2026-07-23

Boletim das Pequenas Catástrofes

Registo das ocorrências menores que, acumuladas, alteram a estabilidade do dia.


08:12 — Verifica-se a primeira falha operacional. Os óculos de sol são localizados no compartimento dos ovos do frigorífico, onde permaneceram cerca de duas semanas sem que ninguém considerasse estranha a sua ausência.


09:03 — Expectativa mínima não confirmada. O utilizador desloca-se à rua com o objetivo exclusivo de comprar café. Regressa com as compras suficientes para atravessar um cerco medieval, mas sem café.


10:47 — Constata-se a impossibilidade persistente de determinar o paradeiro das chaves do automóvel. Admite-se a hipótese de coexistirem em dimensão paralela ou de terem adquirido autonomia administrativa.


11:22 — Falha de reconhecimento nominal. O nome da pessoa desaparece por completo. Mantém-se, contudo, intacta a memória do gato: a alcunha, o horário exacto da primeira refeição, e a lista mental de visitas non gratas, actualizada por ordem de gravidade da ofensa.


13:05 — Promessa discreta não executada. O utilizador garante a si próprio que beberá mais água. Às treze horas e cinco minutos, o organismo continua composto maioritariamente por café e teimosia.


14:19 — Pequena alteração de percurso. Entra-se numa divisão da casa com um objetivo definido. À chegada, o objetivo extinguiu-se sem deixar vestígios. Permanece apenas a sensação de que ali havia uma missão importante.


15:56 — Distração de curta duração com consequências materiais ligeiras. O telemóvel é procurado durante vários minutos enquanto permanece na mão que conduz a investigação.


17:02 — Quebra de hábito estabilizador. Pela terceira vez no mesmo dia confirma-se que abrir o frigorífico não cria, por geração espontânea, uma ideia para o jantar.


18:11 — Verifica-se que ainda não se tomaram os comprimidos da manhã. Consideram-se, à falta de melhor solução, comprimidos da tarde.


22:01 — Disfunção geral do organismo com ronco no sofá e televisão ligada em canal soporifero. 


Conclusão provisória: Embora cada ocorrência seja, isoladamente, irrelevante, a sua acumulação produz um fenómeno de instabilidade difusa. O dia não chega propriamente a desmoronar-se. Inclina-se. E nós passamos o resto das horas a fingir que não estamos constantemente a compensar o desequilíbrio.

O brigadeiro da desconfiança


Durante anos, uma parte significativa da sociedade portuguesa olhou para a imigração brasileira com uma simpatia quase espontânea. A língua comum, as novelas, a música, o humor, a ideia do "povo irmão" tornavam-na familiar antes mesmo de ser conhecida. Bastaram alguns crimes mediáticos para essa narrativa começar a estalar. Não porque os brasileiros tenham mudado enquanto comunidade, mas porque mudou aquilo que muda sempre primeiro: a perceção.

Não adianta responder a um português assustado chamando-lhe simplesmente xenófobo. O medo é muito mais antigo do que a razão. Não faz estatísticas, não consulta o INE, não calcula probabilidades. Vê um caso extremo e convence-se de que encontrou um padrão.

É assim que um crime deixa de ter apenas uma vítima e passa a fazer milhares de vítimas invisíveis. Depois de uma notícia destas, a mãe da ex-namorada que oferece um brigadeiro ou uma coxinha já não é apenas uma mulher simpática. O cérebro começa a perguntar-se o que poderá esconder-se por trás daquele sorriso.

Como nesta história. Três pessoas chegam a Portugal com uma mala. Dias depois, são suspeitas de tentar regressar ao Brasil com o equivalente a oito malas de artigos de luxo, depois de um roubo e homicídio meticulosamente preparados e executados. É uma imagem tão cinematográfica que se cola à memória. E é precisamente aí que mora o problema.

O preconceito nunca foi um exercício de lógica. É um mecanismo tosco de sobrevivência herdado de um tempo em que um único desconhecido podia significar a morte da tribo. Primeiro sentimos medo; só depois inventamos argumentos para lhe chamar razão. O cérebro não pergunta quantos milhões de brasileiros vivem honestamente em Portugal. Pergunta apenas: "E se este for como aquele?"

É profundamente injusto. Cada brasileiro que trabalha, paga impostos, cria filhos e leva uma vida banal acaba a responder pelos crimes de pessoas que nunca viu. Paga o justo pelo pecador, como tantas vezes aconteceu aos portugueses emigrados, vistos lá fora como preguiçosos, analfabetos, ladrões ou oportunistas, consoante a época e o país.

Mas também é intelectualmente desonesto fingir que notícias como esta não deixam marcas. Deixam. A confiança é um edifício que sobe por elevador e desce pela janela. Bastam meia dúzia de crimes brutais, repetidos até à exaustão nos noticiários, para décadas de convivência pacífica começarem a parecer a exceção, quando sempre foram a regra.

A justiça foi inventada precisamente porque o instinto é um péssimo juiz. O instinto condena por semelhança; a justiça condena por prova. A barbárie pergunta de onde veio o criminoso. A civilização começa no instante em que recusamos transformar um passaporte numa sentença.

2026-07-22

RIP Luis Represas

 


Arquitetura expansiva

Há pessoas que sonham alto. Depois há quem construa alto. Três andares mais alto, para sermos rigorosos.

Sempre admirei o espírito empreendedor português. Não conheço outro país onde um projeto aprovado consiga, por geração espontânea, ganhar pisos como quem ganha folhas na primavera. É quase botânica. Planta-se uma licença e colhem-se apartamentos.

Segundo o Ministério Público, no empreendimento Hilton Cascais Residências apareceram mais três andares do que o Plano Diretor Municipal permitia. Três. Não foi um mezanino maroto nem uma claraboia otimista. Foram três pisos inteiros. É o equivalente urbanístico a ir à inspeção automóvel com um Fiat Panda e regressar com um autocarro de dois andares.

E ainda houve a pequena questão de ocupar milhares de metros quadrados de domínio público marítimo e mexer em terrenos da Reserva Ecológica Nacional. Pequenos detalhes. Pormenores administrativos. A natureza, convenhamos, também ocupa espaço sem pedir licença.

Há quem roube toalhas dos hotéis. Nós preferimos levar um pedaço da costa.

O mais fascinante nestes casos é a escala da distração. Um cidadão troca uma janela por uma varanda e logo aparece um fiscal com uma fita métrica e um bloco de multas. Mas um edifício acrescenta três pisos e a pergunta parece ser sempre a mesma: "Como é que ninguém reparou?"

É uma pergunta curiosa. Três andares não costumam esconder-se atrás de um arbusto.

Talvez Portugal seja o único país onde os prédios crescem como as crianças: "Meu Deus, ainda no mês passado só tinha sete pisos..."

Depois, quando a Justiça acorda, instala-se a habitual liturgia nacional: processos, recursos, pareceres, contra-pareceres, décadas de papel, e um coro de indignados que descobrem subitamente a existência da lei, precisamente no momento em que ela bate à porta.

No fundo, o verdadeiro milagre não foi construir três pisos a mais. Foi conseguir fazê-lo convencendo tanta gente de que aquilo continuava a ter exatamente a altura prevista.

Porque em Portugal há sempre duas medidas para a realidade: a que o metro marca... e a que a influência autoriza.

2026-07-21

O buço como bandeira


A moda é cíclica, já sabemos. Desta vez resolveu ressuscitar o bigode e elevá-lo a bandeira estética. Só que uma coisa é um bigode; outra é um buço com excesso de autoestima.

Eu, quando penso num bigode digno desse nome, penso no do Artur Jorge. Entrava na sala da conferência de imprensa uns segundos antes dele, anunciava a autoridade do dono e só depois aparecia o resto da cara. Aquilo era um bigode. O resto é penugem com departamento de marketing.

De repente, multiplicaram-se pelos rostos masculinos buços tratados com uma solenidade que a natureza raramente lhes concedeu. Não interessam a espessura, a densidade ou a capacidade de sobreviver a uma rajada de vento. O importante é que o algoritmo decretou que o bigode voltou e, como sempre acontece, milhares de homens decidiram que a natureza havia de obedecer às tendências.

Não obedeceu.

Há buços tão ralos que parecem desenhados a lápis por um arquiteto indeciso. Outros lembram o pó que fica na escova depois de aparar a barba. Alguns são apenas uma sombra castanha entre o nariz e o lábio superior, como se a puberdade tivesse feito uma visita rápida e prometido voltar mais tarde.

