2026-10-22

O preço do medo


Somos animais territoriais. Gostamos de delimitar, fincar bandeira, erguer muro e chamar nosso ao que conseguimos manter debaixo da pata por acaso geográfico.

Gostamos de poder. Não tanto de o exercer. De o ter. Saber que podemos esmagar. Para certas criaturas, isso chega para justificar uma existência.

Nada de original. Os outros animais também defendem a toca. A diferença é que nós inventámos a ciência para transformar uma birra territorial num evento geológico. Evoluímos. A direcção é que ficou por esclarecer.

O problema de um animal com imaginação é fabricar coisas maiores do que a sua capacidade de medir consequências. Criamos artefactos capazes de destruir o que nem sequer nos pertence: a vida alheia, o futuro dos que não nasceram, o planeta que nos atura com uma paciência imerecida.

Depois damos-lhes um nome técnico, metemo-los num silo e chamamos-lhe equilíbrio.

Equilíbrio de quê? Do medo?

Quanto vale uma consciência com o fim do mundo na mão? Há uma tabela? Escalões de horror? Um número de mortos a partir do qual passa a ser feio?

Ou já há preço e só não suportamos dizê-lo em voz alta?

As bombas continuam nos silos. Quietas, disciplinadas, quase respeitáveis. Não fazem barulho, não incomodam a vizinhança, não precisam de se justificar ao jantar. Mas existem. E enquanto existirem, dependemos da sanidade, da prudência e da boa disposição de quem tem a chave.

Uma combinação que, convenhamos, nunca abundou na espécie.

Depois da primeira bomba, acabaram-se as desculpas.

A Oppenheimer não se concede absolvição por ignorância. Seria historicamente desonesto e moralmente cómodo. Dirigia Los Alamos; sabia o que fazia, sabia que aquela arma ultrapassava tudo o que a guerra tinha tornado familiar.

O que nenhum cálculo lhe deu foi o depois: a cidade transformada em campo de morte, os corpos, o sofrimento que não acaba na explosão. Hiroxima e Nagasáqui tiraram-lhe esse conforto, e ele não ficou indiferente. Opôs-se à bomba de hidrogénio, uma arma incomparavelmente pior, e pagou por isso.

Isso não apaga o Projecto Manhattan. Mas obriga-nos a distinguir. A pergunta perturbadora não é se Oppenheimer percebeu tudo antes. É porque é que, depois de todos vermos, tantos decidiram ir mais longe.

Hiroxima e Nagasáqui foram o preço dessa aprendizagem. Centenas de milhares de vidas reduzidas a uma abstracção luminosa. Mortes sem rosto para quem as ordenou. Corpos desfeitos num segundo e sofrimento prolongado por décadas, nos sobreviventes, nos filhos, nas doenças, naquilo que a ciência não repara.

Herança involuntária. Sem testamento e sem direito a renúncia.

Podemos discutir o contexto, as alternativas, a rendição japonesa, a lógica de uma guerra que já tinha devorado qualquer inocência. Devemos. A história não melhora com simplificações. Mas compreender a primeira vez não pode servir de álibi para todas as seguintes.

Porque depois de Hiroxima já sabíamos. Sabíamos que não era mais uma arma, mais um degrau na escada da supremacia. Sabíamos que tínhamos entrado num território onde vencer pode ter a forma grotesca de uma derrota colectiva.

E continuámos. Bombas mais potentes, sistemas mais rápidos, arsenais multiplicados. Transformámos a capacidade de exterminar a humanidade em credencial diplomática.

Chamamos-lhe dissuasão porque a palavra é elegante e fica bem nos discursos. O mecanismo é de uma simplicidade aterradora: se me atacas, destruo-te; se me destruíres, destruo-te na mesma; se nos destruirmos os dois, ninguém poderá dizer que cedi primeiro.

É a imagem que o próprio Oppenheimer usou em 1953, num artigo da Foreign Affairs: dois escorpiões num frasco, cada um capaz de matar o outro, mas só à custa da própria vida. Os escorpiões, ao menos, não arrastam terceiros. Estes arrastam. E os terceiros somos nós. Todos. Incluindo os que nunca os elegeram, nunca participaram nas suas guerras e nunca foram consultados sobre a conveniência de morrer por uma disputa que mal compreendem.

O mais inquietante: o jogo nem precisa de um monstro. Basta um erro. Uma informação mal lida. Um sistema que falha. Uma cadeia onde cada um confia que o seguinte sabe o que faz.

Ou basta um desvairado com poder suficiente para confundir a sua vontade com o destino do mundo. A loucura individual, com tecnologia adequada, deixa de ser clínica. Passa a ser política internacional.

