2026-03-12

Café


Moderação? Já ouvi falar, parece ser um conceito fascinante para quem tem paciência de santo. Para os restantes mortais, o café não é um 'abraço', é o soro de reanimação que impede o colapso da civilização antes das dez da manhã. Chamar ao café 'combustível' é manifestamente pouco; ele é o suborno que pago ao meu cérebro para que não se despeça do meu corpo em pleno horário de expediente. Teorias são para os fracos; eu cá prefiro a prática em doses industriais e servida numa chávena com o tamanho de um balde.

A insustentável leveza do vácuo


​Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.

​A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.

​É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"

​Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.

​O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.

​E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.

​É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.

2026-03-11

O que fica depois do medo?


Quando o medo chega, bate à porta sem anunciar o nome e instala-se na sala, como um hóspede que não sabemos expulsar.

Enquanto está cá dentro, tudo encolhe. Os passos ficam curtos, as palavras mais pesadas.

Mas o medo não fica para sempre.
Cansa-se.

E quando parte, não leva tudo consigo. Fica um certo sossego estranho, como a casa depois de uma tempestade. O ar ainda cheira a trovoada, mas já se pode abrir a janela.

2026-03-10

O Alfabeto do Sangue

​Lê-se Sócrates, o Escolástico, como quem folheia o inventário de um naufrágio. Hipátia, filha de Theon, não era apenas uma mulher; era a última biblioteca viva de um mundo que ainda ousava interrogar os astros sem pedir licença aos deuses. No seu magistério, Platão e Plotino deixavam de ser bustos de mármore para se tornarem respiração, geometria e destino. Alexandria, nesse estertor de glória, ainda era o lugar onde a inteligência se permitia a heresia de ser livre.

​Depois, veio o silêncio. Ou melhor, o ruído da turba.

​Há uma ironia atroz na forma como o fundamentalismo acerta contas com a beleza. Não basta o argumento; é preciso o caco de cerâmica, a ostra afiada, o desmembramento da carne que ousou pensar fora do cânone do medo. Hipátia não foi apenas assassinada; foi rasurada. O cristianismo triunfante de Cirilo não suportava a verticalidade de uma alma que se guiava pelas elipses de Apolónio e não pelos dogmas de um sínodo.

​É o eterno triunfo do músculo sobre a métrica.

​Caminhamos hoje sobre as cinzas de Alexandria, citando fragmentos de um saber que nos foi roubado pelo zelo dos ignorantes. A morte de Hipátia foi o prefácio de uma longa noite, o momento em que a filosofia foi arrastada pelas ruas e deixada a sangrar no altar da "verdade única". 

Observo o mundo de hoje e vejo os mesmos Cirilos, com outras batinas e novos vocabulários, prontos a afiar as conchas para qualquer um que prefira o telescópio ao catecismo.

​A história, afinal, é este pálido exercício de luto: recordamos o que Hipátia ensinou, enquanto tentamos ignorar o eco dos gritos de quem, ao matar a mestre, acreditou estar a salvar a alma do mundo. No fim, sobrou-nos o Escolástico e a certeza de que a barbárie tem sempre uma excelente justificação teológica.

Alfarrabista


"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."

A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.

"Como dizia o Heidegger..."

É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.

As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.

"A fenomenologia do espírito..."

A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.

É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.

2026-03-09

Segunda-feira


“A casa ainda dorme e eu fico na cozinha com o café, à espera que o dia comece.”
- António Lobo Antunes

A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".

​Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.

​Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.

​E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".

​Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.

​Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.

2026-03-08

Primavera


Envolta em trapos de frio, busco o jardim onde a Primavera se escondeu.

Tenho ânsia de verdes e de luz — não esta quase morte de um mundo enterrado até à raiz.

2026-03-07

​A Fada do Descrédito


​A vingança, para mim, é um serviço de entregas ao domicílio. Nunca perdi tempo a urdir tramas; diverti-me, quando muito, com planos que o esquecimento tratou de consumir logo a seguir. O destino tem sido um anfitrião generoso: põe-me sempre no lugar certo, na primeira fila do camarote, quando a vida decide finalmente cobrar faturas a quem me feriu. Põe-me até no papel absurdo — e deliciosamente irónico — de ser eu a única habilitada a resolver as confusões onde outros se enterraram sozinhos.

​É uma justiça que me cai do céu — antes fosse dinheiro ou chuva, mas aceito o que vem. Pratico esta paciência sem esforço, sem planos elaborados ou conspiratas de bastidores. Limito-me a esperar. A minha vingança não é minha filha, mas é certamente a minha fada madrinha: aquela figura providencial que realiza os desejos que eu, por pudor ou tédio, nem sequer me atrevo a formular. No fim, resta-me apenas o prazer de rir baixinho, de mim para mim, enquanto observo a vida a arrumar a casa.

2026-03-06

O circo de bancada


Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.

​O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.

​Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginiaboçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.

​Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.

2026-03-05

Eros platónico


​O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.