O curioso é que o novo bigode raramente comunica irreverência ou maturidade. Comunica intenção. Vemos menos um homem e mais um esforço meticuloso para parecer um homem que bebe café de especialidade, fotografa em analógico, ouve discos de vinil e trata o barbeiro por "artista". O buço deixou de ser pelo. Passou a ser branding.

Sempre houve homens que tinham cara para bigode. Era quase uma vocação facial. O bigode completava-os. Agora é o contrário: há rostos inteiros sacrificados para servir uma moda que lhes fica como um casaco dois números abaixo.

A estética, infelizmente, não é democrática. Nem tudo fica bem a toda a gente. Há quem tenha nascido para usar chapéu, há quem consiga vestir uma camisa de linho sem parecer um empregado de esplanada, e há quem possa usar um bigode sem dar a impressão de que perdeu uma aposta.

As modas têm este péssimo hábito de ressuscitar os mortos errados. Hoje foi o bigode. Amanhã pode ser o cabelinho à Paulo Bento. Depois a peúga branca. Qualquer dia deixamos de seguir tendências e passamos a frequentar sessões de espiritismo estético.

2026-07-20

O Meu Ódio de Estimação

Autotune, essa prótese vocal para quem confunde canto com aritmética. A voz, outrora falha humana e por isso bela, entra numa máquina e sai lisa como azulejo de casa de banho: sem hesitação, sem rugosidade, sem alma — porque a alma, ao que parece, também desafinava. Há sempre alguém que adora o "Believe" da Cher, que inventou o vício, ou aquele ruivo de que nem lembro o nome cuja voz corrigida se tornou género.

E depois há qualquer coisa mais, um brilho metálico que me fura os tímpanos, um zumbido polido que insiste mesmo quando mais ninguém parece ouvi-lo. Talvez seja só meu, este incómodo, este desajuste.

Hoje, qualquer garganta pode soar impecavelmente afinada durante três minutos e trinta segundos, e poucos parecem reparar que o milagre foi comprado, não cantado. É a democratização da mentira: já não é preciso dominar a voz, basta um plug-in e a arrogância de acreditar que ninguém nota. Notam. Só já não se importam. Preferem o robô afinado ao humano imperfeito. Sintoma, não causa. Ou talvez apenas o meu ódio de estimação: esse ruído artificial que se cola à música como verniz.

2026-07-19

Ventilação

Todas as manhãs, o mesmo ritual: escancaram-se as janelas, sacodem-se as almofadas e, durante dez minutos, a casa respira como se tivesse alguma coisa a confessar. Entra o ar de fora — o mesmo ar que, minutos antes, saiu de outra casa, carregado do que os vizinhos cozinharam ou discutiram — e sai o de dentro, como se o simples trânsito de moléculas resolvesse o que ficou por dizer à mesa do jantar.

Há qualquer coisa de exorcismo doméstico nisto. A crença de que basta uma corrente de ar para dissipar o cheiro a fritos, ao silêncio ou ao desacordo. Abre-se bem a janela, deixa-se entrar o fresco e espera-se que alguma coisa, lá dentro, fique mais leve. Arejar como acto de higiene moral: já não se limpa a consciência, ventila-se.

Ao fim de dez minutos fecha-se tudo outra vez, porque o frio também não é visita para demorar. A casa arrefece, cheira melhor e continua exactamente com os mesmos problemas. Só que agora estão bem arejados.

2026-07-17

O Peso Exacto


Não sei que sentido têm em nós as glândulas do medo, mas as gatas sabem. Vieram uma a uma, sem consulta prévia entre si, sem reunião de emergência felina — vieram porque o corpo, quando espera um veredicto, exala qualquer coisa que os humanos deixaram de saber ler.

A primeira instalou-se à cabeça, ali onde a cabeça continuava a fazer contas que não davam. A segunda aos pés, como quem guarda a saída, ou talvez a fuga. A terceira ao lado, no espaço exacto onde cabe um corpo que treme sem ainda saber que treme.

Formaram um triângulo. Não vieram pedir comida, nem festas, nem a atenção distraída que costumam mendigar a meio da tarde. Vieram fazer guarda.

As gatas não sabem ler exames nem percebem português, mas impõem-se com o peso exacto de quem entendeu que não era preciso perguntar.

2026-07-12

O inventário das minhas guerras


Quando ainda mal sabia ler, já conhecia Biafra. Não no mapa — demorei anos a encontrá-lo — mas nas fotografias a preto e branco de crianças com barrigas inchadas e olhos demasiado grandes para a cara. A guerra tinha acabado antes de eu nascer, mas os fantasmas não pedem licença para entrar.

Na escola primária aprendi duas coisas: a tabuada e que havia um sítio chamado Khmer Vermelho onde morriam desconhecidos. O nome era fascinante, a história horrível. Depois o Vietname entrou-me casa adentro pela televisão. Vinha com o Brando, com o Rambo, com o William Dafoe a gritar no meio da selva, com o Birdy a bater asas partidas. A guerra era americana e vinha em technicolor.

A minha adolescência teve banda sonora. Peter Gabriel cantou-me a morte do Biko. Depois disseram-me para não cantar em Sun City. Gritei “Mandela Free” em concertos onde acreditava que a minha voz chegava à prisão. Cheguei a gastar o dinheiro da mesada num 45 rpm porque me disseram que as crianças da Etiópia precisavam de saber que era Natal. Morriam escanzeladas, mas queríamos acreditar que uma canção acordava o mundo.

Era um tempo fácil. O mundo era a preto e branco e o Bond ganhava sempre. Mesmo o Sting, quando perguntava “how can I save my little boy from Oppenheimer’s deadly toy?”, admitia logo a seguir que os soviéticos também amavam os filhos. Havia mau e havia bom. E nós estávamos do lado certo.

Depois o Muro caiu. Mandela saiu da prisão. Parecia que tínhamos ganho. Tiananmen foi só uma nota de rodapé porque a História, diziam, tinha acabado. O Baader-Meinhof, o IRA, a ETA — tudo parecia perder terreno para a CEE e para uma década de cartões de crédito. Beirute ainda chorava, claro. Mas Beirute era longe.

Foi nos Balcãs que perdi a fé que Biafra não me tinha tirado. Dez anos no coração da Europa a lembrar-me que o futuro tinha nomes como Sarajevo e Račak. Pelo meio, acenei lenços brancos por Timor e vi a guerra do Bush pai em direto, numa estranha luminescência verde que fazia tudo parecer um videojogo.

O cinismo voltou para ficar. Dei por mim a perceber que já não era a mesma pessoa quando caíram as Torres Gémeas do que tinha sido quando rebentou o infantário em Oklahoma City. Alguma coisa endureceu.

Agora faço contas que não devia fazer. Aylan doeu-me mais do que Valéria, afogada, enfiada na t-shirt do pai. E sei, com uma vergonha que não digo a ninguém, que a próxima criança morta vai doer menos do que Valéria. Vou-me gastando aos pedaços, cimentada em indiferença.

Na Eritreia ninguém quer saber se é Natal. Eu também já não. As meninas do Boko Haram ainda estarão vivas? A Venezuela morre. O Haiti também. Síria, Gaza, Ucrânia — a lista atualiza-se sozinha. Os ataques terroristas deixaram de abrir telejornais, exceto se morre um português.

E falta-me sempre o Afeganistão. Primeiro fomos lá com os soviéticos, depois com os americanos, como se a história fosse um filme em loop que eu já tinha visto com o Rambo. E eu, que quis escrever uma tese sobre desenvolvimento sustentado quando ninguém sabia o que isso era, apanho-me a pensar se vale a pena o trabalho que dá separar o vidro do plástico.

No fim, falta sempre um nome. Há sempre uma Valéria que não consigo fixar. Há sempre um 45 rpm que já não compro porque aprendi que as canções não ressuscitam ninguém.

Quando era miúda, o mundo doía-me todo. Agora só me dói o que me toca. E o mais assustador não são as guerras. É dar-me conta de que já não sei quantas partes de mim perdi pelo caminho.

Memória

Fecho os olhos e sinto os pedaços da memória a agruparem-se em fila. Sinto-os em pontas, à espera da vez, para me povoarem novamente das suas energias. Como slides, deslizam, fazem-se presentes.
Lembro uma cara, um sorriso, um fantasma que ainda me habita. Lembro o tempo e o cheiro e até o sabor roubado de uma boca.

Lembro uma sala, um jardim, um copo que vejo umas vezes meio cheio, outras só meio vazio. Sinto ainda um toque gotejante e o som de um riso ténue e respondo com a gargalhada de outrora.

Fecho os olhos e vejo pedaços de mim mofados, encanecidos.
Fecho os olhos e vejo conchas de segredos e ainda sinto a velha maresia que me prende, hoje como antes, às ondas das recordações adormecidas.

