2026-11-02

E o resto é decoração

Há coisas que me tiram genuinamente do sério. Não é figura de estilo.

Por exemplo, gente que comenta o verniz em vez de comentar a racha na parede. Que olha para uma tenda no Rossio e acha que o problema é a tenda. Que olha para um miúdo de 24 anos a dizer que não consegue pagar um quarto e conclui que o problema é o miúdo estar despenteado, ou fumado, ou mal-agradecido.

Tenho pouca paciência para isso. Assumo.

Mas vamos ao arquivo de etiquetas, porque Portugal tem uma colecção.

Em 1994, um senhor jornalista, Vicente Jorge Silva, num editorial do Público, baptizou os estudantes que protestavam contra as políticas educativas da ministra Manuela Ferreira Leite como «geração rasca». Estavam nas ruas contra as provas globais no secundário e as propinas no ensino superior. A resposta foi uma palmada semântica: são rascos.

Em 2011, fizemos o trocadilho. Passámos de rasca para à rasca. A manifestação de 12 de Março apropriou-se do insulto. Eram os recibos verdes, os 600 euros, os licenciados a atender call-centers. Eram à rasca.

Não aprendemos grande coisa. Apenas actualizámos o vocabulário e envelhecemos o suficiente para começar a ralhar com os mais novos.

Agora, 2026. A Praça D. João I, no Porto, ocupada desde 10 de Outubro, e o Rossio, uns dias depois. Tendinhas, assembleias, cartazes a dizer «não somos sem-abrigo, somos geração sem casa». Na madrugada de dia 20, a PSP desmontou tudo. Voltaram. Na madrugada de dia 25, desmontou outra vez, ao mesmo tempo em Lisboa e no Porto, com 31 detidos e a discussão nacional sobre se as tendas tinham licença camarária e se os miúdos tinham tomado banho.

E eis que chegamos à actualização do catálogo: geração de ganzados, mal-agradecidos e, aparentemente, pouco asseados. A indignação, pelos vistos, também tem código de vestuário.

Não se discute a casa, discute-se a tenda.

Há uma arte muito portuguesa de transformar um problema estrutural numa questão de bons modos.

Disseram-me, com ar muito sério, que estes jovens não querem trabalhar. E eu penso: onde? Em que cidade? Com que renda? Porque a promessa para esta geração deixou de funcionar: estuda, trabalha e desconta, mas não sabe se consegue sair de casa dos pais. E a resposta que lhes damos é um conselho de etiqueta.

Confesso: também me irritam algumas coisas nas acampadas. O microfone demasiado tempo na mesma pessoa. A poesia falada às duas da manhã. Mas irritar-me não me dá o direito de lhes negar a razão.

Talvez a questão não seja saber se esta geração é rasca, ganzada ou mal-agradecida. Talvez seja perguntar que país estamos a construir quando uma geração tem de sair à rua para reclamar o direito a ter um tecto e a resposta que recebe é uma apreciação sobre os seus modos.

Uma casa não é um prémio de bom comportamento. E o direito à indignação não exige certificado de respeitabilidade.

O resto é decoração.

2026-10-31

Manual breve para noites fora do calendário

Há noites que não pertencem ao calendário. O Halloween é uma delas.

Começa leve: o cheiro das folhas molhadas, uma abóbora de sorriso torto num degrau, luzes a piscar como quem nos pisca o olho. O encantamento de fingir ser outro por umas horas, de esconder o rosto e, ao mesmo tempo, revelar aquilo que sempre quisemos ser. Passos apressados nas escadas e aquele fio de ternura entre quem dá, quem recebe e quem observa da janela, com uma caneca quente nas mãos.

Depois, quando as velas se apagam, chega a segunda voz.
O silêncio fica cheio. As máscaras, pousadas na mesa, parecem observar-nos de volta. E percebemos que os fantasmas nem sempre estão lá fora. Alguns vivem dentro de nós: nas memórias que evitamos, nos nomes que já não dizemos, nos gestos que ficaram por fazer. É a voz que nos acompanha até ao espelho e pergunta baixinho: «E tu, de que te disfarças quando o mundo adormece?»

E no meio, fico eu.

Há uma voz que se ri, outra que se lembra e outras que ainda não sei nomear. Umas acendem luzes, outras preferem o escuro. Por vezes, contradizem-se. Nenhuma parece particularmente interessada em convencer as restantes. E eu não tenho energia para arbitrar a discussão.

Lá fora, a noite continua. Há quem peça doces, quem se disfarce, quem ria dos sustos. Cá dentro, outras coisas acontecem. Uma lembrança aparece sem avisar. Um silêncio demora-se mais do que devia. E o mundo, indiferente à nossa vida interior, continua a cumprir os seus horários.

Talvez seja essa a estranheza destas noites: caber tanta coisa no mesmo espaço sem que nenhuma tenha de ceder o lugar às outras.

As velas acabam por se apagar. As máscaras regressam às gavetas. Amanhã, a noite será outra, embora nem tudo o que nela aconteceu tenha a delicadeza de desaparecer com a luz.

Por enquanto, fico aqui. Com as vozes todas. As que riem, as que se calam, as que ainda não chegaram.

2026-10-29

Pro rata temporis

Mais de um ano depois, a Fidelidade veio explicar à família de Ana Paula Lopes, uma das dezasseis vítimas do Elevador da Glória, que afinal o acidente era previsível. Previsível. Ninguém o disse antes, que se saiba, nem a quem subia, nem a quem descia, nem a quem cobrava o bilhete. Mas agora, com a conta em cima da mesa, a clarividência actuarial é irrepreensível.

Fico também a saber que o ascensor não podia ser considerado «um meio de transporte altamente fiável». Cento e quarenta anos de serviço, desde 1885, não chegaram para o provar; foi preciso um desastre para ser promovido a risco conhecido.

Daqui saem duas perguntas de balcão, daquelas que um bancário aprende ao segundo dia. Se o risco era previsível, estava previsto? E, se estava previsto, estava cobrado? Em economiquês corrente, chama-se a isto prémio: recebe-se antes, discute-se depois.

Resta o tempo. O sofrimento, alega-se, durou menos de um minuto, e a percepção de que se ia morrer terá durado outro tanto. Temos, portanto, a dor a prazo, liquidada pro rata temporis, com desconto de quantidade para fracções inferiores ao minuto facturável.

Extrapolando, porque a lógica o exige:

Se era previsível, não foi acidente: foi calendário.

Se era pouco fiável, a culpa é de quem entrou.

Se foi rápido, sai barato.

Convém, ainda assim, ser justa. A seguradora tem razão num ponto: foi mesmo rápido. Tão rápido que ninguém teve tempo de ler as letras pequenas.

2026-10-28

Chuva

Tenho neste tempo de transição entre um Inverno que se aproxima e um Verão que não vai embora uma tendência recorrente para a melancolia e, enquanto os dias se tornam mais breves, a minha alegria estival esvai-se à velocidade dos pingos gelados das primeiras chuvas.

A minha cidade fica triste também, cada vez mais cinzenta nos seus cinzentos, as neblinas transformam-se em nevoeiro, o cheiro das castanhas envolve-nos e os guarda-chuvas tropeçam-se.

Não há muitos sorrisos por entre os ruídos das gentes que passam. Só pressa em chegar a qualquer destino, afã de fuga para os interiores aquecidos. À porta do café, alguém sacode o guarda-chuva e entra sem olhar para ninguém.

Sinto-me a encolher com os dias, a encolher para o aconchego de uma manta sempre a postos, um casaco de lã tão velho que já não lhe sei os anos, as pantufas que trouxe da Estrela.

Encolho-me no sofá, a TV pronta a suspirar sozinha num último ai com hora pré-programada. Encolho-me no sofá como encolhem os dias e durmo as sestas do frio.

Cheira já a lenha. Os dias encolhem. Eu encolho com os dias e acerto o passo com esta melancolia.

2026-10-26

Democracia à la carte

O Brasil foi a votos. Lula ganhou. Flávio Bolsonaro perdeu por mais de quatro milhões de votos e decidiu que a democracia, afinal, precisa de revisão.

É uma modalidade curiosa de democracia esta: o povo pode escolher livremente, desde que escolha bem. Na primeira volta, o povo queria mudança. Na segunda, enganou-se. E há sempre uma conspiração, um tribunal suspeito e um juiz que, por um extraordinário azar, deu duas horas a mais para votar.

