A nossa geração não teme propriamente o fim do mundo. Suspeita, isso sim, que vai chegar atrasada — havia trânsito, a reunião podia ter sido um email, e alguém achou por bem marcar uma consulta para as 16h30.
Crescemos dentro do apocalipse. Fomos criados com ele como paisagem de fundo: o cogumelo nuclear do noticiário da noite, a distopia enquanto género literário obrigatório, a ficção científica como manual de instruções para um futuro que não tardaria. Ensaiámos o fim do mundo tantas vezes — no ecrã, na página, na conversa das três da manhã — que quando ele finalmente começou a parecer real, já estávamos vacinados. Ou simplesmente exaustos.
O que nos preocupa agora não é o colapso civilizacional em si. É a logística. Se o Armagedon exigir corrida, provavelmente ficaremos para trás com os gatos e os móveis pesados. Se houver formulários, alguém vai esquecer-se de imprimir em duplicado. E há a questão do carregador — porque mesmo no fim dos tempos, parece-nos imprudente não ter bateria.
Isto não é cobardia. É uma geração que passou décadas à espera do apocalipse e chegou à meia-idade a descobrir que o fim do mundo também sofre de má gestão de recursos humanos. Podíamos ter agendado o colapso para uma terça-feira. A quarta também servia. Mas não: há sempre alguém que insiste em calendarizar o fim do mundo para uma segunda-feira.
O que revela algo sobre nós é a forma como preparámos o kit de sobrevivência. Não há rações, nem bunker, nem gerador. Há um inventário emocional construído a partir de objectos fictícios que pesam tanto — às vezes mais — do que os reais.
O casaco do Neo. A toalha do Douglas Adams. O póster do Mulder.
E se houver céu, exigimos o Metatron do Alan Rickman. A eternidade parece-nos demasiado longa para ser gasta sem sarcasmo administrativo.
Há qualquer coisa de profundamente honesto nisto. Não imaginamos harpas. Não imaginamos querubins. Imaginamos filas. E queremos alguém que as comente com o tom de voz certo.
Somos uma geração que aprendeu a sobreviver ao absurdo equipada com referências partilhadas e ironia de precisão. Que constrói sentido a partir da ficção porque a ficção, muitas vezes, foi mais rigorosa do que a realidade. Que não acredita em salvações mas acredita, firmemente, que uma boa frase no momento certo salva pelo menos o dia.
O apocalipse, se vier, vai encontrar-nos a meio de qualquer coisa. Com a agenda sobrelotada, o telefone com 4% de bateria, e uma discussão acesa sobre quem herda os óculos de sol.
Vamos chegar atrasados, é certo.
Mas vamos chegar com as referências certas.
