2026-08-10

(Des)culpas

Nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã nos ensinou a carregar, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba, acho que só lá esteve sempre para enganar...

E se enganava, o que sobra?

Sobra este reflexo quase automático: pedir desculpa por estar bem. Baixar os olhos quando a alegria é grande demais. Dizer “é só uma fase boa”, como quem diz “não se preocupem, já passa”.

Fomos ensinados a fazer a gestão da infelicidade. A dar-lhe nome, novena, terapia, conversa. À felicidade, não. A felicidade tem que ser merecida, moderada, dividida em porções pequenas para não dar inveja a ninguém — nem a Deus, nem aos outros, nem a nós próprios.

O medo e a culpa lidam mal com a felicidade porque a felicidade não pede licença. Acontece. Chega sem curriculum. Sem ter feito por merecer. E isso, numa cultura de mérito e castigo, é quase obsceno.

Talvez des-culpar seja isso. Não é ficar sem culpa. É aprender a ficar com a felicidade mesmo com a culpa ao lado, a resmungar no canto.

Não mandar a culpa embora. Só deixar de lhe dar a presidência da mesa.

Não dizer “desculpem a felicidade”. Dizer “olhem, estou feliz. Apesar de tudo. Com tudo. E fico mais um bocado.”

Pegada

Se uma vida for passada num total isolamento, se não houver quem lhe tenha visto os pormenores, os bons e os maus, se nada sobrar na memória dos outros, então essa vida foi esgotada, apagada e nada sobra depois.

Se, pelo contrário, por actos, por presenças, por carinhos, por memórias, uma vida ganhar espaço na história de outro, nem que seja de forma leve, fugidia, então há uma memória que não se perde, há uma ínfima possibilidade de eternidade, recontada em tom de história pelas palavras de outros que a conheceram, reconheceram, fizeram sua.

A perenidade da memória — dos outros na nossa memória; nossa na memória dos outros — talvez seja uma forma de contrariar o vazio do esquecimento. Não sei se é eternidade, nem se alguma coisa nos espera depois do fim. Sei apenas que, enquanto alguém se lembrar de nós, alguma coisa daquilo que fomos continua a existir na vida de outro. 

Não sei o que existe depois; sei o que podemos deixar uns nos outros.

2026-08-09

Medo

Às vezes penso que a ideia de viver no medo é muito mais aterrorizante do que o próprio medo. E às vezes parece-me que vivemos numa sociedade que, cada vez mais, explora o medo como se fosse a única forma de controlo possível sobre as almas, agora que os pecados foram (quase) todos apeados. Como se o medo fosse a nova arma esgrimida por quem nos tenta controlar os dias, quando os velhos nós se desfazem e as regras antigas são repensadas.

E tenho medo da forma fácil como o medo é aceite. Tão fácil que se prescinde de pequenos nacos de liberdade todos os dias, abocanhados pelo medo fabricado que se instala e nos corrói o âmago.

2026-08-07

Catrineta

E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.

É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim. 

Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.

Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.

Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.

Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.

É um buraco negro. Suga.

De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.

É um monstro. 

Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.

(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)

2026-08-04

A outra margem

O mar entre Marrocos e Espanha já não é um estreito. É o intervalo entre uma esperança e um obituário.

2026-07-30

Kyrie eleison

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia

2026-07-29

Menu de degustação de melgas e mosquitos

Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.

Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.

De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.

Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.

Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.

2026-07-27

Antes que tudo se esqueça


Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.


Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.


Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.


E conta-me.


Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.

2026-07-26

Elogio do sapato feio


Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa. São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não entusiasma ninguém, mas que se recusa obstinadamente a desaparecer.

Durante anos, os Crocs ocuparam um lugar muito específico no imaginário coletivo: o lugar das coisas que os outros usam. Médicos em turnos impossíveis. Jardineiros. Pessoas que claramente tinham desistido de seduzir alguém. Nós observávamos à distância, confortavelmente instalados na nossa superioridade estética.

Depois a vida acontece.

As costas começam a emitir opiniões. Os pés tornam-se mais exigentes. Descobrimos que passar três horas em pé é uma atividade física e que a elegância raramente ajuda a descarregar compras do supermercado.

É nesse momento que os Crocs aparecem. Não fazem publicidade agressiva. Não prometem transformar a nossa vida. Limitam-se a existir, pacientes, à espera que a realidade faça o trabalho por eles.

Primeiro achamo-los horríveis.
Depois experimentamo-los.
Depois começamos a justificar a experiência com argumentos técnicos. Por fim, damos por nós a usá-los para ir ao correio, ao jardim ou à padaria, convencidos de que ninguém está a reparar. Entretanto, passamos a reparar noutra coisa.

A maioria das decisões da vida adulta acaba por seguir o mesmo percurso. Começamos com princípios. Terminamos com soluções. 

Os Crocs não são um sapato. São um tratado filosófico sobre o envelhecimento. Lembram-nos que chega uma altura em que deixamos de perguntar se uma coisa é bonita e começamos a perguntar se funciona. E há uma liberdade inesperada nisso.

Porque talvez a maturidade consista precisamente em abandonar algumas batalhas impossíveis. Entre elas, a de parecer permanentemente elegante enquanto se tenta apenas atravessar uma terça-feira.

Os Crocs são feios. Mas também nós já não somos exatamente quem éramos. Talvez seja por isso que nos entendemos tão bem.