Estou no Egito. Já pus a Esfinge a fumar, andei atrás de vacas, tenho os pés moídos e saudades do meu rendalho. É o que há de novo.
Viajo com amigas vegetarianas — o que, no Egito, equivale a uma declaração de guerra silenciosa contra a ementa. Hoje ao jantar, dei por mim a negociar e com uma paciência diplomática que desconhecia. Senti que, a qualquer momento, alguém ia chamar as Nações Unidas.
O prato padrão das miúdas tem sido batata frita com batata cozida, arroz, três ou quatro grãos de milho e, quando a cozinha se sente particularmente generosa, um cogumelo. Um. Por prato. Com a solenidade de quem está a gerir um recurso escasso à escala global.
Hoje consegui omeletes. Vitória. Não dá para medalha, mas aceito a menção honrosa.
Elas analisam ingredientes. Eu como. Não por princípio — por sobrevivência emocional. E também por gratidão. Alguém tem de honrar o buffet. E começo, claro, pela proteína.
À noite, quando o grupo está saciado e os pés se recusam a continuar, penso no rendalho que ficou em casa. Há qualquer coisa de meditativo no croché que o Egito não consegue substituir — e o Egito tem templos com quatro mil anos. O rendalho ganha. Sempre. É a minha Esfinge particular: quieta, paciente, à espera.
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