2026-09-02

O direito ao silêncio

Há coisas que não deviam ser consumidas em massa. A morte, certamente, merecia maior pudor.

Não digo que devêssemos fechar os olhos ao horror. Há mortes que precisam de ser notícia. Há crimes que precisam de ser denunciados. Mas há uma diferença entre informar e consumir. E tenho a sensação de que já não sabemos onde acaba uma coisa e começa a outra.

Acontece uma tragédia e, em poucas horas, sabemos o nome do morto, o nome do assassino, a cara do assassino, a cara da vítima, a sua infância, os seus vizinhos, o que publicou há sete anos numa rede social e, se houver tempo, até a marca dos sapatos que usava no dia.

Depois vêm os comentadores. Depois vêm os especialistas. Depois vêm as reconstituições. Depois vêm os vídeos em loop. Depois vêm as imagens que ninguém precisava de ver pela décima vez, mas que alguém decidiu que precisávamos de ver porque a audiência também precisa de ser alimentada.

E, no meio disto tudo, há uma família a escolher que fotografia levar para o velório, enquanto nós escolhemos que vídeo partilhar.

É aqui que me pergunto: onde termina o que é notícia e onde começa o que já é espetáculo?

Porque há uma perversidade particular em certos actos de terrorismo: não basta matar. É preciso ser visto. É preciso ocupar espaço, provocar medo, entrar na cabeça de milhões de pessoas.

E nós, com a nossa infinita disponibilidade para olhar, acabamos por entregar exactamente aquilo que era pretendido: uma audiência, um nome, uma narrativa. Os minutos de antena que talvez fossem parte do prémio.

Informar que houve um atentado é impedir que o medo fique abstracto. Mostrar o rosto do assassino em loop é transformá-lo em mito. Há acontecimentos que precisam de ser conhecidos sem precisarem de ser exibidos até à exaustão.

Há mortos que merecem ser lembrados sem que a sua morte seja transformada em conteúdo.

E há monstros que não precisam de tanto tempo de antena. Precisam, precisamente, do nosso silêncio.

Porque talvez a pergunta não seja o que temos o direito de saber.

Talvez devêssemos começar a perguntar o que estamos a ajudar a acontecer ao repetir isto pela centésima vez.

A informação é um direito.
A atenção tornou-se o prémio.

E nós andamos a distribuí-lo de graça.

2026-09-01

Não se interrompe quem está a fazer

Há uma regra básica da humanidade que continua inexplicavelmente por escrever nos manuais: se uma mulher está a fazer uma coisa que um homem disse que não podia ser feita, não a interrompas.

Não perguntes como está a fazer.
Não expliques como tu farias.
Não digas «isso não vai resultar».

E, sobretudo, não apareças cinco minutos depois com a frase:
— Estás a precisar de ajuda?

Não.
Neste momento, ela não precisa de ajuda. Precisa que te afastes lentamente, sem movimentos bruscos, como quem se aproxima de um animal selvagem.

Porque ela já passou pela fase da dúvida.
Já passou pela fase da irritação.
Está agora naquela zona luminosa em que uma pessoa deixa de querer provar que consegue e passa simplesmente a querer ver a cara de quem disse que não conseguia.

E há uma satisfação muito particular em terminar uma coisa que nos disseram ser impossível.
Não é vingança.
É serviço público.

2026-08-31

Clarabóia por telhado

Sou viciada em café e cigarros. É isto. Não é charmoso, não é estética de Instagram. É vício velho, de gente ansiosa. Acordo e o corpo pede logo as duas coisas.

“Podia ser pior”, dizem. Pois podia. Podia estar agarrada a pó, a apostas, a comprar merda que não preciso, a foder com desconhecidos só para não ficar sozinha, a viver nos comentários dos outros. Podia ser viciada em ser boa pessoa na internet. Isso é capaz de ser pior.

Não sou. Fiquei-me por isto. Café que me lixa o estômago e tabaco que me lixa o resto. Veneno com horário fixo.

Tenho uma clarabóia no telhado. Não vejo o mundo dali. Vejo um quadrado de céu sujo, a antena ferrugenta do prédio e, de vez em quando, uma gaivota que também não sabe bem onde está. Quando chove, embacia. Quando está sol, queima. Não me ilude.

Por isso não me meto muito na vida dos outros. Tenho telhados de vidro. Posso ver a rua, posso comentar para dentro. Agora, atirar pedras? Não.

Cada um que carregue a merda do seu calhau. O meu já me pesa que chegue. O dos outros só me interessa quando me cai em cima do pé.

2026-08-30

Quem com ICE prende, com ICE é preso


Há dias em que a realidade escreve o texto por nós e ainda nos deixa a tarefa fácil: basta não atrapalhar. O destino, esse contabilista cínico, não precisa de metáforas — só de tempo.

Milo Yiannopoulos, especialista em transformar ódio em carreira, foi apanhado pelo ICE no aeroporto de Nova Orleães e devolvido ao Reino Unido como quem devolve mercadoria defeituosa. O homem que passou anos a exigir deportações em massa, a defender que “milhões e milhões e milhões” deviam ser expulsos sem cerimónia, descobriu que a máquina que ele próprio ajudou a lubrificar não distingue entre inimigos e arquitectos.

É a velha história do carrasco que se esquece de que a lâmina não tem memória. Milo avisou-se a si próprio, repetidamente, em directo, com a convicção de quem constrói a própria armadilha e ainda se orgulha da engenharia. Depois surpreendeu-se por ser o primeiro a cair nela. Não é ironia. É incompetência estratégica.

A frase bíblica — “quem com ferro fere, com ferro será ferido” — é demasiado suave para o caso. Aqui não há moral, nem castigo divino, nem lição. Há só um sistema administrativo que funcionou exactamente como foi desenhado: um algoritmo burocrático que não lê currículos, não reconhece celebridades de nicho, não distingue entre o pregador e o alvo. O nome apareceu no ecrã, o protocolo avançou, e pronto: mais um número processado.

A crueldade que ele aplaudiu quando caía sobre os outros perdeu o charme quando lhe bateu à porta. É sempre assim: a violência política é um espectáculo até ao momento em que o bilhete tem o nosso nome.

Não sinto pena. Não sinto triunfo. Sinto apenas a precisão fria de uma máquina que, pela primeira vez, se lembrou de incluir o nome dele na lista. Não é karma. Não é justiça poética. É contabilidade: o débito chegou, e o sistema, implacável, cobrou.

2026-08-28

A Imortalidade do Inútil

Há um automatismo quase litúrgico na forma como empacotamos os dias. Compramos coisas envoltas em plástico duro para proteger o papelão que protege o vidro, trazemos o troféu para casa, desembalamos em três segundos de euforia e ficamos com o verdadeiro património da modernidade: a carcaça.

E depois vem a parte em que a civilização finge que tem o controlo da situação. Olhamos para a tralha com aquela pose de cidadão consciente, postados perante a trindade dos ecopontos como quem decifra um hieróglifo. A caixa da pizza que traz a gordura de três gerações vai para o papel ou é uma heresia contaminar o azul? O pacote de leite — essa monstruosidade da engenharia que junta alumínio, cartão e plástico num abraço eterno — deve ser desmembrado ou atirado à sorte para o contentor mais próximo, enquanto pedimos desculpa aos deuses da ecologia?

Lavo o copo do iogurte com a disciplina de quem limpa pratas de família, gasto três litros de água potável para purificar um pedaço de plástico que vai passar séculos a rir-se de mim num aterro qualquer. Fecho a tampa. É esse o truque todo: fechar a tampa. No segundo em que o saco desaparece na escuridão da ilha ecológica, a cozinha volta a estar limpa, a consciência volta a caber no peito, e eu volto a ser uma pessoa razoável.

Mas “fora” não é lugar nenhum. É só uma desculpa que uso para não dizer “aqui, sempre aqui, à espera”. O pacote de leite não vai para nenhuma galáxia. Fica. Fica na terra que pisamos, fica no rio que passa ao fundo da rua, fica algures por aí, empilhado com paciência mineral, à minha espera para quando eu já cá não estiver a fingir que resolvi alguma coisa.

Não há arqueólogos nenhuns. Há só eu, amanhã, com outro copo de iogurte na mão, a repetir o gesto que já sei que não limpa nada — só desloca a sujidade para fora do meu campo de visão. E isso, ao que parece, chega. Chega sempre.

2026-08-25

Vinte e dois anos de fuga

Ontem, a Voz em Fuga fez anos.

Nasceu a 24 de agosto de 2004, numa altura em que os blogues ainda eram uma coisa com alguma dignidade: não havia reels, não havia algoritmos a decidir se merecíamos existir, não era preciso dançar para a câmara nem começar um texto com “ninguém vos prepara para isto”.

