2026-11-02
E o resto é decoração
2026-10-31
Manual breve para noites fora do calendário
2026-10-29
Pro rata temporis
2026-10-28
Chuva
2026-10-26
Democracia à la carte
2026-10-23
Humanizar-me
2026-10-22
O preço do medo
2026-10-21
Pancas, manias e outras formas de civilização
Há coisas que me agridem fisicamente. Não é maneira de dizer. É mesmo o corpo a reagir, a pele a eriçar-se e a vontade de fugir a instalar-se antes de o cérebro ter tempo de se pronunciar.
Mãos com unhas roídas, por exemplo. Só de imaginar que tenho de cumprimentar uma mão assim, arrepio-me toda num nojo total e absoluto. Não falo, evidentemente, daquelas unhas ratadas que mal se percebe terem sido roídas; para essas, as minhas dioptrias são um feliz acaso. Falo daqueles dedos onde já nem há unha, apenas sabugos sangrentos, horripilantes, de carnívoro ensandecido.
Depois há os olhos. Não me refiro tanto aos que olham um para cada lado, cada qual entregue à sua própria vida, um aqui e outro no infinito. Esses ainda vá. O meu problema são os que convergem para o nariz, como se estivessem a tentar encontrar-se a meio do caminho. Ora, como não sei falar com as pessoas sem as olhar nos olhos, passo agruras a tentar impedir que os meus entortem também, num jogo de reflexos que me deixa a conversar e, em simultâneo, a gerir uma emergência oftalmológica imaginária. Talvez por isso os que se desviam para fora me incomodem menos: não consigo mimar o gesto. Ainda assim, já dei por mim a encurtar conversas e a evitar pessoas por causa desta relação muito, mas mesmo muito inconveniente com a geometria ocular alheia. A diplomacia tem limites. Os meus passam, aparentemente, pela convergência.
Também acabo as palavras aos gagos. Não sou boa pessoa.
Com a burrice, a coisa muda de figura. Sobretudo quando vem armada em esperteza. A ignorância não me incomoda por aí além: ninguém nasce ensinado, ninguém sabe tudo e há sempre qualquer coisa que nos escapa, por muito que o ego se esforce por ocupar o espaço todo. Também não falo de falta de cultura ou de educação. O que me tira do sério é a cabeça oca com pretensões a cátedra, a criatura que abre a boca e transforma o silêncio, até então uma coisa perfeitamente banal, num bem precioso e irrecuperável. A primeira reacção é quase sempre a mesma: enfiar-lhe um par de estalos que lhe permita voltar a fechar os queixos, nem que seja por uns minutos, e poupar o mundo à próxima descarga de disparates.
Reconheço que isto faz de mim uma grandessíssima snobe, e duvido que esteja em idade de me reformar moralmente a este respeito. Falo da gente que se dedica a transformar objectos em demonstrações de estatuto, na esperança de que o recheio da casa compense as sinapses em falta. A inteligência não se compra. O que se compra é um relógio, um automóvel ou uma carteira com um preço capaz de fazer o vizinho engolir em seco. O resto é decoração.
Em casa, por outro lado, sou perfeitamente razoável. Ou quase.
As canecas, por exemplo, têm um lugar. Não um lugar aproximado, uma zona geográfica ou uma vaga indicação de que pertencem ao armário da cozinha. Têm um lugar. Os copos ainda vá, mas mudarem-me as canecas de sítio é motivo para começar a fumegar. Uma vez, duas, até três, sobretudo se estivermos apaixonados pelo infractor. Depois disso, a conversa deixa de ser sobre canecas e passa a ser sobre a possibilidade de a pessoa reunir condições mínimas para continuar a habitar o mesmo espaço que eu. Em casos extremos, a porta da rua pode tornar-se a serventia da casa. Há limites para o amor, e um deles é a reorganização unilateral da loiça.
Os livros também têm a sua ordem, e essa ordem não está aberta a interpretações criativas. Não se arrumam por aproximação, por cor ou por inspiração súbita de quem decidiu fazer uma surpresa. Há sistemas. Há uma lógica. Há uma arquitectura mental que, por razões que não me compete explicar a quem não a compreende, funciona. Desmontá-la equivale a entrar numa biblioteca, trocar as lombadas todas de sítio e depois anunciar que se fez uma melhoria na circulação.
