2026-06-11

O amanhã


O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.

​A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.

​O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.

​O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.

​O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.

​Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.

​Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.

​Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.

​O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.

2026-06-10

O sol pôs-se, mas há luar

Li, há muitos anos, uma entrevista a Eduardo Lourenço em que um jornalista francês lhe perguntava o que era a saudade: um sentimento real ou apenas um mito português. A resposta foi tão luminosa quanto poética: dizia ele que a saudade é como quando o sol se põe, mas sabemos que haverá luar. Não foram exatamente estas as palavras, mas a ideia ficou-me para sempre. A tradução é livre.

​Sempre gostei da forma como Eduardo Lourenço procurou compreender a nossa portugalidade — esse modo de sermos que parece sobreviver às épocas, às circunstâncias e até às sucessivas imagens que fazemos de nós próprios. É difícil negar que crescemos à sombra de uma mitologia antiga. Desde Camões e Os Lusíadas até aos sonhos do Quinto Império e a Mensagem, fomos construindo uma narrativa coletiva que nos ensinou a olhar para o passado como um lugar de grandeza e perda. Pelo meio, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a uma metafísica nacional. Acabámos por chamar saudade a muitas coisas e por viver, não raras vezes, nostálgicos de uma idade de ouro que talvez nunca tenha existido da forma como a imaginamos.

​Talvez a saudade faça parte da alma portuguesa, mas não apenas como uma característica espontânea ou inevitável. Há nela uma dimensão cultural, uma ideia trabalhada ao longo dos séculos que acabámos por transformar num dos nossos maiores símbolos. Como todos os símbolos, ilumina-nos e limita-nos.

​Porque não existe um só Portugal; existem muitos Portugais. Uns reconhecem-se no fado, outros nas cantigas populares; uns vivem voltados para o mar, outros para os montes e os rios do interior. No meu Norte, por exemplo, nunca encontrei a tristeza resignada que tantas vezes associamos à imagem tradicional do país. Há uma alegria teimosa, uma recusa em fazer da melancolia uma identidade. E talvez seja precisamente essa diversidade que melhor nos define.

​Nunca fomos apenas um país de ensaístas ou de teóricos; fomos, acima de tudo, um país de poetas. A nossa memória coletiva foi sendo escrita por quem soube transformar ideias em imagens, pensamento em metáfora, história em canto. Há nisso uma riqueza que continua a distinguir-nos, mas que hoje enfrenta novos perigos.

​É por isso que me preocupa a forma como tantas vezes tratamos a língua portuguesa neste novo século. Empobrecemo-la quando a reduzimos ao imediatismo das redes, quando dispensamos o rigor em nome da pressa, quando esquecemos a beleza das palavras moldadas pelo tempo. Uma língua não vive apenas dos dicionários ou das regras gramaticais: vive da atenção que lhe dedicamos, da imaginação que nela depositamos e do cuidado com que a transmitimos às novas gerações.

​Haverá sempre lugar para cantar Portugal enquanto Portugal souber dizer as palavras que o cantam. A língua é, talvez, o mais duradouro dos nossos patrimónios. E seria uma ironia amarga que, um dia, tivéssemos saudades do português que deixámos perder por falta de cuidado.

​Se o sol se põe, que ao menos não nos falte o luar.

2026-06-09

Beirute

 



Lembro-me de, há muitos anos, os Trovante cantarem que "em Beirute, nem o sol nasce", numa letra que começava com "quem recordará como foi?"... E a canção ainda me baila por dentro. Nem lembro já a letra inteira, nem sei onde pára o velhinho vinil que a guardava, mas ficou-me esta ideia de que nem o sol pode nascer em Beirute, ou que, mal rompa a alvorada, já ninguém recorda como é — e tudo volta a ser o que cedo foi esquecido.

A Beirute já não é a mesma. Mas a condição de "Beirute" reaparece incessantemente. E eu nem me lembrava já da cidade, não fosse Beirute continuar, depois destes anos todos, a não ver nascer o sol.

