2008-10-31

Como?


aqui


«Um dos mais fervorosos adeptos da extrema-direita em Portugal foi detido por auxílio à imigração ilegal e lenocínio, uma vez que possuía quatro bordéis, onde trabalhavam cerca de 30 prostitutas.»




Com esta mania de importarem as taras, já nem me espanta que o nazizeco afinal seja chulo de imigrantes. Talvez ainda se descubra que virou viúva chorosa, se o outro, no entretanto, bater a caçoleta na prisão.

Para a I


aqui


Bolo de chocolate que faz pouca loiça suja e demora ainda menos tempo a fazer do que descer à confeitaria:

1 chávena de açúcar
1 chávena de chocolate em pó (daquele do leite, serve)
2 chávenas de farinha (com fermento, obviamente)
1 chávena de óleo
1 chávena de leite
2 ovos inteiros

Atira tudo para dentro do mesmo recipiente e bate tudo junto. Mete ao forno que, no entretanto, ligaste (aponta para os 200ºC), em forma untada e enfarinhada.

Espera 20 minutos, mais coisa menos coisa.

2008-10-30

2008-10-29

Parabéns, PreDatado!


5 Anos!

Oh lata!

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«O presidente da Associação Nacional das Pequenas e Médias Empresas (ANPMES) afirmou esta quarta-feira que se o primeiro-ministro "insistir" no aumento do salário mínimo, a associação determinará junto dos seus associados a não renovação dos contratos a termo.»

in, Correio da Manhã


Lembram-se daquele empresário italiano que, durante 3 meses, tentou viver com o ordenado médio que pagava aos seus funcionários (cerca de € 1 000 e outro tanto para a mulher)?

E se propuséssemos ao presidente da ANPMES para fazer uma experiência semelhante e viver durante 3 meses com € 450 (ou o dobro, caso seja casado)?

E que tal se, quando o excelentíssimo senhor dissesse que não podia ou conseguia, o mandássemos ir apanhar no cu?

2008-10-28

Coisas que me irritam


aqui

Sou uma gaja independente. Há anos que tomo conta de mim e não peço licença para ter, pôr, dispor ou fazer. Mas, depois, preciso sempre baixar a crista e admitir que ter um gajo por perto pode dar jeito em variadíssimas situações. A saber:


  • quando tenho um furo e, depois de esforçadamente levantar o carro com o macaco e tirar o tampão da roda, me sinto uma incompetente por não ter força para rodar as putas das porcas

  • quando não como pickles porque não consigo abrir o frasco

  • quando tenho de ir para o carro sozinha num parque de estacionamento mal iluminado

  • quando é preciso tirar as cortinas para irem lavar

  • quando o carro precisa de limpeza geral

  • quando é preciso ir à farmácia de serviço às 4 da manhã

  • quando é preciso meter o IRS

  • quando Testemunhas de Jeová tocam à porta

  • quando tenho de carregar as compras do mês até ao 7º andar

  • quando preciso de ir à rua depois de já estar em pantufas

  • quando é preciso ir pôr o lixo (sugestão da Noite)

  • (coisas semelhantes)


e muito especialmente quando muda a hora e nunca sei como alterar o cabrão do relógio do carro.

2008-10-27

hmm...


aqui


Eu a pensar que o lápis azul era avermelhado e, vai-se a ver, saiu mais para o cor-de-rosa.


(à parte a brincadeira, se alguém algum dia provar que existe violação de sigilo profissional, não importa em que ponto da hierarquia, acho bem que sejam tomadas as medidas necessárias; e quem não quer assuntos privados em e-mails profissionais, não usa o tempo nem a banda larga do empregador para essas gracinhas)

Chuva


aqui


Tenho neste tempo de transição entre um Inverno que se aproxima e um Verão que não vai embora uma tendência recorrente para a melancolia.

Enquanto os dias se tornam mais breves, a minha alegria estival esvai-se à velocidade dos pingos gelados das primeiras chuvas.

A minha cidade fica triste também, cada vez mais cinzenta nos seus cinzentos, as neblinas transformam-se em nevoeiro, o cheiro das castanhas envolve-nos e os guarda-chuvas tropeçam-se.

Vejo o rio e está cinzento também, pesado, triste, cheio de águas novas e lamacentas e corre furioso a atirar-se nos braços do mar revolto, espumoso e atrevido.

Não há muitos sorrisos por entre os ruídos das gentes que passam. Só pressa em chegar a qualquer destino, afã de fuga para os interiores aquecidos de uma cidade que gela lentamente, vestindo-se das humidades e dos frios outonais.

Sinto-me a encolher com os dias, a encolher para o quente aconchego de uma manta sempre a postos, um casaco de lã tão velho que já não lhe sei os anos, as pantufas quentinhas que trouxe da Estrela.

Encolho-me no sofá, a TV pronta a suspirar sozinha num último ai com hora pré-programada. Encolho-me no sofá como encolhem os dias. Enovelo-me no calor da minha casa e durmo as sestas do frio.

Cheira já a Inverno. Os dias encolhem. Eu encolho com os dias e acerto o passo com esta melancolia que me percorre.

2008-10-26

Bill Maher



Perguntas parvas de uma manhã de Domingo


aqui



Se as mulheres têm direito a um "monte de Vénus", porque é que os gajos não têm direito a qualquer coisa mais poética, tipo uma "erupção de Apolo"?

Hooverville (*)


Herbert Hoover


Hoover perdeu as eleições para Roosevelt e ficou para a história como um dos piores Presidentes Americanos (Bush já lhe está a fazer companhia), depois de se provar incapaz de dar uma resposta à crise que rebentou em 1929. O seu pior crime? Achar que o Estado não devia intervir para regular a economia. A resposta de Roosevelt, que lhe sucedeu, chamava-se New Deal e, simplificando bem as coisas para até o maior idiota de direita perceber, apostava no Estado como alavanca da economia, quer pela regulação que impunha, quer pelos projectos de obras públicas com que respondia ao desemprego galopante.


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(*) Nome pelo qual ficaram conhecidos os bairros de lata que se multiplicavam ao tempo da Grande Depressão

2008-10-24

Engonhices


(recebida por mail)


Quem me conhece sabe bem que não minto quando afirmo que não sou propriamente um mono. Num grupo de gajedo, não serei por certo a mais vistosa, nem a mais enfeitada, muito menos a mais activa a mandar sinais de galanço a tudo o que mexa do sexo oposto, mas mono não sou (e como até já deixei o trombil na Voz para quem o souber encontrar, estou perfeitamente à vontade para o afirmar, em lugar de apenas querer parecer uma coisa semelhante, como é habitual pela net).

Sei também que, se me mantiver quietinha e caladinha, posso passar um belo ar seráfico e que, estivessem os caracóis pintados de loiro em vez de ruivo (e não abrisse a boca), podia perfeitamente candidatar-me a modelo de arte sacra, na versão santinha da renascença.

Mas obviamente que o facto de eu abrir a boca, ter sotaque do Porto, dizer umas caralhadas e ter muito pouca paciência para engonhas e conices semelhantes, acabam rapidamente com quaisquer resquícios de santidade. Mas isso já é da personalidade e, essa, veio retorcida de nascença.

