2023-01-01

Bento XVI

Eu nunca gostei particularmente do Papa que sucedeu a João Paulo II. Não gostei de quase nada do que fez ao longo do pontificado, dos retrocessos evidentes que lhe encontrei em direcção a padrões de fundamentalismo que pensei que o Catolicismo estaria paulatinamente a abandonar, desde as missas de costas voltadas para os fiéis, passando pelo facto de me ter chamado terrorista aquando dos debates sobre o referendo à IVG, com os escândalos da pedofilia dos padres de permeio e acabando no canto gregoriano. Não que eu tenha alguma coisa contra o canto gregoriano, ou sequer o Latim, mas pareceu-me sempre estranho que o chefe da ICAR se empenhasse em transformar as celebrações de fé em algo em que os crentes permanecessem alheados, como que meros espectadores do evento, em lugar de envolvidos e participativos no mesmo. Mas eu não sou católica e, por isso, pouco caso haverá a fazer aos meus "achismos".

E, no entanto, em alguns momentos, Bento XVI conseguiu surpreender-me profundamente, eu que sempre fui tão renitente em apreciar-lhe qualquer qualidade. Como a sua valência como cientista e a forma como tentou conciliar a racionalidade da ciência com a sua fé. Ou como quando decidiu ser Papa Emérito,  reconhecendo, talvez, que o seu tempo - e o seu propósito - após a morte de um Papa tão amado como João Paulo II, tinha passado. E com a sua renúncia foram-se os meus "achismos", especialmente quando, tendenciosa, o culpava a ele de tanta coisa que, como se viu depois, pouco ou nada teria sido capaz de alterar se não  renunciasse. 

Ser chefe máximo da ICAR é ter um tremendo poder nas mãos; será talvez também um fardo impensável. Mas os grandes homens, mais do que saberem persistir, devem saber quando chega a hora de saírem de cena. Partiu agora de vez e, olhando para trás e para a História, partiu com o respeito de todos e saudades de muitos. Eu? Eu agradeço-lhe particularmente não ter  voltado a assistir a uma agonia televisionada, como a de João Paulo II.

2022-12-09

Ah! Ainda estamos aqui!

Um dia vou começar o livro que nunca vou acabar só para fazer exercício aos neurónios. E sinto falta dos comentários dos amigos que ainda se lembram de quando eu escrevia, especialmente quando gostavam dos textos que eram mais corrosivos e sarcásticos. Durante muito tempo não percebi porque eram esses os textos que mais agradavam. Até ao dia em que passei a achar que não era tanto o meu texto, mas antes os olhos (e a personalidade, claro) de quem os lia. Os meus amigos são do melhor!

2022-09-22

De leste

 


"Somos a geração dos jovens iracundos,

a emergir como cactos de fúria

para mudar a face do tempo.


Antes de ferirmos a carne circundante,

comemos o pão amassado pelas botas

de muitos regimentos

e cozido ao fogo dos fornos crematórios.


Foram precisas inúmeras guerras,

para que trouxéssemos nos olhos

este anseio de feras acuadas.

Mordidos de obuses,

rasgados pelas cercas de arame farpado,

já não temos por escudo

a mentira e o medo.

Sem que os senhores do mundo suspeitassem,

cavamos galerias sob os escombros

e nos irmanamos nas catacumbas do ser.

Nossas mãos se uniram como pétalas

ao cerne da mesma angústia

e uma rosa de asfalto se ergueu

por sobre o horizonte.


E porque há entre nós

um mudo entendimento;

e porque nossos corações

transbordam como taças

nos festins da imaginação;

e porque nossa vontade de gritar é tamanha

que se nos amordaçassem a boca

nosso crânio se fenderia,

não nos deterão!

Ainda que nos ameacem com suas armas sutis,

nós os enfrentaremos,

num derradeiro esplendor.


Em breve, a nota mais aguda

quebrará o instante.

Bateremos com violência contra as portas,

até que a cidade desperte;

e com o riso mais puro,

anunciaremos o advento do Homem.

Porque nossas mãos se uniram como pétalas

ao cerne da mesma angústia,

para que uma rosa de asfalto se erguesse

por sobre o horizonte."


“A ROSA DE ASFALTO”

de Eduardo Alves da Costa

2022-09-03

Remendos

Uma das coisas que os anos nos ensinam é que não precisamos chegar sem remendo a qualquer lado. E que vamos acabar sempre remendados de alguma forma. No fim, a vitória é, quase sempre, conseguir chegar com os pespontos ainda no sítio.

2021-09-23

Glossário

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

2021-09-18

Brexit




Sempre me pareceu um bandalho com a mania, espécie cada vez mais popular na classe política de todos os países. E um dos principais motivos para as pessoas deixarem de ir votar ou votarem em alternativas alucinadas 😔 

Só ainda não consegui decidir se não passa de um perfeito idiota incompetente, um aprendiz de Maquiavel ou um mero rato a preparar-se para saltar borda fora de um barco condenado.🤨

2021-08-25

Esta voz

O meu blogue fez ontem  anos. Tem andado paradito e muito pouco palavroso ou original. E se é certo que contra a sem vontade já resisti várias vezes, agora enfrento a falta da urgência em escrever. Não será tanto ter esgotado o espaço e o nick que o mantém. Talvez tenha sido eu quem se esgotou. Sou um universo demasiado pequeno para tanta letra. Mas vamos  a ver o que acontece para a semana...

2021-08-24

Voz em Fuga

"A vida descostura, o homem passa a linha, a corrigir os panos do tempo."

- Mia Couto

Ainda não foi este ano que a minha Voz morreu...