Estes democratas adoram a vontade popular. É uma paixão imensa, quase comovente. Desde que o povo saiba votar como deve ser: neles.

A democracia não é um restaurante à la carte, Flávio. E perder as eleições não é motivo para chamar o gerente.

Vamos ter carnaval até janeiro.

2026-10-23

Humanizar-me

Há um comentário novo na praça, e até é elogioso: «está bem escrito». A frase termina num «mas», porque os elogios da Internet, como os boletins meteorológicos, só se cumprem pela metade. O «mas» desta vez é: «Isto é IA, não é verdade».

Confesso que fiquei dividida entre a vaidade e a ofensa. A vaidade ganhou por pouco. Passei décadas a escrever mal com elegância, à mão, à noite, com um dicionário ao lado e um temperamento pior. Agora chega a tecnologia e, pela primeira vez, alguém me confunde com a concorrência. É como dizer à avó que o croché parece feito à máquina. Ela agradece, evidentemente, e deixa de fazer-nos camisolas.

A sério agora, porque o assunto merece.

Escrevo há muitos anos. Antes de existir IA capaz de escrever em português de Portugal, já por aqui andava a desconfiar dos eufemismos: dos «incidentes», dos «equilíbrios», das «resiliências». A desconfiança em relação à linguagem oficial não me foi instalada por aplicação nenhuma. Foi aprendida entre repartições, comunicados de imprensa e um país inteiro que, demasiadas vezes, fala por encomenda.

Se agora escrevo com uma limpeza que desperta suspeitas, a explicação é menos futurista: revejo muito. Quem passa horas a reler a mesma frase até ela doer um pouco menos não está a gerar texto. Está a fabricar remendos. Alguns ficam tortos, que também não sou nenhuma santa da gramática.

Pelos vistos, a competência literária passou a constituir prova circunstancial de contrafação. Escreve-se mal, é humano. Escreve-se bem, é máquina. Uma teoria confortável, sobretudo para quem nunca teve de reescrever uma frase até lhe encontrar o peso exato.

Desconfiar é legítimo. A tecnologia permite produzir texto em quantidades industriais e faz sentido questionar a sua origem. O que já não faz sentido é confundir o resultado com o processo, a aparência com a origem e a suspeita com o conhecimento. «Parece-me artificial» não é o mesmo que «foi escrito por inteligência artificial». Entre as duas frases devia existir qualquer coisa a que antigamente chamávamos fundamento.

A continuidade também não é uma prova pericial, mas é uma história. Uma voz que atravessa assuntos, contradições, indignações e silêncios; que tanto se ocupa das mentiras públicas como das pequenas misérias privadas. Há um percurso, uma maneira de olhar, obsessões que regressam. Não provam quem escreveu cada frase, mas ajudam a perceber que uma escrita não aparece do nada.

O trabalho de escrever está nas escolhas: na palavra que se mantém, na que se corta, na metáfora bonita que se deita fora porque não diz o que queremos dizer. Nem tudo o que parece perfeito pertence ao texto.

Aprendemos a desconfiar da escrita demasiado lisa, como se a imperfeição fosse um certificado de humanidade. Entretanto, há textos humanos sem uma única fissura e máquinas capazes de simular as rachas todas.

Passámos anos a dizer às pessoas para escreverem melhor, para cuidarem da língua, para reverem os textos, para abandonarem as frases feitas. Agora que alguém aparece com um texto cuidado, há quem lhe retire o mérito precisamente por estar cuidado. O elogio oferece-se com uma mão e retira-se com a outra. Não sei se devemos chamar a isto progresso tecnológico ou regressão das expectativas.

Já me sugeriram, com a melhor das intenções, que «humanizasse» o texto: que deixasse uma gralha, uma frase coxa, uma vírgula fora do sítio, para a coisa cheirar a gente. Não vou forjar defeitos para obter um atestado de humanidade. Os meus chegam e sobram, e têm a vantagem de serem genuínos.

Quem quiser acreditar que é IA, acredite. Fico lisonjeada com a confusão, embora dispensasse a suspeita embrulhada em elogio. Não vou apresentar as mãos, o dicionário ou o historial das minhas indignações como provas de inocência. Também não vou aceitar que a qualidade de um texto seja suficiente para me sentar no banco dos réus.

Eu por cá fico. À mão, como sempre. As fendas agradecem a visita e não escondem a cola.

2026-10-22

O preço do medo


Somos animais territoriais. Gostamos de delimitar, fincar bandeira, erguer muro e chamar nosso ao que conseguimos manter debaixo da pata por acaso geográfico.

Gostamos de poder. Não tanto de o exercer. De o ter. Saber que podemos esmagar. Para certas criaturas, isso chega para justificar uma existência.

Nada de original. Os outros animais também defendem a toca. A diferença é que nós inventámos a ciência para transformar uma birra territorial num evento geológico. Evoluímos. A direcção é que ficou por esclarecer.

O problema de um animal com imaginação é fabricar coisas maiores do que a sua capacidade de medir consequências. Criamos artefactos capazes de destruir o que nem sequer nos pertence: a vida alheia, o futuro dos que não nasceram, o planeta que nos atura com uma paciência imerecida.

Depois damos-lhes um nome técnico, metemo-los num silo e chamamos-lhe equilíbrio.

Equilíbrio de quê? Do medo?

Quanto vale uma consciência com o fim do mundo na mão? Há uma tabela? Escalões de horror? Um número de mortos a partir do qual passa a ser feio?

Ou já há preço e só não suportamos dizê-lo em voz alta?

As bombas continuam nos silos. Quietas, disciplinadas, quase respeitáveis. Não fazem barulho, não incomodam a vizinhança, não precisam de se justificar ao jantar. Mas existem. E enquanto existirem, dependemos da sanidade, da prudência e da boa disposição de quem tem a chave.

Uma combinação que, convenhamos, nunca abundou na espécie.

Depois da primeira bomba, acabaram-se as desculpas.

A Oppenheimer não se concede absolvição por ignorância. Seria historicamente desonesto e moralmente cómodo. Dirigia Los Alamos; sabia o que fazia, sabia que aquela arma ultrapassava tudo o que a guerra tinha tornado familiar.

O que nenhum cálculo lhe deu foi o depois: a cidade transformada em campo de morte, os corpos, o sofrimento que não acaba na explosão. Hiroxima e Nagasáqui tiraram-lhe esse conforto, e ele não ficou indiferente. Opôs-se à bomba de hidrogénio, uma arma incomparavelmente pior, e pagou por isso.

Isso não apaga o Projecto Manhattan. Mas obriga-nos a distinguir. A pergunta perturbadora não é se Oppenheimer percebeu tudo antes. É porque é que, depois de todos vermos, tantos decidiram ir mais longe.

Hiroxima e Nagasáqui foram o preço dessa aprendizagem. Centenas de milhares de vidas reduzidas a uma abstracção luminosa. Mortes sem rosto para quem as ordenou. Corpos desfeitos num segundo e sofrimento prolongado por décadas, nos sobreviventes, nos filhos, nas doenças, naquilo que a ciência não repara.

Herança involuntária. Sem testamento e sem direito a renúncia.

Podemos discutir o contexto, as alternativas, a rendição japonesa, a lógica de uma guerra que já tinha devorado qualquer inocência. Devemos. A história não melhora com simplificações. Mas compreender a primeira vez não pode servir de álibi para todas as seguintes.

Porque depois de Hiroxima já sabíamos. Sabíamos que não era mais uma arma, mais um degrau na escada da supremacia. Sabíamos que tínhamos entrado num território onde vencer pode ter a forma grotesca de uma derrota colectiva.

E continuámos. Bombas mais potentes, sistemas mais rápidos, arsenais multiplicados. Transformámos a capacidade de exterminar a humanidade em credencial diplomática.

Chamamos-lhe dissuasão porque a palavra é elegante e fica bem nos discursos. O mecanismo é de uma simplicidade aterradora: se me atacas, destruo-te; se me destruíres, destruo-te na mesma; se nos destruirmos os dois, ninguém poderá dizer que cedi primeiro.

É a imagem que o próprio Oppenheimer usou em 1953, num artigo da Foreign Affairs: dois escorpiões num frasco, cada um capaz de matar o outro, mas só à custa da própria vida. Os escorpiões, ao menos, não arrastam terceiros. Estes arrastam. E os terceiros somos nós. Todos. Incluindo os que nunca os elegeram, nunca participaram nas suas guerras e nunca foram consultados sobre a conveniência de morrer por uma disputa que mal compreendem.