E ainda há quem lhe chame inteligência estratégica.

A ética a posteriori é confortável. Sentamo-nos sobre os escombros, identificamos culpados, escrevemos relatórios, erguemos memoriais. Dizem que aprendemos. Entretanto, o orçamento militar aumenta e alguém, algures, trabalha numa arma mais eficiente.

Mais eficiente a fazer o quê?

A ciência responde com precisão admirável. A moral continua sem financiamento.

Os que vieram depois conheciam Hiroxima, Nagasáqui, a radiação, a escala. E escolheram bombas maiores. Não por ignorância nem por inocência: escolheram porque o poder de destruir passou a ser a forma de impedir que os outros destruam primeiro. Porque a espécie prefere arriscar desaparecer a admitir que não precisa de ganhar todas as disputas.

Talvez seja essa a nossa verdadeira natureza territorial: não defender o que é nosso, mas não suportar que o outro tenha algo que não controlamos.

As bombas continuam nos silos. Os dirigentes falam de segurança, os estrategas calculam probabilidades, e nós vivemos como se a sobrevivência fosse consequência natural da existência, quando depende de decisões tomadas por gente que nunca conheceremos e cujos nomes só aprenderemos quando for tarde.

Não sei em que escalão se decide o horror. Suspeito que a tabela exista e que ninguém a queira publicar.

Entretanto, guardamos o fim do mundo em depósitos vigiados e chamamos-lhe paz. Os mais finos chamam-lhe equilíbrio.

Eu continuo à espera de uma palavra menos obscena.

2026-10-21

Pancas, manias e outras formas de civilização


Há coisas que me agridem fisicamente. Não é maneira de dizer. É mesmo o corpo a reagir, a pele a eriçar-se e a vontade de fugir a instalar-se antes de o cérebro ter tempo de se pronunciar.

Mãos com unhas roídas, por exemplo. Só de imaginar que tenho de cumprimentar uma mão assim, arrepio-me toda num nojo total e absoluto. Não falo, evidentemente, daquelas unhas ratadas que mal se percebe terem sido roídas; para essas, as minhas dioptrias são um feliz acaso. Falo daqueles dedos onde já nem há unha, apenas sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.

Depois há os olhos. Não me refiro tanto aos que olham um para cada lado, cada qual entregue à sua própria vida, um aqui e outro no infinito. Esses ainda vá. O meu problema são os que convergem para o nariz, como se estivessem a tentar encontrar-se a meio do caminho. Ora, como não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar impedir que os meus entortem também, num jogo de reflexos que me deixa a conversar e, em simultâneo, a gerir uma emergência oftalmológica imaginária. Talvez por isso os que se desviam para fora me incomodem menos: não consigo mimar o gesto. Ainda assim, já dei por mim a encurtar conversas e a evitar pessoas por causa desta relação muito, mas mesmo muito inconveniente com a geometria ocular alheia. A diplomacia tem limites. Os meus passam, aparentemente, pela convergência.

Também acabo as palavras aos gagos. Não sou boa pessoa.

Com a burrice, a coisa muda de figura. Sobretudo quando vem armada em esperteza. A ignorância não me incomoda por aí além: ninguém nasce ensinado, ninguém sabe tudo e há sempre qualquer coisa que nos escapa, por muito que o ego se esforce por ocupar o espaço todo. Também não falo de falta de cultura ou de educação. O que me tira do sério é a cabeça oca com pretensões a cátedra, a criatura que abre a boca e transforma o silêncio, até então uma coisa perfeitamente banal, num bem precioso e irrecuperável. A primeira reacção é quase sempre a mesma: enfiar-lhe um par de estalos que lhe permita voltar a fechar os queixos, nem que seja por uns minutos, e poupar o mundo à próxima descarga de disparates.

Reconheço que isto faz de mim uma grandessíssima snobe, e duvido que esteja em idade de me reformar moralmente a este respeito. Falo da gente que se dedica a transformar objectos em demonstrações de estatuto, na esperança de que o recheio da casa compense as sinapses em falta. A inteligência não se compra. O que se compra é um relógio, um automóvel ou uma carteira com um preço capaz de fazer o vizinho engolir em seco. O resto é decoração.

Em casa, por outro lado, sou perfeitamente razoável. Ou quase.

As canecas, por exemplo, têm um lugar. Não um lugar aproximado, uma zona geográfica ou uma vaga indicação de que pertencem ao armário da cozinha. Têm um lugar. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Uma vez, duas, até três, sobretudo se estivermos apaixonados pelo infractor. Depois disso, a conversa deixa de ser sobre canecas e passa a ser sobre a possibilidade de a pessoa reunir condições mínimas para continuar a habitar o mesmo espaço que eu. Em casos extremos, a porta da rua pode tornar-se a serventia da casa. Há limites para o amor, e um deles é a reorganização unilateral da loiça.

