2026-05-29

A Distância de Segurança


Há qualquer coisa de comovente nos adeptos que chegam aos estádios embrulhados nas bandeiras dos seus países. A convicção com que carregam aquele pano às costas, como se a fé — suficientemente ruidosa — pudesse dobrar o resultado. Admiramos isso. Achamos bonito. Que paixão, dizemos, com aquele sorriso levemente condescendente de quem aprecia uma crença que não partilha.

Porque nós não fazemos isso. Não assim.

Portugal entra neste Mundial com o currículo mais sólido que alguma vez levou para uma competição destas. As análises chegam de todo o lado, os especialistas alinham argumentos, as probabilidades não nos desaforam. Nunca fomos tão temidos. Nunca fomos tão observados com o respeito cauteloso reservado aos favoritos. O mundo olha e vê um candidato. Nós olhamos e vemos — o quê, exatamente?

Vemos a hipótese. Admitimo-la, claro. Mas quase de mansinho, como quem menciona uma herança improvável de um tio distante. Pode ser, dizemos. Quem sabe. E já há quem vá pedindo desculpa por termos bons jogadores, como se a excelência fosse uma indelicadeza que precisasse de ser suavizada.

Não é modéstia. A modéstia tem uma certa elegância tranquila. Isto é outra coisa: uma desconfiança antiga do que é nosso, o reflexo de quem aprendeu que esperança própria é soberba, e soberba é anúncio de queda. Deixamos a convicção para os outros porque assim, se correr mal, não fomos nós que acreditámos.

Reconheço o mecanismo. Não sou imune.

Há algo de muito português — ou talvez apenas muito nosso — nesta forma de gostar das coisas à distância de segurança: admirar o otimismo dos outros com a generosidade que recusamos ao nosso, achar a esperança alheia corajosa e a própria excessiva. A galinha do vizinho é sempre mais gorda. Mas a nossa versão do provérbio é mais perversa: a galinha do nosso próprio quintal há de parecer sempre a mais mirrada, mesmo quando toda a gente de fora insiste no contrário.

Talvez ganhem. Talvez não. Isso, por agora, é irrelevante.

O que me ocupa é esta estranha incapacidade de habitar a esperança sem nos desculparmos por ela. Como se acreditar fosse um risco que os outros podem correr — e nós não.

2026-05-28

Gizo-me


Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em  Morse:

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2026-05-27

As rosas do Atacama


Conta Sepúlveda em As Rosas de Atacama que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen-Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". Foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as vidas breves que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que nem por isso são menos importantes.

​Chamou a esse livro Historias Marginales, nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a imagem de um deserto coberto de flores. Afinal, o livro vive das margens e do esquecimento. Vive de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e que, no entanto, são demasiado parecidas com todos nós: anónimas, a mais das vezes capazes de fugir e de se esconder, mas levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja numa única vida, a diferença.

​Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém a contou. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações.

​De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte também uma das nossas e mais uma rosa pintará de cor o deserto do esquecimento.

2026-05-26

Leveza


Há um momento exacto em que o Verão chega de verdade. Não é quando o termómetro passa os trinta graus, não é quando o mar atinge temperatura de banheira. É quando se abre o armário e se percebe que aquele casaco de lã que ficou pendurado ali desde Novembro está, pela primeira vez em meses, completamente desnecessário.

É um momento de alegria quase filosófica.

A roupa de Verão é uma das poucas áreas da existência humana em que menos é genuinamente mais. Um vestido largo — aqueles que são, em rigor, uma peça de tecido com um buraco para a cabeça e a convicção de que o resto se resolve — é a resposta correcta para quase todas as perguntas difíceis do dia. O que visto? Um vestido largo. Para onde vou? Não importa, o vestido vem. Estou triste? O vestido ondula ao vento e é difícil manter a tristeza enquanto se ondula.

Existe uma dignidade particular em andar com os pés de fora.
Não estou a falar de sandálias elaboradas com tiras que sobem pelo tornozelo em espiral e demoram vinte minutos a apertar — essas são apenas sapatos com mais ambições e menos utilidade. Falo da sandália básica, a que se calça num segundo, a que permite que os pés respirem, sintam o chão, recordem ao corpo que existe uma terra firme ali em baixo e que não é preciso ter pressa. Os pés libertos andam diferente. Mais devagar, talvez. Com mais atenção.

O Inverno obriga-nos a carregar camadas. Camisolas sobre t-shirts, casacos sobre camisolas, cachecóis sobre casacos — tornamo-nos bonecas russas de nós próprios, embrulhadas em tecidos que vão acumulando os dias. O Verão faz o contrário: vai retirando. E há qualquer coisa de ligeiramente libertadora nisso, a ideia de que se pode sair à rua com a mínima quantidade de roupa socialmente aceitável e sentir que não falta nada.

Que, afinal, a leveza não é uma ausência.

É uma escolha.

2026-05-24

O Verão de São Calcanhar


Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.

Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.

Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.

Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.

Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.

Injustificada, mas admiro.

2026-05-23

O Peso das Crianças


Há amores que precisam de fazer arrumação antes de começar.