Depois, tenho assim uma meia dúzia de valores e uma meia dúzia de princípios e, para embrulhar ainda mais a coisa, um sentido de humor a bater ao lado do conveniente. Além de que tenho a mania que mando e a mania que sei e a mania da independência e a mania de ser (em vez de parecer, claro). Acrescentando o estrugido, está visto que o caldo fica facilmente entornado.

Ora, isto da personalidade pode compor ou descompor o boneco e eu que, como disse no início, sei bem que não sou um mono, tenho destas manias muito particulares quando o aspecto é tido como preponderante, especialmente quando isto vem de gajas lustrosas de tanto creme ou gajos de cabelo à escovinha para disfarçar a careca. E deve ser por isso que hoje mandei dois foder – um de cada espécie – só porque resolveram comentar a despropósito as minhas pernas no dia em que saí à rua de minissaia para mostrar as botas novas.

Lá se foi o ar seráfico!

E as botas são muito giras!

2008-10-23

Como?

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«Stefan Petzner, que foi ontem empossado como o novo líder da Aliança para o Futuro da Áustria (BZOe), depois da morte de Joerg Haider, confirmou à rádio austríaca ORF que mantinha com o falecido líder uma relação que ia "muito para além da amizade" e que ambos estavam ligados "por algo muito especial", confirmando os rumores há muito ventilados de que os dois homens poderiam ser amantes.»

in, Público


O nazizão era gay? E o nazizinho também? Será que se esquecerem de ler a parte da doutrina sobre o "comportamento degenerado"?

2008-10-22

Breve nota


aqui

Recuso-me a enumerar os meus ódios de estimação blogosféricos. Mais ainda, recuso-me a fazer um link para cada um desses sítios, aqueles onde só vou quando me engano e tropeço numa qualquer referência num blogue amigo. São sítios de onde saio de corrida e mal disposta e que não estão sequer em qualquer das minhas listas de leituras. E, por isso, a corrente dos alvos encalha aqui.

Quanto aos dardos, fui atrás dos vários links para descobrir de que se tratava no original. E parece-me que a versão resumida da Cat é bem menos pomposa (e a essa podia até responder). Só que eu não leio ninguém, muito menos comento, por esse alguém querer "acrescentar valor à Web". Eu leio e gosto de ler quem escreve essencialmente por carolice. Quem fica acrescentada sou eu, por ter o prazer de ler essas pessoas e elas sabem bem quem são. E é também por isso que a corrente dos dardos encalha aqui.

Mas agradeço à
Catarina o prémio e, muito especialmente, as palavras que me dedica. Soube muito bem, à conta desta corrente, receber tamanho mimo.



Adenda:

Aproveito para agradecer à Maria Árvore, à Emiele, à Deep e à Rosarinho terem-me também "dardeado". Mas os motivos para encalhar a corrente permanecem os mesmos.

Novo livro do Gaivina


(clicar para ver melhor)


Está a chegar o Natal e não sabem o que dar aos miúdos? E que tal oferecerem o novo livro do Miguel Horta (que dá também pelo nick Gaivina aqui na Voz em Fuga)?



Podem ver aqui como encomendar.

2008-10-21

Distopia

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«As pessoas do nosso atemorável mundo novo, bem aconchegadas nos seus blocos de apartamentos neo-georgianos, olharão com temor reverencial para o século que agora acabou (…) sem a menor tentação de emularem a ousadia daqueles que aboliram todas as regras e tentaram principiar do zero. Ao contrário, enterrar-se-ão ainda mais fundo nas suas poltronas neo-Luís-Qualquer-Coisa, fazendo rodopiar ociosamente a informação pela Internet, matando o tempo como as matronas vitorianas com o seu croché, o tricô, a espiguilha, a renda e os bordados, satisfeitos por viverem naquilo que ficará conhecido como o Século Sonolento ou a Ressaca do Século XX.»

Tom Wolfe, Hooking Up – Um Mundo Americano



Ora cá vamos nós! O que espero do futuro? Quase nada. Acho que o futuro terá um tom tipo "Stange Days", que até se passava na viragem do século passado para este (de que já se esgotou quase uma década) e, como se provou, não foi data que fizesse acabar o Mundo, nem os vírus informáticos fizeram parar a bolsa, nem os elevadores ou os nossos computadores pessoais, nem caíram aviões, nem nada de extraordinário aconteceu. Bateu a meia-noite e foram para casa. Bem, quase que foram para casa, que ainda tiveram tempo para o beijinho, remendar os arranhões e prestar declarações à polícia.

Suponho que espero um pouco mais do mesmo, num século que me parece ter nascido cansado dos exageros do século XX e em tom estafado tentará seguir em frente. Para já, prevejo que seja um século chato, em tom de retrocesso. Desde que Nietzche decretou que Deus estava morto, mais nenhuma verdade insofismável fez sentido. E agora todas as outras verdades tornam-se também questionáveis, desde as doutrinas políticas e económicas moribundas ou já enterradas, passando pelos grandes paradigmas que agora se questionam também, com a própria lógica da evolução darwiniana e as suas subdoutrinas em confronto com retrocessos medrosos em relação a releituras de uma suposta palavra divina que afinal também já não existe, ou não faz sentido que exista, tirando para quem quer continuar a controlar o mundo, controlando as pessoas e os seus valores. E a esperança vai-se com o dízimo para o pastor e prega-se o sermão como se se vendessem livros porta a porta.

Depois também não espero milagres contra os grandes males. Já não. O tempo em que tinha um cartaz pendurado na parede do quarto adolescente com a imagem do cogumelo atómico e a frase "will they ever learn?" ou o tempo em que achava que a Humanidade era capaz de deixar de se auto-destruir, passou com as probabilidades cada vez mais óbvias de um dia destes ter o mar debaixo da janela e só porque estou no 7º andar. Ou o tempo em que até acreditava que, se todos quiséssemos, se todos fizéssemos um esforço, então na Europa deixaria de se destruir comida e em África mais ninguém passaria forme. Ou que as focas bebés deixariam de ser mortas à paulada. Ou que as baleias iam ser salvas.

Não, o meu futuro está tingido de sem-esperança, tirando aquela mais evidente que me lembra diariamente que o Homem se habitua a tudo; ou que até o retrocesso para padrões que seriam bastardos de qualquer resquício de civilidade nem é sequer questionável, está já ai e, pior, já nos estamos a habituar a ele.

No séc. XXI – ou pelo menos nas décadas deste século em que terei possibilidades de viver - o Futuro já não será algo de excitante e o Progresso já não estará garantido. Já ninguém tentará correr rapidamente em direcção ao Mundo de Amanhã, porque o dia seguinte, se não for apenas mais do mesmo, estará antes vestido de medo e de frustração. E as guerras aparentemente enormes do passado serão travestidas cada vez mais de guerrilhas indistintas, criminosas e sujas, como se o cogumelo atómico só tivesse dado lugar às bombas sujas fabricadas com o refugo do século que acabou. E um dia destes, quando já estivermos todos bem enfiados na web, sempre em rede e cada vez mais sozinhos, talvez já seja obrigatório ter implantado o chip que permita a um qualquer Grande Ditador que prometeu a Salvação Eterna controlar as mentes e as vontades.

