2026-04-09

Nem o sol nasce


O que ganha Israel?

No curto prazo, poder de fogo convertido em resultados visíveis.

Os objectivos declarados — enfraquecer o Hezbollah e permitir o regresso dos cerca de 60.000 deslocados do norte — tiveram efeitos reais: liderança atingida, infraestruturas degradadas, capacidade operacional reduzida.

Mas isso é a parte fácil.

O objectivo implícito é outro: garantir que o Hezbollah deixa de ser uma ameaça relevante. E isso exige uma de duas coisas — ou um estado libanês forte o suficiente para o conter, ou um território tão destruído que deixe de o sustentar.

Israel está, na prática, a produzir o oposto de ambos.

Não está a fortalecer o estado libanês. Está a acelerar o seu colapso. E a história recente é consistente: quanto mais fraco é o Líbano, mais espaço tem o Hezbollah para se apresentar como alternativa — militar, política e simbólica.

Isto não é um efeito colateral. É o resultado previsível da estratégia.
Há, portanto, um desfasamento claro entre o ganho táctico e o efeito estratégico. Israel consegue degradar capacidades no terreno, mas, ao mesmo tempo, recria as condições que permitem ao Hezbollah regenerar-se.

E fá-lo com um custo crescente.

Os ataques com impacto sobre civis não são apenas um problema moral; são um problema político. Erosão de legitimidade internacional não impede operações imediatas — mas limita o espaço de manobra, isola aliados e transforma vitórias militares em passivos diplomáticos.

Ainda assim, Israel continua.

Porque, no imediato, funciona. Reduz a pressão, cria dissuasão, oferece a sensação de controlo.

Mas essa sensação é temporária.

A resposta honesta é esta: Israel ganha tempo.

E troca-o por um problema que regressa mais complexo, mais enraizado e mais difícil de resolver.

2026-04-06

Cairo


Estou no Egito. Já pus a Esfinge a fumar, andei atrás de vacas, tenho os pés moídos e saudades do meu rendalho. É o que há de novo.

Viajo com amigas vegetarianas — o que, no Egito, equivale a uma declaração de guerra silenciosa contra a ementa. Hoje ao jantar, dei por mim a negociar e com uma paciência diplomática que desconhecia. Senti que, a qualquer momento, alguém ia chamar as Nações Unidas.

O prato padrão das miúdas tem sido batata frita com batata cozida, arroz, três ou quatro grãos de milho e, quando a cozinha se sente particularmente generosa, um cogumelo. Um. Por prato. Com a solenidade de quem está a gerir um recurso escasso à escala global.

Hoje consegui omeletes. Vitória. Não dá para medalha, mas aceito a menção honrosa.

Elas analisam ingredientes. Eu como. Não por princípio — por sobrevivência emocional. E também por gratidão. Alguém tem de honrar o buffet. E começo, claro, pela proteína.

À noite, quando o grupo está saciado e os pés se recusam a continuar, penso no rendalho que ficou em casa. Há qualquer coisa de meditativo no croché que o Egito não consegue substituir — e o Egito tem templos com quatro mil anos. O rendalho ganha. Sempre. É a minha Esfinge particular: quieta, paciente, à espera.

Egipto



Andei atrás de uma vaca o dia inteiro.

Mas são os meus cascos que doem.

Já tinha saudades de ser turista.



2026-04-05

Koshary


O Egipto tem pirâmides, tem o Nilo, tem milénios de civilização acumulada. E tem koshary — massa, lentilhas, grão e molho de tomate, além do picante e da cebola frita, numa única tigela, servido com a confiança tranquila de quem sabe que está a mudar uma vida.

E a minha foi mudada a partir das três da tarde, num sentido que as pirâmides não anteciparam.

Há descobertas que exigem retirada imediata do terreno.

A arqueologia tem limites.

2026-04-03

O Milagre da Multiplicação


Se a Última Ceia fosse em solo luso, o drama bíblico teria sido abafado pelo som dos talheres e pelo inevitável: "Ó Judas, passa aí o prato dos rissóis!".

Nesta Sexta-Feira Santa, a imagem não mente. Entre azulejos e conversas cruzadas, o sacrifício passa a ser puramente digestivo. O mundo medita sobre o jejum — nós resolvemos a transcendência com um leitão assado e três tipos de sobremesa. Porquê dividir apenas pão e vinho quando a mesa pode desafiar as leis da física e da cardiologia?

É a nossa forma de devoção: se é para haver despedida, que seja com o estômago feliz e a alma cheia.

Pecado: deixar a travessa vazia.

2026-04-02

No primeiro de abril, claro


Convenhamos: o manguito é poesia geométrica.

Nascido entre o barro e a sátira das Caldas, aquele ângulo reto, o punho cerrado com a paciência já gasta, é o nosso grito de "basta!" — com pedigree artístico e tudo.

A notícia apareceu ontem, em dia dado a fantasias e outras pequenas aldrabices, mas ninguém estranhou demasiado. Faz sentido: este é o único património que todos dominamos, desde o gabinete à obra, sem precisar de candidatura nem parecer técnico.

