2026-10-20

O espírito dos tempos

Há qualquer coisa de reconfortante em saber que, mesmo quando a civilização arde, há quem preserve os pequenos prazeres da vida.

Uma esplanada. Três cafés. Um Pai Natal de óculos escuros, a fumar o que resta da inocência ocidental. Uma senhora de negro, com chapéu de bruxa e ar de quem já viu demasiadas temporadas disto para se deixar impressionar pelo enredo.

Ao fundo, a polícia, o fogo, o fumo e aquela coreografia urbana que os comunicados oficiais insistem em classificar como «incidentes», como se a realidade fosse uma reunião de condomínio que correu um pouco pior do que o previsto.

Mas a mesa está posta. É o que conta. As restantes, vazias, alinham-se até ao fogo. Ninguém reservou.

A senhora bebe o seu tinto com a serenidade de quem percebeu que o Apocalipse não dispensa uma pausa. O Pai Natal talvez esteja apenas a fazer contas à distribuição dos presentes. Ou a perguntar-se se ainda vale a pena descer pela chaminé de uma sociedade que pega fogo à primeira contrariedade.

Gosto da ausência de pânico. Não há correria, nem mãos na cabeça, nem ninguém a gritar que o mundo está a acabar. Dois pares de óculos escuros dispensam o resto. Pode estar, de facto. Mas não sejamos precipitados: ainda não acabámos o café.

Talvez a maturidade seja isto. Não confundir o colapso das instituições com a obrigação de estragar a tarde. Não deixar que a estupidez alheia nos roube o direito adquirido a uma cadeira confortável. E não abdicar do espectáculo quando já pouco nos resta fazer para alterar o argumento.

A bruxa sabe. O Pai Natal desconfia. A polícia trabalha. E a História, essa velha inconveniente, continua a arder ao fundo, à espera de que alguém lhe chame pelo nome certo.

Entretanto, tragam a conta.

O fim do mundo não dispensa o IVA. E, se possível, com factura e número de contribuinte.

2026-10-15

Aquela máquina!

Há dias em que me sinto o maquinista.

Não o pessimista, que vê um túnel escuro e se prepara para o pior. Nem o otimista, que vislumbra uma luz ao fundo e acredita que a vida ainda pode surpreendê-lo pela positiva. Muito menos o realista, que identifica um comboio de mercadorias e se limita a reconhecer a evidência.

Não. Eu sou o maquinista.

Aquele que vê três idiotas parados nos carris e percebe, com uma clareza quase ofensiva, que vai sobrar para ele.

Porque os três não estão perdidos. Não desconhecem o perigo. Não precisam de um mapa, de um seminário motivacional ou de uma sessão de esclarecimento sobre segurança ferroviária. Estão simplesmente ali, plantados na linha, convencidos de que o comboio é que tem de aprender a negociar.

E depois há todo um circo à volta: os que discutem se a locomotiva devia ter apitado mais cedo, os que defendem o direito inalienável de cada cidadão a ocupar os carris, os que propõem uma comissão para estudar o fenómeno e os que, perante a inevitabilidade do embate, perguntam se não haverá maneira de transformar o acidente numa oportunidade de crescimento.

Entretanto, o maquinista tem uma pequena questão prática para resolver: há três imbecis à sua frente e o comboio não tem asas.

É esta a parte que me cansa. Não é o túnel, nem a escuridão, nem sequer a perspectiva do desastre. É a recorrente obrigação de calcular travagens de emergência por causa de quem confunde liberdade com ausência de consequências e opinião com competência.

Uma pessoa passa a vida a tentar conduzir o comboio com alguma dignidade, a cumprir horários, a evitar descarrilamentos e a não atropelar ninguém pelo caminho. Depois descobre que há quem faça carreira a deitar-se nos carris e ainda reclame indemnização pelo incómodo de ter sido avisado.

E, no fim, se o comboio parar, a culpa é da falta de dinamismo. Se avançar, é da insensibilidade do maquinista. Se descarrilar, abre-se um inquérito. Se conseguir evitar a tragédia, ninguém agradece: afinal, não fez mais do que a sua obrigação.

Pois.

Às vezes, apetece-me largar os comandos, abrir a porta da locomotiva e perguntar aos três iluminados se querem experimentar conduzir. Mas sei como acabaria: ficariam os três a discutir quem tem prioridade, enquanto eu, por qualquer misteriosa lei da responsabilidade, seria chamada a garantir que o comboio não se atrasava.

O meu problema nunca foi não ver a luz ao fundo do túnel. É ver que a luz é um comboio, que há gente nos carris e que, mesmo assim, esperam que seja eu a resolver o problema.

Ser maquinista é isto: ter a responsabilidade de conduzir, a obrigação de prever o imprevisível e a certeza de que, quando tudo correr mal, haverá sempre alguém na plataforma a explicar o que eu devia ter feito.

Um dia destes, passo-me para o transporte fluvial.

Embora, pensando melhor, ainda me aparece um iluminado a discutir o direito de navegar em sentido contrário.