E ainda poderão vir as neurociências decretar o fim da fé do Homem, roubando-o por fim da alma ao substitui-la por uma qualquer versão de computador com pouco espaço disponível no disco e os programas desactualizados. Bless the mink for they will inherit the world passará a ser chavão. E suponho que em inglês, para que os "mink" sejam também "lazy" e, além do mais, possam acreditar que não têm culpa nenhuma. Não seremos mais como uma folha em branco à nascença. Nada disso! Dentro de nós tudo será mensurável por quem nos escarafuncha a mente e esmiúça os genes. E se está nos genes não temos culpa. E se não tivermos culpa, também não teremos a responsabilidade de fazer diferente. E ficaremos quietinhos, rebanhos a pastar atrás de um qualquer ecrã, com um chip bem implantado por baixo do couro cabeludo, à espera que alguém nos diga o que fazer e não fazer, o que é proibido ou permitido, o que é aceitável e o que não é, o que comer e onde comer, onde e quando foder, desde que um foder asséptico e que não seja subversivo, nem dê demasiado prazer, nem permita que as DST transtornem o orçamento dos serviços nacionais de saúde, se ainda continuar a haver disso.

Tom Wolfe disse um dia que este seria um Século Sonolento de ressaca do século XX. Lamento não concordar. Este parece prometer ser um século caótico, de medos e de retrocessos. E as pessoas não andarão sonolentas; andarão apenas comatosas. Só que até os rebanhos um dia se assustam e desatam a correr todos na mesma direcção alucinada. E, no rescaldo da passagem, não sobra normalmente mais do que destruição e pó revolvido.

E o meu futuro será também um pouco disso tudo, tirando que sou bem capaz de acabar viciada em "trips" de filmes feitos com a vida dos outros e enfiadas por uma qualquer engenhoca electrónica directamente no meu córtex cerebral. E talvez vire cada novo ano desse futuro a dar um beijinho, remendar as feridas e a prestar declarações à ASAE. Habituada ao dia à dia, sem esperança para além do minuto seguinte, sonhando ainda com os tempos que já passaram há muito em que acreditava que a minha geração ia mudar o Mundo e seria capaz da prometaica empresa de o fazer melhor. E o dia seguirá, mesmo que o mar me venha lamber a janela. E talvez compre um barquinho e vá passear para longe, se ainda houver um pôr-do-sol decente do outro lado de uma gigantesca nuvem de poluição ou se o buraco do ozono não nos tiver já roubado até esse pequeno prazer. E o rebanho irá comigo, ou eu com ele. Ou então apenas veremos todos essas cenas idílicas on-line ou mesmo "uploadadas" para dentro da nossa cabeça.





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Quando a Maria Árvore me pediu para escrever este texto, não encontrei o livro onde estava a citação e optei por outra. Hoje dei com ela, obviamente à procura de algo que não tinha nada a ver. Mas aproveito para republicar o texto com a citação que, desde sempre, me apeteceu deixar-lhe e à qual me refiro no corpo do texto.

E talvez porque um lençol depois do lençol abaixo fosse mesmo o que este blogue estava a precisar para afugentar um qualquer leitor tresmalhado da Catarina. Nunca vão acreditar que estavas certa ao meter-me na listinha dos dardos, lol! (obrigado, Cat!)

2008-10-20

Numb




Este post está atrasado uns dias. Era para ter sido publicado a 17, a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Mas não tive tempo o que, às tantas, é sintomático do que quero dizer: vamos ficando sem tempo para as causas, enquanto olhamos mais para o nosso umbigo, o nosso bem-estar. Não posso falar por todos, mas eu fui perdendo com os anos a capacidade para a utopia. E isso dói-me e agride-me. Faz-me mal esta desesperança. Mas a realidade não se compadece dos sonhos em muitos dias.

Todos temos dificuldades em lidar com grandes números, não é? O nosso cérebro parece estar mais preparado para a dor particularizada, ou algo assim. Eu não consigo imaginar quantos são "milhões de mortos". Mas, se falar de cento e poucos, consigo imaginá-los em filinha e, às tantas, até inventar uma cara para cada um.

Corpos sem rosto são demasiado anónimos. Demasiado mesmo. São números, claro. E calamidades também. Mas um rosto dá sempre origem a uma identificação. Uma identificação entre o nós e o outro, tanta vez já só cadáver, ou já só fotografia.

É óbvio que haver uma câmara apontada pode dar ainda mais força a qualquer maluco, como o terrorismo organizado já sobejamente nos provou. Mas a falta dessa câmara faz muitas vezes com que as coisas aconteçam à mesma, só que sem ninguém saber. Por outro lado, a profusão de tragédias nos noticiários fazem já com que apenas mudemos de canal: depois de um dia de cão, só queremos lamber as próprias feridas. E haja ou não câmara, as tragédias passam a ser esquecidas, até que aparece uma qualquer que, pela sua enormidade, nos faz questionar a nossa indiferença. Depois, passamos à frente e seguimos entorpecidos. Até à próxima. Tudo o que de permeio pensamos em fazer ou dizer, fica mais uma vez de lado quando toca o despertador na manhã seguinte.

No fundo, acho que é tudo uma questão da forma como algumas coisas ainda nos atingem; da forma como outras nos deixam demasiado embrutecidos. E, a muitos níveis, a idade e os desenganos fizeram-me perder ingenuidade e capacidade de reacção, até mesmo empatia.

As tragédias que todos os dias acontecem no mundo são imensas, horrorosas, inimagináveis. Mas apenas algumas delas conseguem impregnar-se na nossa pele e causam ainda uma vontade de reacção. Com a actual crise e o esforço que todos fazemos para sobreviver no nosso Mundo de abundância, essa reacção será ainda mais ténue. E os pobres entre os pobres ficarão mais esfaimados ainda se tivermos que escolher entre o pão deles ou biocombustível que nos faça andar o carro. Em alturas de crise generalizada, até para se ser pobre é preciso sorte.

Prognósticos só no fim do jogo

.

«Pronto, agora sim, voltou tudo ao normal. A Selecção é, de novo, o espelho da Nação. Ou é de novo ou é de velho, à vossa escolha. Se formos justos, sabemos bem que a Selecção é, ‘de velho’, o espelho da Nação.»

Leonor Pinhão



E, quando estávamos a contar com ela, vai que a selecção desata a armar-se em cagona outra vez. Os anos do brasileiro e das bandeirinhas já lá eram. E o campeonato é o que se sabe: sobra para o FCP, não importa quantas voltas e pinotes sejam dados pelos outros.

Ora isto não está bem! É que a selecção é de todos nós e o FCP é só de quem gosta de ganhar. O povinho, farto que anda de tudo o resto, esperava um pouco mais de alegrias lá para os lados da bola. E afinal só há empates e derrotas e jogadores que se arrastam e um treinador que se armou aos cucos mas ainda não provou pevas.

Obviamente, não deu sequer para ganhar à Albânia e os outros foram o que se sabe. Mas ainda havemos de ver jogo. Infelizmente, dos lados da política e da economia, vemos jogo a mais. A derrota para os lados das Quinas é que parece ser o resultado final dos "prognósticos só no fim do jogo
(*)".