Havia palavras.

E eu tinha coisas para dizer.

Muitas delas ficaram pelo caminho. Outras envelheceram mal. Algumas, felizmente, desapareceram sem deixar morada. Mas há textos que continuam por aqui, como aquelas fotografias antigas em que reconhecemos a cara mas já não reconhecemos inteiramente a pessoa.

A Voz em Fuga foi mudando comigo. Já foi diário, desabafo, esconderijo, observatório, campo de batalha e, sobretudo, lugar para onde fugir quando o mundo se tornava demasiado barulhento.

Entretanto, passaram-se 22 anos.

Vinte e dois.

Há relações que não duram tanto. Há governos que não duram tanto. Há penteados de que nos arrependemos por muito menos tempo.

E, contra todas as probabilidades, a Voz continua aqui.

Talvez porque nunca tenha sido propriamente um blogue.

Talvez seja uma espécie de casa.

Uma casa desarrumada, com livros por todo o lado, gatos a atravessar o corredor, algumas teias de aranha e uma quantidade pouco recomendável de pensamentos inúteis.

Mas é minha.

E ainda há uma voz lá dentro.

Obrigada a quem, ao longo destes vinte e dois anos, entrou pela porta, leu, comentou, discordou, riu, ficou em silêncio ou simplesmente passou por aqui.

A Voz em Fuga continua.

E eu também.

Ainda bem.

2026-08-23

Peões a cair

Sina, destino, os deuses a jogar xadrez connosco — isto é conversa para quem tem tempo e gosta de um sotaque dramático. A mim, a vida trata-me a granel, sem tabuleiro, sem rei, só peões a cair. Uns caem cedo, outros tarde, e ninguém me perguntou a ordem.

Se calhar é isso que me incomoda mais do que a Morte em si: a falta de critério. Não há mérito, não há castigo, há só a estatística a fazer o seu trabalho, indiferente a quem estava a meio de uma frase.

Eu queria acreditar que havia uma mão. Mesmo que fosse cruel, ao menos teria cinco dedos. Teria intenção. Dava para discutir, para insultar, para pedir. Mas não há mão. Há um corredor de supermercado às nove da noite, com a luz fria a zumbir, e uma chamada que não se atende a tempo. Há um exame que deu bem e outro que deu mal. E era o mesmo corpo.

O meu pai morreu há menos de um mês.Não foi trágico. Não foi bonito. Não foi nada. Foi um homem que um dia acordou, tomou o pequeno-almoço e, à noite, já não estava. Só o silêncio.

E agora tenho de “fazer o luto”. Palavra ridícula. Soa a trabalho de casa: hoje tens de chorar, amanhã tens de te lembrar, na próxima semana tens de aceitar. Como se a morte fosse um plano de aulas e eu uma aluna aplicada.

Mas eu não quero aceitar. Não quero aprender nada com isto. Não há lição. Não há moral. Não há porra nenhuma que se aproveite desta merda.

Dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo apaga. E eu não quero esquecer. Não quero que o cheiro dele se dissipe, não quero que a voz dele se torne uma gravação gasta, não quero que a falta dele passe a ser o meu normal.

Mas também não vou regar a dor como se fosse uma planta. A morte não é um jardim. Não cresce nada aqui.

Não é injusto. O injusto ainda tem paixão. Isto é pior. É burocrático. A morte carimba ponto e não olha para a cara.

A gente cresce a ouvir que tudo tem um porquê — mentira piedosa de avó. O que há é isto: estavas a meio do pão, a meio do livro, a meio de te desculpares. E cai o peão ao lado. Sem estrondo. Só cai. E tu ficas ali, de pé, com a faca do pão na mão.

E no entanto continuamos. Não por coragem. Por teimosia de peão.

Fazemos café. Dobramos roupa. Dizemos “até amanhã” como quem assina um contrato sem ler. Não porque acreditamos no jogo. Mas porque, enquanto não nos toca a nós cair, há esta frase por acabar.

E eu quero acabá-la.

2026-08-21

Ler o Vimana como manual da IKEA

Há uns milhares de anos, alguém na Índia escreveu sobre um carro voador dourado, capaz de atravessar continentes — a Pushpaka Vimana do Ramayana. Poesia épica, simbolismo religioso, uma bela metáfora sobre poder divino e destino. Devia ter ficado por aí. Mas não.

Em 1923, um místico indiano alegou ter recebido por via psíquica um texto ainda mais antigo, o Vaimanika Shastra. Já não era poesia. Era supostamente um manual técnico, com capítulos sobre hélices, ligas metálicas e motores a mercúrio. Porque, aparentemente, uma tese só ganha estatuto científico se envolver metais pesados e vocabulário esotérico.

Foi aí que o literalismo moderno — essa incapacidade crónica de ler entrelinhas — fez o seu truque favorito: pegou no mito e leu-o como se fosse um manual da IKEA mal traduzido. O carro voador passou a aeronave, o símbolo virou esquema eléctrico, e ficámos todos à procura do parafuso Allen que faltava nos Vedas.

Depois vieram os outros. Os mesmos que traduziram o Enuma Elish como relatório de aterragem. Os Anunnaki sumérios que aterraram para ensinar geometria porque, claro, a humanidade nunca teria chegado lá sozinha.

É a fórmula perfeita: a arqueologia fantástica como álibi elegante para despojar a humanidade da sua própria inteligência. Sobretudo a humanidade errada.

Stonehenge também tem a sua quota de discos voadores na cultura popular, é certo. Mas ali raramente se questiona a continuidade. Ninguém duvida que os britânicos de hoje descendem de gente capaz de arrastar pedras. Chegue-se a Gizé, a Tenochtitlán ou a Cuzco, e de repente há um corte. A engenharia de precisão torna-se uma ocorrência paranormal. Os egípcios sabiam construir, sim — mas alguém lhes deve ter ditado as equações.

Talvez um extraterrestre. Talvez um caucasiano. Idealmente, ambos.

O mecanismo é particularmente curioso. Quando lemos os mitos indianos ou o Enuma Elish, percebemos que estamos perante cosmologias: histórias que os seres humanos inventaram para explicar o mundo, os deuses, o destino e o lugar que ocupavam no meio de tudo aquilo.

O problema não é só o que esse roubo faz ao passado. É o que treina o cérebro para fazer no presente.

Porque, quando se aprende a ler uma narrativa simbólica como se fosse um relatório factual, não é difícil acabar a fazer o mesmo com as narrativas do nosso tempo. Já não temos cosmologia. Temos a Terra plana, répteis no parlamento e governos secretos comandados por sabe-se lá quem. O pensamento simbólico dá lugar à conspiração e a vontade de compreender o mundo transforma-se numa revelação privada: eu sei o que vocês ainda não perceberam.

No fundo, trocámos os deuses por extraterrestres e chamámos-lhe abertura de espírito.

Antes, a divindade descia para inspirar a alma; agora, o alienígena desce para ensinar a fazer argamassa. Tão obcecados ficámos com a tecnologia que até os nossos mitos sofreram um downgrade funcional.

E há uma diferença fundamental, quase trágica.

Os antigos diziam: os deuses inspiraram-nos a fazer isto.

Nós dizemos: os humanos eram demasiado ignorantes para ter feito isto.

Inventámos extraterrestres para não termos de admitir a grandeza intelectual daqueles que nos precederam.

Talvez seja essa a parte mais estranha da história. Os antigos precisavam de deuses para explicar os seus feitos. Nós precisamos de aliens para lhes tirar o mérito.

2026-08-14

O purgatório do saber inútil

Sei muito pouco de quase tudo, mas trago na memória um amontoado de saberes sem utilidade. Seria a concorrente perfeita de um qualquer concurso televisivo — esse purgatório do saber inútil onde se premeia quem sabe tudo e não percebe nada. Debito informação acumulada sem a questionar, pescando-a de um arquivo mental que faria melhor em abrir espaço ao que realmente importa.

Gostava, por exemplo, de reter nomes — coisa que raramente acontece. Irrito-me ao reconstruir cadeias de factos circunstanciais que despejo no interlocutor, na esperança de que, do outro lado, surja o nome que me escapa. Sei pormenores irrelevantes, mas falho no essencial.

Tenho facilidade em fixar minúcias: palavras em desuso que só regressam quando escrevo, detalhes sem préstimo. Esqueço caras. O disco, ao que parece, tem prioridades. Esqueço pessoas por inteiro, se não deixaram marca — e nem sempre é a pessoa que decide o que conta como marca. Perco-me nessas genealogias improvisadas — “o irmão do primo da Maria, casado com a Engrácia, aquela da sala ao lado no 9.º ano, da vespa azul às risquinhas”. Fico no primo. Nunca chego à Engrácia, muito menos à vespa.

