2026-02-25
Notificação Formal de Abuso Hídrico e Publicidade Enganosa
2026-02-24
Inverno 2026
De sangue e borralho
2026-02-23
Raiva
2026-02-22
A estética da miséria alheia
2026-02-20
Shikata Ga Nai
2026-02-19
Wabi - O algoritmo da solidão
2026-02-18
A Memória é uma Pátria Desatenta
Portugal é um corpo feito de adeus. Durante séculos, as nossas raízes não se enterraram na terra, mas no mar e no asfalto das estradas que levavam para longe. Fomos o povo da partida, a nação que se fragmentou em Paris, que se reinventou em Genebra, que suou o pão no asfalto de Newark ou nas minas de Joanesburgo. Nas décadas de 60 e 70, o país sangrou gente: mais de um milhão de destinos embrulhados em esperança e medo. Não há árvore genealógica por cá que não tenha um ramo estendido para o estrangeiro.
Esses portugueses — os nossos — foram a prova viva de que a fronteira pode ser uma ponte. Entre a neblina da saudade e o peso do preconceito, encontraram mãos que os ajudaram a erguer casas e a sustentar o amanhã de quem ficou. Foram acolhidos no abraço imperfeito de quem sabe que ninguém deixa a sua terra por capricho, mas por necessidade.
Mas hoje, o espelho está baço.
Numa ironia que dói como uma ferida aberta, Portugal, o eterno emigrante, olha com desconfiança para quem agora nos escolhe como porto. O neto daquele que foi "o português" na carência de França é hoje o primeiro a erguer muros contra o brasileiro, o indiano ou o bangladeshi. Esquecemos, com uma pressa cruel, que o "outro" que hoje chega é apenas o reflexo do que fomos ontem.
É um paradoxo triste: enquanto as nossas malas continuam a fechar-se todos os anos rumo ao norte, fechamos a porta a quem traz o sol e o esforço para dentro de casa. Criamos um discurso de exclusão que ignora a nossa própria biografia.
A memória coletiva tem o fôlego curto. Se lhe negarmos o exercício da empatia, o que nos resta? Recordar o que fomos não é apenas um ato de história; é um dever de humanidade. Porque, no fundo, todos somos feitos da mesma matéria: o direito de procurar um lugar onde a vida não doa tanto.
Kintsugi - Ouro na Engrenagem
2026-02-17
Os caretos não pedem desculpa
Caminhos
Dizem que sou casmurra quando acho que tenho razão. Talvez tenham razão na palavra, mas enganam-se na intenção. A verdade é que baseio a minha forma de estar no mundo numa série de verdades que, para mim, são sagradas e invioláveis. Sou como uma "bota velha" — daquelas de elástico, que não se deforma com as modas — no que toca a valores e princípios.
A minha verdade não aceita eufemismos. Para mim, o erro não tem meio-termo. Roubo é roubo. Seja o plágio de um texto, a invasão de um computador ou o ato de tirar o que não nos pertence. Posso até compreender as circunstâncias, mas recuso-me a compactuar com a mentira. Há quem chame a isto rigidez; eu chamo-lhe clareza.
Tenho um instinto que me faz cheirar o esturro muito antes de o incêndio começar. E sim, ponho muita gente "na borda do prato" simplesmente porque o cheiro não me agrada. Posso correr o risco de me enganar, mas a vida tem-me provado que esse radar raramente falha.
Da mesma forma que o meu "não" é absoluto, o meu "sim" é pleno. Recebo na minha vida e no meu coração quem me chega com verdade, sem precisar de laços de sangue. Acredito na família que se escolhe, naqueles que se tornam "meus" por direito de afinidade e lealdade.
Recentemente, deram-me um "título" técnico para este meu modo de ser. Mas esse diagnóstico não é uma sentença, nem um pedido de correção. É apenas um nome para algo que já escrevi e vivi há décadas.
E não há sequer arrependimentos ou necessidade de correção. Não sou disfuncional. Sou o que sou. No final do dia, a minha paz vem de saber que não transijo no que é essencial.