2026-05-24

O Verão de São Calcanhar


Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.

Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.

Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.

Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.

Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.

Injustificada, mas admiro.

2026-05-23

O Peso das Crianças


Há amores que precisam de fazer arrumação antes de começar.

Este começou em França e foi deixando pelo caminho o que não cabia na bagagem. Primeiro o rapaz de dezasseis anos — idade suficiente para sobreviver, insuficiente para perceber que estava a ser descartado. Depois a viagem até Portugal, que não foi uma fuga nem uma aventura romântica, por mais que eles a tenham narrado assim a si próprios. Foi uma logística. Uma resolução de problema.

O problema chamava-se três anos. O problema chamava-se cinco anos. O problema tinha olhos.

Alcácer do Sal tem pinheiros e silêncio. Têm isso em comum com muitos lugares onde se enterram coisas. Deixaram as crianças vendadas — pormenor que merece ser lido devagar, porque a venda não serve a criança, serve quem abandona. Não quero que me vejam partir. Não quero carregar essa imagem. O conforto, até ao fim, era deles.

O pai biológico existia. Esta informação é importante. Não havia ausência de alternativa, havia recusa de alternativa. Entregar as crianças ao pai teria deixado rasto, implicado explicação, exigido um mínimo de confronto com o que estavam a fazer. A mata não pede nada. A mata não tem número de telefone.

Quando foram interceptados, tinham um plano: fingir deficiência mental. Combinaram-no friamente, entre si, com a segurança de quem não considera a hipótese de falhar — e com o desprezo de quem não considera a hipótese de em Portugal haver alguém que entende francês. O mundo, na sua cosmologia, era pequeno e estava do lado deles.

Não estava.

Há uma palavra para o que fizeram às crianças. Há outra para o que fizeram ao rapaz de dezasseis anos. Há uma terceira para o plano combinado em voz baixa, para a venda nos olhos, para a mata escolhida, para o pai ignorado.

Nenhuma dessas palavras é amor. Nenhuma é sequer o seu contrário.

É outra coisa. É a convicção, tranquila e organizada, de que os filhos são peso — e de que o peso se larga quando se quer começar a correr.

Afonia

"Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas"


José Carlos Ary dos Santos - Kyrie

Há uma afonia que não é falta de voz física. É o sufoco da alma: um universo inteiro para gritar, mas que esbarra no silêncio do mundo ou na hipocrisia das palavras que não dizem nada.

É o nó na garganta de quem se recusa a viver em tons de cinza, ou a aceitar o amor de plástico de quem nunca ardeu. A sede do visceral. A prece por quem carrega as palavras mais lindas do mundo dentro de si — e as sufoca, por medo ou por desterro.

Para que as palavras deixem de ser preto e branco, é preciso aceitar que proferi-las tem um custo. Não o custo da métrica ou da forma — o custo de quem ouve e reconhece que algo mudou.

A voz sem filtro não é descuido.
É uma declaração.

Recusar o revestimento da linguagem polida.

Recusar o amor que não arde, a paz que não custou nada.

Isso é um ato político — mesmo que só uma pessoa o ouça.

Que a tua voz morda.
Que queime.
Que incendeie o silêncio.

Um vulcão no peito não serve para sussurrar.

Banalidades




Olho o blogue na sua extensão e permanência.

Espremendo, sobram demasiados acessórios para encher a página: letras esparramadas à pressa e logo esquecidas, músicas que naquele momento faziam sentido e hoje talvez não, imagens que já nem sei porquê.
E alguns textos que ainda sinto, destes tantos anos de voz em fuga — os mais pessoais, os mais íntimos, os mais estranhamente a nu.

Isto é só um blogue. Desde o início assumi que seria sobre banalidades, as minhas banalidades no seu sentido etimológico mais profundo: o do ban, a circunscrição feudal.

Estou confortável com o meu ban — este pequeno feudo feito de tudo o que realmente faz parte do meu mundo e do que nesse mundo é importante para mim. Até mesmo quando ando demasiado perdida de mim e das fronteiras e linhas com que me coso, enquanto a vida vai continuando a descosturar.

2026-05-21

Tudo começa com café


Há quem diga que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia. Eu digo que é a mais traidora. Começas o dia com a ilusão de que um café e uma torrada são capazes de te transformar num ser funcional, quando, na verdade, são apenas o preâmbulo de uma série de más decisões. O açúcar do pão com manteiga é o primeiro passo para a rendição à mediocridade; o café, esse, é a desculpa líquida para não matares ninguém antes das nove da manhã.

E depois há os health freaks, esses mártires do iogurte grego e das sementes de chia, que olham para o meu pão com manteiga como se fosse um crime contra a humanidade e mastigam alpista logo às oito da manhã, como se o trânsito e as reuniões de Teams fossem doer menos porque comeram antioxidantes. Ou como se a virtude se medisse em gramas de fibra. Eu prefiro o meu pecado matinal, assumido, sem hipocrisias. Afinal, se a vida já é uma merda, pelo menos que o pequeno-almoço seja bom.

E a solidão do pequeno-almoço? Nada revela mais a condição humana do que uma pessoa sozinha à mesa, a olhar para o telemóvel como se este fosse capaz de lhe dar um sentido para o dia. Ou pior: um casal em silêncio, mastigando em uníssono. O amor, no fim, também tem ritmo.

2026-05-20

Quinta-feira


O vento não desarruma: revela.

​O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.

​Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.

​O resultado está à vista.

​Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.

2026-05-18

Remates


A miosótis é conhecida como a flor do "não-me-esqueças". É uma metáfora bonita, com um selo de romantismo vitoriano, mas a minha paciência tem um limite estrito e, neste momento, o meu maior desejo é esquecer onde guardei a agulha de rematar.

​Decidi fazer uma carteira. O pretexto é o costume: a busca pela autenticidade do handmade, a resistência contra o plástico chinês, a ilusão de que estou a criar um pilar da moda contemporânea. O resultado, na prática, é um puzzle têxtil tridimensional que exige a precisão de um neurocirurgião e a paciência de um monge budista. Cada flor de miosótis é um módulo. Cada módulo precisa de ser unido ao seguinte. E quando o padrão finalmente se arma, surge o verdadeiro teste à sanidade mental: os remates.

​Há dezenas de fios soltos a implorar por um acabamento invisível. Olho para aquilo e percebo que a carteira, mais do que um acessório elegante, é um monumento à minha procrastinação. Vai ficar assim, meio aberta, meio desfiada. Se alguém perguntar na rua, não é falta de paciência. É design conceptual. É a estética do inacabado. É desconstrucionismo portuense.

​Afinal, a miosótis pede para não ser esquecida, mas ninguém disse que tinha de vir rematada.

2026-05-17

Perfumes

Hoje ofereceram-me rosas amarelas. Esteticamente perfeitas — as curvas no lugar, o verde dos caules calculado, a armação de rede a condizer. Recebi-as encantada.

São rosas certificadas, como os pêssegos perfeitos e sem sabor. Perfeitas na aparência, amputadas de perfume. Sem espinhos também — rosas que só o são pela metade, que entram pela pupila mas que o nariz não reconhece.

Ainda alguém seca flores? As pendura no escuro, viradas para baixo, ou as prime por entre as páginas de um livro? Ainda alguém espera, meses depois, reencontrar as flores ressequidas — e com elas um vago odor de primavera?

Vou pôr estas numa jarra e olhar para elas. Mas não vou ser surpreendida pelo perfume ao entrar em casa. Não vou saber que lá estão. São flores sem memória — e sem a capacidade de criar nenhuma. Imperfeitas na sua beleza inteira, porque decepadas da sua magia perfumada.