Chamo-lhe memória selectiva, mas nem sequer é selectiva o suficiente: selecciona mal e sem me consultar. Preferia uma memória funcional, menos saturada de irrelevâncias. Dava jeito lembrar caras. Dava jeito lembrar nomes. Dava jeito, sobretudo, saber apagar o ruído e guardar o que faz falta — sobretudo na interlocução, onde tantas vezes falho.

No fundo, precisava de menos arquivo e mais critério. A minha memória pede um upgrade. Como tantas outras coisas, terá de esperar.

O homenageado

«Festejou-se o aniversário de um homem muito modesto. E apenas no final do banquete é que se percebeu que alguém não tinha sido convidado: o festejado.»
Anton Tchekhov

Modéstia, dizem, é virtude rara. Tão rara que, naquele banquete, se esgotou antes mesmo de o homenageado chegar à porta — porque ninguém se lembrou de o convidar. Brindou-se ao seu bom-gosto, à sua discrição, à sua elegante ausência de vaidade. Ergueram-se taças à saúde de um homem que, coitado, estava em casa, provavelmente também ele demasiado modesto para perguntar por que razão não fora chamado à própria festa.

No fim, todos concordaram: fora a celebração mais sincera que já tinham visto. Sem o risco de o festejado, com a sua presença inconveniente, estragar o discurso sobre como ele era humilde.

Há quem confunda modéstia com desaparecimento. E há festas que só correm bem precisamente porque o motivo delas teve o bom senso de não comparecer.

2026-08-12

Lagostim de agosto

Começam a chegar em Julho, pálidos como hóstias, vestidos de linho caro e expectativa. Trazem factor cinquenta na mala e uma fé cega no sol português, como se este fosse mais generoso do que o deles só por estar a sul. E o sol, esse cínico, não os desilude: ao fim de vinte minutos de esplanada já estão da cor de um marisco cozido, a pele em festa, o "ai" a tornar-se dialecto.

Eu, por outro lado, fico ali sentada, intacta, a ver o espectáculo com o distanciamento de quem já sabe como a peça acaba. A minha pele não se rende a drama nenhum. Aloira, talvez, com a paciência de quem envelhece um queijo — devagar, sem euforia — e nunca, nunca chega ao vermelho. É como se o sol olhasse para mim e decidisse que não vale a pena a encenação toda.

Há qualquer coisa de profundamente injusto nisto, confesso. Eles pagam a viagem, o hotel, o guia turístico que lhes mente sobre a autenticidade das sardinhas, e ainda pagam com a pele, em queimadura pura. Eu não pago nada. Fico ali, bronze insuportavelmente razoável, enquanto ao meu lado um dinamarquês se transforma lentamente num pimento assado, perguntando à mulher, entre gemidos, se "isto é normal".

É, meu caro. É Portugal. Aqui o sol não faz distinções de classe, mas faz — e com gosto — distinções de pigmento.

2026-08-10

(Des)culpas

Nem o medo nem a culpa, que a cultura judaico-cristã nos ensinou a carregar, lidam bem com qualquer resquício de felicidade. É suposto sermos filhos de um Deus castigador e castrador e irmãos de um outro Deus flagelado. A pomba, acho que só lá esteve sempre para enganar...

E se enganava, o que sobra?

Sobra este reflexo quase automático: pedir desculpa por estar bem. Baixar os olhos quando a alegria é grande demais. Dizer “é só uma fase boa”, como quem diz “não se preocupem, já passa”.

Fomos ensinados a fazer a gestão da infelicidade. A dar-lhe nome, novena, terapia, conversa. À felicidade, não. A felicidade tem que ser merecida, moderada, dividida em porções pequenas para não dar inveja a ninguém — nem a Deus, nem aos outros, nem a nós próprios.

O medo e a culpa lidam mal com a felicidade porque a felicidade não pede licença. Acontece. Chega sem curriculum. Sem ter feito por merecer. E isso, numa cultura de mérito e castigo, é quase obsceno.

Talvez des-culpar seja isso. Não é ficar sem culpa. É aprender a ficar com a felicidade mesmo com a culpa ao lado, a resmungar no canto.

Não mandar a culpa embora. Só deixar de lhe dar a presidência da mesa.

Não dizer “desculpem a felicidade”. Dizer “olhem, estou feliz. Apesar de tudo. Com tudo. E fico mais um bocado.”

Pegada

Se uma vida for passada num total isolamento, se não houver quem lhe tenha visto os pormenores, os bons e os maus, se nada sobrar na memória dos outros, então essa vida foi esgotada, apagada e nada sobra depois.

Se, pelo contrário, por actos, por presenças, por carinhos, por memórias, uma vida ganhar espaço na história de outro, nem que seja de forma leve, fugidia, então há uma memória que não se perde, há uma ínfima possibilidade de eternidade, recontada em tom de história pelas palavras de outros que a conheceram, reconheceram, fizeram sua.

A perenidade da memória — dos outros na nossa memória; nossa na memória dos outros — talvez seja uma forma de contrariar o vazio do esquecimento. Não sei se é eternidade, nem se alguma coisa nos espera depois do fim. Sei apenas que, enquanto alguém se lembrar de nós, alguma coisa daquilo que fomos continua a existir na vida de outro. 

Não sei o que existe depois; sei o que podemos deixar uns nos outros.

2026-08-09

Medo

Às vezes penso que a ideia de viver no medo é muito mais aterrorizante do que o próprio medo. E às vezes parece-me que vivemos numa sociedade que, cada vez mais, explora o medo como se fosse a única forma de controlo possível sobre as almas, agora que os pecados foram (quase) todos apeados. Como se o medo fosse a nova arma esgrimida por quem nos tenta controlar os dias, quando os velhos nós se desfazem e as regras antigas são repensadas.

E tenho medo da forma fácil como o medo é aceite. Tão fácil que se prescinde de pequenos nacos de liberdade todos os dias, abocanhados pelo medo fabricado que se instala e nos corrói o âmago.

2026-08-07

Catrineta

E há todo este desespero a crescer em mim, mudo. Um arremedo de loucura, uma paranoia narcisista, um esgar do ego em contramão. E não sobra muito mais do que este monstro calado, este frio permanente.

É como se tivesse desaprendido de inventar as alternativas na paisagem mental que sempre soube povoar a meu belo prazer, só para fugir para longe deste monstro que trago dentro. Sempre inventei rotas de fuga. De mim. Para mim. Contra mim. 

Mas há alturas em que não dá.
E este filho da puta de monstro que me entope, silencioso, este cabrão tormentoso e mal-disposto que me rouba o tesão pela manhã e me deixa sem vontade de nada o resto do dia, vai-me comendo devagar.

Como se eu tivesse esquecido todas as alternativas que sempre inventei. Como se já não bastasse encolher os ombros, ocupar as mãos com outras coisas e refugiar-me nos meus silêncios para não o deixar ganhar.

Porque todos os monstros silenciosos sempre foram meus. Meus para esganar depressa, sem perdão.

Mas este filho da puta quer ser maior do que eu. Não se cansa, não se distrai, não se esquece. Fica a comer-me os minutos e eu já nem sei como enxotá-lo.

É um buraco negro. Suga.

De dentro de mim, os tentáculos rasgam-me, esventram-me, dilaceram-me.

É um monstro. 

Aliou-se ao cansaço e à espera. Agora já nem é raiva.
É apenas medo.
Um medo seco, sem sentido, silencioso.

(Leva-me a ver o mar num barquinho a remos. E deixa que o medo que tenho do mar ensurdeça este medo que me come.)

2026-08-04

A outra margem

O mar entre Marrocos e Espanha já não é um estreito. É o intervalo entre uma esperança e um obituário.

2026-07-30

Kyrie eleison

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia

2026-07-29

Menu de degustação de melgas e mosquitos

Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.

Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.

De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.

Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.

Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.

2026-07-27

Antes que tudo se esqueça


Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.


Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.


Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.


E conta-me.


Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.

2026-07-26

Elogio do sapato feio


Os Crocs são a prova de que a evolução nem sempre caminha na direção da beleza. Às vezes faz um desvio pelo conforto e nunca mais regressa. São leves, resistentes, laváveis e ventilados. Em termos de engenharia, irrepreensíveis. Em termos estéticos, parecem ter sido desenhados por uma comissão onde ninguém quis criar conflito. O resultado foi um sapato que não entusiasma ninguém, mas que se recusa obstinadamente a desaparecer.

Durante anos, os Crocs ocuparam um lugar muito específico no imaginário coletivo: o lugar das coisas que os outros usam. Médicos em turnos impossíveis. Jardineiros. Pessoas que claramente tinham desistido de seduzir alguém. Nós observávamos à distância, confortavelmente instalados na nossa superioridade estética.