O mais inquietante: o jogo nem precisa de um monstro. Basta um erro. Uma informação mal lida. Um sistema que falha. Uma cadeia onde cada um confia que o seguinte sabe o que faz.

Ou basta um desvairado com poder suficiente para confundir a sua vontade com o destino do mundo. A loucura individual, com tecnologia adequada, deixa de ser clínica. Passa a ser política internacional.

E ainda há quem lhe chame inteligência estratégica.

A ética a posteriori é confortável. Sentamo-nos sobre os escombros, identificamos culpados, escrevemos relatórios, erguemos memoriais. Dizem que aprendemos. Entretanto, o orçamento militar aumenta e alguém, algures, trabalha numa arma mais eficiente.

Mais eficiente a fazer o quê?

A ciência responde com precisão admirável. A moral continua sem financiamento.

Os que vieram depois conheciam Hiroxima, Nagasáqui, a radiação, a escala. E escolheram bombas maiores. Não por ignorância nem por inocência: escolheram porque o poder de destruir passou a ser a forma de impedir que os outros destruam primeiro. Porque a espécie prefere arriscar desaparecer a admitir que não precisa de ganhar todas as disputas.

Talvez seja essa a nossa verdadeira natureza territorial: não defender o que é nosso, mas não suportar que o outro tenha algo que não controlamos.

As bombas continuam nos silos. Os dirigentes falam de segurança, os estrategas calculam probabilidades, e nós vivemos como se a sobrevivência fosse consequência natural da existência, quando depende de decisões tomadas por gente que nunca conheceremos e cujos nomes só aprenderemos quando for tarde.

Não sei em que escalão se decide o horror. Suspeito que a tabela exista e que ninguém a queira publicar.

Entretanto, guardamos o fim do mundo em depósitos vigiados e chamamos-lhe paz. Os mais finos chamam-lhe equilíbrio.

Eu continuo à espera de uma palavra menos obscena.

2026-10-21

Pancas, manias e outras formas de civilização


Há coisas que me agridem fisicamente. Não é maneira de dizer. É mesmo o corpo a reagir, a pele a eriçar-se e a vontade de fugir a instalar-se antes de o cérebro ter tempo de se pronunciar.

Mãos com unhas roídas, por exemplo. Só de imaginar que tenho de cumprimentar uma mão assim, arrepio-me toda num nojo total e absoluto. Não falo, evidentemente, daquelas unhas ratadas que mal se percebe terem sido roídas; para essas, as minhas dioptrias são um feliz acaso. Falo daqueles dedos onde já nem há unha, apenas sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.

Depois há os olhos. Não me refiro tanto aos que olham um para cada lado, cada qual entregue à sua própria vida, um aqui e outro no infinito. Esses ainda vá. O meu problema são os que convergem para o nariz, como se estivessem a tentar encontrar-se a meio do caminho. Ora, como não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar impedir que os meus entortem também, num jogo de reflexos que me deixa a conversar e, em simultâneo, a gerir uma emergência oftalmológica imaginária. Talvez por isso os que se desviam para fora me incomodem menos: não consigo mimar o gesto. Ainda assim, já dei por mim a encurtar conversas e a evitar pessoas por causa desta relação muito, mas mesmo muito inconveniente com a geometria ocular alheia. A diplomacia tem limites. Os meus passam, aparentemente, pela convergência.

Também acabo as palavras aos gagos. Não sou boa pessoa.

Com a burrice, a coisa muda de figura. Sobretudo quando vem armada em esperteza. A ignorância não me incomoda por aí além: ninguém nasce ensinado, ninguém sabe tudo e há sempre qualquer coisa que nos escapa, por muito que o ego se esforce por ocupar o espaço todo. Também não falo de falta de cultura ou de educação. O que me tira do sério é a cabeça oca com pretensões a cátedra, a criatura que abre a boca e transforma o silêncio, até então uma coisa perfeitamente banal, num bem precioso e irrecuperável. A primeira reacção é quase sempre a mesma: enfiar-lhe um par de estalos que lhe permita voltar a fechar os queixos, nem que seja por uns minutos, e poupar o mundo à próxima descarga de disparates.

Reconheço que isto faz de mim uma grandessíssima snobe, e duvido que esteja em idade de me reformar moralmente a este respeito. Falo da gente que se dedica a transformar objectos em demonstrações de estatuto, na esperança de que o recheio da casa compense as sinapses em falta. A inteligência não se compra. O que se compra é um relógio, um automóvel ou uma carteira com um preço capaz de fazer o vizinho engolir em seco. O resto é decoração.

Em casa, por outro lado, sou perfeitamente razoável. Ou quase.

As canecas, por exemplo, têm um lugar. Não um lugar aproximado, uma zona geográfica ou uma vaga indicação de que pertencem ao armário da cozinha. Têm um lugar. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Uma vez, duas, até três, sobretudo se estivermos apaixonados pelo infractor. Depois disso, a conversa deixa de ser sobre canecas e passa a ser sobre a possibilidade de a pessoa reunir condições mínimas para continuar a habitar o mesmo espaço que eu. Em casos extremos, a porta da rua pode tornar-se a serventia da casa. Há limites para o amor, e um deles é a reorganização unilateral da loiça.

Os livros também têm a sua ordem, e essa ordem não está aberta a interpretações criativas. Não se arrumam por aproximação, por cor ou por inspiração súbita de quem decidiu fazer uma surpresa. Há sistemas. Há uma lógica. Há uma arquitectura mental que, por razões que não me compete explicar a quem não a compreende, funciona. Desmontá-la equivale a entrar numa biblioteca, trocar as lombadas todas de sítio e depois anunciar que se fez uma melhoria na circulação.

Consigo ser muito mais tolerante com coisas que, em teoria, deveriam dar cabo da minha sanidade. Pratos e talheres fora do sítio, toalhas mal arrumadas, roupa suja abandonada fora do cesto, tampa da sanita levantada. Tudo isso me irrita, claro, mas pertence ao domínio das falhas humanas reconhecíveis. A caneca fora do lugar, não. A caneca fora do lugar é uma provocação pessoal.

E depois há a cama.

Não interessa se o lado esquerdo ou o direito, porque essa distinção é irrelevante. O meu lado é o lado da janela. Ponto final, parágrafo. Não há negociação, consulta pública ou referendo doméstico que altere esta disposição. A cama tem, além disso, de me permitir dormir com os bracinhos por cima da cabeça, em arco, numa pose de bailarina que perdeu o palco e encontrou finalmente um colchão. É assim que durmo. Sempre foi assim, ou pelo menos desde que me lembro de dormir, e não tenciono iniciar agora um programa de reeducação postural para acomodar as preferências de terceiros.

Não me perguntem porquê. Não sei. Também não tentem enganar-me, convencidos de que, uma vez adormecida, qualquer lado serve. O mais provável é que eu acabe do lado certo da cama, nem que para isso tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.

O mundo é grande. Há espaço para todos. Desde que não me mudem as canecas.

2026-10-20

O espírito dos tempos

Há qualquer coisa de reconfortante em saber que, mesmo quando a civilização arde, há quem preserve os pequenos prazeres da vida.

Uma esplanada. Três cafés. Um Pai Natal de óculos escuros, a fumar o que resta da inocência ocidental. Uma senhora de negro, com chapéu de bruxa e ar de quem já viu demasiadas temporadas disto para se deixar impressionar pelo enredo.

Ao fundo, a polícia, o fogo, o fumo e aquela coreografia urbana que os comunicados oficiais insistem em classificar como «incidentes», como se a realidade fosse uma reunião de condomínio que correu um pouco pior do que o previsto.

Mas a mesa está posta. É o que conta. As restantes, vazias, alinham-se até ao fogo. Ninguém reservou.

A senhora bebe o seu tinto com a serenidade de quem percebeu que o Apocalipse não dispensa uma pausa. O Pai Natal talvez esteja apenas a fazer contas à distribuição dos presentes. Ou a perguntar-se se ainda vale a pena descer pela chaminé de uma sociedade que pega fogo à primeira contrariedade.

Gosto da ausência de pânico. Não há correria, nem mãos na cabeça, nem ninguém a gritar que o mundo está a acabar. Dois pares de óculos escuros dispensam o resto. Pode estar, de facto. Mas não sejamos precipitados: ainda não acabámos o café.