Quem recordará como é, já que tão depressa se esqueceu como foi?


2026-06-08

Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)


Há uma lógica nisto tudo.  
A geração que compra a t-shirt não a inventou do nada. Cresceu a ver os adultos à sua volta sobreviver entre o desespero e o humor. Aprendeu que a vida era um teatro do absurdo e que o melhor era rir para não chorar. Só que esses adultos não tinham público. Tinham, quando muito, um blogue e meia dúzia de leitores que assinalavam com a cabeça.

Os filhos herdaram o espetáculo. Não herdaram a ironia.  

Ou melhor: herdaram-lhe a forma, mas não a função.

A dissociação que os pais carregavam em privado, como mecanismo de sobrevivência que não pedia licença, tornou-se conteúdo. A capacidade de rir do próprio colapso, que custou anos a afinar, virou aesthetic. E o desespero — esse velho conhecido de quem cresceu a assistir às promessas falhadas do futuro — transformou-se em lifestyle com merch em algodão orgânico.

Não é cinismo. É a resposta lógica de quem cresceu a ver os adultos fingir que tudo estava bem enquanto o mundo desmoronava, e decidiu que não ia fazer o mesmo. Em vez de inventar uma linguagem própria para o dizer, encontrou um algoritmo. E o algoritmo não premeia o meio-tom. Premeia o engagement.

A ironia deixou de ser ferramenta para suportar o absurdo. Passou a ser forma de o comunicar. E, como acontece com tudo o que circula bem, acabou também mercadoria.

O problema é que o sistema aprendeu a monetizar até a recusa. A apatia virou trend. A exaustão virou identidade. O desencanto virou reel. E a t-shirt que diz mentally hilarious é, no fundo, o certificado de autenticidade de uma experiência que já existia antes de ter nome, estética ou hashtag.

A ironia suprema é esta: os pais riam do absurdo para continuar a funcionar. Os filhos exibem-no para explicar por que não querem funcionar da mesma maneira.

Talvez tenham razão.

Mas o capitalismo, esse, continua a cobrar à saída.

O sofá é confortável. O Wi-Fi, por enquanto, funciona. E o arquivo — esse — não tem algoritmo.

2026-06-07

Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)

Há agora uma t-shirt. Provavelmente há também um Pinterest board, um canal de YouTube e uma marca de roupa em algodão orgânico que vende a ideia de que andar mentalmente algures entre o absurdo e o colapso é, afinal, um estilo de vida. Chama-se Mentally Hilarious e é, segundo os seus arautos digitais, uma forma positiva de encarar os pensamentos intrusivos, a dissociação ligeira e o facto de se estar fisicamente presente mas mentalmente a fazer compras noutro planeta.

Bem-vindos. Eu já cá estava.
Não com t-shirt. Com blogue.
Desde meados de 2004 — quando os millennials ainda andavam a tentar perceber se deviam ter filhos ou comprar casa, e acabaram por não fazer nem uma coisa nem outra a tempo — que a Hipatia mapeia este território com a precisão de quem não precisa de legenda para explicar o conceito. Até já escrevi sobre um certo gajedo de trinta e muitos, quarenta e poucos, reunido ao almoço das quintas com ar altivo e condescendente e um aspecto de banho de loja e perfumaria, mesmo que a loja seja a feira e o perfume de amostra. Escrevia sobre o desespero com sorriso em contramão. Sobre a solidão estampada na cara de quem apregoa uma suposta e falsa confiança. Sobre os mecanismos que precisam de ser devidamente oleados, com ou sem intervenção mecânica.

Se isso não é mentally hilarious, não sei o que é.

A diferença — e há uma diferença que importa — é que a trend precisa de explicar o que é. Precisa de empacotar, de dar nome, de pôr numa camisola para que as pessoas reconheçam a experiência que já tinham mas não sabiam nomear. O que é, em si, perfeitamente humano e até simpático. Não tenho nada contra o algodão orgânico.