Depois a vida acontece.

As costas começam a emitir opiniões. Os pés tornam-se mais exigentes. Descobrimos que passar três horas em pé é uma atividade física e que a elegância raramente ajuda a descarregar compras do supermercado.

É nesse momento que os Crocs aparecem. Não fazem publicidade agressiva. Não prometem transformar a nossa vida. Limitam-se a existir, pacientes, à espera que a realidade faça o trabalho por eles.

Primeiro achamo-los horríveis.
Depois experimentamo-los.
Depois começamos a justificar a experiência com argumentos técnicos. Por fim, damos por nós a usá-los para ir ao correio, ao jardim ou à padaria, convencidos de que ninguém está a reparar. Entretanto, passamos a reparar noutra coisa.

A maioria das decisões da vida adulta acaba por seguir o mesmo percurso. Começamos com princípios. Terminamos com soluções. 

Os Crocs não são um sapato. São um tratado filosófico sobre o envelhecimento. Lembram-nos que chega uma altura em que deixamos de perguntar se uma coisa é bonita e começamos a perguntar se funciona. E há uma liberdade inesperada nisso.

Porque talvez a maturidade consista precisamente em abandonar algumas batalhas impossíveis. Entre elas, a de parecer permanentemente elegante enquanto se tenta apenas atravessar uma terça-feira.

Os Crocs são feios. Mas também nós já não somos exatamente quem éramos. Talvez seja por isso que nos entendemos tão bem.

2026-07-25

Modo Avião

Há anos que a ciência tenta compreender a audição selectiva. Eu não preciso. Pratico-a diariamente, com a disciplina de uma atleta olímpica e sem qualquer ajuda de cerúmen. Aliás, os meus ouvidos estão impecáveis. O filtro não está no canal auditivo. Está no córtex. Onde deve estar.

Funciona assim: «tens razão» entra com a clareza cristalina de uma notificação do MB Way a dizer que recebi dinheiro. Já «precisamos de conversar» sofre uma quebra de sinal abrupta algures entre o tímpano e a minha vontade de viver. Não ouço. Não por mal. Por curadoria editorial.

Porque vamos ser honestos: a audição selectiva não é defeito. É o meu cancelamento de ruído natural, muito antes de a Apple achar que inventou alguma coisa.

Graças a ele, consigo viver décadas — ou pelo menos desde 2014 — sem ouvir frases como «quando é que assentas?», «não achas que estás muito exigente?» e, a minha favorita de sempre, «se calhar o problema és tu que pensas demais».

Ouço o que interessa. O resto fica em modo avião.

O problema começa quando me dá a loucura da funcionalidade. Quando decido ser uma adulta que enfrenta tudo de frente. Limpo a caixa de entrada, respondo a mensagens pendentes desde 2018, digo que sim a jantares com segundas intenções óbvias.

De repente, o mundo entra sem filtro. Sem gatilho. Sem legenda a dizer «isto vai dar asneira».

E descubro que nada desapareceu. Aquela conversa que deixei em visto, aquele «depois logo vemos», aquele convite para «um café sem compromisso» — tudo esteve ali, pacientemente arquivado à espera que eu ligasse o som.

E percebo, tarde demais, a regra de ouro que devia estar no SNS24:

Há limpezas que não são de higiene. São de risco à paz interior.

Por isso, por uma questão de coerência e saúde mental, mantenho o meu sofisticado sistema de cancelamento selectivo ligado.

O meu otorrino diz que estou ótima. Eu digo-lhe que sim, enquanto vou pensando o que fazer para o jantar.

2026-07-23

Boletim das Pequenas Catástrofes

Registo das ocorrências menores que, acumuladas, alteram a estabilidade do dia.


08:12 — Verifica-se a primeira falha operacional. Os óculos de sol são localizados no compartimento dos ovos do frigorífico, onde permaneceram cerca de duas semanas sem que ninguém considerasse estranha a sua ausência.


09:03 — Expectativa mínima não confirmada. O utilizador desloca-se à rua com o objetivo exclusivo de comprar café. Regressa com as compras suficientes para atravessar um cerco medieval, mas sem café.


10:47 — Constata-se a impossibilidade persistente de determinar o paradeiro das chaves do automóvel. Admite-se a hipótese de coexistirem em dimensão paralela ou de terem adquirido autonomia administrativa.


11:22 — Falha de reconhecimento nominal. O nome da pessoa desaparece por completo. Mantém-se, contudo, intacta a memória do gato: a alcunha, o horário exacto da primeira refeição, e a lista mental de visitas non gratas, actualizada por ordem de gravidade da ofensa.


13:05 — Promessa discreta não executada. O utilizador garante a si próprio que beberá mais água. Às treze horas e cinco minutos, o organismo continua composto maioritariamente por café e teimosia.


14:19 — Pequena alteração de percurso. Entra-se numa divisão da casa com um objetivo definido. À chegada, o objetivo extinguiu-se sem deixar vestígios. Permanece apenas a sensação de que ali havia uma missão importante.


15:56 — Distração de curta duração com consequências materiais ligeiras. O telemóvel é procurado durante vários minutos enquanto permanece na mão que conduz a investigação.


17:02 — Quebra de hábito estabilizador. Pela terceira vez no mesmo dia confirma-se que abrir o frigorífico não cria, por geração espontânea, uma ideia para o jantar.


18:11 — Verifica-se que ainda não se tomaram os comprimidos da manhã. Consideram-se, à falta de melhor solução, comprimidos da tarde.


22:01 — Disfunção geral do organismo com ronco no sofá e televisão ligada em canal soporifero. 


Conclusão provisória: Embora cada ocorrência seja, isoladamente, irrelevante, a sua acumulação produz um fenómeno de instabilidade difusa. O dia não chega propriamente a desmoronar-se. Inclina-se. E nós passamos o resto das horas a fingir que não estamos constantemente a compensar o desequilíbrio.

O brigadeiro da desconfiança


Durante anos, uma parte significativa da sociedade portuguesa olhou para a imigração brasileira com uma simpatia quase espontânea. A língua comum, as novelas, a música, o humor, a ideia do "povo irmão" tornavam-na familiar antes mesmo de ser conhecida. Bastaram alguns crimes mediáticos para essa narrativa começar a estalar. Não porque os brasileiros tenham mudado enquanto comunidade, mas porque mudou aquilo que muda sempre primeiro: a perceção.

Não adianta responder a um português assustado chamando-lhe simplesmente xenófobo. O medo é muito mais antigo do que a razão. Não faz estatísticas, não consulta o INE, não calcula probabilidades. Vê um caso extremo e convence-se de que encontrou um padrão.

É assim que um crime deixa de ter apenas uma vítima e passa a fazer milhares de vítimas invisíveis. Depois de uma notícia destas, a mãe da ex-namorada que oferece um brigadeiro ou uma coxinha já não é apenas uma mulher simpática. O cérebro começa a perguntar-se o que poderá esconder-se por trás daquele sorriso.

Como nesta história. Três pessoas chegam a Portugal com uma mala. Dias depois, são suspeitas de tentar regressar ao Brasil com o equivalente a oito malas de artigos de luxo, depois de um roubo e homicídio meticulosamente preparados e executados. É uma imagem tão cinematográfica que se cola à memória. E é precisamente aí que mora o problema.

O preconceito nunca foi um exercício de lógica. É um mecanismo tosco de sobrevivência herdado de um tempo em que um único desconhecido podia significar a morte da tribo. Primeiro sentimos medo; só depois inventamos argumentos para lhe chamar razão. O cérebro não pergunta quantos milhões de brasileiros vivem honestamente em Portugal. Pergunta apenas: "E se este for como aquele?"

É profundamente injusto. Cada brasileiro que trabalha, paga impostos, cria filhos e leva uma vida banal acaba a responder pelos crimes de pessoas que nunca viu. Paga o justo pelo pecador, como tantas vezes aconteceu aos portugueses emigrados, vistos lá fora como preguiçosos, analfabetos, ladrões ou oportunistas, consoante a época e o país.

Mas também é intelectualmente desonesto fingir que notícias como esta não deixam marcas. Deixam. A confiança é um edifício que sobe por elevador e desce pela janela. Bastam meia dúzia de crimes brutais, repetidos até à exaustão nos noticiários, para décadas de convivência pacífica começarem a parecer a exceção, quando sempre foram a regra.

A justiça foi inventada precisamente porque o instinto é um péssimo juiz. O instinto condena por semelhança; a justiça condena por prova. A barbárie pergunta de onde veio o criminoso. A civilização começa no instante em que recusamos transformar um passaporte numa sentença.

2026-07-22

RIP Luis Represas

 


Arquitetura expansiva

Há pessoas que sonham alto. Depois há quem construa alto. Três andares mais alto, para sermos rigorosos.

