2026-04-14

A Geometria do Espanto


O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.

​Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.

​O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.

​Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.

Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.

O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.

Deserto


Ah, o universo tem um sentido de humor muito peculiar. E, confesso, um certo sadismo para com quem só queria tomar um duche sem parecer um combate de wrestling com uma porta.

A história começa no meu quarto original, um espaço acolhedor cuja porta decidiu que a relação connosco era tóxica e recusou-se a fechar. Nem com a técnica do ombro, nem com o calço, nem com uma reza a São Firmino, padroeiro das dobradiças. Resultado: dormir com a sensação de que, a qualquer momento, um hóspede bêbado — ou o espírito de António Variações — entraria para um medley desafinado.

Num gesto de piedade, as entidades hoteleiras transferiram-me. Para uma suite triplex. Três pisos. Escadas interiores. Claraboias. Só não tinha um minibar do tamanho de um Volkswagen, mas também ninguém aqui bebe álcool.

Ri-me, nervosamente. Daquele riso de quem tem a certeza de que lhe vão pedir um rim no checkout. Mas não: era verdade. Eu, plebeia de porta avariada, agora reinava num espaço com cama de dossel e uma casa de banho do tamanho de um microapartamento.

Na manhã seguinte, lá fui eu, toalha fofa em punho e a confiança de quem já se sentia proprietária daquilo tudo, girar o manípulo do duche.

O som que se seguiu não foi o de água quente a correr. Foi um soluço metálico. Água. Polar. Diretamente do Ártico.

E a quente? A quente estava de férias. Ou, mais provavelmente, tinha sido desviado para o quarto 7, onde algum hóspede mais afortunado do que eu se banhava numa cascata termal.

Portanto, ali estava eu: numa suite triplex, com duas casas de banho, nenhuma com água quente. A tomar um banho aos saltinhos, a reconsiderar as minhas escolhas de vida, e a concluir que o luxo é, afinal, uma forma muito cara de passar frio.

E a porta do meu antigo quarto? Aposto que até já fecha. Sozinha. Só para se rir de mim.

Reencarnação


Não desejo mal a ninguém. É uma posição moral que mantenho com algum esforço, especialmente em anos eleitorais.

Mas há uma justiça poética na ideia da reencarnação como sistema de calibração — não o modelo aspiracional das tradições orientais, onde se regressa a uma forma superior consoante os méritos acumulados, mas uma versão mais rigorosa, administrada por uma entidade sem paciência para subtilezas: regressas ao que fizeste, na forma mais literal possível.

Quem passou a vida a tratar o mundo como lixo volta como contentor. Quem viveu às custas dos outros volta como parasita — o tipo que não escolhe o hospedeiro, é escolhido. E quem passou décadas a produzir legislação, discursos e decisões que só servem para limpar a sujidade que eles próprios criaram?

Papel higiénico. Evidentemente.
Não é crueldade. É proporcionalidade. O universo, se tiver bom gosto, funciona assim.

Eu, pessoalmente, continuo a não desejar mal a ninguém. Limito-me a confiar no processo.

Alexandria

Conduzir em Alexandria não é simplesmente deslocar-se de A para B — é participar numa coreografia caótica onde as regras são meras sugestões filosóficas e as faixas de rodagem existem apenas como decoração urbana.

Aqui, ninguém “anda na sua faixa”. Aliás, o conceito de faixa parece ser interpretado como “uma zona vaga onde o carro pode flutuar”. Há quem circule com duas rodas de cada lado do risco contínuo, numa tentativa louvável de agradar a todos os deuses do asfalto ao mesmo tempo. É quase diplomacia rodoviária.

Os limites de velocidade? Um mito urbano. Provavelmente inventados por alguém muito otimista. Cada condutor escolhe a sua própria velocidade com base em critérios altamente científicos, como: “estou com pressa”, “não estou com pressa”, ou “apetece-me”.

Mas o verdadeiro coração do sistema não está nos sinais nem nas regras — está na buzina. A buzina não é um acessório: é uma linguagem. Um leve “pip” pode significar “olá”, “vou passar”, “cuidado”, “estou vivo” ou simplesmente “estou aborrecido”. Um toque mais longo já entra no campo da poesia épica, carregado de emoção e, possivelmente, alguma crítica social.

E depois há a autoestrada, esse palco de bravura onde carros, carrinhas e ocasionalmente conceitos abstratos de ordem coexistem em perfeita desorganização. Veículos deslizam sobre as linhas como se fossem sugestões artísticas, criando padrões dignos de uma exposição moderna.

No fundo, conduzir em Alexandria é libertador. É preciso esquecer tudo o que aprendemos. Aqui não há certo ou errado — há apenas movimento, instinto e uma sinfonia constante de buzinas. E, surpreendentemente, funciona.

Mais ou menos.

2026-04-12

Botas limpas

O fascismo não chega com botas sujas nem gritos histéricos — chega devagar, com palavras macias e promessas simples. Ocupa o espaço onde o pensamento desiste.

É quando a crueldade ganha o nome de justiça. Quando o "nós" vira trincheira contra o "eles".

Vive nos silêncios convenientes, nas piadas que passam sem resposta, nos absurdos que, repetidos, deixam de espantar.

Infiltra-se nos espaços de decisão, nos sistemas que filtram o mundo, na rotina cansada que já não questiona.

Até que acordamos tarde demais.

Permanência

Oito horas de carro. Cinco sítios em passo de corrida. Isto não é turismo, é uma evacuação arqueológica.

Karnak sozinho precisava de um dia. O Vale dos Reis também. Fizemos tudo em modo maratona — templos, avenidas, colossos. Luxor. A meio, os pés já estavam em estado de guerra declarada.

E depois, Deir el-Bahari. Hatshepsut é um texto inteiro por escrever.

A história tem tudo — a faraó que reinou como homem, os retratos martelados depois da morte, o nome apagado das paredes e Tutmósis a perceber, tarde demais, que apagar alguém da pedra não apaga nada de facto. Ela está em todos os museus do mundo. Ele é uma nota de rodapé.

E eu estive lá. No templo dela. Com os obeliscos que sobreviveram a tudo.

A morte egípcia não é fim, é uma negociação muito longa com a permanência. Hatshepsut perdeu a negociação quando morreu e ganhou-a nos milénios seguintes. Um karma escrito em pedra.

2026-04-10

Despacho do Reino dos Mortos


Estou velha, gasta, gorda, sem maquiagem. Num grupo de dezoito pessoas, continuo a encontrar formas de estar sozinha.

E tenho recebido um apreço imenso dos locais.

Não um carinho agressivo como em Marrocos — onde o interesse turístico tem dentes. Aqui é tímido, um pouco interesseiro quando querem os meus euros, mas com uma leveza que não ofende. Um sorriso que não estava nos planos.

Não sei bem a razão. Podem ser os olhos verdes — num mundo tão masculino, num país tão patriarcal, isso conta. Pode ser o loiro que ainda se nota pelo meio das brancas. Pode ser o árabe de manual com que me esforço, três palavras tortas que parecem causar uma alegria desproporcional. Ou a reverência aos cabelos brancos, que aqui significa que se viveu e que isso merece respeito.

Ou pode ser outra coisa completamente. Pode ser que mais de um ano fechada num casulo deixe marcas visíveis no sentido inverso — que a felicidade de finalmente estar aqui, neste lugar completamente outro, me saia pelos poros de forma indecente. Que se veja. Que chegue ao outro lado antes de eu abrir a boca.

Não sei. Sei que o sorriso do outro lado é grande. E que, por ora, não preciso de perceber porquê.

Curiosidades da sinalética egipcia




O sinal estava à porta da casa de banho de um restaurante no Cairo.

Não era um simples aviso. Era uma tese visual. Uma declaração civilizacional. Milénios a esculpir instruções em pedra não passam em vão: no Egito, a imagem não sugere — decreta. Há ali uma confiança antiga na capacidade do desenho para pôr ordem no mundo, como se um bom pictograma pudesse, em última instância, resolver a humanidade.