Mas há qualquer coisa ligeiramente cómica — e portanto muito adequada ao tema — em ver chegar uma estética inteira construída à volta do humor como escudo, da observação como sobrevivência, do absurdo como linguagem materna, quando isso aqui já era mobília velha. Não mobília vintage, que essa já tem mercado. Mobília velha mesmo. A que fica porque é boa e porque ninguém se lembrou de a vender.

A Mentally Hilarious é a versão democratizada e consumível de algo que algumas pessoas sempre fizeram por necessidade, sem manual e sem merch. Não por serem mais inteligentes ou mais sofisticadas. Apenas porque não havia outra forma de continuar a aparecer ao almoço das quintas com ar de que tudo estava bem, quando claramente não estava, e achar piada ao espectáculo todo na mesma.

Isso não se aprende num Pinterest board.

Aprende-se ao fim de anos a olhar para o mundo com aquela expressão específica — nem cínica nem ingénua, qualquer coisa no meio — e a decidir que o que se vê é demasiado absurdo para não ser anotado.

A t-shirt posso emprestar. O arquivo não.

2026-06-06

A melancolia como serviço mínimo


Há quem trate a melancolia como doença. Eu trato-a como mobília.  

Está sempre ali, encostada ao canto, sem cobrar renda, mas a dar ao espaço aquele ar de quem já viveu.  

Não é tristeza — a tristeza tem pressa, quer atenção, manda mensagens às 3 da manhã.  

A melancolia é mais discreta. Senta-se contigo ao fim do dia, partilha o silêncio e não pede nada em troca. Às vezes desconfio que é ela quem paga as contas da luz.  

Mas se a confundes com depressão e vais ao médico porque gostas de chuva, o problema não é a melancolia. É a literalidade. E essa, ao que consta, continua sem cura.

Insuportável


Disseram-me que era chata. Considerei a hipótese. Decidi escalar.

"Insuportável" tem uma sonoridade que me agrada. É o tipo de palavra que as pessoas usam quando já não conseguem controlar aquilo que nomeiam.

Não vou pedir licença para existir. Nunca percebi bem para que serve essa licença — quem a emite, quem a renova, o que acontece quando expira.

O meu cabelo vai à frente. Eu vou a seguir. O resto é paisagem.

2026-06-05

Da data


Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Todos partilham a imagem do globo de cristal poisado na relva. Todos escrevem que o planeta precisa de nós. Ninguém desliga o ar condicionado.

Existe uma distância curiosa entre o que se proclama e o que se pratica — e essa distância tem o tamanho exacto de uma consciência tranquila. Celebramos o planeta como se ele fosse um aniversariante: uma vela, um post, e o assunto encerrado por mais um ano.

A Terra não precisa das nossas homenagens. Precisa do nosso silêncio. E da nossa ausência, se possível.

2026-06-04

Herdeiros de quem?


Os meus antepassados saíram para o desconhecido numa caixa de fósforos. Levavam uma esfera armilar, um astrolábio, a convicção de que a terra não acabava ali e a desfaçatez suficiente para testar a hipótese. Foram. Voltaram. À boleia da Volta do Mar, o que não é pouca coisa num tempo em que o horizonte era uma teoria por confirmar.

Eu, herdeira legítima desse património genético e cultural, há dias em que preciso de GPS para chegar ao supermercado que fica a quatrocentos metros de casa.

Não é uma confissão. É um dado.

A questão que se levanta — e que me recuso a deixar cair — não é técnica nem nostálgica. É mais inquietante do que isso: com o acesso sem precedentes ao conhecimento, ao mapa, à informação disponível a qualquer hora em qualquer bolso, estamos a ficar mais estúpidos ou apenas mais preguiçosos? E existe, ainda, alguma diferença entre as duas coisas?

O desenrascanço — essa virtude nacional elevada a traço de carácter, quase a argumento identitário — terá sobrevivido à era em que já não é preciso desenrascar nada porque a aplicação desenrasca por nós? Ou era o desenrascanço precisamente isso: a inteligência que nasce da escassez, o engenho que só existe quando não há alternativa?