_________

(*) João Pinto, antigo defesa lateral e capitão do FCP

2008-10-17

But the ghosts still haunt the waves

The Pogues - Thousands Are Sailing

Found at bee mp3 search engine

Estou atrasada?




Parabéns, Mofo!

Matacão





Eu gosto de relógios. Ao contrário da I, não faço colecção e nem sequer uso relógio. É que, mesmo gostando de relógios, a verdade é que me incomodam. Como me incomodam anéis e pulseiras. Mas, é, pode dizer-se que gosto de relógios. Só que, como em tudo – e mesmo quando é uma jóia ou ostentado enquanto tal – acho que os relógios devem ser proporcionais a quem os usa. Daí que ontem, cada vez que o homem aparecia centrado na câmara, não era nem para a gravata, nem para as brancas, nem para o fato, nem para os olhos ou a boca que olhava. Era para aquele relógio pespegado no pulso, um relógio que me parecia demasiado grande para um homem relativamente pequeno. Até a ostentação precisa de algum comedimento, não vos parece?


(E, sim, estou a dever respostas e comentários e assim. Mas não tenho tempo!)

2008-10-16

Erva ruim



O que me irrita em Sarah Palin é o tom de anedota: é vista em tom jocoso, analisada com piada, desbaratada com um sorriso. E, no entanto, Palin é uma figura feminina daninha. E é daninha porque é medíocre. Para além da política de um País que não é nosso, do voto que não faremos numa democracia onde uns votos são sempre mais votos do que outros, para além do velhadas a tiracolo e da filha que devia ter tido educação sexual em lugar de ir passear para a carreira do tiro. E para além do caranguejo e do urso no escritório. A participação feminina nos destinos políticos do Mundo continua a não ser semelhante à posição das mulheres no resto da vida pública desse mesmo Mundo. Pelo menos do Mundo Ocidental, que é o que eu conheço. E a anedota Palin é um retrocesso, um anátema com demasiada exposição mediática e dois neurónios que debitam banalidades e generalidades. E, para além de qualquer gargalhada descrente e esgar enojado que me provoque, Palin é profundamente perigosa. Só o facto de existir e ter sido colocada como bandeira política dos conservadores a torna perigosa. Só o facto de representar esse mesmo conservadorismo de raiz evangélica, fundamentalista e ignorante, deveria ser o suficiente para todas nós, mulheres, o lamentarmos. É que de todas as vezes que os desmandos dos gajos que fazem política há décadas nos afundam num qualquer esterqueiro, penso que está na hora de pôr uma mulher a meter ordem na casa. Mas depois há as mulheres e há as Palin. E as Palin são daninhas.

O desafio


aqui


O link para o post com todas as respostas que me foram dando ao desafio Libertango está ali na lateral, junto com os outros desafios. Singam-lhe os diferentes passos de dança.

2008-10-15

Milos Forman no Salão Ritz


© Nellie Vin


O local? algures entre a Praça da Alegria e o Parque Mayer. Recordo-me da larga escadaria frontal com os degraus forrados num tapete vermelho gasto por gerações de avós a netos de pé leve e corações ardentes, muitas madeiras em talha dourada e os inevitáveis espelhos com as manchas de patina reflectindo o último passar de mão pelos cabelos antes da cortina se abrir e penetrar no semi escuro que aconchega nas mesas espumante barato e whisky rasca. Ao fundo e como cenário, o palco onde a orquestra hesita nota a nota entre morrerem no seu posto e de instrumento em riste ou, se já mortos como os alvos casacos encimados por lacinhos dez centímetros abaixo de rostos dum século indiciam, apenas repetem os acordes em lentos movimentos para contrariarem o rictus mortis que aparentam e assim enganarem algum médico-legista que tenha lá caído para dar um pé de dança.

Soam slows continuamente. As Damas, que em fugazes momentos duma luz indiscreta dum isqueiro fazem suspeitar serem irmãs, filhas mais velhas e uma ou outra até mães da esforçada orquestra que simula em arremedos de acordes que ainda vive e não morreu, elas, as Belas, antecedem em maquilhagem e profundidade de olhar escolas de cinema neo-realistas que Cannes ainda não sonhava premiar, e enquanto sinto o osso da perna da que o destino me sentara ao lado cravar-se na minha, a mão gélida torneando-me o pescoço e a voz que se quereria ciciante murmurar-me ao ouvido em pigarros de catarro de Três-Vintes: "filho, mandas vir outro 'Magos' e depois dançamos?", eu sinto-me não filho mas neto daquele olhar 'femme fatale' de décadas de avanço, que me leva, um, a duma golada beber a minha zurrapa e pedir outra, dois, a pedir ao solícito outra bebida para "a menina" e anuir-lhe que sim, a cabeça para cima e para baixo para se libertar do toque da pele fria que lhe cobre os ossos - sentia-os da falange à falangeta. Se ela e a sua insistente perna me permitissem evadir-me sentir-me-ia outro Milos Forman a filmar o baile dos bombeiros da associação do bairro.

Mas não. É um salão de baile feito casa de alterne, se o alemão ainda não me engana é o velho Salão Ritz e falo do início da década de oitenta do finado. Contar como lá caí era ignorar a música que soava, lenta repetitiva, esforçada, e seria um desrespeito à estória. Por isso nada de miudezas. Com as goelas e o estômago a arder pela mistela de Sacavém deixei-me conduzir pela mão para a pista onde as luzes baças deixavam ver outros figurantes do sketch surrealista. Bailavam, a ideia era essa e a orquestra sobrevivia para isso e cria em mim que os outros, como eu, sentíamos o dever instintivo de bailar, bailar sempre, porque se a pista se esvaziasse um a um os casacos brancos com lacinhos pretos caíam como folhas fora de prazo tantos os Outonos que já deviam à tumba: sobreviviam porque tocavam, e tocavam para que se bailasse. Ela, a Bela? algo cruzado e esforçado entre a avó anoréxica dum futuro 'Família Adams' e uma vamp fora d'época - havia fascínio no momento que sentia-o como único: desde que subira a escadaria iluminada pelo vetusto lustre e pelo vermelho e ouro da decoração que os gastos espelhos me diziam, mesmo antes da cortina se abrir e penetrar em cena, sabia que vivia um momento que já não existia, não era nem da minha época nem da cidade que lá fora existia, finda a escadaria: uma máquina do tempo teleportara-me para um pedaço de celulóide de cinemateca e bebia-o e inalava-o sequioso, bem ciente do privilégio histórico de ser-me propiciado vivê-lo. Se entre mesas divisasse caras conhecidas por fotos de álbum de família, o meu tio Olívio que nos finais de cinquenta's emigrara para o Brasil ou até o meu pai que, rezam os anais da família, fora galã marialva na sua época lisboeta, não me surpreenderia por aí além. Pensava-o para mim enquanto a mão lhe torneava a cintura de vespa reformada e aspirava o cheiro da laca e de decilitros de perfume que me envolviam na névoa onde bailava um, dois slows. Noblesse obligue, ousei teclar solidariamente aos colegas de palco um tímido piano nas costas desnudadas, e hérnia discal a hérnia discal acompanhava o ritmo que o palco de mortos-vivos debitava: não havia ritmo para subir uma oitava nem desci qualquer nota de levantar a plateia muito embora o primeiro balcão se esforçasse e se colasse ao meu peito. A Dama, a pista, o décor, as luzes e a orquestra em nada ajudavam a um lá bemol maior que soltasse vidas, baladas e ritmos à partenaire ou à assistência. Bailasse, eis o guião da noite no Salão Lisboa, e o escritor não tivera um momento esfuziante quando mo escrevera - pensava.

