
Soam slows continuamente. As Damas, que em fugazes momentos duma luz indiscreta dum isqueiro fazem suspeitar serem irmãs, filhas mais velhas e uma ou outra até mães da esforçada orquestra que simula em arremedos de acordes que ainda vive e não morreu, elas, as Belas, antecedem em maquilhagem e profundidade de olhar escolas de cinema neo-realistas que Cannes ainda não sonhava premiar, e enquanto sinto o osso da perna da que o destino me sentara ao lado cravar-se na minha, a mão gélida torneando-me o pescoço e a voz que se quereria ciciante murmurar-me ao ouvido em pigarros de catarro de Três-Vintes: "filho, mandas vir outro 'Magos' e depois dançamos?", eu sinto-me não filho mas neto daquele olhar 'femme fatale' de décadas de avanço, que me leva, um, a duma golada beber a minha zurrapa e pedir outra, dois, a pedir ao solícito outra bebida para "a menina" e anuir-lhe que sim, a cabeça para cima e para baixo para se libertar do toque da pele fria que lhe cobre os ossos - sentia-os da falange à falangeta. Se ela e a sua insistente perna me permitissem evadir-me sentir-me-ia outro Milos Forman a filmar o baile dos bombeiros da associação do bairro.
Mas não. É um salão de baile feito casa de alterne, se o alemão ainda não me engana é o velho Salão Ritz e falo do início da década de oitenta do finado. Contar como lá caí era ignorar a música que soava, lenta repetitiva, esforçada, e seria um desrespeito à estória. Por isso nada de miudezas. Com as goelas e o estômago a arder pela mistela de Sacavém deixei-me conduzir pela mão para a pista onde as luzes baças deixavam ver outros figurantes do sketch surrealista. Bailavam, a ideia era essa e a orquestra sobrevivia para isso e cria em mim que os outros, como eu, sentíamos o dever instintivo de bailar, bailar sempre, porque se a pista se esvaziasse um a um os casacos brancos com lacinhos pretos caíam como folhas fora de prazo tantos os Outonos que já deviam à tumba: sobreviviam porque tocavam, e tocavam para que se bailasse. Ela, a Bela? algo cruzado e esforçado entre a avó anoréxica dum futuro 'Família Adams' e uma vamp fora d'época - havia fascínio no momento que sentia-o como único: desde que subira a escadaria iluminada pelo vetusto lustre e pelo vermelho e ouro da decoração que os gastos espelhos me diziam, mesmo antes da cortina se abrir e penetrar em cena, sabia que vivia um momento que já não existia, não era nem da minha época nem da cidade que lá fora existia, finda a escadaria: uma máquina do tempo teleportara-me para um pedaço de celulóide de cinemateca e bebia-o e inalava-o sequioso, bem ciente do privilégio histórico de ser-me propiciado vivê-lo. Se entre mesas divisasse caras conhecidas por fotos de álbum de família, o meu tio Olívio que nos finais de cinquenta's emigrara para o Brasil ou até o meu pai que, rezam os anais da família, fora galã marialva na sua época lisboeta, não me surpreenderia por aí além. Pensava-o para mim enquanto a mão lhe torneava a cintura de vespa reformada e aspirava o cheiro da laca e de decilitros de perfume que me envolviam na névoa onde bailava um, dois slows. Noblesse obligue, ousei teclar solidariamente aos colegas de palco um tímido piano nas costas desnudadas, e hérnia discal a hérnia discal acompanhava o ritmo que o palco de mortos-vivos debitava: não havia ritmo para subir uma oitava nem desci qualquer nota de levantar a plateia muito embora o primeiro balcão se esforçasse e se colasse ao meu peito. A Dama, a pista, o décor, as luzes e a orquestra em nada ajudavam a um lá bemol maior que soltasse vidas, baladas e ritmos à partenaire ou à assistência. Bailasse, eis o guião da noite no Salão Lisboa, e o escritor não tivera um momento esfuziante quando mo escrevera - pensava.
A orquestra, coitada, faz uma pausa que eu entendi como a sua deixa para oxigenarem a existência. Foi o meu erro pois não a aproveitei e recolhi à mesa, outro 'Magos' e meio copo de tintura de iodo afogado em gelo e fim de tournée...! O Maestro ressuscita e arrasta no seu milagre colegas, instrumentos, imagine-se que até o som: soa um Tango! Esclareçamo-nos desde já: rock é rock e basta abanar o capacete e fazer olhinhos à garina; slow é slow e não fosse a Dama uma madame que me merecia provecto respeito e sabia como me desenrascar. Um e outro são como andar de bicicleta. Mas um tango... isso já é brevet ou carta de patrão da costa! Um Tango, senhores! Não, não estava no guião. Nunca estivera! Mais e para completar: das profundezas avoengas do olhar da Dama emergiu um brilho que em princípio não cataloguei como perigoso mas que o súbito estremeção do até então plácido esqueleto disse-me que para brincadeira já chegava e agora é que se começava a tratar de coisas sérias. Tão sérias foram que nas suas mãos rodopiei como nunca julguei possível, levei baile, bailarico e, acredito, momentos houve em que até dancei o tango guiado pista afora por uma cicerone mista de alucinada rejuvenescida e indefectível à arte. Nos seus braços e em volta do seu corpo fiz de mim o que não sabia estar ao meu alcance, o seu olhar profundo e magnético cravado em mim, ordenando e descodificando o que as suas mãos mimavam às minhas em gestos, puxões e impulsos decididos. No palco os mortos ressuscitavam tal como eu. E as cordas trinavam, os metais assopravam, o piano desenfiavasse e desenrascavasse de teias d'aranha. Foi o momento alto da rodagem e o meu excelsus como bailarino e actor.
Quando o realizador disse "corta!" e tive autorização para voltar à mesa, obviamente bebi um duplo. Depois osculei a minha Dama na mão que não segurava a taça e sem mais palavras que as que os meus olhos diziam, e desci a escadaria do tapete vermelho sem olhar para os espelhos: neles, só podia mesmo era estar reflectido Gene Kelly saltitando os degraus como se chovesse. E chovera... por isso eu cantava!.
A resposta ao desafio segundo Carlos Gil.