Os livros também têm a sua ordem, e essa ordem não está aberta a interpretações criativas. Não se arrumam por aproximação, por cor ou por inspiração súbita de quem decidiu fazer uma surpresa. Há sistemas. Há uma lógica. Há uma arquitectura mental que, por razões que não me compete explicar a quem não a compreende, funciona. Desmontá-la equivale a entrar numa biblioteca, trocar as lombadas todas de sítio e depois anunciar que se fez uma melhoria na circulação.

Consigo ser muito mais tolerante com coisas que, em teoria, deveriam dar cabo da minha sanidade. Pratos e talheres fora do sítio, toalhas mal arrumadas, roupa suja abandonada fora do cesto, tampa da sanita levantada. Tudo isso me irrita, claro, mas pertence ao domínio das falhas humanas reconhecíveis. A caneca fora do lugar, não. A caneca fora do lugar é uma provocação pessoal.

E depois há a cama.

Não interessa se o lado esquerdo ou o direito, porque essa distinção é irrelevante. O meu lado é o lado da janela. Ponto final, parágrafo. Não há negociação, consulta pública ou referendo doméstico que altere esta disposição. A cama tem, além disso, de me permitir dormir com os bracinhos por cima da cabeça, em arco, numa pose de bailarina que perdeu o palco e encontrou finalmente um colchão. É assim que durmo. Sempre foi assim, ou pelo menos desde que me lembro de dormir, e não tenciono iniciar agora um programa de reeducação postural para acomodar as preferências de terceiros.

Não me perguntem porquê. Não sei. Também não tentem enganar-me, convencidos de que, uma vez adormecida, qualquer lado serve. O mais provável é que eu acabe do lado certo da cama, nem que para isso tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.

O mundo é grande. Há espaço para todos. Desde que não me mudem as canecas.

2026-10-20

O espírito dos tempos

Há qualquer coisa de reconfortante em saber que, mesmo quando a civilização arde, há quem preserve os pequenos prazeres da vida.

Uma esplanada. Três cafés. Um Pai Natal de óculos escuros, a fumar o que resta da inocência ocidental. Uma senhora de negro, com chapéu de bruxa e ar de quem já viu demasiadas temporadas disto para se deixar impressionar pelo enredo.

Ao fundo, a polícia, o fogo, o fumo e aquela coreografia urbana que os comunicados oficiais insistem em classificar como «incidentes», como se a realidade fosse uma reunião de condomínio que correu um pouco pior do que o previsto.

Mas a mesa está posta. É o que conta. As restantes, vazias, alinham-se até ao fogo. Ninguém reservou.

A senhora bebe o seu tinto com a serenidade de quem percebeu que o Apocalipse não dispensa uma pausa. O Pai Natal talvez esteja apenas a fazer contas à distribuição dos presentes. Ou a perguntar-se se ainda vale a pena descer pela chaminé de uma sociedade que pega fogo à primeira contrariedade.

Gosto da ausência de pânico. Não há correria, nem mãos na cabeça, nem ninguém a gritar que o mundo está a acabar. Dois pares de óculos escuros dispensam o resto. Pode estar, de facto. Mas não sejamos precipitados: ainda não acabámos o café.

Talvez a maturidade seja isto. Não confundir o colapso das instituições com a obrigação de estragar a tarde. Não deixar que a estupidez alheia nos roube o direito adquirido a uma cadeira confortável. E não abdicar do espectáculo quando já pouco nos resta fazer para alterar o argumento.

A bruxa sabe. O Pai Natal desconfia. A polícia trabalha. E a História, essa velha inconveniente, continua a arder ao fundo, à espera de que alguém lhe chame pelo nome certo.

Entretanto, tragam a conta.

O fim do mundo não dispensa o IVA. E, se possível, com factura e número de contribuinte.

2026-10-15

Aquela máquina!

Há dias em que me sinto o maquinista.

Não o pessimista, que vê um túnel escuro e se prepara para o pior. Nem o otimista, que vislumbra uma luz ao fundo e acredita que a vida ainda pode surpreendê-lo pela positiva. Muito menos o realista, que identifica um comboio de mercadorias e se limita a reconhecer a evidência.

Não. Eu sou o maquinista.

Aquele que vê três idiotas parados nos carris e percebe, com uma clareza quase ofensiva, que vai sobrar para ele.

