmen foi só uma nota de rodapé porque a História, diziam, tinha acabado. O Baader-Meinhof, o IRA, a ETA — tudo parecia perder terreno para a CEE e para uma década de cartões de crédito. Beirute ainda chorava, claro. Mas Beirute era longe.

Foi nos Balcãs que perdi a fé que Biafra não me tinha tirado. Dez anos no coração da Europa a lembrar-me que o futuro tinha nomes como Sarajevo e Račak. Pelo meio, acenei lenços brancos por Timor e vi a guerra do Bush pai em direto, numa estranha luminescência verde que fazia tudo parecer um videojogo.

O cinismo voltou para ficar. Dei por mim a perceber que já não era a mesma pessoa quando caíram as Torres Gémeas do que tinha sido quando rebentou o infantário em Oklahoma City. Alguma coisa endureceu.

Agora faço contas que não devia fazer. Aylan doeu-me mais do que Valéria, afogada, enfiada na t-shirt do pai. E sei, com uma vergonha que não digo a ninguém, que a próxima criança morta vai doer menos do que Valéria. Vou-me gastando aos pedaços, cimentada em indiferença.

Na Eritreia ninguém quer saber se é Natal. Eu também já não. As meninas do Boko Haram ainda estarão vivas? A Venezuela morre. O Haiti também. Síria, Gaza, Ucrânia — a lista atualiza-se sozinha. Os ataques terroristas deixaram de abrir telejornais, exceto se morre um português.

E falta-me sempre o Afeganistão. Primeiro fomos lá com os soviéticos, depois com os americanos, como se a história fosse um filme em loop que eu já tinha visto com o Rambo. E eu, que quis escrever uma tese sobre desenvolvimento sustentado quando ninguém sabia o que isso era, apanho-me a pensar se vale a pena o trabalho que dá separar o vidro do plástico.

No fim, falta sempre um nome. Há sempre uma Valéria que não consigo fixar. Há sempre um 45 rpm que já não compro porque aprendi que as canções não ressuscitam ninguém.

Quando era miúda, o mundo doía-me todo. Agora só me dói o que me toca. E o mais assustador não são as guerras. É dar-me conta de que já não sei quantas partes de mim perdi pelo caminho.

Memória

Fecho os olhos e sinto os pedaços da memória a agruparem-se em fila. Sinto-os em pontas, à espera da vez, para me povoarem novamente das suas energias. Como slides, deslizam, fazem-se presentes.
Lembro uma cara, um sorriso, um fantasma que ainda me habita. Lembro o tempo e o cheiro e até o sabor roubado de uma boca.

Lembro uma sala, um jardim, um copo que vejo umas vezes meio cheio, outras só meio vazio. Sinto ainda um toque gotejante e o som de um riso ténue e respondo com a gargalhada de outrora.

Fecho os olhos e vejo pedaços de mim mofados, encanecidos.
Fecho os olhos e vejo conchas de segredos e ainda sinto a velha maresia que me prende, hoje como antes, às ondas das recordações adormecidas.

Fecho os olhos para me abrir à memória desbotada. Pinto novamente cada slide que desliza e se agrupa e me faz sentir invernos que foram estios e primaveras que nunca despertaram.

Fecho os olhos e vejo cada slide da memória que se esfuma e não lhes encontro já nem as dores nem as alegrias. Só breves tragédias que se vestiram de alegria.

Slides que me invadem quando fecho os olhos. Memórias que me assaltam a consciência e me ferem sem, no entanto, causarem uma dor real.

Slides que deslizam, dando a vez ao que se perfila. Slides com um corpo, um cheiro, uma música — e outros que me afloram ainda a pele com o mesmo toque que um dia foi tudo isso junto.

Fecho os olhos e o tempo escoa-se mas não se esquece. Fecho os olhos e vejo tudo, o que tem volta, o que já não. Fecho os olhos e sinto, ainda, a velha maresia a prender-me às ondas...

2026-07-08

Espera

Há esperas que não cabem no relógio — não por serem extraordinárias, mas porque alguém decidiu que o teu tempo é infinitamente elástico. O teu, claro. O dele mantém-se impecavelmente curto. Estas esperas alongam-se para dentro de nós, ocupando espaços onde antes morava a certeza, agora arrendados à ansiedade com contrato sem prazo e renda sempre atualizada.