A orquestra, coitada, faz uma pausa que eu entendi como a sua deixa para oxigenarem a existência. Foi o meu erro pois não a aproveitei e recolhi à mesa, outro 'Magos' e meio copo de tintura de iodo afogado em gelo e fim de tournée...! O Maestro ressuscita e arrasta no seu milagre colegas, instrumentos, imagine-se que até o som: soa um Tango! Esclareçamo-nos desde já: rock é rock e basta abanar o capacete e fazer olhinhos à garina; slow é slow e não fosse a Dama uma madame que me merecia provecto respeito e sabia como me desenrascar. Um e outro são como andar de bicicleta. Mas um tango... isso já é brevet ou carta de patrão da costa! Um Tango, senhores! Não, não estava no guião. Nunca estivera! Mais e para completar: das profundezas avoengas do olhar da Dama emergiu um brilho que em princípio não cataloguei como perigoso mas que o súbito estremeção do até então plácido esqueleto disse-me que para brincadeira já chegava e agora é que se começava a tratar de coisas sérias. Tão sérias foram que nas suas mãos rodopiei como nunca julguei possível, levei baile, bailarico e, acredito, momentos houve em que até dancei o tango guiado pista afora por uma cicerone mista de alucinada rejuvenescida e indefectível à arte. Nos seus braços e em volta do seu corpo fiz de mim o que não sabia estar ao meu alcance, o seu olhar profundo e magnético cravado em mim, ordenando e descodificando o que as suas mãos mimavam às minhas em gestos, puxões e impulsos decididos. No palco os mortos ressuscitavam tal como eu. E as cordas trinavam, os metais assopravam, o piano desenfiavasse e desenrascavasse de teias d'aranha. Foi o momento alto da rodagem e o meu excelsus como bailarino e actor.

Quando o realizador disse "corta!" e tive autorização para voltar à mesa, obviamente bebi um duplo. Depois osculei a minha Dama na mão que não segurava a taça e sem mais palavras que as que os meus olhos diziam, e desci a escadaria do tapete vermelho sem olhar para os espelhos: neles, só podia mesmo era estar reflectido Gene Kelly saltitando os degraus como se chovesse. E chovera... por isso eu cantava!.




A resposta ao desafio segundo Carlos Gil.

15/10




aqui


2008-10-14

A dança


(algures da net, disse o autor)


Sempre que a música tocava lá vinhas tu preparada a desafiar para mais um pé de dança, sabendo bem que eu detestava, pois tinha os pés tortos para tal proeza, então desistias de mim facilmente e afastavas tudo do teu caminho, e eu, como de costume, ficava deitado no nosso sofá, a ver-te pela sala, descalça a dançar ao som das batidas. Nasceste com ritmo, conhecias todos os passos de todos os géneros musicais, nunca chegaste a saber o quanto me sentia infeliz por não te poder acompanhar nessa alegria da dança. Ver-te dançar é uma das mais belas memórias que tenho de ti que me faz sempre sorrir. Acho que nunca te disse o quanto gostava de te ver assim, feliz!




A resposta ao desafio segundo o Tozé.

Crise


©Francesco Clementei, House of Cards


Lembro sempre, da minha adolescência, os "filhos família" a quem os papás deram tudo o que não tinham tido na própria adolescência: as motas, as férias da Páscoa no Algarve, as roupas de marca, os óculos, as botas, os estudos em qualquer externato bem pago, depois a carta, o carro, o curso superior, o estatuto, sei lá! Miúdos mimados com tempo e dinheiro a mais entre mãos. E uma ânsia de experimentar tudo, viver tudo demasiado depressa e com excessivas facilidades. E resultou nesta geração a quem deram agora as rédeas do Mundo de bandeja, fácil e a crédito, sem grandes metas, ou grandes sonhos, ou sequer uma pequena utopia, para além de qualquer desejo material.

A minha geração não se lembra realmente de tempos difíceis. As dificuldades reais são sempre culpa dos outros, os tais que não lhe dão o que merece. Mas vai buscar com à vontade o subsídio de desemprego ou rendimento de inserção. É a geração que nem pensou em poupar para comprar casa e pôs os pais a pedir por ela o crédito bonificado da casinha que foi trocada por uma casinha melhor cinco anos depois. Ou o carro de gama alta, houvesse ou não dinheiro para o pagar. Ou as férias a crédito. Ou o crédito a la minute à distância de um telefonema.

É a geração que faz compras por enfado, não por necessidade. Que quer estar na moda, mesmo que nem a moda entenda ou sequer se sinta coagida pela força do marketing a ter o que não precisa. A geração que culpa sempre todos, menos a ela própria, pelos desvarios.

A minha geração estava nos cueiros quando foi o choque petrolífero nos anos 70; estava na escola a viver à conta dos papás quando o FMI veio meter o dedo nas aselhices de uma economia que ainda não sabia se queria virar à direita ou à esquerda e só se enterrava cada vez mais. É a geração que estava a acabar o secundário ou no início do curso na universidade quando a bolsa crashou em finais de 80. É a geração do dinheiro a rodos a entrar pelos fundos comunitários, da democratização do acesso ao ensino superior e do início das reformas acéfalas e sucessivas de todos os graus do ensino. É a geração que viu a falência do socialismo de estado e viu cair as diferentes fachadas do comunismo e por isso santificou o mercado. É a geração que se convenceu que é livre e não entende que a liberdade também implica compromissos e sacrifícios. É a geração que acha que a cidadania é palavrão e a entregou a uns quantos para que a exerçam a mandato e esquece que a cidadania é feita por todos nós. É a geração que enche a boca para falar de democracia e, no entanto, se recusa a ir votar ou sequer entende realmente o que é o pluralismo e direitos iguais para quem é diferente. É a geração que desbaratou as ideologias, que não as quer, não as entende. É a geração sem compromissos, tirando a dívida que tem de ser paga ao dia certo. É a geração que tem tudo, menos norte. E nunca viveu realmente a crise. Por isso, a crise caiu-lhe em cima da cabeça e desta vez não vai sobreviver nadando de costas.