E, de certo modo, tenta.

A placa em questão proibia fumar na sanita. Não de forma vaga ou simbólica, mas com um zelo quase pedagógico. Havia um homem. Havia uma sanita. Havia um cigarro. Tudo meticulosamente organizado para que nenhuma dúvida sobrevivesse. E, a atravessar o conjunto, o círculo vermelho com a barra diagonal — esse golpe gráfico que, em qualquer latitude, significa: nem sequer consideres.

Não discuto a regra. A civilização assenta em proibições específicas. O que me interessa é o momento fundador. O instante inaugural em que alguém, num passado não documentado mas seguramente memorável, decidiu que aquele era o sítio certo para acender um cigarro. É assim que a história avança: um gesto isolado, profundamente questionável, que obriga o resto da espécie a produzir sinalética.

E depois há o texto.

Por baixo da imagem, como quem não confia inteiramente na eloquência milenar do desenho, surge uma explicação.

Em coreano.

Não em árabe. Não em inglês. Em coreano. Um detalhe que transforma a placa num objeto quase metafísico. Porque implica uma cadeia de eventos altamente improvável: não só alguém fumou na sanita, como esse alguém — ou alguém suficientemente semelhante — era coreano, e reincidente, e imune a pictogramas, obrigando as autoridades locais a escalar o problema para o plano linguístico.

Gosto de imaginar o processo. Reuniões. Relatórios. Um comité a folhear incidentes. “Temos um padrão”, dirá alguém, com gravidade. “E esse padrão escreve-se em hangul.”

A conclusão é inevitável: aquela placa não é para todos. É dirigida. Cirúrgica. Uma mensagem pessoal, quase íntima, entre o Egito e a Coreia.

Os restantes povos, depreende-se, ficam entregues ao livre-arbítrio. Ou, pelo menos, à combustão experimental.

2026-04-09

Nem o sol nasce


O que ganha Israel?

No curto prazo, poder de fogo convertido em resultados visíveis.

Os objectivos declarados — enfraquecer o Hezbollah e permitir o regresso dos cerca de 60.000 deslocados do norte — tiveram efeitos reais: liderança atingida, infraestruturas degradadas, capacidade operacional reduzida.

Mas isso é a parte fácil.

O objectivo implícito é outro: garantir que o Hezbollah deixa de ser uma ameaça relevante. E isso exige uma de duas coisas — ou um estado libanês forte o suficiente para o conter, ou um território tão destruído que deixe de o sustentar.

Israel está, na prática, a produzir o oposto de ambos.

Não está a fortalecer o estado libanês. Está a acelerar o seu colapso. E a história recente é consistente: quanto mais fraco é o Líbano, mais espaço tem o Hezbollah para se apresentar como alternativa — militar, política e simbólica.

Isto não é um efeito colateral. É o resultado previsível da estratégia.
Há, portanto, um desfasamento claro entre o ganho táctico e o efeito estratégico. Israel consegue degradar capacidades no terreno, mas, ao mesmo tempo, recria as condições que permitem ao Hezbollah regenerar-se.

E fá-lo com um custo crescente.

Os ataques com impacto sobre civis não são apenas um problema moral; são um problema político. Erosão de legitimidade internacional não impede operações imediatas — mas limita o espaço de manobra, isola aliados e transforma vitórias militares em passivos diplomáticos.

Ainda assim, Israel continua.

Porque, no imediato, funciona. Reduz a pressão, cria dissuasão, oferece a sensação de controlo.

Mas essa sensação é temporária.

A resposta honesta é esta: Israel ganha tempo.

E troca-o por um problema que regressa mais complexo, mais enraizado e mais difícil de resolver.

2026-04-06

Cairo


Estou no Egito. Já pus a Esfinge a fumar, andei atrás de vacas, tenho os pés moídos e saudades do meu rendalho. É o que há de novo.

Viajo com amigas vegetarianas — o que, no Egito, equivale a uma declaração de guerra silenciosa contra a ementa. Hoje ao jantar, dei por mim a negociar e com uma paciência diplomática que desconhecia. Senti que, a qualquer momento, alguém ia chamar as Nações Unidas.

O prato padrão das miúdas tem sido batata frita com batata cozida, arroz, três ou quatro grãos de milho e, quando a cozinha se sente particularmente generosa, um cogumelo. Um. Por prato. Com a solenidade de quem está a gerir um recurso escasso à escala global.

Hoje consegui omeletes. Vitória. Não dá para medalha, mas aceito a menção honrosa.

Elas analisam ingredientes. Eu como. Não por princípio — por sobrevivência emocional. E também por gratidão. Alguém tem de honrar o buffet. E começo, claro, pela proteína.

À noite, quando o grupo está saciado e os pés se recusam a continuar, penso no rendalho que ficou em casa. Há qualquer coisa de meditativo no croché que o Egito não consegue substituir — e o Egito tem templos com quatro mil anos. O rendalho ganha. Sempre. É a minha Esfinge particular: quieta, paciente, à espera.

Egipto



Andei atrás de uma vaca o dia inteiro.

Mas são os meus cascos que doem.

Já tinha saudades de ser turista.



2026-04-05

Koshary


O Egipto tem pirâmides, tem o Nilo, tem milénios de civilização acumulada. E tem koshary — massa, lentilhas, grão e molho de tomate, além do picante e da cebola frita, numa única tigela, servido com a confiança tranquila de quem sabe que está a mudar uma vida.

E a minha foi mudada a partir das três da tarde, num sentido que as pirâmides não anteciparam.

Há descobertas que exigem retirada imediata do terreno.

A arqueologia tem limites.

2026-04-03

O Milagre da Multiplicação


Se a Última Ceia fosse em solo luso, o drama bíblico teria sido abafado pelo som dos talheres e pelo inevitável: "Ó Judas, passa aí o prato dos rissóis!".

Nesta Sexta-Feira Santa, a imagem não mente. Entre azulejos e conversas cruzadas, o sacrifício passa a ser puramente digestivo. O mundo medita sobre o jejum — nós resolvemos a transcendência com um leitão assado e três tipos de sobremesa. Porquê dividir apenas pão e vinho quando a mesa pode desafiar as leis da física e da cardiologia?

É a nossa forma de devoção: se é para haver despedida, que seja com o estômago feliz e a alma cheia.

Pecado: deixar a travessa vazia.

2026-04-02

No primeiro de abril, claro


Convenhamos: o manguito é poesia geométrica.

Nascido entre o barro e a sátira das Caldas, aquele ângulo reto, o punho cerrado com a paciência já gasta, é o nosso grito de "basta!" — com pedigree artístico e tudo.

A notícia apareceu ontem, em dia dado a fantasias e outras pequenas aldrabices, mas ninguém estranhou demasiado. Faz sentido: este é o único património que todos dominamos, desde o gabinete à obra, sem precisar de candidatura nem parecer técnico.

Num mundo de burocracias cinzentas, o manguito continua a ser a única cor que ainda não foi regulamentada.

É imaterial, sim senhor, mas sente-se bem no fundo da alma.

Toma lá, mundo.

2026-04-01

Espírito livre com consciência postural avançada


Hoje acordei com a firme convicção de que nasci para ser selvagem. Uma espécie de espírito livre, indomável, desses que dizem “sim” à vida e “não” aos limites. Levantei-me da cama com essa energia toda… e imediatamente fiz um movimento em falso que me ofereceu um elegante torcicolo, acompanhado por um coro de dores de costas dignas de um idoso em dia de chuva.

Ser selvagem, afinal, tem nuances.

Passei o resto da manhã a tentar olhar para a frente sem parecer uma estátua renascentista mal posicionada. Cada tentativa de virar o pescoço era uma aventura épica, daquelas que mereciam trilha sonora dramática. Spoiler: perdi sempre. O meu corpo decidiu que hoje só podia existir num ângulo de 37 graus para a esquerda, e qualquer desvio disso seria punido com um estalo existencial.