A espera tem esse talento raro de parecer inocente enquanto faz estragos: amplifica o silêncio, estica o minuto até ele se tornar quase uma gentileza concedida. Cada possibilidade cresce, dramatiza-se, desfaz-se — e repete o número, porque aparentemente há sempre público para mais um ensaio.

A frase reconfortante chega pontual: "as coisas demoram o tempo que têm de demorar". Dizem-no com a serenidade de quem nunca esteve do lado de cá, onde o tempo não passa — acumula-se.

O coração, esse, mantém-se produtivo: ensaia despedidas, reconciliações, discursos inteiros que ninguém pediu. E nós continuamos a pagar pelos ensaios, como se a estreia fosse garantida. Não é. Nunca foi.

2026-07-05

Boletim de combustão

Há dias em que o corpo já não arrefece, apenas aguenta. Ao longe, matas e florestas ardem com uma violência que parece ter aprendido a linguagem da pressa: devoram-se árvores, refúgios, paisagens inteiras, enquanto o céu se cobre de uma cor doente, suspensa entre o fumo e a cinza.

Não ardem apenas os troncos. Arde tudo o que neles vivia: o abrigo dos animais, a sombra, a água escassa, os caminhos por onde a vida respirava sem fazer ruído. Vê-los fugir, desorientados, feridos ou simplesmente sem lugar para onde escapar, é perceber que a devastação não é uma imagem distante. É uma contagem silenciosa de perdas, feita uma a uma, quase sempre tarde demais.

E depois há as pessoas. As mais frágeis, as mais velhas, as que vivem sós, as que têm doenças respiratórias, as que não podem simplesmente «aguentar mais um bocado». Para elas, o calor não é desconforto: é risco. É desidratação, falta de ar, exaustão; a linha ténue entre resistir e cair. Há uma crueldade particular em transformar o verão num teste de sobrevivência para quem já vive no limite.

Este é o retrato de um tempo em que o calor deixou de ser apenas clima para passar a ser sintoma. Sintoma de desequilíbrio, de negligência, de um mundo cada vez mais inclinado para a combustão. E talvez o mais inquietante seja isto: já não se trata de perguntar quando chega o verão. Trata-se de saber quem será ferido desta vez.

2026-07-04

Como Perder Como um Herói

Cabo Verde — meio milhão de habitantes e um sonho do tamanho do Atlântico — agarrou-se à extraordinária ideia de que podia mesmo ganhar ao atual campeão do mundo. Empatou duas vezes. Fez Messi suar — o que, convenhamos, já não acontecia desde que ele descobriu que existe uma coisa chamada "assistente pessoal". E chegou ao prolongamento com a Argentina inteira a olhar para o relógio como quem espera pelo metro atrasado.

Depois, como manda o guião não escrito destas histórias bonitas: um golo de Romero e pronto — a Cinderela tropeça nos próprios pés mesmo à porta do baile e a Argentina segue para os oitavos com o ar de quem sobreviveu a um susto e não a um jogo de futebol.

É este o destino ontológico do underdog: existir para dar drama aos outros. Ninguém escreve odes ao favorito que ganha por 4-0 sem se despentear; escrevem-se sonetos a quem perde com dignidade — e ao golo lindíssimo de Cabral que "ficará para sempre na história do futebol cabo-verdiano", o que, tenhamos paciência, é uma maneira elegante de dizer que ficará no YouTube.

No fundo, o underdog é o parente pobre da narrativa desportiva: dão-lhe o adjetivo "corajoso", os holofotes por noventa minutos (e mais trinta de prolongamento) e mandam-no para casa antes que estrague o final feliz de outra pessoa.

Cabo Verde, parabéns. Foram lindíssimos a perder. É, aliás, a única coisa em que nós, os pequenos deste mundo, temos sempre uma medalha de ouro garantida.

