2026-05-18

Remates


A miosótis é conhecida como a flor do "não-me-esqueças". É uma metáfora bonita, com um selo de romantismo vitoriano, mas a minha paciência tem um limite estrito e, neste momento, o meu maior desejo é esquecer onde guardei a agulha de rematar.

​Decidi fazer uma carteira. O pretexto é o costume: a busca pela autenticidade do handmade, a resistência contra o plástico chinês, a ilusão de que estou a criar um pilar da moda contemporânea. O resultado, na prática, é um puzzle têxtil tridimensional que exige a precisão de um neurocirurgião e a paciência de um monge budista. Cada flor de miosótis é um módulo. Cada módulo precisa de ser unido ao seguinte. E quando o padrão finalmente se arma, surge o verdadeiro teste à sanidade mental: os remates.

​Há dezenas de fios soltos a implorar por um acabamento invisível. Olho para aquilo e percebo que a carteira, mais do que um acessório elegante, é um monumento à minha procrastinação. Vai ficar assim, meio aberta, meio desfiada. Se alguém perguntar na rua, não é falta de paciência. É design conceptual. É a estética do inacabado. É desconstrucionismo portuense.

​Afinal, a miosótis pede para não ser esquecida, mas ninguém disse que tinha de vir rematada.

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