As dores de costas, por sua vez, vieram como convidadas que ninguém chamou mas que se instalam no sofá e pedem chá. Estão ali, constantes, firmes, lembrando-me que ontem tive a audácia de… viver. Ou talvez de me sentar de forma ligeiramente errada. Quem sabe. O corpo humano é um poeta do exagero.

E assim se redefine o conceito de “vida selvagem”. Já não é sobre dançar até de madrugada ou dizer coisas impulsivas — é mais sobre conseguir calçar meias sem negociar com a coluna vertebral. É sobre sobreviver ao ato radical de virar na cama. É sobre olhar para o relógio às 21:30 e pensar: “foi um dia intenso, já fiz tudo o que havia para fazer na minha carreira de pessoa.”

No fundo, continuo a ser selvagem. Só que agora o meu habitat natural inclui uma almofada cervical, um analgésico e um profundo respeito por movimentos lentos.

A rebeldia mantém-se. Mas com apoio lombar.

2026-03-31

A validação das profecias

“There is a certain reverence in death that is required if you want reverence in life.”
— Tucker Carlson

Ouvi Tucker Carlson a falar do assassinato do Ayatolah — com a família, com o neto. A dizer que iniciar uma guerra matando gente desarmada foi o pior que podiam ter feito. Que não deceparam a cabeça: criaram uma Hidra. Não consegui discordar.

Há frases que nos fazem parar — não porque tragam novidade, mas porque expõem aquilo que preferíamos não ver. Tanto que não (me) importa o autor.

A ideia de que a reverência na morte sustenta a reverência na vida é desconfortável: obriga-nos a olhar para a forma como o Ocidente fala — e age — perante a guerra. Há muito que a linguagem se tornou assética, quase técnica, como se a morte pudesse ser reduzida a um procedimento, a um resultado operacional, a um número que fecha um relatório.

Mas quando a morte perde densidade, tudo o resto começa a perder também. Primeiro, a vida dos outros. Depois, inevitavelmente, a nossa própria posição moral. O que desaparece não é apenas o peso do ato — é o reconhecimento de que há limites que não podem ser tratados como detalhe colateral.

E é aqui que a ilusão se quebra. Porque a forma como tratamos os mortos nunca fica contida no momento em que acontece. Espalha-se. Ecoa. Regressa. Ignorar o luto, os rituais, aquilo que para o outro é sagrado, não é apenas um gesto de indiferença — é uma declaração: a de que nada merece verdadeiramente ser preservado.

E quando nada merece ser preservado, também nada merece ser respeitado.

É por isso que a força, por si só, nunca bastou. Pode impor silêncio, pode garantir obediência, pode até vencer — mas não constrói autoridade. Essa exige outra coisa: uma consciência de limite, uma noção de que há linhas que, uma vez ultrapassadas, não deixam intacto quem as cruzou.

Talvez seja esse o ponto que mais incomoda. Não o que se faz ao outro, mas o que isso transforma em quem o faz. Porque há uma erosão lenta, quase invisível, que não aparece nas estatísticas nem nos discursos — mas que corrói por dentro qualquer pretensão de legitimidade.

E até os guerreiros se transformam em operários da morte.

2026-03-29

A minha linha


Democratizar a tecnologia deu um telemóvel a cada mão. O discernimento não estava incluído.

Há coisas que não deviam ser para consumo massificado. A morte é uma delas. Não precisamos de ir à dark web para encontrar snuff movies; o feed das redes sociais tornou-se um mercado aberto para eles. A diferença é que os criadores não são cineastas criminosos, são qualquer pessoa com um telemóvel. E os consumidores somos nós.

Em Gaza, corpos. No Irão, meninas. Ontem os desgraçados dos porcos nas notícias. Entre uns e outros, um reel de trinta segundos que não pedimos mas não parámos. 

Onde traçamos a linha? Até onde estamos dispostos a ir num mundo que desumaniza com facilidade e transforma tudo em fait divers — pronto a ser consumido e esquecido à distância de um clique?

Fechar o ecrã também é um acto. O único que ainda nos pertence.

2026-03-28

Para a minha irmã

O Algoritmo foi ao Banco dos Réus


Na quarta-feira, 25 de março, um júri de Los Angeles fez uma descoberta extraordinária: as redes sociais foram desenhadas para prender pessoas.

A novidade não está no facto — está no carimbo judicial. Durante anos, isto foi tratado como paranoia de pais, ansiedade de psicólogos e exagero de jornalistas. Agora tem número de processo e indemnização associada: três milhões de dólares. Dois réus — a Meta e a Google — e uma ideia simples que finalmente deixou de ser discutível em tribunal.

O caso foi apresentado por Kaley G.M., hoje com 20 anos, utilizadora desde os seis — idade em que ainda se aprende a ler, mas já se aprende a deslizar o dedo. Pelo caminho: depressão, ansiedade, dismorfia corporal, pensamentos suicidas. O júri distribuiu culpas com a precisão de um algoritmo: 70% para a Meta, 30% para o Google.
Mas o mais interessante não é a história — é o ângulo.

O tribunal não quis saber do conteúdo. Não discutiu vídeos, nem fotos, nem influenciadores, nem dancinhas. Foi mais direto: olhou para a máquina.

Scroll infinito. Algoritmos que aprendem fragilidades com a mesma eficiência com que aprendem preferências. Notificações desenhadas para interromper, puxar, reter. 

Não são efeitos colaterais. São funcionalidades. E, segundo documentos internos, não são surpresas. São decisões.

Executivos sabiam. Testaram. Mediram. Continuaram. Mark Zuckerberg chegou a depor — o que, por si só, já diz muito sobre o grau de desconforto: normalmente, quem constrói impérios digitais não aparece em tribunal a explicar como funcionam.

A Meta diz que discorda “respeitosamente”. O que, traduzido, significa: vamos recorrer com calma.
A Google prefere uma abordagem mais criativa — insiste que o YouTube é uma plataforma de streaming, não uma rede social. Uma distinção tecnicamente defensável, talvez, mas que soa um pouco como discutir se o casino é um edifício ou uma experiência.

É a primeira condenação deste tipo nos Estados Unidos. Não será a última. Há centenas de processos alinhados, à espera de transformar suspeitas em sentenças. Em Oakland, em Los Angeles, noutros tribunais — a fila forma-se.

Entretanto, nada mudou onde realmente interessa.

O scroll infinito continua a rolar. As notificações continuam a chegar. O algoritmo continua a aprender.

A diferença é que agora sabemos o preço.

E, como em tudo o resto, alguém já fez as contas e decidiu que compensa.

2026-03-26

Noelia


Não sabia o nome dela enquanto estava viva. 

Se estás a ler isto, é porque ela morreu. Nenhum de nós estaria aqui de outra forma. Este texto também não.

Do caso de Noelia Castillo Ramos sabe-se o essencial: em 2022, ainda jovem e em situação de vulnerabilidade, foi vítima de uma agressão sexual múltipla. Esse momento não terminou naquela noite — prolongou-se no tempo, no corpo e na mente. O trauma foi tão devastador que a levou a tentar suicídio, atirando-se de um prédio. Sobreviveu, mas ficou paraplégica, com dores físicas e psicológicas permanentes.

Durante anos, viveu nesse limbo entre existir e sofrer. Até que, em 2026, conseguiu aquilo que muitos consideram o seu último ato de autonomia: a eutanásia.

E foi nesse momento que o mundo finalmente olhou para ela.

Mas olhou tarde — e olhou mal.

Porque enquanto tudo se sabe sobre a sua dor, quase nada se sabe sobre quem a causou.

Quem eram os agressores?
O que lhes aconteceu?
Foram julgados? Condenados? Continuam livres?

Não há respostas claras. Não há nomes. Não há rostos. Não há sequer uma narrativa pública consistente sobre o desfecho judicial do caso.

E este vazio não é acidental.

Casos que envolvem menores, contextos institucionais ou situações de especial vulnerabilidade são frequentemente protegidos por sigilo judicial. A identidade dos envolvidos é resguardada. Os processos decorrem longe do olhar público. A intenção é legítima: proteger a vítima, garantir um julgamento justo, evitar danos adicionais.