Sempre admirei o espírito empreendedor português. Não conheço outro país onde um projeto aprovado consiga, por geração espontânea, ganhar pisos como quem ganha folhas na primavera. É quase botânica. Planta-se uma licença e colhem-se apartamentos.

Segundo o Ministério Público, no empreendimento Hilton Cascais Residências apareceram mais três andares do que o Plano Diretor Municipal permitia. Três. Não foi um mezanino maroto nem uma claraboia otimista. Foram três pisos inteiros. É o equivalente urbanístico a ir à inspeção automóvel com um Fiat Panda e regressar com um autocarro de dois andares.

E ainda houve a pequena questão de ocupar milhares de metros quadrados de domínio público marítimo e mexer em terrenos da Reserva Ecológica Nacional. Pequenos detalhes. Pormenores administrativos. A natureza, convenhamos, também ocupa espaço sem pedir licença.

Há quem roube toalhas dos hotéis. Nós preferimos levar um pedaço da costa.

O mais fascinante nestes casos é a escala da distração. Um cidadão troca uma janela por uma varanda e logo aparece um fiscal com uma fita métrica e um bloco de multas. Mas um edifício acrescenta três pisos e a pergunta parece ser sempre a mesma: "Como é que ninguém reparou?"

É uma pergunta curiosa. Três andares não costumam esconder-se atrás de um arbusto.

Talvez Portugal seja o único país onde os prédios crescem como as crianças: "Meu Deus, ainda no mês passado só tinha sete pisos..."

Depois, quando a Justiça acorda, instala-se a habitual liturgia nacional: processos, recursos, pareceres, contra-pareceres, décadas de papel, e um coro de indignados que descobrem subitamente a existência da lei, precisamente no momento em que ela bate à porta.

No fundo, o verdadeiro milagre não foi construir três pisos a mais. Foi conseguir fazê-lo convencendo tanta gente de que aquilo continuava a ter exatamente a altura prevista.

Porque em Portugal há sempre duas medidas para a realidade: a que o metro marca... e a que a influência autoriza.

2026-07-21

O buço como bandeira


A moda é cíclica, já sabemos. Desta vez resolveu ressuscitar o bigode e elevá-lo a bandeira estética. Só que uma coisa é um bigode; outra é um buço com excesso de autoestima.

Eu, quando penso num bigode digno desse nome, penso no do Artur Jorge. Entrava na sala da conferência de imprensa uns segundos antes dele, anunciava a autoridade do dono e só depois aparecia o resto da cara. Aquilo era um bigode. O resto é penugem com departamento de marketing.

De repente, multiplicaram-se pelos rostos masculinos buços tratados com uma solenidade que a natureza raramente lhes concedeu. Não interessam a espessura, a densidade ou a capacidade de sobreviver a uma rajada de vento. O importante é que o algoritmo decretou que o bigode voltou e, como sempre acontece, milhares de homens decidiram que a natureza havia de obedecer às tendências.

Não obedeceu.

Há buços tão ralos que parecem desenhados a lápis por um arquiteto indeciso. Outros lembram o pó que fica na escova depois de aparar a barba. Alguns são apenas uma sombra castanha entre o nariz e o lábio superior, como se a puberdade tivesse feito uma visita rápida e prometido voltar mais tarde.

O curioso é que o novo bigode raramente comunica irreverência ou maturidade. Comunica intenção. Vemos menos um homem e mais um esforço meticuloso para parecer um homem que bebe café de especialidade, fotografa em analógico, ouve discos de vinil e trata o barbeiro por "artista". O buço deixou de ser pelo. Passou a ser branding.

Sempre houve homens que tinham cara para bigode. Era quase uma vocação facial. O bigode completava-os. Agora é o contrário: há rostos inteiros sacrificados para servir uma moda que lhes fica como um casaco dois números abaixo.

A estética, infelizmente, não é democrática. Nem tudo fica bem a toda a gente. Há quem tenha nascido para usar chapéu, há quem consiga vestir uma camisa de linho sem parecer um empregado de esplanada, e há quem possa usar um bigode sem dar a impressão de que perdeu uma aposta.

As modas têm este péssimo hábito de ressuscitar os mortos errados. Hoje foi o bigode. Amanhã pode ser o cabelinho à Paulo Bento. Depois a peúga branca. Qualquer dia deixamos de seguir tendências e passamos a frequentar sessões de espiritismo estético.

2026-07-20

O Meu Ódio de Estimação

Autotune, essa prótese vocal para quem confunde canto com aritmética. A voz, outrora falha humana e por isso bela, entra numa máquina e sai lisa como azulejo de casa de banho: sem hesitação, sem rugosidade, sem alma — porque a alma, ao que parece, também desafinava. Há sempre alguém que adora o "Believe" da Cher, que inventou o vício, ou aquele ruivo de que nem lembro o nome cuja voz corrigida se tornou género.

E depois há qualquer coisa mais, um brilho metálico que me fura os tímpanos, um zumbido polido que insiste mesmo quando mais ninguém parece ouvi-lo. Talvez seja só meu, este incómodo, este desajuste.

Hoje, qualquer garganta pode soar impecavelmente afinada durante três minutos e trinta segundos, e poucos parecem reparar que o milagre foi comprado, não cantado. É a democratização da mentira: já não é preciso dominar a voz, basta um plug-in e a arrogância de acreditar que ninguém nota. Notam. Só já não se importam. Preferem o robô afinado ao humano imperfeito. Sintoma, não causa. Ou talvez apenas o meu ódio de estimação: esse ruído artificial que se cola à música como verniz.

2026-07-19

Ventilação

Todas as manhãs, o mesmo ritual: escancaram-se as janelas, sacodem-se as almofadas e, durante dez minutos, a casa respira como se tivesse alguma coisa a confessar. Entra o ar de fora — o mesmo ar que, minutos antes, saiu de outra casa, carregado do que os vizinhos cozinharam ou discutiram — e sai o de dentro, como se o simples trânsito de moléculas resolvesse o que ficou por dizer à mesa do jantar.

Há qualquer coisa de exorcismo doméstico nisto. A crença de que basta uma corrente de ar para dissipar o cheiro a fritos, ao silêncio ou ao desacordo. Abre-se bem a janela, deixa-se entrar o fresco e espera-se que alguma coisa, lá dentro, fique mais leve. Arejar como acto de higiene moral: já não se limpa a consciência, ventila-se.

Ao fim de dez minutos fecha-se tudo outra vez, porque o frio também não é visita para demorar. A casa arrefece, cheira melhor e continua exactamente com os mesmos problemas. Só que agora estão bem arejados.

2026-07-17

O Peso Exacto


Não sei que sentido têm em nós as glândulas do medo, mas as gatas sabem. Vieram uma a uma, sem consulta prévia entre si, sem reunião de emergência felina — vieram porque o corpo, quando espera um veredicto, exala qualquer coisa que os humanos deixaram de saber ler.

A primeira instalou-se à cabeça, ali onde a cabeça continuava a fazer contas que não davam. A segunda aos pés, como quem guarda a saída, ou talvez a fuga. A terceira ao lado, no espaço exacto onde cabe um corpo que treme sem ainda saber que treme.

Formaram um triângulo. Não vieram pedir comida, nem festas, nem a atenção distraída que costumam mendigar a meio da tarde. Vieram fazer guarda.

As gatas não sabem ler exames nem percebem português, mas impõem-se com o peso exacto de quem entendeu que não era preciso perguntar.

2026-07-12

O inventário das minhas guerras


Quando ainda mal sabia ler, já conhecia Biafra. Não no mapa — demorei anos a encontrá-lo — mas nas fotografias a preto e branco de crianças com barrigas inchadas e olhos demasiado grandes para a cara. A guerra tinha acabado antes de eu nascer, mas os fantasmas não pedem licença para entrar.

Na escola primária aprendi duas coisas: a tabuada e que havia um sítio chamado Khmer Vermelho onde morriam desconhecidos. O nome era fascinante, a história horrível. Depois o Vietname entrou-me casa adentro pela televisão. Vinha com o Brando, com o Rambo, com o William Dafoe a gritar no meio da selva, com o Birdy a bater asas partidas. A guerra era americana e vinha em technicolor.

A minha adolescência teve banda sonora. Peter Gabriel cantou-me a morte do Biko. Depois disseram-me para não cantar em Sun City. Gritei “Mandela Free” em concertos onde acreditava que a minha voz chegava à prisão. Cheguei a gastar o dinheiro da mesada num 45 rpm porque me disseram que as crianças da Etiópia precisavam de saber que era Natal. Morriam escanzeladas, mas queríamos acreditar que uma canção acordava o mundo.

