2026-01-14

Bigodes


A moda é cíclica, já sabemos. E agora temos ressuscitado o bigode, ainda que muitos sejam  só amostra com a mania. É que eu, quando penso num bigode digno do seu nome, com panache e brutalmente patriota, penso no Artur Jorge. Não me serve outro. Não me serve qualquer amostra. E fico a pensar... será que a seguir vamos voltar a ter o "cabelinho à Paulo Bento"?

2026-01-12

O Irão em chamas (outra vez)


Há qualquer coisa de ciclicamente trágico na forma como o Irão volta sempre ao mesmo ponto: protestos nas ruas, repressão brutal, retórica inflamada, o Ocidente a observar com a sua habitual mistura de preocupação e oportunismo. E desta vez não é diferente.

Os números variam conforme quem conta - mais de 600 mortos segundo uns, centenas segundo outros, mais de mil presos é certo -, mas o essencial permanece: um povo exausto pela inflação acima dos 40%, pelo rial que perdeu metade do valor em poucos meses, pela promessa sempre adiada de uma vida melhor. 

Os protestos começaram, como tantas vezes, por razões económicas básicas: o preço do óleo, do frango, do pão. Mas transformaram-se rapidamente naquilo que sempre esteve latente: um grito contra o próprio regime.

Khamenei, fiel ao guião que conhecemos de cor, chama-lhes "vândalos" e "sabotadores ao serviço de interesses estrangeiros". O regime corta a Internet, como se apagar a ligação ao mundo fosse apagar a realidade. E Trump, sempre pronto para o papel de xerife global quando há petroleo para desviar, promete "atacá-los com muita força" se começarem a matar pessoas. Como se não tivessem já começado. Como se as ameaças resolvessem alguma coisa que sanções e guerras retóricas não resolveram em décadas.

Pergunto-me, sinceramente, o que esperamos que aconteça. Que o regime caia? Que uma revolução traga democracia instantânea? Que a pressão externa funcione desta vez, ao contrário de todas as outras? Ou será que nos contentamos em assistir, indignados mas confortáveis, a mais um capítulo desta tragédia previsível?

O povo iraniano merecia melhor do que este ciclo interminável. Merecia um regime que o respeitasse, uma oposição internacional que não o usasse apenas como peça no tabuleiro geopolítico. E merecia sobretudo que o mundo não esquecesse - como esquece sempre - quando as câmaras se desligarem e a atenção mediática passar para a próxima crise.

Mas a história ensina-nos que merecer raramente é suficiente.

2026-01-11

Adolescência


E há dias em que olho para ele e pergunto-me quando é que aquilo aconteceu, quando é que o miúdo deixou de usar calças normais e passou a andar com aquelas calças cargo cheias de bolsos vazios – porque porra nenhuma lá cabe a não ser ar e ilusões de utilidade – e quando é que decidiu que aquele kispo três tamanhos acima, esse que mais parece um saco do lixo com fecho e capuz, era o auge da moda e do bom gosto. E tudo o que digo é cringe, mas ele ali a querer andar embrulhado naquele plástico a que chama casaco, isso é que é estilo, isso é que é estar na onda. Pergunto "Como foi a escola?" e ele murmura qualquer coisa monossilábica tipo "bem" ou "fixe", mas ouse pedir-lhe para largar o telemóvel, só por cinco minutos, e prepare-se para um discurso inflamado sobre direitos humanos e a injustiça que é ter nascido nesta família. E as mudanças de humor, meu deus, as mudanças de humor. Num minuto ri-se desalmadamente de um meme que eu não percebo, no seguinte está dramaticamente afundado no sofá a suspirar como se carregasse o peso do mundo inteiro nos ombros estreitos, ou mais provável ainda escondido no escritório atrás do computador a partir a mesa porque perdeu um jogo. Bem-vindos à adolescência. Onde a lógica foi de férias e ainda não marcou data de regresso.

2026-01-10

Engarrafamento


Se as sondagens de campanha servem de GPS para este desastre anunciado, a resposta honesta é: ninguém faz ideia do que vai acontecer, mas a comédia está garantida. E nós na plateia, como sempre.

A menos de dez dias das eleições, o que temos não é uma corrida democrática — é um engavetamento na VCI em hora de ponta, com cinco egos amachucados a discutir quem tem a ambulância mais bonita.

Damos conta que é desta que "o sistema" pode perder e da fragmentação como fatalidade nacional. São cinco candidatos empilhados entre os 16% e os 21%, como sardinhas azedas numa lata mal fechada. Uma margem tão ridícula que a passagem à segunda volta pode decidir-se por um erro de arredondamento estatístico ou pela qualidade dos salgadinhos servidos no último comício.

Ventura lidera com uns 20%, esse triunfo moral de quem consegue gritar mais alto numa sala de surdos. É o vilão que todos querem defrontar porque perde contra qualquer um na segunda volta. O antagonista útil, a ameaça de plástico que justifica o voto de gente que detesta escolher mas adora sentir-se heroica por fazer o mínimo.

Seguro — esse nome que é um oximoro ambulante — apela ao "voto útil" da esquerda como quem acena a última boia no Titanic.  Quer convencer-nos de que só ele impede o caos — essa palavra mágica que dispensa argumentos. Mas que ninguém pergunte o que fez quando teve poder para além de aquecer cadeiras e acumular derrotas elegantes.

Gouveia e Melo, o Almirante-vacina, começou como o messias inevitável mas vai murchando como alface esquecida no frigorífico. Ainda assim, se chegar à segunda volta, esmaga tudo com aquela eficiência militar que tanto reconforta o português em pânico. Porque não há nada que este país adore mais que fardas quando precisa de alguém que mande nele.

Cotrim de Figueiredo vai subindo nas sondagens à boleia de quem ainda acredita que liberalismo é resposta para alguma coisa que não seja o lucro dos amigos. Mas tem bom aspecto, não parece ter um Santana sem pescoço por amigo e seria presenciavel na fotografia.

Marques Mendes, o comentador que queria ser Rei e descobriu que falar para a câmara ao domingo é bem mais confortável que andar de coturnos pelo país gelado a fingir que gosta de povo. Está em quinto lugar, provando que carisma televisivo não paga despesas de campanha nem tira portugueses do sofá em janeiro.

A conclusão sem vaselina é que
teremos provavelmente uma segunda volta entre Ventura e um "Candidato Sério" do costume — seja o que hesita cronicamente, o que se põe em bico de pés, o fotogénico ou o que tem medalhas no peito. O duelo épico entre a taberna e o quartel, entre quem berra populismos e quem recita tecnocracias. Entre o insulto e a indiferença.

A única certeza absoluta? Ninguém sabe, as gráficas que imprimem boletins vão lucrar obscenamente e nós, os figurantes deste teatro democrático, continuaremos a escolher entre medos embrulhados em promessas. Nunca entre futuros. Porque futuros exigiriam imaginação e isso não é bem a nossa especialidade nacional.

2026-01-09

Flor do Mal


Dizem que o amor é cego, mas talvez o amor seja a única forma de ver no escuro total, sem precisar de apontar a lanterna a nada.

Flower of Evil não me convidou a assistir a um crime. Convidou-me a ficar a olhar para uma família perfeita a desmoronar-se devagarinho. E a não conseguir desviar os olhos.

O homem que vive naquela casa chama-se Baek Hee-sung, mas não é. É Do Hyun-su — filho de Do Min-seok, assassino em série de sete pessoas, o tipo de pai que deixa uma herança que não se pode devolver nem recusar. Hyun-su cresceu com esse espelho à frente e passou a vida a tentar perceber se o reflexo era ele. Fugiu. Bateu no verdadeiro Baek Hee-sung com um carro, ficou com o nome do homem em coma e reconstruiu-se do zero — ferreiro, marido, pai. Pratica sorrisos em frente ao espelho. Aprende afeto como quem estuda uma língua estrangeira, que nunca vai dominar completamente, mas que precisa de falar para sobreviver.

E depois há o verdadeiro Baek Hee-sung, que estava em coma mas não estava morto, que que quando acorda é muito pior do que qualquer coisa que Hyun-su alguma vez foi. Porque esse sim é o psicopata acabado, o aprendiz do pai, o mal sem dúvida nem remorso nem filha à mesa ao jantar.

A filha. A Eun-ha. Seis anos, adora os pais, não sabe de nada. E é ela que torna a questão impossível de ignorar, porque enquanto ela existir a pergunta "ele é capaz de amar?" deixa de ser filosófica e passa a doer. Porque ele age como pai. Está lá. Protege-a. E não se sabe — ele próprio não sabe — se isso é amor ou se é apenas o programa a correr bem.

Ji-won, esposa, polícia. Ela sabe. Ou suspeita. Ou escolhe não saber de vez, que é diferente e muito mais corajoso. Ela vê o monstro e decide, com uma coragem que beira a loucura, procurar a criança assustada que há lá dentro e que nunca foi salva por ninguém. 

Naquela casa perfeita o suspense não nasce de sangue — nasce do som do vidro a partir, que é muito mais difícil de ignorar.

A Coreia dá-nos isto: o mal não como caricatura, mas como herança. Como estigma que se cola à pele desde o início. Três vilões, três formas diferentes de ser monstro: o pai que o criou, o homem cujo nome roubou e ele próprio, que talvez não seja monstro nenhum — e essa incerteza é o que nos prende à cadeira dezasseis episódios seguidos.