Talvez a maturidade seja isto. Não confundir o colapso das instituições com a obrigação de estragar a tarde. Não deixar que a estupidez alheia nos roube o direito adquirido a uma cadeira confortável. E não abdicar do espectáculo quando já pouco nos resta fazer para alterar o argumento.

A bruxa sabe. O Pai Natal desconfia. A polícia trabalha. E a História, essa velha inconveniente, continua a arder ao fundo, à espera de que alguém lhe chame pelo nome certo.

Entretanto, tragam a conta.

O fim do mundo não dispensa o IVA. E, se possível, com factura e número de contribuinte.

2026-10-15

Aquela máquina!

Há dias em que me sinto o maquinista.

Não o pessimista, que vê um túnel escuro e se prepara para o pior. Nem o otimista, que vislumbra uma luz ao fundo e acredita que a vida ainda pode surpreendê-lo pela positiva. Muito menos o realista, que identifica um comboio de mercadorias e se limita a reconhecer a evidência.

Não. Eu sou o maquinista.

Aquele que vê três idiotas parados nos carris e percebe, com uma clareza quase ofensiva, que vai sobrar para ele.

Porque os três não estão perdidos. Não desconhecem o perigo. Não precisam de um mapa, de um seminário motivacional ou de uma sessão de esclarecimento sobre segurança ferroviária. Estão simplesmente ali, plantados na linha, convencidos de que o comboio é que tem de aprender a negociar.

E depois há todo um circo à volta: os que discutem se a locomotiva devia ter apitado mais cedo, os que defendem o direito inalienável de cada cidadão a ocupar os carris, os que propõem uma comissão para estudar o fenómeno e os que, perante a inevitabilidade do embate, perguntam se não haverá maneira de transformar o acidente numa oportunidade de crescimento.

Entretanto, o maquinista tem uma pequena questão prática para resolver: há três imbecis à sua frente e o comboio não tem asas.

É esta a parte que me cansa. Não é o túnel, nem a escuridão, nem sequer a perspectiva do desastre. É a recorrente obrigação de calcular travagens de emergência por causa de quem confunde liberdade com ausência de consequências e opinião com competência.

Uma pessoa passa a vida a tentar conduzir o comboio com alguma dignidade, a cumprir horários, a evitar descarrilamentos e a não atropelar ninguém pelo caminho. Depois descobre que há quem faça carreira a deitar-se nos carris e ainda reclame indemnização pelo incómodo de ter sido avisado.

E, no fim, se o comboio parar, a culpa é da falta de dinamismo. Se avançar, é da insensibilidade do maquinista. Se descarrilar, abre-se um inquérito. Se conseguir evitar a tragédia, ninguém agradece: afinal, não fez mais do que a sua obrigação.

Pois.

Às vezes, apetece-me largar os comandos, abrir a porta da locomotiva e perguntar aos três iluminados se querem experimentar conduzir. Mas sei como acabaria: ficariam os três a discutir quem tem prioridade, enquanto eu, por qualquer misteriosa lei da responsabilidade, seria chamada a garantir que o comboio não se atrasava.

O meu problema nunca foi não ver a luz ao fundo do túnel. É ver que a luz é um comboio, que há gente nos carris e que, mesmo assim, esperam que seja eu a resolver o problema.

Ser maquinista é isto: ter a responsabilidade de conduzir, a obrigação de prever o imprevisível e a certeza de que, quando tudo correr mal, haverá sempre alguém na plataforma a explicar o que eu devia ter feito.

Um dia destes, passo-me para o transporte fluvial.

Embora, pensando melhor, ainda me aparece um iluminado a discutir o direito de navegar em sentido contrário.

2026-10-10

Hitler Mussolini, político de esquerda

Hitler Mussolini Simeon Flores. Político de esquerda, eleito no Peru.

Não sei o que me fascina mais: a criatividade do registo civil, a ironia ideológica ou a circunstância de a realidade continuar a humilhar a ficção sem sequer se dar ao trabalho de elaborar o argumento.

Depois admiram-se de a democracia andar tão cansada.

2026-10-08

O chão que fica

Hoje morreu o pai da minha amiga.

Foi um ataque cardíaco fulminante. É assim que se diz, não é? Fulminante. Uma palavra que parece um raio a rasgar o céu limpo. Num instante estava, no instante seguinte já não está.

E eu não consigo parar de pensar no meu pai. No final de julho. Um mês inteiro entre a notícia e o fim. Um mês para processar o que nunca se processa de facto. Andámos aquele mês a acreditar e a não acreditar ao mesmo tempo. A fazer planos pequenos como quem assobia no escuro. Sabíamos, sem nunca saber realmente que o fim estava ali, ao virar da porta.

São duas formas opostas de perder alguém. E nenhuma é mais leve.

Quando soube que o meu pai sabia que estava a morrer, doeu-me por ele. Doeu-me esse peso lúcido. Hoje penso na minha amiga, e penso que o peso dela deve ser outro, talvez ainda mais desamparado: o de não ter havido tempo para o adeus. Para a última frase. Para a mão dada. O baque imenso de uma ausência que não pediu licença.

Disseram-me - e hão-de dizer-lhe a ela também - "não sofreu". Que frase absurda. Como se isso apagasse alguma coisa. Como se o sofrimento fosse só do corpo, e só dele, e só naqueles segundos. O que fica não é sobre se sofreu ou não. É sobre quem fica, de repente, sem chão.

Hoje, o luto dela encosta-se ao meu. Não se comparam, não se medem. Apenas se reconhecem, em silêncio.

Que possa, um dia, doer menos.

2026-10-05

Viva a República!

Nada como atualizar a novela nacional em pleno feriado cívico, com os devidos contornos de surrealismo que a pátria merece.

Ah, a diplomacia do futebol moderno.

Em pleno 5 de Outubro, enquanto a República comemora a queda da monarquia e os historiadores se esforçam por manter vivos assuntos que ninguém discute à mesa de jantar, o país é chamado a acompanhar mais um episódio da geopolítica da Bola: Piers Morgan versus Jorge Jesus, com Pedro Proença no papel de bombeiro mediador.

É verdadeiramente maravilhoso.

O treinador da Seleção, num momento de pura afirmação de autoridade, dispara um categórico:
«Pedir desculpa de quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém!»

Eis que surge no horizonte, vindo de Inglaterra como uma espécie de D. Sebastião do jornalismo sensacionalista, Piers Morgan, procurador oficial do ego de Cristiano Ronaldo, pronto a garantir que o «Ten Hag português» devia retratar-se.

Uma crise diplomática, portanto. Só falta o Conselho de Segurança da ONU.

E, no entanto, pergunto-me: não era há anos tudo um circo?

Com data marcada, juntavam-se os palhaços na bancada, diziam umas bacoradas, posavam para a fotografia e, no dia seguinte, tudo seguia como dantes. Iam lá fazer o frete. Sempre com ar de grande frete: corpos presentes, mas só isso.

Na assistência, o povoléu olhava para a bancada e para os símbolos. Um circo como outro qualquer, mas com data marcada e significado há muito perdido.

Durante anos, enquanto a abundância aparente desconsiderava tradição e história, esta tempestade num copo de água ter-nos-ia parecido perfeitamente normal. Um copo pequenino e, talvez por isso, tão pronto a transbordar.

Enquanto o Brasil discute a sua nova viragem ideológica e Portugal assinala o fim da monarquia, descobrimos que a verdadeira soberania nacional reside em saber se o CR7 volta ou não na próxima convocatória.

Aparentemente, a República pode esperar. O Ronaldo não.

A República que nos perdoe, mas um pedido de desculpas não dado por Jorge Jesus a pedido de Piers Morgan parece ter, neste país, mais peso institucional do que qualquer discurso sobre a implantação da República.

Já tivemos reis, presidentes, primeiros-ministros e, aparentemente, agora temos comentadores ingleses com poderes constitucionais.

Talvez seja esta a nossa evolução política: mudámos o regime, conservámos a corte.

Viva a República!

República


A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.

Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.

Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.

No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.

2026-10-01

Pedagogia da Suspensão

Houve um tempo em que uma lomba era um acontecimento. Tinha localização, tinha motivo e, nos casos mais solenes, tinha uma escola ao lado. Hoje é uma espécie invasora. Não tem predadores naturais, reproduz-se na Primavera, no Verão e nas reuniões de junta, e já ocupa todas as ruas onde passe mais de um carro por dia. Se o segundo carro for o do vizinho, que sai de casa de marcha-atrás, melhor ainda: justifica-se logo uma dupla.