Fecho os olhos para me abrir à memória desbotada. Pinto novamente cada slide que desliza e se agrupa e me faz sentir invernos que foram estios e primaveras que nunca despertaram.

Fecho os olhos e vejo cada slide da memória que se esfuma e não lhes encontro já nem as dores nem as alegrias. Só breves tragédias que se vestiram de alegria.

Slides que me invadem quando fecho os olhos. Memórias que me assaltam a consciência e me ferem sem, no entanto, causarem uma dor real.

Slides que deslizam, dando a vez ao que se perfila. Slides com um corpo, um cheiro, uma música — e outros que me afloram ainda a pele com o mesmo toque que um dia foi tudo isso junto.

Fecho os olhos e o tempo escoa-se mas não se esquece. Fecho os olhos e vejo tudo, o que tem volta, o que já não. Fecho os olhos e sinto, ainda, a velha maresia a prender-me às ondas...

2026-07-08

Espera

Há esperas que não cabem no relógio — não por serem extraordinárias, mas porque alguém decidiu que o teu tempo é infinitamente elástico. O teu, claro. O dele mantém-se impecavelmente curto. Estas esperas alongam-se para dentro de nós, ocupando espaços onde antes morava a certeza, agora arrendados à ansiedade com contrato sem prazo e renda sempre atualizada.

A espera tem esse talento raro de parecer inocente enquanto faz estragos: amplifica o silêncio, estica o minuto até ele se tornar quase uma gentileza concedida. Cada possibilidade cresce, dramatiza-se, desfaz-se — e repete o número, porque aparentemente há sempre público para mais um ensaio.

A frase reconfortante chega pontual: "as coisas demoram o tempo que têm de demorar". Dizem-no com a serenidade de quem nunca esteve do lado de cá, onde o tempo não passa — acumula-se.

O coração, esse, mantém-se produtivo: ensaia despedidas, reconciliações, discursos inteiros que ninguém pediu. E nós continuamos a pagar pelos ensaios, como se a estreia fosse garantida. Não é. Nunca foi.

2026-07-05

Boletim de combustão

Há dias em que o corpo já não arrefece, apenas aguenta. Ao longe, matas e florestas ardem com uma violência que parece ter aprendido a linguagem da pressa: devoram-se árvores, refúgios, paisagens inteiras, enquanto o céu se cobre de uma cor doente, suspensa entre o fumo e a cinza.

Não ardem apenas os troncos. Arde tudo o que neles vivia: o abrigo dos animais, a sombra, a água escassa, os caminhos por onde a vida respirava sem fazer ruído. Vê-los fugir, desorientados, feridos ou simplesmente sem lugar para onde escapar, é perceber que a devastação não é uma imagem distante. É uma contagem silenciosa de perdas, feita uma a uma, quase sempre tarde demais.

E depois há as pessoas. As mais frágeis, as mais velhas, as que vivem sós, as que têm doenças respiratórias, as que não podem simplesmente «aguentar mais um bocado». Para elas, o calor não é desconforto: é risco. É desidratação, falta de ar, exaustão; a linha ténue entre resistir e cair. Há uma crueldade particular em transformar o verão num teste de sobrevivência para quem já vive no limite.

Este é o retrato de um tempo em que o calor deixou de ser apenas clima para passar a ser sintoma. Sintoma de desequilíbrio, de negligência, de um mundo cada vez mais inclinado para a combustão. E talvez o mais inquietante seja isto: já não se trata de perguntar quando chega o verão. Trata-se de saber quem será ferido desta vez.

2026-07-04

Como Perder Como um Herói

Cabo Verde — meio milhão de habitantes e um sonho do tamanho do Atlântico — agarrou-se à extraordinária ideia de que podia mesmo ganhar ao atual campeão do mundo. Empatou duas vezes. Fez Messi suar — o que, convenhamos, já não acontecia desde que ele descobriu que existe uma coisa chamada "assistente pessoal". E chegou ao prolongamento com a Argentina inteira a olhar para o relógio como quem espera pelo metro atrasado.

Depois, como manda o guião não escrito destas histórias bonitas: um golo de Romero e pronto — a Cinderela tropeça nos próprios pés mesmo à porta do baile e a Argentina segue para os oitavos com o ar de quem sobreviveu a um susto e não a um jogo de futebol.

É este o destino ontológico do underdog: existir para dar drama aos outros. Ninguém escreve odes ao favorito que ganha por 4-0 sem se despentear; escrevem-se sonetos a quem perde com dignidade — e ao golo lindíssimo de Cabral que "ficará para sempre na história do futebol cabo-verdiano", o que, tenhamos paciência, é uma maneira elegante de dizer que ficará no YouTube.

No fundo, o underdog é o parente pobre da narrativa desportiva: dão-lhe o adjetivo "corajoso", os holofotes por noventa minutos (e mais trinta de prolongamento) e mandam-no para casa antes que estrague o final feliz de outra pessoa.

Cabo Verde, parabéns. Foram lindíssimos a perder. É, aliás, a única coisa em que nós, os pequenos deste mundo, temos sempre uma medalha de ouro garantida.

2026-07-02

Caos

A doença, quando chega, não pede licença nem consulta a agenda. Chega e desarruma tudo o que uma pessoa emocionalmente organizada passou uma vida a pôr em gavetas etiquetadas. Porque há quem se sinta mais seguro a prever do que a viver e a doença não reconhece esse acordo. É, decerto, uma das experiências mais desorganizadoras que há, precisamente por confrontar aquilo que julgávamos controlar. E agora, num mundo em que toda a informação está à distância de um dedo sobre o ecrã, esse excesso não tranquiliza — alarma, confunde, acelera o descontrolo que já lá estava, só que agora com dados. Entra-se em piloto automático de gestão de crise, competente e frio e, no fim, descobre-se que o mais difícil não é resolver nada. É deixar, nalgum momento, espaço para sentir, sentar no chão e berrar.

2026-07-01

Saldo

Há dias em que dou por mim a fazer inventário. Não das contas por pagar, nem das tarefas que se acumulam na secretária. Faço inventário das outras coisas: dos brilhos nos olhos que apanhei pelo caminho, dos sorrisos que quase chegaram a gargalhadas, das conversas que se demoraram na memória.​

Coleciono esses restos de alegria com o cuidado de quem sabe que são frágeis. Talvez porque tenho medo das sombras. Talvez porque alguns sonhos, quando se aproximam demasiado, assustam mais do que confortam. Talvez porque a rotina tenha esta estranha capacidade de gastar as pessoas devagar, sem barulho.

Durante muito tempo achei que era uma colecionadora de pequenos instantes felizes. Hoje suspeito que não. Uma coleção escolhe-se, procura-se, organiza-se. Isto é diferente.

​São os pedaços que resistem ao desgaste. O que fica depois de mais um dia igual aos outros. O que sobra depois de a vida passar a lixa fina sobre os entusiasmos, as expectativas e as certezas. Sobra sempre qualquer coisa. Nunca sei bem o que é.

2026-06-30

O apocalipse tem má gestão de agenda

A nossa geração não teme propriamente o fim do mundo. Suspeita, isso sim, que vai chegar atrasada — havia trânsito, a reunião podia ter sido um email, e alguém achou por bem marcar uma consulta para as 16h30.

Crescemos dentro do apocalipse. Fomos criados com ele como paisagem de fundo: o cogumelo nuclear do noticiário da noite, a distopia enquanto género literário obrigatório, a ficção científica como manual de instruções para um futuro que não tardaria. Ensaiámos o fim do mundo tantas vezes — no ecrã, na página, na conversa das três da manhã — que quando ele finalmente começou a parecer real, já estávamos vacinados. Ou simplesmente exaustos.

O que nos preocupa agora não é o colapso civilizacional em si. É a logística. Se o Armagedon exigir corrida, provavelmente ficaremos para trás com os gatos e os móveis pesados. Se houver formulários, alguém vai esquecer-se de imprimir em duplicado. E há a questão do carregador — porque mesmo no fim dos tempos, parece-nos imprudente não ter bateria.

Isto não é cobardia. É uma geração que passou décadas à espera do apocalipse e chegou à meia-idade a descobrir que o fim do mundo também sofre de má gestão de recursos humanos. Podíamos ter agendado o colapso para uma terça-feira. A quarta também servia. Mas não: há sempre alguém que insiste em calendarizar o fim do mundo para uma segunda-feira.

O que revela algo sobre nós é a forma como preparámos o kit de sobrevivência. Não há rações, nem bunker, nem gerador. Há um inventário emocional construído a partir de objectos fictícios que pesam tanto — às vezes mais — do que os reais.

