2026-05-17

Perfumes

Hoje ofereceram-me rosas amarelas. Esteticamente perfeitas — as curvas no lugar, o verde dos caules calculado, a armação de rede a condizer. Recebi-as encantada.

São rosas certificadas, como os pêssegos perfeitos e sem sabor. Perfeitas na aparência, amputadas de perfume. Sem espinhos também — rosas que só o são pela metade, que entram pela pupila mas que o nariz não reconhece.

Ainda alguém seca flores? As pendura no escuro, viradas para baixo, ou as prime por entre as páginas de um livro? Ainda alguém espera, meses depois, reencontrar as flores ressequidas — e com elas um vago odor de primavera?

Vou pôr estas numa jarra e olhar para elas. Mas não vou ser surpreendida pelo perfume ao entrar em casa. Não vou saber que lá estão. São flores sem memória — e sem a capacidade de criar nenhuma. Imperfeitas na sua beleza inteira, porque decepadas da sua magia perfumada.

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