2026-10-10

Hitler Mussolini, político de esquerda

Hitler Mussolini Simeon Flores. Político de esquerda, eleito no Peru.

Não sei o que me fascina mais: a criatividade do registo civil, a ironia ideológica ou a circunstância de a realidade continuar a humilhar a ficção sem sequer se dar ao trabalho de elaborar o argumento.

Depois admiram-se de a democracia andar tão cansada.

2026-10-08

O chão que fica

Hoje morreu o pai da minha amiga.

Foi um ataque cardíaco fulminante. É assim que se diz, não é? Fulminante. Uma palavra que parece um raio a rasgar o céu limpo. Num instante estava, no instante seguinte já não está.

E eu não consigo parar de pensar no meu pai. No final de julho. Um mês inteiro entre a notícia e o fim. Um mês para processar o que nunca se processa de facto. Andámos aquele mês a acreditar e a não acreditar ao mesmo tempo. A fazer planos pequenos como quem assobia no escuro. Sabíamos, sem nunca saber realmente que o fim estava ali, ao virar da porta.

São duas formas opostas de perder alguém. E nenhuma é mais leve.

Quando soube que o meu pai sabia que estava a morrer, doeu-me por ele. Doeu-me esse peso lúcido. Hoje penso na minha amiga, e penso que o peso dela deve ser outro, talvez ainda mais desamparado: o de não ter havido tempo para o adeus. Para a última frase. Para a mão dada. O baque imenso de uma ausência que não pediu licença.

Disseram-me - e hão-de dizer-lhe a ela também - "não sofreu". Que frase absurda. Como se isso apagasse alguma coisa. Como se o sofrimento fosse só do corpo, e só dele, e só naqueles segundos. O que fica não é sobre se sofreu ou não. É sobre quem fica, de repente, sem chão.

Hoje, o luto dela encosta-se ao meu. Não se comparam, não se medem. Apenas se reconhecem, em silêncio.

Que possa, um dia, doer menos.

2026-10-05

Viva a República!

Nada como atualizar a novela nacional em pleno feriado cívico, com os devidos contornos de surrealismo que a pátria merece.

Ah, a diplomacia do futebol moderno.

Em pleno 5 de Outubro, enquanto a República comemora a queda da monarquia e os historiadores se esforçam por manter vivos assuntos que ninguém discute à mesa de jantar, o país é chamado a acompanhar mais um episódio da geopolítica da Bola: Piers Morgan versus Jorge Jesus, com Pedro Proença no papel de bombeiro mediador.

É verdadeiramente maravilhoso.

O treinador da Seleção, num momento de pura afirmação de autoridade, dispara um categórico:
«Pedir desculpa de quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém!»

Eis que surge no horizonte, vindo de Inglaterra como uma espécie de D. Sebastião do jornalismo sensacionalista, Piers Morgan, procurador oficial do ego de Cristiano Ronaldo, pronto a garantir que o «Ten Hag português» devia retratar-se.

Uma crise diplomática, portanto. Só falta o Conselho de Segurança da ONU.

E, no entanto, pergunto-me: não era há anos tudo um circo?

Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso.

Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido.

Durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, esta tempestade num copo de água ter-nos-ia parecido perfeitamente normal. Um copo pequenino e, talvez por isso, tão pronto a transbordar.

Enquanto o Brasil discute a sua nova viragem ideológica e Portugal assinala o fim da monarquia, descobrimos que a verdadeira soberania nacional reside em saber se o CR7 volta ou não na próxima convocatória.

Aparentemente, a República pode esperar. O Ronaldo não.

A República que nos perdoe, mas um pedido de desculpas não dado por Jorge Jesus a pedido de Piers Morgan parece ter, neste país, mais peso institucional do que qualquer discurso sobre a implantação da República.

Já tivemos reis, presidentes, primeiros-ministros e, aparentemente, agora temos comentadores ingleses com poderes constitucionais.

Talvez seja esta a nossa evolução política: mudámos o regime, conservámos a corte.

Viva a República!

República


A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.

Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.

Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.

No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.

2026-10-01

Pedagogia da Suspensão

Houve um tempo em que uma lomba era um acontecimento. Tinha localização, tinha motivo e, nos casos mais solenes, tinha uma escola ao lado. Hoje é uma espécie invasora. Não tem predadores naturais, reproduz-se na Primavera, no Verão e nas reuniões de junta, e já ocupa todas as ruas onde passe mais de um carro por dia. Se o segundo carro for o do vizinho, que sai de casa de marcha-atrás, melhor ainda: justifica-se logo uma dupla.

Registo, para que conste, que não sou contra. Conheço o condutor português. Já o vi a trinta à hora no parque do centro comercial, com a gravidade de quem transporta um rim para transplante, e depois a cento e dez numa rua onde há roupa estendida. Deixado ao seu critério, qualquer artéria com mais de cinquenta metros de recta torna-se o circuito do Estoril, com semáforos opcionais e peões como risco calculado. A lomba é o único argumento que ele entende, porque lhe fala directamente ao bolso.