Este começou em França e foi deixando pelo caminho o que não cabia na bagagem. Primeiro o rapaz de dezasseis anos — idade suficiente para sobreviver, insuficiente para perceber que estava a ser descartado. Depois a viagem até Portugal, que não foi uma fuga nem uma aventura romântica, por mais que eles a tenham narrado assim a si próprios. Foi uma logística. Uma resolução de problema.

O problema chamava-se três anos. O problema chamava-se cinco anos. O problema tinha olhos.

Alcácer do Sal tem pinheiros e silêncio. Têm isso em comum com muitos lugares onde se enterram coisas. Deixaram as crianças vendadas — pormenor que merece ser lido devagar, porque a venda não serve a criança, serve quem abandona. Não quero que me vejam partir. Não quero carregar essa imagem. O conforto, até ao fim, era deles.

O pai biológico existia. Esta informação é importante. Não havia ausência de alternativa, havia recusa de alternativa. Entregar as crianças ao pai teria deixado rasto, implicado explicação, exigido um mínimo de confronto com o que estavam a fazer. A mata não pede nada. A mata não tem número de telefone.

Quando foram interceptados, tinham um plano: fingir deficiência mental. Combinaram-no friamente, entre si, com a segurança de quem não considera a hipótese de falhar — e com o desprezo de quem não considera a hipótese de em Portugal haver alguém que entende francês. O mundo, na sua cosmologia, era pequeno e estava do lado deles.

Não estava.

Há uma palavra para o que fizeram às crianças. Há outra para o que fizeram ao rapaz de dezasseis anos. Há uma terceira para o plano combinado em voz baixa, para a venda nos olhos, para a mata escolhida, para o pai ignorado.

Nenhuma dessas palavras é amor. Nenhuma é sequer o seu contrário.

É outra coisa. É a convicção, tranquila e organizada, de que os filhos são peso — e de que o peso se larga quando se quer começar a correr.

Afonia

"Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas"


José Carlos Ary dos Santos - Kyrie

Há uma afonia que não é falta de voz física. É o sufoco da alma: um universo inteiro para gritar, mas que esbarra no silêncio do mundo ou na hipocrisia das palavras que não dizem nada.

É o nó na garganta de quem se recusa a viver em tons de cinza, ou a aceitar o amor de plástico de quem nunca ardeu. A sede do visceral. A prece por quem carrega as palavras mais lindas do mundo dentro de si — e as sufoca, por medo ou por desterro.

Para que as palavras deixem de ser preto e branco, é preciso aceitar que proferi-las tem um custo. Não o custo da métrica ou da forma — o custo de quem ouve e reconhece que algo mudou.

A voz sem filtro não é descuido.
É uma declaração.

Recusar o revestimento da linguagem polida.

Recusar o amor que não arde, a paz que não custou nada.

Isso é um ato político — mesmo que só uma pessoa o ouça.

Que a tua voz morda.
Que queime.
Que incendeie o silêncio.

Um vulcão no peito não serve para sussurrar.

Banalidades




Olho o blogue na sua extensão e permanência.

Espremendo, sobram demasiados acessórios para encher a página: letras esparramadas à pressa e logo esquecidas, músicas que naquele momento faziam sentido e hoje talvez não, imagens que já nem sei porquê.
E alguns textos que ainda sinto, destes tantos anos de voz em fuga — os mais pessoais, os mais íntimos, os mais estranhamente a nu.

Isto é só um blogue. Desde o início assumi que seria sobre banalidades, as minhas banalidades no seu sentido etimológico mais profundo: o do ban, a circunscrição feudal.

Estou confortável com o meu ban — este pequeno feudo feito de tudo o que realmente faz parte do meu mundo e do que nesse mundo é importante para mim. Até mesmo quando ando demasiado perdida de mim e das fronteiras e linhas com que me coso, enquanto a vida vai continuando a descosturar.

2026-05-21

Tudo começa com café


Há quem diga que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Eu digo que é a mais traidora. Começas o dia com a ilusão de que um café e uma torrada são capazes de te transformar num ser funcional, quando, na verdade, são apenas o preâmbulo de uma série de más decisões. O açúcar do pão com manteiga é o primeiro passo para a rendição à mediocridade; o café, esse, é a desculpa líquida para não matares ninguém antes das nove da manhã.

E depois há os health freaks, esses mártires do iogurte grego e das sementes de chia, que olham para o meu pão com manteiga como se fosse um crime contra a humanidade e mastigam alpista logo às oito da manhã, como se o trânsito e as reuniões de Teams fossem doer menos porque comeram antioxidantes. Ou como se a virtude se medisse em gramas de fibra. Eu prefiro o meu pecado matinal, assumido, sem hipocrisias. Afinal, se a vida já é uma merda, pelo menos que o pequeno-almoço seja bom.

E a solidão do pequeno-almoço? Nada revela mais a condição humana do que uma pessoa sozinha à mesa, a olhar para o telemóvel como se este fosse capaz de lhe dar um sentido para o dia. Ou pior: um casal em silêncio, mastigando em uníssono. O amor, no fim, também tem ritmo.

2026-05-20

Quinta-feira


O vento não desarruma: revela.

​O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.

​Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.

​O resultado está à vista.

​Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.