No fim, a verdade não nos liberta. Pelo menos não primeiro. Primeiro destrói. E só depois, se tivermos sorte, é que nos deixa ser reais.

2026-01-08

Tribulações


Olhem-me só para este focinho de “Quem? Eu? Importunar? Nunca!”. Só orelhas e um bocadinho de gata à volta. E um miado forte o suficiente para sinalizar ambulâncias. Tenho para aqui uma diva a cantar ópera 24/7. Hoje, com o tamanho da dor de cabeça, é tipo um bingo cósmico de “quantas coisas podem acontecer ao mesmo tempo”. Eu sei que a gata não sabe que está a ser inconveniente ou que me dói a cabeça. E que, na cabeça dela, está só a fazer o seu trabalho muito importante de anunciar a sua disponibilidade ao universo. Aos berros. Constantemente. Enquanto eu tenho os pés gelados, o cérebro nebuloso e meio nariz entupido. E está tudo cinzento e apático. Menos a gata. Rais’parta a gata!

2026-01-06

Novelos e Neuroses



O croché é uma das poucas atividades onde começamos com um fio e terminamos com um tapete para o sofá, três camisolas inacabadas no armário e uma crise existencial sobre o sentido da vida.

Dizem que é relaxante. Mentira. Relaxante é até perder a conta das correntinhas pela quarta vez e perceber que aquele quadrado que deveria ter 20 pontos tem misteriosamente 17. Aí começa a investigação forense: "Onde é que eu comi os outros três?"

O mais fascinante é a velocidade de execução. Lembras-te da tua avó a fazer croché enquanto te prestava atenção com um ouvido e tinha o outro no Anthímio de Azevedo... Parece feitiçaria! Enquanto isso, tu precisas de silêncio absoluto, três tutoriais no YouTube e mesmo assim o teu "ponto baixo" fica com cara de "ponto deprimido".

E nem vamos falar dos padrões: "Faça 3 correntes, 2 pontos altos no mesmo ponto, vire a peça, sacrifique uma galinha à lua cheia..." Parece mais um ritual de magia negra do que artesanato.

Mas no final, quando aquele cachecol torto ficar pronto, vou usá-lo com o orgulho de quem escalou o Everest de chinelos.

2026-01-04

Doutrina "donroe"

Ah, meus caros, sirvam-me um copo de tinto, mas que seja do Douro, que o Napa Valley agora paga taxa de importação de luxo e o paladar deles sempre soube a hegemonia com aroma a carvalho novo.

​Sento-me aqui, no outono desta Europa que cheira a biblioteca velha e mofo, a olhar para os jornais deste início de 2026. Eu, que vi o Muro cair em Berlim com o coração a bater como se a História tivesse, finalmente, aprendido a ler e a escrever. Eu, que celebrei o fim da Guerra Fria com a ilusão de quem achava que o mundo seria, dali em diante, um jardim de infância gerido por filósofos. Que pateta fui, não é?

​Agora, vejo o "Don" a desenhar mapas com o mesmo giz de quem marca o território numa briga de taberna. Chamam-lhe "Doutrina Monroe", dizem os académicos com os seus óculos na ponta do nariz. Mas eu, que ainda sinto o frio dos anos 80 nos ossos, vejo ali outra coisa. É o regresso do Lebensraum, mas servido com um hambúrguer de plástico e uma aplicação de rede social.

​É a "Doutrina Donroe",  dizem. Um destino manifesto onde o "espaço vital" já não é o Leste europeu, mas sim tudo o que fica a sul do Rio Grande e a norte da Antártida. O Hemisfério Ocidental transformou-se no "quintal privativo" do Xerife. Se tens lítio, és "espaço vital". Se tens migrantes, és "ameaça biológica". É uma geometria política feita de muros e espelhos: o Don olha para o mapa e não vê países, vê imobiliário.

​E nós? Nós, a Europa...

​Nós somos a velha tia solteirona que ficou a falar sozinha no salão, enquanto os sobrinhos decidem quem herda a mobília. Sobrevivemos à Guerra Fria para morrermos de tédio e irrelevância nesta "Guerra Morna" de 2026. Em Washington, dizem que somos um "museu a céu aberto", uma civilização que se esqueceu de como se faz um soco. E talvez tenham razão. Enquanto eles discutem anexar a Gronelândia como se fosse um anexo para arrumações, nós aqui na UE discutimos o tamanho regulamentar das maçãs e a curvatura dos pepinos.

​É cómico, se não fosse de chorar. A Doutrina Monroe original era para afastar os reis europeus. Esta nova versão é para nos convencer de que nem sequer existimos. O Don olha para o Atlântico e vê um fosso, não uma ponte.

​É trágico ver o mundo voltar a dividir-se em "zonas de caça". É o regresso aos impérios que não conversam, que apenas rosnam e marcam o chão com urina estratégica. Eu, que sonhei com o fim das fronteiras, vejo agora o mapa mundi a ser retalhado por um mestre de obras que não aceita orçamentos de fora.

​Deem-me mais um gole. No fim de contas, o fim da História foi apenas um intervalo comercial. O filme que está a dar agora é a preto e branco, mas as legendas são em cirílico, mandarim e, acima de tudo, num inglês que já não reconhece a palavra "aliado".

​A Europa está calada, dizem? Não, meus caros. A Europa está apenas a tentar perceber se ainda tem voz, ou se o nó na garganta é apenas o medo de que o próximo "espaço vital" a ser negociado seja o nosso silêncio.

2026-01-02

Festas


Depois de Festas, resta-nos acordar às 3 da manhã (porque dormir a noite toda virou um conceito teórico) em ressaca existencial porque se comeu rabanadas suficientes para alimentar uma família inteira, enquanto o nosso metabolismo, que já estava em greve desde a chegada dos 50, simplesmente decidiu tirar férias permanentes.

Mas ei!, já sobrevivemos ao século passado, à TPM por décadas e aguentamos mais chefes insuportáveis do que seria possível imaginar - umas festas com excesso de bolo-rei não vão acabar connosco. Só vão deixar-nos inchadas, suadas e arrependidas até março. Nada que uma promessa de "ano novo, vida nova" não resolva... até aos Reis.

2025-12-31

Feliz 2026

Estamos naquele dia do ano em que a humanidade, por falta de melhor ocupação ou excesso de espumante barato, decide acreditar coletivamente na magia dos algarismos. E o calendário, esse artefacto administrativo que serve essencialmente para sabermos quando vencem as faturas, é subitamente elevado à categoria de divindade purificadora. 

A ideia de que podemos enfiar doze meses de prostração, más escolhas gastronómicas e decisões financeiras duvidosas num saco de lixo preto e deixá-lo à porta de casa às badaladas da meia-noite é, no mínimo, otimista. É o triunfo da esperança sobre a termodinâmica. Imaginamos que o tempo é um videojogo onde basta carregar no botão de reiniciar para as nossas dívidas morais serem perdoadas e o colesterol baixar por decreto. 

Há qualquer coisa de comovente nesta teimosia coletiva em acreditar que basta virar a folha para virarmos nós também. Como se a meia-noite fosse uma borracha mágica que apaga as birras, as E apesar da incongruência, eu também vou brindar. Não ao "ano novo", que não me deve nada nem me promete nada, mas à nossa infinita capacidade de nos enganarmos a nós próprios com tanto estilo. Se é para vivermos numa ilusão, que seja com uma taça na mão e a língua devidamente afiada. 

Feliz 2026, portanto. Que seja o ano em que finalmente... ah, deixem lá. Brindemos à tentativa! 😊

2025-12-28

Epifania Doméstica


​Ah, a cesta de roupa suja. A verdadeira prova de que a procrastinação é uma arte e o amanhã é um luxo que nem todos podemos pagar.

​Esta não é uma simples saca de lona para guardar meias. É um ultimato existencial. A frase não podia ser mais clara, nem mais passivo-agressiva.

​É o tipo de decoração que só a nossa mãe, ou o nosso eu de 5 anos, aprovaria. Uma bela peça de design de interiores que dispensa palavras e ameaça com a nudez como principal consequência de não enfrentar a montanha de t-shirts e o par de calças favoritas (o único par que ainda serve, convenhamos).

​E reparem no detalhe: a toalha elegantemente atirada por cima da alça. Não está dentro da cesta. Está lá, a pairar, como uma coroa de louros para o nosso fracasso iminente. É a toalha branca que atiramos antes de aceitar que, sim, amanhã o dress code será, de facto, o do Imperador.

​Por mim, metia esta cesta na sala em vez da televisão. É um lembrete muito mais eficaz do que a nossa vida se tornou: uma corrida constante contra o tempo, onde o maior prémio é não ter de ir trabalhar de pijama.

​A verdadeira questão é: se eu lavar hoje... de que é que me vou queixar amanhã?

2025-12-26

A Síndrome do Bacalhau Infinito


Todos os anos, a mesma liturgia: compra-se comida como se a família fosse um batalhão faminto regressado do Ártico. Resultado? Três bacalhaus, dois perus, arroz suficiente para alimentar uma aldeia inteira e rabanadas até Janeiro.

A apóstola do desperdício zero que há em mim, entra em modo tetris mental: "Isto ainda dá para amanhã! E para depois! E para a semana!" O frigorífico implora clemência, mas não há piedade.

