2026-07-04
Como Perder Como um Herói
2026-07-02
Caos
2026-07-01
Saldo
2026-06-30
O apocalipse tem má gestão de agenda
2026-06-24
Nas Portas da Pérsia: Paint it Black
2026-06-23
O tempo nunca está bem
2026-06-21
Humanidade
2026-06-20
Pontes
2026-06-19
Antes de ver o mar
2026-06-18
Céu de verão
O céu de verão é um bicho inquieto. Acorda cedo, já azul e espalhado, como se tivesse pressa de existir. Às vezes vem limpo, outras riscado por nuvens errantes, como frases abandonadas a meio. O sol, senhor absoluto, escorre dourado nas esquinas, nas peles, nos silêncios abafados da tarde.
Há dias em que inventa tempestades do nada, só para lembrar que manda. E quando escurece, não cessa — vira palco de estrelas que piscam sem ordem, desavergonhadas.
O céu de verão não pede licença. Chega, ocupa, e deixa-nos a sós com tudo o que não sabemos nomear.
2026-06-16
O café do lado de fora do mundo
2026-06-13
2026-06-12
A tragédia da toalha
2026-06-11
O amanhã
O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.
A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.
O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.
O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.
O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.
Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.
Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.
Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.
O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.
2026-06-10
O sol pôs-se, mas há luar
2026-06-09
Beirute
2026-06-08
Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)
2026-06-07
Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)
2026-06-06
A melancolia como serviço mínimo
Insuportável
2026-06-05
Da data
2026-06-04
Herdeiros de quem?
2026-06-03
Buffet Livre
2026-06-02
Boato
Crédito mal parado
Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.
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Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.
Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.
O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.
Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.
A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.
O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.
2026-06-01
A sombra do pastor
2026-05-31
Silêncio operacional
2026-05-30
Maio, mês de Maria
2026-05-29
A Distância de Segurança
2026-05-28
Gizo-me
Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em Morse:
2026-05-27
As rosas do Atacama
2026-05-26
Leveza
2026-05-24
O Verão de São Calcanhar
Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.
Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.
Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.
Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.
Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.
Injustificada, mas admiro.
2026-05-23
O Peso das Crianças
Afonia
"Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas"
José Carlos Ary dos Santos - Kyrie
Banalidades
2026-05-21
Tudo começa com café
2026-05-20
Quinta-feira
O vento não desarruma: revela.
O que estava escondido sob a ilusão de controlo — o caos domesticado por hábito e hidracaracóis, a entropia adiada por cortesia social — deixa de existir quando se toma uma decisão puramente adulta: parar de fingir.
Há mais de cinco anos que o meu cabelo faz o que quer. Cresceu para onde quis, embranqueceu sem pedir licença, ondulou sem propósito declarado. Deixei-o andar. Não por sabedoria budista nem por manifesto feminista. Por cansaço, principalmente. E porque a tinta mente. O tempo, apesar de tudo, não.
O resultado está à vista.
Alguém, algures, chama a isto "empoderamento". Eu chamo-lhe quinta-feira.
2026-05-18
Remates
2026-05-17
Perfumes
2026-05-16
Palavras amputadas
2026-05-14
O grande trollanço
A institucionalização do bairrismo
2026-05-09
Meio meio
2026-05-08
Poema das mulheres constipadas
Nariz entupido, corpo em guerra,
Dores nos ossos, cabeça na terra,
Chá de limão, mel, gengibre e sal,
Aspirinas, xarope e mais um comprimido afinal.
Ninguém me mede a febre nem vê a goela,
Ninguém fecha a porta nem cala a janela,
Ninguém me traz a colcha nem aquece o pé,
Porque sou mulher e isso não se faz, pois é.
Aqui estou eu, a pingar sozinha,
A fazer a canja e a dobrar a roupa fininha,
A responder a mensagens com um assoar ao meio,
Ai que vou morrer — mas faço o jantar sem receio.




