2026-06-08

Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)


Há uma lógica nisto tudo.  
A geração que compra a t-shirt não a inventou do nada. Cresceu a ver os adultos à sua volta sobreviver entre o desespero e o humor. Aprendeu que a vida era um teatro do absurdo e que o melhor era rir para não chorar. Só que esses adultos não tinham público. Tinham, quando muito, um blogue e meia dúzia de leitores que assinalavam com a cabeça.

Os filhos herdaram o espetáculo. Não herdaram a ironia.  

Ou melhor: herdaram-lhe a forma, mas não a função.

A dissociação que os pais carregavam em privado, como mecanismo de sobrevivência que não pedia licença, tornou-se conteúdo. A capacidade de rir do próprio colapso, que custou anos a afinar, virou aesthetic. E o desespero — esse velho conhecido de quem cresceu a assistir às promessas falhadas do futuro — transformou-se em lifestyle com merch em algodão orgânico.

Não é cinismo. É a resposta lógica de quem cresceu a ver os adultos fingir que tudo estava bem enquanto o mundo desmoronava, e decidiu que não ia fazer o mesmo. Em vez de inventar uma linguagem própria para o dizer, encontrou um algoritmo. E o algoritmo não premeia o meio-tom. Premeia o engagement.

A ironia deixou de ser ferramenta para suportar o absurdo. Passou a ser forma de o comunicar. E, como acontece com tudo o que circula bem, acabou também mercadoria.

O problema é que o sistema aprendeu a monetizar até a recusa. A apatia virou trend. A exaustão virou identidade. O desencanto virou reel. E a t-shirt que diz mentally hilarious é, no fundo, o certificado de autenticidade de uma experiência que já existia antes de ter nome, estética ou hashtag.

A ironia suprema é esta: os pais riam do absurdo para continuar a funcionar. Os filhos exibem-no para explicar por que não querem funcionar da mesma maneira.

Talvez tenham razão.

Mas o capitalismo, esse, continua a cobrar à saída.

O sofá é confortável. O Wi-Fi, por enquanto, funciona. E o arquivo — esse — não tem algoritmo.

2026-06-07

Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)

Há agora uma t-shirt. Provavelmente há também um Pinterest board, um canal de YouTube e uma marca de roupa em algodão orgânico que vende a ideia de que andar mentalmente algures entre o absurdo e o colapso é, afinal, um estilo de vida. Chama-se Mentally Hilarious e é, segundo os seus arautos digitais, uma forma positiva de encarar os pensamentos intrusivos, a dissociação ligeira e o facto de se estar fisicamente presente mas mentalmente a fazer compras noutro planeta.

Bem-vindos. Eu já cá estava.
Não com t-shirt. Com blogue.
Desde meados de 2004 — quando os millennials ainda andavam a tentar perceber se deviam ter filhos ou comprar casa, e acabaram por não fazer nem uma coisa nem outra a tempo — que a Hipatia mapeia este território com a precisão de quem não precisa de legenda para explicar o conceito. Até já escrevi sobre um certo gajedo de trinta e muitos, quarenta e poucos, reunido ao almoço das quintas com ar altivo e condescendente e um aspecto de banho de loja e perfumaria, mesmo que a loja seja a feira e o perfume de amostra. Escrevia sobre o desespero com sorriso em contramão. Sobre a solidão estampada na cara de quem apregoa uma suposta e falsa confiança. Sobre os mecanismos que precisam de ser devidamente oleados, com ou sem intervenção mecânica.

Se isso não é mentally hilarious, não sei o que é.

A diferença — e há uma diferença que importa — é que a trend precisa de explicar o que é. Precisa de empacotar, de dar nome, de pôr numa camisola para que as pessoas reconheçam a experiência que já tinham mas não sabiam nomear. O que é, em si, perfeitamente humano e até simpático. Não tenho nada contra o algodão orgânico.

Mas há qualquer coisa ligeiramente cómica — e portanto muito adequada ao tema — em ver chegar uma estética inteira construída à volta do humor como escudo, da observação como sobrevivência, do absurdo como linguagem materna, quando isso aqui já era mobília velha. Não mobília vintage, que essa já tem mercado. Mobília velha mesmo. A que fica porque é boa e porque ninguém se lembrou de a vender.

A Mentally Hilarious é a versão democratizada e consumível de algo que algumas pessoas sempre fizeram por necessidade, sem manual e sem merch. Não por serem mais inteligentes ou mais sofisticadas. Apenas porque não havia outra forma de continuar a aparecer ao almoço das quintas com ar de que tudo estava bem, quando claramente não estava, e achar piada ao espectáculo todo na mesma.

Isso não se aprende num Pinterest board.

Aprende-se ao fim de anos a olhar para o mundo com aquela expressão específica — nem cínica nem ingénua, qualquer coisa no meio — e a decidir que o que se vê é demasiado absurdo para não ser anotado.

A t-shirt posso emprestar. O arquivo não.

2026-06-06

A melancolia como serviço mínimo


Há quem trate a melancolia como doença. Eu trato-a como mobília.  

Está sempre ali, encostada ao canto, sem cobrar renda, mas a dar ao espaço aquele ar de quem já viveu.  

Não é tristeza — a tristeza tem pressa, quer atenção, manda mensagens às 3 da manhã.  