2026-05-16

Palavras amputadas


As palavras com que costumávamos nomear o mundo estão gastas. Não por desgaste honesto — pelo uso, pela luta, pelo atrito com a realidade — mas por abandono. Ficaram para trás enquanto o mundo continuava, e entretanto foram saqueadas: duas ou três sobreviveram, mas irreconhecíveis, insufladas até ao tamanho de parangona, esvaziadas de sentido cirúrgico, prontas a ser arremessadas.

Não fazem pontes. Fazem buracos.

Daí esta sensação persistente de caos: não é que as coisas se tenham tornado incompreensíveis. É que ficámos sem léxico para lhes chamar o nome — e com muito barulho no lugar onde esse léxico deveria estar.

Talvez fosse necessário inventar um glossário novo. Mas isso dava trabalho. E há sempre qualquer coisa mais urgente — ou que parece.

2026-05-14

O grande trollanço


Ia só pôr a imagem. Não chegava.

O que estão a ver não é um mapa. É uma carta enviada a Moscovo sem selo e sem remetente, pela cidade de Praga, com a frieza burocrática de quem percebeu que uma placa de rua pode ferir mais do que um discurso inflamado.

A Embaixada da Rússia ficou cercada. Não por manifestantes, não por sanções, não por declarações de cavalheiros indignados em palanques. Por nomes. Nemtsov, assassinado quase à porta do Kremlin. Navalny, que Moscovo tentou primeiro envenenar, depois apagar. Politkovskaya, que denunciou crimes de guerra e acabou morta à porta de casa. E, como remate sem subtileza, a Rua dos Heróis Ucranianos.

O golpe está no detalhe administrativo, que é onde os golpes mais elegantes costumam estar: uma embaixada é obrigada a usar a morada oficial em toda a correspondência. Cartas diplomáticas, papel timbrado, convites — tudo passa a carregar, involuntariamente, os nomes que o regime tentou apagar.

Moscovo tentou escapar mudando a entrada para uma rua lateral. Praga renomeou também essa rua.

Não houve confrontos. Não houve discursos. Apenas uma cidade a usar mapas e burocracia como instrumentos de memória permanente. A embaixada existe hoje no centro de um cerco que não se desfaz com um protocolo diplomático nem com uma nota de protesto.

Como se Praga dissesse, com aquele humor seco da Europa Central: podem ocupar o edifício. O mapa pertence-nos.

A institucionalização do bairrismo


A institucionalização do bairrismo é a forma académica de dizer que pegámos na nossa necessidade primária de marcar território e lhe demos um selo da Câmara. O pretexto é a globalização: como o mundo está a ficar todo igual, agarramo-nos à identidade local como última boia de salvação.

​O que podia ser resistência genuína torna-se, na prática, uma checklist: a festa do castelo, a Semana Santa, o santo da paróquia, as roulottes de farturas. Multiplica-se o modelo por cada localidade que quer ser "diferente" e o resultado é uma monocultura do particular — toda a gente a ser única exatamente da mesma maneira. Até os nossos perigos foram catalogados. As cestas, que nos ensinavam o medo e a vertigem, foram desaparecendo entre inspeções, seguros e normas de segurança. Os carrinhos de choque agora exigem o decoro de um simulador de condução, sem o choque real de quem não tem idade mínima ou capacete.

Depois, ​o júri vota nos da terra porque votar neles é votar em nós próprios; e isso nunca precisa de justificação. É resistência cultural. É identidade. Toda a gente sabe o que aconteceu no Festival — a conveniência de quem se dispõe a ir onde outros não vão — mas ninguém diz nada. Segue em frente. Em Lisboa fazem o mesmo, mas com fundos europeus e fotografia para o Financial Times. Nós, cá em cima, temos pelo menos a decência de não fingir que é outra coisa.

​Mas aqui está o problema com os espelhos: mostram o que não se quer ver. Eu também sinto a minha veia tripeira saltar da camisa quando alguém diz mal das tripas. Sei que a pronúncia do Norte não é um erro — é a pronúncia certa; o resto é que se enganou. E dói-me o que perdemos pelo caminho, como a fogueira para saltar no São João.

​Afinal, falamos de uma festa pagã de luz e fogo, mas reduziram o nosso incêndio a um espetáculo de pirotecnia tão perfeito e asséptico que já não sabemos se é junho no Porto ou a passagem de ano no Funchal. O fogo agora é apenas para contemplar à distância, enquanto os balões são os vilões anuais. Querem-nos a olhar para o céu, pasmados, enquanto nos pés, onde antes havia cinza e coragem, agora só há o asfalto limpo de uma festa que esqueceu como se arde.

​Sei tudo isto e não mudo nada, porque há coisas que não são convicções. São sotaque. Os ditongos nasalados não se escolhem. Também não se pede desculpa por eles. Enquanto isso, o Manuel da esquina continuará a grelhar entrecosto, promovido a pilar da civilização ocidental.

2026-05-09

Meio meio


Há quem insista em encontrar luz mesmo quando o dia já desistiu. Não sei se é escolha ou feitio — provavelmente os dois, em proporções que variam. Sei que a amargura habitual tem custos: inferniza quem a carrega, inferniza quem partilha o tempo com ela e fecha a porta à esperança mesmo quando a esperança ainda existe — até contra a doença, até contra a ampulheta inclemente do tempo que passa. O momento não espera que a gente esteja pronta para o apreciar.

2026-05-08

Poema das mulheres constipadas

 


Nariz entupido, corpo em guerra,
Dores nos ossos, cabeça na terra,
Chá de limão, mel, gengibre e sal,
Aspirinas, xarope e mais um comprimido afinal.
Ninguém me mede a febre nem vê a goela,
Ninguém fecha a porta nem cala a janela,
Ninguém me traz a colcha nem aquece o pé,
Porque sou mulher e isso não se faz, pois é.
Aqui estou eu, a pingar sozinha,
A fazer a canja e a dobrar a roupa fininha,
A responder a mensagens com um assoar ao meio,
Ai que vou morrer — mas faço o jantar sem receio.

2026-05-07

Arquitetura de Fachada


Hoje vale a pena pôr maquilhagem?

​A resposta não está no espelho, mas na agenda.

​Maquilhagem é gastar recursos limitados de paciência e pigmento para apresentar uma versão civilizada ao mundo. Mas a civilização tem custos de manutenção.

​Pôr rímel? Só se houver alguém que mereça o esforço de não esfregar os olhos quando a conversa ficar aborrecida. O rímel exige uma disciplina diplomática que nem todos os interlocutores justificam.

​Batom vermelho? É uma declaração de guerra. Ou de intenções. Se o dia for passado a negociar com o nada, é um desperdício de artilharia.

​Base e corretor? Para esconder as olheiras de quem leu até às três da manhã? Não. A olheira é o meu único sinal honesto de que o mundo exterior está a ser cansativo.

​Se o raio de ação não ultrapassar o comprimento do meu braço, a pele respira. Se o protocolo exigir presença física num andar sem elevador, a cara lavada é a minha política de austeridade.

​Veredito: Hoje? Hoje fico-me pelo hidratante. O mundo não fez por merecer o meu melhor corretor de olheiras.

2026-05-06

Teoria Geral dos Degraus


A resposta correcta é: depende do andar. Um andar sem ninguém não justifica os joelhos. E há alguéns que justificam uma retirada estratégica para a subcave. Mas então a subcave tem de ter algo que valha a pena. Bom vinho, por exemplo...

Elevador. Sem negociação.

Margem de segurança analógica


A formação é sobre Inteligência Artificial. O GPS não encontrou a morada. 

Há uma elegância quase poética nisto: uma empresa que vende o futuro tecnológico a profissionais do presente não consegue fornecer uma localização que um satélite reconheça. O edifício existe — presumivelmente. A rua, talvez. As coordenadas, aparentemente, não.

Cheguei a tempo. Porque saí mais cedo. Porque desconfiei. A tecnologia falhou; a margem de segurança analógica salvou. Encontrei o lugar à moda antiga — olhos abertos, pernas a trabalhar, um transeunte com memória local.