O paradigma está a mudar. A mudança não é brusca, mas feita de duros golpes. E a minha geração está à toa. Deram-lhe o Mundo e meia dúzia de regras, desde a mão invisível ao Estado Providência. Não lhe disseram que ia ter de se esforçar. À minha geração nunca foi pedido qualquer esforço. A minha geração nunca quis ter o encargo de ser uma geração. E nunca lhe disseram que ia ser difícil e que, um dia, a normalidade ficaria virada do avesso. E que fosse, finalmente, da responsabilidade desta geração ausente criar as regras novas do Mundo que vai continuar a ser. Para alem do dólar, da Europa, da globalização. Para além de qualquer abstracto. Mas com um qualquer abstracto que esta geração perdeu, tirando a forma abstracta como culpa tudo, menos a ela mesma, desde o preço da gasolina ao sacana do banco que lhe emprestou o dinheiro para a casa e o carro acima do que podia, ou para as férias na neve, mais as férias em Natal, ou o plasma, ou tudo o mais que tem de ter, mesmo que não precise.

E quando já não há os pais para lhe avalisar os créditos bonificados que também já não há, ou que nem entende a taxa de juro que não pára de aumentar, então a geração trauliteira e esbanjadora chora-se e lamenta-se e estica daqui e estica dali e vai levando à espera de melhores dias, culpando tudo e todos, menos a sua falta de juízo e a sua ganância e os restos da abundância empacotada na arrecadação.

2008-10-13

Mesmo sem convite




Nã sê dançar, nã sê cantar e canto, por vezes danço levado a reboque desta ou daquela.
...

Recolhi-me naquela sala vermelha fugindo de um luar que me sufocava, que roubava o brilho às estrelas para o entregar, cúmplice da humidade fria da noite, à pedra da calçadas. Aqui prevalece a penumbra, as palavras ciciadas não adquirem significado, os gestos são lentos, aparentemente calmos; as mesas abandonadas fazem companhia aos instrumentos lá no canto, aquele cigarro esquecido, esvaindo-se liberta o fumo que desaparece no ar mas dele fica o doce cheiro.
Vou sorvendo a bebida que me aquece a alma fria à medida que me afasto no tempo resistindo ao regresso do vermelho desta sala turbulenta aquecida no embalado movimento de corpos e olhos colados, na cadencia sincopada das notas libertadas de um piano e do acordeão que abraças em meneio do corpo e à perseguição do teu olhar vergando o meu. Não é verdade que estejas diante de mim, que me tomes e me arrastes, me domes a compasso de um piano tocando só, como marioneta presa dos teus dedos, suspensa nos teus braços e do calor da tua respiração. Quero esquecer, o que mudo me disseste com o arquear de sobrancelhas, para, rodopiando me apartares do teu copo, quero esquecer as promessas que fizeste com os lábios fechados, ao tomares-me de novo, quero esquecer o teu rosto sobre mim debruçado com a última nota do piano pairando no ar.
Soam acordes, para me despertarem numa sala vermelha, quase cheia, o piano ataca seguido de um violino, um par entrelaça-se por um momento quietos desafiam-se num olhar e partem sem o acordeão.
Quase tudo te perdoo, mas o teres levado outra na tua última viagem de mota, não. Um dia esquecerei o teu rosto, até o teu cheiro, talvez.




A resposta ao desafio segundo Erecteu.

2008-10-12

Ufa!


Jörg Haider


Não é ficar contente com uma morte, é só esperar que, neste caso, a terra lhe seja bem pesada.

A prima da obra (*)

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«Enquanto o PS casa com o PSD no altar da banca, Cavaco casa com Sócrates e a Manuela casa com o Santana os gays continuam sem se poder casar, isso do casamento é só para quem procria, nem que procriem dinheiro, poder ou alianças políticas duvidosas.»

in, O Jumento


Não esqueço que a maioria para o PS veio menos da competência e das promessas apregoadas do que do fartos e enojados que todos andávamos com os desvarios da coligação PSD-CDS. Custa? Ah pois custa! Tem custado a todos. E ainda deve custar mais o medo com que se fica por José Sócrates e o seu PS de voto condicionado poderem permanecer no poleiro. Mais uma vez, não tanto pela competência, muito mais pelo desnorte e inépcia das alternativas. No rescaldo, os pobres continuarão pobres, os ricos safam-se sempre e nós, que pagamos a factura, ficaremos cada vez mais remediados. E como os únicos desempregados que contam realmente são os amigos dos amigos, é preciso voltar a arranjar-lhes tacho, esperando que uma legislatura chegue para que o povinho esqueça o nojo. E a minha dúvida é: se Santana vai para a CM de Lisboa, onde vão meter o Portas?


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(*) título roubado descaradamente ao "Pela Boca Morre o Peixe" de João Pombeiro.

2008-10-11

Os cavalos também se abatem (*)




Em épocas de crise, apenas uma verdade resiste: sobreviver. E sobreviver não é bonito, nem tem de ser bonito. Pode ser degradante, malcheiroso, indigno. E pode também ser um espectáculo. Nos jornais e telejornais, a desgraça já é parangona há demasiado tempo. Tanto tempo que as pessoas já começaram a desenvolver anticorpos a essa desgraça demasiado evidente. Sobra continuarmos a ver o espectáculo degradante dos programas onde se vendem as verdades íntimas para deleite do voyeurismo alheio, num excesso de "survivors" e "big brthers" agora exponenciados à crise. E, se isto continua a piorar, não será só o euromilhões que vê o número de jogadores a triplicar entre os portugueses. A televisão tratará de fornecer o circo e o pão de alguma maneira, sabendo que o espectáculo iníquo da sobrevivência alheia tem sempre público fiel. E que haja piedade para as nossas almas.



(*) Título português de They Shoot Horses, Don’t They?, de Horace McCoy e, sim, lembrei-me disto à conta de andar a falar de Tango enquanto tudo à nossa volta fica cada vez mais de tanga e muitos parecem apenas estar na tanga connosco. Talvez até já façam apostas em quem sobrevive e quem não; talvez se limitem a ser espectadores. Mas mais certo ainda é que deve andar por ai muito boa gente que vai sobreviver à crise bem melhor do que estava antes, enquanto todos os outros – a grande maioria – tentará sobreviver sem meter uma bala nos cornos.



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A imagem é parte do cartaz do filme de Sidney Pollack que podem encontrar aqui.

Dançar


© Anemarie Heinrich


Dançar nunca fora o seu forte, embora a música marcasse presença assídua nos seus dias.Tango, então, nem pensar. Já de Tang não poderia dizer o mesmo, ainda que noutros tempos o houvesse apenas com sabor a laranja. Beber Tang é o gesto mais prosaico que se pode ter. Não é preciso sentir sede, nem ser Verão, nem ter visitas em casa. Basta uma dose de gulodice e ter um pacotinho na despensa. Depois, é só deitar o pó num jarro e juntar água – se esta é fresca ou natural, depende do gosto de cada um. Dizem que é melhor com água fresca.

Para se dançar tango também não é necessário ter-se nascido ou estado na Argentina, nem sequer calçar saltos altos ou vestir uma saia com uma racha até ao pescoço. Para se dançar tango, confidenciou-me um apreciador do Piazzola com quem entabulei conversa na sala de estar de um aeroporto, é imprescindível ter-se alma de poeta, uma boa dose de emoção, o mesmo de sensualidade, os gestos suaves de uma ave. A tudo, deve acrescentar-se um olhar de matadora. Cheguei a perguntar ao meu interlocutor se é de todo necessário ter um par, mas já ele respondia apressado à última chamada para o embarque.