O casaco do Neo. A toalha do Douglas Adams. O póster do Mulder.

E se houver céu, exigimos o Metatron do Alan Rickman. A eternidade parece-nos demasiado longa para ser gasta sem sarcasmo administrativo.

Há qualquer coisa de profundamente honesto nisto. Não imaginamos harpas. Não imaginamos querubins. Imaginamos filas. E queremos alguém que as comente com o tom de voz certo.

Somos uma geração que aprendeu a sobreviver ao absurdo equipada com referências partilhadas e ironia de precisão. Que constrói sentido a partir da ficção porque a ficção, muitas vezes, foi mais rigorosa do que a realidade. Que não acredita em salvações mas acredita, firmemente, que uma boa frase no momento certo salva pelo menos o dia.

O apocalipse, se vier, vai encontrar-nos a meio de qualquer coisa. Com a agenda sobrelotada, o telefone com 4% de bateria, e uma discussão acesa sobre quem herda os óculos de sol.

Vamos chegar atrasados, é certo.

Mas vamos chegar com as referências certas.

2026-06-24

Nas Portas da Pérsia: Paint it Black

Dormente, vejo os dias passarem rápidos e iguais, numa calma de cal. Sou a passagem nevada de Tang-e Meyran, ou um edifício em queda lenta, pintado a cimento alvo. Blocos brancos para doutrinas brancas; traços de tinta da china branca sobre teorias e milagres brandos. Guerras brancas, onde o sangue é alvo e o derrame imaculado. A notícia pinta-se de branco para falar dos mesmos brancos do costume e das suas contabilidades alvas, no centro de uma cândida crise que se arrasta palidamente. Só vejo branco. Um excesso de branco. Sempre o mesmo branco. Há tanto branco que já não sei se me cobre ou se me cega. Uma mortalha por véu. 

E a vida segue negra, distraída por uma guerra nova.

2026-06-23

O tempo nunca está bem


Reparem, ninguém está bem com o tempo. Se chove, é porque chove. Se faz sol, é porque queima. Se está nublado, é aquela luz de sala de espera que nos tira a vontade de viver.

​Andamos nisto há séculos e ainda não aprendemos a lição: o tempo não serve para ser bom. Serve para dar conversa. Serve para termos uma desgraça pequena, portátil, que caiba no elevador com o vizinho.

​Eu só me sinto em paz quando posso dizer, com toda a propriedade filosófica: «Está um calor que não se pode». Ou então: «Esta humidade prende-me os ossos». Aí sim, encontro o meu lugar no mundo. Porque reclamar do tempo é o último consenso nacional. É  democracia direta: todos temos opinião, todos sofremos, ninguém resolve.

​Suspeito que se um dia o tempo estiver perfeito — vinte e três graus, brisa q.b., céu de aguarela — entraremos em pânico. Sem o desconforto para apontar, teremos de olhar para dentro. E aí, meus amigos, o tempo fecha mesmo.

​Por isso, deixem estar. Prefiro o meu Verão que me derrete e o meu Inverno que me encharca. Ao menos com eles sei quem sou. E se houver trovoada, já tenho planos.

2026-06-21

Humanidade


Há uma forma particularmente obscena de chantagem moral que consiste em transformar uma tragédia histórica num cheque em branco sobre o futuro. O sofrimento deixa de ser uma experiência humana para passar a ser um título de propriedade. A memória converte-se em alvará. A dor herdada transforma-se em licença perpétua. E, a partir daí, tudo é permitido desde que seja praticado pelos portadores autorizados da dor.

É o mecanismo mais antigo do mundo: a vítima ascende a sacerdote da própria vitimização. Já não responde pelos seus actos; administra um crédito moral inesgotável. E qualquer um que se atreva a observar o cadáver acumulado aos seus pés é imediatamente acusado de profanar o templo.

No caso dos sucessivos governos de Israel, a engrenagem atingiu uma perfeição quase burocrática. Qualquer crítica é antissemitismo. Qualquer resistência é terrorismo. Qualquer aldeia arrasada escondia terroristas. Qualquer hospital bombardeado era uma base militar. Qualquer criança morta servia de escudo humano. O raciocínio é tão elegantemente circular que dispensaria os factos, se os factos não insistissem em aparecer debaixo dos escombros.

E há aqui uma ironia histórica de uma crueldade quase insuportável. Arendt escreveu que a verdadeira expulsão da humanidade ocorre quando uma comunidade é destruída ao ponto de já não existir uma estrutura política capaz de reclamar os seus membros. Ora, se há povo que nas últimas décadas foi sendo progressivamente privado dessa comunidade, fragmentado, cercado, deslocado, ocupado, administrado e bombardeado até à exaustão, é precisamente o palestiniano. Como se alguém tivesse decidido transformar uma advertência filosófica numa experiência prática de laboratório.

Não deixa de ser notável que tantos dos que citam Arendt com reverência académica pareçam incapazes de reconhecer a sua sombra quando ela passa diante dos seus olhos.

E o Líbano outra vez.
Há sempre mais humanidade para expulsar da humanidade.

Porque evidentemente não bastava Gaza transformada numa paisagem lunar. Não bastavam os milhares de mortos, os deslocados, os órfãos, os mutilados. Era necessário alargar o perímetro da devastação. Afinal, quando se está convencido de que a própria história absolve antecipadamente todos os actos, a fronteira entre defesa e castigo colectivo torna-se um detalhe administrativo.

O mais extraordinário não é que isto aconteça. O mais extraordinário é a quantidade de gente que continua a fingir que não vê. Ou pior: que vê perfeitamente e chama-lhe virtude.

2026-06-20

Pontes


Há amores que merecem palavras claras, simples, puras. Especialmente os amores grandes, os que doem com uma dignidade particular, feitos de escolhas que ninguém testemunhou e de saudades que não têm nome certo. 

Para esses, não tenho ainda as palavras certas. Talvez porque escrever sobre eles exija um reencontro que ainda não aconteceu — com a memória, com a porta, com o momento exacto em que ficámos.

Nós sabemos o que é ficar. Sabemos o sobressalto de ter a mão na maçaneta e sentir o peso do que está do outro lado — não o peso de quem parte, mas o peso do que fica se não partirmos. É sobre isso que quero falar um dia, e estas promessas que fazemos a nós próprios são as que mais custam a adiar.

Escrevo isto para recordar que a chuva cai sempre no momento errado, e que há escolhas que se fazem em silêncio, sem plateia, sem heroísmo. Só a mão. Só a porta. Só o que decidimos que somos.

2026-06-19

Antes de ver o mar




Há um cheiro que não mudou desde que era miúda. Não sei nomeá-lo com precisão — é sal, é pinheiro a aquecer, é qualquer coisa a maresia que se mistura com pó seco de terra de carestia. Mas reconheço-o a cem metros, com os olhos fechados, antes de ver o mar.

É o cheiro do sotavento. E é, presumo, o mais próximo que tenho de uma memória que não se deixou estragar.

Tantas coisas mudaram. As casas, os preços, as pessoas que já não vêm. Eu própria mudei o suficiente para não reconhecer a miúda que correu por estas dunas. Mas o cheiro está exactamente onde o deixei.

Há uma reserva aqui ao lado e os pássaros não sabem nada de nostalgia. Fazem o que sempre fizeram — gritam, pousam, partem em bandos que desenham e desfazem formas no céu sem se preocuparem com quem está a olhar. Há nessa indiferença um sossego que nenhum conselho me deu.

Talvez seja isto o contentamento que não sei escrever: não a felicidade, que exige acontecimento, mas a permanência. O facto de haver coisas que esperam por mim exactamente como as deixei — um cheiro, um som, uma reserva de pássaros que continuam o seu mundo indiferentes ao meu.

Aqui há silêncio. Não o silêncio que falta — o silêncio onde cabe o chilreio dos pássaros, o som das ondas, os passos sem pressa de quem já não tem onde estar senão aqui.

E, de repente, basta.


2026-06-18

Céu de verão


O céu de verão é um bicho inquieto. Acorda cedo, já azul e espalhado, como se tivesse pressa de existir. Às vezes vem limpo, outras riscado por nuvens errantes, como frases abandonadas a meio. O sol, senhor absoluto, escorre dourado nas esquinas, nas peles, nos silêncios abafados da tarde.

Há dias em que inventa tempestades do nada, só para lembrar que manda. E quando escurece, não cessa — vira palco de estrelas que piscam sem ordem, desavergonhadas.

​O céu de verão não pede licença. Chega, ocupa, e deixa-nos a sós com tudo o que não sabemos nomear.

2026-06-16

O café do lado de fora do mundo



Há uma arte em virar as costas.