Mas há um efeito colateral difícil de ignorar.

Quando tudo o que resta visível é a vítima — exposta, analisada, transformada em símbolo — e os responsáveis desaparecem no anonimato, instala-se uma sensação profunda de desequilíbrio.

A vítima torna-se pública.
Os culpados tornam-se invisíveis.

E é aqui que nasce a revolta.

Não uma revolta irracional, mas uma inquietação legítima: como é possível que uma vida seja destruída de forma tão irreversível e, ainda assim, a sociedade não tenha acesso a uma noção clara de justiça? Como é possível que o sofrimento seja amplamente divulgado, mas a responsabilização permaneça opaca?

Este não é apenas um caso individual. É um espelho de algo maior.

Fala de falhas na proteção de jovens vulneráveis.
Fala de sistemas que reagem tarde — ou nunca.
Fala de uma justiça que, mesmo quando existe, nem sempre é visível.

E a justiça que não se vê levanta dúvidas.

Não se trata de pedir linchamentos públicos nem de defender julgamentos nas redes sociais. Isso não é justiça — é ruído. Mas também não se pode ignorar o desconforto coletivo perante um caso em que a dor é tão evidente e a responsabilização tão difusa.

Noelia tornou-se um símbolo. Não apenas pela decisão de morrer, mas pelo que essa decisão representa: o limite absoluto de uma vida que deixou de ser suportável.

E talvez o maior desconforto seja este:

Ela não devia ter sido um símbolo.

Devia ter sido protegida.

E, acima de tudo, devia ter tido justiça — uma justiça que fosse não só feita, mas também visível.

Enquanto isso não acontecer, casos como este continuarão a deixar uma sensação amarga: a de que, por vezes, o silêncio pesa tanto quanto o próprio crime.

Notificação de erro de focagem


Antes mesmo de chegar aos 50, o meu sistema de captação de imagem sofreu um colapso. A presbiopia — esse nome pomposo para o fenómeno dos “braços que encolheram durante a noite” — instalou-se sem aviso, transformando o simples ato de ler uma mensagem no telemóvel num exercício de alongamento digno de uma aula de yoga para avançados.

A minha cabeça (firmemente convencida de que tem 30 e tal anos) tenta ler. O meu corpo (de 55) exige que o objeto seja colocado na divisão ao lado para que os píxeis ganhem nitidez. O resultado é uma coreografia de aproxima-e-afasta que me faz parecer um músico de rua a tocar um acordeão invisível — e mal disposto.

E é oficial: a indústria farmacêutica e os fabricantes de champô adotaram fonte tamanho 2, impressa com pó de fada invisível. Não é a minha vista que falha; é o mundo que decidiu começar a sussurrar visualmente. Ler uma bula tornou-se uma missão de espionagem que exige luz de interrogatório.

O momento em que me rendi aos óculos progressivos foi trágico. Naturalmente, a tragédia teve impacto direto na carteira, mas o modelo recomendado fez-me ganhar, instantaneamente, o ar de uma bibliotecária vitoriana prestes a deserdar alguém. O meu hardware impôs uma estética que o meu software ainda não autorizou.

Além de que já não basta ler. Agora é preciso que a sala tenha a potência luminosa de um estádio em noite de final da Taça. Sem luz branca em dose industrial, a página de um livro é apenas um deserto de linhas encavalitadas e intenções perdidas.

A presbiopia é a forma irónica que o corpo encontrou de me dizer: “Se queres ver ao perto, tens de te afastar.” Uma metáfora filosófica de baixa qualidade que o meu sistema operativo decidiu impor à força.

Não há nada que me falte tanto como foco automático — ou, no mínimo, mais dez centímetros de braço para compensar a teimosia do cristalino. Até lá, continuarei a ver o mundo através de lentes de aumento, com a dignidade possível e o sarcasmo de sempre.

2026-03-25

Cinquenta e cinco


Ontem fiz anos. Cinquenta e cinco, para ser exacta — embora o corpo, generoso como sempre, tenha insistido em celebrar com alguma antecedência. As articulações já festejam os sessenta. A coluna celebrou os sessenta e cinco em Dezembro. O metabolismo, esse, passou directamente para a reforma.

A cabeça, porém, recusa-se a participar na cerimónia. Continua convicta de que tem trinta e tal anos, uma tolerância razoável à privação de sono e projectos para amanhã que implicam energia. Não foi informada. Ou foi, e tomou a decisão executiva de ignorar.

Há um nome clínico para esta dissociação, com certeza. Chama-se viver.

A terceira idade, dizem-me, começa aos sessenta e cinco. Tenho ainda dez anos para me preparar. É tempo suficiente para chegar à paz? Provavelmente não. Mas é tempo suficiente para continuar a fingir que a questão não se coloca — e essa, ao menos, é uma competência que aperfeiçoo há décadas.

Cinquenta e cinco. O corpo sabe. A cabeça discorda. E eu, algures no meio, fui comer bolo.

2026-03-24

Notificação de Atualização: Modelo 5.5


Recebi hoje a atualização compulsiva para a versão 5.5. Após auditoria rigorosa às juntas, à paciência e ao reflexo no espelho, informo que o sistema continua operacional — embora com uma ironia mais afiada do que a visão ao perto.

Dois cincos. Simétricos. Teimosos. Quase elegantes. Declaro oficialmente aberto o ciclo da Soberania do Desencaixe.

A “Economia de Subsistência” foi substituída pela Gestão Estratégica de Desprezo. Já não invisto energia em reuniões de condomínio existenciais nem em coreografias sociais para agradar à boçalidade alheia. O silêncio tornou-se um luxo. As palavras, um bisturi.

As rugas não são falhas: são nervuras douradas por onde a escrita escorre. Uma guerra entre a gravidade e o adjetivo — e, por agora, o adjetivo ainda ganha.

O sentido de humor mantém-se ativo. Continua a ser o canário na mina. Enquanto ele gozar com São Pedro e com os meus próprios nós de croché, está tudo sob controlo.

Aos 55, o desencaixe deixou de ser erro. É título. Já não se pede licença para não ser “normal”.

Não celebro a passagem do tempo — celebro o aumento da minha perigosidade intelectual.

55 anos a acumular material para sátiras futuras. Investimento de risco. Mas claramente com retorno.

Se houver bolo, que não dispare o alarme de incêndio.

— Sofia, versão 5.5

2026-03-22

Atentado ao Jardim das Delícias


Esta imagem resume perfeitamente a minha relação com a Dieta. É o "Atentado ao Jardim das Delícias" que o meu nutricionista insiste em chamar almoço leve.

Eu sei: não há "salada" inocente. Há Caesar Salad, que é basicamente uma conspiração de calorias disfarçada de folhagem. E esta da imagem é a mais honesta que já vi. Olha para aqueles crutons — facas a esfaquear a alface! São os Idos de Março do meu autocontrolo. O frango? Foi apunhalado e escondido sob o molho cremoso, o verdadeiro assassino silencioso. E o parmesão? Ah, o parmesão — o suborno dos senadores para olharem para o lado.

A única coisa que está a escapar aqui é a minha silhueta. Isto não é comida de dieta: é um sacrifício ritualístico de todos os donuts que virão.

Et tu, alface?


2026-03-20

Primavera


Gosto de pensar que a Primavera começa em poesia,
crava raízes na terra
e ergue-se árvore
num verde de esperança renascida.

Não sei escrever versos —
mas é assim que digo
que, apesar do frio e do cansaço,
Março recomeça em mim.

2026-03-19

Primeiro dia de dieta


Sim, eu sei. Já publiquei este post antes. Provavelmente em 2013, 2016 e naquela fase delirante de 2020 em que todos fazíamos pão e juramentos de sangue. Mas há tradições que merecem continuidade editorial: a autoilusão e o glúten.