Porque os três não estão perdidos. Não desconhecem o perigo. Não precisam de um mapa, de um seminário motivacional ou de uma sessão de esclarecimento sobre segurança ferroviária. Estão simplesmente ali, plantados na linha, convencidos de que o comboio é que tem de aprender a negociar.

E depois há todo um circo à volta: os que discutem se a locomotiva devia ter apitado mais cedo, os que defendem o direito inalienável de cada cidadão a ocupar os carris, os que propõem uma comissão para estudar o fenómeno e os que, perante a inevitabilidade do embate, perguntam se não haverá maneira de transformar o acidente numa oportunidade de crescimento.

Entretanto, o maquinista tem uma pequena questão prática para resolver: há três imbecis à sua frente e o comboio não tem asas.

É esta a parte que me cansa. Não é o túnel, nem a escuridão, nem sequer a perspectiva do desastre. É a recorrente obrigação de calcular travagens de emergência por causa de quem confunde liberdade com ausência de consequências e opinião com competência.

Uma pessoa passa a vida a tentar conduzir o comboio com alguma dignidade, a cumprir horários, a evitar descarrilamentos e a não atropelar ninguém pelo caminho. Depois descobre que há quem faça carreira a deitar-se nos carris e ainda reclame indemnização pelo incómodo de ter sido avisado.

E, no fim, se o comboio parar, a culpa é da falta de dinamismo. Se avançar, é da insensibilidade do maquinista. Se descarrilar, abre-se um inquérito. Se conseguir evitar a tragédia, ninguém agradece: afinal, não fez mais do que a sua obrigação.

Pois.

Às vezes, apetece-me largar os comandos, abrir a porta da locomotiva e perguntar aos três iluminados se querem experimentar conduzir. Mas sei como acabaria: ficariam os três a discutir quem tem prioridade, enquanto eu, por qualquer misteriosa lei da responsabilidade, seria chamada a garantir que o comboio não se atrasava.

O meu problema nunca foi não ver a luz ao fundo do túnel. É ver que a luz é um comboio, que há gente nos carris e que, mesmo assim, esperam que seja eu a resolver o problema.

Ser maquinista é isto: ter a responsabilidade de conduzir, a obrigação de prever o imprevisível e a certeza de que, quando tudo correr mal, haverá sempre alguém na plataforma a explicar o que eu devia ter feito.

Um dia destes, passo-me para o transporte fluvial.

Embora, pensando melhor, ainda me aparece um iluminado a discutir o direito de navegar em sentido contrário.

2026-10-10

Hitler Mussolini, político de esquerda

Hitler Mussolini Simeon Flores. Político de esquerda, eleito no Peru.

Não sei o que me fascina mais: a criatividade do registo civil, a ironia ideológica ou a circunstância de a realidade continuar a humilhar a ficção sem sequer se dar ao trabalho de elaborar o argumento.

Depois admiram-se de a democracia andar tão cansada.

2026-10-08

O chão que fica

Hoje morreu o pai da minha amiga.

Foi um ataque cardíaco fulminante. É assim que se diz, não é? Fulminante. Uma palavra que parece um raio a rasgar o céu limpo. Num instante estava, no instante seguinte já não está.

E eu não consigo parar de pensar no meu pai. No final de julho. Um mês inteiro entre a notícia e o fim. Um mês para processar o que nunca se processa de facto. Andámos aquele mês a acreditar e a não acreditar ao mesmo tempo. A fazer planos pequenos como quem assobia no escuro. Sabíamos, sem nunca saber realmente que o fim estava ali, ao virar da porta.

São duas formas opostas de perder alguém. E nenhuma é mais leve.

Quando soube que o meu pai sabia que estava a morrer, doeu-me por ele. Doeu-me esse peso lúcido. Hoje penso na minha amiga, e penso que o peso dela deve ser outro, talvez ainda mais desamparado: o de não ter havido tempo para o adeus. Para a última frase. Para a mão dada. O baque imenso de uma ausência que não pediu licença.

Disseram-me - e hão-de dizer-lhe a ela também - "não sofreu". Que frase absurda. Como se isso apagasse alguma coisa. Como se o sofrimento fosse só do corpo, e só dele, e só naqueles segundos. O que fica não é sobre se sofreu ou não. É sobre quem fica, de repente, sem chão.

Hoje, o luto dela encosta-se ao meu. Não se comparam, não se medem. Apenas se reconhecem, em silêncio.

Que possa, um dia, doer menos.

2026-10-05

Viva a República!

Nada como atualizar a novela nacional em pleno feriado cívico, com os devidos contornos de surrealismo que a pátria merece.

Ah, a diplomacia do futebol moderno.