Pergunto porque a resposta me desconforta.

Há qualquer coisa de perverso na abundância do acesso. Nunca soubemos tanto. Nunca tivemos tanto à mão. E no entanto a sensação persistente — pelo menos para quem olha — é a de que algo foi trocado por outra coisa sem aviso prévio e sem cláusula de rescisão. Trocámos a capacidade de nos orientarmos pela disponibilidade de sermos orientados. Trocámos a memória pelo arquivo. Trocámos o raciocínio pela pesquisa. São trocas racionais. São trocas eficientes. São, muito possivelmente, trocas irreversíveis.

Os meus antepassados não tinham GPS. Tinham que saber onde estavam.

Eu sei onde estou. O telemóvel diz-me.

Mas suspeito que confiar não é o mesmo que saber. 

E a minha Volta do Mar só funciona enquanto dura a bateria.

2026-06-03

Buffet Livre


Educação pública, bibliotecas, motores de busca, conhecimento à discrição. Nunca tanta gente teve tanto acesso a tanto. O problema deste buffet é que podes escolher a alta cozinha ou enfiar os dedos na maionese.

Nem todos soubemos o que fazer com o prato cheio.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador em ver pessoas da minha idade — que partilharam as mesmas salas de aula e os mesmos privilégios — a engolirem a primeira patranha que apanham no feed, sem mastigar, sem questionar. Como se a escola lhes tivesse passado ao lado sem deixar o vício da dúvida. Como se o acesso ao conhecimento não trouxesse o dever de o usar.

Vivemos na era em que o próprio telefone avisa. Literalmente. Possível fraude, diz o ecrã, em letras que não precisam de ser decifradas. E ainda assim há quem atenda, ouça até ao fim e entregue os dados bancários a uma voz gravada com sotaque de call center.

O ecrã avisa.
A dúvida devia avisar também.
Mas essa não vem instalada de fábrica.

2026-06-02

Boato


Chegou junho, o mês dos santos populares, das sardinhas e… da minha manta de pelo sintético. Pelos vistos, o São Pedro confundiu o verão com uma vaga polar e decidiu brindar-nos com um inverno fora de época.

O meu joelho, esse meteorologista infalível, já andava há dias a avisar. Hoje, porém, tenho aviso amarelo em todos os ossos. Cada vértebra prevê aguaceiros e cada articulação jura que vai nevar na eira.

A este ritmo, passo o São João agarrada à botija de água quente e a chamar "verão" a um boato.

Crédito mal parado

Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.

___

Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.

Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.  

O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.

Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.

A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.

O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.

2026-06-01

A sombra do pastor



Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.

Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.

O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.

O pastor sorri.

2026-05-31

Silêncio operacional


Nunca fui de cliques nem de claques. A minha agenda tem espaço para respirar — deliberadamente, sem culpa, e com algum esforço para não ceder às pressões do tens de sair mais, tens de socializar, não podes ficar em casa outra vez.

Posso, sim.

Estar sozinha e estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário. Uma é escolha; a outra é circunstância. Confundem-se muito, lá fora — especialmente por quem não consegue estar cinco minutos sem companhia e acha que isso é virtude.

O problema não é a festa. É o botão.

Há dias em que o ligo com prazer, entro na corrente, faço parte do ruído. Tem apenas a ver com quando, quanto e onde estou disposta a fazê-lo. Nem sempre me apetece estar no meio das ondas; muitas vezes basta-me sentir a corrente.

Mas há cada vez mais dias em que o simples pensamento de ter de ser simpática, presente e ligada me cansa antes de sair de casa. Nesses dias, o melhor de mim fica no sofá.

Não sei se isto é introversão, sabedoria ou apenas uma capacidade cada vez menor para fingir entusiasmo quando ele não existe. O que sei é que o off deixou de ser fuga e passou a ser higiene.

E que há poluição sonora que não precisa de decibéis.