No dia 26, começa a Via-Sacra das sobras: bacalhau à Brás, bacalhau com natas, bacalhau incógnito disfarçado de esparguete. E o peru ressuscita ao terceiro dia em sanduíches cada vez mais criativas.

Até ao Ano Novo, todos fazem o voto solene: "Para o ano, fazemos menos." Mas nunca se faz! Porque Natal sem excesso não é Natal — é apenas um jantar chato com um pinheiro decrépito a piscar no canto da sala.

2025-12-22

Pronúncia do Norte

Segundo estudos rigorosamente inexistentes, a pronúncia do Norte de Portugal resulta de uma combinação rara de fatores: clima húmido, proximidade ao mar e uma necessidade ancestral de ser ouvido a três freguesias de distância. 

A ausência de distinção entre B e V não é erro fonético, mas sim eficiência articulatória — para quê duas letras se uma chega, carago? As vogais abertas servem para ventilar a frase, os ditongos alongados permitem ganhar tempo para pensar no que se vai dizer a seguir e a palatalização de “s” e “z” acrescenta textura sonora, tal como o sal grosso na comida.

A entoação cadenciada e musical funciona como metrónomo emocional: quanto mais alto, maior o carinho. Ninguem está a discutir, está só a contar como foi o almoço. Ah! As expressões regionais surgem como marcadores discursivos avançados. “Carago” pode significar surpresa, afeto, indignação ou tudo ao mesmo tempo. E um foda-se é tudo, até exclamação. No Norte de Portugal a pronúncia é uma experiência sensorial completa. 

Conclusão científica: quem acha que os nortenhos estão sempre zangados, sofre apenas de défice de exposição prolongada ao sotaque. Recomenda-se ouvir diariamente, de preferência num café saboreando um cimbalino, até o ouvido se adaptar e o coração também.

2025-12-20

Cabaz de Natal


O modelo económico da moda, — que isto da economia teórica tem modas como tudo o mais —, prometeu eficiência como quem promete chuva num deserto: muita teoria, pouca água.

Apresentou-se como uma religião sem deuses (mas com dogmas). O mercado é omnisciente, o Estado é pecado original e a desigualdade é apenas um mal-entendido estatístico. Quando funciona, é génio; quando falha, nunca foi neoliberalismo a sério. 

Pregou-se a eficiência até ao osso, cortou-se o músculo social e chamou-se disciplina ao enfraquecimento colectivo. Privatizou-se o ganho, socializou-se o risco e chamou-se equilíbrio a um sistema que só se mantém a crédito. Quando a realidade deixou de obedecer às curvas perfeitas, recorreu-se ao velho ritual — diluir a moeda, anestesiar o salário, proteger o capital que já sabe nadar. A inflação tornou-se o imposto dos que não têm abrigo, e a “liberdade de mercado” uma palavra bonita para a fuga organizada dos mesmos de sempre. 

A teoria lá ensinou que preços resolvem tudo — desde o pão até à dignidade. O problema é que os preços também aprendem a mentir quando a moeda perde memória. Assim, enquanto o capital circula à velocidade da luz, o trabalho permanece ancorado à gravidade. A inflação corrige os salários em silêncio e recompensa quem já vive fora da folha de vencimentos.

No final, o mercado continua “livre”, mas apenas da responsabilidade. Sempre há resgates para os grandes, austeridade para os pequenos e conferências para explicar que a dor é transitória. 

O neoliberalismo não morreu; apenas se tornou zombi — continua a andar, a consumir e a repetir mantras, mesmo depois de ter perdido a capacidade de criar vida.

2025-12-19

Polémicas


María Corina Machado venceu o Prémio Nobel da Paz de 2025, reconhecida pela sua liderança na oposição venezuelana e por promover a democracia no seu país, de acordo com o Nobel. 

Julian Assange (fundador do WikiLeaks) apresentou uma queixa criminal na Suécia contra a Fundação Nobel e cerca de 30 pessoas ligadas à sua direção, incluindo a presidente e a diretora executiva da Fundação. 

O objetivo da queixa é impedir a entrega dos fundos do Prémio Nobel da Paz de 2025 à laureada María Corina Machado e acusa a direção da Fundação de crimes graves sob a lei sueca. 

Assange quer que as autoridades suecas congelem os 11 milhões de SEK (≈1,18 milhões de USD) que ainda estão por transferir a Machado e que a medalha seja devolvida. 

Segundo o documento apresentado, Assange alega que se configura um crime de apropriação indevida de fundos ao fazer o pagamento do prémio a Machado e que assim se viola o testamento de Alfred Nobel, que define os critérios do Prémio da Paz, um crime de facilitação de crimes de guerra e crimes contra a humanidade e, citando o Estatuto de Roma, que continuar com o pagamento pode violar obrigações legais suecas, nomeadamente as que visam prevenir o financiamento do crime de agressão.

Em suma, Assange defende que o Nobel da Paz só deve ser atribuído a alguém que promova ativamente a fraternidade entre as nações e a redução de exércitos, como estipulado pelo testamento de Alfred Nobel. Ele considera que o apoio público de Machado a políticas militares dos EUA e a sua retórica contra o regime de Nicolás Maduro contradizem esse propósito. 

Para os defensores da atribuição do Prémio Nobel a Machado, o prémio não legitima a guerra ou as agressões, mas deslegitima regimes repressivos. Assim, o Nobel é visto como um gesto político-moral, não jurídico.

O apoio explícito ao uso da força é o núcleo da crítica, incluindo a de Assange, já que Machado fez declarações públicas defendendo a intervenção militar estrangeira e uso da força como ‘último recurso inevitável’ e também apoiou sanções duras e ações militares dos EUA, que os críticos associam a sofrimento civil.

Note-se que o Comité Nobel frequentemente interpreta “paz” como paz estrutural, ligada a direitos humanos e democracia (não apenas ausência de guerra) e até há precedentes semelhantes como Aung San Suu Kyi (1991), Liu Xiaobo (2010) ou Andrei Sakharov (1975).

Os críticos alegam que o Comité Nobel alargou excessivamente o conceito de “paz” e que o prémio passou de instrumento pacifista a ferramenta geopolítica e também temem que o prestígio do Nobel reforce discursos de escalada ou que o prémio possa passar ser usado para justificar ações militares “em nome da paz”.

Este caso não é apenas sobre María Corina Machado. É sobre o que o Prémio Nobel da Paz é hoje: um prémio moral e político, adaptado ao mundo moderno ou um prémio estritamente pacifista, fiel ao testamento de 1895?

Até agora não há confirmação de que as autoridades suecas já tenham aceitado a investigação ou tomado medidas; é apenas uma queixa formal. 

Mas note-se que este tipo de queixa criminal é altamente incomum e marcante, pois normalmente as decisões do Comité Nobel não são desafiadas legalmente desta forma. 

A queixa de Assange força algo raro: uma discussão legal, não só simbólica, sobre os limites do Nobel.

2025-12-18

Portugal e o Paradoxo da Migração

Portugal construiu-se através da emigração. Durante séculos, milhões de portugueses partiram em busca de melhores condições de vida - para o Brasil, França, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, Venezuela, África do Sul. Nas décadas de 1960 e 1970, mais de um milhão deixou o país. Praticamente todas as famílias portuguesas têm alguém que emigrou ou descende de emigrantes.

Esses portugueses beneficiaram da abertura de outros países. Construíram comunidades, enviaram remessas que sustentaram famílias e a economia nacional, integraram-se em sociedades que lhes deram oportunidades. Muitos enfrentaram discriminação, trabalhos duros, saudade - mas foram acolhidos.

Agora que Portugal recebe imigrantes, surge uma resistência paradoxal. Pessoas cujos pais ou avós foram "os brasileiros" em França ou "os portugueses" no Canadá manifestam hostilidade contra brasileiros, indianos ou bangladeshis que chegam. Esquecem que também foram os "outros" algures.

Esta ironia não é exclusivamente portuguesa - repete-se em vários países de emigração que se tornaram destinos de imigração. Mas em Portugal torna-se particularmente evidente pela recência e escala da emigração portuguesa. Ainda há milhares de portugueses a emigrar anualmente, enquanto crescem discursos anti-imigração em casa.

A memória coletiva parece ter um horizonte curto. Vale recordar que a empatia que hoje se nega a outros foi essencial para a sobrevivência dos nossos no estrangeiro.

Normalidade

Aqui vemos o clássico desfile da normalidade: ovelhas em modo “copiar/colar”, todas felizes a marchar para lado nenhum.

No meio, a ovelha preta, que claramente perdeu o memo da reunião e lá está ela - a rebelde, a diferente, a que decidiu que lã preta era a nova moda.

Enquanto as outras seguem o GPS do rebanho, ela parou para pensar. É aquela ovelha que nas reuniões do pasto pergunta "mas porquê?" quando o pastor diz para irem todas para a esquerda. 

Provavelmente é chamada de estranha e as companheiras reviram os olhos cada vez que decide parar, quando na verdade só desligou o piloto automático.

Moral da história: ser diferente dá trabalho, mas pelo menos não dói no pescoço de tanto concordar e há sempre um manguito para nos valer.