Em pleno 5 de Outubro, enquanto a República comemora a queda da monarquia e os historiadores se esforçam por manter vivos assuntos que ninguém discute à mesa de jantar, o país é chamado a acompanhar mais um episódio da geopolítica da Bola: Piers Morgan versus Jorge Jesus, com Pedro Proença no papel de bombeiro mediador.

É verdadeiramente maravilhoso.

O treinador da Seleção, num momento de pura afirmação de autoridade, dispara um categórico:
«Pedir desculpa de quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém!»

Eis que surge no horizonte, vindo de Inglaterra como uma espécie de D. Sebastião do jornalismo sensacionalista, Piers Morgan, procurador oficial do ego de Cristiano Ronaldo, pronto a garantir que o «Ten Hag português» devia retratar-se.

Uma crise diplomática, portanto. Só falta o Conselho de Segurança da ONU.

E, no entanto, pergunto-me: não era há anos tudo um circo?

Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso.

Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido.

Durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, esta tempestade num copo de água ter-nos-ia parecido perfeitamente normal. Um copo pequenino e, talvez por isso, tão pronto a transbordar.

Enquanto o Brasil discute a sua nova viragem ideológica e Portugal assinala o fim da monarquia, descobrimos que a verdadeira soberania nacional reside em saber se o CR7 volta ou não na próxima convocatória.

Aparentemente, a República pode esperar. O Ronaldo não.

A República que nos perdoe, mas um pedido de desculpas não dado por Jorge Jesus a pedido de Piers Morgan parece ter, neste país, mais peso institucional do que qualquer discurso sobre a implantação da República.

Já tivemos reis, presidentes, primeiros-ministros e, aparentemente, agora temos comentadores ingleses com poderes constitucionais.

Talvez seja esta a nossa evolução política: mudámos o regime, conservámos a corte.

Viva a República!

República


A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.

Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.

Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.

No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.

2026-10-01

Pedagogia da Suspensão

Houve um tempo em que uma lomba era um acontecimento. Tinha localização, tinha motivo e, nos casos mais solenes, tinha uma escola ao lado. Hoje é uma espécie invasora. Não tem predadores naturais, reproduz-se na Primavera, no Verão e nas reuniões de junta, e já ocupa todas as ruas onde passe mais de um carro por dia. Se o segundo carro for o do vizinho, que sai de casa de marcha-atrás, melhor ainda: justifica-se logo uma dupla.

Registo, para que conste, que não sou contra. Conheço o condutor português. Já o vi a trinta à hora no parque do centro comercial, com a gravidade de quem transporta um rim para transplante, e depois a cento e dez numa rua onde há roupa estendida. Deixado ao seu critério, qualquer artéria com mais de cinquenta metros de recta torna-se o circuito do Estoril, com semáforos opcionais e peões como risco calculado. A lomba é o único argumento que ele entende, porque lhe fala directamente ao bolso.

Mas uma coisa é a lomba, outra é a lomba que desfaz carros. Há as que pedem ao condutor que reconsidere, quase com carinho. E há as que o interrogam. Essas arrancam o tubo de escape, desalinham a direcção e ainda levam duas obturações de brinde, a vinte à hora. Ninguém sabe o que as ditou: o rigor técnico ou um desentendimento antigo com o dono do stand.

Daí a pergunta que faço com a ingenuidade de quem ainda acredita em regulamentos: existe norma para a altura? E para o comprimento, o perfil, esse «diâmetro» que numa lomba é conceito poético? Existe, em certo sentido. O regulamento de sinalização define a lomba redutora de velocidade e estabelece a respectiva sinalização, incluindo o xadrez a pintar no asfalto. E há uma nota técnica sobre a instalação, com critérios geométricos, estudos prévios e lugares onde não convém pô-las. Uma nota técnica. Não uma lei, não uma portaria: uma nota. Tem critérios, tem números, tem estudos prévios. Só não tem força de lei. Num país onde pendurar um toldo exige licença, parecer e três fotocópias autenticadas, a obra mais agressiva da via pública fica entregue a critérios técnicos que não têm força vinculativa.

No meu ofício chamaríamos a isto um produto sem prospecto: toda a gente subscreve, ninguém leu as condições e quem paga é o cliente, em prestações, na oficina.

O trânsito, que não é parvo, foge para a rua sem lombas. A rua sem lombas enche-se, os moradores queixam-se, a junta ouve, e nasce mais uma lomba. É o ciclo de vida do coelho, com a diferença de que o coelho, ao menos, não custa seiscentos euros em amortecedores.

Entretanto a minha suspensão e eu seguimos o método de sempre: devagar, sem pressa, a pedir desculpa ao chão.