Era um tempo fácil. O mundo era a preto e branco e o Bond ganhava sempre. Mesmo o Sting, quando perguntava “how can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toy?”, admitia logo a seguir que os soviéticos também amavam os filhos. Havia mau e havia bom. E nós estávamos do lado certo.

Depois o Muro caiu. Mandela saiu da prisão. Parecia que tínhamos ganho. Tiananmen foi só uma nota de rodapé porque a História, diziam, tinha acabado. O Baader-Meinhof, o IRA, a ETA — tudo parecia perder terreno para a CEE e para uma década de cartões de crédito. Beirute ainda chorava, claro. Mas Beirute era longe.

Foi nos Balcãs que perdi a fé que Biafra não me tinha tirado. Dez anos no coração da Europa a lembrar-me que o futuro tinha nomes como Sarajevo e Račak. Pelo meio, acenei lenços brancos por Timor e vi a guerra do Bush pai em direto, numa estranha luminescência verde que fazia tudo parecer um videojogo.

O cinismo voltou para ficar. Dei por mim a perceber que já não era a mesma pessoa quando caíram as Torres Gémeas do que tinha sido quando rebentou o infantário em Oklahoma City. Alguma coisa endureceu.

Agora faço contas que não devia fazer. Aylan doeu-me mais do que Valéria, afogada, enfiada na t-shirt do pai. E sei, com uma vergonha que não digo a ninguém, que a próxima criança morta vai doer menos do que Valéria. Vou-me gastando aos pedaços, cimentada em indiferença.

Na Eritreia ninguém quer saber se é Natal. Eu também já não. As meninas do Boko Haram ainda estarão vivas? A Venezuela morre. O Haiti também. Síria, Gaza, Ucrânia — a lista atualiza-se sozinha. Os ataques terroristas deixaram de abrir telejornais, exceto se morre um português.

E falta-me sempre o Afeganistão. Primeiro fomos lá com os soviéticos, depois com os americanos, como se a história fosse um filme em loop que eu já tinha visto com o Rambo. E eu, que quis escrever uma tese sobre desenvolvimento sustentado quando ninguém sabia o que isso era, apanho-me a pensar se vale a pena o trabalho que dá separar o vidro do plástico.

No fim, falta sempre um nome. Há sempre uma Valéria que não consigo fixar. Há sempre um 45 rpm que já não compro porque aprendi que as canções não ressuscitam ninguém.

Quando era miúda, o mundo doía-me todo. Agora só me dói o que me toca. E o mais assustador não são as guerras. É dar-me conta de que já não sei quantas partes de mim perdi pelo caminho.

Memória

Fecho os olhos e sinto os pedaços da memória a agruparem-se em fila. Sinto-os em pontas, à espera da vez, para me povoarem novamente das suas energias. Como slides, deslizam, fazem-se presentes.
Lembro uma cara, um sorriso, um fantasma que ainda me habita. Lembro o tempo e o cheiro e até o sabor roubado de uma boca.

Lembro uma sala, um jardim, um copo que vejo umas vezes meio cheio, outras só meio vazio. Sinto ainda um toque gotejante e o som de um riso ténue e respondo com a gargalhada de outrora.

Fecho os olhos e vejo pedaços de mim mofados, encanecidos.
Fecho os olhos e vejo conchas de segredos e ainda sinto a velha maresia que me prende, hoje como antes, às ondas das recordações adormecidas.

Fecho os olhos para me abrir à memória desbotada. Pinto novamente cada slide que desliza e se agrupa e me faz sentir invernos que foram estios e primaveras que nunca despertaram.

Fecho os olhos e vejo cada slide da memória que se esfuma e não lhes encontro já nem as dores nem as alegrias. Só breves tragédias que se vestiram de alegria.

Slides que me invadem quando fecho os olhos. Memórias que me assaltam a consciência e me ferem sem, no entanto, causarem uma dor real.

Slides que deslizam, dando a vez ao que se perfila. Slides com um corpo, um cheiro, uma música — e outros que me afloram ainda a pele com o mesmo toque que um dia foi tudo isso junto.

Fecho os olhos e o tempo escoa-se mas não se esquece. Fecho os olhos e vejo tudo, o que tem volta, o que já não. Fecho os olhos e sinto, ainda, a velha maresia a prender-me às ondas...

2026-07-08

Espera

Há esperas que não cabem no relógio — não por serem extraordinárias, mas porque alguém decidiu que o teu tempo é infinitamente elástico. O teu, claro. O dele mantém-se impecavelmente curto. Estas esperas alongam-se para dentro de nós, ocupando espaços onde antes morava a certeza, agora arrendados à ansiedade com contrato sem prazo e renda sempre atualizada.

A espera tem esse talento raro de parecer inocente enquanto faz estragos: amplifica o silêncio, estica o minuto até ele se tornar quase uma gentileza concedida. Cada possibilidade cresce, dramatiza-se, desfaz-se — e repete o número, porque aparentemente há sempre público para mais um ensaio.

A frase reconfortante chega pontual: "as coisas demoram o tempo que têm de demorar". Dizem-no com a serenidade de quem nunca esteve do lado de cá, onde o tempo não passa — acumula-se.

O coração, esse, mantém-se produtivo: ensaia despedidas, reconciliações, discursos inteiros que ninguém pediu. E nós continuamos a pagar pelos ensaios, como se a estreia fosse garantida. Não é. Nunca foi.

2026-07-05

Boletim de combustão

Há dias em que o corpo já não arrefece, apenas aguenta. Ao longe, matas e florestas ardem com uma violência que parece ter aprendido a linguagem da pressa: devoram-se árvores, refúgios, paisagens inteiras, enquanto o céu se cobre de uma cor doente, suspensa entre o fumo e a cinza.

Não ardem apenas os troncos. Arde tudo o que neles vivia: o abrigo dos animais, a sombra, a água escassa, os caminhos por onde a vida respirava sem fazer ruído. Vê-los fugir, desorientados, feridos ou simplesmente sem lugar para onde escapar, é perceber que a devastação não é uma imagem distante. É uma contagem silenciosa de perdas, feita uma a uma, quase sempre tarde demais.

E depois há as pessoas. As mais frágeis, as mais velhas, as que vivem sós, as que têm doenças respiratórias, as que não podem simplesmente «aguentar mais um bocado». Para elas, o calor não é desconforto: é risco. É desidratação, falta de ar, exaustão; a linha ténue entre resistir e cair. Há uma crueldade particular em transformar o verão num teste de sobrevivência para quem já vive no limite.

Este é o retrato de um tempo em que o calor deixou de ser apenas clima para passar a ser sintoma. Sintoma de desequilíbrio, de negligência, de um mundo cada vez mais inclinado para a combustão. E talvez o mais inquietante seja isto: já não se trata de perguntar quando chega o verão. Trata-se de saber quem será ferido desta vez.

2026-07-04

Como Perder Como um Herói

Cabo Verde — meio milhão de habitantes e um sonho do tamanho do Atlântico — agarrou-se à extraordinária ideia de que podia mesmo ganhar ao atual campeão do mundo. Empatou duas vezes. Fez Messi suar — o que, convenhamos, já não acontecia desde que ele descobriu que existe uma coisa chamada "assistente pessoal". E chegou ao prolongamento com a Argentina inteira a olhar para o relógio como quem espera pelo metro atrasado.

Depois, como manda o guião não escrito destas histórias bonitas: um golo de Romero e pronto — a Cinderela tropeça nos próprios pés mesmo à porta do baile e a Argentina segue para os oitavos com o ar de quem sobreviveu a um susto e não a um jogo de futebol.

É este o destino ontológico do underdog: existir para dar drama aos outros. Ninguém escreve odes ao favorito que ganha por 4-0 sem se despentear; escrevem-se sonetos a quem perde com dignidade — e ao golo lindíssimo de Cabral que "ficará para sempre na história do futebol cabo-verdiano", o que, tenhamos paciência, é uma maneira elegante de dizer que ficará no YouTube.

No fundo, o underdog é o parente pobre da narrativa desportiva: dão-lhe o adjetivo "corajoso", os holofotes por noventa minutos (e mais trinta de prolongamento) e mandam-no para casa antes que estrague o final feliz de outra pessoa.

Cabo Verde, parabéns. Foram lindíssimos a perder. É, aliás, a única coisa em que nós, os pequenos deste mundo, temos sempre uma medalha de ouro garantida.

