Lê-se Sócrates, o Escolástico, como quem folheia o inventário de um naufrágio. Hipátia, filha de Theon, não era apenas uma mulher; era a última biblioteca viva de um mundo que ainda ousava interrogar os astros sem pedir licença aos deuses. No seu magistério, Platão e Plotino deixavam de ser bustos de mármore para se tornarem respiração, geometria e destino. Alexandria, nesse estertor de glória, ainda era o lugar onde a inteligência se permitia a heresia de ser livre.
Depois, veio o silêncio. Ou melhor, o ruído da turba.
Há uma ironia atroz na forma como o fundamentalismo acerta contas com a beleza. Não basta o argumento; é preciso o caco de cerâmica, a ostra afiada, o desmembramento da carne que ousou pensar fora do cânone do medo. Hipátia não foi apenas assassinada; foi rasurada. O cristianismo triunfante de Cirilo não suportava a verticalidade de uma alma que se guiava pelas elipses de Apolónio e não pelos dogmas de um sínodo.
É o eterno triunfo do músculo sobre a métrica.
Caminhamos hoje sobre as cinzas de Alexandria, citando fragmentos de um saber que nos foi roubado pelo zelo dos ignorantes. A morte de Hipátia foi o prefácio de uma longa noite, o momento em que a filosofia foi arrastada pelas ruas e deixada a sangrar no altar da "verdade única". Observo o mundo de hoje e vejo os mesmos Cirilos, com outras batinas e novos vocabulários, prontos a afiar as conchas para qualquer um que prefira o telescópio ao catecismo.
A história, afinal, é este pálido exercício de luto: recordamos o que Hipátia ensinou, enquanto tentamos ignorar o eco dos gritos de quem, ao matar a mestre, acreditou estar a salvar a alma do mundo. No fim, sobrou-nos o Escolástico e a certeza de que a barbárie tem sempre uma excelente justificação teológica.
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