2025-12-17

A Grande Revelação do Ministro

Finalmente Descobrimos o Problema! Depois de décadas de mistério insondável, de noites sem dormir a tentar perceber o que se passa com os serviços públicos em Portugal, surge a luz ao fundo do túnel. O Ministro da Educação, Fernando Alexandre, numa demonstração de perspicácia merecedora de um Nobel, identificou o verdadeiro culpado da deterioração dos serviços públicos: os pobres. Sim, leram bem. Os pobres. Quem diria?

Durante todo este tempo, nós, simples mortais de intelecto limitado, pensávamos que os problemas nos serviços públicos se deviam a coisas banais como subfinanciamento crónico, má gestão, falta de investimento, salários baixos que afastam profissionais qualificados, burocracia excessiva... Que ingenuidade a nossa! Afinal, o problema são mesmo os utilizadores. Especialmente os pobres. Que atrevimento o deles, usarem serviços que, tecnicamente, são para eles!

É uma lógica brilhante, quando se pensa bem. Os hospitais públicos estão sobrelotados? Culpa dos pobres que insistem em ficar doentes. As escolas públicas têm problemas? Obviamente, culpa das crianças de famílias desfavorecidas que teimam em querer educação. Se calhar deviam ter nascido ricos, não? Era tão mais simples para toda a gente.

Imaginem a audácia destas pessoas: pagam impostos toda a vida e depois ainda querem usar os serviços públicos! O descaramento! Não percebem que os serviços públicos são para estar ali, bonitinhos, intocados, pristinos, como peças de museu? São para admirar, não para usar!

A solução é óbvia: se queremos serviços públicos de qualidade, temos de impedir os pobres de os usar. Podemos até criar um sistema de porta giratória que só deixa entrar quem apresentar três extractos bancários robustos. Ou então, numa abordagem mais moderna, um leitor de cartões gold ou platina à entrada de cada hospital e escola. "Desculpe, o seu rendimento está abaixo do limiar. Tente a urgência privada ou então não fique doente."

E que tal aplicarmos esta filosofia revolucionária a outras áreas? Os transportes públicos estão cheios? Culpa de quem não tem carro! As bibliotecas municipais têm falta de livros? Culpa de quem não pode comprar a coleção completa da Bertrand! Os jardins públicos estão degradados? Culpa de quem não tem quintal privado!

Mas há que dar crédito onde crédito é devido: é precisa muita coragem para, enquanto Ministro da Educação, demonstrar tão publicamente que nunca abriu um livro de sociologia, economia política, ou mesmo de história básica sobre o propósito dos serviços públicos. É uma masterclass em ironia involuntária.

Porque, vejam bem, num país onde a desigualdade continua a ser um problema estrutural, onde milhares de crianças dependem da escola pública para ter uma refeição decente por dia, onde o SNS é a única tábua de salvação para quem não pode pagar seguros privados caríssimos, nada diz "tenho a solução" como culpar as vítimas do sistema.

Bravo, Senhor Ministro. Numa única declaração, conseguiu resumir décadas de políticas neoliberais disfarçadas de pragmatismo. "Os serviços públicos são péssimos porque há gente pobre a usá-los" é a versão 2025 do clássico "que comam brioches" da Maria Antonieta. Com uma diferença: ela pelo menos tinha a desculpa de viver no século XVIII.

Entretanto, no mundo real, professores continuam a sair do sistema, médicos emigram aos magotes, infraestruturas apodrecem, e o fosso entre o público e o privado alarga-se. Mas claro, o problema são os pobres. Sempre os pobres. Se ao menos tivessem a decência de desaparecer, tudo funcionaria na perfeição.

É claro que os problemas dos serviços públicos nunca foram, não são, e nunca serão os seus utilizadores, sejam eles ricos ou pobres. São escolhas políticas, prioridades orçamentais e décadas de desinvestimento estratégico. Mas isso dava muito trabalho a resolver, não é,  Sr. Ministro?

2025-12-16

A saga do alumínio


Minhas almas de carne e osso, que vagueiam por este plano rasteiro da existência onde o Ego se mede em metros quadrados e a Tragédia é o vizinho a sacudir o tapete às 8h01. Esta que vos fala, sentada à modesta secretária a beber um chá que já arrefeceu para a temperatura ambiente, recebeu a mais recente epifania visual urbana: o Papel de Alumínio nas Grades da Varanda.

​Oh, a ironia cósmica!

​Parece que, numa tentativa desesperada de enganar a Natureza — essa velha bruxa que se diverte a cobrir tudo com pó e excrementos de pombo — o Homo Condominius descobriu a "Solução Definitiva". Não é uma cerca elétrica, não é um sistema de repelência sónica digno de ficção científica, não! É o mesmo material que usamos para embrulhar o frango de ontem: o Alumínio!

​Ora, o que o nosso vizinho, o Sr. Ambrósio (cujo self interior é, decerto, um vazio sideral), pensa estar a fazer?

​Repelir Pombos? Ah, o pombo! Essa criatura alada, desprovida de senso estético, que transforma a nossa varanda na sua latrina privada. O Sr. Ambrósio, na sua mente new-age, imagina que o reflexo do sol no papel prateado irá cegar o pobre bicho, levando-o a uma crise existencial e a procurar um poiso menos ofuscante. O resultado, claro, é que o pombo aterra na varanda do Sr. Ambrósio, olha o brilho, faz um dó-de-peito em tom menor e... lá está o presente da Natureza. Porque, meus caros, para o pombo, o alumínio é só um adereço kitsch para a sua performance biológica.

​Proteção contra o Mau Olhado? Esta é a minha favorita. A varanda, afinal, é a Aura da nossa habitação. Ao cobri-la com este manto espelhado, o Sr. Ambrósio está a criar um escudo metafísico, que tem tanto de eficaz quanto de ridículo. Cada raio de sol refletido é, na sua cabeça, um feitiço rebatido para a fonte — geralmente, a Dona Efigénia, que olha com ciúme cósmico para a sua nova samambaia. O alumínio torna-se o Escudo de Perseu contra a inveja vizinhal, mas o efeito prático é o de transformar o prédio num gigantesco espelho retrovisor mal instalado, capaz de cegar os condutores desavisados que passam rua abaixo.

​Conclusão, almas minhas: O Papel de Alumínio nas grades não é uma solução, é uma declaração de desistência. É dizer: "Não consegui controlar o universo à minha volta, por isso embrulhei o meu pequeno pedaço de Caos num invólucro de Brilho."

​E lá fica o prédio, a brilhar como uma nave espacial do mau gosto. Um hino à futilidade do ser humano que se recusa a aceitar que a única constante é a porcaria dos pombos e a opinião desfavorável da Dona Efigénia.

2025-12-15

(...)

Um milagre inexplicável

Em notícia de telejornal, informam-nos com sisudez que os acidentes com brinquedos estão a aumentar, mas só com os que são feitos fora da União Europeia. E ouvimos com a gravidade necessária. Coitadinhas das criancinhas!

Não importa que nós, os sobreviventes das décadas de 70 e 80, sejamos a prova viva de que o ser humano é praticamente indestrutível. Afinal, crescemos numa época em que os pais nos largavam de manhã com um "volta antes de escurecer" e só se preocupavam se não aparecêssemos para o jantar.

Brincávamos na rua sem capacete, joelheiras ou supervisão parental num raio de 5 quilômetros. Subíamos às árvores até alturas que fariam um pai moderno desmaiar. Caíamos, ralávamos os joelhos, e o tratamento médico consistia em cuspir na ferida e continuar a brincar. Em situações mais penosas, havia sempre o mercurocromo, que depois desapareceu porque tinha mercúrio. Também sobrevivemos ao mercúrio, já agora.

As nossas bicicletas não tinham travões decentes, mas tínhamos os nossos pés. Os carros não tinham airbags nem cadeirinhas e nós viajávamos à solta no banco de trás – quando não íamos na bagageira da carrinha do vizinho.

Bebíamos água da mangueira do jardim, comíamos terra ocasionalmente e o nosso sistema imunitário era forjado em batalha enquanto estávamos a jogar à bola. Não existiam toalhitas antibacterianas nem géis desinfetantes. Sobrevivemos.

Hoje, os pais rastreiam os filhos por GPS, esterilizam chupetas que caem no chão em vez de as meter na própria boca e organizam "playdates" agendadas com semanas de antecedência. As crianças usam capacete para andar de triciclo no quintal vedado.

Como é que sobrevivemos? Ninguém sabe. Somos um mistério médico. Uma geração forjada na negligência benigna, que cresceu para contar a história – e para se tornar, ironicamente, nos pais mais paranóicos da história da humanidade.

2025-12-14

Sinfonia Natalícia

Dezembro vai a meio e, com ele, aquela sensação mágica de estar preso no trânsito a caminho do centro comercial enquanto o GPS recalcula pela décima vez. Finalmente chegas ao paraíso das compras, onde "Jingle Bells" toca em loop desde o início de novembro e já conheces cada nuance da interpretação de Mariah Carey de "All I Want for Christmas Is You".

É uma experiência transformadora: entras à procura de uma prenda simples e sais três horas depois, ligeiramente hipnotizada, com um saco de coisas que não precisavas, cantarolando "Last Christmas" sem perceber. As músicas de Natal nos centros comerciais têm esse poder místico - conseguem fazer-te esquecer que acabaste de dar 47 voltas ao parque de estacionamento à procura de lugar.