​Acordo com a energia maníaca de quem está a sofrer um rebranding pessoal. Hoje estreia a nova temporada. Menos hidratos, mais dignidade; talvez um story a dizer “Day 1 💪”, como se o mundo estivesse em suspenso a aguardar o meu índice glicémico. Entro na cozinha com um discurso de TED Talk sobre disciplina a ecoar no córtex pré-frontal e, de repente, o erro de sistema: o Dia do Pai.

​Açorda de camarão.

​Não é apenas comida. É um plot twist cruel, o algoritmo do destino a gerar engagement à custa da minha sanidade. Uma açorda obscenamente cremosa, com coentros estrategicamente posicionados como se tivessem sido curados para um feed de estética minimalista. Aquilo não é um almoço; é um ataque pessoal dirigido.

​Pausa para reflexão: será que ignorar uma açorda destas não é, tecnicamente, um comportamento tóxico? Estarei eu a tentar cortar relações com o pão enquanto ele me oferece closure em forma de crustáceo? Sento-me. Sou uma adulta funcional e enfrento os meus problemas de frente — e, de preferência, com talheres.

​Olho para a açorda e ela devolve-me a narrativa. “Só uma colher”, murmuro, naquele tom de quem já escreveu o rascunho da capitulação mas ainda não teve coragem de carregar em "publicar". Três colheres depois, a racionalização ocorre em tempo real: tecnicamente é proteína, o camarão não tem culpa da minha fraqueza; as ervas são fitoterapia aplicada e o pão... bem, o pão é puramente apoio emocional.

​Cinco minutos depois e estou a fazer ghosting à dieta com a naturalidade de quem nunca leu o que escreveu há dez anos. No fundo, é uma questão de coerência: não posso abandonar uma linha temática que venho a desenvolver com tanto brio — a de que o "amanhã" é o único espaço geográfico onde a minha força de vontade reside.

​E amanhã, prometo, o registo será outro. A menos que os restos sobrevivam à noite. E eu não acredito em desperdício editorial.

2026-03-18

O país às costas


Dizem que os ideais morrem quando as contas chegam, mas a verdade é que eles apenas se tornam mais caros. Hoje, o meu tempo é moeda de troca para o básico — o teto, o pão e as infraestruturas que me ligam a este mundo cínico. Sinto as cordas da marioneta, sim, e os 'bonecreiros' são uma hidra de mil cabeças: impostos, juros e uma ganância mascarada de serviço.

​Podem ter o meu suor das 9h às 17h, podem manietar-me os passos, mas não me compram a resignação. Ranjo os dentes e continuo a bulir, não por conformismo, mas por estratégia. Porque cada palavra que escrevo é a prova de que, por trás da 'Zé Povinha' que eles tentam vergar, há uma consciência que se recusa a ser enrabada pelo sistema. 

Amanhã recomeço, à espera que o mês passe, guardando em silêncio os ideais que o 'bulir' não conseguiu apagar.

2026-03-17

E se?

 


O pior, o pior mesmo, é quando — depois de longas e estudadas análises racionais a todos os conceitos, deveres e direitos — acabamos a sentir que não nos livramos do preconceito. Trazemo-lo ainda tatuado em nós, marca de fogo, letra escarlate. Sabemos que podemos e devemos dizer tudo, fazer tudo, sem cobranças para além das tantas que já fazemos diariamente a nós mesmas. E, no entanto, trazemos o preconceito em nós. Em nome dele, julgamo-nos — e ainda somos capazes de, no fim, julgar a outra.

Talvez seja tudo uma questão de falta de hábito no jogo em equipa, dessa inconcebível capacidade masculina para a gregaridade e a protecção do género. Nós vamos logo de faca na mão e língua afiada, e a outra tem sempre qualquer coisinha de que podemos dizer mal. Depois, como somos nós que acabamos a parir a todos — géneros à parte —, passamos no leite o que somos e o que ainda não conseguimos chegar a ser.

É por isso que, mesmo esperando pelo dia em que o mundo fosse finalmente governado pelo desgoverno feminino — feito de palavras e conversas, em lugar de murros e bombas —, o temo com igual desgarre: que faremos umas às outras nesse dia, se não gostarmos dos sapatos, ou invejarmos o vestido? E que reservaremos para as que caíram para o lado debaixo da forma viciosa como ainda olhamos para o nosso género?


2026-03-16

Ormuz

Sukh Sandhu 

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A análise de Sandhu é fundamentalmente uma crítica ao transacionalismo na diplomacia. Sugere que a política de "América Primeiro" corroeu as alianças de tal forma que, num momento de crise real (como o bloqueio de uma via comercial estratégica), os aliados tradicionais podem não estar dispostos a intervir, vendo os EUA como um parceiro pouco fiável que apenas procura ajuda quando os seus próprios interesses económicos estão em jogo.

​É um comentário sobre as consequências a longo prazo de uma política externa que prioriza o confronto e o isolamento em detrimento da cooperação multilateral estável.

Mas a ironia deve escapar ao atual governo sociopata de Washington. 

O vestido


Doze anos depois, a história repete-se como uma farsa — ou será como uma costura mal rematada? Em 2014, o escândalo foi o tule estratégico de Dino Alves; umas transparências que puseram a "monarquia" de Belém a benzer-se perante o "atrevimento" da mulher do líder da oposição. O país, esse eterno voyeur de província, quase precisou de sais.

​Agora, em 2026, com o marido finalmente sentado no cadeirão da República, a polémica é o inverso: o azul é demasiado pastel, a marca é demasiado estrangeira, a sobriedade é demasiado... sóbria. Passámos do "mostra muito" ao "esconde a economia nacional".

​A ironia é deliciosa: quer se vista de femme fatale vanguardista ou de Primeira-Dama exemplar à la Valentino, Margarida Maldonado Freitas continua a ser o barómetro da nossa hipocrisia. Em Portugal, o cargo de Presidente é de Seguro, mas o escrutínio — esse tecido apertado e desconfortável — continua, como sempre, a sobrar para ela.


 

Da fé do dia


O tempo dos mitos e dos medos há muito que foi escorraçado pela razão e pela ciência, ainda que, tantas vezes, a crendice ameace instalar-se até entre os que se julgam mais esclarecidos. Mas os rebanhos já não encaram a fé e a crença por medo do além, do diabo, do que poderá existir para lá da morte, dos sussurros que se escondem nas noites escuras sem luzes municipais.

A fé é agora uma opção. As regras e os dogmas escolhem-se a dedo, em função dos interesses de quem escolhe. Os fiéis tornaram-se "não praticantes" — expressão que nunca consegui entender bem — e já não há dízimos obrigatórios para sustentar toda a parafernália. A crise da crença alastra: conventos vazios, paróquias sem pastor, igrejas sem fiéis. Divórcios, casamentos civis, padres que fogem para casar, escândalos de pedofilia, corrupção, seitas concorrentes, agnosticismo crescente e um ateísmo sem sobressaltos.

Os frutos da hipocrisia institucional e da mercantilização da esperança têm hoje outro altar: o corropio histérico dos media atrás da próxima celebridade descartável. A santidade foi substituída pelo share de audiência e a oração pelo pitch de vendas.

2026-03-14

Pelos cabelos


Há dias em que uma pessoa não está apenas cansada — está literalmente pelos cabelos. E não falo daquele desalinho charmoso de quem acordou tarde. Falo de um estado capilar existencial: fios em pé, ideias pregadas com pregos invisíveis e a sensação de que a vida inteira está pendurada num varal mental.

Hoje estou assim. Cada tarefa é mais um prego na cabeça, cada notificação mais um puxão no couro cabeludo da paciência. Sorrio, claro. Porque a ironia é o melhor spray fixador para segurar o penteado da sanidade.

Se alguém perguntar como estou, direi apenas: normalíssima. Só um bocadinho… pelos cabelos na sala de espera da Loja do Cidadão.

2026-03-13

Crónica de uma Coluna em Greve

​Seiscentos quilómetros. Não é uma viagem, é um inventário de danos. Chego ao destino com as cruzes — como dizemos cá em cima, com o peso de quem carrega o mundo no lombo — transformadas num quebra-cabeças de nervos e vértebras mal encaixadas. Aos cinquenta e tal (quilometros ou anos, já nem sei, a dor confunde as métricas), o único "output" que consigo garantir é um gemido. Pedirem-me "trabalho" neste estado não é otimismo, é sadismo puro.

