Conta Sepúlveda em As Rosas de Atacama que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen-Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". Foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as vidas breves que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que nem por isso são menos importantes.
Chamou a esse livro Historias Marginales, nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a imagem de um deserto coberto de flores. Afinal, o livro vive das margens e do esquecimento. Vive de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e que, no entanto, são demasiado parecidas com todos nós: anónimas, a mais das vezes capazes de fugir e de se esconder, mas levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja numa única vida, a diferença.
Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém a contou. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações.
De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte também uma das nossas e mais uma rosa pintará de cor o deserto do esquecimento.
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