2026-07-02

Caos

A doença, quando chega, não pede licença nem consulta a agenda. Chega e desarruma tudo o que uma pessoa emocionalmente organizada passou uma vida a pôr em gavetas etiquetadas. Porque há quem se sinta mais seguro a prever do que a viver e a doença não reconhece esse acordo. É, decerto, uma das experiências mais desorganizadoras que há, precisamente por confrontar aquilo que julgávamos controlar. E agora, num mundo em que toda a informação está à distância de um dedo sobre o ecrã, esse excesso não tranquiliza — alarma, confunde, acelera o descontrolo que já lá estava, só que agora com dados. Entra-se em piloto automático de gestão de crise, competente e frio e, no fim, descobre-se que o mais difícil não é resolver nada. É deixar, nalgum momento, espaço para sentir, sentar no chão e berrar.

2026-07-01

Saldo

Há dias em que dou por mim a fazer inventário. Não das contas por pagar, nem das tarefas que se acumulam na secretária. Faço inventário das outras coisas: dos brilhos nos olhos que apanhei pelo caminho, dos sorrisos que quase chegaram a gargalhadas, das conversas que se demoraram na memória.​

Coleciono esses restos de alegria com o cuidado de quem sabe que são frágeis. Talvez porque tenho medo das sombras. Talvez porque alguns sonhos, quando se aproximam demasiado, assustam mais do que confortam. Talvez porque a rotina tenha esta estranha capacidade de gastar as pessoas devagar, sem barulho.

Durante muito tempo achei que era uma colecionadora de pequenos instantes felizes. Hoje suspeito que não. Uma coleção escolhe-se, procura-se, organiza-se. Isto é diferente.

​São os pedaços que resistem ao desgaste. O que fica depois de mais um dia igual aos outros. O que sobra depois de a vida passar a lixa fina sobre os entusiasmos, as expectativas e as certezas. Sobra sempre qualquer coisa. Nunca sei bem o que é.

2026-06-30

O apocalipse tem má gestão de agenda

A nossa geração não teme propriamente o fim do mundo. Suspeita, isso sim, que vai chegar atrasada — havia trânsito, a reunião podia ter sido um email, e alguém achou por bem marcar uma consulta para as 16h30.

Crescemos dentro do apocalipse. Fomos criados com ele como paisagem de fundo: o cogumelo nuclear do noticiário da noite, a distopia enquanto género literário obrigatório, a ficção científica como manual de instruções para um futuro que não tardaria. Ensaiámos o fim do mundo tantas vezes — no ecrã, na página, na conversa das três da manhã — que quando ele finalmente começou a parecer real, já estávamos vacinados. Ou simplesmente exaustos.

O que nos preocupa agora não é o colapso civilizacional em si. É a logística. Se o Armagedon exigir corrida, provavelmente ficaremos para trás com os gatos e os móveis pesados. Se houver formulários, alguém vai esquecer-se de imprimir em duplicado. E há a questão do carregador — porque mesmo no fim dos tempos, parece-nos imprudente não ter bateria.

Isto não é cobardia. É uma geração que passou décadas à espera do apocalipse e chegou à meia-idade a descobrir que o fim do mundo também sofre de má gestão de recursos humanos. Podíamos ter agendado o colapso para uma terça-feira. A quarta também servia. Mas não: há sempre alguém que insiste em calendarizar o fim do mundo para uma segunda-feira.

O que revela algo sobre nós é a forma como preparámos o kit de sobrevivência. Não há rações, nem bunker, nem gerador. Há um inventário emocional construído a partir de objectos fictícios que pesam tanto — às vezes mais — do que os reais.

O casaco do Neo. A toalha do Douglas Adams. O póster do Mulder.

E se houver céu, exigimos o Metatron do Alan Rickman. A eternidade parece-nos demasiado longa para ser gasta sem sarcasmo administrativo.

Há qualquer coisa de profundamente honesto nisto. Não imaginamos harpas. Não imaginamos querubins. Imaginamos filas. E queremos alguém que as comente com o tom de voz certo.

Somos uma geração que aprendeu a sobreviver ao absurdo equipada com referências partilhadas e ironia de precisão. Que constrói sentido a partir da ficção porque a ficção, muitas vezes, foi mais rigorosa do que a realidade. Que não acredita em salvações mas acredita, firmemente, que uma boa frase no momento certo salva pelo menos o dia.

O apocalipse, se vier, vai encontrar-nos a meio de qualquer coisa. Com a agenda sobrelotada, o telefone com 4% de bateria, e uma discussão acesa sobre quem herda os óculos de sol.

Vamos chegar atrasados, é certo.

Mas vamos chegar com as referências certas.