Não a das fugas — essa é ruidosa, cheia de bagagem e justificações. Esta é mais silenciosa: a de se sentar de frente para o horizonte e deixar o mundo acontecer sem plateia.

A cadeira é branca. O café, quente. O mar não precisa de explicação.

Fora do enquadramento, pressupõe-se tudo: o telefone, a lista, as respostas por dar. Aqui dentro — neste retângulo de areia e céu — existe apenas o gesto de segurar a chávena com as duas mãos. Como quem segura algo frágil. E sabe que o é.

As flores ao lado são hortênsias. Ninguém as pediu; aparecem como a graça — sem aviso e sem motivo aparente.

Não são férias. É outra coisa.
É o intervalo exato antes de voltar a ser responsável pelo mundo.

Vale o que vale — e vale tudo.

2026-06-12

A tragédia da toalha

Existe um medo antigo, profundamente feminino, que nenhuma terapia consegue erradicar: chegar a um sítio e encontrar outra mulher vestida exatamente igual.

É o horror doméstico por excelência. Um atentado à individualidade. Uma afronta cósmica.

A mulher da fotografia foi mais longe.

Não encontrou outra mulher vestida igual. Encontrou a mesa.

E agora está ali, perfeitamente integrada na decoração, num grau de fusão com o ambiente que a maioria de nós jamais alcançará. Não é uma convidada. É parte do serviço. Uma extensão da toalha. O xadrez vermelho transformado em gente.

Preside ao almoço com uma dignidade que, convenhamos, dificilmente fazia parte do plano.

Há quem passe uma vida inteira à procura de um lugar onde se sinta em casa.

Ela conseguiu.
Acidentalmente.
Num churrasco.

2026-06-11

O amanhã


O amanhã é uma droga limpa. Não deixa marcas visíveis, não exige receita, não tem ressaca imediata. Tem apenas o efeito de todas as drogas: a ilusão de que o problema fica resolvido — a seguir.

​A seguir ao fim do dia. A seguir ao fim da semana. A seguir a esta fase, que é sempre uma fase e que passa, que há de passar.

​O curioso é que raramente adiamos aquilo de que não gostamos. O trabalho difícil faz-se. As contas pagam-se. As urgências encontram sempre lugar. O que empurramos para amanhã são, muitas vezes, as coisas que exigem presença: a conversa que pode mudar algo, a decisão que nos obriga a escolher, o descanso que não produz nada, o prazer sem justificação, o luto que não aceita agenda.

​O amanhã é um grande organizador de consciências. Arruma tudo numa prateleira invisível onde acreditamos que haverá mais tempo, mais energia, mais clareza, uma versão mais competente de nós próprios. Como se o simples facto de uma noite passar pudesse transformar-nos na pessoa que hoje não conseguimos ser.

​O corpo sabe antes de nós. Acumula o que adiámos — a conversa, a decisão, o descanso, o prazer, o luto — e apresenta a conta sem avisar. Não em data marcada, mas no momento menos oportuno, que é sempre o momento certo.

​Primeiro avisa. Depois insiste. Por fim, deixa de pedir licença. Uma insónia aqui, uma irritação sem destinatário, um cansaço que não melhora com férias, uma tristeza que parece vir do nada. Gostamos de chamar-lhes fases, porque as fases passam. Mas nem sempre passam; às vezes, apenas mudam de sítio.

​Há vinte anos, eu adiava com o corpo. Usava-o e deixava-me usar, num acordo tácito entre pessoas que simplesmente não queriam falar. Era eficaz. O sexo tem a vantagem de ocupar completamente o presente — enquanto dura, não há amanhã.

​Já não funciona assim. O repertório do adiamento foi-se diversificando com a idade, como convém. Hoje, o corpo paga de outras maneiras: mais silenciosas e mais caras.

​O amanhã continua a ser um fio de esperança. A diferença é que já sei que é apenas um fio — e puxo-o na mesma.

2026-06-10

O sol pôs-se, mas há luar

Li, há muitos anos, uma entrevista a Eduardo Lourenço em que um jornalista francês lhe perguntava o que era a saudade: um sentimento real ou apenas um mito português. A resposta foi tão luminosa quanto poética: dizia ele que a saudade é como quando o sol se põe, mas sabemos que haverá luar. Não foram exatamente estas as palavras, mas a ideia ficou-me para sempre. A tradução é livre.

​Sempre gostei da forma como Eduardo Lourenço procurou compreender a nossa portugalidade — esse modo de sermos que parece sobreviver às épocas, às circunstâncias e até às sucessivas imagens que fazemos de nós próprios. É difícil negar que crescemos à sombra de uma mitologia antiga. Desde Camões e Os Lusíadas até aos sonhos do Quinto Império e a Mensagem, fomos construindo uma narrativa coletiva que nos ensinou a olhar para o passado como um lugar de grandeza e perda. Pelo meio, Teixeira de Pascoaes elevou a saudade a uma metafísica nacional. Acabámos por chamar saudade a muitas coisas e por viver, não raras vezes, nostálgicos de uma idade de ouro que talvez nunca tenha existido da forma como a imaginamos.

​Talvez a saudade faça parte da alma portuguesa, mas não apenas como uma característica espontânea ou inevitável. Há nela uma dimensão cultural, uma ideia trabalhada ao longo dos séculos que acabámos por transformar num dos nossos maiores símbolos. Como todos os símbolos, ilumina-nos e limita-nos.

​Porque não existe um só Portugal; existem muitos Portugais. Uns reconhecem-se no fado, outros nas cantigas populares; uns vivem voltados para o mar, outros para os montes e os rios do interior. No meu Norte, por exemplo, nunca encontrei a tristeza resignada que tantas vezes associamos à imagem tradicional do país. Há uma alegria teimosa, uma recusa em fazer da melancolia uma identidade. E talvez seja precisamente essa diversidade que melhor nos define.

​Nunca fomos apenas um país de ensaístas ou de teóricos; fomos, acima de tudo, um país de poetas. A nossa memória coletiva foi sendo escrita por quem soube transformar ideias em imagens, pensamento em metáfora, história em canto. Há nisso uma riqueza que continua a distinguir-nos, mas que hoje enfrenta novos perigos.

​É por isso que me preocupa a forma como tantas vezes tratamos a língua portuguesa neste novo século. Empobrecemo-la quando a reduzimos ao imediatismo das redes, quando dispensamos o rigor em nome da pressa, quando esquecemos a beleza das palavras moldadas pelo tempo. Uma língua não vive apenas dos dicionários ou das regras gramaticais: vive da atenção que lhe dedicamos, da imaginação que nela depositamos e do cuidado com que a transmitimos às novas gerações.

​Haverá sempre lugar para cantar Portugal enquanto Portugal souber dizer as palavras que o cantam. A língua é, talvez, o mais duradouro dos nossos patrimónios. E seria uma ironia amarga que, um dia, tivéssemos saudades do português que deixámos perder por falta de cuidado.

​Se o sol se põe, que ao menos não nos falte o luar.

2026-06-09

Beirute

 



Lembro-me de, há muitos anos, os Trovante cantarem que "em Beirute, nem o sol nasce", numa letra que começava com "quem recordará como foi?"... E a canção ainda me baila por dentro. Nem lembro já a letra inteira, nem sei onde pára o velhinho vinil que a guardava, mas ficou-me esta ideia de que nem o sol pode nascer em Beirute, ou que, mal rompa a alvorada, já ninguém recorda como é — e tudo volta a ser o que cedo foi esquecido.

A Beirute já não é a mesma. Mas a condição de "Beirute" reaparece incessantemente. E eu nem me lembrava já da cidade, não fosse Beirute continuar, depois destes anos todos, a não ver nascer o sol.

Quem recordará como é, já que tão depressa se esqueceu como foi?


2026-06-08

Mentally Hilarious II (ou: os filhos do espetáculo)


Há uma lógica nisto tudo.  
A geração que compra a t-shirt não a inventou do nada. Cresceu a ver os adultos à sua volta sobreviver entre o desespero e o humor. Aprendeu que a vida era um teatro do absurdo e que o melhor era rir para não chorar. Só que esses adultos não tinham público. Tinham, quando muito, um blogue e meia dúzia de leitores que assinalavam com a cabeça.

Os filhos herdaram o espetáculo. Não herdaram a ironia.  

Ou melhor: herdaram-lhe a forma, mas não a função.

A dissociação que os pais carregavam em privado, como mecanismo de sobrevivência que não pedia licença, tornou-se conteúdo. A capacidade de rir do próprio colapso, que custou anos a afinar, virou aesthetic. E o desespero — esse velho conhecido de quem cresceu a assistir às promessas falhadas do futuro — transformou-se em lifestyle com merch em algodão orgânico.