E quando finalmente regressas ao carro, com os braços cheios de sacos e o cérebro cheio de "ho ho ho", lá vais tu enfrentar novamente o trânsito. E temes já não te importar tanto. Afinal, "It's the Most Wonderful Time of the Year" - mesmo que passes metade dele parado no semáforo.

Num exercício de sobriedade, pões imediatamente a tocar a tua lista favorita do Spotify, porque esta descida à loucura das festas tem de ser experimentada em dose ligeira para não causar dano permanente. E respiras fundo e reclamas outra vez do trânsito.

2025-12-13

Se isto abana!...

Ah, Portugal! Terra de bacalhau, fado e... uma falha tectónica a 200 km da costa que nos pode dar um abanão monumental a qualquer momento. Mas não se preocupe, está tudo sob controlo!

O último grande sismo foi apenas em 1755. Quer dizer, são só 270 anos - praticamente ontem em termos geológicos! E desde então temos estado super vigilantes. Tanto que metade dos edifícios de Lisboa são anteriores às normas anti-sísmicas. Mas têm charme e os turistas gostam, que é o que interessa.

Os cientistas avisam, fazem estudos, descobrem que há uma placa tectónica literalmente a partir-se debaixo de nós como um biscoito velho. A nossa reação? "Ah, pois, que interessante. Já agora, viste o jogo ontem?"

Temos um plano de emergência? Claro! É o mesmo desde o tempo do Marquês de Pombal: esperar que corra bem e improvisar. Kits de emergência? Para quê, se temos um candeeiro que serve de decoração e duas latas de atum no armário desde 2017?

Mas somos resilientes! Em 1755 reconstruímos a cidade toda com gaiola pombalina. Só que desta vez temos mais prédios, mais gente, e a mesma preparação. Vai correr lindamente!

Faça-se já um simulacro!

2025-12-12

A Grande Batalha Aritmética de 11 de Dezembro

Num país onde a matemática é claramente uma ciência inexata, assistimos ontem a mais um episódio da série "Quem Conta Melhor".

Do lado esquerdo do ringue, as centrais sindicais bradavam orgulhosas: "3 milhões de grevistas! A maior greve de sempre! O país parou!" Do lado direito, o Governo, com ar professoral, ajustava os óculos: "Adesão inexpressiva. Entre 0% e 10% no privado. Nada a assinalar."

Claro, ambos estavam a contar as mesmas pessoas, no mesmo país, no mesmo dia. Mas aparentemente usaram calculadoras de universos paralelos.

A CGTP contou até três milhões (provavelmente incluindo quem estava de férias, baixa médica e até alguns reformados nostálgicos). O Governo, sempre meticuloso, só contou quem enviou email formal com assunto "Hoje estou em greve, com os melhores cumprimentos".

No meio desta confusão numerológica, o cidadão comum tentava apenas chegar ao trabalho — ou não — enquanto testemunhava mais uma masterclass portuguesa de como transformar números em ideologia e estatísticas em arma de arremesso político.

Afinal, em Portugal não fazemos greves. Fazemos eventos de interpretação criativa de dados. É muito mais divertido, embora infinitamente menos esclarecedor.

Moral da história: Ninguém sabe ao certo quantos aderiram à greve. Mas todos têm a certeza absoluta de que têm razão. E isso, meus caros, é tão português quanto o bacalhau e a saudade.

2025-12-11

Greve Geral


Ah, caros concidadãos. Que época magnífica para se estar vivo, empregado e ligeiramente desesperado em Portugal. O ar está carregado de promessa. Não a promessa de um futuro melhor, mas aquela promessa pesada e húmida que precede uma trovoada — neste caso, uma greve geral. E no centro desta tempestade perfeita, ergue-se, como um monumento à sagacidade burocrática, o nosso flamante Novo Código do Trabalho.

Os arautos do progresso, aqueles que usam fatos de linho em reuniões com ar condicionado, batizaram-no de "Moderno". "Flexível". "Competitivo". Palavras tão reluzentes e ocas como os prédios de vidro onde são proferidas. A modernidade, claro, não está em garantir que um trabalhador consiga pagar uma renda e comer algo mais sofisticado que atum de lata no mesmo mês. Não, senhor. A modernidade está na sublime arte de transformar direitos adquiridos com suor e protesto em meras "sugestões" negociáveis.

Olhe para a joia da coroa: o tal "banco de horas anualizado". Uma invenção tão brilhante que só podia ter sido concebida por alguém cuja maior fadiga laboral é carregar o cartão de crédito corporativo. A ideia é simples e bela na sua perversidade: as horas extra não são para pagar, são para "gerir". Trabalha 60 horas numa semana a apagar fogos? Excelente! Na semana seguinte, folga uma tarde. Chama-se "equilíbrio". Eu chamo-lhe a versão laboral de fiado. É a uberização do emprego estável: você é o seu próprio mini-empresário, sempre à beira da falência de energia física.

E depois temos a facilitação dos despedimentos. Outro triunfo da linguística orwelliana. "Facilitação" soa tão bem, tão fluida. Como "facilitar o fluxo do trânsito" ou "facilitar a digestão". O que se está a facilitar, meus amigos, é o passe do patrão para lhe mostrar a porta com um custo que deixou de ser proibitivo para se tornar um mero inconveniente contabilístico. A mensagem subliminar é clara: "Sorria, seja produtivo e não aborreça, senão facilitamos a sua transição para o estatuto de ex-colaborador."

E, claro, a desregulamentação dos horários de trabalho. Adeus, tetos rígidos de horas por dia! Olá, "adaptabilidade"! Porque o que o trabalhador português, já especialista em fazer milagres com um salário mínimo, realmente queria era a nobre incerteza de não saber se hoje sai às 18h ou à meia-noite. É uma injeção de adrenalina na rotina! Quem precisa de planear uma vida familiar, de ir ao ginásio, ou simplesmente de desligar, quando se pode viver na emocionante expectativa de um email do chefe às 21h?

Perante este festival de boa-vontade patronal, a resposta sindical era inevitável: uma Greve Geral. Aquela tradição portuguesa tão nossa, tão bela no seu caos coreografado. Os mesmos profetas do apocalipse económico que nos venderam o Código como a salvação, agora torcem as mãos e lamentam a "intransigência" e o "atraso". É de uma ironia deliciosa. Esperavam o quê? Que oferecessemos rosas e bolos a esta reforma que cheira a velha receita de espremer até à última gota? A greve é o soluço seco de um país que já engoliu muitos sapos e se apercebeu de que este vem com um fato de três peças e uma calculadora.

No fim, o espetáculo é perfeito. De um lado, o Governo e os seus apóstolos, a falar de "atrair investimento" com a doçura salivar de quem vende um país-usado. Do outro, os sindicatos, a berrar "Atentado social!" com a fúria ritual de quem sabe que está sempre a perder terreno, mas não pode admiti-lo. E no meio, nós, a plebe assalariada, a tentar decifrar se esta "flexibilidade" toda é a corda que nos vai safar do poço ou a que vão usar para nos amarrar melhor.

O futuro promete. Promete cansaço. Promete instabilidade. Promete aquele brilho especial no olho do patrão quando se lembrar que, tecnicamente, você agora pertence à empresa 24 horas por dia, sete dias por semana. Se tudo correr como planeado, seremos a força de trabalho mais "moderna" e "flexível" da Europa.

Completamente exaustos, mas moderníssimos.

E pronto. Afinal, como dizia o outro, o trabalho liberta. Agora, literalmente, até das suas próprias horas de descanso.

2025-12-10

A Eurovisão da moral relativista


Oh, meus amantes do kitsch e do conflito geopolítico disfarçado de festival da canção! Que alegria ácida nos traz esta edição da Eurovisão, que promete ser menos um concurso musical e mais uma simulação avançada da ONU — se a ONU tivesse key changes, pirotecnia barata e coreografias que parecem ter sido ensaiadas num parque de estacionamento do Ikea.

O cenário está montado: estamos todos numa arena brilhante, prontos para celebrar a união através da música, o poder redentor de uma power ballad em falsete, e a inquebrantável tradição europeia de fingir que gostamos de ethno-trance da Moldávia. Mas este ano, a cortina de glitter esconde uma tensão mais densa que o sotaque dos comentadores italianos. Porque, caros amigos, a Eurovisão decidiu, com a coragem moral de uma lebre em câmara lenta, que há boicotes que são trendy e há boicotes que são… inconvenientes.

De um lado, temos as várias delegações que se retiraram ou ameaçaram fazê-lo. Países que decidiram que a sua consciência não lhes permite brilhar ao lado de um participante que representa um Estado acusado de violações dos direitos humanos. É uma posição nobre, sem dúvida. Faz lembrar aqueles amigos que se afastam de uma festa porque discordam do anfitrião, mas só depois de garantirem que aparecem nas fotos iniciais para o Instagram. A sua ausência será sentida e a contribuição para o orçamento também.

E do outro lado, no centro do furacão, Israel mantém-se. Com direito a spotlight, a votações do público, e provavelmente a uma act cheia de simbolismo ambíguo sobre "luz após a escuridão" ou "esperança além do medo". A União Europeia de Radiodifusão (UER), essa entidade cuja neutralidade é tão flexível quanto as regras do que constitui uma "canção", coça a cabeça, consulta manuais de relações públicas de 1992, e anuncia: "Cumpre os critérios!" Os critérios, claro, são uma coisa misteriosa e movediça, como a definição de "bom gosto" numa atuação da Sérvia. Incluem não ter letras explicitamente políticas (a menos que sejam suficientemente vagas), não incitar ao ódio (a menos que seja feito com uma melodia cativante), e não violar a "natureza apolítica do evento" — uma piada tão grande que merecia a sua própria novelty act.