2021-08-19

(des)humanizar

Cara a cara, as pessoas são boas ou más, gostas ou não delas, não importa nem cor nem religião nem ideologia. É a estranheza e a distância que trazem a desconfiança e o medo. Extremismos e fundamentalismos já nada têm a ver quer com credo, quer com cor, quer com política. Viraram cultos irracionais presos com cuspe às suas desculpas e argumentos fabricados. Só resultam pela desumanização do indivíduo, transformando o outro em arquétipo sem rosto, sem família, sem sangue.

Recuso-me a meter tudo no mesmo saco. Recuso-me à lavagem cerebral de qualquer culto. Recuso-me a não ver cada pessoa que se me apresenta como indivíduo. Porque há o cara a cara, porque se gosto de uma pessoa não importa cor ou religião ou ideologia; porque se ela gosta de mim, também não é pela minha cor ou a minha falta de religião ou ideologia.

2021-08-16

Os mortos anunciados

«(...)
How many children are we who are lost 
Whose are these daughters we see turn to ghost? 
What are our souls that we have lost care 
Ring out ye musics and weep if you dare-(...)»

"September on Jessore Road", Allen Ginsberg

2021-07-01

Dia

Colecciono farrapos de alegrias, brilhos nos olhos, sorrisos a caminho de gargalhadas. Tenho medo das sombras, de alguns sonhos e desgasta-me esta rotina…

2021-06-12

Dos dias...

Enquanto o Verão finge que chega para se provar logo a seguir sol de pouca dura, começo a ponderar as virtudes dos auto-bronzeadores cada vez que dou com o trombil (e as pernas, credo! as pernas...) logo pela manhã no espelho. É que eu a cores e se não estiver pintada tenho ar de alma penada acabada de sair da tumba. Assusto-me a mim mesma! Ninguém merece e logo pela manhã, ainda com a bexiga demasiado cheia. Sim, que o medo e as bexigas cheias raramente dão bons resultados e, com um olho aberto e outro ainda fechado, ver um fantasma desgrenhado não é exactamente o melhor dos bons-dias. Porque raios não me devolve o espelho imagens a preto e branco? É que nunca se notam tanto os defeitos, bolas! E a última vez que experimentei um auto-bronzeador fiquei amarela. E pior que uma alma penada a cores, só mesmo uma alma penada com ar de sofrer de icterícia.

2021-05-19

Apre!

Há dias em que chego à net e só vejo vigilantes e pequenos Charles Lynch em muito pouco amena cavaqueira. Ah admirável mundo novo das (a)moralidades onde todos querem ser juiz e carrasco!

2021-04-24

Véspera

Na véspera do dia em que festejamos a Liberdade, por e para todos os presos políticos e de consciência que continuam a existir por esse Mundo fora:

"Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia."

Sophia de Mello Breyner - Caxias 68

2021-04-10

Sapos para engolir

E, pronto, cá estou eu hoje de manguito preparado, vítima certa da caça cega aos cobres que sobram da classe média acossada e discursos populistas fascizóides que se vão alavancar numa Justiça incompetente. E de nada vai servir o manguito, mesmo bem preparado e com um acrescento para o adaptar aos tempos: um dedo médio bem erguido num punho que já não se fecha à moda antiga, que esse símbolo já me esgotaram.

2021-04-09

Caso Sócrates

Com esta justiça, nunca temos culpados, só temos boatos: 

- O envolvimento do Cavaco com o BPN é boato 
- Casa Pia é boato 
- Freeport é boato 
- Saco Azul é boato 
- BES é boato 
- Apito dourado é boato 
- Submarinos é boato 
- Caso "Paquetes da Expo" é boato
- Caso Tecnoforma é boato 
- Bragaparques é boato 
- Vistos Gold é boato 
-... 

 Portugal é o País proscrito do Boato e das prescrições.

2021-04-04

Quem

Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.

Manuel Alegre

2021-02-02

Tempos de pandemia

Como passar o humor em simples palavras quando não se sabe das palavras o bastante para que, ao brincar com elas, saiam ideias com uma comicidade natural? Talvez seja por a minha ideia de alegria só fazer realmente sentido quando partilhada (e um écran nunca se ri connosco e esta janelinha coscuvilheira nem para lá caminha) e o pudor me levar a esconder na solidão as tristezas. Ou, simplesmente, sou demasiado impaciente para alegrias diferidas.

2020-11-12

US Election: A CNN pundit's emotional reaction to Joe Biden's presidenti...

É muito fácil tentar a empatia. E tento! Mas, branca que sou num país maioritariamente caucasiano que faz de conta que não é racista, nunca vou saber o que é isto, esta emoção em direto de quem sofre na pele discriminação e tem de a explicar aos filhos.

2020-10-14

(...)

Os gajos são uma espécie estranha! Quanto mais velhos e podres, mais potente o carro que compram. E é vê-los nos Lexus, Jaguares e Porshes... a trinta à hora. Como se, num óbvio reflexo de potências pretendidas, não sobrasse mais do que um mal empregado equipamento.

2020-08-14

Kamala Harris


«And I could cry power

Power has been cried by those stronger than me

Straight into the face that tells you to rattle your chains

If you love bein' free»

2020-05-20

(des)Ventura


Houve sempre no "comentarismo profissional" português um reflexo perfeito do que se passa para lá do espaço de opinião: há as cliques, os ódios, os interesses, as modas, as votações inconsequentes, as micro e macro causas, os fogachos de qualquer outra coisa rapidamente esquecida e muita, demasiada gente, que encontrou ali um púlpito onde tentaram fazer-se maiores ou melhores do que os outros. Que importa quando o Rei vai nu se diz os disparates que se quer ouvir ou se defende as cores do clube de futebol favorito? Até o Esteves estava certo em alguns dias!  