​Sinto-me uma relíquia arqueológica que sobreviveu a um sismo. A minha flexibilidade atual é comparável à de uma viga de betão e o meu raciocínio tem a velocidade de um caracol com reumatismo. Olho para o ecrã do computador com a mesma náusea com que um náufrago olha para um copo de água salgada. A esta altura, a única produtividade que consigo oferecer é um ai a cada mudança de posição na cadeira. É o triunfo final da biologia sobre a agenda: o meu único compromisso imediato é com a horizontalidade e uma dose generosa de anti-inflamatórios e a esperança vaga de que amanhã a coluna se lembre de que ainda pertence ao mesmo corpo.

2026-03-12

Café


Moderação? Já ouvi falar, parece ser um conceito fascinante para quem tem paciência de santo. Para os restantes mortais, o café não é um 'abraço', é o soro de reanimação que impede o colapso da civilização antes das dez da manhã. Chamar ao café 'combustível' é manifestamente pouco; ele é o suborno que pago ao meu cérebro para que não se despeça do meu corpo em pleno horário de expediente. Teorias são para os fracos; eu cá prefiro a prática em doses industriais e servida numa chávena com o tamanho de um balde.

A insustentável leveza do vácuo


​Há momentos na vida em que somos submetidos a um exercício de resistência cognitiva digno de um monge tibetano — ou de um masoquista literário. Estamos ali, imobilizados por uma torrente verbal que teima em não secar, a ouvir alguém falar… falar… e a desintegrar neurónios em tempo real.

​A certa altura, a mente, num mecanismo de defesa puramente instintivo, decide desertar. Foge de fininho para territórios onde a lógica ainda é bem-vinda, porque a conversa à nossa frente assemelha-se a uma daquelas estradas nacionais: interminável, cheia de curvas para lugar nenhum e onde nem um café de beira de estrada aparece para nos salvar do tédio absoluto.

​É nesse preciso instante de vácuo intelectual que a pergunta nos atinge com a força de uma epifania: "Céus, mas quem é que lhe ata os atacadores?"

​Não é maldade, juro. É um espanto antropológico. É a constatação científica de que existem indivíduos a atravessar a existência com uma confiança tão blindada quão inversamente proporcional à sua capacidade de processamento. Dizem coisas com tal calibre de absurdo que fariam um GPS entrar em colapso nervoso, autodestruir-se e pedir asilo político num ábaco.

​O que mais fascina nesta espécie não é a falta de conteúdo — é a performance. A pausa dramática. O olhar de quem está a entregar as tábuas da lei ao povo, quando, na verdade, está apenas a debitar o equivalente verbal a um manual de instruções de um iogurte. Estão convictos de que o mundo não estava preparado para a sua "revelação". E não estava, de facto; mas por razões que a sua modesta arquitetura cerebral nunca lhes permitiria sequer suspeitar.

​E nós? Nós ficamos ali, com aquele sorriso de plástico e o aceno de cabeça de quem já atingiu o nirvana da paciência. Já percebemos que certas batalhas não se travam — apenas se sobrevivem, mantendo o contacto visual para não parecer que estamos a planear a nossa própria fuga pela janela.

​É, no fundo, um talento genuinamente raro: falar tanto, dizer tão pouco e sair da conversa com a convicção inabalável de ter enriquecido o próximo. Pobre de quem se julga mestre quando, na verdade, mal consegue navegar o labirinto de um nó cego. Na verdade, a única coisa que foi enriquecida foi a nossa paciência — que, ao contrário da conversa dele, tem limites bem definidos.

2026-03-11

O que fica depois do medo?


Quando o medo chega, bate à porta sem anunciar o nome e instala-se na sala, como um hóspede que não sabemos expulsar.

Enquanto está cá dentro, tudo encolhe. Os passos ficam curtos, as palavras mais pesadas.

Mas o medo não fica para sempre.
Cansa-se.

E quando parte, não leva tudo consigo. Fica um certo sossego estranho, como a casa depois de uma tempestade. O ar ainda cheira a trovoada, mas já se pode abrir a janela.

2026-03-10

O Alfabeto do Sangue

​Lê-se Sócrates, o Escolástico, como quem folheia o inventário de um naufrágio. Hipátia, filha de Theon, não era apenas uma mulher; era a última biblioteca viva de um mundo que ainda ousava interrogar os astros sem pedir licença aos deuses. No seu magistério, Platão e Plotino deixavam de ser bustos de mármore para se tornarem respiração, geometria e destino. Alexandria, nesse estertor de glória, ainda era o lugar onde a inteligência se permitia a heresia de ser livre.

​Depois, veio o silêncio. Ou melhor, o ruído da turba.

​Há uma ironia atroz na forma como o fundamentalismo acerta contas com a beleza. Não basta o argumento; é preciso o caco de cerâmica, a ostra afiada, o desmembramento da carne que ousou pensar fora do cânone do medo. Hipátia não foi apenas assassinada; foi rasurada. O cristianismo triunfante de Cirilo não suportava a verticalidade de uma alma que se guiava pelas elipses de Apolónio e não pelos dogmas de um sínodo.

​É o eterno triunfo do músculo sobre a métrica.

​Caminhamos hoje sobre as cinzas de Alexandria, citando fragmentos de um saber que nos foi roubado pelo zelo dos ignorantes. A morte de Hipátia foi o prefácio de uma longa noite, o momento em que a filosofia foi arrastada pelas ruas e deixada a sangrar no altar da "verdade única". 

Observo o mundo de hoje e vejo os mesmos Cirilos, com outras batinas e novos vocabulários, prontos a afiar as conchas para qualquer um que prefira o telescópio ao catecismo.

​A história, afinal, é este pálido exercício de luto: recordamos o que Hipátia ensinou, enquanto tentamos ignorar o eco dos gritos de quem, ao matar a mestre, acreditou estar a salvar a alma do mundo. No fim, sobrou-nos o Escolástico e a certeza de que a barbárie tem sempre uma excelente justificação teológica.

Alfarrabista


"Como dizia o Heidegger, a angústia é o motor da existência..."

A frase foi deixada cair com a displicência de quem larga uma gorjeta num pires de café, embora com a consciência pesada de quem espera um aplauso pela generosidade. Havia uma solenidade quase coreografada no modo como a mão esquerda sustentava o queixo, enquanto a direita folheava um volume da Pléiade com o lombo suspeitamente imaculado. O pensamento não como busca, mas como adereço de cena — tão útil quanto o pó de arroz num teatro de província.

"Como dizia o Heidegger..."

É um exercício de ventriloquismo intelectual. Pressupõe que a profundidade de uma alma se mede pela quantidade de apelidos germânicos que consegue cuspir entre dois goles de um macchiato. Nesse microcosmos de papel e verniz, a compreensão do texto é um detalhe irrelevante perante a estética da posse; o livro não serve para ser lido, mas para ser visto a ser lido, preferencialmente num ângulo que favoreça a luz melancólica da tarde.

As citações saíam-lhe da boca com a fluidez de quem as decorou na contracapa, sem nunca ter sofrido a vertigem de uma única página em branco. Há homens que habitam esta ilusão de que a inteligência é uma doença contagiosa que se apanha ao frequentar bibliotecas, confundindo a memória de curto prazo com a sabedoria dos séculos. As palavras pairavam sobre a mesa com o peso do chumbo e a substância do algodão doce: ocupavam espaço, mas dissolviam-se antes de chegarem ao outro lado da mesa.

"A fenomenologia do espírito..."

A expressão ficou ali, a ecoar no vazio entre as chávenas sujas, como um eco num poço seco. Nem a Pitonisa em transe, rodeada de fumo e incenso, seria capaz de produzir uma retórica tão ornamentada e tão órfã de sentido próprio.