A melancolia é mais discreta. Senta-se contigo ao fim do dia, partilha o silêncio e não pede nada em troca. Às vezes desconfio que é ela quem paga as contas da luz.  

Mas se a confundes com depressão e vais ao médico porque gostas de chuva, o problema não é a melancolia. É a literalidade. E essa, ao que consta, continua sem cura.

Insuportável


Disseram-me que era chata. Considerei a hipótese. Decidi escalar.

"Insuportável" tem uma sonoridade que me agrada. É o tipo de palavra que as pessoas usam quando já não conseguem controlar aquilo que nomeiam.

Não vou pedir licença para existir. Nunca percebi bem para que serve essa licença — quem a emite, quem a renova, o que acontece quando expira.

O meu cabelo vai à frente. Eu vou a seguir. O resto é paisagem.

2026-06-05

Da data


Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Todos partilham a imagem do globo de cristal poisado na relva. Todos escrevem que o planeta precisa de nós. Ninguém desliga o ar condicionado.

Existe uma distância curiosa entre o que se proclama e o que se pratica — e essa distância tem o tamanho exacto de uma consciência tranquila. Celebramos o planeta como se ele fosse um aniversariante: uma vela, um post, e o assunto encerrado por mais um ano.

A Terra não precisa das nossas homenagens. Precisa do nosso silêncio. E da nossa ausência, se possível.

2026-06-04

Herdeiros de quem?


Os meus antepassados saíram para o desconhecido numa caixa de fósforos. Levavam uma esfera armilar, um astrolábio, a convicção de que a terra não acabava ali e a desfaçatez suficiente para testar a hipótese. Foram. Voltaram. À boleia da Volta do Mar, o que não é pouca coisa num tempo em que o horizonte era uma teoria por confirmar.

Eu, herdeira legítima desse património genético e cultural, há dias em que preciso de GPS para chegar ao supermercado que fica a quatrocentos metros de casa.

Não é uma confissão. É um dado.

A questão que se levanta — e que me recuso a deixar cair — não é técnica nem nostálgica. É mais inquietante do que isso: com o acesso sem precedentes ao conhecimento, ao mapa, à informação disponível a qualquer hora em qualquer bolso, estamos a ficar mais estúpidos ou apenas mais preguiçosos? E existe, ainda, alguma diferença entre as duas coisas?

O desenrascanço — essa virtude nacional elevada a traço de carácter, quase a argumento identitário — terá sobrevivido à era em que já não é preciso desenrascar nada porque a aplicação desenrasca por nós? Ou era o desenrascanço precisamente isso: a inteligência que nasce da escassez, o engenho que só existe quando não há alternativa?

Pergunto porque a resposta me desconforta.

Há qualquer coisa de perverso na abundância do acesso. Nunca soubemos tanto. Nunca tivemos tanto à mão. E no entanto a sensação persistente — pelo menos para quem olha — é a de que algo foi trocado por outra coisa sem aviso prévio e sem cláusula de rescisão. Trocámos a capacidade de nos orientarmos pela disponibilidade de sermos orientados. Trocámos a memória pelo arquivo. Trocámos o raciocínio pela pesquisa. São trocas racionais. São trocas eficientes. São, muito possivelmente, trocas irreversíveis.

Os meus antepassados não tinham GPS. Tinham que saber onde estavam.

Eu sei onde estou. O telemóvel diz-me.

Mas suspeito que confiar não é o mesmo que saber. 

E a minha Volta do Mar só funciona enquanto dura a bateria.

2026-06-03

Buffet Livre


Educação pública, bibliotecas, motores de busca, conhecimento à discrição. Nunca tanta gente teve tanto acesso a tanto. O problema deste buffet é que podes escolher a alta cozinha ou enfiar os dedos na maionese.

Nem todos soubemos o que fazer com o prato cheio.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador em ver pessoas da minha idade — que partilharam as mesmas salas de aula e os mesmos privilégios — a engolirem a primeira patranha que apanham no feed, sem mastigar, sem questionar. Como se a escola lhes tivesse passado ao lado sem deixar o vício da dúvida. Como se o acesso ao conhecimento não trouxesse o dever de o usar.

Vivemos na era em que o próprio telefone avisa. Literalmente. Possível fraude, diz o ecrã, em letras que não precisam de ser decifradas. E ainda assim há quem atenda, ouça até ao fim e entregue os dados bancários a uma voz gravada com sotaque de call center.

O ecrã avisa.
A dúvida devia avisar também.
Mas essa não vem instalada de fábrica.

2026-06-02

Boato


Chegou junho, o mês dos santos populares, das sardinhas e… da minha manta de pelo sintético. Pelos vistos, o São Pedro confundiu o verão com uma vaga polar e decidiu brindar-nos com um inverno fora de época.

O meu joelho, esse meteorologista infalível, já andava há dias a avisar. Hoje, porém, tenho aviso amarelo em todos os ossos. Cada vértebra prevê aguaceiros e cada articulação jura que vai nevar na eira.

A este ritmo, passo o São João agarrada à botija de água quente e a chamar "verão" a um boato.

Crédito mal parado

Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.

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Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.

Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.  

O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.

Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.

A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.

O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.

2026-06-01

A sombra do pastor



Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.

Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.

O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.

O pastor sorri.