Na sala, vão falar de machine learning.

Lá fora, eu tinha acabado de fazer o quê, exatamente?

2026-05-05

Espaço Aéreo Controlado


Não sou pessoa de contacto. Nunca fui.

O espaço necessário é mensurável: a distância que vai do meu braço estendido até à mão que vem em sentido contrário. Geometria simples. Protocolo universal. Ou devia ser.

Há quem não leia sinalizações. Quem se incline sem convite, derrame conversa e proximidade, ofereça visões não solicitadas de dentição e flora nasal. Quem confunda presença com autorização.

Não confundo.

O meu espaço é feudo. Tem fronteiras, tem leis, tem historial de conflitos. A armadura está disponível e o mau humor é política externa oficial.

A invasão não precisa de ser declarada para ter consequências.

2026-05-03

O eco


Dantes, jurava que seria diferente. Outro passo. Outra voz. Nenhum rasto.

Não fui. Não sou.

O tempo não corrige. Insiste.
Agora, no meio de um desabafo ou de uma ordem atirada à pressa, ouço-me. E não sou só eu. É ela. Na inclinação da frase. No olhar que cai direto no erro. No “estás a ver?” que nem precisa ser dito.

Abro a boca. E a minha mãe aparece.

No início, estranhei. Soou a falha. A cópia.

Hoje, não.

A menina que pisa o dia cresceu. E percebe: isto não é desvio. É estrutura.

Quando tudo baralha — a pressa, o ruído, a segunda-feira — não estou sozinha. Nunca estive.

Há uma linha firme. Um lastro.

Não é feitio.

É herança.

2026-05-01

Maias


No dia 25 de Abril de 1974, morreu em Portugal o Medo de Falar. Tinha 48 anos. A família agradeceu a quem o acompanhou à última morada no dia 1.º de Maio. Tratou a Funerária M.F.A.

O enterro correu bem. Houve flores, punhos erguidos, muita gente na rua. O problema, como sempre, é o que acontece depois dos enterros: a família fica, os credores aparecem e há sempre alguém que jura ter visto o defunto a mexer-se.

Cinquenta e dois anos depois, o 1.º de Maio é feriado — o que significa, dependendo do ano e do calendário, uma oportunidade de fazer uma ponte, engarrafar a A1 em sentido contrário e postar fotografias de brunch. Os discursos existem, como existem sempre: palavras que soam a reivindicação mas chegam já domesticadas, sem unhas, sem dentes, com o volume calibrado para não incomodar ninguém de importância. A luta continua, diz-se. Continua onde, exactamente, não se especifica.

Entretanto, lá fora, o mundo trabalha. Nos armazéns, nas plataformas, nos contratos de prestação de serviços que são vínculos laborais com outro nome e menos direitos. A precariedade não usa farda — usa aplicação, usa algoritmo, usa a linguagem da liberdade para descrever a servidão. És o teu próprio patrão. O defunto, ao que parece, tem primos.

Mas hoje é também o dia das maias.

A tradição manda pôr ramos de flores silvestres à porta — giesta, espinheiro, erva-benta — para afastar as pragas do Verão que se aproxima. O carrapato, em particular: pequeno, paciente, invisível até estar já enterrado na pele, a sugar com uma dedicação que envergonharia muitos profissionais. A sabedoria popular identificou-o há séculos como inimigo a manter do lado de fora.

A sabedoria popular sabia o que fazia.

Ponham maias à porta. A todas as portas.

1° de Maio


 

Entrevista a Hipatia


Pergunta 1

O Voz em Fuga começou em 2004. O que é que ainda hoje a obriga a escrever, depois de tudo o que já foi dito?

Hipátia:

Não escrevo porque ainda haja algo de novo a dizer. Escrevo porque o mundo insiste em repetir-se com outras palavras, e a linguagem, se não for vigiada, fica preguiçosa. Enquanto isso acontecer, escrever é uma forma de atenção. Não uma obrigação moral — um exercício de lucidez.

Pergunta 2

Escrever durante mais de duas décadas no mesmo espaço online criou uma obra ou apenas um hábito?

Hipátia:

Um hábito pode ser a forma mais honesta de uma obra. Nunca planeei um edifício; limitei-me a varrer o mesmo chão. Se isso desenhou um mapa, foi por insistência, não por projeto.

Pergunta 3

Nunca sentiu necessidade de mudar de lugar, de nome ou de forma?

Hipátia:

Mudar de lugar é fácil. Permanecer é mais difícil. Ficar impôs-me contenção, responsabilidade e memória. Não me interessava recomeçar; interessava-me aprofundar.

Pergunta 4

O blogue foi durante anos visto como forma provisória. Hoje, parece-lhe que foi uma vantagem?

Hipátia:

Sim. A provisoriedade protege da vaidade. Escrever sem promessa de permanência liberta o texto da urgência de provar o seu valor. Paradoxalmente, é isso que lhe permite durar.

Pergunta 5

Há textos que envelheceram melhor do que outros. Consegue explicar porquê?

Hipátia:

Os que resistiram são os que não estavam convencidos do momento em que nasceram. A atualidade é um péssimo critério de sobrevivência.

Pergunta 6

Escrever sabendo que o texto vai envelhecer muda a maneira como se escreve?

Hipátia:

Muda o tom. Torna-o menos histérico, menos seguro de si. Obriga a escolher palavras que não dependam do aplauso imediato.

Pergunta 7

Muitos dos seus textos partem da atualidade, mas recusam o comentário imediato. É uma escolha estética ou moral?

Hipátia:

É ética. O imediato raramente pensa. Reage. A escrita precisa de atraso — como a digestão.

Pergunta 8

Acredita que a indignação rápida empobrece a linguagem?

Hipátia:

A indignação é necessária. O problema é quando se torna automática. A linguagem passa a gritar o que ainda não compreendeu.

Pergunta 9

É possível escrever politicamente sem escrever slogans?

Hipátia:

Se não fosse, não escreveria. A política não vive só do que se afirma, mas do que se recusa simplificar.

Pergunta 10

Porque insiste no banal — casas, sofás, silêncio, cansaço — quando o mundo parece sempre em colapso?

Hipátia:

Porque é no banal que o colapso se instala primeiro. As grandes palavras chegam sempre tarde.

Pergunta 11

O quotidiano protege-nos da abstração ou revela-a?

Hipátia:

Revela-a. O corpo sente antes do conceito. Uma sala desconfortável é, muitas vezes, mais honesta do que um discurso bem arrumado.

Pergunta 12

O “eu” nos seus textos é discreto. O que perde — e o que ganha — com essa contenção?

Hipátia:

Perde-se biografia. Ganha-se espaço. Nunca me interessou ser personagem daquilo que escrevo.

Pergunta 13

Hoje espera-se que quem escreve se exponha, se explique, se narre. Essa expectativa é incompatível com o seu trabalho?

Hipátia:

É incompatível com a minha paciência. Há coisas que só se dizem retirando-se.

Pergunta 14

Se Voz em Fuga fosse livro, o que ficaria de fora sem hesitação?

Hipátia:

Tudo o que precise de contexto para se justificar. Um livro não pode pedir desculpa pelo tempo em que foi escrito.

Pergunta 15

Um livro encerraria o projeto ou apenas o deslocaria?

Hipátia:

Deslocaria. Nada se encerra enquanto houver mundo para olhar — mesmo com cansaço.

Pergunta 16

Escrever ainda muda alguma coisa — nem que seja o olhar?

Hipátia:

Muda o meu. E isso já não é pouco.

Pergunta 17

O que continua a merecer atenção num tempo saturado de opinião?

Hipátia:

As zonas onde ninguém quer ficar muito tempo: dúvida, silêncio, ambiguidade.

Pergunta 18

O que a faria parar de escrever?

Hipátia:

Talvez o dia em que a linguagem deixasse de resistir ao que é fácil.