A resposta ao desafio segundo Deep.

O último tango em Paris


Maria Schneider e Marlon Brando

Hipatia, atendendo à minha presente e notória falta de criatividade, encara este apontamento como homenagem a um filme que fez furor há 35 anos - e sobretudo ao poderoso e muito à flor da pele Marlon Brando; ainda hoje, repara como se me distende o olhar na visão destes abençoados cinquenta anos.



A resposta ao desafio segundo Vague.

2008-10-10

Tango


© F. Castelo


A resposta ao desafio segundo efe.

A vida é uma tanga


© Catarina Paramos


A racha da saia preta a descobrir-me a perna artilhada de liga e o pedaço de carne branca que justificava o que a meia encobria quando dobrava um joelho para encostar um pé à parede e dar início ao espectáculo em que rodopiávamos pela sala de braços em riste e carnes atracadas pela linha de junção do meio das ancas. Mimando a puta e o chulo faiscávamos olhares de matador um de encontro ao outro e repentes convulsivos do corpo para abanar as mamas e me dobrar pela metade com o seu corpo a resfolegar sobre o meu num frémito de sedução que arrancava aplausos da plateia.
Para no final desembocarmos no camarim, cu contra cu, a despirmos o espectáculo cuidadosamente dobrado para um malote e a vestirmos os nossos corpos há tanto apartados esticando a largura que a nossa cama permitia sem um pingo transpirado de paixão.
Não fosse o foco de luz providencial desviar para a flor berrante do cabelo ou o contorno das pernas e por vezes seria evidente o molhado dos meus olhos que na penumbra envolvente descortinaram os dele atento a todos os mecanismos luminotécnicos e me apontaram a porta da casa de banho onde em ganas desenfreadas atirámos com as roupas e sobre o tampo da sanita nos cavalgámos em abraços ao som de uma dança de beijos carpinteiros como se a tanga da vida fosse acabar amanhã.







A resposta ao desafio segundo a Maria Árvore.

2008-10-09

Eu não danço o tango


© Fabian Perez



Eu não danço o tango
É ele que me dança
Enquanto o teu corpo, o meu roçando
Vai afastando o véu
Que entre nós balança
Quando em voos flanando
Suspensos num céu
Se buscam as mãos, se encontram as bocas
Se gritam os gestos
Em manobras loucas
Rodopios lestos
Quando a perna avança
E a cintura no vórtice se quebra
És tu a dança, toda a pujança
Que o tango celebra





A resposta ao desafio segundo Bartolomeu.
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Tango


© Maria Amaral



O acordeão do Pablo dá o mote
Olho para ti em silêncio
Antecipando o momento em que
os nossos corpos vão sincronizar
rodopiando em avanços enleados
certos e cadênciados
Em cada momento sinto o teu corpo
parar no meu
A vertigem do teu rosto é percorrida
pelo ritmo das minhas mãos
que te seguram quando mais uma vez
reclinada te seguro
Tango
é paixão, é movimento ardente de duas almas
que voam sobre nuvens projectadas
em céus infinitos





A resposta ao desafio segundo Luis_Duverge.

2008-10-08

It takes two



Apetecia-me dançar nos teus braços, embrulhar o meu reflexo no teu, trepar-te lentamente como se me fizesse hera verde, ou então um maracujeiro perfumado.

Apetecia-me dançar bem devagar e ficar ali enrolada, a fazer o corpo nosso no que antes tinha sido apenas teu, apenas meu…

E de seguida aumentar o ritmo, convulsa, tresloucada, ciumenta desta distância que nos envenena a dança.

Mostrar-te depois que ainda trago a faca na liga e as unhas afiadas, prontas a escorrerem pelo teu peito como carreiros rubros. Ou a saliva morna traçando os mesmos rastos.

Roçar-me em ti até que já nem saibas como me queres, querendo-me; até já nem saber como te quero, querendo-te.

E a fome depois finalmente saciada, até que esta distância me lembre outra vez como se pode transformar a nossa paixão em tango.

Corpos desaguados de tempo e de ritmo e deste estar para aqui longe e sozinha e cansada e com tanta vontade de dançar, dançar-nos, dançar-te.

2008-10-07

Desafio Libertango



Hoje vou ver tango. E promete!

Já agora, quem é que me quer escrever um post sobre tango, nos moldes dos desafios do costume aqui da Voz?

Já há muito que não desafio ninguém e sei bem como, às vezes, um mote dado pode ser inspirador.

Vá! Surpreendam-me como de costume.


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2008-10-06

Polly Jean


at bee mp3 search engine

Coisas que não entendo


aqui


Em casa de uma amiga, o título de um livro chama-me a atenção: "mulher procura homem impotente para relacionamento sério". Como? Que andas tu a ler? Mas que raio de absurdo é este? Para que quer uma mulher um gajo que não funcione? E nem é o não funcionar a cabeça lá de baixo. É o tanto que não deve funcionar a cabeça de cima num gajo com o Zéquinha comatoso.

Digamos que nenhuma de nós gosta de ter um tipo completamente "caralhocêntrico". Mas queremos um gajo inteiro e sem traumas, certo? E se os gajos já são um ser complicado q.b., com umas debilidades egocêntricas que nem chegamos bem a entender, um gajo que não possa medir e exprimir o que vale também pela força que ainda tem, deve ser um espécime a evitar a todo o custo.

É que mesmo quando não queremos um gajo para ir para a cama com ele, se escolhemos a companhia de um gajo não é bem por ser eunuco.

Acabar a gostar de alguém e ter de lidar com doenças e/ou deficiências é algo a que nos sujeitamos. Não é – não pode ser – algo que se procura deliberadamente. É quase como comer chocolate dietético e fingir que sabe ao mesmo. Não fosse o fígado ou o peso, estaríamos era a empanturrar-nos do mais calórico possível.

Mas pior é uma
alminha ter pensado na hipótese e até ter escrito um livro. E ainda pior é eu ter trazido o livro para ver como é a história. Há coisas que não entendo…

2008-10-05

Starfuckers, inc.


Starfuckers, Inc. - Nine Inch Nails -


Há anos, vi um texto censurado no sítio que frequentava na altura, porque o título era o que está agora neste post, remetendo para os NIN. Obviamente que não era bem sobre música que eu queria falar; e obviamente que acabei a falar à mesma do que me apetecia. A censura, por mais eficaz, nunca é infalível. Só não consegui pôr o título e, por isso, hoje vem para aqui. O vídeo também.