2026-05-30

Maio, mês de Maria


Último fim de semana de maio. Em Portugal, isso significa algo que vai além do calendário.

​Maio é o mês de Maria. Nas igrejas, nos nichos das esquinas, nas salas de jantar onde a televisão coexiste pacificamente com um terço pendurado na parede — a Virgem preside. É uma devoção que não precisa de explicação para quem cresceu aqui. É anterior à pergunta.

​Portugal tem com a Virgem uma relação que os manuais de história religiosa dificilmente esgotam. Não é apenas fé; é identidade, é política, é memória do corpo.

​A aliança começou cedo. D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique, teria feito um voto a Santa Maria. O país nascia sob proteção — ou assim quis a lenda, que é sempre mais verdadeira do que os factos quando se trata de fundar nações. Desde então, a Virgem e Portugal partilham um destino que resistiu a séculos de guerras, pestes e terramotos.

​Em 1917, esse destino ganhou morada: a Cova da Iria. Fátima transformou um país rural, pobre e politicamente convulso num centro de peregrinação mundial, dando à devoção mariana uma dimensão geopolítica que o Estado Novo soube ler com frieza. O apelo à consagração da Rússia e a ideia de Portugal como povo eleito encaixaram demasiado bem no imaginário do regime para ser coincidência. A Virgem não pediu para ser instrumentalizada. Nenhuma divindade pede.

Mas há algo anterior à teologia oficial. Algo que os santuários guardam nas pedras e nas fontes.

O culto mariano absorveu, ao longo dos séculos, elementos muito mais antigos: a Grande Mãe, os lugares de poder telúrico, as árvores sagradas. Muitos dos santuários mais venerados estão onde já se rezava antes de haver cristãos. Peneda, Lapa, Cabo — a geografia do país é uma constelação de pontos onde o sagrado teima em pousar, independentemente do nome que lhe demos.

​É aí que a devoção se torna mais honesta. É um catolicismo do corpo e da memória, não da crença articulada. Crê-se com os pés descalços no asfalto quente, não com a cabeça.

​E não se pode falar deste culto sem falar das mulheres que o sustentam. São as avós, as mães e as filhas que guardam esta devoção — e a mantêm viva. A Virgem é o polo de uma religiosidade afetiva que o catolicismo oficial, tão sistematicamente masculino, nunca controlou por completo. Há algo de autónomo, quase subversivo, nessa fidelidade. As mulheres rezam à Virgem de formas que o Vaticano não aprovou e, provavelmente, não compreende.

​Portugal secularizou-se rapidamente. A missa esvaziou-se, o clero envelheceu. E, no entanto, Fátima continua a mobilizar multidões. As velas continuam a arder. É como se a Virgem sobrevivesse à própria Igreja que a enquadra — como se a devoção tivesse raízes mais fundas do que qualquer instituição consegue alcançar.

​Não é a primeira vez na história do culto. Provavelmente, não será a última.

2026-05-29

A Distância de Segurança


Há qualquer coisa de comovente nos adeptos que chegam aos estádios embrulhados nas bandeiras dos seus países. A convicção com que carregam aquele pano às costas, como se a fé — suficientemente ruidosa — pudesse dobrar o resultado. Admiramos isso. Achamos bonito. Que paixão, dizemos, com aquele sorriso levemente condescendente de quem aprecia uma crença que não partilha.

Porque nós não fazemos isso. Não assim.

Portugal entra neste Mundial com o currículo mais sólido que alguma vez levou para uma competição destas. As análises chegam de todo o lado, os especialistas alinham argumentos, as probabilidades não nos desaforam. Nunca fomos tão temidos. Nunca fomos tão observados com o respeito cauteloso reservado aos favoritos. O mundo olha e vê um candidato. Nós olhamos e vemos — o quê, exatamente?

Vemos a hipótese. Admitimo-la, claro. Mas quase de mansinho, como quem menciona uma herança improvável de um tio distante. Pode ser, dizemos. Quem sabe. E já há quem vá pedindo desculpa por termos bons jogadores, como se a excelência fosse uma indelicadeza que precisasse de ser suavizada.

