A institucionalização do bairrismo é a forma académica de dizer que pegámos na nossa necessidade primária de marcar território e lhe demos um selo da Câmara. O pretexto é a globalização: como o mundo está a ficar todo igual, agarramo-nos à identidade local como última boia de salvação.
O que podia ser resistência genuína torna-se, na prática, uma checklist: a festa do castelo, a Semana Santa, o santo da paróquia, as roulottes de farturas. Multiplica-se o modelo por cada localidade que quer ser "diferente" e o resultado é uma monocultura do particular — toda a gente a ser única exatamente da mesma maneira. Até os nossos perigos foram catalogados. As cestas, que nos ensinavam o medo e a vertigem, foram desaparecendo entre inspeções, seguros e normas de segurança. Os carrinhos de choque agora exigem o decoro de um simulador de condução, sem o choque real de quem não tem idade mínima ou capacete.
Depois, o júri vota nos da terra porque votar neles é votar em nós próprios; e isso nunca precisa de justificação. É resistência cultural. É identidade. Toda a gente sabe o que aconteceu no Festival — a conveniência de quem se dispõe a ir onde outros não vão — mas ninguém diz nada. Segue em frente. Em Lisboa fazem o mesmo, mas com fundos europeus e fotografia para o Financial Times. Nós, cá em cima, temos pelo menos a decência de não fingir que é outra coisa.
Mas aqui está o problema com os espelhos: mostram o que não se quer ver. Eu também sinto a minha veia tripeira saltar da camisa quando alguém diz mal das tripas. Sei que a pronúncia do Norte não é um erro — é a pronúncia certa; o resto é que se enganou. E dói-me o que perdemos pelo caminho, como a fogueira para saltar no São João.
Afinal, falamos de uma festa pagã de luz e fogo, mas reduziram o nosso incêndio a um espetáculo de pirotecnia tão perfeito e asséptico que já não sabemos se é junho no Porto ou a passagem de ano no Funchal. O fogo agora é apenas para contemplar à distância, enquanto os balões são os vilões anuais. Querem-nos a olhar para o céu, pasmados, enquanto nos pés, onde antes havia cinza e coragem, agora só há o asfalto limpo de uma festa que esqueceu como se arde.
Sei tudo isto e não mudo nada, porque há coisas que não são convicções. São sotaque. Os ditongos nasalados não se escolhem. Também não se pede desculpa por eles. Enquanto isso, o Manuel da esquina continuará a grelhar entrecosto, promovido a pilar da civilização ocidental.
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