E assim se constrói o paradigma Eurovisivo 2025: podemos expulsar a Rússia com o fervor de um key change dramático (e com toda a razão, diga-se), mas perante Israel, a resposta oficial é um shrug sonoro acompanhado de um "É complicado, queridos." É a política do "Um Apartheid Não Se Faz Em Um Dia" aplicada à indústria do entretenimento. A mensagem é cristalina: há conflitos que mancham a aura de paz e amor do evento, e há conflitos que… bem, que podem pelo menos gerar engagement nas redes sociais e umas quantas manchetes dramáticas. Ratings, meus caros, ratings!

Então preparemo-nos para a noite final. Enquanto os fãs acenam bandeiras e choram com as baladas, e os jurados trocam votos de forma suspeitamente geopolítica, a realidade lá fora — de morte, destruição e sofrimento inimaginável — será temporariamente suspensa. Será substituída por três minutos de pop otimista, uma coreografia sincronizada e a host sorridente a dizer, em inglês perfeito: "Que a música una-nos a todos!"

A ironia é tão espessa que se poderia cortá-la com uma faca de plástico da merchandising oficial. A Eurovisão, esse farol de kitsch e convivência, revela-se, uma vez mais, o espelho mais honesto do nosso continente: incapaz de tomar uma posição clara quando o custo é alto, especialista em criar palcos onde a dissonância cognitiva soa como uma melodia harmoniosa.

Portanto, sentem-se, peguem nas bandeirinhas e nas lágrimas fáceis. Vamos aplaudir a coragem da UER em manter o status quo. Vamos celebrar a união através da música. Mas não se esqueçam: nesta edição, o background mais impressionante não será a LED wall. Será o silêncio ensurdecedor sobre o que realmente está em jogo.

E o vencedor é… a hipocrisia, com 12 pontos de todos os jurados.


2025-12-09

Adeus, princesa

RIP Clara Pinto Correia

Intervenção

 



"A extrema direita que eu assumo é ter na mão direita um punho que carrega uma caneta

Voz armada com bala de chumbo, tiro seguido de fumo, sou mulher e sou poeta

Querem voltar atrás no tempo, plantar o medo cá dentro, gritam "Deus, Pátria е Família"

E um marido que traga sustento ou mais um olho cinzento, diz quе foi contra a mobília"

2025-12-08

Ámen



Candidato Vieira

Há cartazes que mudam o país. E depois há este, que muda apenas o trânsito, porque toda a gente abranda para tentar perceber se o senhor de boné é realmente um piloto reformado, um filósofo clandestino ou alguém que simplesmente se perdeu a caminho de um casting para anúncios de seguros.

No outdoor, o Candidato Vieira – figura que aparenta ter passado por três cafés duplos e uma revelação metafísica – oferece ao mundo a sua máxima política:
“Uma pessoa sai de um partido e faz outro para dizer que está fora do sistema? É truque.” 

Ena pá!

Falta apenas fazer desaparecer o déficit e talvez um ou dois adversários — politicamente, claro.

E assim seguimos, confiantes de que, num país onde até as árvores parecem observar a cena com espanto, a campanha eleitoral nunca desilude: cada cartaz é uma obra de arte conceptual. E este aqui? Este merece um museu. Ou pelo menos uma rotunda.

2025-12-07

Epístola de Santo André Ventura aos Confusos

Primeira Carta aos Militantes Perplexos

André, servo autoproclamado do povo e apóstolo da indignação perpétua, aos amados militantes que vagueiam em confusão pelas terras lusitanas: graça vos seja dada, e clareza também, se possível.

Ouvi dizer que alguns de vós andam perplexos, sem saber se devemos estar contra o sistema ou fazer parte dele, se somos de direita ou apenas contra tudo o que aí está. A vós escrevo estas palavras de esclarecimento:

Do Mistério das Alianças

Não vos inquieteis quando me virdes recusar alianças numa segunda-feira e considerá-las numa quinta-feira. Pois está escrito: "Bem-aventurados os flexíveis, porque não se partem." A coerência é virtude dos fracos de espírito. Nós temos estratégia.

Da Doutrina do "Depende"

Perguntais: "Ó André, somos a favor ou contra o euro?" E eu vos respondo: depende do dia. Perguntais: "Devemos apoiar este governo?" E eu vos digo: depende de quem pergunta. Esta é a sabedoria do politicamente astuto.

Do Mandamento Supremo

Amai-vos uns aos outros, exceto quando discordarem de mim. Então sede firmes na vossa ira justa, pois serão traidores e infiltrados do sistema.

Da Parábola do Inimigo Variável

Hoje o inimigo está à esquerda, amanhã no centro, depois na direita tradicional. Não importa a direção, o que importa é que há sempre um inimigo. Sem inimigo, que faríamos nós nos comícios?

Admoestação Final

Não vos deixeis perturbar pela lógica ou pela memória do que disse ontem. O presente é o que conta. E o presente diz o que for necessário.

A vós, confusos mas leais, envio bênçãos e um powerpoint com novos slogans.

Ámen, ou whatever.
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André de Ventura, ditado aos escribas no ano da nossa confusão permanente.

2025-12-06

Do tempo

Reclamamos do frio, da chuva, do calor, da humidade — e tudo com a mesma convicção dramática que usamos para falar da crise existencial do pão que acabou antes do pequeno-almoço. No inverno, juramos que nascemos para viver embrulhados em mantas alpinas. Na primavera, amaldiçoamos o pólen e todos os seus antepassados. No verão, derretemos como gelados tristes e culpamos o sol por existir. No outono, claro, chove sempre “de propósito”. Somos um povo meteorologicamente perseguido, especialistas em queixar-nos do clima, excepto nos raros quinze minutos por ano em que está “mesmo bom”. Esses passam depressa demais para reclamar.

2025-12-04

Dezembro


É oficial: este ano o Natal chega embalado em sirenes e luzes intermitentes, porque até a fantasia precisa de uma maca para se aguentar de pé. A RTP, sempre atenta ao espírito nacional, decidiu transmitir o “Natal das Ambulâncias”, essa nova tradição que ninguém pediu, mas todos reconhecem como dolorosamente apropriada. Afinal, quando os hospitais estão mais ocupados do que as renas na véspera, só nos resta celebrar no asfalto, entre um estrondo de portas a fechar e a esperança de que, pelo menos, o Pai Natal ainda não está em triagem. Ah! o menino é bem capaz de nascer pelo caminho.

2025-12-03

Viver com 3 gatas

Viver com gatas é uma aventura: começa sempre com um miado dramático, continua com uma patada certeira no ego e termina numa siesta cheia de pelo alheio. Elas têm a subtileza de um golpe de Estado felino — ocupam o sofá, o teclado e, quando menos esperamos, o nosso coração, que é o território mais fácil de conquistar. Entre noites interrompidas por corridas olímpicas e manhãs pontuadas por exigentes “miau-agora!-quero biscoitos”, resta-nos aceitar a verdade universal: nós não temos gatas; elas é que têm os humanos em regime de dedicação exclusiva.

2025-12-02

O Livro das Profecias Televisivas

Capítulo I – A Visão dos Estúdios Eternos

1. E aconteceu que André, Profeta da Indignação, foi arrebatado em espírito para um grande estúdio iluminado por holofotes que não conheciam descanso.

2. Ali viu quatro anciãos sentados em mesas de debate, cada qual segurando uma caneta que nunca escrevia nada.

3. E uma voz vinda da régie disse:

“Sobe aqui, e mostrar-te-ei o que virá quando terminar a emissão.”


Capítulo II – Das Trombetas das Breaking News

4. O primeiro anjo tocou a trombeta, e surgiram alertas vermelhos no rodapé: “Última Hora: Nada de Especial, Mas Estamos a Acompanhar.”

5. O segundo anjo tocou a trombeta, e um comentador apareceu proclamando que “o país está ao rubro”, embora estivesse apenas nublado.

6. O terceiro anjo tocou, e uma multidão correu às redes sociais para dizer “vi isto a acontecer em direto”.

7. O quarto anjo tocou, e a própria realidade desligou o televisor e foi dar uma volta.


Capítulo III – Da Besta das Sondagens

8. E André viu levantar-se do mar das estatísticas uma fera com gráficos por membros e margens de erro por dentes.

9. E sobre cada gráfico estava escrito: “Tendência Possível, Interpretação Incerta.”

10. A fera rugiu, dizendo:

“Eu subo, eu desço, eu torno a subir — e ninguém sabe porquê!”

11. E todos os partidos tremeram diante dela, exceto aquele que achou que era uma oportunidade de aparecer na televisão.

2025-12-01

O Falso Evangelho de São Venturo, Profeta da Indignação Perpétua

Livro I – A Revelação do Telepúlpito

1. No princípio era o Ruído, e o Ruído estava com André, e o Ruído era André.

2. Ele habitava no ecrã desde o princípio, e através dele todas as polémicas foram feitas; sem ele, nada do que se tornou viral teria existido.