2026-06-24

Nas Portas da Pérsia: Paint it Black

Dormente, vejo os dias passarem rápidos e iguais, numa calma de cal. Sou a passagem nevada de Tang-e Meyran, ou um edifício em queda lenta, pintado a cimento alvo. Blocos brancos para doutrinas brancas; traços de tinta da china branca sobre teorias e milagres brandos. Guerras brancas, onde o sangue é alvo e o derrame imaculado. A notícia pinta-se de branco para falar dos mesmos brancos do costume e das suas contabilidades alvas, no centro de uma cândida crise que se arrasta palidamente. Só vejo branco. Um excesso de branco. Sempre o mesmo branco. Há tanto branco que já não sei se me cobre ou se me cega. Uma mortalha por véu. 

E a vida segue negra, distraída por uma guerra nova.

2026-06-23

O tempo nunca está bem


Reparem, ninguém está bem com o tempo. Se chove, é porque chove. Se faz sol, é porque queima. Se está nublado, é aquela luz de sala de espera que nos tira a vontade de viver.

​Andamos nisto há séculos e ainda não aprendemos a lição: o tempo não serve para ser bom. Serve para dar conversa. Serve para termos uma desgraça pequena, portátil, que caiba no elevador com o vizinho.

​Eu só me sinto em paz quando posso dizer, com toda a propriedade filosófica: «Está um calor que não se pode». Ou então: «Esta humidade prende-me os ossos». Aí sim, encontro o meu lugar no mundo. Porque reclamar do tempo é o último consenso nacional. É  democracia direta: todos temos opinião, todos sofremos, ninguém resolve.

​Suspeito que se um dia o tempo estiver perfeito — vinte e três graus, brisa q.b., céu de aguarela — entraremos em pânico. Sem o desconforto para apontar, teremos de olhar para dentro. E aí, meus amigos, o tempo fecha mesmo.

​Por isso, deixem estar. Prefiro o meu Verão que me derrete e o meu Inverno que me encharca. Ao menos com eles sei quem sou. E se houver trovoada, já tenho planos.

2026-06-21

Humanidade


Há uma forma particularmente obscena de chantagem moral que consiste em transformar uma tragédia histórica num cheque em branco sobre o futuro. O sofrimento deixa de ser uma experiência humana para passar a ser um título de propriedade. A memória converte-se em alvará. A dor herdada transforma-se em licença perpétua. E, a partir daí, tudo é permitido desde que seja praticado pelos portadores autorizados da dor.

É o mecanismo mais antigo do mundo: a vítima ascende a sacerdote da própria vitimização. Já não responde pelos seus actos; administra um crédito moral inesgotável. E qualquer um que se atreva a observar o cadáver acumulado aos seus pés é imediatamente acusado de profanar o templo.

No caso dos sucessivos governos de Israel, a engrenagem atingiu uma perfeição quase burocrática. Qualquer crítica é antissemitismo. Qualquer resistência é terrorismo. Qualquer aldeia arrasada escondia terroristas. Qualquer hospital bombardeado era uma base militar. Qualquer criança morta servia de escudo humano. O raciocínio é tão elegantemente circular que dispensaria os factos, se os factos não insistissem em aparecer debaixo dos escombros.

E há aqui uma ironia histórica de uma crueldade quase insuportável. Arendt escreveu que a verdadeira expulsão da humanidade ocorre quando uma comunidade é destruída ao ponto de já não existir uma estrutura política capaz de reclamar os seus membros. Ora, se há povo que nas últimas décadas foi sendo progressivamente privado dessa comunidade, fragmentado, cercado, deslocado, ocupado, administrado e bombardeado até à exaustão, é precisamente o palestiniano. Como se alguém tivesse decidido transformar uma advertência filosófica numa experiência prática de laboratório.

Não deixa de ser notável que tantos dos que citam Arendt com reverência académica pareçam incapazes de reconhecer a sua sombra quando ela passa diante dos seus olhos.

E o Líbano outra vez.
Há sempre mais humanidade para expulsar da humanidade.

Porque evidentemente não bastava Gaza transformada numa paisagem lunar. Não bastavam os milhares de mortos, os deslocados, os órfãos, os mutilados. Era necessário alargar o perímetro da devastação. Afinal, quando se está convencido de que a própria história absolve antecipadamente todos os actos, a fronteira entre defesa e castigo colectivo torna-se um detalhe administrativo.