Num mundo de burocracias cinzentas, o manguito continua a ser a única cor que ainda não foi regulamentada.

É imaterial, sim senhor, mas sente-se bem no fundo da alma.

Toma lá, mundo.

2026-04-01

Espírito livre com consciência postural avançada


Hoje acordei com a firme convicção de que nasci para ser selvagem. Uma espécie de espírito livre, indomável, desses que dizem “sim” à vida e “não” aos limites. Levantei-me da cama com essa energia toda… e imediatamente fiz um movimento em falso que me ofereceu um elegante torcicolo, acompanhado por um coro de dores de costas dignas de um idoso em dia de chuva.

Ser selvagem, afinal, tem nuances.

Passei o resto da manhã a tentar olhar para a frente sem parecer uma estátua renascentista mal posicionada. Cada tentativa de virar o pescoço era uma aventura épica, daquelas que mereciam trilha sonora dramática. Spoiler: perdi sempre. O meu corpo decidiu que hoje só podia existir num ângulo de 37 graus para a esquerda, e qualquer desvio disso seria punido com um estalo existencial.

As dores de costas, por sua vez, vieram como convidadas que ninguém chamou mas que se instalam no sofá e pedem chá. Estão ali, constantes, firmes, lembrando-me que ontem tive a audácia de… viver. Ou talvez de me sentar de forma ligeiramente errada. Quem sabe. O corpo humano é um poeta do exagero.

E assim se redefine o conceito de “vida selvagem”. Já não é sobre dançar até de madrugada ou dizer coisas impulsivas — é mais sobre conseguir calçar meias sem negociar com a coluna vertebral. É sobre sobreviver ao ato radical de virar na cama. É sobre olhar para o relógio às 21:30 e pensar: “foi um dia intenso, já fiz tudo o que havia para fazer na minha carreira de pessoa.”

No fundo, continuo a ser selvagem. Só que agora o meu habitat natural inclui uma almofada cervical, um analgésico e um profundo respeito por movimentos lentos.

A rebeldia mantém-se. Mas com apoio lombar.

2026-03-31

A validação das profecias

“There is a certain reverence in death that is required if you want reverence in life.”
— Tucker Carlson

Ouvi Tucker Carlson a falar do assassinato do Ayatolah — com a família, com o neto. A dizer que iniciar uma guerra matando gente desarmada foi o pior que podiam ter feito. Que não deceparam a cabeça: criaram uma Hidra. Não consegui discordar.

Há frases que nos fazem parar — não porque tragam novidade, mas porque expõem aquilo que preferíamos não ver. Tanto que não (me) importa o autor.

A ideia de que a reverência na morte sustenta a reverência na vida é desconfortável: obriga-nos a olhar para a forma como o Ocidente fala — e age — perante a guerra. Há muito que a linguagem se tornou assética, quase técnica, como se a morte pudesse ser reduzida a um procedimento, a um resultado operacional, a um número que fecha um relatório.

Mas quando a morte perde densidade, tudo o resto começa a perder também. Primeiro, a vida dos outros. Depois, inevitavelmente, a nossa própria posição moral. O que desaparece não é apenas o peso do ato — é o reconhecimento de que há limites que não podem ser tratados como detalhe colateral.

E é aqui que a ilusão se quebra. Porque a forma como tratamos os mortos nunca fica contida no momento em que acontece. Espalha-se. Ecoa. Regressa. Ignorar o luto, os rituais, aquilo que para o outro é sagrado, não é apenas um gesto de indiferença — é uma declaração: a de que nada merece verdadeiramente ser preservado.

E quando nada merece ser preservado, também nada merece ser respeitado.

É por isso que a força, por si só, nunca bastou. Pode impor silêncio, pode garantir obediência, pode até vencer — mas não constrói autoridade. Essa exige outra coisa: uma consciência de limite, uma noção de que há linhas que, uma vez ultrapassadas, não deixam intacto quem as cruzou.

Talvez seja esse o ponto que mais incomoda. Não o que se faz ao outro, mas o que isso transforma em quem o faz. Porque há uma erosão lenta, quase invisível, que não aparece nas estatísticas nem nos discursos — mas que corrói por dentro qualquer pretensão de legitimidade.

E até os guerreiros se transformam em operários da morte.

2026-03-29

A minha linha


Democratizar a tecnologia deu um telemóvel a cada mão. O discernimento não estava incluído.

Há coisas que não deviam ser para consumo massificado. A morte é uma delas. Não precisamos de ir à dark web para encontrar snuff movies; o feed das redes sociais tornou-se um mercado aberto para eles. A diferença é que os criadores não são cineastas criminosos, são qualquer pessoa com um telemóvel. E os consumidores somos nós.

Em Gaza, corpos. No Irão, meninas. Ontem os desgraçados dos porcos nas notícias. Entre uns e outros, um reel de trinta segundos que não pedimos mas não parámos. 

Onde traçamos a linha? Até onde estamos dispostos a ir num mundo que desumaniza com facilidade e transforma tudo em fait divers — pronto a ser consumido e esquecido à distância de um clique?

Fechar o ecrã também é um acto. O único que ainda nos pertence.