Mas uma coisa é a lomba, outra é a lomba que desfaz carros. Há as que pedem ao condutor que reconsidere, quase com carinho. E há as que o interrogam. Essas arrancam o tubo de escape, desalinham a direcção e ainda levam duas obturações de brinde, a vinte à hora. Ninguém sabe o que as ditou: o rigor técnico ou um desentendimento antigo com o dono do stand.

Daí a pergunta que faço com a ingenuidade de quem ainda acredita em regulamentos: existe norma para a altura? E para o comprimento, o perfil, esse «diâmetro» que numa lomba é conceito poético? Existe, em certo sentido. O regulamento de sinalização define a lomba redutora de velocidade e estabelece a respectiva sinalização, incluindo o xadrez a pintar no asfalto. E há uma nota técnica sobre a instalação, com critérios geométricos, estudos prévios e lugares onde não convém pô-las. Uma nota técnica. Não uma lei, não uma portaria: uma nota. Tem critérios, tem números, tem estudos prévios. Só não tem força de lei. Num país onde pendurar um toldo exige licença, parecer e três fotocópias autenticadas, a obra mais agressiva da via pública fica entregue a critérios técnicos que não têm força vinculativa.

No meu ofício chamaríamos a isto um produto sem prospecto: toda a gente subscreve, ninguém leu as condições e quem paga é o cliente, em prestações, na oficina.

O trânsito, que não é parvo, foge para a rua sem lombas. A rua sem lombas enche-se, os moradores queixam-se, a junta ouve, e nasce mais uma lomba. É o ciclo de vida do coelho, com a diferença de que o coelho, ao menos, não custa seiscentos euros em amortecedores.

Entretanto a minha suspensão e eu seguimos o método de sempre: devagar, sem pressa, a pedir desculpa ao chão.

2026-09-29

Prazo de validade

Vinte e quatro horas. É quanto dura, por contrato tácito, uma vida inteira num ecrã. Passado o prazo, o conteúdo caduca como o iogurte, e ninguém se lembra de o ter comido.

Chamam-lhe efémero e vendem-no como leveza. Eu chamo-lhe amortização acelerada: o momento nasce já depreciado, lançado a custos de imagem, e o retorno mede-se em corações. Ninguém pergunta pelo capital. 

Faço o inventário, que é o que sei fazer: o pôr-do-sol que ninguém viu, porque estavam todos a filmá-lo; o jantar que arrefeceu à espera da fotografia; o concerto visto a três centímetros do telemóvel alheio; a dor, com filtro. 

O culto tem liturgia e tem clero. A liturgia é a hora óptima de publicação. O clero são os que já perceberam que a autenticidade é um género, com regras de estilo, e que a espontaneidade se ensaia. Há quem chore em directo com uma iluminação impecável. Não duvido da lágrima. Duvido do ângulo.

Deixou de ter opiniões e passou a ter posicionamento. Deixou de estar triste e passou a partilhar. Deixou de viver e passou a cobrir o evento, sendo o evento ele mesmo. Horas extraordinárias que ninguém lhe paga. 

O mais curioso é que o efémero, hoje, é precisamente o que fica registado. O que se apaga em vinte e quatro horas está guardado num servidor algures, com data, hora e localização. Os antigos temiam a posteridade; nós contratámos um arquivo sem os incómodos da memória. 

Ontem, à mesa, ninguém falou. Estavam todos ocupados a documentar o jantar. 

Nas fotografias, parecíamos felizes.

2026-09-22

A esperança veio tarde


Quando chegou, já eu tinha aprendido a viver sem ela. Trouxe uma pasta, dois formulários e a promessa, sempre a mesma, de que tudo se resolveria dentro do prazo previsto. Sentei-me no meu lugar na fila.

A sala tinha cadeiras de plástico presas ao chão, um número luminoso que não avançava e um cartaz a explicar direitos que ninguém ali parecia ter, afixado com o mesmo cuidado com que se ignora. Um homem repetia ao telefone que “ligava só para confirmar”, pela terceira vez em vinte minutos — a instituição mais eficiente da sala. Uma criança contava os azulejos do teto. Eu contava os formulários, como se recontá-los os tornasse mais eficazes.

Ao meu lado, uma gata dormia com a serenidade de quem não precisa de justificar a própria existência. Ninguém sabia de quem era, nem parecia importar a ninguém que estivesse ali, entre pastas e senhas, como mais um número sem luz. Pensei que talvez fosse essa a diferença entre nós: ela descansava porque estava cansada; eu descansava apenas quando já não conseguia continuar.

O número no ecrã avançou duas vezes e recuou uma. Ninguém se espantou.

No fim, nada se resolveu. Disseram-me para voltar dentro de trinta dias, com os mesmos formulários, talvez com um terceiro — a burocracia, generosa, sempre disposta a dar-nos mais uma oportunidade de falhar. Mas a gata abriu um olho, avaliou o desastre e voltou a dormir.

Foi a forma mais honesta de esperança que encontrei nesse dia.