Ou o dia em que eu deixasse de tentar.

2026-04-30

Como não assustar o espelho antes do café


Enquanto o Verão ensaia uma entrada triunfal só para desistir dois dias depois, dou por mim a reconsiderar seriamente as virtudes dos auto-bronzeadores sempre que me cruzo com o meu reflexo logo pela manhã. Eu, sem maquilhagem e a cores, pareço uma aparição recém-promovida do além. Chega a ser um susto em primeira mão — e ninguém merece esse tipo de experiência antes do café, muito menos com a bexiga a implorar por atenção.

Convenhamos: medo e bexigas cheias são uma combinação de alto risco. E, com um olho ainda em modo de poupança de energia e o outro ainda a dormir, dar de caras com aquela figura desalinhada não é propriamente o melhor “bom dia”. Às vezes pergunto-me porque é que o espelho não vem com filtro a preto e branco de origem — sempre poupava na nitidez dos estragos.

O problema é que a última vez que tentei resolver isto com um auto-bronzeador acabei com um tom suspeitosamente amarelo. E se já é duvidoso parecer um fantasma, pior ainda é parecer um fantasma com diagnóstico clínico.

2026-04-29

Dia Internacional da Dança


Acho que me apetecia dançar. Acho que só me apetecia dançar. Ter par para um passo de dança e uns braços com o ritmo certo.

​Estico o braço, a mão aberta e virada para baixo, suspensa no ar como quem lança uma âncora ao mar. Espero que outra mão a venha buscar, que a envolva e me tire deste eixo de cansaço.

​Queria apenas o abraço que acontece entre um passo e outro. Queria o lugar onde o tempo nos habita e o mundo, finalmente, se cala.

Corpos desaguados de ritmo e deste estar para aqui longe e sozinha e cansada e com tanta vontade de dançar, dançar-nos, dançar-te.

2026-04-27

Dias barulhentos


«Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.»

Álvaro de Campos

Gosto de um certo tipo de silêncio que apenas advém da fartura. Vem depois de abraços, de saudades, de beijos e de partilhas. Vem e fica, por instantes. E é dele que vou alimentando os dias barulhentos em que quase me perco de mim e das coisas e das pessoas que me preenchem.

2026-04-26

Fulanização


De um momento para o outro, pior do que um tutear que não foi pedido ou concedido, temos a fulanização total e absoluta, passando toda a gente a fulano. E os fulanos, por norma, são aqueles que berram pelos direitos que nem sabem que têm porque outros berraram antes e berram ainda mais contra os direitos dos outros, os tais que nem sabem que existem. E estes fulanos que berram há muito que se eximiram da cidadania. Pior, nesta democracia de fulanos, os fulanos são sempre os outros. E, esses, claro que não têm os mesmos direitos que o fulano que berra, especialmente se os direitos de uns e outros estão em confronto. Porque a liberdade dos fulanos nunca acaba onde começa a liberdade de outro fulano. Assume que a sua liberdade de fulano é a única ilimitada.

2026-04-25

Liberdade




Há uma ironia deliciosa na forma como o tempo decide guardar os seus segredos e baralhar as nossas certezas. No dia 25 de abril de 1974, "Grândola, Vila Morena" era um sussurro de rádio, uma senha clandestina que viajava nas ondas curtas para abrir as portas de uma liberdade que parecia impossível. Era uma música de terra, de barro e de braços dados, desenhada para ser o código de um destino coletivo.


​Cinquenta anos depois, a senha mudou de frequência e de roupagem. Deixou de ser o sinal de um golpe de estado para se tornar o eco de um algoritmo global. É fascinante observar que a canção de José Afonso — o homem que cantava a fraternidade sem precisar de luzes de ribalta — se viu subitamente vestida de vermelho, sob as luzes de alta definição de uma plataforma de streaming. Para o mundo, a "Grândola" viajou mais depressa como entretenimento do que como história, e há uma beleza doce, ainda que penetrada pelo paradoxo, neste fenómeno de massa.


​O alcance desta nova vida é tão vasto que os ecos originais da democracia portuguesa parecem agora pequenos perante a escala do digital. Prova disso é o momento quase surreal de encontrar, sob o sol do Egito, um guia local que a cantarolou com naturalidade. Ele talvez não saiba localizar o Alentejo num mapa, nem conheça o peso do silêncio que a canção quebrou naquela madrugada de abril, mas ele reconhece o "frêmito" da melodia. A série deu à música um par de asas digitais e, embora a tenha transformado em produto de consumo, não conseguiu roubar-lhe a essência. Pelo contrário, espalhou a semente da resistência para lá das fronteiras da língua e da geografia.


​Este novo fôlego é o sinónimo perfeito dos nossos tempos: a ideia de liberdade tornou-se contagiosa através da ficção, provando que a alma de uma canção é capaz de sobreviver até à sua própria comercialização. Talvez o Zeca, com o seu sorriso enigmático, achasse uma graça profunda a este desfecho. Afinal, ele sempre escreveu que o povo é quem mais ordena, e o povo, agora global e ligado por cabos de fibra ótica, decidiu que esta música lhe pertence por direito emocional. É um final feliz para uma canção que nasceu para libertar um país e acabou por se libertar de si mesma para ir consolar quem a quiser cantar, seja nas ruas do Cairo ou num ecrã em Tóquio, provando que, cinco décadas depois, o mundo ainda quer ter, em cada esquina, um amigo.


2026-04-23

​O Paraíso dos Desdentados


Se Richter tivesse razão, Portugal seria um país de eternos habitantes. Mas há paraísos que se esvaziam por dentro — lugares onde a memória não desaparece, apenas se torna seletiva, dócil, inofensiva.

​Estamos nas vesperas do 25 de Abril e a máquina da efeméride já aquece os motores. Celebraremos, como sempre, o que já não nos ameaça. A memória, quando perde os dentes, transforma-se em cerimónia. Em desfile. Em coisa arrumada na gaveta dos feriados nacionais.

​Os fantasmas continuam lá, mas já não mordem. E por isso podemos acenar-lhes com tranquilidade, como quem reconhece uma fotografia antiga sem sentir o pulso acelerar. O "velho das botas" pertence agora ao arquivo, não ao medo. E é precisamente essa ausência de perigo que permite a coragem tardia dos nossos dias: a facilidade de homenagear o que já não pode responder, nem contradizer, nem punir.

​Entretanto, no vácuo deixado pela utopia, ficaram outros. Não os que mandaram durante décadas com mão de ferro, mas os que sobrevivem em ciclos de quinze minutos. Gente de superfície, de ruído curto, de obra nenhuma. São os gestores do "agora", impecáveis na técnica e vazios na entrega.

​Já não há futuro suficiente para chamarmos utopia. Há apenas a administração do presente — limpa, técnica, irrepreensível.

​Talvez seja esse o verdadeiro esquecimento: não o ato de perder o passado, mas o de perder, finalmente, a necessidade dele.

2026-04-22

Teorema das sofanadelas


A minha sala tem uma planta trapezoidal tão estranha que até os móveis parecem sofrer de labirintite. Mas o meu feitio também é “de ladecos” e, assim, a minha busca pelo sofá ideal demorou quatro anos de pura indecisão — que acabou num sofá preto, quando jurava que queria um azul.

Mas o que importa não é a cor, nem o ângulo de 45 graus com que ele ficou encostado à parede. O que importa é que foi desenhado para a arte da sesta.

Deitei-me e senti-o: perfeitamente calibrado para as sofanadelas. Daquelas com direito a sesta profunda e àquele fio de baba estratégico no canto da boca.

Foi então que percebi: não há salas perfeitas, nem ângulos retos que salvem uma vida atribulada. Há, isso sim, sofás que nos encontram quando já desistimos de os procurar.