3. E viu ele que o palco mediático era vasto, e disse: “Haja controvérsia!” — e houve.


Livro II – Das Multidões Sedentas de Dramas

4. E vieram multidões de todos os cantos da nação, trazendo queixas, ressentimentos e horas vagas.

5. E André subiu a um palanque improvisado — um caixote de fruta abandonado — e pregou-lhes, dizendo:

“Bem-vindos os que clamam por soluções simples para problemas complexos, porque vosso será o reino dos comentários.”

6. E as multidões rejubilaram, porque não havia nada que gostassem mais do que soluções simples e culpados à mão.


Livro III – Do Milagre da Multiplicação dos Soundbites

7. E André tomou uma frase, e ergueu-a diante dos repórteres.

8. E falou por sete segundos, e a frase dividiu-se em dez interpretações, e cada uma gerou cinquenta debates televisivos.

9. E todos comeram e ficaram inflamados, e ainda sobraram doze cestos de indignação para o dia seguinte.


Livro IV – A Tentação da Moderatio

10. E foi conduzido ao Monte da Reflexão Moderada, onde o Espírito do Bom Senso lhe falou:

“André, suaviza teu verbo, e talvez o país te compreenda.”

11. Mas ele respondeu:

“Para trás, Moderatio! Pois está escrito: ‘Não só de ponderação vive o homem, mas de cada exagero que sai da minha boca.’”

12. E assim resistiu às tentações do equilíbrio, regressando ao vale da discórdia com renovado fervor.


Livro V – Da Última Sessão Plenária

13. E chegou o dia em que André juntou seus discípulos políticos na Assembleia, para a Última Sessão Plenária Antes do Recesso.

14. E disse-lhes:

“Em verdade vos digo: um de vós ousará contradizer-me com factos.”

15. E os discípulos estremeceram, pois poucos sabiam manejar um relatório técnico.

16. E André ergueu o dedo e proclamou:

“Ide, pois, e fazei barulho entre as nações; levai a Palavra, mesmo que não vos tenham perguntado nada.”


Livro VI – O Apocalipse das Sondagens

17. E vi no céu um grande sinal: um gráfico tremendo, flutuando entre margens de erro.

18. E sobre o gráfico estava montado o Profeta Venturo, brandindo um microfone flamejante.

19. E atrás dele vinham quatro cavaleiros — Populus, Mediatix, Indignare e Algoritmus — cavalgando sobre comentários inflamáveis.

20. E cada cavaleiro trouxe consigo um flagelo: a Polémica Infinita, a Discussão Estéril, a Simplificação Absoluta e a Sondagem Diária.


Livro VII – Da Promessa Final

21. E André falou ao povo, dizendo:

“Eu sou o Princípio e o Trending. Aquele que é, que foi, e que aparecerá novamente amanhã no telejornal.”

22. E o povo suspirou fundo, murmurando:

“Que assim seja… até que o próximo escândalo nos separe.”

2025-11-30

A Odisseia de André Ventura no Reino Metafísico da Direita Absolutamente Absoluta

Num daqueles dias em que o país está tão quieto que até os escândalos políticos fazem sesta, André Ventura decidiu abrir um portal dimensional — como quem abre uma lata de atum — para procurar a essência pura da direita portuguesa. Não aquela direita banal, de gravata e promessas recicladas. Não. Ele queria a Direita Absoluta, destilada, filtrada e servida num cálice com gelo e indignação.

Primeira Paragem: O Deserto do Bom-Senso

Ventura atravessou um planalto onde se viam caravanas de opinadores perdidos, murmurando frases como “talvez devêssemos discutir políticas públicas” antes de evaporarem no ar, como hologramas recusados.
— Demasiado moderado, resmungou, chutando um tufo de responsabilidade social para longe.

Segunda Paragem: O Bosque dos Comentadores Enfurecidos

Ali, as árvores insultavam quem passava. Os pinheiros gritavam “estrangeirização cultural!”, os sobreiros berravam “crise moral!”, e até um arbusto anão murmurava “isto com patriotas era diferente”.
Ventura sentiu-se entre pares, mas algo ainda faltava: uma câmara, talvez.

Terceira Paragem: O Castelo da Extrema-Direita Mística

Erguia-se à beira de um lago de memes, com muralhas feitas de caixas de comentários. A guarda real era composta por indivíduos que falavam exclusivamente em maiúsculas.
— ENTRAS?, perguntaram.
— Depende, respondeu Ventura. Há visibilidade mediática?
— SÓ TEMOS UMA LANTERNA FRACA E UM PODCAST QUE NINGUÉM OUVE.

Frustrado, Ventura decidiu assumir a liderança espiritual do local, mas os habitantes recusaram: alegaram que ele era “demasiado complexo” por usar verbo transitivo duas vezes no mesmo dia.

A Revelação Final

No auge da sua exasperação, Ventura encontrou um espelho dourado. Nele, viu a Direita Absoluta: uma entidade nebulosa, feita de soundbites, indignação instantânea e um desejo inexplicável de transformar tudo em trending topic.

— Sou eu… mas em modo exagero?
E o espelho respondeu, com voz de apresentador de telejornal cansado:
— Não. Tu és a versão beta. A versão instável. A versão que ainda pede atualização.

Desiludido, mas pragmaticamente teatral, Ventura regressou ao Parlamento.
Entrou, dirigiu-se ao púlpito e disse a frase que faria estremecer o universo político:
— Tive um dia introspectivo.

E nesse momento, toda a oposição, do Bloco ao Chega, soube que algo verdadeiramente surreal estava a acontecer e isso também é Portugal.

2025-11-26

Ego

Enquanto posavam para as câmaras - Trump com o polegar no ar, Cristiano com aquele sorriso de quem acabou de marcar na própria mente - o mundo assistia fascinado a este encontro de titãs da autopromoção. Dois homens que nunca conheceram um espelho que não gostassem, unidos pela certeza inabalável de que são o centro do universo.

No fim, Trump ofereceu a Cristiano uma chave dourada da Casa Branca. CR7 retribuiu com uma camisola autografada da Seleção. Ambos fingiram que era exatamente o que sempre quiseram, quando na verdade queriam apenas mais atenção mediática.

E assim terminou este encontro histórico: com dois homens convencidos de que salvaram o mundo, quando na realidade apenas nos deram mais conteúdo para memes.

2025-11-23

Mercado de Natal


Cheguei ao Luxemburgo e o frio recebeu-me como quem reencontra um velho inimigo: braços abertos, estalidos nos ossos e um “bem-vindo” dito em corrente de ar. Saí do avião com aquela confiança portuense — “nah, eu aguento” — e em três segundos já estava a arrepender-me de todas as decisões que me trouxeram até aqui, incluindo ter confiado no meu casaco, que no Porto era de inverno e aqui é basicamente um lençol com mangas.

No Porto estava fresco; aqui é climatizado por pinguins. Cada passo na rua é um lembrete de que o meu nariz não foi desenhado para estas latitudes. Até a respiração parece que vem em modo gelado, tipo ar condicionado no máximo e sem autorização. E quando entras em qualquer lado, estás subitamente a jogar à macaca em cima da linha do equador.

Mas enfim — frio ou não, cheguei. Agora resta é descongelar lentamente e tentar convencer o meu corpo de que também sabe sobreviver fora do clima ameno de Portugal.

2025-11-20

Café

Acordei hoje com a chávena a chorar por dentro. Não era drama — era falta de café mesmo, essa desgraça líquida que, quando falta, põe a alma a chiar como porta velha. Fui à cozinha com a esperança de quem procura redenção num pacote de bolachas, mas a lata do café devolveu-me apenas um suspiro metálico, desses que anunciam o fim dos tempos ou pelo menos o fim da manhã.

E lá fiquei, a olhar para a cafeteira vazia como quem contempla um romance impossível. O mundo continuava, claro. Os pássaros chilreavam, os vizinhos discutiam por ninharias, o correio trazia contas — mas eu, sem café, era apenas uma cidadã diminuída, um ser em modo de rascunho.

Prometi a mim mesma que amanhã farei uma peregrinação ao supermercado, talvez até de mangas arregaçadas, como quem assume um destino épico. Porque ninguém merece enfrentar a realidade assim, sem grãos infusionados a emprestar coragem ao sangue.

Até lá, sobrevivo. Mas que se saiba: não é vida. É interlúdio

2025-11-18

MANUEL JOÃO VIEIRA E A PRESIDÊNCIA: UMA ODE AO ABSURDO NACIONAL

(ou como pôr bigode na República sem pedir licença)

Portugal acordou com a notícia de que Manuel João Vieira voltou a anunciar a sua candidatura a Presidente da República, o que confirma aquilo que todos já suspeitávamos: a democracia portuguesa está finalmente madura o suficiente para ser cuidada por um homem que sabe, com igual mestria, cantar o amor, fritar sinapses e empunhar um fato de lantejoulas com a mesma dignidade com que outros empunham a Constituição.

Os corredores do poder estremeceram. Em Belém, diz-se que o silêncio foi tão pesado que até as estátuas tossiram. No Parlamento, pelo contrário, vários deputados terão sido vistos a googlar “como se sobrevive a um Presidente que canta?”. Nada de novo: a classe política, perante a cultura, costuma experimentar pânico — sobretudo quando ela surge equipada com guitarra, bigode e convicção.