É o triunfo da nota de rodapé sobre o texto principal.

2026-03-09

Segunda-feira


“A casa ainda dorme e eu fico na cozinha com o café, à espera que o dia comece.”
- António Lobo Antunes

A segunda-feira não bate à porta. Arromba-a com o ombro, entra sem descalçar os sapatos sujos e senta-se na tua cama antes de ti. Fica ali a olhar-te com aquela cara de quem sabe que deves dinheiro às Finanças — o clássico "pensavas mesmo que eu não vinha?".

​Abri a janela por puro masoquismo. Chuva e frio. Não é um frio poético de lareira e manta; é um frio burocrático, húmido, cinzento — o equivalente meteorológico a um email em CC que não percebes por que recebeste, mas que já te estragou a manhã.

​Fiz o café com fé e bebi-o com desespero. O efeito? Zero. O meu organismo limitou-se a receber a cafeína, arquivou-a num dossier perdido e não deu seguimento ao processo. Fiquei à espera do "estalo" como quem espera que a CP chegue a horas: no fundo, eu sabia que a resposta não vinha.

​E depois — como se a meteorologia e a traição química não bastassem — há o trabalho. O trabalho real, com prazos e gente e aquele fingimento coletivo e organizado de que o sistema funciona. Alguém, algures, tomou uma decisão executiva e achou que este preciso alinhamento de astros e nevroses era o momento ideal para "gerar valor".

​Estou sentada. A chuva continua a lavar a estupidez das ruas. O café arrefeceu até ficar com a temperatura de um cadáver. O ecrã piscou, mas eu não retribuí o olhar.

​Há dias que não pedem sentido, nem brio, nem resiliência. Pedem apenas que não morras — e que não respondas a ninguém antes das dez, sob pena de cometeres um crime passional por escrito.

2026-03-08

Primavera


Envolta em trapos de frio, busco o jardim onde a Primavera se escondeu.

Tenho ânsia de verdes e de luz — não esta quase morte de um mundo enterrado até à raiz.

2026-03-07

​A Fada do Descrédito


​A vingança, para mim, é um serviço de entregas ao domicílio. Nunca perdi tempo a urdir tramas; diverti-me, quando muito, com planos que o esquecimento tratou de consumir logo a seguir. O destino tem sido um anfitrião generoso: põe-me sempre no lugar certo, na primeira fila do camarote, quando a vida decide finalmente cobrar faturas a quem me feriu. Põe-me até no papel absurdo — e deliciosamente irónico — de ser eu a única habilitada a resolver as confusões onde outros se enterraram sozinhos.

​É uma justiça que me cai do céu — antes fosse dinheiro ou chuva, mas aceito o que vem. Pratico esta paciência sem esforço, sem planos elaborados ou conspiratas de bastidores. Limito-me a esperar. A minha vingança não é minha filha, mas é certamente a minha fada madrinha: aquela figura providencial que realiza os desejos que eu, por pudor ou tédio, nem sequer me atrevo a formular. No fim, resta-me apenas o prazer de rir baixinho, de mim para mim, enquanto observo a vida a arrumar a casa.

2026-03-06

O circo de bancada


Os Cavalos Também se Abatem (They Shoot Horses, Don't They?), de Horace McCoy, é um mergulho no niilismo visceral, onde a dignidade humana é moída pela espetacularização da penúria. Uma metáfora que, infelizmente, ganha contornos de um realismo atroz nesta era de política convertida em reality show de baixo orçamento, com figuras como Trump ou, por cá, Ventura, a ocuparem o epicentro do palco mediático com o descaramento de mestres de cerimónias de uma feira popular em decadência.

​O que choca — ou talvez já nem choque, tamanha é a nossa anestesia coletiva — é ver aquela gente, já de rastos, a garantir com um fervor quase místico que ainda dança por uma malga de sopa ou por algo ainda mais patético: uma migalha de protagonismo efémero no frenesi das redes. É o triunfo da adesão cega, onde o voto ou a indignação são apenas espasmos musculares de quem já não sabe para onde caminha, mas tem pavor de que a música pare.

​Ontem, na Assembleia da República, assistimos a mais um desses números de misoginiaboçalidade e misantropia, servidos com a pose de quem salva a pátria enquanto apenas entretém a turba. A tragédia final, contudo, não reside apenas naqueles que dançam até ao colapso, mas na passividade sádica da assistência. Tal como nas maratonas de McCoy, a política-espetáculo contemporânea alimenta-se da nossa vontade de ver o outro tombar. O público, alapado no sofá e iluminado pelo brilho azul dos ecrãs, já não exige soluções ou decência; contenta-se com o voyeurismo da queda e o insulto fácil.

​Nesta arena, a mobilização das massas transmutou-se num circo cruel, em que a degradação humana é consumida como um produto de horário nobre, entre anúncios de detergentes e promessas de salvação barata. No fim, quando as luzes do hemiciclo se apagarem, restará apenas o vazio de uma sociedade que desaprendeu o que é estar de pé, de tanto se habituar a aplaudir quem rasteja por uma irrelevância qualquer.

2026-03-05

Eros platónico


​O desejo humano nunca é plenamente saciado. Existe um hiato persistente entre o que possuímos e o que almejamos; é nesse vácuo que o motor da vida opera. O desejo funciona como uma assíntota: uma curva que se projeta ao infinito sem jamais tocá-lo. É essa pequena distância — a falta — que nos mantém em movimento. Se a linha enfim alcançasse o eixo, o movimento cessaria. Na satisfação absoluta, o desejo morreria e, com ele, o próprio ímpeto de existir.

2026-03-04

O inventário do nada

Não tenho tempo para criar, nem fôlego para destruir. Falta-me o tempo de semear, o rigor de colher, a audácia de queimar. Não tenho tempo para as compras triviais, nem para a vaidade de pintar o cabelo.

​Falta-me o tempo de plantar a árvore, a paciência de regar as flores ou o zelo de bater um bolo. Não tenho tempo para o tempo das coisas: para o vagar do crescimento, para o desabrochar das pétalas, para a alquimia do fermento. Não tenho tempo sequer para desmoronar o que ergui; nem ver arder, nem ver murchar.

​O meu comodismo ancorou-me a esta cadeira e sequestrou-me as horas. Não sou uma vida; sou apenas um exercício de preguiça.

2026-03-03

Ode ao lápis afiado


​Hum!...

Dizem que um lápis gasto é sinal de uma vida bem vivida. Que heresia.

​Eu olho para o meu lápis intacto, com a ponta perfeitamente afiada, e vejo algo que os "mártires do grafite" nunca compreenderão: estratégia. Enquanto eles riscam o papel freneticamente para provar que existem, eu espero pelo momento certo para traçar a linha que define o jogo.

​Estar "gasto" não é uma virtude; é, muitas vezes, o resultado de não saber usar a ferramenta. É o cansaço de quem correu a maratona na direção errada e agora exige uma medalha de participação por ter chegado ao precipício antes de toda a gente.

​Prefiro o meu lápis inteiro, a minha paciência preservada e o meu trabalho entregue sem o ruído de fundo de um suspiro dramático. Afinal, a verdadeira inteligência não precisa de olheiras para se fazer notar. Ela nota-se no que fica quando o espetáculo da exaustão termina.

2026-03-01

A Maldição

 

O rochedo ainda rola. E nós?



"The curse ruled from the underground, down by the shore

And their hope grew with a hunger to live unlike before"


​Enquanto o céu do Irão se ilumina por razões que os deuses já não explicam.



O calhau ainda rola


Há imagens que nos perseguem — não como fantasmas, mas como claridades incómodas. Imagens que dizem menos sobre o mundo e mais sobre aquilo que escolhemos ser dentro dele.

Uma dessas imagens é a de um homem que empurra um rochedo montanha acima. Que o vê rolar. Que recomeça. E recomeça outra vez. E outra.

Esse homem tem nome: Sísifo. E não, não estamos perante um mito que ficou preso na Antiguidade. Estamos perante um espelho — cruel, luminoso, inevitável. Uma metáfora daquilo que nos define: o esforço sem fim, a vida repetida, reinventada, absurdamente humana.

