2026-08-14
O homenageado
2026-08-12
Lagostim de agosto
2026-08-10
(Des)culpas
Pegada
2026-08-09
Medo
2026-08-07
Catrineta
2026-08-04
A outra margem
2026-07-30
Kyrie eleison
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Ary dos Santos, Kyrie, in
Vinte anos de poesia
2026-07-29
Menu de degustação de melgas e mosquitos
Tenho sangue O Rh negativo. Segundo a internet, isso significa que sou rara. Segundo o banco de sangue, significa apenas que não me deixam viver em paz. E as melgas comportam-se como se eu fosse um restaurante com estrela Michelin.
Há duas entidades que demonstram um entusiasmo desproporcionado pelo meu sangue: os insectos e os profissionais da hematologia. Uns chegam sem convite. Os outros telefonam.
De tempos a tempos recebo um apelo quase romântico: "Precisamos de si." Nunca ouvi esta frase de um milionário a distribuir heranças. É sempre alguém de bata branca a pedir-me um bocadinho de hemoglobina.
Entretanto, proliferam teorias que garantem que os Rh negativos descendem de extraterrestres. Faz sentido. Explicaria porque me sinto uma turista nas reuniões de condomínio e porque continuo à espera que uma nave me venha buscar.
Até agora, porém, em vez de uma nave espacial, só apareceram melgas, mosquitos e uma enfermeira com uma agulha. É menos cinematográfico, mas também salva o mundo.
2026-07-27
Antes que tudo se esqueça
Conta-me. Conta-me o que se calou ainda. Conta-me a memória, os sorrisos, a doçura. Põe a música certa a tocar e vai falando. Conta-me o sentido, o que tentaste racionalizar. Faz-me um desenho ou uma pintura.
Diz-me como estava o céu, como brilhavam as estrelas, como Vénus já se despedia enquanto a aurora tingia o negro de rosas e amarelos. Diz-me como foi o dia. Aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me as metamorfoses, os crescimentos, os pés já doridos, os sonhos acordados. Vá, conta-me. Não esqueças um único pormenor, um pensamento, um fio de memória. Conta-me tudo. Não te enganes nos ondes, nos quandos, nos porquês.
E conta-me.
Recorda agora. Conta-me tudo o que eu já começo a esquecer.
2026-07-26
Elogio do sapato feio
2026-07-25
Modo Avião
2026-07-23
Boletim das Pequenas Catástrofes
O brigadeiro da desconfiança
Durante anos, uma parte significativa da sociedade portuguesa olhou para a imigração brasileira com uma simpatia quase espontânea. A língua comum, as novelas, a música, o humor, a ideia do "povo irmão" tornavam-na familiar antes mesmo de ser conhecida. Bastaram alguns crimes mediáticos para essa narrativa começar a estalar. Não porque os brasileiros tenham mudado enquanto comunidade, mas porque mudou aquilo que muda sempre primeiro: a perceção.
Não adianta responder a um português assustado chamando-lhe simplesmente xenófobo. O medo é muito mais antigo do que a razão. Não faz estatísticas, não consulta o INE, não calcula probabilidades. Vê um caso extremo e convence-se de que encontrou um padrão.
É assim que um crime deixa de ter apenas uma vítima e passa a fazer milhares de vítimas invisíveis. Depois de uma notícia destas, a mãe da ex-namorada que oferece um brigadeiro ou uma coxinha já não é apenas uma mulher simpática. O cérebro começa a perguntar-se o que poderá esconder-se por trás daquele sorriso.
Como nesta história. Três pessoas chegam a Portugal com uma mala. Dias depois, são suspeitas de tentar regressar ao Brasil com o equivalente a oito malas de artigos de luxo, depois de um roubo e homicídio meticulosamente preparados e executados. É uma imagem tão cinematográfica que se cola à memória. E é precisamente aí que mora o problema.