Consigo ser muito mais tolerante com coisas que, em teoria, deveriam dar cabo da minha sanidade. Pratos e talheres fora do sítio, toalhas mal arrumadas, roupa suja abandonada fora do cesto, tampa da sanita levantada. Tudo isso me irrita, claro, mas pertence ao domínio das falhas humanas reconhecíveis. A caneca fora do lugar, não. A caneca fora do lugar é uma provocação pessoal.
E depois há a cama.
Não interessa se o lado esquerdo ou o direito, porque essa distinção é irrelevante. O meu lado é o lado da janela. Ponto final, parágrafo. Não há negociação, consulta pública ou referendo doméstico que altere esta disposição. A cama tem, além disso, de me permitir dormir com os bracinhos por cima da cabeça, em arco, numa pose de bailarina que perdeu o palco e encontrou finalmente um colchão. É assim que durmo. Sempre foi assim, ou pelo menos desde que me lembro de dormir, e não tenciono iniciar agora um programa de reeducação postural para acomodar as preferências de terceiros.
Não me perguntem porquê. Não sei. Também não tentem enganar-me, convencidos de que, uma vez adormecida, qualquer lado serve. O mais provável é que eu acabe do lado certo da cama, nem que para isso tenha de empurrar quem lá estiver para o meio do chão.
O mundo é grande. Há espaço para todos. Desde que não me mudem as canecas.
2026-10-20
O espírito dos tempos
2026-10-15
Aquela máquina!
2026-10-10
Hitler Mussolini, político de esquerda
2026-10-08
O chão que fica
2026-10-05
Viva a República!
República
A avenida parece suspensa no tempo, como se tivesse parado para ouvir o arrastar lento daquele passo. No meio do asfalto vazio, a figura solitária avança com determinação silenciosa, levando ao ombro um pedaço inteiro de país. O verde e o vermelho ondulam pesados, quase a tocar o chão, como se também eles carregassem memórias acumuladas de décadas.
Não há pressa. Não há cortejo. Não há multidão. Apenas o gesto — simples, teimoso, insistente — de alguém que recusa deixar que o símbolo fique guardado numa gaveta ou pendurado num mastro esquecido. A bandeira segue à frente, maior que o próprio corpo que a transporta, desproporção que diz mais sobre força interior do que qualquer demonstração pública.
Os ciclistas, os poucos transeuntes, o trânsito que não vem: tudo fica em segundo plano perante esta marcha solitária. Não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Não interessa. Há momentos que não pedem legenda, pedem presença. E este é um deles. Uma afirmação muda, mas firme, de que há gestos que não precisam de público para serem inteiros.
No fim, o que fica é a imagem de alguém que leva o país ao ombro — não como peso, mas como destino. Uma figura pequena na imensidão da avenida, mas enorme na persistência de seguir em frente.
2026-10-01
Pedagogia da Suspensão
2026-09-29
Prazo de validade
2026-09-22
A esperança veio tarde
Quando chegou, já eu tinha aprendido a viver sem ela. Trouxe uma pasta, dois formulários e a promessa, sempre a mesma, de que tudo se resolveria dentro do prazo previsto. Sentei-me no meu lugar na fila.
A sala tinha cadeiras de plástico presas ao chão, um número luminoso que não avançava e um cartaz a explicar direitos que ninguém ali parecia ter, afixado com o mesmo cuidado com que se ignora. Um homem repetia ao telefone que “ligava só para confirmar”, pela terceira vez em vinte minutos — a instituição mais eficiente da sala. Uma criança contava os azulejos do teto. Eu contava os formulários, como se recontá-los os tornasse mais eficazes.
Ao meu lado, uma gata dormia com a serenidade de quem não precisa de justificar a própria existência. Ninguém sabia de quem era, nem parecia importar a ninguém que estivesse ali, entre pastas e senhas, como mais um número sem luz. Pensei que talvez fosse essa a diferença entre nós: ela descansava porque estava cansada; eu descansava apenas quando já não conseguia continuar.
O número no ecrã avançou duas vezes e recuou uma. Ninguém se espantou.
No fim, nada se resolveu. Disseram-me para voltar dentro de trinta dias, com os mesmos formulários, talvez com um terceiro — a burocracia, generosa, sempre disposta a dar-nos mais uma oportunidade de falhar. Mas a gata abriu um olho, avaliou o desastre e voltou a dormir.
Foi a forma mais honesta de esperança que encontrei nesse dia.