É verdade que uns provam-se interessantes. Mas já eram interessantes antes: Marcelo Rebelo de Sousa foi sempre um senhor, mesmo quando só dizia "nim". A maioria, no entanto, tende a transformar-se em "sound bites" ou pixéis supérfluos, quando, ao terem mais olhos do que barriga, acabam a dar com os burrinhos na água. Podem até cair de pé, mas só porque agarrados como junkies à visibilidade da celeuma criada e ao facilitismo da promessa básica, vácua e populista. 

Ouve e vê quem quer, como é óbvio. Acredita o predisposto. No fim, cada um tem o comentarista que merece e mais não se pode esperar.

2020-04-20

Palavras

“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”

― Maya Angelou

2020-04-16

RIP Luís Sepúlveda

«"Yo estuve aquí y nadie contará mi historia." Ignoro cuanto tiempo permanecí frente a esa piedra, pero a medida que la tarde caía vi otras manos repasando la inscripción para evitar que la cubriera el polvo del olvido...» 

Luís Sepúlveda


Contou Luís Sepúlveda em "As Rosas de Atacama" que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". E contou ainda que foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as histórias breves de vidas que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que não são por isso menos importantes. Chamou a esse livro "Historias Marginales", nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a ideia de um deserto coberto de flores. É que é de margens e de esquecimento, de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e, no entanto, são em tudo demasiado parecidas com todos nós, anónimas a mais das vezes, capazes de fugir e se esconder, levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja apenas numa vida, a diferença. Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém contou a sua história. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações. De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte outra dessas histórias para que mais uma rosa pinte de cor o deserto do esquecimento.

2020-04-07

Vai ficar tudo bem?

A minha geração está à toa. Deram-lhe o Mundo e meia dúzia de regras, desde a democracia ao Estado Providência. Não lhe disseram que ia ter de se esforçar. À minha geração nunca foi pedido qualquer esforço. A minha geração nunca quis ter o encargo de ser uma geração. E nunca lhe disseram que ia ser difícil e que, um dia, a normalidade ficaria virada do avesso. Estávamos a erguer a cabeça da crise económica e agora enfrentamos a História em forma de peste. E não estamos preparados para morrer. Não sei se estamos sequer preparados para viver. "Andrà tutto bene!" Não sei se vai ficar.

2020-02-29

Branco

Só dormente, a ver os dias a passarem rápidos e demasiado parecidos, numa quase beatitude sem significado, como um qualquer edifício em queda lenta mas pintado a cimento demasiado branco, blocos demasiado brancos para doutrinas demasiado brancas e desenhos a tinta da china branca de pseudo-teorias brancas e milagres brancos, brandos, e guerras brancas como se o sangue fosse alvo e o derrame sem mácula, ou como se de branco se pintasse toda a notícia e ela fosse só sobre os mesmos brancos do costume e as suas contabilidades brancas também, perfilhadas alvamente e com perdões no meio de uma cândida e alva crise que se arrasta palidamente. E eu só vejo branco, um excesso de branco. Sempre o mesmo branco. Que a vida vai negra.

2020-02-19

(...)

Às vezes não há melhor que uma palavra graficamente explícita. Outras vezes, até isso é demais e basta só um gesto que resuma todas as grafias.

2019-09-24

A flor e a náusea

"Somos a geração dos jovens iracundos,
a emergir como cactos de fúria
para mudar a face do tempo.
Antes de ferirmos a carne circundante,
comemos o pão amassado pelas botas
de muitos regimentos
e cozido ao fogo dos fornos crematórios.
Foram precisas inúmeras guerras,
para que trouxéssemos nos olhos
este anseio de feras acuadas.
Mordidos de obuses,
rasgados pelas cercas de arame farpado,
já não temos por escudo
a mentira e o medo.
Sem que os senhores do mundo suspeitassem,
cavamos galerias sob os escombros
e nos irmanamos nas catacumbas do ser.
Nossas mãos se uniram como pétalas
ao cerne da mesma angústia
e uma rosa de asfalto se ergueu
por sobre o horizonte.
E porque há entre nós
um mudo entendimento;
e porque nossos corações
transbordam como taças
nos festins da imaginação;
e porque nossa vontade de gritar é tamanha
que se nos amordaçassem a boca
nosso crânio se fenderia,
não nos deterão!
Ainda que nos ameacem com suas armas sutis,
nós os enfrentaremos,
num derradeiro esplendor.
Em breve, a nota mais aguda
quebrará o instante.
Bateremos com violência contra as portas,
até que a cidade desperte;
e com o riso mais puro,
anunciaremos o advento do Homem.
Porque nossas mãos se uniram como pétalas
ao cerne da mesma angústia,
para que uma rosa de asfalto se erguesse
por sobre o horizonte."

“A ROSA DE ASFALTO”
de Eduardo Alves da Costa

2019-09-08

Apre!

Às tantas vou ficar igual, mas enquanto não fico, rais'parta os velhos ao volante! Tão depressa vão a 20km à hora, como de repente viram bichos arraçados de chita. Especialmente se vêem una rotunda ou, pior!, uma mulher a ultrapassa-los.

2019-09-03

Remendos

Uma das coisas que os anos nos ensinam é que não precisamos chegar sem remendo a qualquer lado. E que vamos acabar sempre remendados de alguma forma. No fim, a vitória é, quase sempre, conseguir chegar com os pespontos ainda no sítio.