E foi ali, entre o encosto e a almofada, que o meu α finalmente fez sentido. Conforto elevado, ângulo irrelevante… e quem nunca acordou babado, que atire a primeira almofada.

2026-04-20

O Purgatório tem Wi-Fi (mas a password expirou)



​Estou há uma semana retida no Triângulo das Bermudas da modernidade: o suporte técnico. É um lugar fascinante, onde a lógica vai para morrer e onde frases como “tentou reiniciar?” são proferidas com a gravidade de quem está a sugerir uma cirurgia de peito aberto.

​A minha autonomia — aquela que me permitiu sobreviver aos anos 80 sem um GPS ou um adulto funcional por perto — está a ser lentamente asfixiada por um chatbot chamado "Artur", que tem a empatia de uma pedra e o vocabulário de um folheto de instruções traduzido por inteligência artificial de baixo custo. O Artur quer saber se estou satisfeita. O Artur quer que eu avalie a minha experiência. O Artur ainda não percebeu que, na minha escala de valores atual, a única "experiência" que me satisfaria envolvia um martelo de 5kg e o servidor central desta empresa.

​Dizem que a tecnologia veio para nos libertar. De facto, estou libertíssima: de trabalhar, de produzir e de manter o meu índice glicémico abaixo do nível de alerta. Passo os dias a olhar para círculos que giram, ícones de carregamento que são o equivalente digital a um manguito, e a preencher captchas para provar que sou humana. É irónico. Sinto-me cada vez menos humana e cada vez mais como uma peça defeituosa numa simulação escrita por um estagiário sádico.

​O que mais me irrita não é a avaria. É a condescendência do sistema. É a música de espera em sintetizador que tenta convencer-me de que "a minha chamada é muito importante", enquanto o contador de tempo me informa que sou a número quarenta e dois na fila para o nada. É a submissão exigida por um código que não aceita a minha password porque, aparentemente, a minha vida não tem carateres especiais suficientes.

​Sete dias disto. Se fosse em 1986, eu já tinha aberto a carcaça do computador, soprado nos contactos e resolvido a questão com um par de insultos bem direcionados. Hoje, sou obrigada a "abrir um ticket". Um ticket. Como se estivesse na fila para um carrossel que não anda, num parque de diversões em chamas.

​Dizem que a paciência é uma virtude. Eu digo que a paciência é apenas a falta de um plano de fuga. Mas não se preocupem: se amanhã não houver texto, é porque a minha voz finalmente fugiu. Não por vontade própria, mas porque o servidor decidiu que a minha existência requer uma atualização de software que eu não pedi nem quero, mas que tenho de aguardar.

2026-04-19

Geração X


Dizem que a Geração X foi criada sem aplausos. É verdade, e provavelmente foi o melhor que nos aconteceu. Crescemos com a chave ao pescoço, a resolver avarias de televisores a soco e a aprender que o silêncio de uma casa vazia não é tragédia — é condição. A autonomia não foi uma escolha; foi o kit básico de sobrevivência que veio na caixa, sem manual e sem direito a serviço de apoio ao cliente.

​Crescemos com a sombra da Guerra Fria no tecto — a bomba não era metáfora, era probabilidade estatística. Aprendemos cedo que nada estava garantido, nem sequer o amanhã em sentido literal. Quando a ameaça nuclear finalmente se dissipou por falta de orçamento, o mercado apressou-se a preencher o vazio: entrámos na vida activa e encontrámos crises enfileiradas. A entrada na CEE, a bolha dotcom, o subprime, a austeridade de estimação e, para coroar a palhaçada, o Covid e a habitação. Cada vez que respirámos fundo, havia outro "reajustamento estrutural" à espera de nos esvaziar os bolsos. Não nos queixámos. Sabíamos que a reclamação é um luxo de quem acredita que o sistema se importa.

​Não somos a geração do trauma performativo nem da resiliência com filtro de Instagram. Somos a geração que se habituou a não precisar de público para funcionar — e que desconfia, por instinto visceral, de qualquer um que precise de validação externa para validar a sua própria existência.

A Hipátia habita aqui por isso. Não como boneco de merchandising para inspirar RHs em burnout, mas como a competência que não precisa de crachá e a lógica que serve de armadura contra a imbecilidade circundante. O nickname é o meu último gesto de higiene: apagar a pessoa para que o pensamento sobreviva sem a biografia a pedir desculpa ou um rosto à espera de "likes". Sem nome, o texto deixa de ter dono e passa a ter apenas o peso da verdade.

E agora, enquanto o governo de Montenegro faz o seu habitual número de equilibrismo para sobreviver mais uma terça-feira, surgem as "reformas" do código do trabalho. A classe média — essa geração sanduíche que passou décadas a amortecer os choques de toda a gente — vê as regras serem alteradas nos últimos metros da maratona. Querem-nos ainda mais expostos, ainda menos protegidos, como se a nossa resiliência histórica fosse um cheque em branco para o abuso estatal. Não pedíamos descanso. Pedíamos apenas a paz e a calma de quem já pagou a sua quota de caos. Não pedíamos aplausos.

2026-04-17

Profetas em segunda mão


Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, subiu a um púlpito improvisado no Pentágono e abriu o que parecia ser uma Bíblia. Começou a ler com a solenidade de quem carrega o peso do mundo — ou pelo menos de um guião.

O problema é que o texto não era dos Profetas. Era de Quentin Tarantino.

Hegseth pregou o monólogo de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction com uma convicção tal que, por um momento, ficou a dúvida: para ele, se soa a vingança e está em inglês arcaico, foi Deus que escreveu?

A resposta veio do Vaticano. O Papa Leão XIV — o primeiro americano a calçar as sandálias do Pescador — não respondeu com ironia. Respondeu com Isaías 1:15.

"As vossas mãos estão cheias de sangue."

Não há muito a acrescentar. Um homem que confunde Tarantino com os profetas tem poder sobre vida e morte. Um homem sem esse poder lembrou-lhe o que isso significa.

A Bíblia não foi editada por Tarantino. Mas talvez precisasse de ser lida por quem tem o dedo no gatilho.

2026-04-16

A Cura que Vem a Seguir


Decidi ser uma pessoa melhor. Comecei ontem, logo a seguir ao jantar, mas parei hoje às dez da manhã porque o excesso de virtude dá-me enxaquecas e, como todos sabemos, o equilíbrio é a única coisa que separa uma santa de uma pessoa com necessidade urgente de um calmante.

Há uma certa nobreza nesta minha desistência precoce. Enquanto o resto do mundo se esfalfa em shadow work e retiros de silêncio para encontrar uma criança interior que, francamente, já devia ter idade para se sustentar sozinha, eu prefiro a honestidade do meu sofá. A minha terapeuta diz que estou a fugir do processo; eu digo que estou apenas a poupar no copagamento.

A verdade é que a "melhor versão de nós próprios" é uma entidade cansativa que acorda às seis da manhã para beber água com limão e gratidão. Eu, por outro lado, acordo com este cabelo que desafia as leis da gravidade e do bom senso, armada com uma caneca que serve de epitáfio às minhas ambições espirituais.

Dizem que a jornada de mil milhas começa com o primeiro passo. Esqueceram-se de mencionar que, ao segundo passo, podemos perfeitamente descobrir que os sapatos nos fazem bolhas e que a vista daqui, embora ligeiramente deprimente, não exige subscrição mensal.

A diferença entre mim e o resto é apenas de escala. Eu desisto ao segundo passo. Mas há um tipo de pessoa — e toda a gente conhece pelo menos três — que está permanentemente a resolver-se.

Não é um processo discreto. É uma vocação pública, com actualizações regulares e hashtags adequadas. Em Janeiro, fez jejum intermitente e descobriu que o corpo é um templo. Em Março, o templo precisava de ser alinhado, e então veio o ioga, que durou até à lesão no joelho que veio a dever-se, descobriu-se depois, a um desequilíbrio dos chakras que só o reiki conseguia corrigir. O reiki foi substituído pela meditação guiada por uma aplicação sueca, que foi substituída pelo tai chi walking depois de aparecer num reel com 2,3 milhões de visualizações. O tai chi walking consiste, aparentemente, em andar devagar com as mãos abertas. Custa 49 euros por mês.