Não é cinismo. É a resposta lógica de quem cresceu a ver os adultos fingir que tudo estava bem enquanto o mundo desmoronava, e decidiu que não ia fazer o mesmo. Em vez de inventar uma linguagem própria para o dizer, encontrou um algoritmo. E o algoritmo não premeia o meio-tom. Premeia o engagement.

A ironia deixou de ser ferramenta para suportar o absurdo. Passou a ser forma de o comunicar. E, como acontece com tudo o que circula bem, acabou também mercadoria.

O problema é que o sistema aprendeu a monetizar até a recusa. A apatia virou trend. A exaustão virou identidade. O desencanto virou reel. E a t-shirt que diz mentally hilarious é, no fundo, o certificado de autenticidade de uma experiência que já existia antes de ter nome, estética ou hashtag.

A ironia suprema é esta: os pais riam do absurdo para continuar a funcionar. Os filhos exibem-no para explicar por que não querem funcionar da mesma maneira.

Talvez tenham razão.

Mas o capitalismo, esse, continua a cobrar à saída.

O sofá é confortável. O Wi-Fi, por enquanto, funciona. E o arquivo — esse — não tem algoritmo.

2026-06-07

Mentally Hilarious (ou: eu já cá estava)

Há agora uma t-shirt. Provavelmente há também um Pinterest board, um canal de YouTube e uma marca de roupa em algodão orgânico que vende a ideia de que andar mentalmente algures entre o absurdo e o colapso é, afinal, um estilo de vida. Chama-se Mentally Hilarious e é, segundo os seus arautos digitais, uma forma positiva de encarar os pensamentos intrusivos, a dissociação ligeira e o facto de se estar fisicamente presente mas mentalmente a fazer compras noutro planeta.

Bem-vindos. Eu já cá estava.
Não com t-shirt. Com blogue.
Desde meados de 2004 — quando os millennials ainda andavam a tentar perceber se deviam ter filhos ou comprar casa, e acabaram por não fazer nem uma coisa nem outra a tempo — que a Hipatia mapeia este território com a precisão de quem não precisa de legenda para explicar o conceito. Até já escrevi sobre um certo gajedo de trinta e muitos, quarenta e poucos, reunido ao almoço das quintas com ar altivo e condescendente e um aspecto de banho de loja e perfumaria, mesmo que a loja seja a feira e o perfume de amostra. Escrevia sobre o desespero com sorriso em contramão. Sobre a solidão estampada na cara de quem apregoa uma suposta e falsa confiança. Sobre os mecanismos que precisam de ser devidamente oleados, com ou sem intervenção mecânica.

Se isso não é mentally hilarious, não sei o que é.

A diferença — e há uma diferença que importa — é que a trend precisa de explicar o que é. Precisa de empacotar, de dar nome, de pôr numa camisola para que as pessoas reconheçam a experiência que já tinham mas não sabiam nomear. O que é, em si, perfeitamente humano e até simpático. Não tenho nada contra o algodão orgânico.

Mas há qualquer coisa ligeiramente cómica — e portanto muito adequada ao tema — em ver chegar uma estética inteira construída à volta do humor como escudo, da observação como sobrevivência, do absurdo como linguagem materna, quando isso aqui já era mobília velha. Não mobília vintage, que essa já tem mercado. Mobília velha mesmo. A que fica porque é boa e porque ninguém se lembrou de a vender.

A Mentally Hilarious é a versão democratizada e consumível de algo que algumas pessoas sempre fizeram por necessidade, sem manual e sem merch. Não por serem mais inteligentes ou mais sofisticadas. Apenas porque não havia outra forma de continuar a aparecer ao almoço das quintas com ar de que tudo estava bem, quando claramente não estava, e achar piada ao espectáculo todo na mesma.

Isso não se aprende num Pinterest board.

Aprende-se ao fim de anos a olhar para o mundo com aquela expressão específica — nem cínica nem ingénua, qualquer coisa no meio — e a decidir que o que se vê é demasiado absurdo para não ser anotado.

A t-shirt posso emprestar. O arquivo não.

2026-06-06

A melancolia como serviço mínimo


Há quem trate a melancolia como doença. Eu trato-a como mobília.  

Está sempre ali, encostada ao canto, sem cobrar renda, mas a dar ao espaço aquele ar de quem já viveu.  

Não é tristeza — a tristeza tem pressa, quer atenção, manda mensagens às 3 da manhã.  

A melancolia é mais discreta. Senta-se contigo ao fim do dia, partilha o silêncio e não pede nada em troca. Às vezes desconfio que é ela quem paga as contas da luz.  

Mas se a confundes com depressão e vais ao médico porque gostas de chuva, o problema não é a melancolia. É a literalidade. E essa, ao que consta, continua sem cura.

Insuportável


Disseram-me que era chata. Considerei a hipótese. Decidi escalar.

"Insuportável" tem uma sonoridade que me agrada. É o tipo de palavra que as pessoas usam quando já não conseguem controlar aquilo que nomeiam.

Não vou pedir licença para existir. Nunca percebi bem para que serve essa licença — quem a emite, quem a renova, o que acontece quando expira.

O meu cabelo vai à frente. Eu vou a seguir. O resto é paisagem.

2026-06-05

Da data


Hoje é o Dia Mundial do Ambiente. Todos partilham a imagem do globo de cristal poisado na relva. Todos escrevem que o planeta precisa de nós. Ninguém desliga o ar condicionado.

Existe uma distância curiosa entre o que se proclama e o que se pratica — e essa distância tem o tamanho exacto de uma consciência tranquila. Celebramos o planeta como se ele fosse um aniversariante: uma vela, um post, e o assunto encerrado por mais um ano.

A Terra não precisa das nossas homenagens. Precisa do nosso silêncio. E da nossa ausência, se possível.

2026-06-04

Herdeiros de quem?


Os meus antepassados saíram para o desconhecido numa caixa de fósforos. Levavam uma esfera armilar, um astrolábio, a convicção de que a terra não acabava ali e a desfaçatez suficiente para testar a hipótese. Foram. Voltaram. À boleia da Volta do Mar, o que não é pouca coisa num tempo em que o horizonte era uma teoria por confirmar.

Eu, herdeira legítima desse património genético e cultural, há dias em que preciso de GPS para chegar ao supermercado que fica a quatrocentos metros de casa.

Não é uma confissão. É um dado.

A questão que se levanta — e que me recuso a deixar cair — não é técnica nem nostálgica. É mais inquietante do que isso: com o acesso sem precedentes ao conhecimento, ao mapa, à informação disponível a qualquer hora em qualquer bolso, estamos a ficar mais estúpidos ou apenas mais preguiçosos? E existe, ainda, alguma diferença entre as duas coisas?

O desenrascanço — essa virtude nacional elevada a traço de carácter, quase a argumento identitário — terá sobrevivido à era em que já não é preciso desenrascar nada porque a aplicação desenrasca por nós? Ou era o desenrascanço precisamente isso: a inteligência que nasce da escassez, o engenho que só existe quando não há alternativa?

Pergunto porque a resposta me desconforta.

Há qualquer coisa de perverso na abundância do acesso. Nunca soubemos tanto. Nunca tivemos tanto à mão. E no entanto a sensação persistente — pelo menos para quem olha — é a de que algo foi trocado por outra coisa sem aviso prévio e sem cláusula de rescisão. Trocámos a capacidade de nos orientarmos pela disponibilidade de sermos orientados. Trocámos a memória pelo arquivo. Trocámos o raciocínio pela pesquisa. São trocas racionais. São trocas eficientes. São, muito possivelmente, trocas irreversíveis.

Os meus antepassados não tinham GPS. Tinham que saber onde estavam.

Eu sei onde estou. O telemóvel diz-me.

Mas suspeito que confiar não é o mesmo que saber. 

E a minha Volta do Mar só funciona enquanto dura a bateria.

2026-06-03

Buffet Livre


Educação pública, bibliotecas, motores de busca, conhecimento à discrição. Nunca tanta gente teve tanto acesso a tanto. O problema deste buffet é que podes escolher a alta cozinha ou enfiar os dedos na maionese.

Nem todos soubemos o que fazer com o prato cheio.

Há qualquer coisa de profundamente perturbador em ver pessoas da minha idade — que partilharam as mesmas salas de aula e os mesmos privilégios — a engolirem a primeira patranha que apanham no feed, sem mastigar, sem questionar. Como se a escola lhes tivesse passado ao lado sem deixar o vício da dúvida. Como se o acesso ao conhecimento não trouxesse o dever de o usar.