O mais extraordinário não é que isto aconteça. O mais extraordinário é a quantidade de gente que continua a fingir que não vê. Ou pior: que vê perfeitamente e chama-lhe virtude.

2026-06-20

Pontes


Há amores que merecem palavras claras, simples, puras. Especialmente os amores grandes, os que doem com uma dignidade particular, feitos de escolhas que ninguém testemunhou e de saudades que não têm nome certo. 

Para esses, não tenho ainda as palavras certas. Talvez porque escrever sobre eles exija um reencontro que ainda não aconteceu — com a memória, com a porta, com o momento exacto em que ficámos.

Nós sabemos o que é ficar. Sabemos o sobressalto de ter a mão na maçaneta e sentir o peso do que está do outro lado — não o peso de quem parte, mas o peso do que fica se não partirmos. É sobre isso que quero falar um dia, e estas promessas que fazemos a nós próprios são as que mais custam a adiar.

Escrevo isto para recordar que a chuva cai sempre no momento errado, e que há escolhas que se fazem em silêncio, sem plateia, sem heroísmo. Só a mão. Só a porta. Só o que decidimos que somos.

2026-06-19

Antes de ver o mar




Há um cheiro que não mudou desde que era miúda. Não sei nomeá-lo com precisão — é sal, é pinheiro a aquecer, é qualquer coisa a maresia que se mistura com pó seco de terra de carestia. Mas reconheço-o a cem metros, com os olhos fechados, antes de ver o mar.

É o cheiro do sotavento. E é, presumo, o mais próximo que tenho de uma memória que não se deixou estragar.

Tantas coisas mudaram. As casas, os preços, as pessoas que já não vêm. Eu própria mudei o suficiente para não reconhecer a miúda que correu por estas dunas. Mas o cheiro está exactamente onde o deixei.

Há uma reserva aqui ao lado e os pássaros não sabem nada de nostalgia. Fazem o que sempre fizeram — gritam, pousam, partem em bandos que desenham e desfazem formas no céu sem se preocuparem com quem está a olhar. Há nessa indiferença um sossego que nenhum conselho me deu.

Talvez seja isto o contentamento que não sei escrever: não a felicidade, que exige acontecimento, mas a permanência. O facto de haver coisas que esperam por mim exactamente como as deixei — um cheiro, um som, uma reserva de pássaros que continuam o seu mundo indiferentes ao meu.

Aqui há silêncio. Não o silêncio que falta — o silêncio onde cabe o chilreio dos pássaros, o som das ondas, os passos sem pressa de quem já não tem onde estar senão aqui.

E, de repente, basta.


2026-06-18

Céu de verão


O céu de verão é um bicho inquieto. Acorda cedo, já azul e espalhado, como se tivesse pressa de existir. Às vezes vem limpo, outras riscado por nuvens errantes, como frases abandonadas a meio. O sol, senhor absoluto, escorre dourado nas esquinas, nas peles, nos silêncios abafados da tarde.

Há dias em que inventa tempestades do nada, só para lembrar que manda. E quando escurece, não cessa — vira palco de estrelas que piscam sem ordem, desavergonhadas.

​O céu de verão não pede licença. Chega, ocupa, e deixa-nos a sós com tudo o que não sabemos nomear.

2026-06-16

O café do lado de fora do mundo



Há uma arte em virar as costas.

Não a das fugas — essa é ruidosa, cheia de bagagem e justificações. Esta é mais silenciosa: a de se sentar de frente para o horizonte e deixar o mundo acontecer sem plateia.

A cadeira é branca. O café, quente. O mar não precisa de explicação.

Fora do enquadramento, pressupõe-se tudo: o telefone, a lista, as respostas por dar. Aqui dentro — neste retângulo de areia e céu — existe apenas o gesto de segurar a chávena com as duas mãos. Como quem segura algo frágil. E sabe que o é.

As flores ao lado são hortênsias. Ninguém as pediu; aparecem como a graça — sem aviso e sem motivo aparente.

Não são férias. É outra coisa.
É o intervalo exato antes de voltar a ser responsável pelo mundo.

Vale o que vale — e vale tudo.