O preconceito nunca foi um exercício de lógica. É um mecanismo tosco de sobrevivência herdado de um tempo em que um único desconhecido podia significar a morte da tribo. Primeiro sentimos medo; só depois inventamos argumentos para lhe chamar razão. O cérebro não pergunta quantos milhões de brasileiros vivem honestamente em Portugal. Pergunta apenas: "E se este for como aquele?"
É profundamente injusto. Cada brasileiro que trabalha, paga impostos, cria filhos e leva uma vida banal acaba a responder pelos crimes de pessoas que nunca viu. Paga o justo pelo pecador, como tantas vezes aconteceu aos portugueses emigrados, vistos lá fora como preguiçosos, analfabetos, ladrões ou oportunistas, consoante a época e o país.
Mas também é intelectualmente desonesto fingir que notícias como esta não deixam marcas. Deixam. A confiança é um edifício que sobe por elevador e desce pela janela. Bastam meia dúzia de crimes brutais, repetidos até à exaustão nos noticiários, para décadas de convivência pacífica começarem a parecer a exceção, quando sempre foram a regra.
A justiça foi inventada precisamente porque o instinto é um péssimo juiz. O instinto condena por semelhança; a justiça condena por prova. A barbárie pergunta de onde veio o criminoso. A civilização começa no instante em que recusamos transformar um passaporte numa sentença.
2026-07-22
Arquitetura expansiva
2026-07-21
O buço como bandeira
2026-07-20
O Meu Ódio de Estimação
2026-07-19
Ventilação
2026-07-18
2026-07-17
O Peso Exacto
Não sei que sentido têm em nós as glândulas do medo, mas as gatas sabem. Vieram uma a uma, sem consulta prévia entre si, sem reunião de emergência felina — vieram porque o corpo, quando espera um veredicto, exala qualquer coisa que os humanos deixaram de saber ler.
A primeira instalou-se à cabeça, ali onde a cabeça continuava a fazer contas que não davam. A segunda aos pés, como quem guarda a saída, ou talvez a fuga. A terceira ao lado, no espaço exacto onde cabe um corpo que treme sem ainda saber que treme.
Formaram um triângulo. Não vieram pedir comida, nem festas, nem a atenção distraída que costumam mendigar a meio da tarde. Vieram fazer guarda.
As gatas não sabem ler exames nem percebem português, mas impõem-se com o peso exacto de quem entendeu que não era preciso perguntar.
2026-07-12
O inventário das minhas guerras
Memória
2026-07-08
Espera
2026-07-05
Boletim de combustão
2026-07-04
Como Perder Como um Herói
2026-07-02
Caos
2026-07-01
Saldo
2026-06-30
O apocalipse tem má gestão de agenda
2026-06-24
Nas Portas da Pérsia: Paint it Black
2026-06-23
O tempo nunca está bem
2026-06-21
Humanidade
2026-06-20
Pontes
2026-06-19
Antes de ver o mar
2026-06-18
Céu de verão
O céu de verão é um bicho inquieto. Acorda cedo, já azul e espalhado, como se tivesse pressa de existir. Às vezes vem limpo, outras riscado por nuvens errantes, como frases abandonadas a meio. O sol, senhor absoluto, escorre dourado nas esquinas, nas peles, nos silêncios abafados da tarde.
Há dias em que inventa tempestades do nada, só para lembrar que manda. E quando escurece, não cessa — vira palco de estrelas que piscam sem ordem, desavergonhadas.
O céu de verão não pede licença. Chega, ocupa, e deixa-nos a sós com tudo o que não sabemos nomear.
2026-06-16
O café do lado de fora do mundo
2026-06-13
2026-06-12
A tragédia da toalha
2026-06-11
O amanhã
O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.
A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.
O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.
O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.
O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.
Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.
Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.
Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.
O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.
2026-06-10
O sol pôs-se, mas há luar
2026-06-09
Beirute
2026-06-08
Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)
2026-06-07
Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)
2026-06-06
A melancolia como serviço mínimo
Insuportável
2026-06-05
Da data
2026-06-04
Herdeiros de quem?
2026-06-03
Buffet Livre
2026-06-02
Boato
Crédito mal parado
Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.
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Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.
Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.
O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.
Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.
A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.
O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.