2019-08-30

Dos telhados de vidro

Sou viciada em café e cigarros. "Podia ser pior", dirão alguns, convencidos de qua há vícios bons ou vícios maus. Podia ser viciada em videojogos, sexo, drogas duras, séries de tv, corridas de mota ou carrinhos de linhas, compras, jogos de azar, desporto de qualquer forma ou feitio ou bares ou noitadas ou engates online e porno para completar. Podia ser viciada em maledicência de vizinhos e colegas. Podia ser viciada em chocolate. Ou em gin, que está na moda. Fiquei pelos cafés e cigarros. Mas com dependência. E, como qualquer dependência, com a sua dose de toxicidade. É por isso que tenho muito cuidado com alguns julgamentos apressados. Tenho telhados de vidro. Lá porque não me viciei em injeções de ginásio, também nada sei da vida alheia, especialmente de alguém que nem conheço nem devo vir a conhecer. Cada um deve saber da sua vida e carregar o seu calhau. O meu basta-me. O dos outros não me diz respeito se não puser inocentes em perigo.

2019-08-21

Histerismo nacional

Como sempre, é demasiado fácil resvalar no próprio preconceito (no meu também) para comentar o factóide do dia. Mas as pessoas a quem tenha sido clinicamente diagnosticada uma mudança da identidade de género (transexualidade) e que, nos termos da lei, podem alterar essa mesma identidade, não merecem continuar a ter que intentar uma acção em tribunal, pagar custas, sofrer a pressão psicológica decorrente para mudar de nome só porque há quem tenha muito medo que as criancinhas, coitadinhas, sejam obrigadas a ir a casas de banho mistas. Haja pachorra!

2019-08-14

Branco sujo



Como a grande maioria dos Europeus e Asiáticos, devo ter à volta de 2% de genes Neanderthal na minha composição genética. Ou seja, seguindo qualquer lógica de supremacia branca, eu tenho em mim outra raça, outra espécie, e nunca foi na minha linha genealógica preservada a integridade racial. E se um dia analisar a minha composição genética e não estiver lá um tiquinho Neanderthal,  vou pedir livro de reclamações! 

(Já agora, parece que os africanos não partilham a sua herança genética com qualquer primo extinto...)

2019-07-12

Indiferença

Quando ainda mal sabia ler, os fantasmas de uma guerra que tinha acabado antes de eu nascer faziam-se presentes - e ainda tenho presentes! - nas tantas das fotografias de crianças famintas de um sítio chamado Biafra que demorei anos para saber onde ficava. Na escola primária sabia que havia mortes na terra de desconhecidos, com um nome interessante e uma história horripilante: Khemer Vermelhos. E depois, mesmo que não tenha sido realmente depois, um tal de Vietnam distante onde parece que todos os filmes de guerra americanos iam desaguar, levando desde o Brando até ao Rambo e ao pobre do William Dafoe ou o Birdy. E o Biko foi morto e Peter Gabriel cantou-lhe a morte. Depois ninguém queria cantar em Sun City e havia concertos onde se gritava Mandela Free. Até houve dinheiro suado que gastei a comprar um 45 rpm porque as criancas da Etiópia precisavam saber que era Natal enquanto morriam, escanzeladas,  perante a indiferença do mundo até que uma música nos acordou. E era um mundo fácil, muito a preto e branco, se bem que o Sting teimasse em lembrar "how can I save my little boy from Oppenheimer's deadly toy?" enquanto assumia que os Soviéticos também amavam os seus filhos. E o Bond ganhava sempre, obviamente. E as ditaduras continuavam calmamente, sem pios e sem ais, sem redes sociais. Até mesmo uma Tiananmen distante era só isso, porque o Muro de Berlim até tinha caído,  Mandela estava livre, o Baader-Meinhof, o IRA ou ETA pareciam perder pé numa década de crescimento económico, CEE e esperança. Ainda chorava Beirute, claro, mas era tão distante... Depois vieram 10 desgraçados anos no coração da Europa lembrar-me que o futuro seria provavelmente Sarajevo ou Račak. E acho que foi com os Balcãs que comecei a perder a esperança que nenhuma das desgraças anteriores tinha conseguido extinguir. Suspendi brevemente o cinismo acenando lenços  brancos por Timor enquanto chorava Santa Cruz, ou assistia à guerra relâmpago do Bush pai, televisionada sempre numa estranha luminescência verde. Mas o cinismo voltou e já não era a mesma pessoa quando as Torres Gémeas caíram que era quando rebentou o infantário em Oklahoma City. Vou perdendo partes de mim aos pedaços, cimentados em indiferença: Aylan doeu mais do que a pobre Valéria afogada enfiada na tshirt do pai. A próxima criança morta vai provavelmente doer menos do que a Valéria. Na Eritreia ninguém quer saber se há Natal. Eu também não. As meninas raptadas pelo Boko Haram ainda estão vivas? A Venezuela a morrer à fome. O Haiti. Os ataques terroristas que deixaram de ser notícia, excepto se morre um português... E o Planeta? Eu que quis escrever uma tese sobre desenvolvimento sustentado quando ninguém sabia direito de que queria falar. Eu, que às vezes dou por mim a pensar se ainda vale a pena o trabalho que dá separar o lixo. Eu, que estou para aqui a acabar de escrever isto e a pensar quantas pessoas vão reconhecer todas as referências e quantas, como eu, já nem referências parecem querer reter.

2019-06-22

Dever de Auxilio



Não sei onde foi parar a tolerância e a esperança da minha geração, daqueles que cresceram a acreditar que o Mundo podia ser melhor, quando até os muros eram derrubados e antigos prisioneiros políticos podiam ser Presidentes de um País. A geração dos sonhos de uma Europa dos direitos humanos, sem guerras e sem fronteiras... 