2026-07-02

Caos

A doença, quando chega, não pede licença nem consulta a agenda. Chega e desarruma tudo o que uma pessoa emocionalmente organizada passou uma vida a pôr em gavetas etiquetadas. Porque há quem se sinta mais seguro a prever do que a viver e a doença não reconhece esse acordo. É, decerto, uma das experiências mais desorganizadoras que há, precisamente por confrontar aquilo que julgávamos controlar. E agora, num mundo em que toda a informação está à distância de um dedo sobre o ecrã, esse excesso não tranquiliza — alarma, confunde, acelera o descontrolo que já lá estava, só que agora com dados. Entra-se em piloto automático de gestão de crise, competente e frio e, no fim, descobre-se que o mais difícil não é resolver nada. É deixar, nalgum momento, espaço para sentir, sentar no chão e berrar.

2026-07-01

Saldo

Há dias em que dou por mim a fazer inventário. Não das contas por pagar, nem das tarefas que se acumulam na secretária. Faço inventário das outras coisas: dos brilhos nos olhos que apanhei pelo caminho, dos sorrisos que quase chegaram a gargalhadas, das conversas que se demoraram na memória.​

Coleciono esses restos de alegria com o cuidado de quem sabe que são frágeis. Talvez porque tenho medo das sombras. Talvez porque alguns sonhos, quando se aproximam demasiado, assustam mais do que confortam. Talvez porque a rotina tenha esta estranha capacidade de gastar as pessoas devagar, sem barulho.

Durante muito tempo achei que era uma colecionadora de pequenos instantes felizes. Hoje suspeito que não. Uma coleção escolhe-se, procura-se, organiza-se. Isto é diferente.

​São os pedaços que resistem ao desgaste. O que fica depois de mais um dia igual aos outros. O que sobra depois de a vida passar a lixa fina sobre os entusiasmos, as expectativas e as certezas. Sobra sempre qualquer coisa. Nunca sei bem o que é.

2026-06-30

O apocalipse tem má gestão de agenda

A nossa geração não teme propriamente o fim do mundo. Suspeita, isso sim, que vai chegar atrasada — havia trânsito, a reunião podia ter sido um email, e alguém achou por bem marcar uma consulta para as 16h30.

Crescemos dentro do apocalipse. Fomos criados com ele como paisagem de fundo: o cogumelo nuclear do noticiário da noite, a distopia enquanto género literário obrigatório, a ficção científica como manual de instruções para um futuro que não tardaria. Ensaiámos o fim do mundo tantas vezes — no ecrã, na página, na conversa das três da manhã — que quando ele finalmente começou a parecer real, já estávamos vacinados. Ou simplesmente exaustos.

O que nos preocupa agora não é o colapso civilizacional em si. É a logística. Se o Armagedon exigir corrida, provavelmente ficaremos para trás com os gatos e os móveis pesados. Se houver formulários, alguém vai esquecer-se de imprimir em duplicado. E há a questão do carregador — porque mesmo no fim dos tempos, parece-nos imprudente não ter bateria.

Isto não é cobardia. É uma geração que passou décadas à espera do apocalipse e chegou à meia-idade a descobrir que o fim do mundo também sofre de má gestão de recursos humanos. Podíamos ter agendado o colapso para uma terça-feira. A quarta também servia. Mas não: há sempre alguém que insiste em calendarizar o fim do mundo para uma segunda-feira.

O que revela algo sobre nós é a forma como preparámos o kit de sobrevivência. Não há rações, nem bunker, nem gerador. Há um inventário emocional construído a partir de objectos fictícios que pesam tanto — às vezes mais — do que os reais.

O casaco do Neo. A toalha do Douglas Adams. O póster do Mulder.

E se houver céu, exigimos o Metatron do Alan Rickman. A eternidade parece-nos demasiado longa para ser gasta sem sarcasmo administrativo.

Há qualquer coisa de profundamente honesto nisto. Não imaginamos harpas. Não imaginamos querubins. Imaginamos filas. E queremos alguém que as comente com o tom de voz certo.

Somos uma geração que aprendeu a sobreviver ao absurdo equipada com referências partilhadas e ironia de precisão. Que constrói sentido a partir da ficção porque a ficção, muitas vezes, foi mais rigorosa do que a realidade. Que não acredita em salvações mas acredita, firmemente, que uma boa frase no momento certo salva pelo menos o dia.

O apocalipse, se vier, vai encontrar-nos a meio de qualquer coisa. Com a agenda sobrelotada, o telefone com 4% de bateria, e uma discussão acesa sobre quem herda os óculos de sol.

Vamos chegar atrasados, é certo.

Mas vamos chegar com as referências certas.

2026-06-24

Nas Portas da Pérsia: Paint it Black

Dormente, vejo os dias passarem rápidos e iguais, numa calma de cal. Sou a passagem nevada de Tang-e Meyran, ou um edifício em queda lenta, pintado a cimento alvo. Blocos brancos para doutrinas brancas; traços de tinta da china branca sobre teorias e milagres brandos. Guerras brancas, onde o sangue é alvo e o derrame imaculado. A notícia pinta-se de branco para falar dos mesmos brancos do costume e das suas contabilidades alvas, no centro de uma cândida crise que se arrasta palidamente. Só vejo branco. Um excesso de branco. Sempre o mesmo branco. Há tanto branco que já não sei se me cobre ou se me cega. Uma mortalha por véu. 

E a vida segue negra, distraída por uma guerra nova.

2026-06-23

O tempo nunca está bem


Reparem, ninguém está bem com o tempo. Se chove, é porque chove. Se faz sol, é porque queima. Se está nublado, é aquela luz de sala de espera que nos tira a vontade de viver.

​Andamos nisto há séculos e ainda não aprendemos a lição: o tempo não serve para ser bom. Serve para dar conversa. Serve para termos uma desgraça pequena, portátil, que caiba no elevador com o vizinho.

​Eu só me sinto em paz quando posso dizer, com toda a propriedade filosófica: «Está um calor que não se pode». Ou então: «Esta humidade prende-me os ossos». Aí sim, encontro o meu lugar no mundo. Porque reclamar do tempo é o último consenso nacional. É  democracia direta: todos temos opinião, todos sofremos, ninguém resolve.

​Suspeito que se um dia o tempo estiver perfeito — vinte e três graus, brisa q.b., céu de aguarela — entraremos em pânico. Sem o desconforto para apontar, teremos de olhar para dentro. E aí, meus amigos, o tempo fecha mesmo.

​Por isso, deixem estar. Prefiro o meu Verão que me derrete e o meu Inverno que me encharca. Ao menos com eles sei quem sou. E se houver trovoada, já tenho planos.

2026-06-21

Humanidade


Há uma forma particularmente obscena de chantagem moral que consiste em transformar uma tragédia histórica num cheque em branco sobre o futuro. O sofrimento deixa de ser uma experiência humana para passar a ser um título de propriedade. A memória converte-se em alvará. A dor herdada transforma-se em licença perpétua. E, a partir daí, tudo é permitido desde que seja praticado pelos portadores autorizados da dor.

É o mecanismo mais antigo do mundo: a vítima ascende a sacerdote da própria vitimização. Já não responde pelos seus actos; administra um crédito moral inesgotável. E qualquer um que se atreva a observar o cadáver acumulado aos seus pés é imediatamente acusado de profanar o templo.

No caso dos sucessivos governos de Israel, a engrenagem atingiu uma perfeição quase burocrática. Qualquer crítica é antissemitismo. Qualquer resistência é terrorismo. Qualquer aldeia arrasada escondia terroristas. Qualquer hospital bombardeado era uma base militar. Qualquer criança morta servia de escudo humano. O raciocínio é tão elegantemente circular que dispensaria os factos, se os factos não insistissem em aparecer debaixo dos escombros.

E há aqui uma ironia histórica de uma crueldade quase insuportável. Arendt escreveu que a verdadeira expulsão da humanidade ocorre quando uma comunidade é destruída ao ponto de já não existir uma estrutura política capaz de reclamar os seus membros. Ora, se há povo que nas últimas décadas foi sendo progressivamente privado dessa comunidade, fragmentado, cercado, deslocado, ocupado, administrado e bombardeado até à exaustão, é precisamente o palestiniano. Como se alguém tivesse decidido transformar uma advertência filosófica numa experiência prática de laboratório.

Não deixa de ser notável que tantos dos que citam Arendt com reverência académica pareçam incapazes de reconhecer a sua sombra quando ela passa diante dos seus olhos.

E o Líbano outra vez.
Há sempre mais humanidade para expulsar da humanidade.

Porque evidentemente não bastava Gaza transformada numa paisagem lunar. Não bastavam os milhares de mortos, os deslocados, os órfãos, os mutilados. Era necessário alargar o perímetro da devastação. Afinal, quando se está convencido de que a própria história absolve antecipadamente todos os actos, a fronteira entre defesa e castigo colectivo torna-se um detalhe administrativo.

O mais extraordinário não é que isto aconteça. O mais extraordinário é a quantidade de gente que continua a fingir que não vê. Ou pior: que vê perfeitamente e chama-lhe virtude.