Registo, para que conste, que não sou contra. Conheço o condutor português. Já o vi a trinta à hora no parque do centro comercial, com a gravidade de quem transporta um rim para transplante, e depois a cento e dez numa rua onde há roupa estendida. Deixado ao seu critério, qualquer artéria com mais de cinquenta metros de recta torna-se o circuito do Estoril, com semáforos opcionais e peões como risco calculado. A lomba é o único argumento que ele entende, porque lhe fala directamente ao bolso.

Mas uma coisa é a lomba, outra é a lomba que desfaz carros. Há as que pedem ao condutor que reconsidere, quase com carinho. E há as que o interrogam. Essas arrancam o tubo de escape, desalinham a direcção e ainda levam duas obturações de brinde, a vinte à hora. Ninguém sabe o que as ditou: o rigor técnico ou um desentendimento antigo com o dono do stand.

Daí a pergunta que faço com a ingenuidade de quem ainda acredita em regulamentos: existe norma para a altura? E para o comprimento, o perfil, esse «diâmetro» que numa lomba é conceito poético? Existe, em certo sentido. O regulamento de sinalização define a lomba redutora de velocidade e estabelece a respectiva sinalização, incluindo o xadrez a pintar no asfalto. E há uma nota técnica sobre a instalação, com critérios geométricos, estudos prévios e lugares onde não convém pô-las. Uma nota técnica. Não uma lei, não uma portaria: uma nota. Tem critérios, tem números, tem estudos prévios. Só não tem força de lei. Num país onde pendurar um toldo exige licença, parecer e três fotocópias autenticadas, a obra mais agressiva da via pública fica entregue a critérios técnicos que não têm força vinculativa.

No meu ofício chamaríamos a isto um produto sem prospecto: toda a gente subscreve, ninguém leu as condições e quem paga é o cliente, em prestações, na oficina.

O trânsito, que não é parvo, foge para a rua sem lombas. A rua sem lombas enche-se, os moradores queixam-se, a junta ouve, e nasce mais uma lomba. É o ciclo de vida do coelho, com a diferença de que o coelho, ao menos, não custa seiscentos euros em amortecedores.

Entretanto a minha suspensão e eu seguimos o método de sempre: devagar, sem pressa, a pedir desculpa ao chão.

2026-09-29

Prazo de validade

Vinte e quatro horas. É quanto dura, por contrato tácito, uma vida inteira num ecrã. Passado o prazo, o conteúdo caduca como o iogurte, e ninguém se lembra de o ter comido.

Chamam-lhe efémero e vendem-no como leveza. Eu chamo-lhe amortização acelerada: o momento nasce já depreciado, lançado a custos de imagem, e o retorno mede-se em corações. Ninguém pergunta pelo capital. 

Faço o inventário, que é o que sei fazer: o pôr-do-sol que ninguém viu, porque estavam todos a filmá-lo; o jantar que arrefeceu à espera da fotografia; o concerto visto a três centímetros do telemóvel alheio; a dor, com filtro. 

O culto tem liturgia e tem clero. A liturgia é a hora óptima de publicação. O clero são os que já perceberam que a autenticidade é um género, com regras de estilo, e que a espontaneidade se ensaia. Há quem chore em directo com uma iluminação impecável. Não duvido da lágrima. Duvido do ângulo.

Deixou de ter opiniões e passou a ter posicionamento. Deixou de estar triste e passou a partilhar. Deixou de viver e passou a cobrir o evento, sendo o evento ele mesmo. Horas extraordinárias que ninguém lhe paga. 

O mais curioso é que o efémero, hoje, é precisamente o que fica registado. O que se apaga em vinte e quatro horas está guardado num servidor algures, com data, hora e localização. Os antigos temiam a posteridade; nós contratámos um arquivo sem os incómodos da memória. 

Ontem, à mesa, ninguém falou. Estavam todos ocupados a documentar o jantar. 

Nas fotografias, parecíamos felizes.

2026-09-22

A esperança veio tarde


Quando chegou, já eu tinha aprendido a viver sem ela. Trouxe uma pasta, dois formulários e a promessa, sempre a mesma, de que tudo se resolveria dentro do prazo previsto. Sentei-me no meu lugar na fila.

A sala tinha cadeiras de plástico presas ao chão, um número luminoso que não avançava e um cartaz a explicar direitos que ninguém ali parecia ter, afixado com o mesmo cuidado com que se ignora. Um homem repetia ao telefone que “ligava só para confirmar”, pela terceira vez em vinte minutos — a instituição mais eficiente da sala. Uma criança contava os azulejos do teto. Eu contava os formulários, como se recontá-los os tornasse mais eficazes.

Ao meu lado, uma gata dormia com a serenidade de quem não precisa de justificar a própria existência. Ninguém sabia de quem era, nem parecia importar a ninguém que estivesse ali, entre pastas e senhas, como mais um número sem luz. Pensei que talvez fosse essa a diferença entre nós: ela descansava porque estava cansada; eu descansava apenas quando já não conseguia continuar.

O número no ecrã avançou duas vezes e recuou uma. Ninguém se espantou.

No fim, nada se resolveu. Disseram-me para voltar dentro de trinta dias, com os mesmos formulários, talvez com um terceiro — a burocracia, generosa, sempre disposta a dar-nos mais uma oportunidade de falhar. Mas a gata abriu um olho, avaliou o desastre e voltou a dormir.

Foi a forma mais honesta de esperança que encontrei nesse dia.

2026-09-06

A carcaça

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

A economia da cunha

O semáforo da esquina esteve avariado catorze meses.

Não era uma avaria sofisticada. Não exigia inteligência artificial nem um engenheiro da NASA. Era um semáforo: duas ou três lâmpadas com uma função modesta — dizer às pessoas quando podiam avançar sem morrer.

Durante catorze meses, esteve amarelo para todos. Para os carros, para os peões, para quem vinha em sentido contrário.

Houve um acidente. Depois outro. As pessoas do prédio fizeram o que ainda se recomenda a quem acredita nas instituições: assinaram um papel, entregaram-no na Câmara, esperaram.

O semáforo continuou amarelo.

Até que o neto do vereador começou a andar de bicicleta naquela rua.

Resolveu-se em três dias. Apareceu alguém com uma chave de fendas e uma preocupação genuína pela segurança rodoviária que estivera catorze meses em licença sabática.

Ninguém disse "cunha". Disse-se "finalmente deram-lhe seguimento". Já nem é preciso esconder a cunha. Basta mudar-lhe o nome. Hoje chama-se contacto.

A minha avó praticava uma forma mais artesanal e mais honesta de corrupção afectiva. Levava uma caixa de pastéis a quem lhe tratasse dos papéis. Chamava-lhe "uma delicadeza". E havia qualquer coisa de reconfortante naquela transparência: toda a gente sabia ao que ia.

Hoje somos mais sofisticados. Já não levamos uma caixa de pastéis. Levamos um apelido, um primo, um grupo de WhatsApp que não tem nome porque não precisa. E, sobretudo, levamos a convicção de que aquilo que conseguimos não foi por cunha — foi por mérito.

Portugal é um país profundamente comprometido com a coincidência.

Há pessoas que passam meses a tentar marcar uma consulta, obter uma licença, resolver um processo. E há outras que dizem: "Deixa estar, eu conheço lá uma pessoa." Essa frase é o horário de funcionamento não oficial de todos os serviços públicos.

Mas quase nunca vemos quem fica do lado de fora. A pessoa que esperou. Que cumpriu os prazos todos, que entregou os documentos todos, que não conhecia ninguém. Essa pessoa é a moeda da economia da cunha: paga com tempo. E quando se cansa, paga deixando de tentar.

Não aparece em lado nenhum. Nem nas estatísticas, nem na conversa de café, nem sequer na sua própria indignação, porque já se convenceu de que foi apenas azar.

O semáforo está verde há dois anos. Ninguém pergunta porquê.

Não corrigimos o sistema. Corrigimos a memória.

2026-09-02

O direito ao silêncio

Há coisas que não deviam ser consumidas em massa. A morte, certamente, merecia maior pudor.

Não digo que devêssemos fechar os olhos ao horror. Há mortes que precisam de ser notícia. Há crimes que precisam de ser denunciados. Mas há uma diferença entre informar e consumir. E tenho a sensação de que já não sabemos onde acaba uma coisa e começa a outra.