"Carga humana"? "Tráfego humano"? Como antes em navios negreiros ou vagãos de gado para Auchwitz? 

"E quest'è il fiore del partigiano 
Morto per la libertà" 

Agora é apenas música para memes e séries de TV.


2019-06-12

Do tempo

Enquanto o Verão finge que chega para se provar logo a seguir sol de pouca dura, começo a ponderar as virtudes dos auto-bronzeadores cada vez que dou com o trombil (e as pernas, credo! as pernas...) logo pela manhã no espelho. É que eu a cores (e se não estiver pintada) tenho ar de alma penada acabada de sair da tumba. Assusto-me a mim mesma! Ninguém merece e logo pela manhã, ainda com a bexiga demasiado cheia. Sim, que o medo e as bexigas cheias raramente dão bons resultados e, com um olho aberto e outro ainda fechado, ver um fantasma desgrenhado não é exactamente o melhor dos bons-dias. Porque raios não me devolve o espelho imagens a preto e branco? É que nunca se notam tanto os defeitos, bolas! E a última vez que experimentei um auto-bronzeador fiquei amarela. E pior que uma alma penada a cores, só mesmo uma alma penada com ar de sofrer de icterícia.

2019-06-04

Tiananmen

Trinta anos depois, ficou aquela realidade televisionada para que a barbárie não fosse apenas um roda-pé na História. E se o Rebelde Desconhecido continua sem nome até hoje, a imagem da sua solitária coragem está tatuada na nossa memória.

2019-05-26

¡No pasarán!

Há anos que voto contra alguém ou alguma coisa. Hoje a coisa chama-se extrema-direita. E mesmo diminuída fisicamente com um braço engessado e com uma cruz de ladecos, já está.

2019-05-20

Alabama

Assustam-me os diferentes relatos que vão chegando de sociedades fundamentalistas e o desrespeito crescente pela figura feminina. É um regresso à barbárie com base numa estrutura obstinadamente patriarcal, dogmática e neurótica. Pergunto-me se as mulheres assim acabrunhadas reconhecem ainda que o domínio imposto advém vezes demais do medo e que, necessariamente, tem de haver um reconhecimento de que o sexo da força bruta é, a muitos - demasiados! - níveis o sexo menos evoluído. E, no entanto, até as bestas tiveram mães...

2019-05-15

Dos absurdos em véspera de Europeias

Não concebo nem admito certos comentários racistas e xenófobos aos portugueses. Só se não conhecermos a História.  Ou a tivermos deturpado para encaixar numa visão do mundo alucinada.

Que povo somos, afinal? Não fomos sempre um País em movimento para algum lado, migrantes de e para toda a parte?

Com fronteiras mais ou menos estáveis desde o século XII, ainda fomos malhar mais um bocadinho nos árabes que restavam para chegar a sul. Depois, fizemos ali umas guerrinhas na fronteira e raios, Olivença até é nossa. De seguida, vamos de ir ali até ao Norte de África. Não chega e continua-se por África fora e mais além. Brasil? Ena! Pouco importa que até já lá houvesse gente, que até se fez bom dinheiro com o tráfego esclavagista banhado a ouro. E as migrações continuaram, mesmo depois de já não haver nada para descobrir, desde os pés rapados oitocentistas que iam até ao Brasil fazer fortuna e regressavam depois para construir casas gigantes e comprar um título de Barão. Ou em África, que até se dizia portuguesa. Ou, depois, o Império já mais ou menos todo perdido, mandar os analfabetos e deserdados fazer pela vida na construção de França, da Alemanha, do Luxemburgo, do Canadá, dos EUA, da Venezuela, um pouco por todo o lado.

Agora, o povo que nunca respeitou fronteiras, ou credos, ou fosse o que fosse quando andava a fazer pela vidinha, não quer imigrantes, que não há que chegue para os "nossos", que a juventude vai embora que não tem trabalho e blá, blá, blá. E os tantos de portugueses que continuam a partir? Os licenciados que vão, os outros todos que continuaram a ir, não são migrantes, claro, porque são dos "nossos", coitadinhos, e até vão de avião.

Um País de emigrantes a acenar com a bandeira da xenofobia é um absurdo. E o pior é que é uma bandeira velha e de resultados já bastas vezes comprovados como funestos.

Depois, a História, apesar das suas fronteiras, não foi justa nos movimentos migratórios da riqueza, nem da sua distribuição. E não foi menos porque uns quantos de pobres saltaram fronteiras para lutar pela vida, mas antes porque um punhado de poderosos foi à terrinha dos outros fazer pela própria vidinha.

Num Mundo economicamente globalizado e financeiramente interdependente, fechar fronteiras migratórias já não resolve nada. É só meter a rolha a jusante e temo que, no fim, o dique acabe por rebentar bem mais acima. Mas, como sempre – e as crises anteriores assim o demonstraram – há sempre alvos fáceis para a retórica. Cá estão outra vez os imigrantes. Daqui a nada vamos fazer o quê? Arranjar umas janelas de cristal para partir numa única noite de folia e deixar que o ódio endémico, sem nada resolver, sirva apenas de escape para as amarguras várias, quase todas sem terem nada a ver realmente com a cor da pele, ou o credo, ou a nacionalidade, muito menos a fronteira?

E agora que resolvemos não ter filhos, vamos acabar como? Velhos, sem segurança social e sem ninguém que nos mude as fraldas 

2019-05-04

Meu menino!

Às vezes fico a olhar e penso que entregamos nos teus ombros, ainda tão pequeninos, todo o futuro que esperamos melhor. Meu menino, criado entre gente cansada, tardio e bem vindo! A ti entregamos a manhã, a tarde, a noite, a madrugada, a familia, a amizade, o cheiro da terra molhada dos nossos outonos e o verde de todas as primaveras, o sorriso e o choro, o direito de gritar, de rir, de crescer. E de ser feliz!

2019-04-20

Palavras

“Words are things. You must be careful, careful about calling people out of their names, using racial pejoratives and sexual pejoratives and all that ignorance. Don’t do that. Some day we’ll be able to measure the power of words. I think they are things. They get on the walls. They get in your wallpaper. They get in your rugs, in your upholstery, and your clothes, and finally in to you.”

― Maya Angelou

2019-04-16

Dia da voz

Dedilho acordes de memórias banais. Não tenho história. Não tenho reino. O meu Universo é um tecto baixo e as estrelas vão fugindo. E, em dias assim, muito mais do em tantos dos anos em que tive diariamente a voz em fuga, estou muda.

2019-03-07

Violência contra as mulheres


É certo que, de certo modo, estamos todos mais atentos. Mas isso não tem servido de nada às tantas de vítimas, mesmo quando denunciam, mesmo depois das queixas na polícia, mesmo quando nem assim estão seguras. Quando chega a julgamento, sabe-se lá que código vão aplicar, ou se vai ser tratada de vadia e humilhada com a Bíblia.

Se mudou alguma coisa depois de passar a "crime público"? Mudou: todos podemos denunciar, quando nos deixamos das velhas tretas do "entre marido e mulher" e o crime não desaparece quando a mulher, quase sempre coagida, retira a queixa.

Mas isso não quer dizer que não esteja praticamente tudo mal à mesma. Com uma excepção: ainda que a carnificina continue, agora tem forma de estatística religiosamente "printada" nos jornais.

Das virgens ofendidas

O Sr. Dr. Juiz, tão ofendido no seu bom nome, contratou para o representar um senhor advogado que faz comentários da mais baixa boçalidade, mas que pelos vistos não é suposto ofenderem o nome de ninguém.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és...

2019-02-21

Boatos

Quando as cidades nasceram sub sino, os adros encheram-se de histórias e carpideiras e boatos. Mas as cidades cresceram e, quando não vigiados pelas senhoras de lenço à janela ou pelo olho que tudo vê, andamos a pôr-nos alegremente em rede, mostrando muito mais do que queríamos. E esta rede também está cheia de histórias e carpideiras e boatos.

2019-02-05

Equilíbrio

Teria sido mais fácil se tivessem imaginado o demo como mulher. Talvez à conta das artimanhas. Ou apenas para haver um mundo balançado entre opostos. Mas a balança ficou torcida e misógina, sobrando de um dos lados apenas demónios e bruxas e a tradição popular é que fez santas quem a doutrina queria putas. E vai dai, por conta do equilíbrio, reza-se mais uma Ave-Maria, enquanto se encomenda a alma ao Pai-Nosso.

2019-02-02

Bestas

É tão fácil chamar besta a alguém! Ouço as notícias em pano de fundo e lá estão umas quantas reportadas. E, no entanto, as bestas, as verdadeiras, não se agridem por motivos ideológicos, nem se matam por fanatismo. Talvez seja por isso tão monstruoso: passa muito além da bestialidade e fica-se pelo mais feio, cru e podre que a humanidade possui.

2019-01-27

Subsino

Em mais um Dia Internacional em Memória das Vítimas  Holocausto e depois de mais um atentado à bomba a igrejas na Indonésia, caio na asneira de entrar numa caixa de mensagens frequentada por americanos evangélicos daquele tipo mais idiota, inculto e fundamentalista, o que quase me provoca uma apoplexia e só me apetece correr com aquela gente à lambada.

Não que não haja malucos de todas as denominações e os que estavam na igreja até eram cristãos e os bombistas fundamentalistas islâmicos. Mas admito que tenho umas visões muito pessoais sobre as religiões organizadas, começando com o desprezo que nutro por aquela ideia absurda de que viver tem de ser em sofrimentos e que se deve é esperar felicidade para depois de um desgraçado bater a bota. E imaginar um mundo do além onde teríamos essa tal de felicidade garantida, sentaditos numa nuvem muito branca, a ouvir salmos e cânticos celestiais e a gramar com um sem assunto que faria qualquer pessoa desejar antes o Purgatório, é dos cenários mais bizarros que consigo conceber. Já agora, será que as muçulmanas têm direito a 70 virgens ou como são só meio ser humano só tem direito a 35? E porque cargas de água se havia de sentir feliz uma mulher com um qualquer fedelho mal preparado, pior ainda um harém da mesma espécie? Ou por que é que virou piada de stand up um judeu ortodoxo dizer que antes cocaína do que um bocado de presunto?

Aliás, estou convencida que Deus – se existe mesmo – nos deu em alternativa à promessa do dogma, aos livrinhos reescritos e mal traduzidos um milhão de vezes, à pasmaceira da nuvem, à reencarnação como formiga e à ineptitude do harém, a capacidade de viver plenamente enquanto ser vivo sexuado e hedonista. E um bocadinho egoísta também, que é para  ver se a tal da felicidade não tem que ser adiada para as calendas dos mitos. Ou deixamos de nos matar uns aos outros em nome de um Deus que supostamente é de todos, ama todos, independentemente do que os Homens fizeram quando resolveram reunir-se cada um à volta dos seus e dos seus livrinhos, enquanto transformavam cada casa de oração numa Torre de Babel.

2019-01-26

Marcelo Rebelo de Sousa

Acho que está na hora de o Turismo de Portugal pôr o Prof Marcelo em lugar de destaque na página oficial. A ser verdade o que contam as notícias chegadas do Panamá, desta vez ainda volta a casa envolvido no manto da Virgem Peregrina depois de ter convencido a juventude católica do Mundo que em Portugal somos os maiores a falar 5 línguas: português, espanhol, francês, inglês e selfies

2019-01-09

4 anos depois...



No dia em que matarmos o humor na ânsia padronizadora do politicamente correcto, estamos todos condenados. Condenados a uma qualquer Gattaca, num qualquer admirável mundo novo com o triunfo dos porcos à mistura. 

No dia em que continuarem a usar desenhos como desculpa, trocando tinta colorida por sangue rubro. No dia em que a humanidade perde definitivamente o rumo e, finalmente, os dois terços de escorraçados inventam o refrão mobilizador capaz de fazer as liberdades baixarem os braços, medrosas do que pode vir.

E não é piada. Pobres de nós que assim nos afastamos da nossa condição de Homens, os únicos animais que sabem rir.

http://anonhq.com/charlie-hebdoand-cartoonists-paid-life/

2018-12-24

Boas Festas!

Querido Pai Natal,

Já sei que este ano estou atrasada. Podia dizer qualquer coisa tipo "é a crise, estúpido", mas como já fazes greve todos os anos aos meus pedidos, tenho medo que desta vez te chateies a sério e nem um par de peúgas encontre no sapatinho.
Eu continuo a ser – juro! – uma menina bem comportada. Eu como a sopa, eu não minto (muito), eu porto-me bem e respeito os mais velhos, eu só insulto taxistas e outros cromos de toda a espécie atrás do volante, mais os árbitros e os futebolistas, bem como, ocasionalmente, os jornalistas e outros imbecis que têm um artigo de opinião nos jornais, além de políticos com e sem poleiro. Mas tenho a certeza que se vivesses cá também insultavas!

(insultei bastante o Bruno de Carvalho, mas esse não conta, pois não?)

O ano passado não quis complicar. Viste como fui linda, Pai Natal? E pedi paciência. Só paciência! Onde foi que a meteste que não chegou à minha chaminé? Ainda está no cu de Ju… (quer dizer) no nariz do Rudolf?

Este ano, Pai Natal, nem brinques! A crise vai preta! Negríssima! Por isso, Pai Natal, fica lá com os gajos e a paciência e traz-me só uma coisinha: o poder de compra que tinha há 15 anos atrás. E já agora, saúdinha, nas essa vou antes pedir ao Menino Jesus. Vale?

Beijinhos, Pai Natal

2018-12-20

Nevoeiro e outros fumos

Portugal vai transformando-se numa espécie de nevoeiro, com discursos e pantominas à mistura. Digamos que uma cortina de fumo, com um País pardacento reduzido à letargia de, daquele lado, já não esperar nada de decente e, por isso, demitindo-se gradualmente até se deixar levar pelo panfletário sem nem investigar de onde vem a mobilização do coletinho. Para a mediocridade que vai, será que vale oferecer pior ainda?

2018-10-08

Gajos

Os gajos são uma espécie estranha! Quanto mais velhos e podres, mais potente o carro que compram. E é vê-los nos Lexus, Jaguares e Porshes... a trinta à hora. Como se, num óbvio reflexo de potências pretendidas, não sobrasse mais do que um mal empregado equipamento.

2018-10-07

Valores


Anna Politkovskaya foi assassinada a 7 de Outubro de 2006. Lembro-me de um cartaz que então perguntava se vale a pena morrer pelo jornalismo. E lembro-me de achar, como acho ainda, que a pergunta estava errada: o que sempre esteve em causa é se vale a pena morrer pela liberdade de expressão e de pensamento. Pobres de nós quando nos vemos reduzidos a morrer por um ofício e o seu soldo correspondente, já sem acreditar em qualquer valor fundamental.

2018-09-23

Glossário

Acho mesmo que a grande maioria dos conceitos em que costumávamos assentar as nossas (re)construções do real está esgotada, vazia de sentido. Talvez por isso pareça ser, tanta vez, uma época de crise e caos: nem temos sequer as palavras certas para dizer o nosso mundo. Talvez seja necessário inventar um glossário novo até para a nossa rebeldia, ainda que mais por inépcia e comodismo do que propriamente por convicção.

Ramos Rosa

«Tu pensas
que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.


Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!


Todavia eu conheço a obstinada chama
do desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerência
dos seus astros dispersos.


Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas,
a adolescência do fogo nos labirintos negros.


Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.»

António Ramos Rosa - Tu Pensas que os Cardeais

2018-09-08

Irritações

Às tantas vou ficar igual, mas enquanto não fico, rais'parta os velhos ao volante! Tão depressa vão a 20km/hora, como de repente viram bichos arraçados de chita. Especialmente se vêem una rotunda ou, pior!, uma mulher a ultrapassa-los.

2018-09-04

Dos conflitos internacionais

Enrezina-me por dentro esta ideia de que todas as guerras e todas as intervenções internacionais são um nadinha diferentes em função não das vítimas mas dos seus supostos salvadores. E que o sol não vai nascer para os corpos que ninguém quer contabilizar hoje na Síria como antes não foram realmente contados no Sudão, ou em Beirute, ou em Timor, ou em Burma, ou no Kosovo, ou na Tchetchenia, ou no Ruanda ou na Ex-Jusgoslávia ou... E que, quando mais estes passarem e mais uns poucos encherem os bolsos e muitos encherem as covas escavadas a sete palmos, então, mais uma vez, ninguém recordará como foi e tudo voltará a ser o que cedo foi esquecido pelos caminhos mal trilhados da história que só se ri para os vencedores.

2018-08-25

Anónimos

Quando morre alguém que respeitamos, ou cujos familiares nos merecem respeito, cumprimos uma série de ritos próprios à ocasião, guardamos o luto, cumprimos os rigores do nojo. Depois, a vida segue, como segue sempre, mesmo quando uma qualquer partida, extemporânea ou não, nos leva um pedaço junto. Nas redes sociais, na net em geral, não há ritos nem respeito: esquarteja-se o cadáver até lhe mordiscar os ossos, especialmente se o morto nunca fez parte dos nossos seis graus de proximidade com o resto da (des)humanidade.

2018-08-24

Ponto da situação

Um dia cheguei a casa e criei um blogue. Ou melhor, comecei a criar um blogue...

Foi em 2004 e hoje faz anos. Ou melhor, hoje ainda não morreu.

2018-08-18

Recordando Barcelona

Cara a cara, as pessoas são boas ou más, gostas ou não delas, não importa nem cor nem religião nem ideologia. É a estranheza e a distância que trazem a desconfiança e o medo. Extremismos e fundamentalismos já nada têm a ver quer com credo, quer com cor, quer com política. Viraram cultos irracionais presos com cuspe às suas desculpas e argumentos fabricados. Só resultam pela desumanização do indivíduo, transformando o outro em arquétipo sem rosto, sem família, sem sangue.

Recuso-me a meter tudo no mesmo saco. Recuso-me à lavagem cerebral de qualquer culto. Recuso-me a não ver cada pessoa que se me apresenta como indivíduo. Porque há o cara a cara, porque se gosto de uma pessoa não importa cor ou religião ou ideologia; porque se ela gosta de mim, também não é pela minha cor ou a minha falta de religião ou ideologia.

Passou o primeiro aniversário do 17A. E houve demasiado ruído sobre cor, sobre credo, sobre ideologia. Foi um mau serviço prestado à História. E à memória das vítimas.

2018-08-10

Sombras

Tenho andado com sérias dificuldades em entender o sucesso do Sr. Grey e todas as declinações do tema que vão enxameando os escaparates como se fossem grande novidade. Mas talvez eu esteja velha demais e o meu Mr Grey ideal chamou-se John e teve a cara do Mickey Rourke antes dele a destruir à porrada. Em 1992 ainda tinha apelo e era subversivo e proibido e não me deixava apenas com vontade de fugir a sete pés de todas as relações com sabor doentio. Acho que já dei para esse peditório. Agora é decididamente baunilha. Com twists light, que estou de dieta.

2018-07-12

Autodeterminação de Identidade de género

Mesmo quando só me apetece insultá-los na maioria dos dias, mesmo que os insulte de facto, sabendo que é sempre um passo para a frente e dois para trás, rais'parta os políticos portugueses e as suas decisões. Cá está mais uma. Mais uma conquista sacada a ferros, quando ainda há bem pouco tempo Cavaco Silva queria proibir que quem já tinha mudado de sexo conseguisse mudar de nome. E nem sequer me choca a proposta chumbada do PSD. Também se tinha vivido bem com ela, não tão bem, mas muito melhor do que até agora. Bolas! Nasci durante uma ditadura durante a qual ninguém tinha direitos. No espaço da minha vida que não chega a ser ainda uma geração, o meu País e a minha sociedade, legislou e aceitou tantas liberdades que às vezes até acho que não sabem bem o que fazer com elas. Faltam as touradas? Faltam. A morte assistida? Também. Mas alguém duvida que, mais um passo para a frente e dois para trás e também chegamos lá?

2018-05-31

Eutanásia

Vou descobrindo que, quando se trata dos modelos com que a sociedade se escolhe regular, em Portugal nada se decide à primeira. Talvez seja característica da sociedade. Mas, depois, olho para a sociedade que temos, para os modelos que já se conseguiram alterar com e apesar a inépcia dos políticos portugueses e confronto-os com os modelos que fomos derrotando pelo caminho. Não estou mal nesta sociedade e com estes políticos que (ainda) não legislaram a eutanásia. Tantos outros modelos que pareciam impossíveis e fazem hoje parte das nossas liberdades (IVG, direitos LGBTQ, despenalização do consumo de drogas, até os direitos dos animais). Olhando para o mundo, olhando até só para a Europa, foram muitas mudanças em muito pouco tempo. Ao contrário de muitos, não tenho vontade de dizer mal deste Portugal. Tenho até bastante orgulho nele.

2018-04-24

Poemarma

"Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal: 
antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo, o desejo de achar.

E que o poema diga: o longe é aqui
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
Ah que o poema chegue ao pé de ti
e te diga ao ouvido o que é preciso.

Que o poema actue directamente sobre o real
nem que por vezes seja só o poeta em movimento.
Ah que o poema para ser original 
transforme em braços e acção o pensamento.

Que ponha sinos a tocar dentro das rosas
e seja mais que rosa flor de cacto.
Que o poema saiba ver dentro das coisas
a mão do homem feita poema em acto.

Que o poema me dispa de tudo o que não presta
e me transforme na sua própria acção.
Nem quero outra glória nem quero outra festa:
morrer como Guevara na Bolívia da canção.

Só tu, povo fardado de ganga azul
poderás dar-me a glória ou recusar-ma.
Aí vai o meu poema a minha taça do rei de tule
aí vai para ser arma!"

Manuel Alegre