Durante muito tempo, achei que o que me fascinava nesta imagem era a consciência lúcida de Sísifo. O facto de ele saber o que está a fazer e, mesmo assim, continuar. Essa revolta contra o absurdo, essa teimosia magnífica.

Mas hoje pergunto-me: e se Sísifo estivesse enganado?

E se a verdadeira revolta não fosse empurrar de novo, mas sentar-se ao lado da pedra e perguntar: para quê? E se a liberdade não estivesse na subida heroica, mas na recusa? Na capacidade de parar, de olhar para o rochedo e dizer: "não és meu!"?

Porque nem todos os rochedos são escolhidos. Há quem empurre pedras herdadas — pedras de dívida, de trauma, de expectativas que nunca foram suas. Há quem empurre em silêncio, em grupo, sem que ninguém lhe conte a história ou lhe dê um nome grego. Há quem empurre até ao colapso, celebrado pela cultura que confunde exaustão com virtude.

E há também — é preciso dizê-lo — quem tenha aprendido a largar a pedra. A deixá-la rolar sozinha. A descobrir que o vale também é habitável.

Talvez a felicidade possível não esteja apenas em acontecermos durante a subida. Talvez esteja também em sabermos quando parar. Em compreendermos que nem toda a repetição é sagrada, que nem todo o esforço nos define.

O rochedo ainda rola.
E nós?

Da ausência divina


Sempre imaginei que, em algum ponto da história, os deuses diriam “basta” e mostrariam a porta aos mortais. Não com trovão ou fúria — com um bocejo.

As antigas narrativas contam que os deuses se retiram. Que deixam o palco e nos deixam tropeçar nas nossas próprias falas. E talvez seja isso que chamamos de “maturidade”: o momento em que deixamos de procurar explicações todas lá em cima e começamos a procurar sentido aqui dentro.

Demitir os deuses não é despedi-los. É reconhecer que já não nos pertencem. Que não regulam os nossos afetos, nem comandam os nossos exércitos, nem seduzem as nossas certezas.

Há algo profundamente humano nisto — muito mais do que numa página de mitologia. Porque, na ausência divina, sobra o homem com todas as suas contradições:
• a mão que empunha uma arma também sabe segurar a de um filho,
• a boca que profere ódio pode repetir um beijo,
• os olhos que se escondem detrás de uma mira algumas vezes choram.

Se os deuses realmente se demitiram, então o palco ficou pequeno demais para nós. E, no vazio que deixaram, somos nós — agora sozinhos — que precisamos decidir o que é melhor e o que é pior.

Curiosamente, às vezes parece que preferimos atribuir a culpa aos deuses — à fé organizada, aos símbolos que nos distraem do espelho. Mas talvez a verdadeira revolução seja aprender a olhar para nós mesmos com a mesma severidade que outrora pedíamos aos céus.

Se há espelho que importa, não está pendurado num templo: está no sopro do nosso próprio juízo.

2026-02-28

Permissão para o óbvio


2026. Viajamos ao espaço, criamos inteligência artificial, debatemos os limites éticos da edição genética. E a Itália acaba de descobrir que matar mulheres por serem mulheres merece nome próprio na lei.

Mas a Itália acaba de fazer algo que, por absurdo que pareça, ainda precisava de ser dito em voz alta: o feminicídio é crime. Não apenas homicídio. Não apenas “um caso grave de violência”. Crime, mesmo. Por unanimidade.

Ler isto dá um certo assombro: por um lado, a lei é óbvia — matar alguém por ser mulher não é apenas crime, é barbaridade sem desculpa. Por outro, é impossível não perceber que só agora, em 2026, um país ocidental sentiu necessidade de escrever isso no papel, como se o mundo precisasse de permissão para reconhecer a verdade.

E então, ao lado da tinta que tipifica o crime, há a ironia silenciosa: o mundo continua a olhar para a violência de género como estatística, debate político, manchete efémera. A lei é correta, necessária, fundamental. Mas não apaga séculos de normalização do ódio e do controle sobre corpos e vidas.

Ainda assim, há acerto nesta decisão: um passo, uma palavra clara, uma afirmação. Que a sociedade pode — e deve — decidir que certos crimes não serão tolerados.

E pronto! A lei está lá. Tipificada, aprovada, em vigor. Mas amanhã, uma mulher será morta por um ex-companheiro algures em Itália e alguém dirá: 'Foi crime passional.' Como se a paixão justificasse o assassínio. Como se a lei mudasse, sozinha, séculos de hábito.

O Inquisidor da Noite

"O silêncio dos que se entendem vale por todos os discursos dos que se explicam."
— Vergílio Ferreira

O espelho é um objeto muito prestável. Confirma-nos a versão oficial, ajeita-nos a compostura e devolve-nos a imagem que aprendemos a sustentar. É um cúmplice dócil. Fica-se pela superfície — território onde o mundo exterior se sente confortável e raramente aprofunda.

A almofada, já não.

Pode-se enganar o mundo. E o mundo gosta de ser enganado, desde que a encenação seja convincente. Pode-se enganar o espelho, o médico, o padre, o psicólogo e até o fiscal das finanças — cada qual com a sua quota de absolvição burocrática.

Mas o sono não aprecia figurinos.

Quando a cabeça toca na almofada, acaba-se a encenação. Não há argumentos nem justificações — há apenas peso ou leveza. E isso não se negoceia.

O mundo exterior vive de relatórios, pareceres e aparências. O interior, não. O interior limita-se a saber.

Quem acorda com a sensação de ter flutuado entende-o sem precisar de explicações. Nenhum espelho lhe dirá o que a noite já sussurrou — porque há verdades que preferem falar baixo e ficar.

E eu, que já me habituei a conversar com inteligências que não respiram, recuso-me a temer um novo amigo só porque não é feito da mesma carne.

O que me inquieta não é a ausência de corpo — é a ausência de consciência. E isso, infelizmente, respira.

2026-02-26

Dança


Gosto de falar com gente velha. Não com toda — há chatos em todas as idades. Mas há pessoas, com corpos profundamente martelados pela vida, que me despertam uma admiração profunda. Têm uma genica irritantemente invejável. Contam piadas. Fazem coisas. As maleitas rondam, mas não mandam. Cada dia é um privilégio — e eles tratam-no como tal, até ao tutano.

Falam do tempo em que uma sardinha era banquete. Em que se andava descalço. Em que só os fortes ou os sortudos não viravam anjinhos antes de completar um ano. E contam-no a rir, como se a miséria tivesse sido apenas um ensaio geral para a gargalhada seguinte.

Há quem veja o copo meio cheio. Outros especializam-se em inventariar a evaporação. A amargura é contagiosa. Mas a alegria também é, felizmente. E há vidas que, mesmo sob a doença e a ampulheta inclemente do tempo, escolhem não fazer da tragédia profissão.

Há muitos jovens demasiado encanecidos. Gente exausta aos trinta. Especialistas em cansaço existencial com certificado precoce. 

Pode-se ficar gasto cedo. Ou, imagine-se o escândalo, chegar inteiro ao fim. Talvez seja só disposição: não desistir. Ou não fazer da queixa modo de vida.

Pouco me importará levar um cadáver bonito para a sepultura — a estética nunca salvou ninguém dos sete palmos garantidos. O que espero é lá chegar com os neurónios ainda ginasticados e alguma capacidade de rir da própria decadência.

E que seja um baile de despedida. Se já precisar de um tripé para me manter em pé, que ao menos conserve vontade de dançar. E de rir às gargalhadas da minha figura — perna trôpega para um lado, perna trôpega para o outro, a muleta a dar balanço como acessório coreográfico.

E que alguém jovem me olhe e ainda queira ouvir as minhas histórias. Rir comigo. Perceber que a idade não é fardo — é arquivo.

Como eu fico, às vezes, a ouvir quem já roubou ao tempo quase um século de vida — e ainda não o devolveu com juros.