Acontece uma tragédia e, em poucas horas, sabemos o nome do morto, o nome do assassino, a cara do assassino, a cara da vítima, a sua infância, os seus vizinhos, o que publicou há sete anos numa rede social e, se houver tempo, até a marca dos sapatos que usava no dia.

Depois vêm os comentadores. Depois vêm os especialistas. Depois vêm as reconstituições. Depois vêm os vídeos em loop. Depois vêm as imagens que ninguém precisava de ver pela décima vez, mas que alguém decidiu que precisávamos de ver porque a audiência também precisa de ser alimentada.

E, no meio disto tudo, há uma família a escolher que fotografia levar para o velório, enquanto nós escolhemos que vídeo partilhar.

É aqui que me pergunto: onde termina o que é notícia e onde começa o que já é espetáculo?

Porque há uma perversidade particular em certos actos de terrorismo: não basta matar. É preciso ser visto. É preciso ocupar espaço, provocar medo, entrar na cabeça de milhões de pessoas.

E nós, com a nossa infinita disponibilidade para olhar, acabamos por entregar exactamente aquilo que era pretendido: uma audiência, um nome, uma narrativa. Os minutos de antena que talvez fossem parte do prémio.

Informar que houve um atentado é impedir que o medo fique abstracto. Mostrar o rosto do assassino em loop é transformá-lo em mito. Há acontecimentos que precisam de ser conhecidos sem precisarem de ser exibidos até à exaustão.

Há mortos que merecem ser lembrados sem que a sua morte seja transformada em conteúdo.

E há monstros que não precisam de tanto tempo de antena. Precisam, precisamente, do nosso silêncio.

Porque talvez a pergunta não seja o que temos o direito de saber.

Talvez devêssemos começar a perguntar o que estamos a ajudar a acontecer ao repetir isto pela centésima vez.

A informação é um direito.
A atenção tornou-se o prémio.

E nós andamos a distribuí-lo de graça.

2026-09-01

Não se interrompe quem está a fazer

Há uma regra básica da humanidade que continua inexplicavelmente por escrever nos manuais: se uma mulher está a fazer uma coisa que um homem disse que não podia ser feita, não a interrompas.

Não perguntes como está a fazer.
Não expliques como tu farias.
Não digas «isso não vai resultar».

E, sobretudo, não apareças cinco minutos depois com a frase:
— Estás a precisar de ajuda?

Não.
Neste momento, ela não precisa de ajuda. Precisa que te afastes lentamente, sem movimentos bruscos, como quem se aproxima de um animal selvagem.

Porque ela já passou pela fase da dúvida.
Já passou pela fase da irritação.
Está agora naquela zona luminosa em que uma pessoa deixa de querer provar que consegue e passa simplesmente a querer ver a cara de quem disse que não conseguia.

E há uma satisfação muito particular em terminar uma coisa que nos disseram ser impossível.
Não é vingança.
É serviço público.

2026-08-31

Clarabóia por telhado

Sou viciada em café e cigarros. É isto. Não é charmoso, não é estética de Instagram. É vício velho, de gente ansiosa. Acordo e o corpo pede logo as duas coisas.

“Podia ser pior”, dizem. Pois podia. Podia estar agarrada a pó, a apostas, a comprar merda que não preciso, a foder com desconhecidos só para não ficar sozinha, a viver nos comentários dos outros. Podia ser viciada em ser boa pessoa na internet. Isso é capaz de ser pior.

Não sou. Fiquei-me por isto. Café que me lixa o estômago e tabaco que me lixa o resto. Veneno com horário fixo.

Tenho uma clarabóia no telhado. Não vejo o mundo dali. Vejo um quadrado de céu sujo, a antena ferrugenta do prédio e, de vez em quando, uma gaivota que também não sabe bem onde está. Quando chove, embacia. Quando está sol, queima. Não me ilude.

Por isso não me meto muito na vida dos outros. Tenho telhados de vidro. Posso ver a rua, posso comentar para dentro. Agora, atirar pedras? Não.

Cada um que carregue a merda do seu calhau. O meu já me pesa que chegue. O dos outros só me interessa quando me cai em cima do pé.

2026-08-30

Quem com ICE prende, com ICE é preso


Há dias em que a realidade escreve o texto por nós e ainda nos deixa a tarefa fácil: basta não atrapalhar. O destino, esse contabilista cínico, não precisa de metáforas — só de tempo.

Milo Yiannopoulos, especialista em transformar ódio em carreira, foi apanhado pelo ICE no aeroporto de Nova Orleães e devolvido ao Reino Unido como quem devolve mercadoria defeituosa. O homem que passou anos a exigir deportações em massa, a defender que “milhões e milhões e milhões” deviam ser expulsos sem cerimónia, descobriu que a máquina que ele próprio ajudou a lubrificar não distingue entre inimigos e arquitectos.

É a velha história do carrasco que se esquece de que a lâmina não tem memória. Milo avisou-se a si próprio, repetidamente, em directo, com a convicção de quem constrói a própria armadilha e ainda se orgulha da engenharia. Depois surpreendeu-se por ser o primeiro a cair nela. Não é ironia. É incompetência estratégica.

A frase bíblica — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — é demasiado suave para o caso. Aqui não há moral, nem castigo divino, nem lição. Há só um sistema administrativo que funcionou exactamente como foi desenhado: um algoritmo burocrático que não lê currículos, não reconhece celebridades de nicho, não distingue entre o pregador e o alvo. O nome apareceu no ecrã, o protocolo avançou, e pronto: mais um número processado.

A crueldade que ele aplaudiu quando caía sobre os outros perdeu o charme quando lhe bateu à porta. É sempre assim: a violência política é um espectáculo até ao momento em que o bilhete tem o nosso nome.

Não sinto pena. Não sinto triunfo. Sinto apenas a precisão fria de uma máquina que, pela primeira vez, se lembrou de incluir o nome dele na lista. Não é karma. Não é justiça poética. É contabilidade: o débito chegou, e o sistema, implacável, cobrou.

2026-08-28

A Imortalidade do Inútil

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

2026-08-25

Vinte e dois anos de fuga

Ontem, a Voz em Fuga fez anos.

Nasceu a 24 de agosto de 2004, numa altura em que os blogues ainda eram uma coisa com alguma dignidade: não havia reels, não havia algoritmos a decidir se merecíamos existir, não era preciso dançar para a câmara nem começar um texto com “ninguém vos prepara para isto”.

Havia palavras.

E eu tinha coisas para dizer.

Muitas delas ficaram pelo caminho. Outras envelheceram mal. Algumas, felizmente, desapareceram sem deixar morada. Mas há textos que continuam por aqui, como aquelas fotografias antigas em que reconhecemos a cara mas já não reconhecemos inteiramente a pessoa.

A Voz em Fuga foi mudando comigo. Já foi diário, desabafo, esconderijo, observatório, campo de batalha e, sobretudo, lugar para onde fugir quando o mundo se tornava demasiado barulhento.

Entretanto, passaram-se 22 anos.

Vinte e dois.

Há relações que não duram tanto. Há governos que não duram tanto. Há penteados de que nos arrependemos por muito menos tempo.

E, contra todas as probabilidades, a Voz continua aqui.

Talvez porque nunca tenha sido propriamente um blogue.

Talvez seja uma espécie de casa.

Uma casa desarrumada, com livros por todo o lado, gatos a atravessar o corredor, algumas teias de aranha e uma quantidade pouco recomendável de pensamentos inúteis.

Mas é minha.

E ainda há uma voz lá dentro.

Obrigada a quem, ao longo destes vinte e dois anos, entrou pela porta, leu, comentou, discordou, riu, ficou em silêncio ou simplesmente passou por aqui.

A Voz em Fuga continua.

E eu também.

Ainda bem.

2026-08-23

Peões a cair

Sina, destino, os deuses a jogar xadrez connosco — isto é conversa para quem tem tempo e gosta de um sotaque dramático. A mim, a vida trata-me a granel, sem tabuleiro, sem rei, só peões a cair. Uns caem cedo, outros tarde, e ninguém me perguntou a ordem.

Se calhar é isso que me incomoda mais do que a Morte em si: a falta de critério. Não há mérito, não há castigo, há só a estatística a fazer o seu trabalho, indiferente a quem estava a meio de uma frase.

Eu queria acreditar que havia uma mão. Mesmo que fosse cruel, ao menos teria cinco dedos. Teria intenção. Dava para discutir, para insultar, para pedir. Mas não há mão. Há um corredor de supermercado às nove da noite, com a luz fria a zumbir, e uma chamada que não se atende a tempo. Há um exame que deu bem e outro que deu mal. E era o mesmo corpo.