Há sempre qualquer coisa nova a experimentar, e a novidade é o ponto: o ciclo não serve para chegar a lado nenhum. Serve para estar em movimento. Estar em movimento é a prova de que se está a trabalhar nisso.

Nisso. A palavra é sempre esta, vaga e suficientemente elástica para conter tudo sem nomear nada. Trabalhar nisso. Cuidar de mim. Fazer o meu processo. O processo do quê, exactamente, é uma pergunta que não se faz, porque a resposta implicaria parar, olhar, e identificar a coisa com nome próprio — a relação que não funciona, o trabalho que sufoca, o medo que tem vinte anos e ainda não foi apresentado em sociedade.

Em vez disso, há um peeling novo.

O peeling é de argila vulcânica da Islândia, recomendado por uma influenciadora que também vende suplementos de magnésio e tem um curso online sobre abundância. A pele fica luminosa. A luminosidade é interpretada como progresso. O progresso justifica a compra do próximo produto, que chegará dentro de três a cinco dias úteis com uma carta manuscrita — impressa — sobre a jornada de transformação que está prestes a começar.

A jornada começa sempre na próxima semana.

O que nunca entra na equação é a hipótese de que o problema não precisa de um produto. Precisa de uma conversa difícil, ou de uma decisão que vai custar alguma coisa, ou simplesmente de ser visto sem o filtro de que tudo é uma oportunidade de crescimento pessoal. Às vezes as coisas correm mal e não há lição. Às vezes a vida é estreita e não abre com respiração diafragmática.

Mas isso não tem aplicação. Não tem comunidade no Instagram. Não tem free trial de catorze dias.

E por isso, amanhã talvez tente a dieta da luz. Mas só se a luz for artificial e vier de dentro do frigorífico.

2026-04-15

Poemarmas (versão condensada, 2026)


Que o poema não peça lugar — tome-o.
Que não respeite o silêncio confortável da mentira.
Que falhe onde tudo parece funcionar.
Que estrague a ordem que se chama normalidade.
Que não explique: interrompa.

2026-04-14

A Geometria do Espanto


O Egito não me pediu permissão para entrar; simplesmente ocupou-me.

​Saio daqui com os cascos moídos, como se tivesse carregado cada bloco de Karnak nas costas, mas com uma alma pesada — não de tristeza, mas de volume. É o peso de quem guardou um horizonte inteiro dentro do peito.

​O Deserto Branco foi a minha derrota final. Como no Salar de Uyuni, o mundo ali deixou de ser geografia para passar a ser uma alucinação geológica. Fiquei muda. Há lugares que não são para descrever; são para ser sofridos fisicamente, através de um nó na garganta e de uma vertigem que nos recorda quão pequenos somos.

​Ali, entre o giz e o silêncio, percebi que a minha alma finalmente não tinha para onde fugir. Encontrou-se com o absoluto.

Normalmente uso a lógica para domesticar o mundo, mas encontrei no Deserto Branco o meu limite: o lugar onde a palavra falha e o corpo se torna o único documento capaz de registar o momento.

O Deserto Branco tatuou-me o espanto na retina, mas foi na água quente de uma piscina termal de um hotel torto e perdido, que o corpo finalmente perdoou a alma por o ter levado tão longe. Ali, entre o vapor e o silêncio, fiz uma pausa. O Egito, afinal, não é só pedra e poeira; é também o descanso da viajante que, depois de muito galgar, encontra o seu próprio oásis.

Deserto


Ah, o universo tem um sentido de humor muito peculiar. E, confesso, um certo sadismo para com quem só queria tomar um duche sem parecer um combate de wrestling com uma porta.

A história começa no meu quarto original, um espaço acolhedor cuja porta decidiu que a relação connosco era tóxica e recusou-se a fechar. Nem com a técnica do ombro, nem com o calço, nem com uma reza a São Firmino, padroeiro das dobradiças. Resultado: dormir com a sensação de que, a qualquer momento, um hóspede bêbado — ou o espírito de António Variações — entraria para um medley desafinado.

Num gesto de piedade, as entidades hoteleiras transferiram-me. Para uma suite triplex. Três pisos. Escadas interiores. Claraboias. Só não tinha um minibar do tamanho de um Volkswagen, mas também ninguém aqui bebe álcool.

Ri-me, nervosamente. Daquele riso de quem tem a certeza de que lhe vão pedir um rim no checkout. Mas não: era verdade. Eu, plebeia de porta avariada, agora reinava num espaço com cama de dossel e uma casa de banho do tamanho de um microapartamento.

Na manhã seguinte, lá fui eu, toalha fofa em punho e a confiança de quem já se sentia proprietária daquilo tudo, girar o manípulo do duche.

O som que se seguiu não foi o de água quente a correr. Foi um soluço metálico. Água. Polar. Diretamente do Ártico.

E a quente? A quente estava de férias. Ou, mais provavelmente, tinha sido desviado para o quarto 7, onde algum hóspede mais afortunado do que eu se banhava numa cascata termal.

Portanto, ali estava eu: numa suite triplex, com duas casas de banho, nenhuma com água quente. A tomar um banho aos saltinhos, a reconsiderar as minhas escolhas de vida, e a concluir que o luxo é, afinal, uma forma muito cara de passar frio.

E a porta do meu antigo quarto? Aposto que até já fecha. Sozinha. Só para se rir de mim.

Reencarnação


Não desejo mal a ninguém. É uma posição moral que mantenho com algum esforço, especialmente em anos eleitorais.

Mas há uma justiça poética na ideia da reencarnação como sistema de calibração — não o modelo aspiracional das tradições orientais, onde se regressa a uma forma superior consoante os méritos acumulados, mas uma versão mais rigorosa, administrada por uma entidade sem paciência para subtilezas: regressas ao que fizeste, na forma mais literal possível.

Quem passou a vida a tratar o mundo como lixo volta como contentor. Quem viveu às custas dos outros volta como parasita — o tipo que não escolhe o hospedeiro, é escolhido. E quem passou décadas a produzir legislação, discursos e decisões que só servem para limpar a sujidade que eles próprios criaram?

Papel higiénico. Evidentemente.
Não é crueldade. É proporcionalidade. O universo, se tiver bom gosto, funciona assim.

Eu, pessoalmente, continuo a não desejar mal a ninguém. Limito-me a confiar no processo.

Alexandria

Conduzir em Alexandria não é simplesmente deslocar-se de A para B — é participar numa coreografia caótica onde as regras são meras sugestões filosóficas e as faixas de rodagem existem apenas como decoração urbana.

Aqui, ninguém “anda na sua faixa”. Aliás, o conceito de faixa parece ser interpretado como “uma zona vaga onde o carro pode flutuar”. Há quem circule com duas rodas de cada lado do risco contínuo, numa tentativa louvável de agradar a todos os deuses do asfalto ao mesmo tempo. É quase diplomacia rodoviária.

Os limites de velocidade? Um mito urbano. Provavelmente inventados por alguém muito otimista. Cada condutor escolhe a sua própria velocidade com base em critérios altamente científicos, como: “estou com pressa”, “não estou com pressa”, ou “apetece-me”.

Mas o verdadeiro coração do sistema não está nos sinais nem nas regras — está na buzina. A buzina não é um acessório: é uma linguagem. Um leve “pip” pode significar “olá”, “vou passar”, “cuidado”, “estou vivo” ou simplesmente “estou aborrecido”. Um toque mais longo já entra no campo da poesia épica, carregado de emoção e, possivelmente, alguma crítica social.