Vivemos na era em que o próprio telefone avisa. Literalmente. Possível fraude, diz o ecrã, em letras que não precisam de ser decifradas. E ainda assim há quem atenda, ouça até ao fim e entregue os dados bancários a uma voz gravada com sotaque de call center.

O ecrã avisa.
A dúvida devia avisar também.
Mas essa não vem instalada de fábrica.

2026-06-02

Boato


Chegou junho, o mês dos santos populares, das sardinhas e… da minha manta de pelo sintético. Pelos vistos, o São Pedro confundiu o verão com uma vaga polar e decidiu brindar-nos com um inverno fora de época.

O meu joelho, esse meteorologista infalível, já andava há dias a avisar. Hoje, porém, tenho aviso amarelo em todos os ossos. Cada vértebra prevê aguaceiros e cada articulação jura que vai nevar na eira.

A este ritmo, passo o São João agarrada à botija de água quente e a chamar "verão" a um boato.

Crédito mal parado

Fui muitas coisas na vida. Subestimada foi sempre a mais rentável.

___

Há uma suspeita que recai sobre quem ri de si próprio. Como se a gargalhada fosse uma confissão: leveza a mais, profundidade a menos. Como se só os bobos da corte se permitissem o luxo de ser ridículos.

Conheço essa suspeita. É feita da mesma matéria que o paternalismo.  

O que essa gente ignora é que o bobo da corte era o único a quem deixavam dizer a verdade. Que a máscara resulta precisamente porque ninguém a vê como máscara. Que há uma vantagem considerável em ser constantemente subestimado.

Aceito esse crédito com todo o prazer. Por vezes até o cultivo.

A surpresa deles, quando chega, é genuína. A minha, não.

O preconceito alheio é o lado para que durmo melhor.

2026-06-01

A sombra do pastor



Disseram-lhe para ter medo do lobo. Ela obedeceu. Toda a vida a olhar para a floresta, a tremer ao menor ruído, a agradecer a cerca, o cajado, a mão que lhe dava de comer.

Nunca percebeu que a cerca era para ela não sair. Que o cajado servia para a dirigir. Que a mão que alimenta também é a que degola.

O lobo, pelo menos, é honesto quanto às suas intenções.

O pastor sorri.

2026-05-31

Silêncio operacional


Nunca fui de cliques nem de claques. A minha agenda tem espaço para respirar — deliberadamente, sem culpa, e com algum esforço para não ceder às pressões do tens de sair mais, tens de socializar, não podes ficar em casa outra vez.

Posso, sim.

Estar sozinha e estar só nunca foram a mesma coisa no meu dicionário. Uma é escolha; a outra é circunstância. Confundem-se muito, lá fora — especialmente por quem não consegue estar cinco minutos sem companhia e acha que isso é virtude.

O problema não é a festa. É o botão.

Há dias em que o ligo com prazer, entro na corrente, faço parte do ruído. Tem apenas a ver com quando, quanto e onde estou disposta a fazê-lo. Nem sempre me apetece estar no meio das ondas; muitas vezes basta-me sentir a corrente.

Mas há cada vez mais dias em que o simples pensamento de ter de ser simpática, presente e ligada me cansa antes de sair de casa. Nesses dias, o melhor de mim fica no sofá.

Não sei se isto é introversão, sabedoria ou apenas uma capacidade cada vez menor para fingir entusiasmo quando ele não existe. O que sei é que o off deixou de ser fuga e passou a ser higiene.

E que há poluição sonora que não precisa de decibéis.

2026-05-30

Maio, mês de Maria


Último fim de semana de maio. Em Portugal, isso significa algo que vai além do calendário.

​Maio é o mês de Maria. Nas igrejas, nos nichos das esquinas, nas salas de jantar onde a televisão coexiste pacificamente com um terço pendurado na parede — a Virgem preside. É uma devoção que não precisa de explicação para quem cresceu aqui. É anterior à pergunta.

​Portugal tem com a Virgem uma relação que os manuais de história religiosa dificilmente esgotam. Não é apenas fé; é identidade, é política, é memória do corpo.

​A aliança começou cedo. D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique, teria feito um voto a Santa Maria. O país nascia sob proteção — ou assim quis a lenda, que é sempre mais verdadeira do que os factos quando se trata de fundar nações. Desde então, a Virgem e Portugal partilham um destino que resistiu a séculos de guerras, pestes e terramotos.

​Em 1917, esse destino ganhou morada: a Cova da Iria. Fátima transformou um país rural, pobre e politicamente convulso num centro de peregrinação mundial, dando à devoção mariana uma dimensão geopolítica que o Estado Novo soube ler com frieza. O apelo à consagração da Rússia e a ideia de Portugal como povo eleito encaixaram demasiado bem no imaginário do regime para ser coincidência. A Virgem não pediu para ser instrumentalizada. Nenhuma divindade pede.

Mas há algo anterior à teologia oficial. Algo que os santuários guardam nas pedras e nas fontes.

O culto mariano absorveu, ao longo dos séculos, elementos muito mais antigos: a Grande Mãe, os lugares de poder telúrico, as árvores sagradas. Muitos dos santuários mais venerados estão onde já se rezava antes de haver cristãos. Peneda, Lapa, Cabo — a geografia do país é uma constelação de pontos onde o sagrado teima em pousar, independentemente do nome que lhe demos.

​É aí que a devoção se torna mais honesta. É um catolicismo do corpo e da memória, não da crença articulada. Crê-se com os pés descalços no asfalto quente, não com a cabeça.

​E não se pode falar deste culto sem falar das mulheres que o sustentam. São as avós, as mães e as filhas que guardam esta devoção — e a mantêm viva. A Virgem é o polo de uma religiosidade afetiva que o catolicismo oficial, tão sistematicamente masculino, nunca controlou por completo. Há algo de autónomo, quase subversivo, nessa fidelidade. As mulheres rezam à Virgem de formas que o Vaticano não aprovou e, provavelmente, não compreende.

​Portugal secularizou-se rapidamente. A missa esvaziou-se, o clero envelheceu. E, no entanto, Fátima continua a mobilizar multidões. As velas continuam a arder. É como se a Virgem sobrevivesse à própria Igreja que a enquadra — como se a devoção tivesse raízes mais fundas do que qualquer instituição consegue alcançar.

​Não é a primeira vez na história do culto. Provavelmente, não será a última.

2026-05-29

A Distância de Segurança


Há qualquer coisa de comovente nos adeptos que chegam aos estádios embrulhados nas bandeiras dos seus países. A convicção com que carregam aquele pano às costas, como se a fé — suficientemente ruidosa — pudesse dobrar o resultado. Admiramos isso. Achamos bonito. Que paixão, dizemos, com aquele sorriso levemente condescendente de quem aprecia uma crença que não partilha.

Porque nós não fazemos isso. Não assim.

Portugal entra neste Mundial com o currículo mais sólido que alguma vez levou para uma competição destas. As análises chegam de todo o lado, os especialistas alinham argumentos, as probabilidades não nos desaforam. Nunca fomos tão temidos. Nunca fomos tão observados com o respeito cauteloso reservado aos favoritos. O mundo olha e vê um candidato. Nós olhamos e vemos — o quê, exatamente?

Vemos a hipótese. Admitimo-la, claro. Mas quase de mansinho, como quem menciona uma herança improvável de um tio distante. Pode ser, dizemos. Quem sabe. E já há quem vá pedindo desculpa por termos bons jogadores, como se a excelência fosse uma indelicadeza que precisasse de ser suavizada.

Não é modéstia. A modéstia tem uma certa elegância tranquila. Isto é outra coisa: uma desconfiança antiga do que é nosso, o reflexo de quem aprendeu que esperança própria é soberba, e soberba é anúncio de queda. Deixamos a convicção para os outros porque assim, se correr mal, não fomos nós que acreditámos.

Reconheço o mecanismo. Não sou imune.

Há algo de muito português — ou talvez apenas muito nosso — nesta forma de gostar das coisas à distância de segurança: admirar o otimismo dos outros com a generosidade que recusamos ao nosso, achar a esperança alheia corajosa e a própria excessiva. A galinha do vizinho é sempre mais gorda. Mas a nossa versão do provérbio é mais perversa: a galinha do nosso próprio quintal há de parecer sempre a mais mirrada, mesmo quando toda a gente de fora insiste no contrário.

Talvez ganhem. Talvez não. Isso, por agora, é irrelevante.

O que me ocupa é esta estranha incapacidade de habitar a esperança sem nos desculparmos por ela. Como se acreditar fosse um risco que os outros podem correr — e nós não.