2026-09-06
A carcaça
A economia da cunha
2026-09-02
O direito ao silêncio
2026-09-01
Não se interrompe quem está a fazer
2026-08-31
Clarabóia por telhado
2026-08-30
Quem com ICE prende, com ICE é preso
Há dias em que a realidade escreve o texto por nós e ainda nos deixa a tarefa fácil: basta não atrapalhar. O destino, esse contabilista cínico, não precisa de metáforas — só de tempo.
Milo Yiannopoulos, especialista em transformar ódio em carreira, foi apanhado pelo ICE no aeroporto de Nova Orleães e devolvido ao Reino Unido como quem devolve mercadoria defeituosa. O homem que passou anos a exigir deportações em massa, a defender que “milhões e milhões e milhões” deviam ser expulsos sem cerimónia, descobriu que a máquina que ele próprio ajudou a lubrificar não distingue entre inimigos e arquitectos.
É a velha história do carrasco que se esquece de que a lâmina não tem memória. Milo avisou-se a si próprio, repetidamente, em directo, com a convicção de quem constrói a própria armadilha e ainda se orgulha da engenharia. Depois surpreendeu-se por ser o primeiro a cair nela. Não é ironia. É incompetência estratégica.
A frase bíblica — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — é demasiado suave para o caso. Aqui não há moral, nem castigo divino, nem lição. Há só um sistema administrativo que funcionou exactamente como foi desenhado: um algoritmo burocrático que não lê currículos, não reconhece celebridades de nicho, não distingue entre o pregador e o alvo. O nome apareceu no ecrã, o protocolo avançou, e pronto: mais um número processado.
A crueldade que ele aplaudiu quando caía sobre os outros perdeu o charme quando lhe bateu à porta. É sempre assim: a violência política é um espectáculo até ao momento em que o bilhete tem o nosso nome.
Não sinto pena. Não sinto triunfo. Sinto apenas a precisão fria de uma máquina que, pela primeira vez, se lembrou de incluir o nome dele na lista. Não é karma. Não é justiça poética. É contabilidade: o débito chegou, e o sistema, implacável, cobrou.
2026-08-28
A Imortalidade do Inútil
2026-08-25
Vinte e dois anos de fuga
Ontem, a Voz em Fuga fez anos.
Nasceu a 24 de agosto de 2004, numa altura em que os blogues ainda eram uma coisa com alguma dignidade: não havia reels, não havia algoritmos a decidir se merecíamos existir, não era preciso dançar para a câmara nem começar um texto com “ninguém vos prepara para isto”.
Havia palavras.
E eu tinha coisas para dizer.
Muitas delas ficaram pelo caminho. Outras envelheceram mal. Algumas, felizmente, desapareceram sem deixar morada. Mas há textos que continuam por aqui, como aquelas fotografias antigas em que reconhecemos a cara mas já não reconhecemos inteiramente a pessoa.
A Voz em Fuga foi mudando comigo. Já foi diário, desabafo, esconderijo, observatório, campo de batalha e, sobretudo, lugar para onde fugir quando o mundo se tornava demasiado barulhento.
Entretanto, passaram-se 22 anos.
Vinte e dois.
Há relações que não duram tanto. Há governos que não duram tanto. Há penteados de que nos arrependemos por muito menos tempo.
E, contra todas as probabilidades, a Voz continua aqui.
Talvez porque nunca tenha sido propriamente um blogue.
Talvez seja uma espécie de casa.
Uma casa desarrumada, com livros por todo o lado, gatos a atravessar o corredor, algumas teias de aranha e uma quantidade pouco recomendável de pensamentos inúteis.
Mas é minha.
E ainda há uma voz lá dentro.
Obrigada a quem, ao longo destes vinte e dois anos, entrou pela porta, leu, comentou, discordou, riu, ficou em silêncio ou simplesmente passou por aqui.
A Voz em Fuga continua.
E eu também.
Ainda bem.
2026-08-23
Peões a cair
2026-08-21
Ler o Vimana como manual da IKEA
2026-08-14
O purgatório do saber inútil
O homenageado
2026-08-12
Lagostim de agosto
2026-08-10
(Des)culpas
Pegada
2026-08-09
Medo
2026-08-07
Catrineta
2026-08-04
A outra margem
2026-07-30
Kyrie eleison
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia
2026-07-29
Menu de degustação de melgas e mosquitos
Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.
Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.
De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.
Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.
Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.
2026-07-27
Antes que tudo se esqueça
Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.
Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.
E conta-me.
Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.