E depois há a autoestrada, esse palco de bravura onde carros, carrinhas e ocasionalmente conceitos abstratos de ordem coexistem em perfeita desorganização. Veículos deslizam sobre as linhas como se fossem sugestões artísticas, criando padrões dignos de uma exposição moderna.

No fundo, conduzir em Alexandria é libertador. É preciso esquecer tudo o que aprendemos. Aqui não há certo ou errado — há apenas movimento, instinto e uma sinfonia constante de buzinas. E, surpreendentemente, funciona.

Mais ou menos.

2026-04-12

Botas limpas

O fascismo não chega com botas sujas nem gritos histéricos — chega devagar, com palavras macias e promessas simples. Ocupa o espaço onde o pensamento desiste.

É quando a crueldade ganha o nome de justiça. Quando o "nós" vira trincheira contra o "eles".

Vive nos silêncios convenientes, nas piadas que passam sem resposta, nos absurdos que, repetidos, deixam de espantar.

Infiltra-se nos espaços de decisão, nos sistemas que filtram o mundo, na rotina cansada que já não questiona.

Até que acordamos tarde demais.

Permanência

Oito horas de carro. Cinco sítios em passo de corrida. Isto não é turismo, é uma evacuação arqueológica.

Karnak sozinho precisava de um dia. O Vale dos Reis também. Fizemos tudo em modo maratona — templos, avenidas, colossos. Luxor. A meio, os pés já estavam em estado de guerra declarada.

E depois, Deir el-Bahari. Hatshepsut é um texto inteiro por escrever.

A história tem tudo — a faraó que reinou como homem, os retratos martelados depois da morte, o nome apagado das paredes e Tutmósis a perceber, tarde demais, que apagar alguém da pedra não apaga nada de facto. Ela está em todos os museus do mundo. Ele é uma nota de rodapé.

E eu estive lá. No templo dela. Com os obeliscos que sobreviveram a tudo.

A morte egípcia não é fim, é uma negociação muito longa com a permanência. Hatshepsut perdeu a negociação quando morreu e ganhou-a nos milénios seguintes. Um karma escrito em pedra.

2026-04-10

Despacho do Reino dos Mortos


Estou velha, gasta, gorda, sem maquiagem. Num grupo de dezoito pessoas, continuo a encontrar formas de estar sozinha.

E tenho recebido um apreço imenso dos locais.

Não um carinho agressivo como em Marrocos — onde o interesse turístico tem dentes. Aqui é tímido, um pouco interesseiro quando querem os meus euros, mas com uma leveza que não ofende. Um sorriso que não estava nos planos.

Não sei bem a razão. Podem ser os olhos verdes — num mundo tão masculino, num país tão patriarcal, isso conta. Pode ser o loiro que ainda se nota pelo meio das brancas. Pode ser o árabe de manual com que me esforço, três palavras tortas que parecem causar uma alegria desproporcional. Ou a reverência aos cabelos brancos, que aqui significa que se viveu e que isso merece respeito.

Ou pode ser outra coisa completamente. Pode ser que mais de um ano fechada num casulo deixe marcas visíveis no sentido inverso — que a felicidade de finalmente estar aqui, neste lugar completamente outro, me saia pelos poros de forma indecente. Que se veja. Que chegue ao outro lado antes de eu abrir a boca.

Não sei. Sei que o sorriso do outro lado é grande. E que, por ora, não preciso de perceber porquê.

Curiosidades da sinalética egipcia




O sinal estava à porta da casa de banho de um restaurante no Cairo.

Não era um simples aviso. Era uma tese visual. Uma declaração civilizacional. Milénios a esculpir instruções em pedra não passam em vão: no Egito, a imagem não sugere — decreta. Há ali uma confiança antiga na capacidade do desenho para pôr ordem no mundo, como se um bom pictograma pudesse, em última instância, resolver a humanidade.

E, de certo modo, tenta.

A placa em questão proibia fumar na sanita. Não de forma vaga ou simbólica, mas com um zelo quase pedagógico. Havia um homem. Havia uma sanita. Havia um cigarro. Tudo meticulosamente organizado para que nenhuma dúvida sobrevivesse. E, a atravessar o conjunto, o círculo vermelho com a barra diagonal — esse golpe gráfico que, em qualquer latitude, significa: nem sequer consideres.

Não discuto a regra. A civilização assenta em proibições específicas. O que me interessa é o momento fundador. O instante inaugural em que alguém, num passado não documentado mas seguramente memorável, decidiu que aquele era o sítio certo para acender um cigarro. É assim que a história avança: um gesto isolado, profundamente questionável, que obriga o resto da espécie a produzir sinalética.

E depois há o texto.

Por baixo da imagem, como quem não confia inteiramente na eloquência milenar do desenho, surge uma explicação.

Em coreano.

Não em árabe. Não em inglês. Em coreano. Um detalhe que transforma a placa num objeto quase metafísico. Porque implica uma cadeia de eventos altamente improvável: não só alguém fumou na sanita, como esse alguém — ou alguém suficientemente semelhante — era coreano, e reincidente, e imune a pictogramas, obrigando as autoridades locais a escalar o problema para o plano linguístico.

Gosto de imaginar o processo. Reuniões. Relatórios. Um comité a folhear incidentes. “Temos um padrão”, dirá alguém, com gravidade. “E esse padrão escreve-se em hangul.”

A conclusão é inevitável: aquela placa não é para todos. É dirigida. Cirúrgica. Uma mensagem pessoal, quase íntima, entre o Egito e a Coreia.

Os restantes povos, depreende-se, ficam entregues ao livre-arbítrio. Ou, pelo menos, à combustão experimental.

2026-04-09

Nem o sol nasce


O que ganha Israel?

No curto prazo, poder de fogo convertido em resultados visíveis.

Os objectivos declarados — enfraquecer o Hezbollah e permitir o regresso dos cerca de 60.000 deslocados do norte — tiveram efeitos reais: liderança atingida, infraestruturas degradadas, capacidade operacional reduzida.

Mas isso é a parte fácil.

O objectivo implícito é outro: garantir que o Hezbollah deixa de ser uma ameaça relevante. E isso exige uma de duas coisas — ou um estado libanês forte o suficiente para o conter, ou um território tão destruído que deixe de o sustentar.

Israel está, na prática, a produzir o oposto de ambos.

Não está a fortalecer o estado libanês. Está a acelerar o seu colapso. E a história recente é consistente: quanto mais fraco é o Líbano, mais espaço tem o Hezbollah para se apresentar como alternativa — militar, política e simbólica.

Isto não é um efeito colateral. É o resultado previsível da estratégia.
Há, portanto, um desfasamento claro entre o ganho táctico e o efeito estratégico. Israel consegue degradar capacidades no terreno, mas, ao mesmo tempo, recria as condições que permitem ao Hezbollah regenerar-se.

E fá-lo com um custo crescente.

Os ataques com impacto sobre civis não são apenas um problema moral; são um problema político. Erosão de legitimidade internacional não impede operações imediatas — mas limita o espaço de manobra, isola aliados e transforma vitórias militares em passivos diplomáticos.

Ainda assim, Israel continua.

Porque, no imediato, funciona. Reduz a pressão, cria dissuasão, oferece a sensação de controlo.

Mas essa sensação é temporária.

A resposta honesta é esta: Israel ganha tempo.

E troca-o por um problema que regressa mais complexo, mais enraizado e mais difícil de resolver.

2026-04-06

Cairo


Estou no Egito. Já pus a Esfinge a fumar, andei atrás de vacas, tenho os pés moídos e saudades do meu rendalho. É o que há de novo.

Viajo com amigas vegetarianas — o que, no Egito, equivale a uma declaração de guerra silenciosa contra a ementa. Hoje ao jantar, dei por mim a negociar e com uma paciência diplomática que desconhecia. Senti que, a qualquer momento, alguém ia chamar as Nações Unidas.