O meu pai morreu há menos de um mês.Não foi trágico. Não foi bonito. Não foi nada. Foi um homem que um dia acordou, tomou o pequeno-almoço e, à noite, já não estava. Só o silêncio.

E agora tenho de “fazer o luto”. Palavra ridícula. Soa a trabalho de casa: hoje tens de chorar, amanhã tens de te lembrar, na próxima semana tens de aceitar. Como se a morte fosse um plano de aulas e eu uma aluna aplicada.

Mas eu não quero aceitar. Não quero aprender nada com isto. Não há lição. Não há moral. Não há porra nenhuma que se aproveite desta merda.

Dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo apaga. E eu não quero esquecer. Não quero que o cheiro dele se dissipe, não quero que a voz dele se torne uma gravação gasta, não quero que a falta dele passe a ser o meu normal.

Mas também não vou regar a dor como se fosse uma planta. A morte não é um jardim. Não cresce nada aqui.

Não é injusto. O injusto ainda tem paixão. Isto é pior. É burocrático. A morte carimba ponto e não olha para a cara.

A gente cresce a ouvir que tudo tem um porquê — mentira piedosa de avó. O que há é isto: estavas a meio do pão, a meio do livro, a meio de te desculpares. E cai o peão ao lado. Sem estrondo. Só cai. E tu ficas ali, de pé, com a faca do pão na mão.

E no entanto continuamos. Não por coragem. Por teimosia de peão.

Fazemos café. Dobramos roupa. Dizemos “até amanhã” como quem assina um contrato sem ler. Não porque acreditamos no jogo. Mas porque, enquanto não nos toca a nós cair, há esta frase por acabar.

E eu quero acabá-la.

2026-08-21

Ler o Vimana como manual da IKEA

Há uns milhares de anos, alguém na Índia escreveu sobre um carro voador dourado, capaz de atravessar continentes — a Pushpaka Vimana do Ramayana. Poesia épica, simbolismo religioso, uma bela metáfora sobre poder divino e destino. Devia ter ficado por aí. Mas não.

Em 1923, um místico indiano alegou ter recebido por via psíquica um texto ainda mais antigo, o Vaimanika Shastra. Já não era poesia. Era supostamente um manual técnico, com capítulos sobre hélices, ligas metálicas e motores a mercúrio. Porque, aparentemente, uma tese só ganha estatuto científico se envolver metais pesados e vocabulário esotérico.

Foi aí que o literalismo moderno — essa incapacidade crónica de ler entrelinhas — fez o seu truque favorito: pegou no mito e leu-o como se fosse um manual da IKEA mal traduzido. O carro voador passou a aeronave, o símbolo virou esquema eléctrico, e ficámos todos à procura do parafuso Allen que faltava nos Vedas.

Depois vieram os outros. Os mesmos que traduziram o Enuma Elish como relatório de aterragem. Os Anunnaki sumérios que aterraram para ensinar geometria porque, claro, a humanidade nunca teria chegado lá sozinha.

É a fórmula perfeita: a arqueologia fantástica como álibi elegante para despojar a humanidade da sua própria inteligência. Sobretudo a humanidade errada.

Stonehenge também tem a sua quota de discos voadores na cultura popular, é certo. Mas ali raramente se questiona a continuidade. Ninguém duvida que os britânicos de hoje descendem de gente capaz de arrastar pedras. Chegue-se a Gizé, a Tenochtitlán ou a Cuzco, e de repente há um corte. A engenharia de precisão torna-se uma ocorrência paranormal. Os egípcios sabiam construir, sim — mas alguém lhes deve ter ditado as equações.

Talvez um extraterrestre. Talvez um caucasiano. Idealmente, ambos.

O mecanismo é particularmente curioso. Quando lemos os mitos indianos ou o Enuma Elish, percebemos que estamos perante cosmologias: histórias que os seres humanos inventaram para explicar o mundo, os deuses, o destino e o lugar que ocupavam no meio de tudo aquilo.

O problema não é só o que esse roubo faz ao passado. É o que treina o cérebro para fazer no presente.

Porque, quando se aprende a ler uma narrativa simbólica como se fosse um relatório factual, não é difícil acabar a fazer o mesmo com as narrativas do nosso tempo. Já não temos cosmologia. Temos a Terra plana, répteis no parlamento e governos secretos comandados por sabe-se lá quem. O pensamento simbólico dá lugar à conspiração e a vontade de compreender o mundo transforma-se numa revelação privada: eu sei o que vocês ainda não perceberam.

No fundo, trocámos os deuses por extraterrestres e chamámos-lhe abertura de espírito.

Antes, a divindade descia para inspirar a alma; agora, o alienígena desce para ensinar a fazer argamassa. Tão obcecados ficámos com a tecnologia que até os nossos mitos sofreram um downgrade funcional.

E há uma diferença fundamental, quase trágica.

Os antigos diziam: os deuses inspiraram-nos a fazer isto.

Nós dizemos: os humanos eram demasiado ignorantes para ter feito isto.

Inventámos extraterrestres para não termos de admitir a grandeza intelectual daqueles que nos precederam.

Talvez seja essa a parte mais estranha da história. Os antigos precisavam de deuses para explicar os seus feitos. Nós precisamos de aliens para lhes tirar o mérito.

2026-08-14

O purgatório do saber inútil

Sei muito pouco de quase tudo, mas trago na memória um amontoado de saberes sem utilidade. Seria a concorrente perfeita de um qualquer concurso televisivo — esse purgatório do saber inútil onde se premeia quem sabe tudo e não percebe nada. Debito informação acumulada sem a questionar, pescando-a de um arquivo mental que faria melhor em abrir espaço ao que realmente importa.

Gostava, por exemplo, de reter nomes — coisa que raramente acontece. Irrito-me ao reconstruir cadeias de factos circunstanciais que despejo no interlocutor, na esperança de que, do outro lado, surja o nome que me escapa. Sei pormenores irrelevantes, mas falho no essencial.

Tenho facilidade em fixar minúcias: palavras em desuso que só regressam quando escrevo, detalhes sem préstimo. Esqueço caras. O disco, ao que parece, tem prioridades. Esqueço pessoas por inteiro, se não deixaram marca — e nem sempre é a pessoa que decide o que conta como marca. Perco-me nessas genealogias improvisadas — “o irmão do primo da Maria, casado com a Engrácia, aquela da sala ao lado no 9.º ano, da vespa azul às risquinhas”. Fico no primo. Nunca chego à Engrácia, muito menos à vespa.

Chamo-lhe memória selectiva, mas nem sequer é selectiva o suficiente: selecciona mal e sem me consultar. Preferia uma memória funcional, menos saturada de irrelevâncias. Dava jeito lembrar caras. Dava jeito lembrar nomes. Dava jeito, sobretudo, saber apagar o ruído e guardar o que faz falta — sobretudo na interlocução, onde tantas vezes falho.

No fundo, precisava de menos arquivo e mais critério. A minha memória pede um upgrade. Como tantas outras coisas, terá de esperar.

O homenageado

«Festejou-se o aniversário de um homem muito modesto. E apenas no final do banquete é que se percebeu que alguém não tinha sido convidado: o festejado.»
Anton Tchekhov

Modéstia, dizem, é virtude rara. Tão rara que, naquele banquete, se esgotou antes mesmo de o homenageado chegar à porta — porque ninguém se lembrou de o convidar. Brindou-se ao seu bom-gosto, à sua discrição, à sua elegante ausência de vaidade. Ergueram-se taças à saúde de um homem que, coitado, estava em casa, provavelmente também ele demasiado modesto para perguntar por que razão não fora chamado à própria festa.

No fim, todos concordaram: fora a celebração mais sincera que já tinham visto. Sem o risco de o festejado, com a sua presença inconveniente, estragar o discurso sobre como ele era humilde.

Há quem confunda modéstia com desaparecimento. E há festas que só correm bem precisamente porque o motivo delas teve o bom senso de não comparecer.

2026-08-12

Lagostim de agosto

Começam a chegar em Julho, pálidos como hóstias, vestidos de linho caro e expectativa. Trazem factor cinquenta na mala e uma fé cega no sol português, como se este fosse mais generoso do que o deles só por estar a sul. E o sol, esse cínico, não os desilude: ao fim de vinte minutos de esplanada já estão da cor de um marisco cozido, a pele em festa, o "ai" a tornar-se dialecto.