2026-06-20

Pontes


Há amores que merecem palavras claras, simples, puras. Especialmente os amores grandes, os que doem com uma dignidade particular, feitos de escolhas que ninguém testemunhou e de saudades que não têm nome certo. 

Para esses, não tenho ainda as palavras certas. Talvez porque escrever sobre eles exija um reencontro que ainda não aconteceu — com a memória, com a porta, com o momento exacto em que ficámos.

Nós sabemos o que é ficar. Sabemos o sobressalto de ter a mão na maçaneta e sentir o peso do que está do outro lado — não o peso de quem parte, mas o peso do que fica se não partirmos. É sobre isso que quero falar um dia, e estas promessas que fazemos a nós próprios são as que mais custam a adiar.

Escrevo isto para recordar que a chuva cai sempre no momento errado, e que há escolhas que se fazem em silêncio, sem plateia, sem heroísmo. Só a mão. Só a porta. Só o que decidimos que somos.

2026-06-19

Antes de ver o mar




Há um cheiro que não mudou desde que era miúda. Não sei nomeá-lo com precisão — é sal, é pinheiro a aquecer, é qualquer coisa a maresia que se mistura com pó seco de terra de carestia. Mas reconheço-o a cem metros, com os olhos fechados, antes de ver o mar.

É o cheiro do sotavento. E é, presumo, o mais próximo que tenho de uma memória que não se deixou estragar.

Tantas coisas mudaram. As casas, os preços, as pessoas que já não vêm. Eu própria mudei o suficiente para não reconhecer a miúda que correu por estas dunas. Mas o cheiro está exactamente onde o deixei.

Há uma reserva aqui ao lado e os pássaros não sabem nada de nostalgia. Fazem o que sempre fizeram — gritam, pousam, partem em bandos que desenham e desfazem formas no céu sem se preocuparem com quem está a olhar. Há nessa indiferença um sossego que nenhum conselho me deu.

Talvez seja isto o contentamento que não sei escrever: não a felicidade, que exige acontecimento, mas a permanência. O facto de haver coisas que esperam por mim exactamente como as deixei — um cheiro, um som, uma reserva de pássaros que continuam o seu mundo indiferentes ao meu.

Aqui há silêncio. Não o silêncio que falta — o silêncio onde cabe o chilreio dos pássaros, o som das ondas, os passos sem pressa de quem já não tem onde estar senão aqui.

E, de repente, basta.


2026-06-18

Céu de verão


O céu de verão é um bicho inquieto. Acorda cedo, já azul e espalhado, como se tivesse pressa de existir. Às vezes vem limpo, outras riscado por nuvens errantes, como frases abandonadas a meio. O sol, senhor absoluto, escorre dourado nas esquinas, nas peles, nos silêncios abafados da tarde.

Há dias em que inventa tempestades do nada, só para lembrar que manda. E quando escurece, não cessa — vira palco de estrelas que piscam sem ordem, desavergonhadas.

​O céu de verão não pede licença. Chega, ocupa, e deixa-nos a sós com tudo o que não sabemos nomear.

2026-06-16

O café do lado de fora do mundo



Há uma arte em virar as costas.

Não a das fugas — essa é ruidosa, cheia de bagagem e justificações. Esta é mais silenciosa: a de se sentar de frente para o horizonte e deixar o mundo acontecer sem plateia.

A cadeira é branca. O café, quente. O mar não precisa de explicação.

Fora do enquadramento, pressupõe-se tudo: o telefone, a lista, as respostas por dar. Aqui dentro — neste retângulo de areia e céu — existe apenas o gesto de segurar a chávena com as duas mãos. Como quem segura algo frágil. E sabe que o é.

As flores ao lado são hortênsias. Ninguém as pediu; aparecem como a graça — sem aviso e sem motivo aparente.

Não são férias. É outra coisa.
É o intervalo exato antes de voltar a ser responsável pelo mundo.

Vale o que vale — e vale tudo.

2026-06-12

A tragédia da toalha

Existe um medo antigo, profundamente feminino, que nenhuma terapia consegue erradicar: chegar a um sítio e encontrar outra mulher vestida exatamente igual.

É o horror doméstico por excelência. Um atentado à individualidade. Uma afronta cósmica.

A mulher da fotografia foi mais longe.

Não encontrou outra mulher vestida igual. Encontrou a mesa.

E agora está ali, perfeitamente integrada na decoração, num grau de fusão com o ambiente que a maioria de nós jamais alcançará. Não é uma convidada. É parte do serviço. Uma extensão da toalha. O xadrez vermelho transformado em gente.

Preside ao almoço com uma dignidade que, convenhamos, dificilmente fazia parte do plano.

Há quem passe uma vida inteira à procura de um lugar onde se sinta em casa.

Ela conseguiu.
Acidentalmente.
Num churrasco.

2026-06-11

O amanhã


O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.

​A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.

​O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.

​O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.

​O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.

​Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.

​Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.

​Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.

​O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.

2026-06-10

O sol pôs-se, mas há luar

Li, há muitos anos, uma entrevista a Eduardo Lourenço em que um jornalista francês lhe perguntava o que era a saudade: um sentimento real ou apenas um mito português. A resposta foi tão luminosa quanto poética: dizia ele que a saudade é como quando o sol se põe, mas sabemos que haverá luar. Não foram exatamente estas as palavras, mas a ideia ficou-me para sempre. A tradução é livre.

​Sempre gostei da forma como Eduardo Lourenço procurou compreender a nossa portugalidade — esse modo de sermos que parece sobreviver às épocas, às circunstâncias e até às sucessivas imagens que fazemos de nós próprios. É difícil negar que crescemos à sombra de uma mitologia antiga. Desde Camões e Os Lusíadas até aos sonhos do Quinto Império e a Mensagem, fomos construindo uma narrativa coletiva que nos ensinou a olhar para o passado como um lugar de grandeza e perda. Pelo meio, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a uma metafísica nacional. Acabámos por chamar saudade a muitas coisas e por viver, não raras vezes, nostálgicos de uma idade de ouro que talvez nunca tenha existido da forma como a imaginamos.

​Talvez a saudade faça parte da alma portuguesa, mas não apenas como uma característica espontânea ou inevitável. Há nela uma dimensão cultural, uma ideia trabalhada ao longo dos séculos que acabámos por transformar num dos nossos maiores símbolos. Como todos os símbolos, ilumina-nos e limita-nos.

​Porque não existe um só Portugal; existem muitos Portugais. Uns reconhecem-se no fado, outros nas cantigas populares; uns vivem voltados para o mar, outros para os montes e os rios do interior. No meu Norte, por exemplo, nunca encontrei a tristeza resignada que tantas vezes associamos à imagem tradicional do país. Há uma alegria teimosa, uma recusa em fazer da melancolia uma identidade. E talvez seja precisamente essa diversidade que melhor nos define.

​Nunca fomos apenas um país de ensaístas ou de teóricos; fomos, acima de tudo, um país de poetas. A nossa memória coletiva foi sendo escrita por quem soube transformar ideias em imagens, pensamento em metáfora, história em canto. Há nisso uma riqueza que continua a distinguir-nos, mas que hoje enfrenta novos perigos.

​É por isso que me preocupa a forma como tantas vezes tratamos a língua portuguesa neste novo século. Empobrecemo-la quando a reduzimos ao imediatismo das redes, quando dispensamos o rigor em nome da pressa, quando esquecemos a beleza das palavras moldadas pelo tempo. Uma língua não vive apenas dos dicionários ou das regras gramaticais: vive da atenção que lhe dedicamos, da imaginação que nela depositamos e do cuidado com que a transmitimos às novas gerações.

​Haverá sempre lugar para cantar Portugal enquanto Portugal souber dizer as palavras que o cantam. A língua é, talvez, o mais duradouro dos nossos patrimónios. E seria uma ironia amarga que, um dia, tivéssemos saudades do português que deixámos perder por falta de cuidado.

​Se o sol se põe, que ao menos não nos falte o luar.

2026-06-09

Beirute

 



Lembro-me de, há muitos anos, os Trovante cantarem que "em Beirute, nem o sol nasce", numa letra que começava com "quem recordará como foi?"... E a canção ainda me baila por dentro. Nem lembro já a letra inteira, nem sei onde pára o velhinho vinil que a guardava, mas ficou-me esta ideia de que nem o sol pode nascer em Beirute, ou que, mal rompa a alvorada, já ninguém recorda como é — e tudo volta a ser o que cedo foi esquecido.

A Beirute já não é a mesma. Mas a condição de "Beirute" reaparece incessantemente. E eu nem me lembrava já da cidade, não fosse Beirute continuar, depois destes anos todos, a não ver nascer o sol.

Quem recordará como é, já que tão depressa se esqueceu como foi?