No dia 25 de Abril de 1974, morreu em Portugal o Medo de Falar. Tinha 48 anos. A família agradeceu a quem o acompanhou à última morada no dia 1.º de Maio. Tratou a Funerária M.F.A.
O enterro correu bem. Houve flores, punhos erguidos, muita gente na rua. O problema, como sempre, é o que acontece depois dos enterros: a família fica, os credores aparecem e há sempre alguém que jura ter visto o defunto a mexer-se.
Cinquenta e dois anos depois, o 1.º de Maio é feriado — o que significa, dependendo do ano e do calendário, uma oportunidade de fazer uma ponte, engarrafar a A1 em sentido contrário e postar fotografias de brunch. Os discursos existem, como existem sempre: palavras que soam a reivindicação mas chegam já domesticadas, sem unhas, sem dentes, com o volume calibrado para não incomodar ninguém de importância. A luta continua, diz-se. Continua onde, exactamente, não se especifica.
Entretanto, lá fora, o mundo trabalha. Nos armazéns, nas plataformas, nos contratos de prestação de serviços que são vínculos laborais com outro nome e menos direitos. A precariedade não usa farda — usa aplicação, usa algoritmo, usa a linguagem da liberdade para descrever a servidão. És o teu próprio patrão. O defunto, ao que parece, tem primos.
Mas hoje é também o dia das maias.
A tradição manda pôr ramos de flores silvestres à porta — giesta, espinheiro, erva-benta — para afastar as pragas do Verão que se aproxima. O carrapato, em particular: pequeno, paciente, invisível até estar já enterrado na pele, a sugar com uma dedicação que envergonharia muitos profissionais. A sabedoria popular identificou-o há séculos como inimigo a manter do lado de fora.
A sabedoria popular sabia o que fazia.
Ponham maias à porta. A todas as portas.
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