Não é modéstia. A modéstia tem uma certa elegância tranquila. Isto é outra coisa: uma desconfiança antiga do que é nosso, o reflexo de quem aprendeu que esperança própria é soberba, e soberba é anúncio de queda. Deixamos a convicção para os outros porque assim, se correr mal, não fomos nós que acreditámos.

Reconheço o mecanismo. Não sou imune.

Há algo de muito português — ou talvez apenas muito nosso — nesta forma de gostar das coisas à distância de segurança: admirar o otimismo dos outros com a generosidade que recusamos ao nosso, achar a esperança alheia corajosa e a própria excessiva. A galinha do vizinho é sempre mais gorda. Mas a nossa versão do provérbio é mais perversa: a galinha do nosso próprio quintal há de parecer sempre a mais mirrada, mesmo quando toda a gente de fora insiste no contrário.

Talvez ganhem. Talvez não. Isso, por agora, é irrelevante.

O que me ocupa é esta estranha incapacidade de habitar a esperança sem nos desculparmos por ela. Como se acreditar fosse um risco que os outros podem correr — e nós não.

2026-05-28

Gizo-me


Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em  Morse:

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2026-05-27

As rosas do Atacama


Conta Sepúlveda em As Rosas de Atacama que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen-Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". Foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as vidas breves que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que nem por isso são menos importantes.

​Chamou a esse livro Historias Marginales, nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a imagem de um deserto coberto de flores. Afinal, o livro vive das margens e do esquecimento. Vive de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e que, no entanto, são demasiado parecidas com todos nós: anónimas, a mais das vezes capazes de fugir e de se esconder, mas levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja numa única vida, a diferença.

​Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém a contou. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações.

​De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte também uma das nossas e mais uma rosa pintará de cor o deserto do esquecimento.

2026-05-26

Leveza


Há um momento exacto em que o Verão chega de verdade. Não é quando o termómetro passa os trinta graus, não é quando o mar atinge temperatura de banheira. É quando se abre o armário e se percebe que aquele casaco de lã que ficou pendurado ali desde Novembro está, pela primeira vez em meses, completamente desnecessário.

É um momento de alegria quase filosófica.

A roupa de Verão é uma das poucas áreas da existência humana em que menos é genuinamente mais. Um vestido largo — aqueles que são, em rigor, uma peça de tecido com um buraco para a cabeça e a convicção de que o resto se resolve — é a resposta correcta para quase todas as perguntas difíceis do dia. O que visto? Um vestido largo. Para onde vou? Não importa, o vestido vem. Estou triste? O vestido ondula ao vento e é difícil manter a tristeza enquanto se ondula.

Existe também uma dignidade particular em andar com os pés de fora.

Não estou a falar de sandálias elaboradas com tiras que sobem pelo tornozelo em espiral e demoram vinte minutos a apertar — essas são apenas sapatos com mais ambições e menos utilidade. Falo da sandália básica, a que se calça num segundo, a que permite que os pés respirem, sintam o chão, recordem ao corpo que existe uma terra firme ali em baixo e que não é preciso ter pressa. Os pés libertos andam diferente. Mais devagar, talvez. Com mais atenção.

O Inverno obriga-nos a carregar camadas. Camisolas sobre t-shirts, casacos sobre camisolas, cachecóis sobre casacos — tornamo-nos bonecas russas de nós próprios, embrulhadas em tecidos que vão acumulando os dias. O Verão faz o contrário: vai retirando. E há qualquer coisa de ligeiramente libertadora nisso, a ideia de que se pode sair à rua com a mínima quantidade de roupa socialmente aceitável e sentir que não falta nada.

Que, afinal, a leveza não é uma ausência.

É uma escolha.

2026-05-24

O Verão de São Calcanhar


Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.

Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.

Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.

Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.

Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.

Injustificada, mas admiro.