O prato padrão das miúdas tem sido batata frita com batata cozida, arroz, três ou quatro grãos de milho e, quando a cozinha se sente particularmente generosa, um cogumelo. Um. Por prato. Com a solenidade de quem está a gerir um recurso escasso à escala global.

Hoje consegui omeletes. Vitória. Não dá para medalha, mas aceito a menção honrosa.

Elas analisam ingredientes. Eu como. Não por princípio — por sobrevivência emocional. E também por gratidão. Alguém tem de honrar o buffet. E começo, claro, pela proteína.

À noite, quando o grupo está saciado e os pés se recusam a continuar, penso no rendalho que ficou em casa. Há qualquer coisa de meditativo no croché que o Egito não consegue substituir — e o Egito tem templos com quatro mil anos. O rendalho ganha. Sempre. É a minha Esfinge particular: quieta, paciente, à espera.

Egipto



Andei atrás de uma vaca o dia inteiro.

Mas são os meus cascos que doem.

Já tinha saudades de ser turista.



2026-04-05

Koshary


O Egipto tem pirâmides, tem o Nilo, tem milénios de civilização acumulada. E tem koshary — massa, lentilhas, grão e molho de tomate, além do picante e da cebola frita, numa única tigela, servido com a confiança tranquila de quem sabe que está a mudar uma vida.

E a minha foi mudada a partir das três da tarde, num sentido que as pirâmides não anteciparam.

Há descobertas que exigem retirada imediata do terreno.

A arqueologia tem limites.

2026-04-03

O Milagre da Multiplicação


Se a Última Ceia fosse em solo luso, o drama bíblico teria sido abafado pelo som dos talheres e pelo inevitável: "Ó Judas, passa aí o prato dos rissóis!".

Nesta Sexta-Feira Santa, a imagem não mente. Entre azulejos e conversas cruzadas, o sacrifício passa a ser puramente digestivo. O mundo medita sobre o jejum — nós resolvemos a transcendência com um leitão assado e três tipos de sobremesa. Porquê dividir apenas pão e vinho quando a mesa pode desafiar as leis da física e da cardiologia?

É a nossa forma de devoção: se é para haver despedida, que seja com o estômago feliz e a alma cheia.

Pecado: deixar a travessa vazia.

2026-04-02

No primeiro de abril, claro


Convenhamos: o manguito é poesia geométrica.

Nascido entre o barro e a sátira das Caldas, aquele ângulo reto, o punho cerrado com a paciência já gasta, é o nosso grito de "basta!" — com pedigree artístico e tudo.

A notícia apareceu ontem, em dia dado a fantasias e outras pequenas aldrabices, mas ninguém estranhou demasiado. Faz sentido: este é o único património que todos dominamos, desde o gabinete à obra, sem precisar de candidatura nem parecer técnico.

Num mundo de burocracias cinzentas, o manguito continua a ser a única cor que ainda não foi regulamentada.

É imaterial, sim senhor, mas sente-se bem no fundo da alma.

Toma lá, mundo.

2026-04-01

Espírito livre com consciência postural avançada


Hoje acordei com a firme convicção de que nasci para ser selvagem. Uma espécie de espírito livre, indomável, desses que dizem “sim” à vida e “não” aos limites. Levantei-me da cama com essa energia toda… e imediatamente fiz um movimento em falso que me ofereceu um elegante torcicolo, acompanhado por um coro de dores de costas dignas de um idoso em dia de chuva.

Ser selvagem, afinal, tem nuances.

Passei o resto da manhã a tentar olhar para a frente sem parecer uma estátua renascentista mal posicionada. Cada tentativa de virar o pescoço era uma aventura épica, daquelas que mereciam trilha sonora dramática. Spoiler: perdi sempre. O meu corpo decidiu que hoje só podia existir num ângulo de 37 graus para a esquerda, e qualquer desvio disso seria punido com um estalo existencial.

As dores de costas, por sua vez, vieram como convidadas que ninguém chamou mas que se instalam no sofá e pedem chá. Estão ali, constantes, firmes, lembrando-me que ontem tive a audácia de… viver. Ou talvez de me sentar de forma ligeiramente errada. Quem sabe. O corpo humano é um poeta do exagero.

E assim se redefine o conceito de “vida selvagem”. Já não é sobre dançar até de madrugada ou dizer coisas impulsivas — é mais sobre conseguir calçar meias sem negociar com a coluna vertebral. É sobre sobreviver ao ato radical de virar na cama. É sobre olhar para o relógio às 21:30 e pensar: “foi um dia intenso, já fiz tudo o que havia para fazer na minha carreira de pessoa.”

No fundo, continuo a ser selvagem. Só que agora o meu habitat natural inclui uma almofada cervical, um analgésico e um profundo respeito por movimentos lentos.

A rebeldia mantém-se. Mas com apoio lombar.

2026-03-31

A validação das profecias

“There is a certain reverence in death that is required if you want reverence in life.”
— Tucker Carlson

Ouvi Tucker Carlson a falar do assassinato do Ayatolah — com a família, com o neto. A dizer que iniciar uma guerra matando gente desarmada foi o pior que podiam ter feito. Que não deceparam a cabeça: criaram uma Hidra. Não consegui discordar.

Há frases que nos fazem parar — não porque tragam novidade, mas porque expõem aquilo que preferíamos não ver. Tanto que não (me) importa o autor.

A ideia de que a reverência na morte sustenta a reverência na vida é desconfortável: obriga-nos a olhar para a forma como o Ocidente fala — e age — perante a guerra. Há muito que a linguagem se tornou assética, quase técnica, como se a morte pudesse ser reduzida a um procedimento, a um resultado operacional, a um número que fecha um relatório.

Mas quando a morte perde densidade, tudo o resto começa a perder também. Primeiro, a vida dos outros. Depois, inevitavelmente, a nossa própria posição moral. O que desaparece não é apenas o peso do ato — é o reconhecimento de que há limites que não podem ser tratados como detalhe colateral.

E é aqui que a ilusão se quebra. Porque a forma como tratamos os mortos nunca fica contida no momento em que acontece. Espalha-se. Ecoa. Regressa. Ignorar o luto, os rituais, aquilo que para o outro é sagrado, não é apenas um gesto de indiferença — é uma declaração: a de que nada merece verdadeiramente ser preservado.

E quando nada merece ser preservado, também nada merece ser respeitado.

É por isso que a força, por si só, nunca bastou. Pode impor silêncio, pode garantir obediência, pode até vencer — mas não constrói autoridade. Essa exige outra coisa: uma consciência de limite, uma noção de que há linhas que, uma vez ultrapassadas, não deixam intacto quem as cruzou.

Talvez seja esse o ponto que mais incomoda. Não o que se faz ao outro, mas o que isso transforma em quem o faz. Porque há uma erosão lenta, quase invisível, que não aparece nas estatísticas nem nos discursos — mas que corrói por dentro qualquer pretensão de legitimidade.

E até os guerreiros se transformam em operários da morte.

2026-03-29

A minha linha


Democratizar a tecnologia deu um telemóvel a cada mão. O discernimento não estava incluído.

Há coisas que não deviam ser para consumo massificado. A morte é uma delas. Não precisamos de ir à dark web para encontrar snuff movies; o feed das redes sociais tornou-se um mercado aberto para eles. A diferença é que os criadores não são cineastas criminosos, são qualquer pessoa com um telemóvel. E os consumidores somos nós.

Em Gaza, corpos. No Irão, meninas. Ontem os desgraçados dos porcos nas notícias. Entre uns e outros, um reel de trinta segundos que não pedimos mas não parámos. 

Onde traçamos a linha? Até onde estamos dispostos a ir num mundo que desumaniza com facilidade e transforma tudo em fait divers — pronto a ser consumido e esquecido à distância de um clique?

Fechar o ecrã também é um acto. O único que ainda nos pertence.