Eu, por outro lado, fico ali sentada, intacta, a ver o espectáculo com o distanciamento de quem já sabe como a peça acaba. A minha pele não se rende a drama nenhum. Aloira, talvez, com a paciência de quem envelhece um queijo — devagar, sem euforia — e nunca, nunca chega ao vermelho. É como se o sol olhasse para mim e decidisse que não vale a pena a encenação toda.

Há qualquer coisa de profundamente injusto nisto, confesso. Eles pagam a viagem, o hotel, o guia turístico que lhes mente sobre a autenticidade das sardinhas, e ainda pagam com a pele, em queimadura pura. Eu não pago nada. Fico ali, bronze insuportavelmente razoável, enquanto ao meu lado um dinamarquês se transforma lentamente num pimento assado, perguntando à mulher, entre gemidos, se "isto é normal".

É, meu caro. É Portugal. Aqui o sol não faz distinções de classe, mas faz — e com gosto — distinções de pigmento.

2026-08-10

(Des)culpas

Nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã nos ensinou a carregar, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba, acho que só lá esteve sempre para enganar...

E se enganava, o que sobra?

Sobra este reflexo quase automático: pedir desculpa por estar bem. Baixar os olhos quando a alegria é grande demais. Dizer “é só uma fase boa”, como quem diz “não se preocupem, já passa”.

Fomos ensinados a fazer a gestão da infelicidade. A dar-lhe nome, novena, terapia, conversa. À felicidade, não. A felicidade tem que ser merecida, moderada, dividida em porções pequenas para não dar inveja a ninguém — nem a Deus, nem aos outros, nem a nós próprios.

O medo e a culpa lidam mal com a felicidade porque a felicidade não pede licença. Acontece. Chega sem curriculum. Sem ter feito por merecer. E isso, numa cultura de mérito e castigo, é quase obsceno.

Talvez des-culpar seja isso. Não é ficar sem culpa. É aprender a ficar com a felicidade mesmo com a culpa ao lado, a resmungar no canto.

Não mandar a culpa embora. Só deixar de lhe dar a presidência da mesa.

Não dizer “desculpem a felicidade”. Dizer “olhem, estou feliz. Apesar de tudo. Com tudo. E fico mais um bocado.”

Pegada

Se uma vida for passada num total isolamento, se não houver quem lhe tenha visto os pormenores, os bons e os maus, se nada sobrar na memória dos outros, então essa vida foi esgotada, apagada e nada sobra depois.

Se, pelo contrário, por actos, por presenças, por carinhos, por memórias, uma vida ganhar espaço na história de outro, nem que seja de forma leve, fugidia, então há uma memória que não se perde, há uma ínfima possibilidade de eternidade, recontada em tom de história pelas palavras de outros que a conheceram, reconheceram, fizeram sua.

A perenidade da memória — dos outros na nossa memória; nossa na memória dos outros — talvez seja uma forma de contrariar o vazio do esquecimento. Não sei se é eternidade, nem se alguma coisa nos espera depois do fim. Sei apenas que, enquanto alguém se lembrar de nós, alguma coisa daquilo que fomos continua a existir na vida de outro. 

Não sei o que existe depois; sei o que podemos deixar uns nos outros.

2026-08-09

Medo

Às vezes penso que a ideia de viver no medo é muito mais aterrorizante do que o próprio medo. E às vezes parece-me que vivemos numa sociedade que, cada vez mais, explora o medo como se fosse a única forma de controlo possível sobre as almas, agora que os pecados foram (quase) todos apeados. Como se o medo fosse a nova arma esgrimida por quem nos tenta controlar os dias, quando os velhos nós se desfazem e as regras antigas são repensadas.

E tenho medo da forma fácil como o medo é aceite. Tão fácil que se prescinde de pequenos nacos de liberdade todos os dias, abocanhados pelo medo fabricado que se instala e nos corrói o âmago.

2026-08-07

Catrineta

E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.

É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim. 

Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.

Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.

Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.

Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.

É um buraco negro. Suga.

De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.

É um monstro. 

Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.

(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)

2026-08-04

A outra margem

O mar entre Marrocos e Espanha já não é um estreito. É o intervalo entre uma esperança e um obituário.

2026-07-30

Kyrie eleison

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia

2026-07-29

Menu de degustação de melgas e mosquitos

Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.

Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.

De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.

Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.

Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.

2026-07-27

Antes que tudo se esqueça


Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.


Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.


Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.


E conta-me.


Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.

2026-07-26

Elogio do sapato feio


Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa. São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não entusiasma ninguém, mas que se recusa obstinadamente a desaparecer.

Durante anos, os Crocs ocuparam um lugar muito específico no imaginário coletivo: o lugar das coisas que os outros usam. Médicos em turnos impossíveis. Jardineiros. Pessoas que claramente tinham desistido de seduzir alguém. Nós observávamos à distância, confortavelmente instalados na nossa superioridade estética.

Depois a vida acontece.

As costas começam a emitir opiniões. Os pés tornam-se mais exigentes. Descobrimos que passar três horas em pé é uma atividade física e que a elegância raramente ajuda a descarregar compras do supermercado.

É nesse momento que os Crocs aparecem. Não fazem publicidade agressiva. Não prometem transformar a nossa vida. Limitam-se a existir, pacientes, à espera que a realidade faça o trabalho por eles.

Primeiro achamo-los horríveis.
Depois experimentamo-los.
Depois começamos a justificar a experiência com argumentos técnicos. Por fim, damos por nós a usá-los para ir ao correio, ao jardim ou à padaria, convencidos de que ninguém está a reparar. Entretanto, passamos a reparar noutra coisa.

A maioria das decisões da vida adulta acaba por seguir o mesmo percurso. Começamos com princípios. Terminamos com soluções. 

Os Crocs não são um sapato. São um tratado filosófico sobre o envelhecimento. Lembram-nos que chega uma altura em que deixamos de perguntar se uma coisa é bonita e começamos a perguntar se funciona. E há uma liberdade inesperada nisso.

Porque talvez a maturidade consista precisamente em abandonar algumas batalhas impossíveis. Entre elas, a de parecer permanentemente elegante enquanto se tenta apenas atravessar uma terça-feira.

Os Crocs são feios. Mas também nós já não somos exatamente quem éramos. Talvez seja por isso que nos entendemos tão bem.

2026-07-25

Modo Avião

Há anos que a ciência tenta compreender a audição selectiva. Eu não preciso. Pratico-a diariamente, com a disciplina de uma atleta olímpica e sem qualquer ajuda de cerúmen. Aliás, os meus ouvidos estão impecáveis. O filtro não está no canal auditivo. Está no córtex. Onde deve estar.

Funciona assim: «tens razão» entra com a clareza cristalina de uma notificação do MB Way a dizer que recebi dinheiro. Já «precisamos de conversar» sofre uma quebra de sinal abrupta algures entre o tímpano e a minha vontade de viver. Não ouço. Não por mal. Por curadoria editorial.

Porque vamos ser honestos: a audição selectiva não é defeito. É o meu cancelamento de ruído natural, muito antes de a Apple achar que inventou alguma coisa.

Graças a ele, consigo viver décadas — ou pelo menos desde 2014 — sem ouvir frases como «quando é que assentas?», «não achas que estás muito exigente?» e, a minha favorita de sempre, «se calhar o problema és tu que pensas demais».

Ouço o que interessa. O resto fica em modo avião.

O problema começa quando me dá a loucura da funcionalidade. Quando decido ser uma adulta que enfrenta tudo de frente. Limpo a caixa de entrada, respondo a mensagens pendentes desde 2018, digo que sim a jantares com segundas intenções óbvias.

De repente, o mundo entra sem filtro. Sem gatilho. Sem legenda a dizer «isto vai dar asneira».

E descubro que nada desapareceu. Aquela conversa que deixei em visto, aquele «depois logo vemos», aquele convite para «um café sem compromisso» — tudo esteve ali, pacientemente arquivado à espera que eu ligasse o som.

E percebo, tarde demais, a regra de ouro que devia estar no SNS24:

Há limpezas que não são de higiene. São de risco à paz interior.

Por isso, por uma questão de coerência e saúde mental, mantenho o meu sofisticado sistema de cancelamento selectivo ligado.

O meu otorrino diz que estou ótima. Eu digo-lhe que sim, enquanto vou pensando o que fazer para o jantar.