Recado


aqui


Não sei que coisa fizeste ao coiso, mas é só para avisar que agora o teu coiso não actualiza no meu coiso de leituras.

eheh


aqui


Tens razão! Parece que já não ponho cá um Josh há muito tempo. Até me faz melhorar logo os humores :)

2008-10-04

Mal-humorada

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Mantém-se o mau humor como previsto. E, apesar do sol que continua a fazer ali fora e para onde penso fugir de seguida, acordei tão bem disposta como tenho andado nos últimos dias. Estou mesmo numa fase do “saiam-me da frente ou dou cabo desta merda toda”. Acho que já deu para notar, não é? E, sim Maria Árvore, talvez não seja má ideia trazer o comentário para aqui. Talvez evite assim palavrinhas raivosas sobre outro assunto qualquer, que ultimamente o que menos falta são tretas para me mandarem aos arames. Cá está ele, quase tal e qual como o deixei na caixa de comentários do Apenas + 1. Mas a um Sábado que é, normalmente, dia de poucas leituras. Não quero contaminar ninguém.


hipatia said, on Outubro 2nd, 2008 at


Foda-se para o peditório do código de conduta dos blogues! Estou farta da conversa e das entrelinhas que lhe apanho. Essa não é a minha blogosfera. Como não era a minha blogosfera aquela enxovalhada na TV há uns tempos. Cada um que enfie a carapuça que quer. Mas não me venham com merdas: o facto de me recusar a ser parte do gangue deles é a única desculpa que antevejo para me tentarem obrigar a vestir uma camisinha de varas fascizóide. Com um bocado de sorte, talvez se esqueçam de mim. Sempre fiz por isso, aliás: no 5º ano de blogue vivo e a publicar regularmente, nunca me cheguei a links daninhos de uma mainstream que a todos parece apetecer, mas de onde me mantenho convenientemente afastada. E não os tenho na lista de bloggers que linko nem nunca vão estar. E nem os cito sequer, que na maior parte dos dias pura e simplesmente me recuso a reconhecer que existem e, nos outros, faço de conta que pertencem a raça diferente. E, sim, eu penso pela minha cabeça e não deixo que pseudo-jornalistas ou alguns à espera do lugar se transformem em fazedores da minha opinião. Por deformação profissional – e nessa minha “deformação” as regras com que se cose um texto são bem mais estritas do que os copy-pastes que os jornais fazem da “Lusa” ou os comentadores fazem uns dos outros ou de bloggers estrangeiros que pensam que ninguém lê – sempre tive o cuidado de respeitar o trabalho alheio, mesmo se não há um único post meu que não comece com uma epígrafe e essa nunca é da minha grafia. Sei que, no que toca especialmente às imagens, as fontes devem estar há muito esquecidas. Mas na minha deformação profissional o c.f. e o apud continuam a ter valia. E não me fodam o juízo com essas tretas peganhentas. Sim, a protecção contra as violações dos direitos dos outros está mais do que consagrada na lei e só ninguém exerce os seus direitos porque, infelizmente, dá demasiado trabalho e demasiadas chatices e ainda há a filha-da-putice da Justiça à moda portuguesa que só avança para o lado que lhe dá jeito. Mas uma “ordem do bloggers”? é isso? E com um mono, tipo os gajos que estão à frente da Ordem dos Médicos ou da Ordem dos Advogados ou até da Ordem dos Arquitectos, que já foi condenada em Tribunal por achar que manda mais do que a Lei do Estado e achava que tinha direito a reconhecer mais e para além desse mesmo Estado quem é ou não arquitecto depois de terminar um curso “licenciado” – e por isso mesmo válido – pelo tal Estado que somos todos nós? Ou a treta do PM ser ou não Engenheiro, porque a Ordem só o aceita se pagar a conta? Tenham dó! Não há nada mais corporativista e mais jurássico do que isso. E não terá boas consequências, tirando para os tais mainstream que, finalmente, ficarão com o espaço só para eles, para continuarem apenas a falar entre eles e, no fim, só ficarem bem satisfeitos com o punhetório mental que conseguem com essas coisas pequeninas onde esgotam toda a tusa. Os outros, como eu, que sabem que se andarem perto da merda acabam mal-cheirosos, limitar-se-ão a fechar as portas do blogue e a arranjarem outras coisas. Como quando trocaram as newsgroups pelos chats e depois pelos fóruns e depois pela blogocoisa. Há sempre algo que vem depois. E, sozinhos, os que restarão serão uns infelizes, como aqueles que continuam a frequentar os espaços que eram antes o mainstream e de onde, entretanto, toda a gente debandou.


E tu, Eufigénio, que até já me viste a cara e até me sabes provavelmente o nome, desculpa o lençol e a irritação (e os palavões também). Mas isto tira-me mesmo do sério e estou farta. Para os outros, continuo a ser a anónima Hipátia e não peço desculpa a ninguém por ter opinião e a exercer no meu blogue.

2008-10-03

Heil!


aqui

Depois de ouvir o discurso abjecto para os microfones indigentes de quem o deixou palrar absurdos em lugar de se submeter ao óbvio (ie, foi condenado por violar várias leis ao cometer diversos crimes), só me apraz dizer uma coisa:


que seja bem empalado na prisão!


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2008-10-02

As empatas


aqui

Há um certo tipo de fêmea que, chegada a certa idade – normalmente os 40 ou lá perto – aloira. Na verdade, continuam a ser as mulheres de sempre, mas agora conseguem parecer mais parvas e histéricas do que a pior das miúdas com demasiada liberdade e ainda menos juízo. E, tal como as miúdas que quando começam a sair à noite exageram na maquilhagem para disfarçarem na idade, também este tipo de mulher se esforça demasiado para parecer o que já não é.

Por isso digo que aloiram. Como se, chegadas a essa tal idade – provavelmente já descasadas várias vezes e a começarem a sentir um certo peso de alguma coisa que as faz temerem a falta de outro peso –, se dirigissem aos magotes aos mesmos cabeleireiros e às mesmas lojas e, depois, aos mesmos restaurantes e aos mesmos bares, ficando todas pavorosamente parecidas: um borrão de gajedo à caça.

Histriónicas e barulhentas (sempre muito barulhentas, com muito gritinho e beijinho e abracinho e o caralhinho), falam demasiado alto, ocupam toda a casa de banho e, coisa estranha, fazem-se de burras. Não chego a entender porque quer alguém parecer assim burra, mas talvez seja para não fazerem fugir a caça que sobra; ou então para poderem, umas perante as outras, manterem-se inofensivamente parecidas e de unhas bem escondidas, que as mulheres de que falo têm sempre muitas amigas com exactamente as mesmas preocupações, esgares e maleitas e até a mesma hora para mijarem.

E é vê-las a (des)conversarem sobre carteiras e sobre sapatos e sobre gajos (enquanto empatam na casa de banho do restaurante) para ficarem sempre num determinado patamar de conforto onde a conversa precisa ser inócua e não potenciadora de conflitos. Depois, muitas delas talvez temam estar a perder a vez para as pitinhas da nova geração com tudo ainda no sítio e desatam a procurar uma certa visibilidade que lhes permita manterem alguma ilusão do holofote.

E estaria tudo bem, não fosse estas cabras encafuarem-se todas ao mesmo tempo nas casas de banho, a enconarem a vida de quem tem mais o que fazer.

2008-10-01

Rede


aqui

Uma miúda que conheço escapou por pouco às garras da anorexia. Perdeu os dentes todos, mas conseguiu não perder a vida. E, hoje, agarrada ao seu portátil, prende-se às conversas on-line com o grupo de entreajuda.

É sempre bom saber que este vício que é a net também pode servir para mais do que trocas de alfinetadas, negociação de favores, engates ou púlpitos palavrosos. E às vezes esqueço-me disso.

E já nem há mil reis


aqui

A crise segundo a Catarina.