2026-06-04

Herdeiros de quem?


Os meus antepassados saíram para o desconhecido numa caixa de fósforos. Levavam uma esfera armilar, um astrolábio, a convicção de que a terra não acabava ali e a desfaçatez suficiente para testar a hipótese. Foram. Voltaram. À boleia da Volta do Mar, o que não é pouca coisa num tempo em que o horizonte era uma teoria por confirmar.

Eu, herdeira legítima desse património genético e cultural, há dias em que preciso de GPS para chegar ao supermercado que fica a quatrocentos metros de casa.

Não é uma confissão. É um dado.

A questão que se levanta — e que me recuso a deixar cair — não é técnica nem nostálgica. É mais inquietante do que isso: com o acesso sem precedentes ao conhecimento, ao mapa, à informação disponível a qualquer hora em qualquer bolso, estamos a ficar mais estúpidos ou apenas mais preguiçosos? E existe, ainda, alguma diferença entre as duas coisas?

O desenrascanço — essa virtude nacional elevada a traço de carácter, quase a argumento identitário — terá sobrevivido à era em que já não é preciso desenrascar nada porque a aplicação desenrasca por nós? Ou era o desenrascanço precisamente isso: a inteligência que nasce da escassez, o engenho que só existe quando não há alternativa?

Pergunto porque a resposta me desconforta.

Há qualquer coisa de perverso na abundância do acesso. Nunca soubemos tanto. Nunca tivemos tanto à mão. E no entanto a sensação persistente — pelo menos para quem olha — é a de que algo foi trocado por outra coisa sem aviso prévio e sem cláusula de rescisão. Trocámos a capacidade de nos orientarmos pela disponibilidade de sermos orientados. Trocámos a memória pelo arquivo. Trocámos o raciocínio pela pesquisa. São trocas racionais. São trocas eficientes. São, muito possivelmente, trocas irreversíveis.

Os meus antepassados não tinham GPS. Tinham que saber onde estavam.

Eu sei onde estou. O telemóvel diz-me.

Mas suspeito que confiar não é o mesmo que saber. 

E a minha Volta do Mar só funciona enquanto dura a bateria.

Sem comentários: