2025-04-21

Francisco

Francisco foi silêncio entre gritos, ponte sobre abismos, sopro de Evangelho numa praça cansada de discursos. E insistia: caminhemos juntos. Até eu, que não carrego o mesmo dogma, me sentia incluída.

2025-04-20

Cansaço

Cada músculo carrega o peso do dia: as horas arrastadas, as calçadas duras, os passos dados sem pensar. Há um cansaço que não é só físico — mora fundo, entre os ossos e a memória. Os sapatos largados no canto parecem suspirar alívio. Queria-se uma pausa, um colo, um chão macio. Mas as férias também são para caminhar.

2025-04-17

Páscoa

A Páscoa não é só o coelho, nem o chocolate. É pausa e passagem. É o instante em que o silêncio pesa mais que o som, e a ausência se faz presença. Na mesa posta, o gesto de repartir diz mais do que mil palavras. Há uma ternura antiga no ato de lembrar — não só o renascimento, mas o caminho até ele. Porque morrer também é parte da história. A vida pulsa no intervalo entre o fim e o recomeço. E talvez seja isso: renascer, mesmo trêmulo, mesmo sem certeza. 

2025-04-16

Eleições

As eleições chegam como quem promete mudança, mas sempre com o mesmo cheiro a mofo. Caras novas, discursos velhos. Voto como quem joga moeda ar: esperança misturada com descrença. A cidade  enfeita-se de santinhos que ninguém pediu, promessas que ninguém vai cobrar. E o pessoal ali, entre a vontade de acreditar e o cansaço de tentar. A democracia vira teatro, com palanque e plateia — e a gente aplaude, por inércia. No fundo, votar ainda é um ato de fé, desses que não se explicam. Porque até pensamos em desistir. Mas não dá. Ainda não. Em Maio lá estou...

2025-04-12

Fascismo

O fascismo não chega com botas sujas e gritos histéricos — chega de mansinho, de fato novo, palavras doces e promessas fáceis. Vem travestido de ordem, embrulhado na bandeira, sorrindo para a câmera. Alimenta-se do medo, cresce na ignorância, floresce onde o pensamento se cala. É quando chamam à crueldade justiça, à censura moralidade. Quando o “nós” vira arma contra o “eles”. O fascismo mora nos silêncios que fazemos por conveniência, nas piadas que deixamos passar, nos absurdos que viram rotina. Não são precisos tanques ou fuzis: basta o conforto da indiferença. E enquanto muitos acham que tudo está sob controle, o fascismo infiltra-se nos corredores do poder, nos algoritmos, nas escolas, no cansaço de mais um dia de trabalho, na anestesia do quotidiano. E um dia acordamos e já é tarde. E o grito preso na garganta vira eco inútil. 

2025-04-10

Chuva

Choveu dentro de mim ontem. As paredes do peito desabaram em silêncio. Fiquei ali, olhando o chão molhado de memórias, os nomes perdidos escorrendo pelas frestas, a saudade pingando, gota a gota, até fazer poça. Tentei secar com palavras, mas elas escorregaram. Fracas, frágeis, feitas de vento. A noite veio sem pressa. Deitei-me com fantasmas que me embalaram a voz. Sonhei com o que não foi. Acordei com ausência na boca. E um gosto amargo de adeus.

2024-08-11

(...)

"Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo."

– Hilda Hilst: 
Árias Pequenas. Para Bandolim