2026-05-28

Gizo-me


Começo num traço. Num ponto. Dois pontos. Mais um traço, sai sorriso; ou nem isso. Gizo-me de novo. Mais uns traços, uns pontos. A preto e branco, ou colorido. Verde azulado talvez. Fundo cor de noite. Mais dois pontos, traço, ponto e vírgula, pisco. Pisco-me. Um olho. Outro olho. Mais um traço, outro sorriso. Pontuo-me. Quase eu, em pequenos traços e pontos. Quase eu hoje. Quase em  Morse:

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2026-05-27

As rosas do Atacama


Conta Sepúlveda em As Rosas de Atacama que deu com uma inscrição anónima gravada numa laje de Bergen-Belsen: "eu estive aqui e ninguém contará a minha história". Foi essa frase que o levou a escrever um belíssimo conjunto de contos sobre as vidas breves que não serão nunca descritas nos compêndios da História, mas que nem por isso são menos importantes.

​Chamou a esse livro Historias Marginales, nome que para mim faz mais sentido do que a sua versão portuguesa, por mais bela que seja a imagem de um deserto coberto de flores. Afinal, o livro vive das margens e do esquecimento. Vive de figuras que tiveram o seu quinhão de venturas e desgraças e que, no entanto, são demasiado parecidas com todos nós: anónimas, a mais das vezes capazes de fugir e de se esconder, mas levadas pela própria cobardia a actos de coragem que fazem, nem que seja numa única vida, a diferença.

​Sepúlveda pegou nessas vidas e perpetuou-as. Para que alguém pudesse contar a sua história; porque alguém a contou. E fica assim a palavra escrita contra a poeira da memória, contra a brevidade das recordações.

​De alguma forma, todos somos histórias marginais na memória de alguém. Talvez um dia alguém conte também uma das nossas e mais uma rosa pintará de cor o deserto do esquecimento.

2026-05-26

Leveza


Há um momento exacto em que o Verão chega de verdade. Não é quando o termómetro passa os trinta graus, não é quando o mar atinge temperatura de banheira. É quando se abre o armário e se percebe que aquele casaco de lã que ficou pendurado ali desde Novembro está, pela primeira vez em meses, completamente desnecessário.

É um momento de alegria quase filosófica.

A roupa de Verão é uma das poucas áreas da existência humana em que menos é genuinamente mais. Um vestido largo — aqueles que são, em rigor, uma peça de tecido com um buraco para a cabeça e a convicção de que o resto se resolve — é a resposta correcta para quase todas as perguntas difíceis do dia. O que visto? Um vestido largo. Para onde vou? Não importa, o vestido vem. Estou triste? O vestido ondula ao vento e é difícil manter a tristeza enquanto se ondula.

Existe também uma dignidade particular em andar com os pés de fora.

Não estou a falar de sandálias elaboradas com tiras que sobem pelo tornozelo em espiral e demoram vinte minutos a apertar — essas são apenas sapatos com mais ambições e menos utilidade. Falo da sandália básica, a que se calça num segundo, a que permite que os pés respirem, sintam o chão, recordem ao corpo que existe uma terra firme ali em baixo e que não é preciso ter pressa. Os pés libertos andam diferente. Mais devagar, talvez. Com mais atenção.

O Inverno obriga-nos a carregar camadas. Camisolas sobre t-shirts, casacos sobre camisolas, cachecóis sobre casacos — tornamo-nos bonecas russas de nós próprios, embrulhadas em tecidos que vão acumulando os dias. O Verão faz o contrário: vai retirando. E há qualquer coisa de ligeiramente libertadora nisso, a ideia de que se pode sair à rua com a mínima quantidade de roupa socialmente aceitável e sentir que não falta nada.

Que, afinal, a leveza não é uma ausência.

É uma escolha.

2026-05-24

O Verão de São Calcanhar


Nem toda a gente nasceu com pés bonitos. A genética é uma lotaria e ninguém está aqui para exigir pezinhos de anúncio de creme hidratante. Agora… há limites para a convivência em sociedade.

Porque uma coisa é ter pés normais. Outra é andar por aí com dois bacalhaus ressequidos e calcanhares capazes de riscar tijoleira — e mesmo assim escolher sandálias abertas, com orgulho. Como quem acha que o mundo precisava daquela informação visual.

Há pessoas que olham para um par de havaianas e pensam: “frescura de verão”. Outras deviam olhar e pensar: “isto não é para mim”.

Nem é uma questão de beleza. É manutenção básica. Hidratar. Aparar. Lixar. Fazer as pazes com a dignidade humana.

Liberdade individual não inclui transformar pés em estado pós-apocalíptico numa declaração sazonal. Mas há sempre alguém que entra em junho como se os pés fossem património público. E há ali uma confiança que eu admiro.

Injustificada, mas admiro.

2026-05-23

O Peso das Crianças


Há amores que precisam de fazer arrumação antes de começar.

Este começou em França e foi deixando pelo caminho o que não cabia na bagagem. Primeiro o rapaz de dezasseis anos — idade suficiente para sobreviver, insuficiente para perceber que estava a ser descartado. Depois a viagem até Portugal, que não foi uma fuga nem uma aventura romântica, por mais que eles a tenham narrado assim a si próprios. Foi uma logística. Uma resolução de problema.

O problema chamava-se três anos. O problema chamava-se cinco anos. O problema tinha olhos.

Alcácer do Sal tem pinheiros e silêncio. Têm isso em comum com muitos lugares onde se enterram coisas. Deixaram as crianças vendadas — pormenor que merece ser lido devagar, porque a venda não serve a criança, serve quem abandona. Não quero que me vejam partir. Não quero carregar essa imagem. O conforto, até ao fim, era deles.

O pai biológico existia. Esta informação é importante. Não havia ausência de alternativa, havia recusa de alternativa. Entregar as crianças ao pai teria deixado rasto, implicado explicação, exigido um mínimo de confronto com o que estavam a fazer. A mata não pede nada. A mata não tem número de telefone.

Quando foram interceptados, tinham um plano: fingir deficiência mental. Combinaram-no friamente, entre si, com a segurança de quem não considera a hipótese de falhar — e com o desprezo de quem não considera a hipótese de em Portugal haver alguém que entende francês. O mundo, na sua cosmologia, era pequeno e estava do lado deles.

Não estava.

Há uma palavra para o que fizeram às crianças. Há outra para o que fizeram ao rapaz de dezasseis anos. Há uma terceira para o plano combinado em voz baixa, para a venda nos olhos, para a mata escolhida, para o pai ignorado.

Nenhuma dessas palavras é amor. Nenhuma é sequer o seu contrário.

É outra coisa. É a convicção, tranquila e organizada, de que os filhos são peso — e de que o peso se larga quando se quer começar a correr.

Afonia

"Em nome dos que sonham com palavras

De amor e paz que nunca foram ditas"


José Carlos Ary dos Santos - Kyrie

Há uma afonia que não é falta de voz física. É o sufoco da alma: um universo inteiro para gritar, mas que esbarra no silêncio do mundo ou na hipocrisia das palavras que não dizem nada.

É o nó na garganta de quem se recusa a viver em tons de cinza, ou a aceitar o amor de plástico de quem nunca ardeu. A sede do visceral. A prece por quem carrega as palavras mais lindas do mundo dentro de si — e as sufoca, por medo ou por desterro.

Para que as palavras deixem de ser preto e branco, é preciso aceitar que proferi-las tem um custo. Não o custo da métrica ou da forma — o custo de quem ouve e reconhece que algo mudou.

A voz sem filtro não é descuido.
É uma declaração.

Recusar o revestimento da linguagem polida.

Recusar o amor que não arde, a paz que não custou nada.

Isso é um ato político — mesmo que só uma pessoa o ouça.

Que a tua voz morda.
Que queime.
Que incendeie o silêncio.

Um vulcão no peito não serve para sussurrar.

Banalidades




Olho o blogue na sua extensão e permanência.

Espremendo, sobram demasiados acessórios para encher a página: letras esparramadas à pressa e logo esquecidas, músicas que naquele momento faziam sentido e hoje talvez não, imagens que já nem sei porquê.
E alguns textos que ainda sinto, destes tantos anos de voz em fuga — os mais pessoais, os mais íntimos, os mais estranhamente a nu.

Isto é só um blogue. Desde o início assumi que seria sobre banalidades, as minhas banalidades no seu sentido etimológico mais profundo: o do ban, a circunscrição feudal.

Estou confortável com o meu ban — este pequeno feudo feito de tudo o que realmente faz parte do meu mundo e do que nesse mundo é importante para mim. Até mesmo quando ando demasiado perdida de mim e das fronteiras e linhas com que me coso, enquanto a vida vai continuando a descosturar.