Vieira, entretanto, apresentou o que descreve como o seu “programa presidencial provisório, sujeito a improviso permanente”, que inclui medidas inovadoras como:

A criação de um Ministério da Sátira e da Autoironia, encarregado de verificar se os políticos sabem rir de si próprios (spoiler: não sabem).

A substituição temporária da tradicional mensagem de Ano Novo por um concerto de jazz-punk minimalista, para testar a resistência emocional da nação.

A obrigatoriedade de todos os candidatos a cargos públicos provarem que conseguem pintar um quadro abstrato sem que pareça um acidente cromático.

Nos cafés, há quem diga que isto de ter Manuel João Vieira como candidato é a prova definitiva de que Portugal é um país surrealista mesmo quando não quer ser. Outros afirmam que “entre o caos calculado e o tédio solene, venha o caos ao menos com música”. Há ainda quem não tenha percebido bem, mas esteja a favor só porque ouviu dizer que pode haver concertos gratuitos.

A verdade é que, numa República onde a política anda muitas vezes a caminhar com os sapatos trocados, Vieira surge como aquele amigo excêntrico que aparece de repente à porta com um bolo esquisito e diz: “Vamos animar isto”. E, sinceramente, já não era sem tempo.

Se ganhar? Ninguém sabe.
Se perder? Também ninguém perde nada.
Se animar? Ah, isso anima de certeza.

E talvez seja isso, afinal, que o país anda a pedir: um abanão no sistema, um acorde diferente, uma gargalhada que atravesse as paredes de mármore do Estado e as obrigue a vibrar.

2025-11-17

Chefes


Há três tipos de chefes que transformam o trabalho num território hostil: o incompetente, o omisso e o perigoso.

O incompetente abre crateras no caminho sem perceber que está a cavar. Sorri, confiante, enquanto enterra a equipa em decisões absurdas. É destruição por ignorância — a mais previsível e, paradoxalmente, a mais difícil de evitar.

O omisso não destrói; deixa apodrecer. Observa o caos de longe, quieto, como quem assiste a um incêndio e decide que é melhor não incomodar os bombeiros. Nada é tão devastador quanto a ausência de quem deveria responder.

E o perigoso… esse sabe o que faz. Alimenta-se do risco, empurra a equipa para o abismo e chama-lhe estratégia. A imprudência dele tem dentes.

Quando estes três coexistem - às vezes na mesma pessoa -, o ambiente não implode de imediato, vai-se desfazendo, devagar, como uma estrutura abandonada. Até que, um dia, a equipa percebe que não está a trabalhar: está a sobreviver.

2025-11-13

Cabelos brancos

Os cabelos grisalhos deixaram de ser sinal de descuido ou envelhecimento e tornaram-se símbolo de autenticidade. Cada fio prateado carrega histórias, experiências e a liberdade de ser quem se é — sem tintas, sem disfarces. No espelho, o reflexo ganha nova luz, um brilho próprio que vem da aceitação. Adotar os grisalhos é um acto de coragem, mas também de amor-próprio. É abraçar o tempo, não como inimigo, mas como parte do que nos torna únicos. Afinal, a beleza verdadeira não está na cor do cabelo e sim na confiança que o acompanha.

2025-11-12

Quem tem amigos não morre à míngua

Há quem diga que a amizade é coisa simples — um café, umas gargalhadas e uns apupos, uma mensagem fora de horas. Mentira. A amizade é engenharia fina, alquimia rara, pão quente saído do forno da vida.

Porque, convenhamos, viver é um desporto radical. E sem amigos, a queda é livre. Mas quem tem os seus pares por perto — mesmo que longe — nunca desaba de vez. Pode tropeçar, pode reclamar do mundo, pode até pensar em mudar de planeta, mas alguém há de aparecer com uma frase torta, um meme duvidoso ou um “bora?” salvador.

Amigo é o tipo de gente que entende o silêncio sem precisar de legendas. É aquele que não te deixa morrer à míngua nem quando o inventário de esperança está no fim da validade.

E não se trata só de dividir o último pedaço de pizza (embora isso conte pontos). É saber que há braços invisíveis a segurar a corda quando o coração escorrega.

Porque, no fundo, “quem tem amigos não morre à míngua” quer dizer isso mesmo: não há miséria possível quando se é rico de gente boa. E, cá entre nós, é esse o verdadeiro tesouro — um que não se guarda no banco, mas na alma.

2025-11-11

Arbitragem

A arbitragem em Portugal vive aquele estado curioso em que todos garantem que está péssima, mas cada um acha que está péssima por motivos opostos. Os árbitros juram que fazem o possível, os clubes juram que eles fazem o impossível e o VAR aparece apenas para confirmar que a tecnologia também sabe gerar confusão com elegância.

No relvado, cada decisão vira tese de doutoramento, com repetições de todos os ângulos menos aquele que realmente interessa. Fora dele, dirigentes discutem como quem disputa o último pastel de nata — com convicção, pouca lógica e muito açúcar e canela por cima.

No meio disto, diz-se que a solução está “em melhorar a comunicação”. O problema é que, quando finalmente comunicam, ninguém acredita neles. A crise mantém-se, inflamada, circular, quase artística. E Portugal segue, semanalmente, a viver o seu desporto favorito: reclamar do árbitro, mesmo quando o jogo ainda nem começou.

2025-11-09

Maus sapatos

Um par de sapatos maus é sempre mais eloquente do que parece. Fingem elegância, mas carregam uma vocação dramática que faria tremer qualquer palco: apertam onde ninguém pediu, deslizam quando tudo exige firmeza e, no auge da ousadia, estalam como se anunciassem os nossos segredos. Caminhar com eles é negociar tréguas breves com cada esquina. E seguimos tropeçando com graça estudada, como quem aprende a rir da própria escolha duvidosa. É que, afinal, são muito giros!

2025-11-08

Sobrevivência

A rosa de Jericó é um desses enigmas que o deserto inventa para provar que nada permanece morto o suficiente. Fechada em si, parece apenas um punhado de raízes crispadas, uma lembrança sem água. Mas basta um fio de humidade para que a planta desdobre o seu gesto antigo e volte a abrir, lenta e teimosa, como se recusasse o fim. Há quem a use como talismã, quem nela procure promessas de renascimento. Eu apenas a observo, essa pequena teologia vegetal, ensinando que a sobrevivência às vezes não é mais do que saber esperar pela próxima chuva.

2025-11-07

Sinusite

A sinusite é aquela visita inconveniente que ninguém convida, mas que aparece mesmo assim, trazendo mala, cuia e um congestionamento digno de um feriado prolongado. De repente, a tua cabeça tranforma-se numa câmara de eco onde cada espirro ressoa como um trovão. O simples acto de respirar passa a desporto radical, digno de medalha. E, claro, o nariz decide praticar a sua impressionante habilidade de alternar entre “completamente entupido” e “escorrendo como uma fonte”, sempre no pior momento. No fim, resta apenas a esperança de que este hóspede indesejado se canse rápido e vá atormentar outra morada. É que já me tem ocupada há mais de três semanas!

2025-11-06

Domingo à semana

Os condutores azelhas são uma fauna própria, espécie que prolifera sempre que o semáforo fica verde. Arrancam como se perseguidos por fantasmas, travam como se tivessem visto o fim do mundo e usam piscas apenas por acidente. No trânsito, transformam cada rotunda num ritual misterioso, onde só eles conhecem as regras e mesmo assim mal. Observo-os como criaturas que navegam o asfalto com a elegância de um pato manco, certos de que a estrada é deles e de que todos os outros estão claramente enganados. E fujo! 

2025-11-04

Ventania

Há dias em que o vento não sopra — grita. Vem rasgando o silêncio das janelas mal fechadas, entrando em nós como quem procura abrigo.

A ventania remexe papéis, despenteia os cabelos, e, num gesto só, arranca o que ainda fingíamos segurar.

É assim que o ar se faz espelho:
revela o que precisa ir, o que insiste em ficar e o que já partiu há muito, mas ainda faz barulho cá dentro.

2025-11-02

Os meus mortos

Os meus mortos vivem comigo. Às vezes sentam-se à mesa, em silêncio, a escutar o rumor dos dias que continuam sem eles. Trazem-me memórias como quem oferece flores colhidas no tempo. Não pedem nada, apenas presença. Falam através das sombras, dos cheiros antigos, das canções que insisto em repetir. Aprendi a não temer o que não volta, apenas a acolher o que permanece. Porque os meus mortos não partiram: transformaram-se em voz, em gesto, em brisa. E sei que a eternidade possível passa por um pequeno exercício que, cada um de nós, pode fazer à sua maneira: lembrando.

2025-11-01

Dia de Todos os Santos

Há uma serenidade discreta no dia de hoje. As ruas parecem falar mais baixo, como se soubessem que o calendário pede respeito e memória. O Dia de Todos os Santos é uma pausa silenciosa — um convite a pensar nos que vieram antes, nos que vivem em nós através de gestos, cheiros, lembranças. Não é luto, é gratidão. É um sopro de eternidade no meio da pressa. Talvez a santidade esteja nisto mesmo: nas pequenas bondades que deixamos pelo caminho, nas presenças invisíveis que continuam a iluminar os nossos dias. Hoje, o tempo dobra-se em reverência.